Medo e Delírio em Las Vegas

Hunter S. Thompson · Capítulo 1 de 26

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Medo e Delírio em Las Vegas

Capítulo 1

Estávamos em algum lugar perto de Barstow, à beira do deserto, quando as drogas começaram a fazer efeito. Lembro que falei algo como “estou meio tonto; acho melhor você dirigir...” E de repente fomos cercados por um rugido terrível, e o céu se encheu de algo que pareciam morcegos imensos, descendo, guinchando e mergulhando ao redor do carro, que avançava até Las Vegas a uns 160 por hora, com a capota abaixada. E uma voz gritava: “Jesus Santíssimo! Que diabo são esses bichos?”.

Então o silêncio voltou. Meu advogado tinha tirado a camisa e estava derramando cerveja no peito para facilitar o processo de bronzeamento. “Por que você tá gritando, porra?”, resmungou, olhando para o sol com os olhos fechados e protegidos por óculos escuros espanhóis que se ajustavam à cabeça. “Deixa pra lá”, respondi. “É sua vez de dirigir.” Pisei no freio e conduzi o Grande Tubarão Vermelho até o acostamento da rodovia. Melhor nem citar os morcegos, pensei. Não ia demorar para que o infeliz também os visse.

Era quase meio-dia e ainda tínhamos cerca de duzentos quilômetros pela frente. Seriam quilômetros difíceis. Eu sabia que muito em breve nós dois estaríamos completamente alucinados. Mas não havia mais volta, nem tempo para descansar. Precisávamos seguir em frente. O credenciamento de imprensa para a fabulosa Mint 400 já tinha começado, e precisávamos chegar até as quatro para ter direito à nossa suíte à prova de som. Uma revista esportiva de Nova York, muito na moda, tinha providenciado as reservas e aquele imenso conversível vermelho da Chevrolet, alugado na Sunset Strip... e, afinal de contas, eu era um jornalista profissional; portanto, por bem ou por mal, tinha a obrigação de cobrir a matéria.

Dos trezentos dólares em dinheiro fornecidos pelos editores da revista, quase tudo já tinha sido gasto em drogas altamente perigosas. O porta-malas do carro mais parecia um laboratório móvel do departamento de narcóticos. Tínhamos dois sacos de maconha, 75 bolinhas de mescalina, cinco folhas de ácido de alta concentração, um saleiro cheio até a metade com cocaína e mais uma galáxia inteira de pílulas multicoloridas, estimulantes, tranquilizantes, berrantes, gargalhantes... além de um litro de tequila, outro de rum, uma caixa de Budweiser, meio litro de éter puro e duas dúzias de amilas.

Tudo isso tinha sido coletado na noite anterior, durante um passeio em alta velocidade por todo o condado de Los Angeles – de Topanga a Watts, pegando qualquer coisa em que conseguíssemos pôr as mãos. Não que precisássemos de tudo aquilo para a viagem, mas, quando alguém se dedica de verdade à tarefa de montar um suprimento de drogas, a tendência é levar a coisa a sério.

Só o éter me preocupava de verdade. Nada neste mundo é mais inútil, irresponsável e depravado que um homem completamente chapado de éter. E eu sabia que não iria demorar muito para usarmos aquela porcaria. Talvez acontecesse no próximo posto de gasolina. Já tínhamos experimentado quase tudo, e agora... sim, havia chegado a hora de dar uma boa cafungada no éter. E então dirigir por 150 quilômetros num estupor horrendo, babando como se tivéssemos paralisia cerebral. Quando alguém está chapado de éter, a única maneira de se manter alerta é tomar um monte de amilas – mas não de uma só vez. Tem que ser aos poucos, apenas para manter o foco enquanto cruzamos Barstow a 140 por hora.

“Cara, é assim que se viaja”, comentou meu advogado, e se inclinou para aumentar o volume do rádio. Cantarolou a melodia e meio que resmungou a letra: “One toke over the line, Sweet Jesus... One toke over the

line...”[1]

One toke? Pobre infeliz! Espera só até você enxergar aqueles morcegos desgraçados. Eu mal conseguia escutar o rádio... estava quase deitado no banco do carro, brigando com um gravador tocando “Sympathy for the Devil” no último volume. Era nossa única fita. Escutávamos aquilo o tempo inteiro, sem parar, numa espécie de contraponto demente ao som que saía do rádio. E servia também para manter o ritmo na estrada. Uma velocidade constante faz a gasolina render mais – e naquela hora, por algum motivo, isso parecia importante. De fato. Nesse tipo de viagem, é obrigatório fazer a gasolina render. Evitar as aceleradas violentas que jogam o sangue para o fundo do cérebro.

Meu advogado enxergou o sujeito que pedia carona bem antes de mim. “Vamos dar uma carona pro garoto”, falou, e antes que eu pudesse discutir ele parou o carro. Um pobre rapaz caipira se aproximou correndo, com um sorriso enorme no rosto. “Pela madrugada!”, exclamou. “Nunca andei num conversível!”

“É mesmo?”, perguntei. “Bem, acho que agora é sua chance, né?”

O garoto concordou com a cabeça, empolgado, e arrancamos cantando pneu.

“Somos seus amigos”, falou meu advogado. “Somos diferentes dos outros.”

Jesus, pensei, ele já saiu de órbita. “Chega desse papo”, cortei. “Senão boto as sanguessugas em você.” Meu advogado riu, parecendo entender. Por sorte, eram tantos ruídos no carro – o vento, o rádio, o gravador – que, no banco de trás, o garoto não ouvia uma só palavra do que estávamos dizendo. Ou será que ouvia?

Por quanto tempo conseguiríamos nos controlar?, eu me perguntava. Quanto tempo vai demorar até um de nós começar a tagarelar e encher o saco desse garoto? Este deserto solitário foi o último lar conhecido da família Manson. Será que o garoto vai fazer essa relação quando meu advogado começar a berrar sobre morcegos e jamantas imensas mergulhando dos céus na direção do carro? Se fizer... bem, nesse caso vamos ser obrigados a decepar sua cabeça e enterrar o cadáver em algum lugar. Porque nem preciso dizer que não seria possível deixar o garoto à solta. Ele nos denunciaria na hora para algum órgão de segurança pública tacanho e nazista. Viriam atrás da gente como cães de caça.

Jesus! Será que falei isso? Ou só pensei? Eu estava falando? Será que me ouviram? Olhei de relance para o meu advogado, mas ele parecia tranquilo – atento à estrada, dirigindo nosso Grande Tubarão Vermelho a uns 180 por hora. Do banco de trás não vinha nenhum som.

Talvez seja melhor bater um papo com esse garoto, pensei. Se eu explicar algumas coisas, talvez ele fique calmo.

É claro. Eu me virei no banco e abri um sorriso enorme... admirando o formato do seu crânio.

“Por sinal”, comecei, “acho importante você entender uma coisa.”

Ele me encarou sem piscar. Estaria rangendo os dentes?

“Está me ouvindo?”, gritei.

Ele fez que sim com a cabeça.

“Ótimo”, falei. “Porque você precisa saber que estamos a caminho de Las Vegas pra encontrar o Sonho Americano.” Sorri. “Por isso alugamos este carro. Era a única maneira. Entendeu?”

Ele mexeu a cabeça novamente, mas notei certo nervosismo em seus olhos.

“Quero contar tudo pra você”, continuei. “Porque estamos numa missão bastante assustadora – com nuances de grande perigo... Porra, eu tinha me esquecido da cerveja. Quer uma?”

Ele sacudiu a cabeça.

“E que tal um pouco de éter?”, perguntei.

“Hein?”

“Nada. Vamos direto ao que interessa. Olha, umas 24 horas atrás a gente estava no Polo Lounge do hotel Beverly Hills – ao ar livre, é claro. Estávamos apenas sentados ali, debaixo de uma palmeira. Aí um anão de uniforme chegou perto de mim, carregando um telefone cor-de-rosa, e disse: ‘Este deve ser o telefonema pelo qual o senhor esperou a vida toda’.”

Dei risada e abri uma cerveja que encheu o banco de trás de espuma. Continuei falando. “E sabe da melhor? Ele tinha razão! Eu estava mesmo esperando aquele telefonema, mas não fazia ideia de onde ele viria. Está entendendo?”

O rosto do garoto tinha virado uma máscara de puro medo e confusão.

Segui adiante: “Você precisa saber que este homem ao volante é o meu advogado! Não é um paspalho qualquer que encontrei na Strip. Porra, olha bem pra ele! Não é parecido comigo nem com você, né? É que ele é estrangeiro. Samoano, acho. Mas isso não importa, né? Você é preconceituoso?”.

“Claro que não!”, o garoto se apressou em responder.

“Imaginei”, eu disse. “Porque, apesar da raça, este homem é muito valioso pra mim.” Olhei de relance para o meu advogado, mas sua mente estava longe dali.

Dei um murro no banco do motorista. “Isso é importante, porra! É uma história real!” O carro derrapou e voltou a se endireitar. “Tira a mão do meu pescoço, caralho!”, berrou meu advogado. No banco de trás, o garoto parecia disposto a correr o risco de saltar do carro em movimento.

Estávamos recebendo vibrações escrotas – mas por quê? Fiquei perplexo, frustrado. Não havia comunicação naquele veículo? Tínhamos regredido ao nível de bestas de carga?

Porque minha história era real. Disso eu tinha certeza. E era muitíssimo importante, na minha opinião, tornar absolutamente claro o sentido de nossa jornada. Nós realmente estávamos sentados no Polo Lounge – fazia muitas horas – bebendo singapore slings e mescal, rebatendo tudo com cerveja. E graças a isso eu estava no ponto quando recebi o telefonema.

Lembro que o Tampinha parecia cauteloso ao se aproximar da nossa mesa. Quando me estendeu o telefone cor-de-rosa, eu não disse nada, só escutei. Então desliguei e olhei bem para o meu advogado. “Era a base”, expliquei. “Querem que eu vá agora mesmo pra Las Vegas e entre em contato com um fotógrafo português chamado Lacerda. Mais detalhes, só com ele. Tudo que preciso fazer é me instalar na suíte, aí ele aparece pra falar comigo.”

Por um instante meu advogado não disse nada, até começar a se remexer na cadeira. “Puta que caralho!”, exclamou. “Acho que estou captando. Isso aí parece confusão!” Enfiou a camiseta cáqui para dentro das calças boca de sino de raiom branco e pediu mais alguns drinques. “Você vai precisar de muita consultoria legal pra resolver essa história”, falou. “E minha primeira recomendação é alugar um carro bem veloz, sem capota, e cair fora de Los Angeles por no mínimo 48 horas.” Sacudiu a cabeça, desanimado. “Isso estraga o meu final de semana, porque é óbvio que vou ter que ir com você – e precisamos estocar munição.”

“E por que não?”, concordei. “Se vale a pena fazer uma coisa dessas, então façamos direito. Vamos precisar de um equipamento decente e muito dinheiro vivo – no mínimo pra comprar drogas e um gravador supersensível que me permita fazer um registro permanente.”

“E qual é a pauta?”, meu advogado quis saber.

“Preciso cobrir a Mint 400”, expliquei. “É a maior corrida off-road de motocicletas e buggies da história das competições esportivas – um espetáculo fantástico em honra de um grossero balofo chamado Del Webb, proprietário do luxuoso hotel Mint, no coração de Las Vegas... pelo menos é o que diz o release; meu contato em Nova York acabou de ler pelo telefone.”

“Bem”, falou, “como seu advogado, recomendo que compre uma motocicleta. É o único jeito de cobrir um evento desses da maneira correta.”

“Tem razão”, concordei. “Mas onde vamos conseguir uma Vincent Black Shadow?”

“O que é isso?”

“Uma moto fantástica”, expliquei. “O novo modelo tem umas duas mil cilindradas, chegando a duzentos cavalos a quatro mil rpm, estrutura de magnésio com dois bancos de poliestireno e um peso total de exatamente noventa quilos.”

“Parece ideal pra essa missão”, comentou.

“E é mesmo”, confirmei. “É meio ruim nas curvas, mas, porra, nas retas ela é um demônio. Ultrapassa até um F-111 durante a decolagem.”

“Decolagem?”, perguntou. “E a gente aguenta tudo isso?”

“Claro”, garanti. “Vou ligar pra Nova York e pedir a grana.”

[1] “One Toke Over The Line”, de Brewer & Shipley. Em tradução literal: “Uma tragada sobre a linha do trem, meu doce Jesus... Uma tragada sobre a linha do trem...”. Há um duplo sentido aqui, já que coloquialmente “one toke over the line” também pode significar algo como “fui longe demais”. (N.T.)