Medo e Delírio em Las Vegas
11. Aaawww, Mama, can this really be the end?[1]...Exausto em Las Vegas... A volta da psicose de anfetamina?
11. Aaawww, Mama, can this really be the end?
[1]...Exausto em Las Vegas... A volta da psicose de
anfetamina?
Terça-feira, nove da manhã... Sentado no café Wild Bill, nos arredores de Las Vegas, enxergando tudo com clareza. Só existe uma estrada para Los Angeles – a rodovia interestadual US 15, uma linha reta sem estradas secundárias ou atalhos, para ser percorrida em alta velocidade, passando por Baker, Barstow e Berdoo antes de chegar à freeway de Hollywood e ao anonimato perfeito: segurança, obscuridade, apenas mais um maluco no Reino dos Malucos.
Mas antes disso, por cinco ou seis horas, eu seria a coisa mais chamativa naquela estrada infernal – o único conversível vermelho-sangue entre Butte e Tijuana... voando pela rodovia do deserto com um retardado seminu ao volante. Seria melhor usar minha camisa roxa e verde de Acapulco ou não vestir nada?
É impossível se esconder dentro deste monstro.
E não será uma viagem tranquila. Nem mesmo o Deus-Sol está disposto a assistir. Pela primeira vez em três dias, se escondeu atrás de uma nuvem. Sumiu. O céu estava cinzento e feio.
Assim que entrei no estacionamento nos fundos do Wild Bill, meio escondido, ouvi um estrondo sobre minha cabeça. Olhei para cima e vi um imenso DC-8 ganhando altura – deixando uma trilha de fumaça prateada a uns seiscentos metros sobre a rodovia. Será que Lacerda estaria a bordo? Ou o cara da Life? Estavam com todas as fotos de que precisavam? Todos os fatos? Tinham cumprido suas responsabilidades?
Eu não sabia nem quem tinha vencido a corrida. Talvez ninguém. Não seria estranho descobrir que o espetáculo inteiro tinha sido abortado por um enorme tumulto – uma orgia de violência sem sentido, detonada por marginais bêbados que se recusavam a acatar as regras.
Resolvi preencher essa lacuna de informação na primeira oportunidade que tivesse: pegaria o L.A. Times e vasculharia a seção de esportes atrás de uma matéria sobre a Mint 400. Ficaria por dentro dos detalhes. Bem informado. Mesmo em Fuga, nas garras de um Medo atroz...
Eu sabia que Lacerda estava naquele avião, voltando para Nova York. Ontem à noite ele me falou que pretendia pegar o primeiro voo.
E lá vai ele... e aqui estou eu, sem advogado, sentado num banco forrado de plástico vermelho na Taberna do Wild Bill, bebericando nervosamente uma Budweiser num bar que começa a receber suas visitas matinais de cafetões e viciados em pinball... com o imenso Tubarão Vermelho estacionado do lado de fora, lotado de tantas coisas proibidas que tenho até medo de olhar.
Mas eu não posso abandonar aquela merda. Minha única esperança é dirigir pelos quinhentos quilômetros de estrada aberta que separam este lugar do meu Refúgio. Mas, meu bom Deus, estou exausto! Estou assustado. Estou maluco. Essa cultura acabou comigo. Que porra estou fazendo aqui? Esta não é nem mesmo a história que eu deveria escrever. Bem que o meu agente tentou avisar. Todos os sinais eram negativos – especialmente aquele Tampinha maligno com o telefone cor-de-rosa no Polo Lounge. Eu deveria ter ficado por lá... tudo menos isto.
Aaaww... Mama, can this really be the end?”
Não!
Quem colocou essa música? Será que escutei mesmo essa merda saindo da jukebox? Às 9h19 desta manhã imunda e cinzenta na Taberna do Wild Bill?
Não. Foi meu cérebro ecoando um amanhecer doloroso em Toronto, há muito esquecido... muito tempo atrás, quando eu estava quase louco, noutro mundo... nem tão diferente assim.
SOCORRO!
Por quantas outras noites, por quantas outras manhãs esquisitas essa merda ainda vai continuar? Por quanto tempo o corpo e o cérebro podem tolerar essa loucura apocalíptica? Esse ranger de dentes, esse suor jorrando, esse sangue latejando nas têmporas... pequenas veias azuis explodindo ao redor das orelhas, sessenta, setenta horas sem dormir...
E agora é a jukebox! Sim, não há dúvidas... e por que não? É uma canção muito popular: “Like a bridge over troubled water... I will lay me
down”.[2]
BUM. Paranoia repentina. Que tipo de rato desgraçado e psicótico colocaria essa música para tocar – logo agora, num momento como este? Será que fui seguido até aqui? Será que a garçonete sabe quem eu sou? Será que me enxerga por trás destas lentes espelhadas?
Todo garçom é traiçoeiro, mas esta garçonete é uma gorda rabugenta de meia-idade com um avental por cima do macacão de caipira... deve ser a mulher do Wild Bill.
Jesus. Ondas terríveis de paranoia, loucura, medo e repulsa – vibrações intoleráveis neste lugar. Caia fora. Fuja... e de repente me dou conta, num último lampejo de astúcia demente antes da escuridão completa, de que de acordo com as regras posso esperar até o meio-dia para desocupar a suíte do hotel... isso me dá no mínimo duas horas dirigindo em alta velocidade para sair deste maldito estado antes que eu me transforme num fugitivo aos olhos da lei.
Uma sorte incrível. Quando soar o alarme, estarei a mil entre Needles e o Vale da Morte – enfiando o pé no acelerador e dando uma banana para Efrem Zimbalist Jr., me perseguindo em seu helicóptero do FBI.
VOCÊ ATÉ PODE FUGIR, MAS NÃO TEM COMO SE ESCONDER [3]
Vá se foder, Efrem. Isso vale para qualquer um de nós.
Para você e o pessoal do Mint, continuo no quarto 1.850 – legal e espiritualmente, ainda que não em carne e osso – com um aviso de “Não Perturbe” dependurado na maçaneta para afastar qualquer aborrecimento. Enquanto o aviso estiver na porta, as camareiras não chegarão perto do quarto. Meu advogado cuidou disso – e dos seiscentos sabonetes Neutrogena que ainda terei que entregar em Malibu. O que o FBI vai achar disso? Deste Grande Tubarão Vermelho carregado de sabonetes Neutrogena? São perfeitamente legais. Nós ganhamos esses sabonetes das camareiras. Elas podem confirmar... não podem?
É claro que não. Aquelas camareiras malditas e traiçoeiras vão jurar que foram coagidas por dois malucos com armamento pesado. Vão dizer que foram ameaçadas com uma Vincent Black Shadow até entregarem todos aqueles sabonetes.
Jesus do céu! Será que tem algum padre nesta taberna? Quero me confessar! Sou um pecador, caralho! Pecados venais, mortais, carnais, maiores e menores – você decide, Senhor... sou culpado.
Mas me faça um último favor: me conceda apenas mais cinco horas em alta velocidade antes de bater o martelo; só quero ficar livre desse maldito carro e desse deserto horrendo.
E nem é pedir muito, Senhor. No fim das contas, a verdade incrível é que sou inocente. Tudo que fiz foi levar suas bobagens a sério... viu onde isso me fez parar? Meus instintos cristãos primitivos me transformaram num criminoso.
Lembro que repetia sem parar, escapulindo pelo cassino às seis da manhã com uma valise cheia de toranjas e camisetas da Mint 400: “Você é inocente”. Não foi nada mais que um expediente necessário para evitar uma situação desagradável. Afinal de contas, não assumi compromisso nenhum; é uma dívida institucional – nada particular. Todo esse maldito pesadelo é culpa daquela revista desgraçada e irresponsável. Algum imbecil em Nova York fez isso comigo. Foi ideia dele, Senhor. Não minha.
E olhe só para mim agora: quase enlouquecido de medo, dirigindo a duzentos por hora pelo Vale da Morte num carro que eu nunca quis. Seu pervertido escroto! Isso é obra sua! Acho bom velar por mim, Senhor... caso contrário, logo me terá em suas mãos.
[1] Em tradução livre: “Aaahhh, mamãe, será mesmo o fim?...”. Trecho de “Stuck Inside Of Mobile With The Memphis Blues Again”, de Bob Dylan. (N.T.)
[2] “Bridge Over Troubled Water”, de Simon & Garfunkel. Em tradução livre: “Como uma ponte sobre águas revoltas... estarei ali”. (N.T.)
[3] (... alerta para traficantes de heroína visto num quadro de avisos em Boulder, Colorado.)