Medo e Delírio em Las Vegas
10. Entra em cena a Western Union: um alerta do sr. Heem... A editoria de esportes manda uma nova pauta e a polícia faz um convite demente
10. Entra em cena a Western Union: um alerta do sr.
Heem... A editoria de esportes manda uma nova pauta e
a polícia faz um convite demente
De repente voltei a me sentir culpado. O Tubarão! Onde estava? Atirei o jornal longe e apressei o passo. Estava perdendo o controle. Minha fachada começava a desabar... até que enxerguei o carro descendo por uma rampa na garagem ao lado do hotel.
Salvação! Agarrei a sacola de couro e avancei até o meu veículo.
“SENHOR DUKE!”
Uma voz ecoou às minhas costas.
“Senhor Duke! Estávamos procurando pelo senhor!”
Quase tive um colapso. Senti todas as células do meu cérebro e do meu corpo sucumbirem. Não!, pensei. Devo estar tendo alucinações. Não tem ninguém ali, ninguém está me chamando... é uma alucinação paranoica, uma psicose de anfetamina... siga caminhando até o carro, continue sorrindo...
“SENHOR DUKE! Espere!”
Bem... e por que não? Muitos livros excelentes foram escritos na cadeia. E eu não seria exatamente um desconhecido lá em Carson City. O diretor da prisão lembraria de mim; e o detento responsável por supervisionar o trabalho dos outros prisioneiros também – eu o entrevistei para o New York Times. Além de muitos outros prisioneiros, guardas, policiais e vagabundos de todo tipo que me mandaram cartas cheias de ameaças quando o artigo não foi publicado.
Por que não?, exigiam saber. Queriam que suas histórias fossem contadas. Era difícil explicar; tudo o que eles haviam me contado tinha ido para o lixo, ou na melhor das hipóteses para o arquivo morto, porque meus parágrafos de abertura não agradaram algum editor a cinco mil quilômetros de distância – um autômato nervoso atrás de uma mesa de fórmica cinzenta perdida nas entranhas de uma burocracia jornalística que nenhum detento em Nevada conseguiria entender – o artigo tinha morrido na praia, digamos assim, porque eu me recusei a reescrever os parágrafos iniciais. Por meus próprios motivos...
Nenhum deles faria muito sentido na prisão. Mas, ah, que se foda. Por que se preocupar com detalhes? Virei para trás e encarei meu carrasco. Era um recepcionista baixinho, com um sorriso enorme no rosto e um envelope amarelo na mão. “Estava ligando para o seu quarto”, explicou. “E então vi o senhor aqui fora.”
Balancei a cabeça, cansado demais para resistir. Àquela altura o Tubarão já estava ao meu lado, mas não me animei nem a guardar minha sacola. Era o fim da linha. Eles tinham me apanhado.
O recepcionista continuava sorrindo. “Este telegrama acaba de chegar para o senhor”, informou. “Mas na verdade não é para o senhor, é para alguém chamado Thompson. Só que diz ‘aos cuidados de Raoul Duke’. Faz sentido?”
Fiquei tonto. Era muita coisa para absorver de uma só vez. Da liberdade à prisão e de volta à liberdade – em trinta segundos. Cambaleei para trás e me apoiei no carro, sentindo a lona branca da capota sob meus dedos trêmulos. O recepcionista, ainda sorrindo, me estendia o telegrama.
Movi a cabeça, ainda sem conseguir falar. “Sim”, acabei dizendo, “faz sentido.” Peguei o envelope e abri na hora.
TELEGRAMA URGENTE
Hunter S. Thompson
A/C Raoul Duke
Suite a prova de som 1850
Hotel Mint Las Vegas
Ligue imediatamente repito imediatamente temos nova tarefa que comeca amanha tambem em vegas nao va embora pt a conferencia nacional dos promotores publicos convidou voce para um seminario de quatro dias sobre entorpecentes e drogas perigosas no hotel dunes pt revista rolling stone telefonou pediu 50 mil palavras pagamento astronomico todas as despesas pagas incluindo amostras pt temos reservas no hotel flamingo e um cadillac branco conversivel pt esta tudo armado ligue imediatamente para saber detalhes urgente repito urgente pt
Doutor Gonzo
“Puta merda!”, balbuciei. “Não pode ser verdade!”
“Não é para o senhor?”, perguntou o recepcionista, subitamente nervoso. “Procurei esse Thompson no registro de hóspedes. Ele não consta, mas imaginei que podia fazer parte de sua equipe.”
“Faz, sim”, confirmei sem demora. “Não se preocupe, eu falo com ele.” Atirei minha sacola no banco da frente do Tubarão, louco para fugir antes que a ordem para minha execução chegasse. Mas o recepcionista continuava curioso.
“E o Doutor Gonzo?”, quis saber.
Encarei o sujeito com minhas lentes espelhadas. “Vai bem”, respondi. “Mas ele tem um temperamento horrível. O Doutor cuida das nossas finanças, é responsável por todos os nossos preparativos.” Deslizei até o lugar do motorista e me preparei para sair.
O recepcionista se apoiou no carro. “Ficamos confusos”, continuou, “com essa assinatura do Doutor Gonzo num telegrama de Los Angeles – porque sabemos que ele está aqui no hotel.” Deu de ombros. “E ainda por cima o telegrama foi enviado para um hóspede que não consta dos registros... bem, o atraso foi inevitável. Espero que entenda...”
Balancei a cabeça, impaciente. “Você agiu bem”, falei. “Nunca tente decifrar mensagens da imprensa. Usamos códigos quase o tempo todo – especialmente com o Doutor Gonzo.”
Ele abriu outro sorriso, desta vez um pouco estranho. “Diga uma coisa”, falou. “A que horas o Doutor vai acordar?”
Agarrei o volante, tenso. “Acordar? Como assim?”
Ele parecia constrangido. “Bem... nosso gerente, o sr. Heem, gostaria de conhecê-lo.” Agora o sorriso era nitidamente maléfico. “Nada de mais. O sr. Heem gosta de conhecer pessoalmente todos os hóspedes com contas altas... para dar um tratamento personalizado... uma conversa, um aperto de mão, o senhor entende?”
“É claro”, respondi. “Mas, se eu fosse você, não incomodaria o Doutor antes que ele tome o café da manhã. É um sujeito muito grosseiro.”
O recepcionista balançou a cabeça, desconfiado. “Mas ele estará disponível... ainda esta manhã?”
Percebi aonde ele queria chegar. “Olhe aqui”, falei. “Esse telegrama está embaralhado. Na verdade, Thompson é o remetente, não o destinatário. Deve ter sido um erro da Western Union.” Mostrei o telegrama, sabendo que o recepcionista já tinha lido. “Isto aqui”, continuei, “é uma mensagem urgente para o Doutor Gonzo, que está lá em cima, informando que Thompson está chegando de L.A. com uma nova tarefa – um novo trabalho.” Fiz um gesto para que ele tirasse as mãos do carro. “Nos vemos depois”, cortei a conversa. “Preciso ir para a corrida.”
Ele recuou quando engatei a primeira. “Não precisa ter pressa”, gritou. “A corrida acabou.”
“Não para mim”, falei, acenando com simpatia.
“Vamos almoçar!”, ainda implorou enquanto eu acelerava.
“Certo!”, gritei. E me perdi no tráfego. Depois de alguns quarteirões na direção errada pela Main Street, fiz o retorno e tomei o caminho do sul. Rumo a Los Angeles. Mas controlei a velocidade. Fique tranquilo, dirija devagar, pensei. Como se estivesse passeando até os arredores da cidade...
Eu precisava achar um jeito de sair da estrada, sumir de vista e refletir sobre aquele telegrama incrível do meu advogado. Era verdade – disso eu tinha certeza. Havia uma urgência realmente genuína naquela mensagem. Aquele tom era inconfundível...
Mas eu não estava no clima, não tinha condições de passar mais uma semana em Las Vegas. Não agora. Tinha abusado demais da sorte naquela cidade... até esgotar minha cota. E os sacanas estavam fechando o cerco; eu conseguia sentir o cheiro dos filhos da puta.
Sim, estava mesmo na hora de ir. Eu não podia mais correr nenhum risco.
Perambulando à toa pela Las Vegas Boulevard a cinquenta quilômetros por hora, comecei a procurar um lugar para descansar e oficializar minha decisão. Claro, estava tudo resolvido. Mas eu precisava de uma cerveja, quem sabe de três, para selar o acordo e entorpecer o único neurônio rebelde que insistia nas vibrações negativas...
Seria preciso encarar aquilo. Havia um argumento para minha permanência. Ou mais ou menos isso. Em todos os sentidos, era um argumento traiçoeiro, estúpido e demente – mas era impossível negar o encanto do humor negro que pairava sobre aquela ideia. Um jornalista gonzo em meio a um quadro praticamente terminal de toxicomania tinha sido convidado para cobrir a Conferência Nacional dos Promotores Públicos sobre Entorpecentes e Drogas Perigosas.
Havia também um charme perverso na ideia de dar um calote violento num hotel de Las Vegas para em seguida – em vez de fugir até Los Angeles pela rodovia sem grandes esperanças de sucesso – sair passeando pela cidade, trocar o Chevy conversível vermelho por um Cadillac branco e se registrar noutro hotel de Las Vegas, com credenciais de imprensa, e se misturar com uns mil policiais de todos os cantos dos Estados Unidos reunidos para discutir a respeito do Problema das Drogas.
Era uma insensatez perigosa, mas era também o tipo de coisa que agradaria a um verdadeiro connaisseur da arte de viver/trabalhar no limite. Ora, qual seria o último lugar onde a polícia de Las Vegas procuraria um estelionatário drogado que acabou de dar calote num hotel do centro?
Exato. Numa conferência de promotores públicos sobre drogas, num hotel elegante... Ou chegando ao Caesar’s Palace para um jantar dançante de Tom Jones num Coupe de Ville branco e deslumbrante... Ou num coquetel para agentes do departamento de narcóticos e suas esposas no Dunes?
Não seria o lugar perfeito para se esconder? Para algumas pessoas, talvez. Não para mim. E certamente não para meu advogado – um sujeito que chama a atenção. Separados, até poderíamos conseguir. Mas juntos, nunca – estragaríamos tudo. Nossa química era agressiva demais; a tentação de criar uma demência sem igual seria irresistível.
E isso, é claro, acabaria conosco. Não teriam piedade. Para espionar os espiões seria preciso aceitar a sina da classe: “Como sempre, se você ou qualquer membro da organização for apanhado pelo inimigo, a Secretaria negará ter qualquer conhecimento etc”.
Não, era demais. Os limites entre loucura e masoquismo já estavam indefinidos; estava na hora de retroceder... recuar, cair fora, sumir e, digamos assim, “faltar com o dever”. E por que não? Sempre chega o momento de minimizar as perdas ou consolidar os ganhos – o que for mais adequado.
Dirigi sem pressa, procurando um lugar decente para tomar a primeira cerveja do dia, pôr a cabeça no lugar... e planejar essa retirada anormal.