Medo e Delírio em Las Vegas

Hunter S. Thompson · Capítulo 20 de 26

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Medo e Delírio em Las Vegas

8. Rabinho doce... & enfim um racha de verdade na Strip

8. Rabinho doce... & enfim um racha de verdade na

Strip

 

Era quase meia-noite quando meu advogado decidiu que queria beber café. Tinha vomitado bastante enquanto rodávamos pela Strip, deixando imundo o flanco direito da Baleia. Estávamos parados num sinal vermelho na frente do Silver Slipper, ao lado de um imenso Ford azul com placa de Oklahoma... dentro do carro havia dois casais com caras de porco, provavelmente policiais de Muskogee usando a Convenção sobre Drogas como desculpa para apresentar Vegas às esposas. Pareciam ter acabado de ganhar uns 33 dólares nas mesas de vinte e um do Caesar’s Palace, e agora estavam a caminho do Circus-Circus para coroar a noite...

...mas de repente se viram ao lado de um Cadillac branco conversível todo coberto de vômito, ouvindo os berros de um samoano de 150 quilos vestido com uma camiseta amarela de arrastão:

“Ei, vocês aí! Querem comprar heroína, pessoal?”

Nenhuma resposta. Nenhum sinal de terem escutado. Haviam sido advertidos sobre esse tipo de coisa: melhor ignorar...

“Ei, branquelos!”, gritou meu advogado. “É sério, porra! Tô a fim de vender um pouco de heroína purinha pra vocês!” Estava debruçado para fora do carro, muito perto deles. Mas ainda assim ninguém respondia. Olhei de relance e enxerguei quatro rostos americanos bem comuns, paralisados de choque, olhando para a frente.

Estávamos na pista do meio. Virar à esquerda seria ilegal. Precisaríamos seguir em frente quando o sinal abrisse, para então escapar na esquina seguinte. Esperei, nervoso, martelando o acelerador com o pé...

Meu advogado estava perdendo o controle: “Heroína barata!”, berrava. “É coisa fina! Não vicia ninguém! Conheço o que tenho aqui, porra!” Esmurrava a porta do carro, tentando chamar a atenção... mas eles não queriam saber da gente.

“Nunca falaram com um veterano, pessoal?”, perguntou meu advogado. “Acabei de voltar do Viéti-Nam. Isso aqui é opiáceo, pessoal! Purinho!”

De repente o sinal abriu e o Ford arrancou como um foguete. Pisei no acelerador e emparelhei com eles por uns duzentos metros, atento a qualquer aparição da polícia no retrovisor. Meu advogado seguia berrando: “Pico! Foda! Herô! Sangue! Heroína! Estupro! Barato! Comunista! Enfia a agulha direto no olho, cacete!”.

Estávamos nos aproximando do Circus-Circus em alta velocidade.

O carro de Oklahoma pegava a esquerda, tentando forçar passagem para a pista de conversão. Troquei a marcha da Baleia e ficamos lado a lado por um instante. Ele não estava disposto a bater em mim; seus olhos estavam cheios de horror...

O homem no banco de trás tinha perdido totalmente o controle... se debruçava por cima da esposa e rosnava enlouquecido. “Seus filhos da mãe! Encostem esse carro que eu mato vocês! Vão se danar! Desgraçados!”. Alucinado de ódio, parecia disposto a pular pela janela direto para dentro do nosso carro. Para nossa sorte, o Ford só tinha duas portas. Ele não tinha como sair.

Estávamos chegando a mais um semáforo e o Ford continuava tentando pegar a esquerda. Nós dois estávamos a toda velocidade. Dei uma olhada e vi que tínhamos deixado o resto do tráfego bem para trás; havia uma grande brecha à direita. Então pisei com tudo no freio, jogando meu advogado contra o painel. No instante em que o Ford passou voando, cortei sua rabeira e avancei por uma transversal. Uma conversão brusca à direita, cortando três pistas. Mas funcionou. Deixamos o Ford no meio do cruzamento, derrapando numa tentativa de conversão à esquerda. Se tivéssemos sorte, ele acabaria preso por direção perigosa.

Meu advogado gargalhava enquanto nos lançávamos com os faróis apagados por uma teia empoeirada de travessas nos fundos do Desert Inn. “Jesus Cristo”, falou. “Aqueles caipiras estavam ficando empolgados. Aquele sujeito no banco de trás tentou me morder! Caralho, ele tava com a boca espumando!” Sacudiu a cabeça, muito sério. “Eu devia ter usado spray de pimenta naquele escroto... um psicótico criminoso, totalmente transtornado... nunca se sabe quando eles vão ter um colapso.”

Entrei com a Baleia numa curva que parecia levar para fora do labirinto – mas, em vez de derrapar, o carro quase capotou.

“Puta merda!”, berrou meu advogado. “Acende essas luzes, porra!” Estava se segurando na parte de cima do para-brisa... e de repente começou a vomitar de novo, debruçado sobre a lateral do carro.

Nem cogitei diminuir a velocidade até ter certeza de que ninguém estava nos seguindo – especialmente o Ford de Oklahoma. Não havia dúvida de que aquela gente era perigosa, ao menos até que se acalmassem. Será que dariam queixa na polícia por conta daquele encontro rápido e terrível? Provavelmente não. Tinha sido rápido demais, sem testemunhas, e no fim das contas havia uma possibilidade enorme de que ninguém acreditasse neles. Dois traficantes de heroína num Cadillac branco conversível, tirando rachas pela Strip, xingando completos desconhecidos nos semáforos? Era absurdo demais. Nem mesmo Sonny Liston tinha conseguido ficar tão descontrolado.

Fizemos outra curva e quase capotamos de novo. Um Coupe de Ville não é a máquina ideal para fazer curvas em alta velocidade em bairros residenciais. A direção é muito solta... diferente do Tubarão Vermelho, que sempre tinha respondido muito bem a situações que exigiam derrapadas súbitas. Mas a Baleia – ao invés de ceder no momento crítico – tinha uma tendência a resistir, criando uma sensação de “lá vamos nós” que dava vontade de vomitar.

No início achei que a culpa era dos pneus murchos, então levei o carro até o posto Texaco perto do Flamingo e calibrei os pneus para cinquenta libras cada – o que deixou o frentista assustado. Expliquei que eram pneus “experimentais”.

Mas, como isso não melhorou o desempenho nas curvas, voltei algumas horas mais tarde e falei que queria tentar 75. Ele sacudiu a cabeça, nervoso. “De jeito nenhum”, disse, me passando a mangueira de ar. “Toma. Os pneus são seus. Você calibra.”

“Qual o problema?”, eu quis saber. “Acha que eles não aguentam 75?”

Ele balançou a cabeça, recuando enquanto eu me abaixava para encher o pneu dianteiro da esquerda. “Pode apostar que não”, falou. “Esses pneus exigem 28 nos dianteiros e 32 nos traseiros. Ora, cinquenta é perigoso, mas 75 é loucura. Eles vão explodir!”

Sacudi a cabeça e continuei enchendo o mesmo pneu. “Esses pneus foram projetados pelos laboratórios Sandoz. São especiais. Posso calibrar até cem libras.”

“Deus Todo-Poderoso!”, ele gemeu. “Não faz uma coisas dessas aqui no posto.”

“Hoje não”, respondi. “Quero ver como ele faz as curvas com 75.”

O frentista deu uma risadinha. “O senhor não vai conseguir nem chegar até a esquina.”

“Veremos”, falei, passando para as rodas traseiras. Na verdade eu estava nervoso. Os dois pneus dianteiros estavam mais retesados que a pele de um tambor; quando dei uma batidinha, pareciam feitos de madeira de lei. Mas ah, e daí?, pensei. Qual o problema se explodirem? Não é sempre que o sujeito tem a chance de fazer experiências radicais num Cadillac virgem com quatro pneus de oitenta dólares novos em folha. Ora, de repente o bicho pode começar a fazer curvas como uma Lotus Elan. E, se isso não acontecer, tudo que eu precisava fazer era ligar para a locadora VIP e pedir outro veículo... talvez ameaçar processá-los pelos quatro pneus que explodiram enquanto eu dirigia no meio do tráfego pesado. Exigir um Eldorado com quatro pneus Xs da Michelin. E botar tudo no cartão... mandando cobrar dos Browns de St. Louis.

Mas no fim das contas a Baleia se comportou muito bem com as calibragens alteradas. O passeio foi um tanto desconfortável; eu sentia cada pedregulho da estrada, como se estivesse andando de patins sobre cascalho... mas o bicho começou a fazer curvas de um jeito cheio de estilo, lembrando uma motocicleta em velocidade máxima sob chuva forte: um deslize e ZAM!, o carro ia direto para o outro lado e o motorista só podia botar as mãos na cabeça enquanto via a paisagem girar.

Cerca de meia hora depois do nosso encontro com os caipiras, estacionamos numa lanchonete 24 horas na rodovia de Tonopah, nos arredores de um gueto miserável e cheio de viciados chamado “North Las Vegas” – que na verdade se localiza fora dos limites de Vegas. North Vegas é o seu destino se você fez merdas demais na Strip e não é bem-vindo nem nos inferninhos do centro, perto do Casino Center.

É a resposta de Nevada para East St. Louis – cortiços e um cemitério, a última parada antes do exílio permanente em Ely ou Winnemucca. North Vegas é seu destino se você é uma prostituta chegando aos quarenta que os mafiosos da Strip decidiram que não serve mais para atender os grandes apostadores... ou se você é um cafetão com dívidas no Sands... ou se é aquilo que em Vegas ainda chamam de “fumeta”. Isso pode significar qualquer coisa, de bêbado incorrigível a viciado em heroína, mas em termos de aceitação comercial quer dizer que você simplesmente já era em todos os lugares que importam.

Os grandes hotéis e cassinos não poupam esforços para garantir que os grandes apostadores não tenham problemas com pessoas “indesejáveis”. A segurança de um lugar como o Caesar’s Palace é bastante atenta e rígida. É provável que um terço dos presentes, a qualquer hora, sejam vigias disfarçados ou falsos jogadores. Se você fica bêbado em público ou é um notório batedor de carteira, recebe atendimento instantâneo – é empurrado para o estacionamento por capangas vestidos como agentes do Serviço Secreto e recebe um sermão rápido e impessoal sobre o custo de um tratamento odontológico e as dificuldades de tentar ganhar a vida com dois braços quebrados.

A “alta-roda” de Vegas talvez seja a sociedade mais fechada a oeste da Sicília – e, no que diz respeito ao estilo de vida cotidiano do lugar, não faz diferença se o Homem no Comando é Lucky Luciano ou Howard Hughes. Numa economia em que Tom Jones consegue ganhar 75 mil dólares por semana em troca de dois shows por noite no Caesar’s, uma guarda palaciana se torna indispensável – e seus integrantes não se importam com quem assina o cheque. Uma mina de ouro como Vegas, como qualquer outra, acaba gerando seu próprio exército. Mercenários não demoram a surgir em torno dos polos de dinheiro/poder... e dinheiro grosso em Vegas é sinônimo do Poder que lhe oferece proteção.

Ou seja: assim que você entra para a lista negra da Strip, por qualquer motivo, ou você deixa a cidade ou se recolhe para deixar as coisas esfriarem, trabalhando em troca de migalhas no limbo sórdido de North Vegas... em meio a bandidos armados, malandros, viciados paralíticos e outros fracassados. North Vegas, por exemplo, é seu destino se você quer comprar heroína antes da meia-noite e não tem bons contatos.

Mas, se você está atrás de cocaína, tem algumas cédulas na mão e sabe as senhas de cor, é melhor ficar pela Strip e bater um papo com uma prostituta bem relacionada. Para abrir os trabalhos, será preciso gastar pelo menos uma das cédulas.

E chega disso tudo. Não nos encaixamos no padrão. Não existe uma receita pronta para quem está em Vegas com um Cadillac branco lotado de drogas e sem nada decente para misturar com elas. Esse estilo Fillmore nunca deu muito certo por aqui. Pessoas como Sinatra e Dean Martin ainda são consideradas “muito loucas” em Vegas. O “jornal alternativo” daqui – o Free Press – é uma versão muito pacata do People’s World, ou talvez do National Guardian.

Passar uma semana em Vegas é como tropeçar numa Brecha Temporal. É como voltar ao final da década de 50. Isso é perfeitamente compreensível quando você encontra o tipo de gente que vem para cá. Esbanjadores de lugares como Denver e Dallas ao lado de convenções nacionais do Elks Club (proibida a entrada de crioulos) e encontros dos Pastores Voluntários do Oeste. Essa gente fica perplexa ao ver uma velha prostituta tirando a roupa e se exibindo pela rua ao som de um punhado de viciados de cinquenta anos mandando ver na “September Song”.

Já eram quase três horas quando paramos no estacionamento da lanchonete de North Vegas. Eu estava atrás de um exemplar do Los Angeles Times para ter notícias do mundo lá fora, mas bastou uma olhada rápida nos jornais disponíveis para transformar minha intenção numa piada de mau gosto. Ninguém precisa do Los Angeles Times em North Vegas. Ficar sem notícias é a melhor das notícias.

“Fodam-se os jornais”, disse meu advogado. “Agora precisamos é de café.”

Concordei, mas acabei roubando um exemplar do Las Vegas Sun. Era a edição do dia anterior, mas tudo bem. Eu ficava nervoso só de pensar em tomar café sem um jornal nas mãos. Sempre havia as páginas de esportes para dar uma olhada nos resultados do basquete e nos boatos do futebol americano: “Bart Starr espancado por marginais em taberna de chicago; packers querem fazer negócio”... “Namath deixa o Jets para ser governador do Alabama”... e uma reportagem na página 46 sobre um novato sensação chamado Harrison Fire, saído de Grambling: corre cem jardas em nove segundos cravados, pesa 156 quilos e ainda não parou de crescer.

“Esse Fire promete, com certeza”, afirma o treinador. “Ontem, antes do treino, ele destruiu um ônibus Greyhound com as mãos. Noite passada, ele acabou com um trem do metrô. Fica muito bem na tevê a cores. Não sou de escolher favoritos, mas tudo indica que vamos ter de abrir espaço para ele.”

De fato. Sempre tem um lugar na tevê para um sujeito capaz de transformar alguém em geleia em nove segundos cravados... Mas naquela noite não havia ninguém assim no North Star Coffee Lounge. O lugar era todo nosso – o que provou ser uma coisa boa, porque tínhamos engolido mais duas bolinhas de mescalina no caminho e os efeitos estavam começando a se manifestar.

Meu advogado tinha parado de vomitar e nem mesmo parecia enjoado. Pediu seu café com a confiança de um homem acostumado com serviço rápido. A garçonete parecia uma prostituta velha que tinha finalmente encontrado seu lugar na vida. Ali ela estava no comando, e nos encarou com desaprovação nítida enquanto nos instalávamos nos banquinhos.

Eu nem dei muita bola. O North Star Coffee Lounge parecia um refúgio seguro e nada tempestuoso. No meu ramo de trabalho, você percebe que o negócio vai ser barra-pesada assim que entra em certos cafés. Não importam os detalhes. Sua única certeza é que vibrações monstruosas pulsam no cérebro enquanto você se aproxima da entrada. Alguma coisa demente e maligna está prestes acontecer; e envolverá você.

Mas nada na atmosfera do North Star indicava uma necessidade de ficar alerta. A garçonete possuía certa hostilidade passiva, mas com isso eu estava acostumado. Era uma mulher grande. Não gorda, mas larga em todos os sentidos, com braços compridos e musculosos e uma mandíbula de gente briguenta. Uma caricatura destruída de Jane Russell: cabeçona com cabelos escuros, batom borrado e peitos enormes que devem ter sido espetaculares uns vinte anos atrás, quando ela foi a Mama dos Hell’s Angels em Berdoo... mas agora estavam embalados num sutiã elástico gigante e cor-de-rosa, que por baixo de seu uniforme de raiom branco e suado parecia uma atadura.

Devia ser casada, mas eu não estava com vontade de especular. Naquela noite, tudo que eu queria dela era uma xícara de café preto e um hambúrguer de 29 centavos com picles e cebola. Nenhum aborrecimento, nenhuma conversa – apenas um lugar para descansar e recuperar as forças. Eu nem estava com fome.

Meu advogado não tinha um jornal ou qualquer outra coisa para prender a atenção. Assim, para espantar o tédio, se concentrou na garçonete. Ela anotava nossos pedidos como um robô quando meu advogado destruiu sua pose exigindo “dois copos de água gelada – com gelo”.

Foda-se, pensei. Eu estava lendo as tirinhas.

Uns dez minutos depois, quando ela trouxe os hambúrgueres, vi meu advogado estender um guardanapo coberto de rabiscos. Fez isso muito casualmente, sem nenhuma expressão no rosto. Mas as vibrações me indicavam que nossa paz estava prestes a ser despedaçada.

“O que foi aquilo?”, eu quis saber.

Ele deu de ombros, sorrindo vagamente para a garçonete, que estava de pé a uns três metros de distância, na ponta do balcão, lendo o guardanapo de costas para nós. Enfim ela se virou e começou a nos encarar... então avançou decidida e jogou o guardanapo em cima do meu advogado.

“O que é isso?”, perguntou.

“Um guardanapo”, ele respondeu.

Depois de um instante de silêncio constrangedor, ela começou a berrar: “Não me vem com essas merdas! Eu sei o que isso significa! Seu cafetão gordo nojento!”.

Meu advogado pegou o guardanapo, olhou para as palavras que tinha escrito e o deixou cair sobre o balcão. “É o nome de um cavalo que tive”, falou, muito calmo. “Qual é o seu problema?”

“Seu fiadaputa!”, ela gritou. “Preciso aguentar muita merda neste lugar, mas pode apostar que não vou aguentar quieta as provocações de um cafetão cucaracho!”

Jesus!, pensei. O que está acontecendo? Fiquei atento às mãos da garçonete, torcendo para que ela não pegasse algo afiado ou pesado. Apanhei o guardanapo e li o que o desgraçado tinha escrito em cuidadosas letras vermelhas: “Rabinho doce?”. O ponto de interrogação estava bem destacado.

Ela voltou a berrar: “Paguem a conta e caiam fora daqui! Senão eu chamo a polícia!”.

Quando enfiei a mão no bolso para pegar a carteira, meu advogado já estava de pé, sem tirar os olhos da garçonete... enfiou a mão debaixo da camisa e sacou a minimagnum da Gerber, com sua lâmina prateada e ameaçadora. A garçonete pareceu entender tudo na hora.

Ficou paralisada: olhos angustiados, fixos na lâmina. Meu advogado, sem tirar os olhos de cima da garçonete, andou quase dois metros e foi até o telefone público. Cortou o cabo, trouxe o fone para o banquinho e sentou.

A garçonete não se mexeu. Eu estava tonto de choque, sem saber se saía correndo ou se caía na gargalhada.

“Quanto custa aquela torta de limão com merengue?”, meu advogado quis saber. Sua voz soou espontânea, como se ele tivesse acabado de entrar e estivesse decidindo o que pedir.

“Trinta e cinco centavos!”, balbuciou a garçonete. Os olhos estavam inchados de medo, mas seu cérebro parecia estar funcionando num nível básico de sobrevivência.

Meu advogado riu. “Estou falando da torta inteira”, disse.

Ela gemeu.

Meu advogado colocou a comanda no balcão. “Vamos combinar que custa cinco dólares”, falou. “Certo?”

Ela concordou, ainda paralisada, observando meu advogado dar a volta no balcão e pegar a torta no mostruário. Me preparei para sair.

A garçonete estava nitidamente em estado de choque. Aquela lâmina, puxada no calor de uma discussão, parecia ter detonado lembranças ruins. Os olhos vidrados indicavam que sua garganta já tinha sido cortada. Ainda estava nas garras da paralisia quando saímos.