O corpo guarda as marcas
PARTE III | A mente infantil
PARTE III
A MENTE INFANTIL
OceanofPDF.com
7
ENTRAR NA MESMA ONDA:
APEGO E SINTONIA
As raízes da resiliência […] residem na sensação de ser
compreendido por outra pessoa, carinhosa, controlada e sintonizada
conosco, e de existir em sua mente e seu coração.
Diana Fosha
A clínica infantil do CSMM vivia cheia de crianças perturbadas e
perturbadoras. Eram criaturas agitadas que não conseguiam car paradas,
que agrediam e mordiam as outras crianças e, às vezes, até os funcionários
da clínica. Em certo momento, corriam e se agarravam a nós, fugindo
aterrorizadas logo em seguida. Algumas se masturbavam compulsivamente;
outras atacavam objetos, animais e a si mesmas. Ansiavam por afeição, mas
mostravam-se coléricas e desa adoras. Algumas meninas exibiam uma
submissão dolorosa. Fossem elas refratárias ou apegadas, nenhuma parecia
capaz de explorar o mundo ou brincar como as outras crianças da mesma
idade. Algumas praticamente não tinham desenvolvido uma percepção do
self – nem sequer se reconheciam num espelho.
Na época, eu sabia pouquíssimo a respeito de crianças, afora o que meus
dois lhos pequenos estavam me ensinando. Mas tive a sorte de ter como
colega Nina Fish-Murray, que havia estudado com Piaget em Genebra, além de ter cinco lhos. Piaget baseava suas teorias do desenvolvimento infantil
numa observação meticulosa e direta de crianças, começando com os
próprios lhos, e foi esse espírito que Nina trouxe para o incipiente Trauma
Center do CSMM.
Casada com Henry Murray, um dos pioneiros da teoria da personalidade
e ex-diretor do Departamento de Psicologia da Universidade Harvard, ela
estimulava ativamente qualquer membro jovem do corpo docente que
compartilhasse seus interesses. E dava muita atenção ao que eu dizia sobre
os veteranos de guerra, que lhe lembravam as crianças problemáticas com
quem ela trabalhava nas escolas públicas de Boston. Sua posição privilegiada
e seu encanto pessoal nos deu acesso à clínica infantil, dirigida por
psiquiatras pouco interessados em trauma.
Henry Murray se tornara famoso, entre outros motivos, por ter criado o
Teste de Apercepção Temática. O TAT, considerado um teste projetivo, utiliza
um conjunto de cartões com imagens para descobrir como a realidade
interior de uma pessoa molda sua visão de mundo. À diferença dos cartões
de Rorschach que usávamos com os veteranos, os cartões do TAT mostram
cenas realistas, porém ambíguas e um tanto inquietantes: um homem e uma
mulher, melancólicos, que evitam olhar um para o outro; um menino
observando um violino quebrado. Pede-se aos pacientes que contem uma
história sobre o que está acontecendo na imagem, o que aconteceu antes e o
que acontecerá depois. Em geral, suas interpretações logo revelam os temas
que os preocupam.
Nina e eu decidimos criar um conjunto de cartões destinados
especi camente a crianças, com base em imagens que recortamos de revistas
deixadas na sala de espera da clínica. Nosso primeiro estudo comparou doze
crianças de 6 a 11 anos da clínica infantil com as de uma escola das
redondezas bastante equivalentes em idade, etnia, inteligência e ambiente
familiar. 1 O que distinguia nossos pacientes era o abuso de que tinham sido
vítimas no seio familiar. Entre eles havia um menino que sofrera contusões
graves em decorrência das repetidas surras que levava da mãe; uma menina
cujo pai a molestara aos 4 anos de idade; dois garotos que haviam sido
amarrados a uma cadeira e chicoteados várias vezes; e uma menina que, aos
5 anos, vira a mãe, prostituta, ser estuprada, esquartejada, queimada e metida no porta-malas de um carro. Suspeitava-se que o cafetão da mãe
tivesse abusado da menina.
As crianças do grupo de controle também pertenciam a famílias pobres
e moravam numa área degradada da cidade, onde com frequência
testemunhavam cenas de extrema violência. Enquanto o estudo estava sendo
realizado, um garoto da escola deles jogou gasolina e ateou fogo a um
colega. Outro se viu no meio de um tiroteio a caminho do colégio com o pai
e um amigo. Foi ferido na virilha, e o amigo morreu. Levando-se em
consideração a exposição deles a esse nível de violência, suas respostas aos
cartões seriam diferentes daquelas das crianças hospitalizadas?
Um dos cartões do teste mostrava uma menina e um adolescente,
sorridentes, vendo o pai consertar o carro. Todas as crianças a quem
mostrávamos esse cartão falavam do perigo que corria o homem debaixo do
veículo. Enquanto as crianças do grupo de controle criavam histórias com
nais felizes – o carro seria consertado, e talvez o pai e os lhos fossem ao
McDonald’s depois –, as traumatizadas vinham com fantasias medonhas. Uma garota disse que a menina estava prestes a rachar o crânio do pai com o
martelo. Um menino de 9 anos, que sofrera graves maus-tratos físicos,
contou uma história complexa, na qual o adolescente da foto chutaria para
longe o macaco, de modo que o carro esmagaria o corpo do pai, cujo sangue
esguicharia em todas as paredes e no chão da o cina.
Narrando essas histórias, nossos pacientes caram muito agitados e
perturbados. Tivemos de interromper a sessão e afastá-los por um bom
tempo, levando-os ao bebedouro e para dar uma caminhada, antes de lhes
mostrar o cartão seguinte. Não era de admirar que quase todos tivessem
diagnóstico de transtorno de dé cit de atenção com hiperatividade (TDAH) e
que a maioria fosse medicada com Ritalin [no Brasil, Ritalina], embora o
remédio não parecesse atenuar suas reações à situação.
As crianças vítimas de abuso sexual zeram comentários semelhantes
sobre a imagem aparentemente inocente da silhueta de uma mulher grávida
contra uma janela. Quando a mostramos à menina de 7 anos que fora
molestada pelo pai aos 4, ela se pôs a falar de pênis e vaginas, e várias vezes
fez a Nina perguntas como “Com quantas pessoas você já transou?”. Como
várias outras meninas vítimas de abuso sexual, ela cou tão agitada que
tivemos de interromper a sessão. Uma garota de 7 anos do grupo de controle
captou o clima melancólico da imagem: contou a história de uma viúva que
olhava, triste, pela janela, sentindo falta do marido. No m, porém, ela
encontrava um homem carinhoso que seria um bom pai para a criança.
Cartão após cartão, víamos que, embora alertas para a possibilidade de
surgirem problemas, as crianças que não haviam sofrido abusos ainda
con avam num universo essencialmente benigno; eram capazes de imaginar
boas saídas para situações ruins. Pareciam se sentir protegidas e seguras com
a família; também se sentiam amadas por ao menos um dos pais, o que fazia
uma diferença sensível em sua vontade de participar das atividades escolares
e aprender.
As reações das crianças da clínica foram alarmantes. As imagens mais
inocentes remetiam a intensas sensações de perigo, agressão, estímulo sexual
e terror. Não havíamos selecionado aquelas guras porque apresentassem
algum sentido oculto que pessoas sensíveis pudessem perceber – eram
imagens comuns do dia a dia. Só podíamos concluir que para crianças
vítimas de abuso o mundo inteiro está repleto de ameaças. Como só eram
capazes de imaginar resultados desastrosos para situações relativamente
benignas, qualquer um que entrasse na sala, qualquer estranho, qualquer
imagem, numa tela ou num cartaz de rua, poderia ser percebido como um
prenúncio de catástrofes. Visto sob essa luz, o comportamento das crianças
na clínica infantil fazia todo o sentido.2
Para meu espanto, era raro que as discussões médicas na unidade
mencionassem as horrendas experiências das crianças na vida real e os
impactos desses traumas nas sensações, no pensamento e na autorregulação
delas. Ao contrário, os prontuários estavam repletos de diagnósticos:
“transtorno de conduta” e “transtorno desa ador de oposição”, no caso das
crianças furiosas e rebeldes; ou “transtorno bipolar”. O TDAH era um diagnóstico de “comorbidade” para quase todas. Por acaso o trauma original
estaria sendo obscurecido por essa avalanche de diagnósticos?
Agora tínhamos diante de nós dois grandes desa os. O primeiro,
descobrir se o modo pelo qual as crianças “normais” viam o mundo podia
explicar sua resiliência e, num nível mais profundo, como cada criança cria
seu mapa do mundo. O segundo, também fundamental: seria possível ajudar
a mente e o espírito de crianças brutalizadas a redesenhar seus mapas
internos e incorporar a eles um sentimento de con ança no futuro?
HOMENS SEM MÃES
O estudo cientí co da relação vital entre lactentes e suas mães foi iniciado
por ingleses da elite que haviam sido separados da família na infância e
matriculados em internatos, onde cresceram em ambientes masculinos,
rígidos e opressivos. Em minha primeira visita à famosa Clínica Tavistock,
em Londres, notei uma série de fotos em preto e branco de grandes
psiquiatras do século XX na parede do corredor que levava à escadaria
principal: John Bowlby, Wilfred Bion, Harry Guntrip, Ronald Fairbairn e
Donald Winnicott. Todos eles tinham estudado o processo pelo qual as
primeiras experiências de uma criança se tornam modelos para todas as
suas conexões posteriores, e como a mais remota percepção do self se forma
nos menores diálogos com os pais ou responsáveis.
Os cientistas estudam aquilo que para eles é mais enigmático, de forma
que se tornam especialistas em assuntos que outros veem como ponto
pací co. (Ou, como um dia me disse Beatrice Beebe, que pesquisa o apego,
“a maior parte dos estudos é uma busca do eu”.) Esses homens que
estudaram o papel das mães na vida das crianças tinham sido mandados
para internatos numa idade vulnerável, entre 6 e 10 anos, muito antes da
época em que deveriam estar confrontando o mundo sozinhos. O próprio
Bowlby me disse que talvez tivessem sido essas experiências de internato
que induziram George Orwell a escrever o romance 1984, que expressa de
maneira brilhante como os seres humanos podem ser levados a sacri car
tudo o que mais amam e respeitam – inclusive seu senso de identidade – para granjearem a apreciação e a aprovação de alguém que ocupa uma
posição de autoridade.
Como Bowlby era muito amigo dos Murray, sempre que ele visitava
Harvard eu tinha a oportunidade de conversar sobre seu trabalho. Bowlby
vinha de uma família aristocrática (seu pai era cirurgião médico da corte) e
estudara psicologia, medicina e psicanálise nos melhores centros britânicos.
Depois de se formar pela Universidade de Cambridge, trabalhou com
delinquentes juvenis no East End de Londres, área conhecida pela violência
e em grande parte destruída pelos ataques aéreos alemães na Segunda
Guerra Mundial. Durante a guerra, na qual serviu como médico, e depois
dela, Bowlby observou os efeitos da evacuação de amplas áreas e das grandes
creches que separavam crianças pequenas da família. Estudou também o
efeito da hospitalização, demonstrando que até breves separações (os pais
não tinham permissão para passar a noite no hospital) elevavam o nível de
sofrimento das crianças. No m da década de 1940, Bowlby se tornara
persona non grata na comunidade psicanalítica inglesa por defender uma
tese radical: os transtornos visíveis na conduta de certas crianças eram uma
reação a experiências de vida reais – negligência, brutalidade e separação –,
não o resultado de fantasias sexuais infantis. Não se deixando intimidar, ele
dedicou o resto da vida a elaborar sua teoria do apego.3
UMA BASE SEGURA
Quando chegamos ao mundo, gritamos para anunciar nossa presença. De
imediato alguém nos pega, nos limpa, nos veste e enche nosso estômago. E o
melhor de tudo: nossa mãe nos põe sobre a barriga ou o peito para um
delicioso contato pele a pele. Somos criaturas profundamente sociais, e
nossa vida consiste em encontrar nosso lugar na comunidade de seres
humanos. Adoro as palavras do grande psiquiatra francês Pierre Janet:
“Cada vida é uma obra de arte, montada com todos os meios disponíveis.”
À medida que crescemos, aos poucos aprendemos a cuidar de nós
mesmos, física e emocionalmente, mas as primeiras aulas de cuidados
pessoais vêm do modo como fomos cuidados. O domínio da arte da
autorregulação depende, em boa medida, da harmonia das primeiras interações com nossos cuidadores. Crianças cujos pais são fontes con áveis
de bem-estar e resistência têm uma vantagem para toda a vida – uma
espécie de amortecedor contra o pior que a sorte possa lhes trazer.
John Bowlby percebeu que crianças são cativadas por rostos e vozes, e
que têm uma sutil sensibilidade a expressões faciais, posturas, tons de voz,
modi cações siológicas, ritmos de movimentos e intenções. Viu essa
capacidade inata como um produto da evolução, essencial para a
sobrevivência dessas criaturas indefesas. Crianças também são programadas
para escolher um determinado adulto (ou no máximo alguns) com quem
seu sistema natural de comunicação se desenvolve. Isso cria um vínculo
primário de apego. Quanto mais receptivo o adulto, maior será o apego e a
probabilidade de que a criança desenvolva formas saudáveis de reagir às
pessoas a seu redor.
Bowlby ia muito ao Regent’s Park, em Londres, onde fazia observações
sistemáticas das interações entre crianças e suas mães. Enquanto estas, nos
bancos, tricotavam ou liam o jornal, as crianças se afastavam para explorar o
mundo, olhando para trás de vez em quando, para se assegurar de que a mãe
continuava ali. Quando uma vizinha se aproximava e começava a conversar,
as crianças voltavam correndo e se punham perto da mãe, para se certi car
de que ainda tinham sua atenção. Lactentes e crianças pequenas cam
nervosos ao notar que a mãe não está plenamente envolvida com eles.
Quando a mãe some de vista, podem chorar e parecer inconsoláveis, mas,
assim que ela reaparece, se aquietam e voltam a brincar.
Bowlby considerou o apego como a base segura a partir da qual uma
criança se aventura no mundo. Ao longo das cinco décadas seguintes, a
pesquisa comprovou que ter um porto seguro promove autocon ança e
instila um sentido de solidariedade e solicitude em relação a outras pessoas
em di culdades. A partir do dar e receber do vínculo de apego, as crianças
aprendem que os outros têm sentimentos e ideias tanto semelhantes como
diferentes dos delas mesmas. Em outras palavras, entram “em sintonia” com
seu ambiente e com as pessoas que as rodeiam, adquirindo a
autoconsciência, a empatia, o controle de impulsos e a automotivação que
lhes permitem se tornar membros úteis da cultura social mais ampla. Eram
essas qualidades que, lamentavelmente, faltavam às crianças de nossa clínica
infantil.
A DANÇA DA SINTONIA
Crianças se apegam a quem quer que atue como principal responsável por
seus cuidados, mas a natureza desse apego – o fato de ele ser seguro ou
inseguro – faz uma enorme diferença no decurso de suas vidas. O apego
seguro se desenvolve quando o cuidado inclui sintonia emocional. A
sintonia começa nos mais sutis níveis físicos de interação entre os bebês e
seus cuidadores e dá aos primeiros a sensação de serem atendidos e
entendidos. Como disse o escocês Colwyn Trevarthen, pesquisador do
apego, “o cérebro coordena movimentos corporais rítmicos e os orienta para
atuar em sintonia com o cérebro de outras pessoas. Bebês ouvem e
aprendem musicalidade com a conversa da mãe antes mesmo do
nascimento”.4
No capítulo 4, falei dos neurônios-espelhos, os elos de cérebro a cérebro
que nos proporcionam a capacidade de empatia. Os neurônios-espelhos
começam a funcionar assim que os bebês nascem. Quando o pesquisador
Andrew Meltzoff, da Universidade do Oregon, comprimia os lábios ou
mostrava a língua a bebês com seis horas de vida, eles prontamente
imitavam seus atos. 5 (Um recém-nascido só consegue focalizar a vista em
objetos situados a vinte ou trinta centímetros de distância – apenas o
su ciente para ver a pessoa que o segura.) A imitação é nossa habilidade
social mais fundamental. Ela garante que iremos captar e re etir
automaticamente o comportamento de nossos pais, professores e pares.
A maioria dos pais se liga aos lhos de forma tão espontânea que não
percebe como a sintonia se a na. No entanto, um convite de Ed Tronick, um
amigo que pesquisa o apego, me permitiu estudar esse processo mais de
perto. Através de um espelho unidirecional, no Laboratório de
Desenvolvimento Humano, em Harvard, observei uma mãe que brincava
com o lho de cinco meses, sentado numa cadeira alta diante dela.
A mãe e o bebê brincavam um com o outro e se divertiam à beça, até
que ela aproximou o rosto do bebê, que, em sua excitação, puxou o cabelo
dela. A mãe foi pega desprevenida e gritou de dor, empurrando a mão da
criança, contorcendo o rosto de raiva. O bebê a largou no mesmo instante, e
os dois se afastaram sicamente. Para ambos, a fonte de prazer se tornara
fonte de sofrimento. Obviamente assustado, o bebê levou as mãos ao rosto para não ver a zanga da mãe, que, por sua vez, sentindo a perturbação do
lho, voltou a concentrar nele sua atenção, emitindo barulhinhos
tranquilizantes na tentativa de reverter a situação. O bebê ainda mantinha os
olhos tapados, mas sua ânsia de conexão logo reapareceu. Começou
espiando de forma sorrateira, para ver se estava tudo bem, ao mesmo tempo
que a mãe lhe fazia agradinhos. Quando ela começou a coçar a barriguinha
dele, o bebê baixou as mãos e deu uma risadinha feliz. Com isso a harmonia
se restabeleceu. Bebê e mãe voltaram a se sintonizar. Toda essa sequência de
prazer, ruptura, reparação e novo prazer durou pouco menos de doze
segundos.
Tronick e outros mostraram que lactentes e cuidadores em sintonia num
nível emocional também estão em sintonia física.6 Bebês não conseguem
regular os próprios estados emocionais, muito menos mudanças na
frequência cardíaca, nos níveis hormonais e na atividade do sistema nervoso
que acompanham as emoções. Quando uma criança está em sintonia com
quem cuida dela, seu senso de alegria e conexão se re ete na regularidade
dos batimentos cardíacos e da respiração, bem como num baixo nível de
hormônios do estresse. Seu corpo está calmo, bem como suas emoções. No
momento em que esse ritmo é interrompido – o que acontece com
frequência durante um dia normal –, todos esses fatores psicológicos
também se alteram. Pode-se dizer que o equilíbrio foi restaurado quando a
siologia se normaliza.
Acalmamos os recém-nascidos, mas logo começamos a ensinar os lhos
a tolerar níveis mais altos de alerta, tarefa que muitas vezes cabe aos
homens. (Uma vez ouvi o psicólogo John Gottman dizer: “As mães adulam,
os pais açulam.”) Aprender a controlar o estado de alerta é fundamental para
a vida, e os pais têm de fazer isso pelos bebês antes que eles tenham
autonomia para tanto. Se aquela sensação incômoda na barriga faz um bebê
chorar, logo vem o peito ou a mamadeira. Se o bebê está assustado, alguém o
segura e o embala até ele se acalmar. Se a fralda ca cheia, alguém aparece
para limpá-lo e secá-lo. Associar sensações intensas a segurança, bem-estar e
tranquilidade constitui o fundamento da autorregulação, da
autotranquilização e da autoeducação, tema que retomo em todo o livro.
Um apego seguro, combinado com o cultivo da competência, constrói
um locus interno de controle, o fator-chave para uma maneira saudável de
lidar com situações durante toda a vida.7 Crianças que desenvolvem apego
seguro aprendem a distinguir o que as faz se sentir bem. Também
descobrem o que faz com que elas (e os outros) se sintam mal, e adquirem
um senso de agência: percebem que seus atos podem modi car o modo
como se sentem e como as outras pessoas reagem. Crianças com apego
seguro aprendem a diferença entre as situações que podem controlar e
aquelas nas quais precisam de ajuda. Aprendem que podem exercer um
papel ativo diante de situações difíceis. Crianças com histórico de abuso e
negligência, ao contrário, aprendem que o terror, as súplicas e o choro não
têm efeito sobre o responsável por elas. Nada que possam fazer ou dizer faz
cessar os maus-tratos físicos nem lhes traz atenção e ajuda. Na realidade,
estão sendo condicionadas a não reagir quando mais tarde, na vida adulta,
enfrentarem desa os.
O CAMINHO PARA O REAL
O pediatra e psicanalista Donald Winnicott, contemporâneo de Bowlby, foi
quem desenvolveu os modernos estudos de sintonia. Suas minuciosas
observações sobre mães e lhos começaram com o modo como as mães
seguram os bebês. Winnicott acreditava que essas interações físicas
preparam o caminho para a consciência de self por parte do bebê – e, com
isso, para um senso de identidade durante toda a vida. A forma como a mãe
pega o bebê no colo condiciona “a capacidade de sentir o corpo como o
lugar onde vive o psiquismo”.8 Essa sensação visceral e cinestésica de como
nosso corpo é visto prepara o caminho para aquilo que experimentamos
como o “real”.9
Winnicott considerava que a maior parte das mães mostrava boa
sintonia com os lhos – não é preciso talento excepcional para ser o que se
chama uma “boa mãe”. 10 Contudo, a situação pode se complicar bastante
quando as mães são incapazes de entrar na mesma sintonia da realidade
física do bebê. Se a mãe não atende aos impulsos e necessidades do lho, “o
bebê aprende a tornar-se a ideia que a mãe faz dele”. Ter de reduzir suas
sensações interiores e tentar ajustar-se às necessidades de quem cuida dela
faz a criança perceber que “alguma coisa está errada”. Crianças carentes de sintonia física podem bloquear o retorno que emana de seu corpo, a sede de
prazer, propósito e direção.
Desde a época em que Bowlby e Winnicott divulgaram suas ideias,
pesquisas sobre o apego, no mundo inteiro, demonstraram que a vasta
maioria das crianças goza de apego seguro. Quando crescem, seu histórico
de cuidados con áveis e sensíveis contribuirá para manter o medo e a
ansiedade à distância. Se não ocorrer nenhum evento desastroso que
dani que o sistema de autorregulação – um trauma –, essas pessoas
provavelmente vão manter um estado fundamental de segurança emocional
durante toda a vida. Um apego seguro constitui também um gabarito para
os relacionamentos das crianças. Elas captam o que os outros estão sentindo
e logo aprendem a distinguir o que é jogo e o que é realidade, e adquirem
bom faro para situações e pessoas perigosas. Crianças com apego seguro, em
geral, se tornam companheiras afáveis de outras crianças e têm muitas
experiências de autoa rmação com seus pares. Como aprenderam a entrar
em sintonia com outras pessoas, tendem a perceber mudanças sutis em
vozes e expressões e a ajustar seu comportamento de forma correspondente.
Aprendem a viver de acordo com uma visão compartilhada do mundo, e é
provável que se tornem membros respeitados da comunidade.
No entanto, essa espiral ascendente pode ser prejudicada por abuso ou
negligência. É comum que crianças vítimas de maus-tratos sejam muito
sensíveis a alterações de vozes e expressões, com a tendência de ver essas
mudanças como ameaças, não sinais para entrar em sintonia. O dr. Seth
Pollak, da Universidade de Wisconsin, mostrou uma série de rostos a um
grupo de crianças de 8 anos e comparou suas reações com as de um grupo
de crianças da mesma idade, mas vítimas de abusos. Diante desse espectro
de expressões, que variavam da fúria à tristeza, as crianças que sofreram
abusos mostraram-se hiperalertas aos mais ligeiros sinais de fúria. 11
Essa é uma das razões por que uma criança vítima de maus-tratos ca na
defensiva ou se assusta. Imaginemos como ela se sente diante de um mar de
rostos no corredor da escola, tentando prever quem poderá agredi-la. É
provável que crianças que reagem com exagero à agressão de um colega, que
não se dão conta das necessidades de outras crianças, que com facilidade se
fecham ou perdem o controle de seus impulsos sejam deixadas de lado e
nunca recebam convites para brincadeiras ou festinhas na casa dos colegas.
Em determinado momento podem acabar aprendendo a assumir uma
fachada de agressividade a m de encobrir seus medos. Ou podem car
cada vez mais tempo sozinhas, vendo TV ou diante do computador,
atrasando-se cada vez mais na área de quali cações interpessoais e no
desenvolvimento de autorregulação emocional.
A necessidade de apego nunca diminui. A maioria das pessoas não
suporta viver distante do convívio humano durante muito tempo. Quem não
se liga aos outros pelo trabalho, por amizades ou pela família, em geral,
busca diferentes formas de vinculação, seja por meio de doenças, causas
judiciais ou brigas de família. Qualquer coisa é preferível àquela sensação
desolada de irrelevância e alienação.
Há alguns anos, numa véspera de Natal, fui chamado a examinar um
garoto de 14 anos na cadeia do condado de Suffolk. Jack havia sido preso
por invadir a casa de vizinhos que estavam viajando, de férias. O alarme
contra roubo continuava tocando quando os policiais o encontraram na sala.
A primeira pergunta que lhe z foi quem ele achava que iria visitá-lo na
cadeia no Natal. “Ninguém”, ele respondeu. “Ninguém presta atenção em
mim.” Vim a saber que ele tinha sido preso várias vezes por casos
semelhantes de invasão de domicílio. Ele conhecia a polícia, e a polícia o
conhecia. Havia prazer em sua voz ao me contar que, quando os policiais o
viram de pé no meio da sala, exclamaram: “Vejam só, é Jack de novo, aquele
puto!” Alguém o reconhecera. Alguém sabia seu nome. Daí a pouco ele
confessou: “Sabe, é isso que faz valer a pena.” Crianças farão quase tudo para
serem vistas e reconhecidas.
VIVER COM OS PAIS QUE SE TEM
A criança nasce com o instinto biológico de se apegar – ela não tem opção.
Sejam os pais ou responsáveis carinhosos e atentos, ou distantes, insensíveis
e inclinados à rejeição ou aos maus-tratos, ela desenvolverá uma estratégia
de enfrentamento na tentativa de fazer com que sejam atendidas ao menos
algumas de suas necessidades.
Dispomos hoje em dia de meios con áveis para avaliar e identi car esses
estilos de enfrentamento, graças sobretudo ao trabalho de duas cientistas
americanas, Mary Ainsworth e Mary Main, e também de seus
colaboradores, que observaram mães e seus bebês durante milhares de horas
ao longo de muitos anos. Com base nesses estudos, Ainsworth criou uma
ferramenta de pesquisa, por ela chamada Situação Estranha, que examina o
modo como um lactente reage à separação temporária da mãe. Como
Bowlby já havia observado, bebês com apego seguro se irritam quando a
mãe os deixa, mas cam felizes quando ela volta e, depois de uma rápida
con rmação, retomam a brincadeira.
Entretanto, no caso de crianças com apego inseguro, o quadro é mais
complexo. Crianças cujo cuidador principal não é ágil em suas respostas ou
as rejeita aprendem a lidar com a ansiedade de duas maneiras distintas. Os
pesquisadores notaram que algumas pareciam cronicamente ressentidas e
exigentes com as mães, enquanto outras eram mais passivas e distantes.
Nesses dois grupos, o reencontro com a mãe não as satisfazia – elas não
voltavam a brincar, felizes, como ocorria no caso das crianças com apego
seguro.
Num padrão denominado “apego evitativo” (ou esquivo), as crianças
passam a impressão de que nada as incomoda de verdade – não choram
quando a mãe se afasta, e a ignoram quando ela volta. Entretanto, isso não
signi ca que não se perturbem. Na verdade, a frequência cardíaca sempre
elevada mostra que elas permanecem em constante estado de
hipervigilância. Meus colegas e eu dizemos que crianças desse padrão
“relacionam-se, mas não sentem”. 12 A maioria das mães de bebês esquivos
parece não gostar de tocar nos lhos. Têm di culdade para acarinhá-los e
pegá-los no colo, e não usam expressões faciais e a voz para criar ritmos
prazerosos e recíprocos com os bebês.
Em outro padrão, chamado de apego “ansioso” ou “ambivalente”, bebês
chamam a atenção o tempo todo para si, chorando, gritando, agarrando-se à
mãe ou berrando. Estes “sentem, mas não se relacionam”.13 Parecem ter
aprendido que, a menos que façam um show, ninguém vai lhes dar atenção.
Ficam angustiadíssimos quando não sabem onde está a mãe, mas consolam-
se pouco com sua volta. E ainda que não pareçam apreciar a companhia da
mãe, mantêm-se focados nela de forma passiva ou furiosa, mesmo em
situações em que outras crianças prefeririam brincar. 14
Pesquisadores do apego creem que as três estratégias “organizadas” de
apego (a segura, a evitativa e a ansiosa) funcionam porque extraem o melhor
que um dado cuidador é capaz de proporcionar. Bebês que se veem diante
de um padrão consistente de assistência – mesmo que marcado por
distância emocional ou insensibilidade – podem se adaptar para manter o
relacionamento. O que não signi ca que não haja problemas: os padrões de
apego muitas vezes persistem na vida adulta. Crianças que ao começar a
andar são ansiosas tendem a se transformar em adultos ansiosos, enquanto
as que são evitativas provavelmente se tornarão adultos distanciados dos
sentimentos, próprios e alheios. (Como aquelas pessoas que dizem: “Uma
boa surra nada tem de mau. Eu apanhava e isso fez de mim a pessoa de
sucesso que sou hoje.”) Na escola, crianças evitativas tendem a praticar
bullying contra colegas, enquanto as ansiosas costumam ser suas vítimas.15
Não obstante, o desenvolvimento não é linear, e muitas experiências de vida
podem intervir para alterar esses resultados.
Existe, porém, um outro grupo, menos adaptado, ao qual pertence a
maior parte das crianças que tratamos e um número considerável dos
adultos das clínicas psiquiátricas. Há alguns anos, Mary Main e seus
colaboradores em Berkeley começaram a identi car crianças (cerca de 15%
das que foram estudadas) que pareciam incapazes de decidir sobre como se
relacionar com seus cuidadores. A questão crítica estava no fato de que os
próprios cuidadores lhes provocavam angústia ou terror.16
Crianças nessa situação não têm a quem recorrer e cam diante de um
dilema insolúvel: a mãe é, ao mesmo tempo, necessária para a sobrevivência
delas e uma fonte de medo.17 Tais crianças “não conseguem se aproximar (as
‘estratégias’ segura e ambivalente), nem desviar a atenção (a ‘estratégia’
evitativa), nem fugir”. 18 Quem as observa numa creche ou num laboratório
de apego percebe que, quando os pais entram na sala, elas olham para eles e
rapidamente desviam o olhar. Incapazes de escolher entre car perto deles ou evitá-los, começam a engatinhar de um lado para outro, parecem entrar
em transe, cam paradas com as mãos para o alto ou se levantam para
saudar o pai ou a mãe e depois caem no chão. Por não saberem quem
merece con ança ou a quem pertencem, podem se mostrar muito afetuosas
com estranhos ou então não con ar em ninguém. Main chamou esse padrão
de “apego desorganizado”. O apego desorganizado é “medo sem solução”.19
PESSOAS QUE SE DESORGANIZAM INTERIORMENTE
É comum que pais conscienciosos se alarmem quando tomam
conhecimento da teoria do apego, temendo que uma impaciência ocasional
ou os eventuais lapsos de sintonia possam causar danos permanentes aos
lhos. Na vida real, é inevitável haver mal-entendidos, reações infelizes e
falhas de comunicação. Já que mães e pais falham aqui e ali, ou apenas estão
ocupados com outros afazeres, muitas vezes os bebês têm de se virar
sozinhos para se acalmar. Isso não é problema, dentro de limites. As crianças
precisam aprender a resolver frustrações e desapontamentos. Com
cuidadores “bons”, elas aprendem que ligações rompidas podem ser
reparadas. A questão crítica é se conseguem incorporar uma sensação
visceral de segurança ao lado dos pais ou de outros cuidadores. 20
Num estudo sobre padrões de apego com mais de 2 mil bebês em
ambientes “normais” de classe média, concluiu-se que 62% eram seguros,
15% esquivos, 9% ansiosos (também chamados ambivalentes) e 15%
desorganizados.21 Curiosamente, esse amplo estudo revelou que o gênero e
o temperamento básico da criança têm pouco efeito sobre o tipo de apego.
Por exemplo, crianças com temperamentos “difíceis” não apresentam maior
probabilidade de desenvolver um estilo desorganizado. Crianças de níveis
socioeconômicos mais baixos têm mais probabilidade de ser
desorganizadas, 22 por terem pais gravemente estressados pela instabilidade
econômica e familiar.
Crianças que não se sentem seguras na infância têm problemas para
regular seus humores e respostas emocionais ao crescer. No jardim de
infância, muitas crianças desorganizadas se mostram agressivas ou
atarantadas e distanciadas, e no futuro vêm a desenvolver um leque de
problemas psiquiátricos.23 Além disso, apresentam mais estresse siológico,
que se manifesta em frequência cardíaca, na variação da frequência
cardíaca,24 em respostas de hormônios do estresse e na queda dos fatores
imunológicos.25 Será que esse tipo de desregulação biológica volta ao
normal automaticamente à medida que a criança amadurece ou é transferida
para um ambiente seguro? Ao que se saiba, não.
O abuso por parte dos pais não é a única causa do apego desorganizado:
pais preocupados com o próprio trauma, como violência doméstica ou
estupro, ou a morte recente de um dos pais ou de um irmão, também podem
ser fatores de instabilidade emocional que reduzem as condições para
oferecer bem-estar e proteção. 26 27 , Os pais precisam de toda a ajuda que
conseguirem obter para criar lhos seguros, porém, aqueles que são
traumatizados, em particular, necessitam de auxílio para estar em sintonia
com as necessidades dos lhos.
Muitas vezes os cuidadores não se dão conta de que estão fora de
sintonia. Lembro bem de um vídeo que Beatrice Beebe me mostrou.28 Uma
jovem mãe brincava com seu bebê de três meses. Tudo ia bem até o
momento em que o bebê se afastou e olhou para o outro lado, sinalizando
que precisava de uma pausa. No entanto, a mãe não entendeu o sinal e
intensi cou seus esforços para atrair o lho, aproximando-se e aumentando
o volume da voz. Ele se afastou ainda mais, e a mãe continuou a sacudi-lo e
apertá-lo. O bebê por m começou a gritar e nesse momento a mãe o pôs no
chão e se afastou, parecendo desapontada. Estava claro que ela havia se
sentido muito mal com aquilo, mas não havia percebido os sinais
importantes. É fácil imaginar que esse tipo de dessintonia, repetido muitas
vezes, pode levar a uma desconexão crônica. (Qualquer pessoa que tenha
cuidado de um bebê com cólicas ou hiperativo conhece a rapidez com que o
estresse aumenta quando nada parece dar resultado.) Se a mãe falha
repetidas vezes nas tentativas de acalmar o bebê e criar uma interação
prazerosa com ele, pode vê-lo como uma criança difícil. Logo se julga
incompetente e desiste de confortar o lho.
Na prática, nem sempre é fácil distinguir problemas resultantes do apego
desorganizado daqueles decorrentes de trauma, pois não é raro que esses
problemas estejam entrelaçados. Minha colega Rachel Yehuda estudou
índices de 29 TEPT em nova-iorquinas adultas vítimas de agressão ou estupro. Aquelas cujas mães, sobreviventes do Holocausto, tinham TEPT,
apresentavam uma probabilidade muito maior de desenvolver graves
problemas psicológicos depois de experiências traumáticas. A explicação
mais razoável era que a criação que receberam lhes provocara uma siologia
vulnerável, di cultando a recuperação do equilíbrio depois de serem
violentadas. Yehuda encontrou vulnerabilidade semelhante em lhos de
mulheres grávidas que estavam no World Trade Center naquele dia fatal de
2001. 30
Da mesma forma, as reações de crianças a eventos dolorosos são, em
grande parte, determinadas pelo grau de tranquilidade ou estresse dos pais.
Meu ex-aluno Glenn Saxe, hoje diretor do Departamento de Psiquiatria de
Crianças e Adolescentes na Universidade de Nova York, constatou que, num
grupo de crianças hospitalizadas para tratamento de queimaduras graves, a
probabilidade de que desenvolvessem TEPT era previsível com base em
quanto elas se sentiam seguras junto às mães. 31 Essa segurança determinava
a quantidade de mor na necessária para controlar suas dores: quanto mais
seguro o apego, menor a quantidade de analgésico.
Outro colega, Claude Chemtob, que dirige o Programa de Pesquisa de
Trauma Familiar no Centro Médico Langone, na Universidade de Nova
York, acompanhou 112 crianças que haviam sido testemunhas oculares dos
ataques terroristas do 11 de Setembro. 32 Filhos de mulheres com diagnóstico
de TEPT ou depressão no período subsequente tinham seis vezes mais
probabilidade de apresentar problemas emocionais graves e onze vezes mais
de se tornarem hiperagressivos em reação à sua experiência. Crianças cujos
pais sofriam de TEPT também tinham problemas emocionais, mas Chemtob
concluiu que esse efeito era indireto e transmitido pela mãe. (Conviver com
um cônjuge irascível, distante ou aterrorizado costuma impor um pesado
ônus psicológico ao parceiro, o que inclui depressão.)
Quem não tem uma sensação interna de segurança apresentará
di culdade para distinguir segurança de perigo. Se a pessoa se sente
cronicamente apática, situações com potencial de perigo podem lhe dar a
sensação de estar viva. Se a pessoa conclui que não presta mesmo (caso
contrário, por que os pais a tratavam tão mal?), passa a esperar que os outros
a tratem do mesmo jeito. Já as desorganizadas com esse tipo de autopercepções estão predispostas a se traumatizarem por experiências
subsequentes.33
OS EFEITOS A LONGO PRAZO DO APEGO
DESORGANIZADO
No início da década de 1980, minha colega Karlen Lyons-Ruth,
pesquisadora do apego em Harvard, começou a registrar interações face a
face entre mães e seus bebês – aos 6, 12 e 18 meses. Repetiu as gravações
quando as crianças estavam com 5 anos e também com 7 ou 8. 34 Todas
pertenciam a famílias vulneráveis: 100% delas cumpriam os critérios
federais de pobreza e quase 50% das mães eram solteiras.
O apego desorganizado assumia duas formas. Havia um grupo de mães
demasiado preocupadas com seus problemas para cuidar dos bebês;
mostravam-se hostis e revoltadas, ora rejeitando os lhos, ora agindo como
se esperassem que eles cuidassem das necessidades delas. O outro grupo era
composto por mães desamparadas e temerosas; meigas e frágeis, não sabiam
agir como adultas e pareciam desejar que os lhos as confortassem. Não
faziam afagos nos lhos depois de se ausentarem nem os pegavam no colo
quando estavam angustiados. Não pareciam agir assim de propósito –
apenas não sabiam como entrar em sintonia com eles e reagir a seus sinais, e
por isso deixavam de confortá-los e tranquilizá-los. De modo geral, as mães
hostis/revoltadas tinham um histórico de maus-tratos físicos e/ou de haver
presenciado violência doméstica, enquanto as distantes/dependentes tinham
um histórico de abuso sexual ou perda de pais (mas não de maus-tratos
físicos). 35
Sempre me perguntei por que alguns pais maltratam os lhos. A nal,
criar uma prole saudável está no cerne da ideia de realização humana. O que
leva uma pessoa a, de maneira deliberada, ferir ou negligenciar seus lhos?
A pesquisa de Karlen me deu uma resposta: assistindo a seus vídeos, vi
crianças cada vez mais inconsoláveis, taciturnas ou resistentes a mães
dessintonizadas. Ao mesmo tempo, as mães cavam cada vez mais
frustradas, derrotadas e impotentes em suas interações. Assim que a mãe
começa a ver o lho não como seu parceiro numa relação bem sintonizada, mas como um estranho frustrante, irritante e desconectado, está montado o
palco para futuros maus-tratos.
Mais ou menos dezoito anos depois, quando aquelas crianças tinham
por volta de 20 anos, Lyons-Ruth fez um estudo complementar para ver
como estavam se saindo. As que aos 18 meses exibiam graves problemas de
comunicação emocional com a mãe haviam se tornado jovens com uma
percepção instável de self, impulsividade autodestrutiva (que incluía, por
exemplo, gastos excessivos, sexo promíscuo, bulimia, uso de drogas, direção
perigosa), fúria desmedida e intensa, repetidos comportamentos suicidas.
Karlen e seus colegas tinham a expectativa de que o comportamento
revoltado ou hostil das mães fosse o mais forte indicador de instabilidade
mental em seus lhos quando adultos, mas o resultado a que chegaram foi
outro. O distanciamento emocional foi o que causou impacto mais profundo
e duradouro no grupo. O retraimento emocional e a inversão de papéis
(mães que esperam ser cuidadas pelos lhos) estavam ligados,
especi camente, nos jovens adultos, a comportamento agressivo contra si
mesmos e outras pessoas.
DISSOCIAÇÃO: SABER E NÃO SABER
Lyons-Ruth estava especialmente interessada no fenômeno da dissociação,
que leva a pessoa a se sentir perdida, esmagada, abandonada e desconectada
do mundo, e a ver a si mesma como não apreciada, vazia, indefesa,
aprisionada e imobilizada, como se carregasse um peso enorme. Encontrou
uma relação “acentuada e imprevista” entre distanciamento e dessintonia
por parte das mães durante os dois primeiros anos de vida dos lhos e
sintomas dissociativos no começo da vida adulta desses lhos, e concluiu
que bebês que não são verdadeiramente vistos e percebidos por suas mães
correm alto risco de se transformar em adolescentes incapazes de perceber e
ver as coisas.36
Um bebê que desfruta de relações seguras aprende a comunicar suas
frustrações e sofrimentos e também seu self incipiente – seus interesses,
preferências e metas. Ser alvo de uma reação receptiva protege bebês (e
adultos) contra níveis extremos de um estado de alerta assustado. Mas se os cuidadores não dão atenção às necessidades do bebê ou se ressentem da
própria existência dele, este aprende a esperar rejeição e afastamento. Ele
enfrenta a situação da melhor maneira que pode, bloqueando a hostilidade
ou a negligência da mãe, agindo como se isso não tivesse importância,
contudo seu corpo tende a se manter num estado de alerta máximo,
preparado para resistir a golpes, privações ou abandono. Dissociação
signi ca, ao mesmo tempo, saber e não saber. 37
Bowlby escreveu: “O que não pode ser comunicado à mãe/ao outro não
pode ser comunicado ao self.”38 Quem não é capaz de tolerar o que sabe
nem o que sente, tem como alternativas a negação e a dissociação.39 É
possível que o efeito de longo prazo desse bloqueio seja não se sentir real
interiormente, um estado que observamos nas crianças da clínica infantil, e
nas crianças e adultos que chegam ao Trauma Center. Quando a pessoa não
se sente real, nada mais importa, daí a impossibilidade de se proteger do
perigo. Talvez ela recorra a extremos, num esforço de sentir alguma coisa –
mesmo que seja se cortar com gilete ou se meter em brigas com estranhos.
A pesquisa de Karlen mostrou que crianças aprendem a se dissociar
cedo: abusos posteriores ou outros traumas não foram os responsáveis por
sintomas dissociativos em adultos jovens. 40 Abusos e traumas explicam
muitos outros problemas, mas não dissociação crônica e autolesões. O
problema fundamental e crítico era que esses pacientes não sabiam como se
sentir seguros. A ausência de segurança nas primeiras relações com os
cuidadores leva a uma sensação prejudicada da realidade interior, à
idealização excessiva de outras pessoas e ao comportamento autodestrutivo,
sintomas que não são previsíveis por fatores como pobreza, ausência de uma
gura parental masculina ou os transtornos psiquiátricos maternos.
Isso não signi ca que o abuso infantil seja irrelevante,41 mas que a
qualidade dos primeiros cuidados é de suma importância para prevenir
problemas de saúde mental, independentemente de outros traumas.42 Por
isso, além das marcas de eventos traumáticos especí cos, o tratamento
precisa corrigir também as consequências de não se ter contado com
espelhamento e sintonia, tampouco recebido cuidados consistentes e amor:
dissociação e perda de autorregulação.
Ã
RESTAURAÇÃO DA SINTONIA
Os padrões de apego na primeira infância criam os mapas interiores que
balizam nossos relacionamentos ao longo de toda a vida, não só em termos
do que esperamos dos outros mas também do nível de bem-estar e de prazer
que podemos auferir na presença deles. Duvido que o poeta e. e. cummings
pudesse ter escrito aqueles seus versos tão exultantes, “gosto de meu corpo
quando ele está com teu corpo […] os músculos melhores, os nervos ainda
mais” [“i like my body when it is with your body… muscles better and nerves
more”], se suas primeiras experiências fossem rostos sem expressão e olhares
hostis.43 Nossos mapas de relacionamento estão implícitos, gravados no
cérebro emocional, e não são reversíveis simplesmente por entendermos
como foram criados. Você pode compreender que seu medo da intimidade
tem alguma coisa a ver com a depressão pós-parto de sua mãe ou com o fato
de ela ter sido molestada quando criança, mas é improvável que essa
compreensão, por si só, lhe permita ter um envolvimento feliz e con ante
com outras pessoas.
Contudo, tal entendimento pode ajudar uma pessoa a começar a
explorar outras formas de conexão em relacionamentos – seja em seu
próprio benefício, seja para não transmitir um apego inseguro aos lhos. Na
Parte V, apresento várias abordagens para a cura de sistemas de sintonia
dani cados, mediante treinamento com ritmos e reciprocidade.44 Estar em
sintonia consigo mesmo e com outras pessoas exige a integração dos
sentidos físicos – visão, audição, tato e equilíbrio. Se isso não ocorreu
durante a infância, há uma maior probabilidade de posteriores problemas de
integração sensorial (para os quais os traumas e a negligência não são, de
forma alguma, os únicos caminhos).
Estar em sintonia é ressoar em meio a sons e movimentos que se
conectam, que estão embutidos nos ritmos sensoriais cotidianos de cozinhar
e limpar, ir dormir e se levantar. Estar em sintonia pode signi car partilhar
caretas e abraços, expressar prazer ou desaprovação nos momentos certos,
atirar e pegar bolas ou cantar com outras pessoas. No Trauma Center,
criamos programas para ajudar os pais a estabelecer conexão e sintonia, e
meus pacientes me propuseram muitas outras formas de fazer isso, desde
canto coral e dança de salão a jogar basquete e participar de conjuntos de jazz e grupos de música de câmara. Todas essas atividades, como disse no
capítulo 5, promovem uma sensação de sintonia e de prazer comunal.
OceanofPDF.com