O Bazar dos Sonhos Ruins
Ur
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
BEM-VINDO AO PRÉ-ARQUIVO DO THE ECHO!
SEU PREÇO É U$ 40,00/4 DOWNLOADS
U$ 350,00/10 DOWNLOADS
U$ 2.500,00/100 DOWNLOADS
Wesley largou o garfo no prato e franziu a testa. Além do jornal local ser protegido pelas Leis do Paradoxo, os downloads eram muito mais caros. Por quê? E o que era um pré-arquivo? Para Wesley, isso parecia um paradoxo por si só. Ou um oximoro.
— Bem, está em construção — disse ele. — O valor das multas dobra, e o valor dos downloads também. Essa é a explicação. Além do mais, não sou eu que vou pagar.
Não, mas como a ideia de que um dia acabaria pagando (em breve!) persistiu, ele escolheu a opção do meio. A tela seguinte era similar à do arquivo do Times, mas não idêntica; só pedia para ele selecionar uma data. Para Wesley, isso não sugeria nada além de um arquivo de jornal, do tipo que ele poderia encontrar em microfilmes na biblioteca local. Se era isso, por que o valor tão alto?
Ele deu de ombros, digitou 5 de julho de 2008 e apertou o botão de selecionar. O Kindle respondeu imediatamente com a seguinte mensagem:
SOMENTE DATAS FUTURAS
ESTAMOS EM 20 DE NOVEMBRO DE 2009
Por um momento, ele não entendeu. Quando entendeu, o mundo de repente ficou iluminado demais, como se um ser sobrenatural tivesse aumentado o controle do reostato da luz do dia. E todos os barulhos do café, o tilintar de garfos, o estalo de pratos, o murmúrio constante, tudo pareceu alto demais.
— Meu Deus — sussurrou ele. — Não é surpresa que seja tão caro.
Isso era demais. Muito. Ele foi desligar o Kindle, mas ouviu gritos de comemoração lá fora. Levantou o rosto e viu um ônibus amarelo com DEPARTAMENTO ATLÉTICO DA FACULDADE MOORE escrito na lateral. Líderes de torcida e jogadoras se inclinavam pelas janelas abertas, acenando e rindo e gritando coisas como “Vamos lá, Suricatos!” e “Somos o número um!”. Uma das jovens estava com um dedo enorme de espuma mostrando o número um. Os pedestres na rua Main sorriram e acenaram.
Wesley levantou a mão e acenou fracamente. O motorista do ônibus buzinou. Na traseira do ônibus havia uma faixa com SURICATOS VÃO SACUDIR A RUPP pintado com spray. Wesley percebeu que as pessoas no café estavam aplaudindo. Tudo aquilo parecia estar acontecendo em outro mundo. Em outro Ur.
Quando o ônibus foi embora, Wesley olhou para o Kindle cor-de-rosa de novo. Decidiu que queria usar pelo menos um dos dez downloads, afinal. Os moradores não tinham muito apreço pelo corpo discente, no geral, ali era só uma comunidade universitária, mas adoravam as Lady Suricatos, porque todo mundo adorava um vencedor. Os resultados do torneio, independentemente de serem de um campeonato menor, seriam notícia de primeira página no Echo de segunda-feira. Se o time vencesse, ele podia comprar um presente de vitória para Ellen, e, se perdessem, ele podia comprar um presente de consolação.
— Saio ganhando de qualquer forma — disse ele, e digitou a data de segunda-feira: 23 de novembro de 2009.
O Kindle pensou por um momento e exibiu a primeira página de um jornal.
A data era a de segunda-feira.
A manchete era enorme e preta.
Wesley derramou o café e puxou o Kindle para que não ficasse molhado enquanto o líquido morno encharcava sua virilha.
Quinze minutos depois, ele estava andando de um lado para outro na sala do apartamento de Robbie Henderson enquanto Robbie, que estava acordado quando Wesley apareceu batendo à porta, mas ainda com a camiseta e a bermuda que usava para dormir, ficou olhando para a tela do Kindle.
— Nós temos que ligar para alguém — disse Wesley. Ele estava batendo com o punho na palma da mão aberta, o bastante para a pele começar a ficar vermelha. — Nós temos que ligar para a polícia. Não, espere! Para a arena! Ligue para a Rupp e deixe um recado para Ellen me ligar imediatamente! Não, isso não vai dar certo! Vai demorar demais! Vou ligar para ela agora. É isso…
— Relaxe, sr. Smith… quer dizer, Wes.
— Como posso relaxar? Você não está vendo a manchete? Está cego?
— Não, mas você tem que relaxar mesmo assim. Perdoe a expressão, mas você está surtado pra caralho, e as pessoas não conseguem pensar direito quando estão assim.
— Mas…
— Respire fundo. E lembre a si mesmo que, de acordo com isso, nós temos quase sessenta horas.
— É fácil para você. Não é a sua namorada que vai estar naquele ônibus quando começar a…
Ele parou, porque não era verdade. Josie Quinn era do time, e, de acordo com Robbie, tinha alguma coisa rolando entre os dois.
— Desculpe — disse ele. — Eu vi a manchete e surtei. Nem paguei meu café, só vim correndo para cá. Sei que parece que eu mijei na calça, e quase mijei mesmo. Graças a Deus seus colegas de apartamento não estão.
— Eu também estou assustado — admitiu Robbie, e por um momento eles observaram a tela em silêncio. De acordo com o Kindle de Wesley, a edição de segunda-feira do The Echo ia ter uma margem preta ao redor da primeira página além de uma manchete preta no alto, que dizia:
TREINADORA E 7 ALUNAS MORTAS EM ACIDENTE DE ÔNIBUS; 9 EM ESTADO
CRÍTICO
O artigo em si não era uma notícia, só uma nota. Mesmo nervoso, Wesley sabia o porquê. O acidente tinha acontecido… não, ia acontecer, pouco antes das nove da noite de domingo. Tarde demais para o repasse de detalhes, se bem que, se eles ligassem o computador de Robbie e entrassem na internet…
O que estava pensando? A internet não previa o futuro; só o Kindle cor-de-rosa fazia isso.
Suas mãos estavam tremendo demais para que ele digitasse 24 de novembro. Ele empurrou o Kindle para Robbie.
— Digite você.
Robbie conseguiu, mas só na segunda tentativa. A notícia no The Echo de terça-feira era mais completa, mas a manchete era ainda pior:
NÚMERO DE MORTOS SOBE PARA 10
CIDADE E FACULDADE DE LUTO
— Josie vai… — começou Wesley.
— Sim — disse Robbie. — Sobrevive ao acidente, mas morre na segunda-feira. Jesus.
De acordo com Antonia “Toni” Burrell, uma das líderes de torcida dos Suricatos e uma das sortudas a escapar ao acidente de ônibus de domingo apenas com ferimentos leves, a comemoração ainda estava acontecendo, com o Troféu Bluegrass sendo passado de mão em mão. “Nós estávamos cantando ‘We Are the Champions’ pela vigésima vez”, disse ela no hospital em Bowling Green, para onde a maioria dos sobreviventes foi levada. “A treinadora se virou e gritou para a gente falar baixo, e foi aí que aconteceu.”
De acordo com o capitão Moses Arden, da Polícia Estadual, o ônibus seguia pela Route 139, a estrada Princeton, e estava três quilômetros a oeste de Cadiz quando um SUV dirigido por Candy Rymer, de Montgomery, bateu nele. “A sra. Rymer estava dirigindo em alta velocidade para o oeste pela Highway 80”, disse o capitão Arden, “e bateu no ônibus no cruzamento.”
O motorista do ônibus, Herbert Allison, 58, de Moore, aparentemente viu o veículo da sra. Rymer no último instante e tentou desviar. O movimento, junto com o impacto, jogou o ônibus na vala, onde ele capotou e explodiu.
Havia mais, mas nenhum dos dois queria ler.
— Certo — disse Robbie. — Vamos pensar um pouco. Primeiro, podemos ter certeza de que é verdade?
— Talvez não — respondeu Wesley. — Mas, Robbie… podemos correr esse risco?
— Não. Não, acho que não podemos. Claro que não podemos. Mas, Wes, se ligarmos para a polícia, ninguém vai acreditar na gente. Você sabe disso.
— A gente pode mostrar o Kindle! Mostrar o artigo! — Mas ele soou desanimado até aos próprios ouvidos. — Tá, que tal isto, eu conto para Ellen. Mesmo se não acreditar em mim, ela pode concordar em segurar o ônibus por quinze minutos, ou mudar a rota que esse Allison está planejando fazer.
Robbie pensou.
— É, vale a pena tentar.
Wesley tirou o celular da pasta. Robbie tinha voltado para o artigo e usou o botão de mudar páginas para ler o resto.
O celular tocou duas… três… quatro vezes.
Wesley estava se preparando para deixar uma mensagem na caixa postal quando Ellen atendeu.
— Wesley, não posso falar com você agora. Achei que tivesse entendido…
— Ellen, escute…
— … mas, se você recebeu minha mensagem, sabe que nós vamos conversar. — Ao fundo, ele conseguia ouvir o barulho das garotas animadas, Josie no meio delas, e música alta.
— Sim, eu recebi a mensagem, mas nós temos que conversar a…
— Não! — exclamou Ellen. — Não temos. Não vou receber suas ligações este fim de semana e não vou ouvir suas mensagens. — A voz dela ficou suave. — E, querido… cada mensagem que você deixar vai tornar tudo mais difícil. Para nós.
— Ellen, você não entend…
— Tchau, Wes. Nós nos falamos semana que vem. Você nos deseja sorte?
— Ellen, por favor!
— Vou interpretar isso como um sim — disse ela. — Quer saber? Acho que eu ainda gosto de você, apesar de ser um cabeça-dura.
Com isso, ela desligou.
Ele pousou o dedo no botão de rediscagem, mas se obrigou a não apertá-lo. Não ajudaria. Ellen estava com a postura de “do meu jeito ou de jeito nenhum”. Era loucura, mas era o que tinha.
— Ela não quer falar comigo se não for do jeito dela. O que ela não sabe é que, depois da noite de domingo, ela pode não ter mais tempo. Você vai ter que ligar para a srta. Quinn.
Em seu estado de nervosismo atual, o primeiro nome da garota fugiu de sua mente.
— Josie vai achar que eu estou brincando — disse Robbie. — Com uma história dessas, qualquer garota acharia. — Ele ainda estava observando a tela do Kindle. — Quer saber? A mulher que causou o acidente, que vai causá-lo, quase não se machuca. Aposto todas as mensalidades do semestre que vem que ela estava bêbada como um gambá.
Wesley nem ouviu.
— Diga para Josie que Ellen tem que atender minha ligação. Peça para ela dizer que não é sobre nós. Diga para ela dizer que é uma emer…
— Cara — interrompeu Robbie. — Preste atenção. Você está me ouvindo?
Wesley assentiu, mas o que ouviu mais claramente foi seu coração disparado.
— Primeiro, Josie ia pensar que era brincadeira mesmo assim. Segundo, ela poderia pensar que era uma brincadeira de nós dois. Terceiro, acho que ela não procuraria a treinadora Silverman, considerando o mau humor dela nos últimos tempos… e ela fica ainda pior nas viagens de jogos, segundo Josie. — Robbie suspirou. — Você tem que entender… Josie é um amor, é inteligente e sexy pra caramba, mas também é tímida como um ratinho. É disso que eu gosto nela.
— Acho que isso diz um monte de coisas boas sobre a sua personalidade, Robbie, mas precisa me perdoar se eu disser que agora estou cagando para isso. Você falou o que não vai dar certo; tem alguma ideia do que pode dar?
— Essa era a quarta coisa. Com um pouco de sorte, não vamos precisar contar a ninguém sobre isso. O que é bom, pois ninguém acreditaria.
— Discorra.
— Hã?
— Diga o que tem em mente.
— Primeiro, precisamos usar outro dos seus downloads do Echo.
Robbie digitou 25 de novembro de 2009. Outra garota, uma líder de torcida, que foi horrivelmente queimada na explosão, tinha morrido, aumentando o número de mortes para onze. Apesar de o The Echo não falar abertamente, mais pessoas podiam morrer antes do fim da semana.
Robbie só deu uma olhada rápida no artigo. O que estava procurando estava em uma nota separada na parte de baixo da primeira página:
CANDACE RYMER ACUSADA DE HOMICÍDIO MÚLTIPLO EM DIREÇÃO
VEICULAR
Havia um quadrado cinza no meio da notícia; a foto dela, supôs Wesley, só que o Kindle cor-de-rosa não parecia conseguir exibir as imagens das notícias. Mas não importava, porque agora ele tinha entendido. Não era o ônibus que eles tinham que impedir; era a mulher que ia bater no ônibus.
Candace Rymer era a quarta coisa.
VI – CANDY RYMER
Às cinco horas de uma tarde cinzenta de domingo, quando as Lady Suricatos estavam fazendo cestas em uma parte não muito distante do estado, Wesley Smith e Robbie Henderson estavam sentados no modesto Chevy Malibu do professor, vigiando a porta de um bar de beira de estrada em Eddyville, trinta e dois quilômetros ao norte de Cadiz. O estacionamento era de terra batida com manchas de óleo e estava praticamente vazio. Era quase certo que havia uma TV dentro do The Broken Windmill, mas Wesley achava que beberrões seletivos preferiam beber e assistir à NFL em casa. Não era preciso entrar ali para saber que era uma espelunca. A primeira parada de Candy Rymer foi ruim, mas aquela era pior.
Estacionado um pouco torto na vaga (e bloqueando o que parecia ser a saída de emergência) havia um Ford Explorer imundo e amassado com dois adesivos na traseira. MEU FILHO É ALUNO CONDECORADO NA INSTITUIÇÃO CORRECIONAL DO ESTADO, dizia um. O outro era ainda mais revelador: EU FREIO PARA JACK DANIELS.
— Talvez a gente devesse fazer aqui mesmo — sugeriu Robbie. — Enquanto ela está lá dentro enchendo a cara e vendo os Titans.
Era uma ideia tentadora, mas Wesley balançou a cabeça.
— Vamos esperar. Ela tem mais uma parada a fazer. Hopson, lembra?
— Fica a quilômetros daqui.
— Certo — disse Wesley. — Mas nós temos tempo para matar, e vamos matá-lo.
— Por quê?
— Porque estamos aqui para mudar o futuro. Ou para tentar, pelo menos. Não temos ideia do quanto isso é difícil. Esperar o máximo possível aumenta nossas chances.
— Wesley, aquela mulher está bêbada. Ela estava bêbada quando saiu daquela primeira espelunca em Central City, e vai estar bem mais bêbada quando sair desse buraco aí. Não consigo ver ela mandando consertar o carro a tempo do encontro com o ônibus das garotas a sessenta e cinco quilômetros daqui. E se nós enguiçarmos quando estivermos tentando seguir ela até a última parada?
Wesley não tinha pensado nisso. Estava pensando agora.
— Meus instintos me dizem para esperar, mas se você tem uma sensação forte de que devíamos fazer agora, então vamos.
Robbie se empertigou.
— Tarde demais. Aí vem a Miss América.
Candy Rymer saiu do The Broken Windmill em uma espécie de zigue-zague. Deixou a bolsa cair, se inclinou para pegá-la, quase foi ao chão, soltou um palavrão, pegou a bolsa, riu e continuou andando para onde o Explorer estava estacionado, pegando a chave no caminho. O rosto estava inchado, sem esconder os vestígios do que já devia ter sido uma aparência muito bonita. O cabelo, louro com raízes pretas, caía ao redor do rosto em cachos sem vida. A barriga se projetava acima da calça jeans com elástico na cintura, logo abaixo da barra do que só podia ser um top de frente única do Kmart.
Ela entrou no carro arrebentado, ligou o motor (parecia precisar desesperadamente de um ajuste) e acelerou para a frente, na direção da porta de emergência do local. Houve um estalo. E então as luzes traseiras se acenderam e ela deu ré tão rápido que por um momento horrível Wesley achou que ela ia bater no Malibu, deixando-o inutilizado e os dois a pé enquanto seguia para o compromisso em Samarra. Mas ela parou a tempo e seguiu para a rodovia sem parar para olhar o trânsito. Um momento depois, Wesley estava atrás dela enquanto seguia para o leste na direção de Hopson. E do cruzamento onde o ônibus das Lady Suricatos chegaria em quatro horas.
***
Apesar da coisa terrível que Candy estava prestes a fazer, Wesley não conseguiu deixar de sentir certa pena, e achava que Robbie sentia o mesmo. A notícia seguinte que eles leram sobre ela no The Echo contava uma história familiar e sórdida.
Candace “Candy” Rymer, quarenta e um anos, divorciada. Três filhos, agora sob a guarda do pai. Durante os últimos doze anos, ela entrou e saiu de quatro instituições de reabilitação, aproximadamente uma a cada três anos. De acordo com um conhecido (ela parecia não ter amigos), tentou o AA e decidiu que aquilo não era para ela. Tinha coisas religiosas demais. Foi presa seis vezes por dirigir embriagada. Perdeu a habilitação depois das duas últimas, mas nos dois casos a habilitação foi restabelecida, na segunda vez por uma petição especial. Ela precisava da habilitação para chegar ao trabalho na fábrica de fertilizantes em Bainbridge, disse ela ao juiz Walleby. O que não disse era que tinha perdido o emprego seis meses antes… e ninguém verificou. Candy Rymer era uma bomba de álcool esperando para explodir, e a explosão estava agora bem próxima.
O artigo não mencionou o endereço residencial dela em Montgomery, mas não era necessário. No que Wesley considerava uma obra de jornalismo investigativo brilhante (principalmente para o The Echo), o repórter refez o caminho da última farra dela, do Pot O’ Gold em Central City até o The Broken Windmill em Eddyville e até o Banty’s Bar em Hopson. Neste último, o barman tentaria ficar com a chave dela. Mas não ia conseguir. Candy ia mostrar o dedo do meio para ele e sair gritando “Não vou mais dar meu dinheiro para essa espelunca!” por cima do ombro. Isso seria às sete da noite. O repórter avaliou que Candy devia ter parado em algum lugar para tirar um cochilo rápido, talvez na Route 124, antes de seguir para a Route 80. Um pouco mais para a frente, na 80, ela faria sua parada final. Destruidora.
Depois que Robbie botou a ideia em sua cabeça, Wesley ficou esperando que o sempre confiável Chevrolet morresse e parasse no meio da estrada de duas pistas, vítima de bateria descarregada ou das Leis do Paradoxo. Os faróis traseiros de Candy Rymer desapareceriam de vista, e eles passariam as horas seguintes fazendo ligações desesperadas e inúteis (sempre supondo que os celulares funcionariam ali, no meio do nada) e xingando a si mesmos por não terem inutilizado o veículo dela em Eddyville, quando ainda tinham a chance.
Mas o Malibu seguiu tão tranquilamente como sempre, sem um único ruído ou sacolejo. Ele ficou uns quatrocentos metros atrás do Explorer de Candy.
— Cara, ela está saindo da estrada — disse Robbie. — Pode ser que caia na vala antes de chegar ao próximo bar. Pouparia o trabalho de cortar os pneus dela.
— De acordo com o The Echo, isso não acontece.
— É, mas sabemos que o futuro não é entalhado em pedra, não é? Pode ser que seja outro Ur, sei lá.
Wesley tinha certeza de que não funcionava assim com o Ur Local, mas ficou de boca calada. De qualquer modo, era tarde demais.
Candy Rymer chegou ao Banty’s sem cair na vala nem bater em nenhum carro vindo no sentido contrário, apesar de ter quase feito as duas coisas; só Deus sabia como chegou perto disso várias vezes. Quando um dos carros na pista contrária desviou dela e passou pelo Malibu de Wesley, Robbie disse:
— Era uma família. Mamãe, papai, três criancinhas brincando atrás.
Foi nessa hora que Wesley parou de sentir pena de Rymer e começou a sentir raiva. Era uma emoção pura e quente que fez sua mágoa de Ellen parecer pálida em comparação.
— Aquela escrota — disse ele. Os nós dos dedos estavam brancos no volante. — Aquela escrota bêbada que não está nem aí. Se for a única forma de impedi-la, vou matá-la.
— Eu ajudo — comentou Robbie, depois comprimiu os lábios com tanta força que eles quase desapareceram.
Eles não precisaram matá-la, e as Leis do Paradoxo não os impediram, assim como as leis contra dirigir embriagada não impediram Candy Rymer de fazer seu passeio pelos bares mais pés-sujos do sul do Kentucky.
O estacionamento do Banty’s era pavimentado, mas o concreto rachado mais parecia ter sobrevivido a um bombardeio na Faixa de Gaza. Acima, um galo de néon piscava. Em uma das garras havia um garrafão de bebida com as letras XXX na lateral.
O Explorer de Rymer estava estacionado quase diretamente embaixo dessa ave fabulosa, e no brilho laranja tremeluzente, Wesley cortou os pneus da frente do carro velho com a faca de cozinha que eles levaram para esse objetivo. Quando o barulho do ar escapando o alcançou, ele foi tomado por uma onda de alívio tão grande que primeiro não conseguiu se levantar, só ficar ali, ajoelhado como um homem rezando. Só desejou ter feito isso mais cedo, no The Broken Windmill.
— Minha vez — disse Robbie, e um momento depois o Explorer ficou mais baixo quando o garoto furou os pneus de trás. Então ouviu outro chiado. Robbie cortou o estepe por garantia. Nesse momento, Wesley já tinha se levantado.
— Vamos estacionar na lateral — disse Robbie. — Acho que é melhor ficarmos de olho nela.
— Vou fazer bem mais do que isso.
— Calma, amigão. O que você está pensando em fazer?
— Não estou planejando nada. Eu já passei desse ponto.
Mas a fúria sacudindo seu corpo sugeria outra coisa.
De acordo com o The Echo, ela gritou que nunca mais voltaria ao Banty’s, mas parecia que o discurso fora censurado para a leitura familiar. O que ela realmente gritou foi: “Não vou mais dar meu dinheiro para este poço de merda!”. Só que ela já estava tão bêbada que a baixaria saiu arrastada: possss de merrrda.
Robbie achou tão fascinante ver a notícia do jornal acontecer diante de seus olhos que não fez nenhum esforço para segurar Wesley quando ele seguiu na direção dela. Ele chegou a gritar “Espere!”, mas Wesley não esperou. Ele segurou a mulher pelos ombros e começou a sacudi-la.
A boca de Candy Rymer se abriu; a chave que ela estava segurando caiu no asfalto rachado.
— Solta, filho da mãe!
Wesley não soltou. Ele deu um tapa nela forte o bastante para abrir o lábio inferior, depois bateu na outra bochecha.
— Fique sóbria! — gritou ele na cara assustada dela. — Fique sóbria, sua escrota inútil! Dê um jeito na sua vida e pare de foder a dos outros! Você vai matar pessoas! Está entendendo? Você vai MATAR pessoas, porra!
Ele deu um terceiro tapa, o som alto como um tiro de pistola. Ela cambaleou para trás até a lateral do prédio, chorando e levantando as mãos para proteger o rosto. Sangue escorria pelo queixo. A sombra deles, transformadas em guindastes alongados pelo galo de néon, apareciam e sumiam.
Ele levantou a mão para dar outro tapa (melhor dar tapas do que estrangular, que era o que ele realmente queria fazer), mas Robbie o segurou por trás e o conteve.
— Pare! Pare com isso, porra! Já chega!
O barman e dois clientes com aparência idiota estavam agora na porta, de boca aberta. Candy Rymer tinha escorregado até o chão. Estava chorando histericamente, com as mãos escondendo o rosto inchado.
— Por que todo mundo me odeia? — choramingou ela. — Por que todo mundo é tão cruel?
Wesley olhou para ela sem expressão, já sem sentir raiva. O que substituiu o sentimento foi uma espécie de falta de esperança. Qualquer pessoa diria que uma motorista bêbada que provocasse a morte de pelo menos onze pessoas tinha que ser má, mas não havia maldade ali. Só uma alcoólatra chorosa sentada no concreto rachado e cheio de ervas daninhas do estacionamento de um bar de beira de estrada. Uma mulher que, se a luz piscante de néon não estivesse mentindo, tinha feito xixi na calça.
— Você pode atingir a pessoa, mas não pode atingir o mal — disse Wesley. A voz dele parecia estar vindo de outro lugar. — O mal sempre sobrevive. Sai voando como um pássaro enorme e pousa em outra pessoa. É essa a merda, não acha? A merda dessa situação toda?
— É, tenho certeza de que sim, muito filosófico, mas vem. Antes que vejam você direito ou anotem a placa do carro.
Robbie o estava levando de volta para o Malibu. Wesley foi com a docilidade de uma criança. Estava tremendo.
— O mal sempre sobrevive, Robbie. Em todos os Ur. Lembre-se disso.
— Pode apostar, sem dúvida. Me dê a chave. Eu dirijo.
— Ei! — alguém gritou atrás deles. — Por que você bateu naquela mulher? Ela não fez nada! Volte aqui!
Robbie empurrou Wesley para o banco do carona, correu em volta do capô, sentou atrás do volante e arrancou. Afundou o pé no pedal até o galo desaparecer, depois foi mais devagar.
— E agora?
Wesley passou a mão pelos olhos.
— Lamento ter feito aquilo — disse ele. — Mas também não lamento. Você entende?
— Entendo. Pode apostar. Foi pela treinadora Silverman. E por Josie também. — Robbie sorriu. — A minha ratinha.
Wesley retribuiu o sorriso.
— E para onde vamos? Para casa?
— Ainda não — disse Wesley.
Eles estacionaram na beirada de uma plantação de milho, perto do cruzamento da Route 139 e a Highway 80, três quilômetros a oeste de Cadiz. Chegaram cedo, e Wesley usou o tempo para ligar o Kindle cor-de-rosa. Quando tentou acessar Ur Local, uma mensagem de certa forma nada surpreendente apareceu: O SERVIÇO NÃO ESTÁ MAIS DISPONÍVEL.
— É melhor assim — disse ele.
Robbie se virou para Wesley.
— Como?
— Nada. Não importa.
Ele guardou o Kindle de volta na pasta.
— Wes?
— O quê, Robbie?
— Nós violamos as Leis do Paradoxo?
— Sem dúvida.
Às cinco para as nove, eles ouviram buzinas e viram luzes. Saíram do Malibu e ficaram parados na frente, esperando. Wesley observou que as mãos de Robbie estavam apertadas e ficou feliz de não ser o único com medo de Candy Rymer ainda conseguir aparecer.
Faróis surgiram no alto da colina mais próxima. Era o ônibus, seguido de doze carros com torcedores das Lady Suricatos, todos buzinando em delírio e piscando os faróis. Quando o ônibus passou, Wesley ouviu doces vozes femininas cantando “We Are the Champions” e sentiu um arrepio subir pela coluna e eriçar os pelos da nuca.
Ele levantou a mão e acenou.
Ao lado dele, Robbie fez o mesmo. Em seguida, se virou para Wesley, sorrindo.
— O que você acha, professor? Quer entrar na parada?
Wesley segurou o ombro dele.
— Parece uma excelente ideia.
Quando o último carro passou, Robbie entrou na fila. Como os outros, ele buzinou e piscou os faróis do Malibu até chegarem a Moore.
Wesley não se importou.
VII – A POLÍCIA DO PARADOXO
Quando Robbie saiu em frente ao Susan and Nan’s (onde AS LADY SURICATOS ARRASAM tinha sido pichado na janela), Wesley disse:
— Espere um segundo. — Ele contornou a frente do carro e abraçou o garoto. — Você agiu bem.
Robbie sorriu.
— Isso quer dizer que vou ganhar um A de presente este período?
— Não, só alguns conselhos. Largue o futebol americano. Você nunca vai fazer carreira nele, e sua cabeça merece coisa melhor.
— Anotado — disse Robbie… mas não era uma concordância, e os dois sabiam. — Vejo você na aula?
— Na terça — disse Wesley.
Mas quinze minutos depois ele teve motivo para pensar se alguém o veria de novo. Algum dia.
Havia um carro no local onde ele costumava estacionar o Malibu quando não o deixava no Estacionamento A da faculdade. Wesley podia ter estacionado atrás, mas preferiu o outro lado da rua. Alguma coisa no carro o deixou inquieto. Era um Cadillac, e à luz da lâmpada embaixo da qual estava parado, parecia brilhante demais. A tinta vermelha quase parecia gritar “Estou aqui! Gostou de mim?”.
Wesley não gostou. Também não gostou das janelas com película escura nem das calotas enormes de gângster com emblemas dourados. Parecia um carro de traficante de drogas. Se, claro, o traficante em questão também fosse um maníaco homicida.
Por que estou pensando nisso?
— Foi o estresse do dia, só isso — disse ele quando atravessou a rua deserta com a pasta batendo na perna.
Ele se inclinou. Não tinha ninguém dentro do carro. Pelo menos, ele achava que não. Com as janelas escuras, era difícil ter certeza absoluta.
É a Polícia do Paradoxo. Eles vieram atrás de mim.
Essa ideia devia ter parecido ridícula, na melhor das hipóteses, uma fantasia paranoica, na pior, mas não parecia nenhuma das duas coisas. E quando se considerava tudo que tinha acontecido, talvez não fosse algo tão paranoico assim.
Wesley esticou a mão, tocou a porta do carro e puxou a mão de volta. A porta parecia feita de metal, mas estava quente. E parecia estar pulsando. Como se, de metal ou não, o carro estivesse vivo.
Corra.
O pensamento foi tão poderoso que ele sentiu os lábios o formarem, mas sabia que correr não era opção. Se tentasse, o homem ou os homens que pertenciam ao odioso carro vermelho o encontrariam. Era um fato tão simples que desafiava a lógica. Ultrapassava a lógica. Assim, em vez de correr, ele usou a chave para abrir a porta e entrar no prédio, seguindo para o apartamento. Foi devagar, porque seu coração estava disparado e as pernas ameaçavam ceder.
A porta do 2B estava aberta, com luz se espalhando no corredor em um retângulo longo.
— Ah, aí está você — disse uma voz não muito humana. — Entre, Wesley de Kentucky.
Eram dois. Um era jovem, e o outro, velho. O velho estava sentado no sofá, onde Wesley e Ellen Silverman já tinham seduzido um ao outro para mútua apreciação (que nada, para mútuo êxtase). O jovem estava na poltrona favorita de Wesley, onde ele sempre se sentava quanto a noite era longa, o cheesecake que tinha sobrado na geladeira estava gostoso, o livro estava interessante e a luz do abajur, firme. Os dois usavam casacos longos cor de mostarda, do tipo que parecia um sobretudo, e Wesley entendeu sem saber como que os casacos estavam vivos. Também entendeu que os homens que os usavam não eram homens. Os rostos ficavam mudando, e o que ficava embaixo da pele era reptiliano. Ou similar a um pássaro. Ou as duas coisas.
Nas lapelas, onde homens da lei de um filme de faroeste usariam distintivos, os dois usavam buttons com um olho vermelho. Wesley achou que também estavam vivos. Os olhos estavam observando tudo.
— Como sabem que sou eu?
— Sentimos seu cheiro — disse o mais velho dos dois, e o terrível era o seguinte: não pareceu piada.
— O que vocês querem?
— Você sabe por que estamos aqui — respondeu o mais jovem.
O mais velho não falou mais até o final da visita. Ouvir um deles já era bem ruim. Era como ouvir um homem cuja laringe estava cheia de grilos.
— Acho que sei — disse Wesley. Sua voz estava firme, ao menos até aquele momento. — Eu violei as Leis do Paradoxo. — Ele rezou para que eles não soubessem sobre Robbie, e achou que talvez não soubessem mesmo; o Kindle estava registrado no nome de Wesley Smith, afinal.
— Você não faz ideia do que fez — disse o homem de casaco amarelo, com voz meditativa. — A Torre treme em sua base; os mundos tremem em seus rumos. A rosa sente um arrepio, como de inverno.
Muito poético, mas não muito elucidativo.
— Que Torre? Que rosa? — Wesley conseguia sentir suor brotando na testa, apesar de gostar de manter o apartamento frio. É por causa deles, pensou ele. Esses homens são quentes.
— Não importa — disse o visitante mais novo. — Explique-se, Wesley de Kentucky. E explique bem, se quer voltar a ver a luz do sol.
Por um momento, Wesley não conseguiu. Sua mente estava tomada por um único pensamento: estou em um julgamento. Mas ele afastou o pensamento. A volta da raiva, uma imitação pálida do que sentiu por Candy Rymer, mas bem verdadeira, trabalhou a seu favor.
— Pessoas iam morrer. Pelo menos onze. Talvez mais. Pode não ser muito para pessoas como vocês, mas é para mim, principalmente porque uma delas era a mulher que amo. Tudo porque uma bêbada egoísta não cuida dos problemas dela. E… — Ele quase disse e nós, mas fez o ajuste necessário a tempo. — E eu nem a machuquei. Dei uns tapas nela, mas não consegui me segurar.
— Vocês nunca conseguem se segurar — respondeu a voz zumbida da coisa em sua poltrona favorita (que nunca mais seria sua poltrona favorita). — Controle fraco dos impulsos é noventa por cento do problema. Já passou pela sua cabeça, Wesley de Kentucky, que as Leis do Paradoxo existem por um motivo?
— Eu não…
A coisa ergueu a voz.
— É claro que você não. Nós sabemos que você não. Estamos aqui porque você não. Não passou pela sua cabeça que uma das pessoas naquele ônibus podia se tornar um serial killer, alguém que poderia matar dezenas, inclusive uma criança que cresceria e encontraria a cura do câncer ou do mal de Alzheimer. Não ocorreu a você que uma daquelas jovens podia dar à luz o próximo Hitler ou Stalin, um monstro em forma humana que poderia matar milhões dos seus colegas humanos neste nível da Torre. Não ocorreu a você que estava se intrometendo em eventos muito além da sua compreensão!
Não, ele não tinha pensado em nada disso. Só pensou em Ellen. Assim como Robbie só pensou em Josie. E, juntos, eles pensaram nas outras pessoas. Jovens gritando, com a pele queimando e se soltando dos ossos, talvez tendo as piores mortes que Deus proporcionava a Seu povo sofredor.
— Isso acontece? — sussurrou ele.
— Nós não sabemos o que acontece — retrucou a coisa de casaco amarelo. — É essa a questão. O programa experimental que você tolamente acessou pode ver seis meses no futuro com clareza… em uma área geográfica limitada, claro. Além de seis meses, a visão preditiva fica fraca. Depois de um ano, só há escuridão. Por isso, nós não sabemos o que você e seu jovem amigo podem ter feito. E, como não sabemos, não há chance de consertar o dano, se houve dano.
Seu jovem amigo. Eles sabiam sobre Robbie Henderson. O coração de Wesley se apertou.
— Tem algum tipo de poder controlando isso tudo? Tem, não tem? Quando acessei os Livros Ur pela primeira vez, eu vi uma torre.
— Todas as coisas servem à Torre — disse o homem-coisa de casaco amarelo, e tocou o button horrível que tinha no peito com certa reverência.
— Então como você sabe que eu também não sirvo?
Eles não disseram nada. Só ficaram olhando com olhos pretos e predatórios.
— Eu não pedi o aparelho, sabe? Quer dizer… eu comprei um Kindle, isso é verdade, mas não pedi o que chegou. Só chegou.
Houve um longo silêncio, e Wesley entendeu que sua vida estava oscilando dentro dele. A vida que ele conhecia, pelo menos. Podia continuar com algum tipo de existência se aquelas duas criaturas o levassem no carro vermelho odioso, provavelmente uma existência encarcerada, e achava que não conseguiria manter a sanidade por muito tempo.
— Nós achamos que foi um erro de envio — disse o jovem, por fim.
— Mas você não tem certeza, não é? Porque não sabe de onde veio. Nem quem mandou.
Mais silêncio. E então, o mais velho repetiu:
— Todas as coisas servem à Torre. — Ele se levantou e esticou a mão, que cintilou e virou uma garra. Cintilou de novo e virou uma mão. — Entregue o aparelho para mim, Wesley de Kentucky.
Wesley de Kentucky não precisava ouvir a ordem duas vezes, apesar de suas mãos estarem tremendo tanto que ele teve dificuldade em abrir as fivelas da pasta pelo que pareceram horas. Por fim, elas se abriram, e ele estendeu o Kindle cor-de-rosa para o mais velho. A criatura ficou olhando com uma fome enlouquecida que fez Wesley sentir vontade de gritar.
— Acho que não está funcionando mais mesm…
A criatura arrancou o aparelho dele. Por um segundo, Wesley esbarrou na mão do homem-coisa e entendeu que a pele da criatura tinha pensamentos próprios. Pensamentos uivantes que percorriam os próprios circuitos desconhecidos. Desta vez, ele gritou… ou tentou. O que saiu foi um gemido baixo e engasgado.
Eles foram até a porta, com a barra dos casacos fazendo barulhos abomináveis e líquidos de risadinhas. O mais velho saiu, ainda segurando o Kindle com a mão-garra. O outro parou por um momento para olhar para Wesley.
— Você está ganhando uma chance. Entende a sorte que tem?
— Entendo — sussurrou Wesley.
— Então agradeça.
— Obrigado.
A coisa sumiu sem dizer mais nada.
Ele não conseguiu se sentar no sofá, nem na poltrona que — antes de Ellen surgir — parecia ser sua melhor amiga no mundo. Deitou-se na cama e cruzou os braços sobre o peito em uma tentativa de parar os tremores que o percorriam. Deixou as luzes acesas porque não fazia sentido apagá-las. Ele tinha certeza de que não dormiria durante semanas. Talvez nunca mais. Começaria a pegar no sono, mas veria aqueles olhos pretos famintos e ouviria aquela voz dizendo “Entende a sorte que tem?”.
Não, dormir estava fora de cogitação.
E, com isso, ele ficou inconsciente.
VIII — O FUTURO AS AGUARDA
Wesley dormiu até o toque de “Cânone em ré maior”, de Pachelbel, o acordar às nove da manhã seguinte. Se houve sonhos (com Kindles cor-de-rosa, mulheres bêbadas em estacionamentos de bares de beira de estrada ou homens baixos de casaco amarelo), ele não lembrava. Só sabia que alguém estava ligando para seu celular, e devia ser alguém que queria muito falar com ele.
Ele correu para a sala, mas o toque parou antes que ele conseguisse tirar o celular da pasta. Abriu-o e viu VOCÊ TEM 1 MENSAGEM. Ele ligou para a caixa postal.
— Ei, amigão — disse a voz de Don Allman. — É melhor você olhar o jornal de hoje.
Era só isso.
Ele não assinava mais o The Echo, mas a velha sra. Ridpath, sua vizinha de baixo, assinava. Ele desceu a escada dois degraus de cada vez, e ali estava, enfiado na caixa de correspondência dela. Ele pegou o jornal, mas hesitou. E se seu sono não tivesse sido natural? E se ele tivesse sido anestesiado, para poder ser levado para um Ur diferente, no qual o acidente aconteceu? E se Don tivesse ligado para prepará-lo? E se ele desdobrasse o jornal e visse a margem preta que era a versão jornalística do mundo das faixas funerárias?
— Por favor — sussurrou ele, sem saber se era para Deus ou para aquela misteriosa torre negra que estava rezando. — Por favor, que ainda seja meu Ur.
Ele pegou o jornal com a mão entorpecida e o desdobrou. A margem estava mesmo ali, envolvendo toda a primeira página, mas era azul, não preta.
Azul suricato.
A foto era a maior que ele já tinha visto no The Echo, ocupando metade da primeira página, debaixo de uma manchete que dizia LADY SURICATOS GANHAM BLUEGRASS, E O FUTURO AS AGUARDA! O time estava reunido na quadra da Rupp Arena. Três jogadoras erguiam um troféu prateado brilhante. Outra, Josie, estava em uma escada, girando uma rede acima da cabeça.
De pé na frente do time, usando a calça azul elegante com blazer azul que sempre usava nos dias de jogo, estava Ellen Silverman. Ela estava sorrindo e segurando um cartaz feito à mão que dizia EU TE AMO, WESLEY.
Wesley ergueu as mãos acima da cabeça, uma ainda segurando o jornal, e deu um grito que fez alguns garotos do outro lado da rua olharem para ele.
— O que tá rolando? — gritou um deles.
— Sou fã do time! — explicou Wesley, e correu para o apartamento. Tinha uma ligação a fazer.
Pensando em Ralph Vicinanza
Em 26 de julho de 2009, uma mulher chamada Diane Schuler deixou o camping Hunter Lake, em Parksville, Nova York, dirigindo seu Ford Windstar 2003. Ela tinha cinco passageiros: seu filho de cinco anos, sua filha de dois anos e três sobrinhas. Parecia bem; a última pessoa a vê-la no camping jura que ela estava alerta e não tinha bafo de álcool. Continuava bem uma hora depois, quando parou para comer com as crianças no McDonald’s. No entanto, pouco depois, ela foi vista vomitando no acostamento. Diane ligou para o irmão e disse que não estava se sentindo bem. Em seguida, entrou na Taconic Parkway e dirigiu na mão errada por quase três quilômetros, ignorando as buzinas, os acenos e os faróis sendo piscados por quem desviava dela. Acabou batendo de frente em um SUV, matando a si mesma, quase todos os seus passageiros (seu filho foi o único sobrevivente) e os três homens no outro carro.
De acordo com os exames toxicológicos, Schuler estava digerindo o equivalente a dez doses de bebida alcoólica na hora do acidente, além de uma grande quantidade de maconha. O marido declarou que a esposa não era de beber, mas exames toxicológicos não mentem. Como Candy Rymer da história anterior, Diane Schuler estava calibrada. Daniel Schuler realmente não sabia, depois de pelo menos cinco anos de casamento e de um período de namoro, que a esposa bebia escondido? É possível. Viciados conseguem ser incrivelmente sorrateiros e esconder seus vícios por bastante tempo. Fazem isso por necessidade e desespero.
O que exatamente aconteceu naquele carro? Como ela ficou bêbada tão rápido, e quando fumou a erva? O que estava pensando quando se recusou a dar atenção aos motoristas que a avisavam que ela estava na mão errada? Foi um acidente motivado por bebida e droga, um assassinato-suicídio ou uma combinação bizarra dos dois? Só a ficção pode abordar respostas a essas perguntas. Só pela ficção podemos pensar no impensável e, quem sabe, obter algum tipo de encerramento. Esta história é minha tentativa de fazer isso.
A propósito, Herman Wouk ainda está vivo. Ele leu uma versão desta história quando foi publicada na The Atlantic e escreveu um belo bilhete para mim. Até me convidou para visitá-lo. Como fã de carteirinha, fiquei emocionado. Ele está chegando aos cem anos agora, e eu tenho sessenta e sete. Se eu viver por tempo suficiente, talvez aceite o convite dele.