Medo e Delírio em Las Vegas

Hunter S. Thompson · Capítulo 21 de 26

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Medo e Delírio em Las Vegas

9. Colapso na Paradise Boulevard

 

Nota do editor:

A esta altura da cronologia, o dr. Duke parece ter sofrido um colapso total; o manuscrito está tão fragmentado que fomos obrigados a recorrer à gravação original e transcrevê-la na íntegra. Não fizemos nenhuma tentativa de editar esta seção, e o dr. Duke recusou-se até mesmo a lê-la. Não havia como falar com ele. O único endereço/contato que possuíamos nesse período era uma unidade de telefonia móvel na Rodovia 61 – e todos os esforços para entrar em contato com Duke nesse número provaram-se inúteis.

Em nome da objetividade jornalística, publicamos a seguinte seção exatamente como se encontra na fita – uma das muitas fitas que o dr. Duke nos entregou para fins de revisão, acompanhando o manuscrito. De acordo com ela, esta passagem registra um episódio que envolve Duke, seu advogado e uma garçonete numa lanchonete 24 horas em North Vegas. A justificativa para os eventos seguintes parece basear-se na sensação – compartilhada por Duke e seu advogado – de que o Sonho Americano precisava ser buscado em algum outro lugar, muito distante dos limites deprimentes da Conferência Nacional dos Promotores Públicos sobre Entorpecentes e Drogas Perigosas.

A transcrição tem início em algum ponto a nordeste de Las Vegas, nos arredores da cidade – avançando pela Paradise na Baleia Branca...

 

Adv.: Boulder City fica à direita. É uma cidade?

Duke: É.

Adv.: Vamos pra Boulder City.

Duke: Certo. Vamos tomar café em algum lugar...

Adv.: Bem ali, ó. Tacos do Terry, EUA. Seria legal comer tacos. Cinco por um dólar.

Duke: Parece horrível. Prefiro comer num lugar que venda um taco por cinquenta centavos.

Adv.: Não... pode ser nossa última chance de comer tacos.

Duke: ...eu preciso tomar café.

Adv.: Quero tacos...

Duke: Cinco tacos por um dólar é como... cinco hambúrgueres por um dólar.

Adv.: Não... nunca julgue um taco pelo preço.

Duke: Acha que pode ser um bom negócio?

Adv.: Acho. Eles têm um hambúrguer de 29 centavos. E um taco também custa 29. É um lugar barato, só isso.

Duke: Então você quer pedir desconto...

[Apenas ruídos confusos nessa parte. – Editor]

Adv.: ...Oi.

Garçonete: Posso ajudar?

Adv.: Vocês vendem tacos, né? São tacos mexicanos ou tacos comuns? Tipo, vocês botam chili dentro, algo assim?

Garçonete: Eles têm queijo e alface, e também colocamos molho.

Adv.: Então vocês garantem que são tacos genuinamente mexicanos?

Garçonete:...Não sei. Ô Lou, nossos tacos são genuinamente mexicanos?

Voz de mulher vindo da cozinha: Quê?

Garçonete: Nossos tacos são genuinamente mexicanos?

Lou: São tacos. Não sei o quanto eles são mexicanos.

Adv.: Bem, é que gosto de ter certeza de que vou receber aquilo por que estou pagando. São cinco por um dólar, né? Quero cinco.

Duke: Tacobúrguer? O que é isso?

[Ruídos de motores a diesel. – Editor]

Adv.: É um hambúrguer com recheio de taco...

Garçonete: ...no lugar da tortilha.

Duke: Um taco no pão.

Adv.: Aposto que os tacos de vocês são hambúrgueres com tortilhas no lugar do pão.

Garçonete: Não sei...

Adv.: Você trabalha aqui há muito tempo?

Garçonete: Comecei hoje.

Adv.: Imaginei, porque nunca tinha visto você. Estuda aqui perto?

Garçonete: Não, eu não estudo.

Adv.: Ah, é? Por que não? Tá doente?

Duke: Para com isso. A gente veio comer tacos.

[Pausa]

Adv.: Como seu advogado, recomendo que peça um chilibúrguer. É um hambúrguer com chili dentro.

Duke: É pesado demais pra mim.

Adv.: Então recomendo que peça um tacobúrguer. Experimenta pra ver como é.

Duke: ...o taco tem carne. Vou provar. E um pouco de café. Agora. Quero beber enquanto espero.

Garçonete: Quer só um tacobúrguer?

Duke: Vou provar primeiro. Talvez peça dois.

Adv.: Seus olhos são azuis ou verdes?

Garçonete: Hein?

Adv.: Azuis ou verdes?

Garçonete: Eles mudam.

Adv.: Que nem olhos de lagarto?

Garçonete: Que nem olhos de gato.

Adv.: Ah, é. Lagartos mudam a cor da pele...

Garçonete: Quer beber alguma coisa?

Adv.: Cerveja. Tenho cerveja no carro. Um montão. O banco de trás tá cheinho de cerveja.

Duke: Não gosto de misturar coco com cerveja e hambúrguer.

Adv.: Bem, vamos estourar os desgraçados... bem no meio da rodovia... Boulder City fica perto daqui?

Garçonete: Boulder City? Quer açúcar?

Duke: Quero.

Adv.: Ei, a gente tá em Boulder City? Ou pelo menos perto?

Duke: Não sei.

Garçonete: Ali, ó. Aquela placa diz Boulder City, viu? Vocês não são de Nevada?

Adv.: Não. A gente nunca esteve aqui. Só estamos de passagem.

Garçonete: É só seguir aquela estrada ali.

Adv.: Tem muita coisa pra fazer em Boulder City?

Garçonete: Olha, nem sei. Eu não...

Adv.: Tem cassinos?

Garçonete: Não sei, é só uma cidadezinha.

Duke: E onde fica o cassino?

Garçonete: Não sei.

Adv.: Peraí, de onde você é?

Garçonete: Nova York.

Adv.: E faz um dia que tá aqui.

Garçonete: Não, já faz um tempo que estou aqui.

Adv.: E pra onde você vai? Quando tem vontade de nadar, essas coisas...

Garçonete: Pro meu quintal.

Adv.: Qual o endereço?

Garçonete: Hã, é na... ah... a piscina ainda não abriu.

Adv.: Deixa eu explicar pra você de um jeito bem simples. A gente tá procurando o Sonho Americano. Falaram pra nós que ele tá aqui por perto... Bem, a gente tá aqui atrás dele, porque nos mandaram vir lá de San Francisco pra fazer isso. Pra encontrar o Sonho. É por isso que nos deram esse Cadillac branco. Acham que assim talvez fique mais fácil de encontrar...

Garçonete: Ei, Lou, sabe onde fica o Sonho Americano?

Adv. (para Duke): Ela tá perguntando pra cozinheira se ela sabe onde fica o Sonho Americano.

Garçonete: Cinco tacos, um tacobúrguer. Sabe onde fica o Sonho Americano?

Lou: Como assim? O que é isso?

Adv.: Bem, a gente não sabe. Fomos mandados de San Francisco até aqui pra encontrar o Sonho Americano. Foi uma revista, eles querem uma matéria.

Lou: Ah, é um lugar.

Adv.: Um lugar chamado Sonho Americano.

Lou: Não é o antigo Clube dos Psiquiatras?

Garçonete: Acho que é.

Adv.: Antigo Clube dos Psiquiatras?

Lou: O antigo Clube dos Psiquiatras fica na Paradise... Vocês estão falando sério?

Adv.: Ah, claro que sim. Olha só aquele carro, acha que eu teria um carro daqueles?

Lou: Será que é o antigo Clube dos Psiquiatras? Era uma discoteca...

Adv.: Pode ser.

Garçonete: Fica na esquina da Paradise com qual rua mesmo?

Lou: Ross Allen era o dono do antigo Clube dos Psiquiatras. Mas e agora?

Duke: Não sei.

Adv.: Tudo que disseram pra gente foi: acelerem até encontrar o Sonho Americano. Peguem esse Cadillac branco e encontrem o Sonho Americano. Fica na região de Las Vegas.

Lou: Deve ser o antigo...

Adv.: ...é uma matéria meio besta, mas, enfim, é assim que a gente ganha dinheiro.

Lou: Vocês vão tirar fotos, ou...

Adv.: Não, não... sem fotos.

Lou: ...mandaram vocês procurarem pelo em ovo?

Adv.: É meio que procurar pelo em ovo, sim, mas a gente tá levando isso muito a sério.

Lou: Sim, deve ser o antigo Clube dos Psiquiatras. Mas hoje só tem gente ruim por lá. Traficantes, mendigos, marginais, viciados.

Adv.: Talvez seja isso aí. Fica aberto a noite toda ou o dia todo?

Lou: Ah, meu amor, nunca fecha. Mas não é um cassino.

Duke: E como é esse lugar?

Lou: Fica na Paradise, hã, é o antigo Clube dos Psiquiatras na Paradise.

Adv.: Antigo Clube dos Psiquiatras é o nome do lugar?

Lou: Não, Clube dos Psiquiatras era o nome antigo. Mas alguém comprou... nunca ouvi falar que o nome novo era Sonho Americano... era algo tipo, associado com, hã... é tipo um hospício pra onde vão todos os drogados.

Adv.: Um hospício? Tipo um hospital psiquiátrico?

Lou: Não, meu amor, é que todos os viciados e traficantes vão pra lá. É um lugar que atrai todos os maconheiros, esse tipo de gente... mas não se chama Sonho Americano, não.

Adv.: E você tem ideia do nome? Ou sabe mais ou menos onde fica?

Lou: Bem na esquina da Paradise com a Eastern.

Garçonete: Mas a Paradise e a Eastern são paralelas.

Lou: Sim, mas é só sair da Eastern e ir pra Paradise...

Garçonete: É, eu sei. Mas aí seria na Paradise, na altura do Flamingo. Acho que alguém...

Adv.: A gente tá hospedado no Flamingo. Acho que sei de que lugar vocês tão falando. Acho que sei onde fica.

Lou: Não é um ponto turístico.

Adv.: Bem, foi também por isso que me mandaram. Ele é o redator: eu sou o guarda-costas. Porque imagino que...

Lou: Aqueles caras são malucos... aqueles moleques são malucos.

Adv.: Tudo bem.

Garçonete: É, eles têm suas próprias leis.

Duke: Violência 24 horas por dia? É disso que estamos falando?

Lou: Exato. Olha, o Flamingo fica bem aqui... Ah, assim não vai dar; deixa eu fazer do meu jeito. Bem aqui, no primeiro posto de gasolina, é a Tropicana. Virem à direita.

Adv.: Tropicana, à direita.

Lou: O primeiro posto de gasolina fica na Tropicana. Virem à direita na Tropicana e sigam por aqui... à direita na Tropicana, à direita na Paradise. Aí tem um prédio grande, pintado de preto... é todo preto e bem esquisito.

Adv.: À direita na Tropicana, à direita na Paradise, prédio preto...

Lou: E tem um placa que diz “Clube dos Psiquiatras”, mas estão reformando tudo.

Adv.: Tudo bem, deve dar pra reconhecer...

Lou: Se eu puder ajudar em qualquer coisa, meu amor... nem sei se é esse o lugar. Mas parece que sim. Acho que vocês estão na pista certa, rapazes.

Adv.: Certo. É a melhor dica que a gente recebeu em dois dias. Já perguntamos por tudo quanto é canto.

Lou: ...posso dar uns telefonemas e descobrir com certeza.

Adv.: É mesmo?

Lou: Claro. Eu ligo pro Allen e pergunto.

Adv.: Nossa, eu ia ficar muito agradecido.

Garçonete: O primeiro posto de gasolina não fica na Tropicana. É o segundo posto.

Lou: Tem um placa enorme na rua, bem aqui, dizendo Tropicana Avenue. Virem à direita e, quando chegarem na Paradise, virem à direita de novo.

Adv.: Certo. Prédio preto enorme, à direita na Paradise: violência 24 horas por dia, drogas...

Garçonete: Aqui é a Tropicana, viu? Essa aqui é a estrada pra Boulder City, que segue sempre reto, bem assim.

Duke: Bem, então fica bem no meio da cidade.

Garçonete: É, a Paradise aparece mais ou menos por ali. Aqui é a Paradise. É isso. E estamos bem aqui, ó. Aqui fica a estrada pra Boulder City... e aqui, a Tropicana.

Lou: Não é por aí, não. Acho que essa garçonete também anda fumando maconha...

Adv.: Ah, tudo bem, já é uma pista...

Lou: Podem parar bem aqui, rapazes. Vai dar tudo certo.

Duke: Se a gente conseguir encontrar.

Adv.: Se aceitarem a matéria depois que ficar pronta.

Garçonete: Bem, por que não entram aqui e sentam um pouco?

Duke: Estamos tentando tomar bastante sol.

Adv.: Ela vai dar um telefonema pra descobrir onde fica.

Duke: Ah. Certo, vamos entrar.

 

Nota do editor (cont.):

É impossível transcrever as fitas relativas aos eventos posteriores, porque estão cobertas com um líquido viscoso. Mas se percebe alguma consistência nos sons distorcidos, indicando que aproximadamente duas horas mais tarde o dr. Duke e seu advogado finalmente encontraram o que havia restado do “Antigo Clube dos Psiquiatras” – um imenso pedaço de concreto queimado e em ruínas, no meio de um terreno baldio coberto por um matagal. O dono de um posto de gasolina no outro lado da rua afirmou que o lugar “pegou fogo uns três anos atrás”.