O Bazar dos Sonhos Ruins
Ur
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Onde, exatamente? Algum outro plano de realidade chamado Ur (ou talvez UR) 1971974?
Wesley não tinha mais forças para chamar essa ideia de ridícula e deixá-la de lado. Mas tinha o suficiente para ir até a geladeira pegar uma cerveja. Da qual ele precisava. Abriu a tampa, bebeu metade em cinco goles longos, arrotou. Sentou-se, sentindo-se um pouco melhor. Selecionou a nova aquisição (U$ 7,50 é um valor bem barato por um Hemingway não descoberto, pensou ele), e uma folha de rosto apareceu. A página seguinte tinha uma dedicatória: Para Sy e Mary, com amor. Logo depois:
Capítulo 1
A vida de um homem tinha cinco cachorros de duração, acreditava Cortland. O
primeiro era o que ensinava. O segundo era o que aprendia com você. O terceiro
e o quarto eram os que trabalhavam para você. O último era o que viveria mais
que você. Esse era o cachorro do inverno. O cachorro do inverno de Cortland era
Negrita, mas ele só pensava nele como o cachorro espantalho…
Líquido subiu pela garganta de Wesley. Ele correu até a pia, se inclinou e lutou para manter a cerveja no estômago. A garganta se acalmou, e em vez de ligar a torneira para limpar o vômito, ele juntou as mãos sob o fluxo de água e jogou na pele suada. Assim era melhor.
Ele voltou para o Kindle e ficou olhando para a tela.
A vida de um homem tinha cinco cachorros de duração, acreditava Cortland.
Em algum lugar, em alguma faculdade bem mais ambiciosa que a Moore no Kentucky, havia um computador programado para ler livros e identificar os escritores pelos tiques estilísticos, que supostamente eram tão individuais quanto impressões digitais e flocos de neve. Wesley tinha uma lembrança vaga de que esse programa de computador havia sido usado para identificar o autor de um romance escrito sob o pseudônimo Primary Colors; o programa avaliou milhares de escritores em questão de horas ou dias e chegou ao colunista de revistas chamado Joe Klein, que mais tarde admitiu a autoria.
Wesley pensou que, se enviasse Os cães de Cortland para o computador, o programa cuspiria o nome de Ernest Hemingway. Na verdade, achava que um computador nem seria necessário.
Ele pegou o Kindle com mãos trêmulas.
— O que você é? — perguntou ele.
III – WESLEY SE RECUSA A FICAR LOUCO
Na verdadeira escuridão da alma, disse Scott Fitzgerald, são sempre três horas da manhã, dia após dia.
Às três horas da manhã daquela terça, Wesley estava acordado, sentindo-se febril e se perguntando se podia estar ficando louco. Ele tinha se obrigado a desligar o Kindle cor-de-rosa e a colocá-lo de volta na pasta uma hora antes, mas o poder de atração continuava tão intenso quanto à meia-noite, quando ainda estava mergulhado profundamente no menu de Livros Ur.
Ele procurou Ernest Hemingway em vinte e quatro dos quase dez milhões e meio de Ur do Kindle e encontrou pelo menos vinte romances dos quais nunca tinha ouvido falar. Em um dos Ur (por acaso era o 2061949, a data de nascimento de sua mãe), Hemingway parecia ser escritor de livros policiais. Wesley baixou um título chamado É sangue, minha querida! e encontrou o texto simplista de um romance policial… mas escrito em frases curtas e de efeito que ele teria reconhecido em qualquer lugar.
Frases de Hemingway.
E, mesmo como escritor de livros policiais, Hemingway abandonou as guerras de gangue e as mulheres traiçoeiras e amantes de sangue por tempo suficiente para escrever Adeus às armas, ao que parecia: outros títulos iam e vinham, mas Adeus às armas sempre estava presente, enquanto O velho e o mar só aparecia às vezes.
Ele tentou Faulkner.
Faulkner não estava em nenhum dos Ur.
Ele verificou o menu comum do Kindle e descobriu vários Faulkner. Mas só nesta realidade, ao que parecia.
Nesta realidade?
A mente dele deu um nó.
Ele verificou Roberto Bolaño, o autor de 2666, e apesar de não estar disponível no menu normal do Kindle, estava listado em vários submenus de Livros Ur. Assim como outros romances de Bolaño, inclusive (em Ur 101) um livro com o título pitoresco de Marilyn chupa Fidel. Ele quase baixou esse, mas mudou de ideia. Tantos autores, tantos Ur, tão pouco tempo.
Parte da mente dele (distante, mas autenticamente apavorada) continuava a insistir que era tudo uma piada elaborada que tinha surgido da imaginação de algum programador maluco. Mas as evidências, que ele continuou a compilar enquanto aquela longa noite passava, sugeriam o contrário.
James Cain, por exemplo. No Ur em que Wesley verificou, ele tinha morrido excessivamente jovem, depois de ter produzido apenas dois livros: Cair da noite (um novo) e A história de Mildred Pierce (um antigo). Wesley teria apostado em O destino bate à sua porta como o livro constante de Cain, seu romance ur, por assim dizer, mas não. Apesar de verificar Cain em mais de dez Ur, só encontrou O destino bate à sua porta uma vez. Mildred Pierce, por outro lado, uma obra que Wesley considerava inferior, estava sempre presente. Como Adeus às armas.
Ele verificou o próprio nome e descobriu o que temia: embora os Ur estivessem abarrotados de Wesley Smiths (um parecia ser escritor de faroestes, outro autor de livros pornográficos como Festa das calcinhas em Pittsburgh), nenhum parecia ser ele. Claro que era difícil ter cem por cento de certeza, mas parecia que ele esbarrara com 10,4 milhões de realidades alternativas e era um fracassado não publicado em todas.
Bem desperto na cama, ouvindo um cachorro solitário latindo ao longe, Wesley começou a tremer. Suas aspirações literárias pareciam menores naquele momento. O que parecia importante, o que pairava sobre sua vida e sanidade, eram as riquezas escondidas naquele objeto fino de plástico cor-de-rosa. Ele pensou em todos os escritores cujas mortes lamentou, de Norman Mailer e Saul Bellow a Donald Westlake e Evan Hunter; um após o outro, Tânato sufocou suas vozes mágicas e eles não falavam mais.
Mas agora, podiam.
Podiam falar com ele.
Wesley afastou as cobertas. O Kindle o estava chamando, mas não com uma voz humana. Parecia um coração batendo, o coração delator de Poe, vindo de dentro da pasta em vez de debaixo do piso, e…
Poe!
Jesus Cristo, ele não verificou Poe!
Ele tinha largado a pasta onde sempre a deixava, ao lado de sua poltrona favorita. Correu até lá, abriu-a, pegou o Kindle e o ligou na tomada (não queria correr o risco de ficar sem bateria). Ele clicou em LIVROS UR, digitou o nome de Poe e, na primeira tentativa, encontrou um Ur, 2555676, onde Poe viveu até 1875 em vez de morrer aos quarenta anos em 1849. E nessa versão, Poe escreveu mais romances! Seis! O coração de Wesley foi tomado de ganância enquanto os olhos percorriam os títulos.
Um se chamava A casa da vergonha, ou o preço da degradação. Wesley fez o download (o preço era só U$ 4,95) e leu até o amanhecer. Depois disso, desligou o Kindle cor-de-rosa, apoiou a cabeça nos braços e dormiu por duas horas à mesa da cozinha.
Ele também sonhou. Não com imagens, mas palavras. Títulos! Linhas infinitas de títulos, muitos deles obras não descobertas da literatura. Tantos títulos quanto estrelas no céu.
Wesley passou bem pela terça e pela quarta-feira — de alguma forma —, mas durante a aula de introdução à literatura americana de quinta-feira, a fadiga e a empolgação excessiva o afetaram. Sem mencionar o desapego cada vez maior com a realidade. Na metade da aula sobre o Mississippi (que ele costumava dar com um grau alto de animação), sobre o fato de Hemingway estar rio abaixo de Twain e que quase toda a ficção americana do século XX estava rio abaixo de Hemingway, ele se pegou dizendo para a turma que Papa nunca tinha escrito uma grande história sobre cachorros, mas, se não tivesse morrido, teria escrito.
— Alguma coisa mais apetitosa do que Marley e eu — explicou ele, e riu com alegria irritante.
Ele deu as costas ao quadro e viu vinte e dois pares de olhos o observando com graus variados de preocupação, perplexidade e diversão. Ouviu um sussurro, baixo, mas claro como o batimento do coração do velho aos ouvidos do narrador louco de Poe:
— Smithy está com uns parafusos soltos.
Smithy ainda não estava com uns parafusos soltos, mas não podia haver dúvida de que estava correndo o risco de perdê-los.
Eu me recuso, pensou ele. Eu me recuso, eu me recuso. E percebeu, para seu horror, que estava murmurando isso baixinho.
O garoto Henderson, que estava sentado na primeira fila, tinha ouvido.
— Sr. Smith? — Ele hesitou. — Senhor? Está tudo bem?
— Está — respondeu Wesley. — Não. Acho que um bicho me mordeu. — O escaravelho de ouro de Poe, pensou ele, e quase não conseguiu segurar uma crise de risos histéricos. — Turma dispensada. Vão, saiam logo daqui.
E, enquanto os alunos saíam pela porta, ele teve a presença de espírito de acrescentar:
— Raymond Carver semana que vem! Não se esqueçam! “De onde estou ligando”!
E pensou: O que mais existe de Raymond Carver nos mundos de Ur? Tem um (ou dez, ou mil) em que ele parou de fumar, viveu até os setenta anos e escreveu mais uns seis livros?
Ele se sentou à mesa, pegou a pasta com o Kindle cor-de-rosa dentro, mas afastou a mão. Esticou de novo, se impediu de novo e gemeu. Era como uma droga. Ou uma obsessão sexual. Isso o fez pensar em Ellen Silverman, algo que ele não fazia desde que descobriu os menus escondidos do Kindle. Pela primeira vez desde que saiu da casa dele, Ellen tinha desaparecido de sua mente.
Irônico, não é? Agora, estou lendo no computador, Ellen, e não consigo parar.
— Eu me recuso a passar o resto do dia olhando aquela coisa — disse ele —, e me recuso a ficar maluco. Eu me recuso a olhar e me recuso a ficar maluco. Olhar ou ficar maluco. Me recuso a fazer as duas coisas. Eu…
Mas o Kindle estava na mão dele! Ele o pegou mesmo enquanto negava seu poder sobre ele! Quando fez isso? E pretendia mesmo ficar sentado ali naquela sala vazia, pensando no assunto?
— Sr. Smith?
A voz o assustou de tal forma que ele largou o Kindle na mesa. Pegou de volta na mesma hora e o examinou, morrendo de medo de tê-lo quebrado, mas estava tudo bem. Graças a Deus.
— Eu não queria assustar o senhor. — Era o garoto Henderson, de pé na porta, com expressão preocupada. Isso não surpreendeu Wesley. Se eu me visse agora, provavelmente também estaria preocupado.
— Ah, você não me assustou — disse Wesley. Essa mentira óbvia soou engraçada, e ele quase riu. Colocou a mão na boca para segurar a gargalhada.
— O que houve? — O garoto Henderson deu um passo para dentro da sala. — Está doente? Porque o senhor está com uma aparência péssima. Recebeu uma notícia ruim ou alguma coisa assim?
Wesley quase disse para ele ir cuidar da própria vida, parar de encher o saco e dar o fora, mas a parte apavorada que estava encolhida no canto mais distante de seu cérebro, insistindo que o Kindle cor-de-rosa era uma pegadinha ou a primeira etapa de um golpe elaborado, decidiu parar de se esconder e começar a agir.
Se você realmente se recusa a ficar louco, é melhor fazer alguma coisa sobre isso, disse ele. Que tal?
— Qual é o seu primeiro nome, sr. Henderson? Fugiu totalmente à minha mente.
O garoto sorriu. Foi um sorriso agradável, mas a preocupação ainda estava nos olhos dele.
— Robert, senhor. Robbie.
— Bem, Robbie, eu sou Wes, e quero mostrar uma coisa. Você não vai ver nada, o que vai querer dizer que estou maluco e provavelmente sofrendo um colapso nervoso, ou você vai ver uma coisa que vai fazê-lo surtar. Pode me acompanhar ao meu escritório?
Henderson tentou fazer algumas perguntas enquanto eles atravessavam a praça medíocre da Moore. Wesley se esquivou delas, mas ficou feliz de Robbie Henderson ter voltado para a sala e também aliviado de a parte apavorada de sua mente ter tomado a iniciativa e falado. Sentia-se melhor sobre o Kindle agora, mais seguro, do que em qualquer outro momento desde que descobriu os menus escondidos. Em uma história, Robbie Henderson não veria nada e o protagonista concluiria que estava ficando louco. Ou que já estava. Wesley quase torceu por isso, porque…
Porque quero que seja fantasia. Se for, e se com a ajuda desse jovem eu puder reconhecer isso, tenho certeza de que posso evitar enlouquecer. E eu me recuso a ficar louco.
— Está falando sozinho, sr. Smith — disse Robbie. — Quer dizer, Wes.
— Desculpe.
— Está me assustando um pouco.
— Eu também estou me assustando um pouco.
Don Allman estava no escritório, com fones de ouvido, corrigindo provas e cantando sobre o sapo Jeremiah com uma voz que passava dos limites do desafinado e entrava no terreno inexplorado do verdadeiramente execrável. Ele desligou o iPod quando viu Wesley.
— Achei que você tivesse aula.
— Cancelei. Este é Robert Henderson, um dos meus alunos de literatura americana.
— Robbie — disse Henderson, oferecendo a mão.
— Oi, Robbie. Sou Don Allman. Um dos irmãos Allman menos conhecidos. Eu toco uma tuba irada.
Robbie riu por educação e apertou a mão de Don Allman. Até aquele momento, Wesley estava planejando pedir pra Don sair, pensando que uma única testemunha para o seu colapso mental bastaria. Mas talvez esse fosse um daqueles casos raros em que quanto mais melhor.
— Precisam de privacidade? — perguntou Don.
— Não — respondeu Wesley. — Fique. Quero mostrar uma coisa para vocês. E, se não virem nada e eu vir alguma coisa, vou ficar feliz em me registrar na ala psiquiátrica do Central State.
Ele abriu a pasta.
— Caramba! — exclamou Robbie. — Um Kindle cor-de-rosa! Irado! Eu nunca vi um assim!
— Agora vou mostrar outra coisa que vocês nunca viram — disse Wesley. — Pelo menos, acho que vou.
Ele botou o Kindle na tomada e o ligou.
O que convenceu Don Allman foi a Obra reunida de William Shakespeare do Ur 17000. Depois de fazer o download a pedido de Don (porque, naquele Ur em particular, Shakespeare morreu em 1620 e não em 1616), os três homens descobriram duas peças novas. Uma se chamava Duas damas de Hampshire, uma comédia que parecia ter sido escrita logo depois de Júlio César. A outra era uma tragédia chamada Um sujeito negro em Londres, escrita em 1619. Wesley abriu essa e (com certa relutância) entregou o Kindle para Don.
Don Allman era normalmente um sujeito de bochechas coradas que sorria muito, mas, enquanto virava as páginas do primeiro e do segundo atos de Um sujeito negro em Londres, ele perdeu o sorriso e a cor. Depois de vinte minutos, durante os quais Wesley e Robbie ficaram observando em silêncio, ele empurrou o Kindle de volta para o dono. Fez isso com as pontas dos dedos, como se não quisesse tocar no aparelho.
— E aí? — perguntou Wesley. — Qual é o veredito?
— Pode ser uma imitação — respondeu Don —, mas é claro que sempre houve quem alegasse que as peças de Shakespeare não foram escritas por Shakespeare. Alguns acadêmicos acreditam que foi Christopher Marlowe… Francis Bacon… até o Conde de Derby…
— É, e James Frey escreveu Macbeth — interrompeu Wesley. — O que você acha?
— Acho que isso pode ser um Shakespeare autêntico — disse Don. Ele parecia à beira das lágrimas. Ou das gargalhadas. Talvez as duas coisas. — Acho elaborado demais para uma brincadeira. Se for uma fraude, não tenho ideia de como o esquema funciona. — Ele esticou um dedo para o Kindle, tocou no aparelho de leve e se afastou. — Eu teria que estudar as duas peças com atenção, com trabalhos de referência à mão, para ter certeza absoluta, mas… tem a cadência dele.
Robbie Henderson, no fim das contas, tinha lido quase todos os livros de mistério e suspense de John D. MacDonald. Na listagem de obras de MacDonald no Ur 2171753, ele encontrou dezessete livros no que era chamado “série Dave Higgins”. Todos os títulos faziam referência a cores.
— Essa parte está certa — disse Robbie —, mas os títulos estão todos errados. E o personagem de série de John D. se chamava Travis McGee, não Dave Higgins.
Wesley comprou um chamado O lamento azul, pagando mais U$ 4,50 no cartão de crédito, e empurrou o Kindle para Robbie quando o livro foi acrescentado à biblioteca crescente que era o Kindle de Wesley. Enquanto Robbie lia, primeiro o começo e depois pulando algumas partes, Don foi até o escritório principal e trouxe três cafés. Antes de se acomodar à sua mesa, ele pendurou a plaquinha pouco usada de REUNIÃO EM ANDAMENTO NÃO PERTURBE na porta.
Robbie levantou o olhar, quase tão pálido quanto Don ficou depois de mergulhar na peça nunca escrita de Shakespeare sobre o príncipe africano que era levado acorrentado para Londres.
— Isso é muito parecido com um livro da série Travis McGee chamado Pale Grey of Guilt — disse ele. — Só que Travis McGee mora em Fort Lauderdale, e esse tal Higgins mora em Sarasota. McGee tem um amigo chamado Meyer, e Higgins tem uma amiga chamada Sarah… — Ele se inclinou sobre o Kindle por um momento. — Sarah Meyer. — Ele olhou para Wesley, com os olhos mostrando branco demais ao redor das íris. — Jesus Cristo, e tem dez milhões desses… desses outros mundos?
— Dez milhões, quatrocentos mil e mais alguma coisa de acordo com o menu LIVROS UR — explicou Wesley. — Acho que explorar até mesmo um único autor completamente levaria mais anos do que você vai ter na vida, Robbie.
— Talvez eu morra hoje — disse Robbie Henderson em voz baixa. — Aquela coisa vai me dar um maldito ataque cardíaco.
Ele pegou abruptamente o copo de isopor com café e engoliu boa parte do conteúdo, apesar de ainda estar fumegando.
Wesley, por outro lado, estava quase se sentindo ele mesmo. Mas agora que o medo de estar ficando louco ficara para trás, um monte de perguntas surgiu em sua mente. E só uma parecia relevante.
— O que eu faço agora?
— Primeiro — disse Don —, temos que manter isso em segredo absoluto. — Ele se virou para Robbie. — Consegue guardar segredo? Se disser não, vou ter que matar você.
— Eu consigo guardar um segredo. Mas e as pessoas que mandaram o Kindle para você, Wes? Elas conseguem guardar segredo? Vão guardar?
— Como posso saber, se não sei quem são?
— Que cartão de crédito você usou quando comprou o rosinha aqui?
— Um MasterCard. É o único que uso atualmente.
Robbie apontou para o terminal de computador do departamento de inglês que Wesley e Don usavam.
— Entre na internet e verifique a fatura. Se esses… esses livros Ur… vieram da Amazon, vou ficar muito surpreso.
— De onde mais eles podem ter vindo? — perguntou Wesley. — O aparelho é de lá e eles vendem os livros. Além do mais, veio em uma caixa da Amazon. Tinha o sorrisinho desenhado.
— E eles vendem o aparelho em rosa-fluorescente? — perguntou Robbie.
— Não.
— Então olhe a fatura do cartão de crédito.
Wesley batucou com os dedos no mousepad de Super Mouse de Don enquanto o velho PC do escritório pensava. Em seguida, se sentou ereto e começou a ler.
— E aí? — perguntou Don. — Conte.
— De acordo com isso — respondeu Wesley —, minha última compra com o MasterCard foi um blazer do Men’s Warehouse. Uma semana atrás. Nada de e-books.
— Nem os que você comprou da forma normal? O velho e o mar e Revolutionary Road?
— Não.
Robbie perguntou:
— E o Kindle?
Wesley mudou a tela.
— Nada… nada… nad… Espere… — Ele se inclinou para a frente até o nariz estar quase tocando a tela. — Hã. Como é possível?
— O quê? — disseram Don e Robbie juntos.
— De acordo com isto, minha compra foi recusada. Aqui diz: “número de cartão de crédito inválido”. — Ele pensou. — É possível. Eu vivo trocando dois dígitos, às vezes até quando eu estou com a porcaria do cartão do lado do teclado. Eu sou meio disléxico.
— Mas o pedido foi feito mesmo assim — disse Don, pensativo. — De alguma forma… por alguém. Em algum lugar. Em que Ur o Kindle diz que nós estamos? Refresquem minha memória.
Wesley voltou para a tela com essa informação e leu o número: 117586.
— São só os números, sem ponto ou vírgula.
Don disse:
— Aposto que foi desse Ur que esse Kindle veio. Nesse Ur, o número de MasterCard que você deu é o certo para um Wesley Smith que existe lá.
— Quais são as chances de uma coisa assim acontecer? — perguntou Robbie.
— Não sei — respondeu Don —, mas deve ser bem menor do que 10,4 milhões para um.
Wesley abriu a boca para dizer alguma coisa, mas foi interrompido por uma série de batidas à porta. Todos tomaram um susto. Don Allman chegou a dar um gritinho.
— Quem é? — perguntou Wesley, abraçando o Kindle de forma protetora contra o peito.
— O zelador — disse a voz do outro lado da porta. — Vocês não vão para casa? São quase sete da noite, e preciso trancar o prédio.
IV – ARQUIVO DE NOTÍCIAS
Eles não tinham terminado, não podiam ter terminado. Ainda não. Wesley em particular estava ansioso para continuar. Apesar de não ter dormido mais que três horas seguidas em dias, ele se sentia bem desperto, energizado. Ele e Robbie andaram até seu apartamento enquanto Don ia para casa ajudar a esposa a botar os filhos para dormir. Quando terminasse, se juntaria a eles na casa de Wesley para uma sessão estendida de queima de neurônios. Wesley disse que ia pedir comida.
— Que bom — disse Don —, mas tome cuidado. A Ur chinesa não tem o mesmo gosto, e você sabe o que dizem sobre a sino-alemã; uma hora depois, você está faminto por poder.
Impressionado, Wesley descobriu que ainda conseguia rir.
— Então essa é a casa de um professor de inglês — disse Robbie, olhando ao redor. — Cara, curti os livros.
— Que bom — disse Wesley. — Eu empresto, mas só para quem devolve. Lembre-se disso.
— Vou lembrar. Meus pais nunca foram grandes leitores, sabe? Algumas revistas, alguns livros de dieta, um livro ou dois de autoajuda… e só. Eu poderia ter ficado igual se não fosse você. Podia ficar levando porrada no campo de futebol americano, sem nada no futuro exceto talvez dar aulas de educação física no condado de Giles. Fica no Tennessee. Yeehaw.
Wesley ficou emocionado. Provavelmente por ter passado por tantas oscilações emocionais nos últimos tempos.
— Obrigado, mas lembre-se de que não tem nada de errado com gritar um yeehaw às vezes. Também é parte de quem você é. As duas partes são igualmente válidas.
Ele pensou em Ellen arrancando Deliverance da mão dele e jogando do outro lado da sala. E por quê? Porque odiava livros? Não, porque ele não estava ouvindo quando ela precisava. Não foi Fritz Leiber, o grande escritor de fantasia e ficção científica, que chamou os livros de “amante do estudioso”? E quando Ellen precisou dele, ele não estava nos braços da outra amante, a que não fazia exigências (além do vocabulário) e sempre o aceitava?
— Wes? Quais eram as outras coisas no menu de FUNÇÕES UR?
Primeiro, Wesley não entendeu do que o garoto estava falando. E então, lembrou que havia outros itens. Tinha ficado tão obcecado pelo menu de LIVROS que esqueceu os outros dois.
— Bem, vamos ver — disse ele, e ligou o Kindle. Cada vez que fazia isso, ele esperava que o menu EXPERIMENTAL ou o menu FUNÇÕES UR tivesse sumido, o tipo de coisa que aconteceria em um episódio de Além da imaginação, mas eles sempre estavam lá.
— Arquivo de Notícias Ur e Ur Local — disse Robbie. — Hum… Ur Local está em construção. É melhor ficar de olho, o valor das multas dobra.
— O quê?
— Deixa pra lá, só estou brincando. Experimente o arquivo de notícias.
Wesley o selecionou. A tela ficou branca. Depois de alguns momentos, uma mensagem apareceu.
BEM-VINDO AO ARQUIVO DE NOTÍCIAS!
SÓ O THE NEW YORK TIMES ESTÁ DISPONÍVEL NO MOMENTO.
SEU PREÇO É U$ 1,00/4 DOWNLOADS
U$ 10/50 DOWNLOADS
U$ 100/800 DOWNLOADS
SELECIONE COM O CURSOR. O VALOR SERÁ DEBITADO DA SUA CONTA
Wesley olhou para Robbie, que deu de ombros.
— Não posso dizer a você o que fazer, mas, se meu cartão de crédito não estivesse sendo cobrado, ao menos neste mundo, eu gastaria cem dólares.
Wesley achou que ele tinha razão, mas se perguntou o que o outro Wesley (se houvesse um) pensaria quando abrisse a próxima fatura do MasterCard. Ele selecionou a linha que dizia U$ 100/800 e apertou o botão. Desta vez, as Leis do Paradoxo não apareceram. A nova mensagem o convidava a ESCOLHER A DATA E O UR. USE OS CAMPOS APROPRIADOS.
— Faça você — disse Wesley, e empurrou o Kindle por cima da mesa de jantar para Robbie. Estava ficando mais fácil fazer isso, e ele ficou feliz. A obsessão de ficar com o Kindle na mão era uma complicação da qual ele não precisava, por mais compreensível que fosse.
Robbie pensou por um momento e digitou 21 de janeiro de 2009. No campo Ur, ele selecionou 1000000.
— Ur um milhão — disse ele. — Por que não?
E apertou o botão.
A tela ficou branca, depois apresentou uma mensagem que dizia: DIVIRTA-SE COM SUA ESCOLHA! Um momento depois, a primeira página do The New York Times apareceu. Eles se inclinaram sobre a tela, lendo em silêncio, até ouvirem uma batida à porta.
— É Don — disse Wesley. — Vou lá abrir.
Robbie Henderson não respondeu. Ainda estava hipnotizado.
— Está ficando frio lá fora — disse Don quando entrou. — E o vento está derrubando todas as folhas das… — Ele observou o rosto de Wesley. — O quê? Ou devo dizer o que houve agora?
— Venha ver — disse Wesley.
Don entrou na sala cheia de livros de Wesley, onde Robbie estava inclinado em cima do Kindle. O garoto ergueu o rosto e virou a tela para Don poder ler. Havia manchas brancas onde as fotos deveriam estar, com a mensagem Imagem não disponível, mas a manchete era grande e preta: AGORA É A VEZ DELA. E, abaixo, o subtítulo: Hillary Clinton faz juramento e assume posto de 44ª presidente.
— Parece que ela conseguiu, no fim das contas — disse Wesley. — Ao menos, no Ur 1000000.
— E vejam quem ela está substituindo — disse Robbie, e apontou para o nome. Era Albert Arnold Gore.
***
Uma hora depois, quando a campainha tocou, eles não tomaram um susto, mas olharam ao redor, como homens acordando de um sonho. Wesley desceu e pagou o entregador, que tinha chegado com uma pizza caprichada do Harry’s e um kit com seis latinhas de Pepsi. Eles comeram à mesa da cozinha, inclinados sobre o Kindle. Wesley comeu três fatias, um recorde pessoal, sem percepção de que estava comendo.
Eles não usaram os oitocentos downloads que compraram, não chegaram nem perto, mas, nas quatro horas seguintes, leram notícias suficientes dos Ur variados para ficarem com dor de cabeça. Wesley sentia que seu cérebro estava doendo. Pela expressão quase idêntica que via no rosto dos outros dois (bochechas pálidas, olhos ávidos em órbitas fundas, cabelo desgrenhado), concluiu que não estava sozinho. Observar uma realidade alternativa já seria um desafio; ali havia mais de dez milhões, e apesar de a maioria ser similar, nenhuma era idêntica.
A posse do quadragésimo quarto presidente dos Estados Unidos era só um exemplo, mas bem poderoso. Eles olharam em vinte e quatro Ur diferentes antes de se cansarem e mudarem de assunto. Dezessete primeiras páginas do dia 21 de janeiro de 2009 anunciavam Hillary Clinton como a nova presidente. Em quatorze delas, Bill Richardson do Novo México era o vice-presidente. Em duas, era Joe Biden. Em uma, era um senador do qual nenhum deles tinha ouvido falar: Linwood Speck, de Nova Jersey.
— Ele sempre diz não para a vice-presidência quando outra pessoa consegue o cargo principal — disse Don.
— Quem sempre diz não? — perguntou Robbie. — Obama?
— É. Ele sempre é convidado e sempre diz não.
— Condiz com a personalidade dele — comenta Wesley. — E embora os eventos mudem, a personalidade parece continuar a mesma.
— Você não pode afirmar isso com certeza — retrucou Don. — Nós temos uma amostra minúscula se comparada ao… ao… — Ele deu uma risada fraca. — Você sabe, à coisa toda. A todos os mundos de Ur.
Barack Obama foi eleito em seis Ur. Mitt Romney foi eleito em um, com John McCain como vice. Nesse Ur, Romney concorreu com Obama, que foi sondado depois que Hillary morreu em um acidente de helicóptero no final da campanha.
Eles não viram menção nenhuma a Sarah Palin. Wesley não ficou surpreso. Ele achava que, se esbarrassem nela, seria mais por sorte do que por probabilidade, e não só porque Mitt Romney aparecia com mais frequência como candidato republicano do que John McCain. Palin sempre foi o azarão, um tiro no escuro, a pessoa que ninguém esperava.
Robbie queria olhar o Red Sox. Wesley achava que era perda de tempo, mas Don ficou do lado do garoto, então ele concordou. Os dois olharam as páginas de esportes de outubro em dez Ur diferentes, escolhendo datas entre 1918 e 2009.
— Isso é deprimente — disse Robbie depois da décima tentativa. Don Allman concordou.
— Por quê? — perguntou Wesley. — O time ganha a série várias vezes.
— O que quer dizer que não existe maldição — disse Don. — E isso é meio sem graça.
— Que maldição?
Wesley estava intrigado.
Don abriu a boca para explicar, mas apenas suspirou.
— Deixa pra lá — disse ele. — A explicação é longa e você não entenderia.
— Veja o lado bom — comentou Robbie. — Os Bombers sempre estão lá, então não é só sorte.
— É — disse Don, com desânimo. — Porra de Yankees. O complexo militar industrial do mundo esportivo.
— Foi mal. Alguém quer a última fatia?
Don e Wes balançaram a cabeça. Robbie comeu e falou:
— Olhe mais uma vez. Olhe o Ur 1241989. É meu aniversário. Talvez dê sorte.
Só que foi o contrário. Quando Wesley selecionou o Ur e acrescentou uma data, 20 de janeiro de 1973, de forma nada aleatória, o que apareceu em vez de DIVIRTA-SE COM SUA SELEÇÃO foi o seguinte: NÃO HÁ DATAS NESTE UR DEPOIS DE 19 DE NOVEMBRO DE 1962.
Wesley cobriu a boca com a mão.
— Ah, meu bom Deus.
— O quê? — perguntou Robbie. — O que foi?
— Eu acho que sei — respondeu Don.
Ele tentou pegar o Kindle cor-de-rosa.
Wesley, que achava que tinha ficado pálido (mas provavelmente não tanto quanto se sentia por dentro), colocou a mão sobre a de Don.
— Não. Acho que não consigo suportar.
— Suportar o quê?! — Robbie quase gritou.
— Você não estudou a Crise dos Mísseis de Cuba na aula de História Americana no Século XX? — perguntou Don. — Ou não chegou lá ainda?
— Que crise dos mísseis? Teve alguma coisa a ver com Castro?
Don estava encarando Wesley.
— Eu também não quero ver — disse ele —, mas não vou dormir esta noite se não tiver certeza.
— Tudo bem — disse Wesley, e pensou, não pela primeira vez, que a curiosidade, e não a raiva, era a verdadeira ruína do espírito humano. — Mas você vai ter que digitar. Minhas mãos estão tremendo.
Don preencheu nos campos 19 DE NOVEMBRO DE 1962. O Kindle o mandou se divertir com sua seleção, mas ele não se divertiu. Nenhum deles se divertiu. As manchetes eram pungentes e enormes.
MORTOS EM NY ULTRAPASSAM OS 6 MILHÕES
MANHATTAN DIZIMADA POR RADIAÇÃO
RÚSSIA SUPOSTAMENTE DESTRUÍDA
MORTES NA EUROPA E NA ÁSIA SÃO “INCALCULÁVEIS”
CHINESES LANÇAM 40 ICBMS
— Desligue — disse Robbie em uma voz baixa e fraca. — É como aquela música diz: “I don’t wanna see no more”.
Dan disse:
— Veja o lado bom. Parece que desviamos da bala na maioria dos Ur, inclusive neste. — Mas a voz dele não estava firme.
— Robbie está certo — disse Wesley. Ele tinha descoberto que a edição final do The New York Times do Ur 1241989 só tinha três páginas, e todos os artigos eram sobre morte. — Desligue. Eu queria nunca ter visto essa porcaria de Kindle.
— Tarde demais — disse Robbie.
E como ele estava certo.
***
Os três desceram juntos e ficaram de pé na calçada em frente ao prédio de Wesley. A rua Main estava quase deserta. O vento crescente gemia ao redor dos prédios e carregava as folhas de outono nas calçadas. Um trio de estudantes bêbados cambaleava na direção da Fraternity Row, cantando o que parecia ser “Paradise City”.
— Não posso dizer a você o que fazer, o aparelho é seu, mas, se fosse meu, eu me livraria dele — disse Don. — Vai virar uma obsessão.
Wesley pensou em dizer que já estava obcecado, mas não falou nada.
— Vamos conversar sobre isso amanhã.
— Não — disse Don. — Vou levar minha esposa e meus filhos para Frankfort, para passar um maravilhoso final de semana prolongado na casa dos meus sogros. Suzy Montanaro vai dar as minhas aulas. E, depois desta pequena reunião, estou feliz da vida de estar indo viajar. Robbie? Quer uma carona?
— Obrigado, mas não precisa. Eu divido um apartamento com mais dois caras a dois quarteirões daqui. Em cima de Susan and Nan’s Place.
— Não é barulhento? — perguntou Wesley. Susan and Nan’s era o café da região, e abria às seis da manhã todos os dias, sete dias por semana.
— Na maior parte dos dias, eu durmo sem nem ouvir. — Robbie deu um sorriso. — Além do mais, quando o assunto é aluguel, o preço é bom.
— Que bom. Boa noite, pessoal. — Don saiu andando na direção do Tercel, mas se virou. — Eu pretendo dar um beijo nos meus filhos antes de dormir, talvez me ajude a adormecer. Essa última história… — Ele balançou a cabeça. — Eu poderia ter ficado sem ela. Sem querer ofender, Robbie, mas pode enfiar seu aniversário no cu.
Eles ficaram observando os faróis sumirem, e Robbie disse, pensativo:
— Ninguém nunca me mandou enfiar meu aniversário no cu. Isso é novidade.
— Tenho certeza de que ele não quis que você levasse para o lado pessoal. E ele deve estar certo sobre o Kindle, sabe? É fascinante, fascinante até demais, mas inútil num sentido prático.
Robbie ficou olhando para ele com olhos arregalados.
— Você está chamando o acesso a milhares de livros não descobertos dos grandes mestres da literatura de inútil? Caramba, que tipo de professor de inglês você é?
Wesley não tinha resposta. Principalmente porque sabia que, mais cedo ou mais tarde, provavelmente leria mais de Os cães de Cortland antes de ir dormir.
— Além do mais — disse Robbie —, pode não ser totalmente inútil. Você poderia digitar um daqueles livros e mandar para uma editora, já pensou nisso? Enviar como se fosse seu. Ficar famoso. Chamariam você de herdeiro de Vonnegut ou de Roth, sei lá.
Era uma ideia atraente, principalmente quando Wesley pensava nos rabiscos inúteis dentro da pasta. Mas balançou a cabeça.
— Isso provavelmente violaria as Leis do Paradoxo… o que quer que isso seja. Mas o mais importante é que me corroeria como ácido. De dentro para fora. — Ele hesitou, sem querer parecer meticuloso, mas querendo articular o que sentia como o verdadeiro motivo para não fazer uma coisa dessas. — Eu sentiria vergonha.
O garoto sorriu.
— Você é uma boa pessoa, Wes.
Eles estavam andando na direção do prédio de Robbie agora, com as folhas voando ao redor dos pés, uma lua crescente surgindo em meio às nuvens sopradas pelo vento.
— Você acha?
— Acho. E a treinadora Silverman também.
Wesley parou, pego de surpresa.
— O que você sabe sobre mim e a treinadora Silverman?
— Pessoalmente? Nada. Mas talvez você saiba que Josie é do time. Josie Quinn, da turma de inglês?
— Claro que eu conheço a Josie. — Foi a que falou como uma antropóloga gentil quando eles estavam discutindo o Kindle. E, sim, ele sabia que ela era uma Lady Suricato, apesar de estar na reserva e só entrar no jogo quando tudo estava dando errado.
— Josie disse que a treinadora está triste desde que vocês terminaram. E mal-humorada também. Faz com que elas corram o tempo todo, e expulsou uma garota do time.
— Ela expulsou Deeson antes de nós terminarmos. — Pensando: de certa forma, foi por isso que terminamos. — Hum… O time todo sabe sobre nós?
Robbie Henderson olhou para ele como se fosse louco.
— Se Josie sabe, todas sabem.
— Como? — Ellen não contaria; contar para o time sobre sua vida amorosa não era muito profissional.
— Como as mulheres sabem as coisas? — perguntou Robbie. — Elas simplesmente sabem.
— Você e Josie estão juntos, Robbie?
— Estamos nesse caminho. Boa noite, Wes. Vou dormir até mais tarde amanhã, não tenho aulas às sextas-feiras, mas, se você aparecer em Susan and Nan’s para o almoço, suba e bata na minha porta.
— Talvez eu faça isso — disse Wesley. — Boa noite, Robbie. Obrigado por ser um dos Três Patetas.
— Eu diria que o prazer foi todo meu, mas preciso pensar sobre isso.
Em vez de ler o Hemingway do Ur quando voltou, Wesley enfiou o Kindle na pasta. Em seguida, pegou o caderno quase todo em branco e passou a mão pela bela capa. “Para suas ideias de livros”, dissera Ellen, e devia ter sido um presente caro. Pena que seria desperdiçado.
Eu ainda posso escrever um livro, pensou ele. Não é porque não escrevi em nenhum dos outros Ur que não posso escrever neste.
Era verdade. Ele podia ser a Sarah Palin das letras americanas. Porque às vezes os tiros no escuro davam certo.
Para o bem e para o mal.
Ele trocou de roupa, escovou os dentes, ligou para o departamento de inglês e deixou um recado para a secretária cancelar sua aula da manhã.
— Obrigado, Marilyn. Desculpe botar isso nas suas costas, mas acho que estou ficando gripado. — Ele acrescentou uma tosse nada convincente e desligou.
Achava que ficaria acordado por horas, pensando em todos aqueles mundos, mas na escuridão eles pareceram tão irreais quanto atores na tela do cinema. Eram grandes lá, quase sempre bonitos, mas ainda eram apenas sombras geradas por luz. Talvez os mundos Ur também fossem assim.
O que parecia real naquela hora da madrugada era o som do vento, o belo som do vento contando histórias do Tennessee, de onde esteve antes, naquela mesma noite. Embalado por ele, Wesley adormeceu, e dormiu profundamente e por muito tempo. Não sonhou e, quando acordou, a luz do sol invadia seu quarto. Pela primeira vez desde seus dias de estudante universitário, ele dormiu até quase onze da manhã.
V – UR LOCAL (em construção)
Ele tomou um longo banho quente, se barbeou, se vestiu e decidiu ir até o Susan and Nan’s para tomar um café da manhã tardio ou almoçar cedo, o que parecesse melhor no cardápio. Quanto a Robbie, Wes decidiu deixar o garoto dormir. Ele tinha treino à tarde com o resto do infeliz time de futebol americano; merecia o sono dos justos. Ocorreu-lhe que, se Wesley se sentasse à mesa perto da janela, poderia ver o ônibus do departamento atlético passar quando as garotas saíssem para o Bluegrass, a cento e trinta quilômetros dali. Ele acenaria. Ellen provavelmente não o veria, mas ele acenaria mesmo assim.
Pegou a pasta sem nem pensar no que estava fazendo.
Ele pediu o ovo mexido sexy da Susan (cebola, pimentão, muçarela) com bacon acompanhando, e também café e suco. Quando a jovem garçonete levou a comida, ele já estava lendo Os cães de Cortland no Kindle. Era Hemingway, sim, e uma história incrível.
— É um Kindle, não é? — perguntou a garçonete. — Ganhei um de Natal e adoro. Estou lendo todos os livros de Jodi Picoult.
— Ah, provavelmente não todos — comentou Wesley.
— Hã?
— Ela já deve ter terminado mais um. Foi só isso que eu quis dizer.
— E James Patterson deve ter escrito outro hoje de manhã! — disse ela, e saiu rindo.
Wesley tinha apertado o botão do menu enquanto eles estavam conversando, querendo esconder o livro de Hemingway. Porque se sentia culpado pelo que estava lendo? Porque a garçonete podia dar uma boa olhada e começar a gritar “Isso não é um Hemingway de verdade”? Ridículo. Mas só de ter o Kindle cor-de-rosa ele já se sentia meio desonesto. O aparelho não era dele, afinal, e as coisas que tinha baixado também não eram, porque não era ele quem ia pagar por tudo.
Talvez ninguém pague, pensou, mas não acreditou. Ele achava que uma das verdades universais da vida era que mais cedo ou mais tarde alguém sempre pagava.
Não havia nada de especialmente sexy nos ovos mexidos, mas estavam bons. Em vez de voltar para Cortland e seu cachorro de inverno, ele entrou no menu Ur. A única função que não tinha espiado era Ur Local. Que dizia em construção. O que Robbie havia falado na noite anterior? É melhor ficar de olho, o valor das multas dobra. O garoto era inteligente e talvez ficasse ainda mais, se não destruísse o cérebro jogando futebol americano da terceira divisão. Sorrindo, Wesley selecionou UR LOCAL e apertou o botão. A seguinte mensagem apareceu:
ACESSAR FONTE ATUAL DO UR LOCAL? S N
Wesley selecionou S. O Kindle pensou um pouco e apresentou uma nova mensagem.
A FONTE ATUAL DE UR LOCAL É O ECHO DA MOORE. ACESSAR? S N
Wesley pensou na pergunta enquanto comia um pedaço de bacon. O Echo era um jornal especializado em vendas de quintal, esportes locais e política da cidade. Os moradores olhavam essas coisas, ele achava, mas a maioria comprava o jornal por causa do obituário e da página policial. Todo mundo gostava de saber quais vizinhos tinham morrido ou sido presos. Procurar em 10,4 milhões de Ur de Moore, Kentucky, parecia bem chato, mas por que não? Ele não estava matando tempo, esticando o café da manhã, para poder ver o ônibus das jogadoras passar?
— Triste, mas é verdade — disse ele, e selecionou S. A mensagem que apareceu era parecida com uma que ele tinha visto antes. Ur Local é protegido por todas as Leis do Paradoxo aplicáveis. Você concorda? S N.
Isso era estranho. O arquivo do The New York Times não era protegido pelas Leis do Paradoxo, fossem lá quais fossem, mas o jornalzinho da cidade era? Não fazia sentido, mas parecia inofensivo. Wesley deu de ombros e selecionou S.