Medo e Delírio em Las Vegas

Hunter S. Thompson · Capítulo 7 de 26

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Medo e Delírio em Las Vegas

7. Terror paranoide... e o terrível espectro da sodomia... Visões de facas e água verde

7. Terror paranoide... e o terrível espectro da sodomia...

Visões de facas e água verde

 

Quando chegamos ao Mint, deixei o carro na rua, em frente ao cassino, virando a esquina depois do estacionamento. Não podíamos correr o risco de provocar alguma situação constrangedora no saguão, pensei. Nenhum de nós conseguiria se passar por bêbado. Ambos estávamos muito tensos. Vibrações ameaçadoras nos cercavam. Cruzamos o cassino às pressas e subimos pela escada rolante dos fundos.

Chegamos ao quarto sem topar com ninguém – mas a chave não abria a porta. Meu advogado se desesperou. “Esses desgraçados trocaram a fechadura”, gemeu. “Devem ter revistado o quarto. Jesus, é o nosso fim.”

De repente a porta se abriu. Hesitamos um pouco, mas logo corremos para dentro. Nenhum sinal de confusão. “Feche tudo”, pediu meu advogado. “Use todas as trancas.” Estava encarando as duas chaves do hotel Mint em sua mão. “De onde saiu essa aqui?”, perguntou, mostrando uma chave com o número 1.221.

“É o quarto do Lacerda”, informei.

Ele sorriu. “Ah, é mesmo. Achei que podíamos precisar dela.”

“Pra quê?”

“Vamos subir até lá e usar a mangueira de incêndio pra arrancar o infeliz da cama”, propôs.

“Não”, respondi. “Vamos deixar o coitado em paz. Acho que ele tem algum motivo pra andar evitando a gente.”

“Não se faça de bobo”, ele insistiu. “Esse português filho da puta é perigoso. Tá vigiando a gente, que nem um falcão.” Estreitou os olhos. “Você fez algum trato com ele?”

“Conversei com ele pelo telefone”, contei, “quando você saiu pra lavar o carro. Ele disse que ia dormir cedo pra estar na linha de partida no raiar do sol”.

Meu advogado não estava prestando atenção. Soltou um grito angustiado e esmurrou a parede com as duas mãos. “Aquele escroto!”, berrou. “Eu sabia! Ele tá com a minha mulher!”

Dei risada. “Aquela groupie loirinha com a equipe de filmagem? Você acha que ela foi enrabada pelo Lacerda?”

“Isso... ria de mim!”, ele gritou. “Vocês branquelos são todos iguais.” Abriu outra garrafa de tequila, que começou a beber como se fosse água. Então pegou uma toranja e cortou a fruta ao meio com uma minimagnum da Gerber – uma faca de caça de aço inoxidável, com uma lâmina afiada como uma navalha.

“De onde saiu essa faca?”, perguntei.

“Serviço de quarto”, meu advogado respondeu. “Eu queria alguma coisa pra cortar as limas.”

“Que limas?”

“Ah, eles não tinham”, explicou. “Limeiras não crescem no deserto.” Cortou a toranja em quatro partes... oito... dezesseis... e então começou a picar os pedacinhos até não sobrar mais nada. “Aquele sapo desgraçado”, resmungou. “Eu sabia que precisava ter acabado com ele quando tive a chance. Agora ele tá com ela.”

Eu lembrava dessa garota. Nós tivemos um problema com ela no elevador algumas horas mais cedo: meu advogado fez papel de idiota.

“Você deve ser piloto”, ela disse. “Qual sua categoria?”

“Categoria?”, meu advogado se apressou em responder. “Mas que porra é essa?”

“Sua moto?”, ela perguntou, abrindo um sorriso. “Estamos filmando a corrida para uma série de televisão... talvez possamos usar você.”

“Me usar?”

Maria Santíssima, pensei. Lá vem. O elevador estava lotado de pessoas envolvidas com a corrida: demorava um bom tempo para ir de um andar a outro. Quando paramos no terceiro, meu advogado tremia sem parar. E ainda faltavam cinco...

“Minha moto é uma das grandonas!”, ele berrou de repente. “Uma das gigantescas, caralho!”

Dei risada, tentando resolver a situação. “A Vincent Black Shadow”, esclareci. “Estamos com a equipe da fábrica.”

Meu comentário gerou murmúrios contrariados entre os ocupantes do elevador. “Porra nenhuma”, alguém resmungou às minhas costas.

“Espera aí!”, gritou meu advogado... e então se dirigiu à garota: “Desculpa, moça, mas acho que algum cuzão ignorante neste elevador tá querendo levar um corte no meio da cara”. Enfiou a mão no bolso da jaqueta negra de material sintético e se virou para encarar as pessoas amontoadas nos fundos do elevador. “Seus branquelos veados de merda”, rosnou. “Quem tá a fim de ser retalhado?”

Fiquei prestando atenção no painel que indicava os andares. A porta se abriu no sétimo, mas ninguém se mexeu. Silêncio mortal. A porta se fechou. Chegamos ao oitavo... e a porta voltou a se abrir. Nenhum ruído no elevador lotado, nenhum movimento. Quando a porta começou a se fechar, saltei para fora e puxei o braço do meu advogado a tempo de tirá-lo do elevador. As portas se fecharam e a luz do nono andar se acendeu no painel externo.

“Rápido! Entra no quarto”, ordenei. “Esses filhos da puta vão mandar os porcos pra cima da gente!” Viramos no corredor para chegar ao quarto. Meu advogado gargalhava sem parar. “Apavorados!”, gritou. “Você viu? Ficaram apavorados. Que nem ratinhos numa gaiola!” Então, quando trancamos a porta, ele parou de rir. “Porra”, falou. “Agora é sério. Aquela garota entendeu tudo. Ela se apaixonou por mim.”

Agora, várias horas depois, ele estava convencido de que Lacerda – o tal fotógrafo – tinha se dado bem com a garota. “Vamos subir e castrar esse corno”, rosnou, sacudindo sua nova faca em rápidos movimentos circulares na frente da cabeça. “Foi você que a entregou pra ele?”

“Olha”, comecei, “é melhor afastar essa porra dessa faca pra bem longe de mim e esfriar a cabeça. Preciso estacionar o carro.” Fui recuando lentamente na direção da porta. Uma das coisas que você aprende depois de muitos anos lidando com drogados é que tudo deve ser levado a sério. Você pode dar as costas a uma pessoa, mas nunca dê as costas a uma droga – especialmente quando ela está sacudindo uma faca de caça afiada como uma navalha bem na sua cara.

“Toma uma ducha”, sugeri. “Volto em uns vinte minutos.” Saí rapidamente, trancando a porta e levando comigo a chave do quarto do Lacerda, que meu advogado tinha roubado. Coitado daquele otário, pensei enquanto descia a escada rolante. Mandaram o infeliz para cá com uma tarefa perfeitamente normal – tirar algumas fotos de motocicletas e buggies correndo pelo deserto – e agora, sem saber, ele estava metido até o pescoço num mundo muito além de sua imaginação. Ele nunca seria capaz de entender o que estava acontecendo.

E o que estávamos fazendo ali? Qual o sentido daquela viagem? Eu tinha mesmo deixado um conversível vermelho enorme na rua? Estava mesmo zanzando pelas escadas rolantes do hotel Mint totalmente drogado ou tinha vindo até Las Vegas para escrever uma matéria?

Enfiei a mão no bolso para pegar a chave do quarto; “1.850”, dizia. Pelo menos isso era real. Assim, minha tarefa imediata era cuidar do carro e voltar para o quarto... e então, se tudo desse certo, ficar sóbrio o bastante para lidar com qualquer coisa que acontecesse ao amanhecer.

Saí da escada rolante e entrei no cassino. Multidões enormes ainda cercavam as mesas de dados. Quem são essas pessoas? E esses rostos! De onde saíram? Parecem caricaturas de vendedores de carros usados de Dallas. Mas são reais. E, meu bom Jesus, eles são muitos – e gritam sem parar ao redor das mesas de jogo às quatro e meia da manhã de domingo numa cidade no meio do deserto. Ainda acreditam no Sonho Americano, nutrem a esperança de ver um Grande Ganhador surgindo de repente naquele cassino fétido de Vegas, no último minuto antes do amanhecer.

Desempenho dos sonhos na Cidade de Prata: quebrar a banca e voltar para casa podre de rico. E por que não? Parei na Roda da Fortuna e apostei um dólar em Thomas Jefferson – valendo uma nota de dois dólares, essa coisa tão rara. Como sempre, imaginava que uma aposta inofensiva, feita por instinto, poderia dar um bom início à coisa toda.

Mas não. Outros dois dólares escorrendo pelo ralo, nada mais. Filhos da puta!

Não. Calma. Aprenda a gostar de perder. O importante é cobrir essa matéria em seus próprios termos; deixe o resto para a Life ou a Look – ao menos por enquanto. Descendo a escada rolante, avistei o cara da Life enfiado na cabine do telégrafo, entoando suas palavras de sabedoria para os ouvidos de um autômato excitado, perdido num cubículo do outro lado do país. Bem assim: “AMANHECE EM LAS VEGAS – Os pilotos ainda estão dormindo, a poeira ainda não se ergueu no deserto, o prêmio de cinquenta mil dólares ainda repousa na escuridão do cofre do fabuloso hotel Mint de Del Webb, no coração cintilante da Meca dos Cassinos. Tensão extrema. E aqui está a equipe de Life (acompanhada, como sempre, por uma forte escolta policial...)”. Pausa. “Sim, telefonista, eu falei policial. E o que mais poderia ser? Ora, é um Especial da Life...”

Encontrei o Tubarão Vermelho na Fremont, bem onde eu tinha deixado. Fiz a volta e o levei até a garagem – o carro do Doutor Gonzo, mas é claro, e se alguém estiver desocupado seria ótimo ver esse carro brilhando amanhã cedo. Cera, claro – ponha na conta do quarto.

Quando voltei, meu advogado estava na banheira. Submerso em água verde – o subproduto gorduroso de sais de banho japoneses comprados na loja de presentes do hotel. Ao lado da banheira, um rádio AM/FM novinho, ligado na tomada do barbeador elétrico. Volume máximo. Era uma bobagem de uns sujeitos chamados “Three Dog Night”, falando sobre um sapo chamado Jeremiah que deseja “alegria ao mundo”.

Primeiro Lennon, agora isso, pensei. Daqui a pouco Glenn Campbell vai aparecer gritando: “Onde estão todas as flores?”.

Onde, realmente? Esta cidade não tem flores. Apenas plantas carnívoras. Baixei o volume e notei um pedaço roído de papel ao lado do rádio. Meu advogado não pareceu notar a mudança no volume. Estava perdido numa névoa de vapor esverdeado; só metade de sua cabeça estava fora d’água.

“Você mastigou isso aqui?”, perguntei, mostrando a folha.

Ele me ignorou. Mas eu sabia. Pelas seis horas seguintes, seria muito difícil entrar em contato com ele. Ele tinha mastigado a folha de ácido inteira.

“Seu escroto”, xinguei. “Espero, pro seu bem, que tenha sobrado algum Thorazine naquela sacola. Caso contrário, amanhã você estará em sérios apuros.”

“Música!”, ele rosnou. “Aumenta. Coloca aquela fita.”

“Que fita?”

“A nova. Tá bem ali.”

Peguei o rádio e percebi que era também um gravador – daqueles com toca-fitas embutido. E a fita, Surrealistic Pillow, só precisava ser virada. Ele já tinha escutado o lado A inteiro – num volume que podia ser ouvido em todos os quartos num raio de cem metros, atravessando as paredes.

“‘White Rabbit’”, ele pediu. “Quero um som crescente.”

“Você tá fodido”, ameacei. “Vou embora daqui a duas horas – e aí eles vão subir até aqui pra espancar você até a morte. Dentro da banheira.”

“Eu cavo minhas próprias sepulturas”, respondeu. “Água verde e ‘White Rabbit’... coloca a fita; não me force a usar isso aqui.” Seu braço emergiu da água, mostrando a faca de caça.

“Jesus”, murmurei. E nesse momento percebi que não havia como discutir com ele – deitado na banheira, cheio de ácido na cabeça, empunhando a faca mais afiada que eu já tinha visto, totalmente incapaz de raciocinar, exigindo ouvir “White Rabbit”. É isso, pensei. Cheguei ao meu limite com esse retardado. Dessa vez é uma viagem suicida. Dessa vez ele está pedindo. Está prontinho...

“Certo”, falei, virando a fita e apertando o play. “Mas peço um último favor. Pode me dar duas horas? É tudo que peço – quero dormir duas horinhas até amanhã. Acho que vai ser um dia bem complicado.”

“É claro”, ele respondeu. “Sou seu advogado. Dou todo tempo que você quiser, cobrando meus honorários normais: 45 dólares por hora – mas, como você vai usar os travesseiros, por que não deixa uma nota de cem dólares ao lado do rádio e cai fora daqui?”

“Aceita cheque?”, perguntei. “É do Banco Nacional de Sawtooth. Pode descontar sem levar documento. Eles me conhecem.”

“Pode ser”, falou, começando a se sacudir com a música. O banheiro parecia o interior de um woofer imenso e defeituoso. Vibrações tenebrosas, volume ensurdecedor. Piso encharcado. Coloquei o rádio o mais longe possível da banheira, saí e fechei a porta.

Em poucos segundos ele começou a gritar. “Socorro! Seu filho da puta! Preciso de ajuda!”

Corri até lá, imaginando que ele tinha decepado a própria orelha por acidente.

Mas não... estava no chão do banheiro, com os braços estendidos na direção da prateleira de fórmica branca onde eu tinha colocado o rádio. “Quero esse rádio, porra”, rosnou.

Afastei suas mãos com um tapa. “Seu imbecil!”, gritei. “Volta já pra banheira! Fica longe desse rádio, porra!” Dei outro tapa em seus braços estendidos. O volume estava tão alto que era difícil entender o que estava tocando, a menos que você soubesse de cor todas as notas de Surrealistic Pillow... na época eu sabia, e notei que “White Rabbit” havia acabado; o clímax tinha chegado e passado.

Mas não parecia ter sido o bastante para meu advogado. Ele queria mais. “Rebobina essa fita!”, gritou. “Quero tudo de novo!” Seus olhos estavam enlouquecidos, incapazes de se fixar em alguma coisa. Ele parecia à beira de um orgasmo psíquico inominável...

“Manda ver!”, berrou. “Bota o mais alto que der, caralho! E, quando chegar aquela parte incrível em que o coelho decepa a própria cabeça, quero que você atire essa merda de rádio em cima de mim, dentro da banheira.”

Olhei bem para ele, sem tirar as mãos do rádio. “De jeito nenhum”, falei após uma pausa. “Eu adoraria meter um ferrão elétrico de 440 volts nessa banheira com você dentro, mas não esse rádio. Você vai explodir e atravessar a parede – estará mortinho em dez segundos.” Dei risada. “Porra, eu teria que explicar o que aconteceu – aguentar um inquérito entediante cheio de perguntas... sim... pediriam os detalhes exatos. Não preciso disso.”

“Porra nenhuma!”, ele gritou. “Só precisa falar que eu quis ficar mais alucinado!”

Pensei por um instante. “Certo. Tem razão. Deve ser mesmo a única saída.” Peguei o rádiogravador – ainda ligado na tomada – e o segurei sobre a banheira. “Quero ter certeza de que está bem alinhado”, expliquei. “Você quer que eu atire esse negócio na banheira no clímax de ‘White Rabbit’ – é isso mesmo?”

Meu advogado voltou para a água e abriu um sorriso cheio de gratidão. “É isso aí, porra”, confirmou. “Tava começando a achar que seria obrigado a sair daqui e convencer uma das camareiras a fazer isso por mim.”

“Não se preocupe”, falei. “Está pronto?” Apertei o play e “White Rabbit” voltou a tocar. Quase na mesma hora ele começou a uivar e gemer... correndo montanha acima, imaginando que daquela vez enfim chegaria ao topo. Seus olhos estavam bem fechados. Apenas sua cabeça e seus joelhos despontavam da água verde e gordurosa.

Deixei a música tocando e remexi a pilha de toranjas maduras ao lado da pia. A maior delas pesava quase um quilo. Segurei aquela merda como se fosse uma enorme bola de beisebol – e quando “White Rabbit” chegou ao seu clímax joguei aquilo na banheira como uma bala de canhão.

Meu advogado começou a berrar enlouquecido, se revirando na banheira como um tubarão faminto, derramando água por todo o piso enquanto tentava agarrar alguma coisa.

Arranquei o radiogravador da tomada e tirei a coisa do banheiro rapidinho... continuava tocando, mas agora usava a energia inofensiva das pilhas. Ouvi as coisas se acalmarem enquanto eu cruzava o quarto para pegar meu spray de pimenta... até que meu advogado arrombou a porta do banheiro e saiu correndo. Ainda estava com um olhar perdido, mas sacudia a faca à sua frente como se estivesse determinado a fazer picadinho de alguma coisa.

“Pimenta!”, gritei. “Quer isso aqui?” Sacudi o spray bem na frente daqueles olhos turvos.

Ele parou na hora. “Filho da puta!”, gritou. “Você faria isso, não é?”

Dei risada, ainda sacudindo o spray. “Ora, não se preocupe. Você vai gostar. Porra, nada nesse mundo se compara a um barato de spray de pimenta – são 45 minutos de joelhos no chão, com ânsia de vômito e falta de ar. Você vai ficar bem calminho.”

Ele virou a cabeça na minha direção, tentando me enxergar direito. “Seu branquelo de merda, seu escroto filho duma puta”, resmungou. “Você faria isso, né?”

“E por que não?”, provoquei. “Porra, um minuto atrás você estava pedindo que eu matasse você! E agora você quer me matar! Puta merda, eu devia era chamar a polícia!”

Ele titubeou. “Polícia?”

Sacudi a cabeça. “É, não tenho escolha. Não posso me arriscar a pegar no sono com você solto por aí nesse estado – cheio de ácido na cabeça e querendo me fatiar com essa faca.”

Meu advogado revirou os olhos por um instante e tentou sorrir. “Quem falou em fatiar você?”, balbuciou. “Eu só queria desenhar um Z na sua testa – nada de mais.” Encolheu os ombros e pegou um cigarro do maço que estava em cima do televisor.

Voltei a ameaçá-lo com o spray. “Volta pra banheira”, mandei. “Toma umas vermelhas, tenta se acalmar. Fuma um pouco de maconha, injeta heroína – porra, faz qualquer coisa, mas me deixa descansar um pouco.”

Ele sorriu, como se eu tivesse dado sugestões perfeitamente razoáveis. “É mesmo, caralho”, falou, com ar sincero. “Você tem mesmo que descansar. Precisa trabalhar amanhã.” Sacudiu a cabeça com um ar triste e se virou na direção do banheiro. “Porra! Que sacanagem.” Acenou para se despedir. “Tenta descansar”, falou. “Não deixa eu atrapalhar.”

Balancei a cabeça e acompanhei seu lento trajeto de volta ao banheiro – ainda segurava a faca, mas parecia ter se esquecido dela. O ácido tinha trocado de marcha. A fase seguinte provavelmente seria um daqueles pesadelos introspectivos terrivelmente intensos. Umas quatro horas de desespero catatônico; mas nada físico, nada perigoso. Quando a porta do banheiro se fechou, travei a maçaneta usando uma cadeira pesada e coloquei o spray de pimenta ao lado do despertador.

O quarto ficou muito silencioso. Caminhei até o televisor e sintonizei um canal fora do ar – ruído neutro com o máximo de decibéis, uma ótima trilha para dormir, um chiado poderoso e contínuo para abafar qualquer esquisitice.