Medo e Delírio em Las Vegas

Hunter S. Thompson · Capítulo 24 de 26

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Medo e Delírio em Las Vegas

12. Voltando ao Circus-Circus... Atrás do macaco... Que se dane o Sonho Americano

12. Voltando ao Circus-Circus... Atrás do macaco... Que

se dane o Sonho Americano

 

Quase 72 horas tinham se passado desde esse bizarro encontro. Nenhuma outra camareira botou os pés no quarto. Tentei imaginar o que Alice teria dito a elas. Nós chegamos a vê-la outra vez, empurrando um carrinho de roupa suja pelo estacionamento. Entramos na Baleia sem demonstrar que tínhamos notado sua presença, e ela deu sinais de entender por quê.

Mas aquilo não tinha como durar muito. O quarto estava cheio de toalhas usadas, penduradas por todo lado. O piso do banheiro estava coberto por uma camada de quinze centímetros de sabonetes, vômito e cascas de toranja, tudo misturado com cacos de vidro. Eu precisava calçar as botas sempre que entrava para mijar. De tantas sementes da maconha, a parte felpuda do tapete cinza mosqueado parecia estar ficando verde.

Era um ambiente tão sórdido, tão imundo, que não parecia impossível se safar argumentando que se tratava de uma “reprodução tridimensional” inspirada na Haight Street para mostrar aos policiais do resto do país o teor de sujeira e degeneração que os drogados eram capazes de alcançar se não fossem detidos.

Mas que tipo de viciado precisaria de tantos cocos partidos ao meio? E as cascas de melão? Será que as drogas justificariam a presença de tantas batatas fritas intocadas? De poças de ketchup endurecido na cômoda?

Talvez. Mas como explicar toda a bebida? E as fotos pornográficas grosseiras, arrancadas de revistas de quinta categoria como Vadias da Suécia e Orgias no oásis, pregadas no espelho quebrado e com jatos de mostarda que tinham virado crostas amarelas... e todos os sinais de violência, as estranhas luzinhas vermelhas e azuis, os cacos de vidro fincados no gesso da parede...

Não; aquilo não eram as marcas de um viciado normal, temente a Deus. Era selvagem demais, agressivo demais. Aquele quarto continha evidências de consumo excessivo de todos os tipos de drogas conhecidas pelo homem civilizado desde 1544. Só poderia ser explicado como uma espécie de montagem, uma forma exagerada de exposição médica, armada com muito cuidado para demonstrar o que poderia acontecer se 22 drogados barras-pesadas – cada um com um vício diferente – fossem trancados juntos no mesmo quarto por cinco dias e cinco noites, sem descanso.

De fato. Mas é claro que isso nunca aconteceria na Vida Real, cavalheiros. Armamos todo esse negócio somente para fins de demonstração...

De repente o telefone começou a tocar, me arrancando do estupor das minhas fantasias. Encarei o aparelho. Trrrriiiiimmmmmmm... Jesus, e agora? Será? Sou quase capaz de escutar a voz aguda do Gerente, o sr. Heem, informando que a polícia estava a caminho do meu quarto e pedindo que eu fizesse a gentileza de não atirar na porta quando eles começassem a arrombá-la.

Trriiiimmmm... Não, eles não telefonariam antes. Assim que decidissem me pegar, imagino que armariam uma emboscada no elevador: primeiro gás de pimenta, depois espancamento. Aconteceria sem aviso.

Atendi o telefone. Era meu amigo Bruce Innes, ligando do Circus-Circus. Havia encontrado o sujeito que queria vender o macaco pelo qual eu tinha me interessado. Custava 750 dólares.

“Mas com que tipo de verme ganancioso estamos lidando?”, perguntei. “Ontem à noite era quatrocentos.”

“Ele disse que acabou de descobrir que o bicho é treinado”, disse Bruce. “Ontem à noite ele deixou o macaco dormir no trailer e o bicho cagou no boxe do chuveiro.”

“Isso não quer dizer nada”, retruquei. “Macacos gostam de água. Na próxima vez vai cagar na pia.”

“Não quer vir pra cá e conversar com o sujeito?”, sugeriu Bruce. “Ele está aqui no bar comigo. Falei que você queria muito esse macaco, que poderia dar um lar para ele. Acho que ele vai fazer negócio, mas é bastante apegado ao maldito bicho. Está com a gente aqui no bar, sentado num banquinho, babando num copo de cerveja.”

“Certo”, falei. “Chego em dez minutos. Não deixa esse escroto ficar bêbado. Quero encontrá-lo em condições normais.”

Quando cheguei, um velho estava sendo colocado numa ambulância em frente à entrada do Circus-Circus. “O que houve?”, perguntei ao manobrista.

“Não sei muito bem”, ele respondeu. “Falaram que ele teve um derrame. Mas percebi que a nuca dele tava toda cortada.” Entrou na Baleia e me deu um canhoto. “Quer que eu guarde seu drinque?”, perguntou, estendendo um enorme copo de tequila que estava no banco do carro. “Se quiser, coloco na geladeira.”

Fiz que sim com a cabeça. Esse pessoal conhecia meus hábitos. Eu já tinha ido àquele lugar tantas vezes, com Bruce e o resto da banda, que os manobristas sabiam meu nome – mesmo que eu nunca tivesse me apresentado e ninguém tivesse perguntado como eu me chamava. Imaginei que aquilo fazia parte do negócio; deviam ter aberto o porta-luvas e encontrado um bloco de anotações com meu nome na capa.

Na época não me dei conta do motivo verdadeiro: eu ainda estava usando meu crachá da Conferência dos Promotores Públicos. Estava pendurado no bolso da minha jaqueta de caçador multicolorida, mas eu tinha me esquecido dele havia muito tempo. Sem dúvida eles imaginavam que eu era algum tipo muito esquisito de agente disfarçado... ou talvez não; talvez apenas me tratassem bem por acharem que alguém tão louco a ponto de se fingir de policial enquanto dirigia por Las Vegas num Cadillac branco conversível com um copo de bebida na mão tinha que ser um Peso-Pesado, talvez até alguém perigoso. Num lugar onde ninguém com alguma ambição é realmente quem parece ser, não existe muito risco em agir como um esquisitão de marca maior. Eles deviam fazer sinais um para o outro, resmungando alguma coisa sobre “esses malditos farsantes sem classe”.

O outro lado da moeda é a síndrome do “Caralho! Quem é esse cara?”, que acomete pessoas como porteiros e supervisores quando deparam com sujeitos que agem como malucos mas são generosos nas gorjetas – um sinal de que deve se tratar de alguém importante, que deve ser bajulado, ou pelo menos tratado com alguma gentileza.

Mas nada disso faz a mínima diferença para alguém com a cabeça cheia de mescalina. Você fica andando por aí, fazendo tudo o que lhe parece correto. E geralmente tem razão. Vegas é tão cheia de pessoas naturalmente esquisitas – criaturas realmente transtornadas – que as drogas não chegam a ser um problema, exceto para os policiais e a máfia da heroína. Drogas psicodélicas são quase irrelevantes numa cidade onde você pode entrar num cassino a qualquer hora do dia ou da noite e assistir a um gorila sendo crucificado – numa cruz de neon flamejante que de repente vira um cata-vento, girando o animal em círculos ensandecidos sobre a cabeça dos jogadores.

Encontrei Bruce no bar, mas não havia sinal do macaco. “Onde está?”, eu quis saber. “Estou pronto pra assinar o cheque. Quero levar esse bicho pra casa, ele vai comigo no avião. Já reservei dois lugares na primeira classe – R. Duke e Filho.”

“No avião?”

“Claro, porra”, falei. “Acha que vão reclamar? Mencionar as enfermidades do meu filho?”

Bruce deu de ombros. “Esquece”, falou. “Acabaram de levar o bicho embora. Ele atacou um velho aqui no bar. O velhote começou a encher o saco do garçom, reclamando da presença da ‘ralé esfarrapada’ no recinto, e bem nessa hora o macaco deu um grito – aí o velho tacou uma cerveja em cima dele. O macaco enlouqueceu, pulou do banquinho como se tivesse molas no rabo e arrancou fora numa dentada um pedaço enorme da nuca do velhote... o garçom precisou chamar uma ambulância. Depois a polícia veio e levou o macaco embora.”

“Puta merda”, falei. “Quanto é a fiança? Eu quero aquele macaco.”

“Acorda”, disse Bruce. “Acho bom você ficar longe da delegacia. É tudo que precisam pra meter você na cadeia. Esquece o macaco. Você não precisa dele.”

Pensei um pouco e decidi que ele devia ter razão. Não havia sentido em estragar tudo por causa de um macaco violento que eu nem mesmo cheguei a conhecer. Talvez ele arrancasse fora um naco da minha cabeça se eu tentasse pagar a fiança. Precisaria de um tempo para se acalmar depois de ficar atrás das grades, e eu não podia me dar ao luxo de esperar.

“Quando você vai embora?”, Bruce quis saber.

“Assim que puder”, respondi. “Não faz sentido continuar nessa cidade. Já tenho tudo que preciso. Qualquer coisa a mais acabaria me confundindo.”

Bruce pareceu surpreso. “Você encontrou o Sonho Americano?”, perguntou. “Aqui, nesta cidade?”

Confirmei com a cabeça. “Estamos sentados em seu centro nervoso neste exato momento”, informei. “Lembra daquela história que o gerente contou sobre o dono deste lugar? De que ele sempre queria fugir com o circo quando era moleque?”

Bruce pediu mais duas cervejas. Olhou para o cassino por um instante e encolheu os ombros. “É, entendo o que você quer dizer”, falou. “Agora o filho da puta tem o próprio circo, além de uma licença pra roubar.” Sacudiu a cabeça. “Tem razão – ele é o protótipo.”

“Sem dúvida”, concordei. “É puro Horatio Alger, até mesmo na atitude. Tentei conversar com ele, mas uma lésbica com voz de caminhoneiro, que disse ser sua Secretária-Executiva, me mandou tomar no cu. Disse que a coisa que seu Patrão mais odeia nos Estados Unidos é a imprensa.”

“Ele e Spiro Agnew”, resmungou Bruce.

“E ambos têm razão”, corroborei. “Tentei dizer pra ela que eu estava de acordo com tudo que ele representava, mas a mulher falou que se eu tivesse alguma noção do que era bom pra mim cairia fora da cidade e nem pensaria em encher o saco do seu Patrão. ‘Ele abomina repórteres’, ela falou. ‘Não quero que isso pareça um alerta, mas, se eu fosse você, entenderia assim...’”

Bruce sacudiu a cabeça. Ganhava mil dólares por semana do Patrão para fazer dois shows por noite no Leopard Lounge, e mais dois mil para a banda. Só precisavam fazer duas horas de barulho infernal toda noite. O Patrão estava pouco se fodendo para o tipo de música que tocassem, desde que fosse bem pesada e que o volume dos amplificadores estivesse alto o bastante para atrair gente até o bar.

Era estranho sentar ali em Vegas e escutar Bruce cantando coisas fortes como “Chicago” e “Country Song”. Se a gerência se desse o trabalho de prestar atenção nas letras, a banda inteira levaria um banho de alcatrão e penas.

Vários meses mais tarde, em Aspen, Bruce cantou as mesmas músicas

num clube lotado de turistas e um ex-Astronauta...[1] Quando o último show terminou, ______ veio até nossa mesa e começou a gritar todo tipo de imbecilidade bêbada e megapatriótica, enchendo o saco do Bruce com perguntas do tipo: “Como um canadense desgraçado tem a coragem de descer até aqui para insultar este país?” .

“Cara”, eu me intrometi. “Eu sou americano. Moro aqui e concordo com tudo que ele disse, porra.”

Nesse momento os seguranças apareceram com seus sorrisos enigmáticos, dizendo: “Boa noite, cavalheiros. De acordo com o I Ching, está na hora de ficarem quietos, certo? E aqui ninguém incomoda os músicos, correto?”.

O Astronauta se afastou, carrancudo, resmungando sobre usar sua influência para “tomar providências urgentes” sobre as leis de imigração. “Qual é o seu nome?”, ele me perguntou enquanto era retirado pelos seguranças.

“Bob Zimmerman”, falei. “E só tem uma coisa que eu odeio nesse mundo: polacos burros e teimosos.”

“Você acha que sou polaco?”, ele berrou. “Seu cuzão imundo! Você é um bosta! Você não representa este país.”

“Deus, espero que você também não represente”, Bruce resmungou. _____ continuava praguejando ao ser conduzido até a rua.

Na noite seguinte, em outro restaurante, O Astronauta estava engolindo seu grude – completamente sóbrio – quando um garoto de catorze anos se aproximou da mesa para pedir um autógrafo. ______ se fez de modesto por um instante, fingindo estar constrangido, e então rabiscou sua assinatura no pedacinho de papel. O garoto olhou para aquilo por um instante e então rasgou em pedacinhos, os quais largou no colo de ______. “Nem todo mundo ama você, cara”, ele falou. Deu as costas para _____ e voltou para sua mesa, a uns dois metros de distância.

Os acompanhantes do Astronauta ficaram mudos. Oito ou dez pessoas – esposas, gerentes e engenheiros-chefes que mostravam as atrações de Aspen para _____. Pela cara deles, parecia que alguém tinha usado spray de merda na mesa. Ninguém deu um pio. Comeram bem rápido e foram embora sem dar gorjeta.

E chega de Aspen e astronautas. ______ nunca teria esse tipo de problema em Las Vegas.

Basta um pouco desta cidade para empanturrar qualquer um. Depois de cinco dias em Vegas, parece que você está há cinco anos por aqui. Tem gente que gosta – mas também existe quem goste de Nixon. Ele teria sido o Prefeito ideal para esta cidade; com John Mitchell como Xerife e Agnew como Secretário de Saneamento.

 

[1] Nome removido por insistência do advogado do editor.