Medo e Delírio em Las Vegas

Hunter S. Thompson · Capítulo 19 de 26

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Medo e Delírio em Las Vegas

7. Se você não sabe, venha aprender... Se você sabe, venha ensinar

7. Se você não sabe, venha aprender... Se você sabe,

venha ensinar

 

– Lema impresso nos convites para a Convenção Nacional dos

Promotores Públicos em Las Vegas, 25 a 29 de abril de 1971 A primeira sessão – os comentários de abertura – durou quase a tarde inteira. Ficamos sentados pacientemente durante as primeiras duas horas, embora desde o início tenha ficado claro que não Aprenderíamos nada e que – estava igualmente claro – seria um atestado de insanidade tentar Ensinar qualquer coisa. Foi muito fácil ficar sentado ali com a cabeça cheia de mescalina, ouvindo horas e horas de bobagens irrelevantes... não havia risco nenhum. Aqueles pobres coitados não sabiam a diferença entre mescalina e macarrão.

Suspeito que teríamos conseguido fazer a mesma coisa loucos de ácido... se não fossem certas pessoas presentes ali. Aquele grupo continha rostos e corpos que seriam absolutamente insuportáveis sob efeito de ácido. Ver um chefe de polícia de Waco, Texas, com seus 156 quilos, aproveitando para se agarrar com sua esposa (ou sei lá o que era aquela mulher) de 190 quilos quando as luzes se apagaram para um Documentário sobre Tóxicos já era quase intolerável sob o efeito da mescalina – acima de tudo uma droga sensual/superficial, que exagera a realidade em vez de alterá-la. Para uma cabeça cheia de ácido, a visão daqueles dois seres humanos fantasticamente obesos mandando ver em público, cercados por mil policiais atentos a um filme sobre os “perigos da maconha”, não seria emocionalmente aceitável. O cérebro rejeitaria aquilo: a medula tentaria se isolar dos sinais que receberia dos lobos frontais... e enquanto isso o cerebelo estaria desesperado, tentando interpretar aquela cena de outro modo antes de desistir e passar a tarefa para a medula – o que implicaria o risco de tomar providências físicas para acabar com aquilo.

Em seus efeitos, o ácido é uma droga relativamente complexa, enquanto a mescalina é simples e direta. Porém, diante de uma cena dessas, a diferença era teórica. Naquela conferência, a única saída era o consumo maciço de tranquilizantes: Vermelhas, Maconha e Álcool. O programa inteiro da Conferência parecia ter sido organizado por gente presa num estupor de calmantes desde 1964.

Estavam presentes mais de mil promotores e policiais de primeiro escalão. Diziam uns aos outros: “Precisamos ajustar as contas com a cultura das drogas”, mas não faziam ideia de por onde começar. Não conseguiam nem encontrar a tal cultura das drogas. Nos corredores, dizia-se que talvez fosse sustentada pela Máfia. Ou talvez pelos Beatles. Num certo momento, alguém do público perguntou a Bloomquist se ele achava que o “comportamento estranho” de Margaret Mead nos últimos tempos poderia ser explicado por um vício secreto em maconha.

“Não posso afirmar com certeza”, respondeu Bloomquist. “Mas, se alguém da idade dela puxasse fumo, olha, a viagem seria bem grande.”

Esse comentário arrancou uma gargalhada estrondosa do público.

Meu advogado chegou mais perto de mim para avisar que estava saindo. “Vou descer para o cassino”, cochichou. “Conheço infinitas maneiras de desperdiçar meu tempo, e todas são melhores do que ouvir tanta bobagem.” Levantou-se, derrubando o cinzeiro do braço da cadeira, e avançou em direção à porta.

Mas os lugares não tinham sido dispostos para facilitar movimentações a esmo. As pessoas tentaram abrir caminho, mas não havia espaço para se mexer.

“Cuidado aí!”, alguém gritou ao levar um encontrão do meu advogado.

“Vá se foder!”, ele rosnou.

“Lá na frente!”, outra pessoa gritou.

Meu advogado, a essa altura, já estava quase na porta. “Preciso sair daqui!”, berrou. “Este não é meu lugar!”

“Já vai tarde”, disse alguém.

Meu advogado se deteve e olhou ao seu redor – então pensou melhor e continuou andando. Assim que chegou à saída, o fundo do salão tinha virado um pandemônio. Até mesmo Bloomquist, de cima do palanque, pareceu notar que algo estava acontecendo ao longe. Parou de falar e olhou nervosamente na direção do ruído. Deve ter achado que uma briga tinha começado – talvez algum tipo de conflito racial ou qualquer outra coisa inevitável.

Levantei e caminhei direto para a porta. Parecia um bom momento para escapar. “Perdão, estou enjoado”, falei para o dono da primeira perna em que tropecei. Quando ele se encolheu, repeti: “Desculpe, acho que vou vomitar... desculpe, vou vomitar... perdão, sim, estou enjoado...”.

Dessa vez o caminho se abriu sem dificuldades, sem uma única palavra de protesto. Recebi até a ajuda de mãos anônimas. Ficaram com medo ao saber que eu estava prestes a vomitar. Ninguém queria isso – pelo menos não em cima de si. Levei uns 45 segundos para chegar à porta.

Meu advogado estava no andar de baixo, no bar. Conversava com um sujeito de uns quarenta anos, com aparência extravagante, cujo crachá anunciava ser promotor público em algum lugar na Geórgia. “Meu negócio é uísque”, dizia ele. “Não temos muitos problemas com drogas lá de onde eu venho.”

“Mas terão”, respondeu meu advogado. “Qualquer noite dessas você vai acordar e encontrar um viciado destruindo seu quarto.”

“Que nada!”, desdenhou o cara da Geórgia. “Não lá na minha terra.”

Juntei-me a eles e pedi um copo grande de rum com gelo.

“Você é outro garoto da Califórnia, né?”, comentou o promotor. “Seu amigo aqui tá me falando de maconheiros.”

“Estão por todo lugar”, falei. “Ninguém está a salvo. Nem mesmo no Sul, pode apostar. Eles gostam do clima quente.”

“Trabalham em dupla”, disse meu advogado. “E às vezes em gangues. Entram direto no seu quarto e sentam em cima de você com facões enormes.” Sacudiu a cabeça com um ar solene. “Podem até sentar em cima da sua mulher – e enfiar a lâmina na garganta dela.”

“Jesus Todo-Poderoso”, exclamou o sulista. “Que diabo tá acontecendo com este país?”

“Você nunca ia acreditar”, disse meu advogado. “Em Los Angeles o negócio anda fora de controle. Primeiro foram as drogas, agora é a bruxaria.”

“Bruxaria? Porra, você não tá falando sério!”

“Leia os jornais”, falei. “Cara, você não viu nada até precisar enfrentar um bando de viciados totalmente loucos por sacrifício humano!”

“Que nada!”, ele desdenhou. “Isso aí é ficção científica!”

“Não onde nós trabalhamos”, insistiu meu advogado. “Caralho, só em Malibu esses satanistas filhos da puta matam seis ou oito pessoas por dia.” Fez uma pausa para bebericar seu drinque. “Só pensam em sangue”, continuou. “Atacam gente na rua se for preciso.” Sacudiu a cabeça. “Pode apostar. Um dia desses tivemos um caso em que eles pegaram uma garota num McDonald’s. Uma garçonete de uns dezesseis anos... e muita gente viu!”

“E o que aconteceu?”, quis saber nosso amigo. “O que fizeram com ela?” Parecia muito perplexo com o que ouvia.

“O que fizeram?”, repetiu meu advogado. “Jesus Cristo. Deceparam a cabeça da infeliz no meio do estacionamento! Aí esburacaram ela todinha e sugaram o sangue da coitada!”

“Deus Todo-Poderoso!”, exclamou o cara da Geórgia... “E ninguém fez nada?”

“E o que poderiam fazer?”, falei. “O sujeito que cortou a cabeça tinha uns dois metros de altura e pesava uns 140 quilos. Tinha duas pistolas Luger. Os outros estavam com fuzis M-16. Eram todos veteranos...”

“O grandalhão tinha sido um major dos marines”, explicou meu advogado. “Sabemos onde ele mora, mas não podemos chegar nem perto.”

“Que nada!”, berrou nosso amigo. “Um major não faria isso!”

“Ele queria a glândula pineal”, falei. “Foi assim que ficou tão grande. Quando deixou os marines, o sujeito era um tampinha.”

“Ai, meu Deus!”, exclamou nosso amigo. “Que horrível!”

“Acontece todos os dias”, disse meu advogado. “Geralmente envolve famílias inteiras. Durante a noite. A maioria nem acorda até sentir que tá perdendo a cabeça – e aí, claro, já é tarde demais.”

O garçom prestava atenção no que dizíamos. Eu estava de olho nele. Não parecia nada calmo.

“Mais três doses de rum”, pedi. “Com muito gelo e uns pedações de lima.”

Ele assentiu com a cabeça, mas dava para notar que não estava concentrado no trabalho. Olhava para nossos crachás. “Vocês estão participando daquela convenção da polícia?”, perguntou enfim.

“Pode apostar, amigo”, respondeu o cara da Geórgia, abrindo um sorriso enorme.

O garçom sacudiu a cabeça, triste. “Imaginei”, falou. “Nunca tinha ouvido esse tipo de conversa aqui no bar. Jesus Cristo! Como vocês aguentam esse trabalho?”

Meu advogado sorriu. “Nós gostamos”, respondeu. “É divertido.”

O garçom recuou; seu rosto havia se transformado numa máscara de repugnância.

“Qual é o seu problema?”, perguntei. “Ora, alguém precisa fazer esse trabalho.”

Ele me encarou por um momento e se afastou.

“Traz logo esses drinques”, disse meu advogado. “Estamos com sede.” Deu risada e revirou os olhos quando o garçom voltou a olhá-lo. “Só duas doses de rum”, falou. “Eu quero um bloody mary bem vermelho.”

O garçom pareceu congelar, mas nosso amigo sulista nem notou. Sua mente estava em outro lugar. “Nossa, é realmente horrível saber disso”, comentou, em voz baixa. “Porque tudo que acontece na Califórnia acaba chegando à Geórgia mais cedo ou mais tarde. Geralmente parava em Atlanta, mas acho que isso ocorria quando os desgraçados eram pacíficos. Antigamente só precisávamos ficar de olho neles. Eles não saíam por aí armando confusão...” Deu de ombros. “Mas agora ninguém está a salvo, meu Jesus. Eles podem aparecer em qualquer lugar.”

“Tem razão”, disse meu advogado. “Aprendemos isso na Califórnia. Tá lembrado de onde o Manson apareceu, né? Bem no meio do Vale da Morte. Tinha um exército inteiro desses tarados por lá. Só pegamos alguns. A maioria escapou correndo pelas dunas como lagartos enormes... todos completamente nus e com armas na mão.”

“Não vai demorar pra que apareçam em algum lugar”, falei. “E vamos torcer pra que a gente esteja preparado.”

O cara da Geórgia deu um soco no balcão. “Mas não podemos ficar trancados em casa, como se fôssemos prisioneiros!”, exclamou. “Nem sabemos quem é essa gente! Como podemos reconhecê-los!”

“Não podemos”, respondeu meu advogado. “O único jeito é pegar o touro pelos chifres – sair na porrada com essa ralé!”

“Como assim?”, ele quis saber.

“Você sabe do que eu tô falando”, insistiu meu advogado. “Já fizemos isso antes e podemos fazer de novo, porra.”

“Cortar a cabeça deles”, expliquei. “De todos eles. É o que estamos fazendo na Califórnia.”

“O quê?”

“É isso aí”, disse meu advogado. “É tudo por debaixo dos panos, mas todo mundo que importa está do nosso lado.”

“Nossa! Eu não sabia que as coisas andavam tão feias por lá!”, disse nosso amigo.

“Não fazemos alarde”, falei. “Não é o tipo de coisa que se pode falar na Conferência, por exemplo. Não com a imprensa por perto.”

Nosso amigo concordou. “Claro que não!”, exclamou. “Isso causaria problemas intermináveis.”

“Dobermanns não falam”, eu disse.

“Hein?”

“Às vezes é mais fácil soltar as coleiras”, disse meu advogado. “Se você tentar decapitar esses malucos sem ajuda de cães, eles lutam como demônios.”

“Deus Todo-Poderoso!”

Deixamos o sujeito no balcão, girando o gelo no copo, com o rosto completamente sério. Estava pensando se contaria aquelas coisas para sua mulher. “Ela nunca entenderia”, balbuciou. “Sabe como são as mulheres.”

Assenti com a cabeça. Meu advogado já tinha desaparecido, escapando por um labirinto de caça-níqueis até a porta de entrada. Eu disse adeus ao nosso amigo e o adverti para que não falasse nada sobre o que havíamos conversado.