Medo e Delírio em Las Vegas

Hunter S. Thompson · Capítulo 25 de 26

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Medo e Delírio em Las Vegas

13. Fim da linha... Morte da Baleia... Suando em bicas no aeroporto

13. Fim da linha... Morte da Baleia... Suando em bicas

no aeroporto

 

Quando tentei me sentar à mesa de bacará, os seguranças me pegaram. “Seu lugar não é aqui”, disse um deles, em voz baixa. “Vamos sair.”

“Por quê?”, questionei.

Eles me levaram até a entrada e fizeram um sinal para que o manobrista trouxesse a Baleia. “Cadê seu amigo?”, perguntaram enquanto esperávamos.

“Que amigo?”

“Aquele latino grandalhão.”

“Olha”, comecei. “Sou um Doutor em Jornalismo. Você nunca me veria andando por aqui na companhia de um latino imundo.”

Deram risada. “Então o que é isso aqui?”, perguntaram. Era uma fotografia enorme, que mostrava eu e meu advogado sentados a uma das mesas do bar flutuante.

Dei de ombros. “Não sou eu”, falei. “É um cara chamado Thompson. Ele trabalha pra Rolling Stone... um sujeito realmente escroto, totalmente maluco. E esse cara ao lado dele é um matador de aluguel que trabalha pra Máfia em Hollywood. Porra, vocês analisaram essa fotografia? Que tipo de demente andaria por Vegas usando uma luva negra em uma só mão?”

“Nós percebemos”, disseram. “E onde ele está?”

Dei de ombros. “Ele anda bem rápido”, falei. “Recebe ordens de St. Louis.”

Os seguranças me encararam. “E como você sabe essas coisas todas?”

Mostrei meu distintivo dourado da ABP, bem rápido, de costas para a multidão. “Ajam naturalmente”, sussurrei. “Não chamem a atenção para mim.”

Continuavam parados no mesmo lugar quando me afastei dirigindo a Baleia. O carro chegou exatamente na hora certa. Dei uma nota de cinco ao manobrista e segui em frente cantando pneu.

Era o fim. Fui até o Flamingo e coloquei toda minha bagagem no carro. Tentei fechar a capota, para ter mais privacidade, mas havia algo de errado com o motor. Desde que enfiei o carro no lago Mead para fazer um teste de resistência aquática, a luz da bateria estava acesa, bem vermelha. Uma olhada rápida no painel revelou que todos os circuitos do carro estavam completamente fodidos. Nada funcionava. Nem mesmo os faróis dianteiros – e quando apertei o botão do ar-condicionado uma explosão bem feia soou debaixo do capô.

A capota estava emperrada na metade do caminho, mas resolvi tentar ir ao aeroporto mesmo assim. Se aquela banheira não andasse direito, era só abandoná-la e chamar um táxi. Que se foda essa merda fabricada em Detroit. Não deveriam permitir esse tipo de coisa.

O sol estava nascendo quando cheguei ao aeroporto. Deixei a Baleia no estacionamento da VIP. Um garoto de uns quinze anos recebeu o carro, mas me neguei a responder a suas perguntas. Parecia bem nervoso com as condições gerais do veículo. “Santo Deus!”, gritava sem parar. “Como isso aconteceu?” Ficava andando em volta do carro, apontando para vários amassados, arranhões e batidas.

“Eu sei”, falei. “Acabaram com ele. Vegas é uma cidade horrorosa pra conversíveis. O pior momento foi no meio da avenida, bem na frente do Sahara. Sabe aquela esquina onde ficam os viciados? Jesus, nem acreditei quando todos ficaram malucos ao mesmo tempo.”

O garoto não era muito esperto. Tinha ficado pálido logo no início, e agora parecia mudo de pavor.

“Não se preocupe”, eu disse. “Tenho seguro.” Mostrei o contrato, apontando as letrinhas miúdas que garantiam um seguro contra qualquer tipo de dano por apenas dois dólares ao dia.

O garoto ainda estava sacudindo a cabeça quando saí. Senti um pouco de culpa por deixá-lo sozinho com aquela coisa. Não havia como explicar toda aquela destruição. O carro estava acabado, tinha virado sucata, perda total. Em circunstâncias normais, eu teria sido preso quando tentasse entregá-lo... mas não àquela hora da manhã, quando só aquele garoto estava por lá. Afinal de contas, eu era “VIP”. De outro modo eles nem teriam me entregado esse carro...

Quem semeia vento colhe tempestade, pensei enquanto entrava às pressas no aeroporto. Como ainda era cedo demais para agir normalmente, desabei na cafeteria, escondido pelo L.A. Times. Em algum ponto do corredor, uma jukebox tocava “One Toke Over the Line”. Prestei atenção por um momento, mas minhas sinapses já não estavam tão receptivas. A única música com a qual eu ainda poderia ter alguma conexão àquela altura seria “Mister Tambourine Man”. Ou talvez “Memphis Blues Again”...

“Awww, Mama... can this really... be the end...?”

Como meu avião decolava às oito, eu ainda precisava esperar duas horas. Eu me sentia desesperadamente visível. Não tinha dúvida de que estavam à minha procura; o cerco se fechava... era apenas uma questão de tempo antes que caíssem em cima de mim como animais raivosos.

Despachei toda minha bagagem, exceto a sacola de couro, que estava cheia de drogas. E o 357. Será que eles têm aquele maldito detector de metais neste aeroporto? Caminhei até o portão de embarque e tentei agir naturalmente enquanto analisava o lugar em busca de caixas pretas. Nenhuma à vista. Resolvi correr o risco – cruzar o portão com um sorriso enorme no rosto, resmungando distraído alguma coisa sobre “um péssimo momento pro mercado de ferramentas”...

O embarque de mais um vendedor fracassado, nada mais. Tudo culpa do Nixon, aquele desgraçado. De fato. Resolvi que pareceria ainda mais espontâneo se conversasse com alguém – pura conversa fiada entre passageiros:

“Cumé que tá, parceiro? Eu tô suando que nem um condenado, né? Tô mesmo! Caramba, rapaz! Já leu os jornais hoje?... Não dá pra acreditar no que esses filhos da mãe fizeram agora!”.

Acho que seria suficiente... mas não encontrei ninguém que parecesse confiável o bastante para conversar. O aeroporto estava cheio de gente que dava a impressão de estar pronta para chutar minhas costelas se eu desse um passo em falso. Comecei a me sentir bem paranoico... como um criminoso internacional fugindo da Scotland Yard.

Para onde quer que eu olhasse, via Porcos... porque naquela manhã o aeroporto de Las Vegas estava mesmo cheio de policiais; o êxodo em massa posterior ao clímax da Conferência dos Promotores Públicos. Quando finalmente me dei conta disso, fiquei bem mais otimista quanto à minha saúde mental...

E tudo parece estar pronto.

Você está pronto?

Bem, e por que não? É um dia complicado em Vegas. Mil policiais estão deixando a cidade, correndo pelo aeroporto em trios ou grupos de seis. Estão voltando para casa. A conferência sobre drogas terminou. O saguão do aeroporto está tomado de corpos e conversas macabras. Cervejas aguadas e bloody marys. Vítimas de brotoejas passando Mexsana no peito por baixo das correias grossas dos coldres de ombro. Não é mais preciso esconder as coisas. Que tudo se revele... ou pelo menos saia para tomar um ar.

Sim, muito agradecido... Acho que estourou um botão das minhas calças. Espero que não caiam. Ninguém quer que minhas calças caiam logo agora, não é?

Não, porra. Não hoje. Não aqui, no meio do aeroporto de Las Vegas, nesta manhã suarenta de encerramento da gigantesca reunião sobre Entorpecentes e Drogas Perigosas.

“When the train... come in the station... I looked her in the eye...”[1]

Música sinistra no aeroporto.

“Yes, it’s hard to tell it’s hard to tell, when all your love’s in Vain…”[2]

De vez em quando todo mundo tem um daqueles dias em que tudo é em vão... uma série de frustrações do início ao fim; e quem sabe se cuidar fica escondido num canto seguro em dias como esse, só de olho. Talvez pensando um pouco. Recostado numa cadeira barata, distante do tráfego, abrindo preguiçosamente umas cinco ou oito Budweisers... fumando um pacote inteiro de Marlboros longos, comendo um sanduíche de manteiga de amendoim. Quando a noite enfim chegar, engolir um belo pedaço de mescalina... então, mais tarde, pegar o carro e ir até a praia. Caminhar à beira-mar, no meio da névoa, congelando os pés a uns dez metros da areia... depois passear pelo meio dos pedaços de madeira trazidos pelo mar, das aves marinhas, dos siris e outros bichos... vez ou outra enxergando ao longe pervertidos ou vagabundos com casacões de lã, andando sozinhos pelas dunas...

É o tipo de gente a quem você nunca é apresentado – se tiver um pouco de sorte. Mas a praia é um lugar bem menos arriscado que o aeroporto de Las Vegas numa manhã como aquela.

Eu me sentia muito chamativo. Psicose de anfetamina? Demência paranoide? O que seria? Minhas malas argentinas? Esse jeito de caminhar todo esquisito, que me tornou inapto para o serviço militar na Marinha?

De fato. Este homem nunca vai conseguir andar direito, Capitão! Uma perna é maior que a outra... Nem tanto. Pouco menos de um centímetro, mas eram sessenta milímetros a mais do que o Capitão estava disposto a tolerar.

Então nos separamos. Ele aceitou um posto de comando no Mar do Sul da China e eu me tornei um Doutor em Jornalismo Gonzo... e, muitos anos depois, matando tempo no aeroporto de Las Vegas naquela manhã terrível, peguei um jornal e fiquei sabendo da grande cagada do Capitão.

Comandante de navio

massacrado por nativos

após ataque “acidental”

a Guam

(AOP) – A bordo do U.S.S. Crazy Horse: Em algum lugar do Pacífico (25/9) – Hoje todos os 3.465 tripulantes desse novíssimo porta-aviões americano estão em luto fechado, depois que cinco dos seus colegas, incluindo o Capitão, foram retalhados como fatias de abacaxi num confronto com o Esquadrão de Combate à Heroína no porto neutro de Hong See. Dr. Bloor, o capelão do navio, presidiu o tenso serviço fúnebre conduzido no convés do navio ao amanhecer. O Coral da Quarta Frota cantou “Tom Thumb’s Blues”... e então, quando os sinos do navio soaram freneticamente, os restos mortais dos cinco homens foram incinerados numa tigela e lançados no Pacífico por um oficial encapuzado identificado apenas como “O Comandante”. Pouco depois do encerramento do serviço fúnebre, a tripulação começou a brigar entre si e todas as comunicações com o navio foram interrompidas por tempo indeterminado. Porta-vozes oficiais do quartel-general da Quarta Frota em Guam informaram que a Marinha não tem “nada a declarar” a respeito da situação até que se divulgue o resultado das investigações secretas conduzidas por uma equipe de especialistas civis comandada por James Garrison, ex-promotor público de New Orleans.

... Por que se dar o trabalho de ler jornais, se isso é tudo que têm a oferecer? Agnew tinha razão. A imprensa é uma gangue de covardes impiedosos. Jornalismo não é uma profissão, não é nem mesmo um ofício. É uma saída barata para vagabundos e desajustados – uma porta falsa que leva à parte dos fundos da vida, um buraquinho imundo e cheio de mijo, fechado com tábuas pelo inspetor de segurança, mas fundo o bastante para comportar um bêbado deitado que fica olhando para a calçada se masturbando como um chimpanzé numa jaula de zoológico.

 

[1] Trecho de “Love in Vain”, de Robert Johnson. Em tradução livre: “Quando o trem... chegou à estação... olhei nos olhos dela”. (N.T.)

[2] “Sim, é difícil dizer é difícil dizer, quando todo seu amor é em Vão...” (N.T.)