O corpo guarda as marcas

Bessel van der Kolk · Capítulo 8 de 28

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O corpo guarda as marcas

PARTE III | A mente infantil

PARTE III

 

A MENTE INFANTIL

 

OceanofPDF.com

7

 

ENTRAR NA MESMA ONDA:

 

APEGO E SINTONIA

 

As raízes da resiliência […] residem na sensação de ser

compreendido por outra pessoa, carinhosa, controlada e sintonizada

conosco, e de existir em sua mente e seu coração.

 

Diana Fosha

 

A clínica infantil do CSMM vivia cheia de crianças perturbadas e

perturbadoras. Eram criaturas agitadas que não conseguiam car paradas,

que agrediam e mordiam as outras crianças e, às vezes, até os funcionários

da clínica. Em certo momento, corriam e se agarravam a nós, fugindo

aterrorizadas logo em seguida. Algumas se masturbavam compulsivamente;

outras atacavam objetos, animais e a si mesmas. Ansiavam por afeição, mas

mostravam-se coléricas e desa adoras. Algumas meninas exibiam uma

submissão dolorosa. Fossem elas refratárias ou apegadas, nenhuma parecia

capaz de explorar o mundo ou brincar como as outras crianças da mesma

idade. Algumas praticamente não tinham desenvolvido uma percepção do

self – nem sequer se reconheciam num espelho.

Na época, eu sabia pouquíssimo a respeito de crianças, afora o que meus

dois lhos pequenos estavam me ensinando. Mas tive a sorte de ter como

colega Nina Fish-Murray, que havia estudado com Piaget em Genebra, além de ter cinco lhos. Piaget baseava suas teorias do desenvolvimento infantil

numa observação meticulosa e direta de crianças, começando com os

próprios lhos, e foi esse espírito que Nina trouxe para o incipiente Trauma

Center do CSMM.

Casada com Henry Murray, um dos pioneiros da teoria da personalidade

e ex-diretor do Departamento de Psicologia da Universidade Harvard, ela

estimulava ativamente qualquer membro jovem do corpo docente que

compartilhasse seus interesses. E dava muita atenção ao que eu dizia sobre

os veteranos de guerra, que lhe lembravam as crianças problemáticas com

quem ela trabalhava nas escolas públicas de Boston. Sua posição privilegiada

e seu encanto pessoal nos deu acesso à clínica infantil, dirigida por

psiquiatras pouco interessados em trauma.

Henry Murray se tornara famoso, entre outros motivos, por ter criado o

Teste de Apercepção Temática. O TAT, considerado um teste projetivo, utiliza

um conjunto de cartões com imagens para descobrir como a realidade

interior de uma pessoa molda sua visão de mundo. À diferença dos cartões

de Rorschach que usávamos com os veteranos, os cartões do TAT mostram

cenas realistas, porém ambíguas e um tanto inquietantes: um homem e uma

mulher, melancólicos, que evitam olhar um para o outro; um menino

observando um violino quebrado. Pede-se aos pacientes que contem uma

história sobre o que está acontecendo na imagem, o que aconteceu antes e o

que acontecerá depois. Em geral, suas interpretações logo revelam os temas

que os preocupam.

Nina e eu decidimos criar um conjunto de cartões destinados

especi camente a crianças, com base em imagens que recortamos de revistas

deixadas na sala de espera da clínica. Nosso primeiro estudo comparou doze

crianças de 6 a 11 anos da clínica infantil com as de uma escola das

redondezas bastante equivalentes em idade, etnia, inteligência e ambiente

familiar. 1 O que distinguia nossos pacientes era o abuso de que tinham sido

vítimas no seio familiar. Entre eles havia um menino que sofrera contusões

graves em decorrência das repetidas surras que levava da mãe; uma menina

cujo pai a molestara aos 4 anos de idade; dois garotos que haviam sido

amarrados a uma cadeira e chicoteados várias vezes; e uma menina que, aos

5 anos, vira a mãe, prostituta, ser estuprada, esquartejada, queimada e metida no porta-malas de um carro. Suspeitava-se que o cafetão da mãe

tivesse abusado da menina.

As crianças do grupo de controle também pertenciam a famílias pobres

e moravam numa área degradada da cidade, onde com frequência

testemunhavam cenas de extrema violência. Enquanto o estudo estava sendo

realizado, um garoto da escola deles jogou gasolina e ateou fogo a um

colega. Outro se viu no meio de um tiroteio a caminho do colégio com o pai

e um amigo. Foi ferido na virilha, e o amigo morreu. Levando-se em

consideração a exposição deles a esse nível de violência, suas respostas aos

cartões seriam diferentes daquelas das crianças hospitalizadas?

 

Um dos cartões do teste mostrava uma menina e um adolescente,

sorridentes, vendo o pai consertar o carro. Todas as crianças a quem

mostrávamos esse cartão falavam do perigo que corria o homem debaixo do

veículo. Enquanto as crianças do grupo de controle criavam histórias com

nais felizes – o carro seria consertado, e talvez o pai e os lhos fossem ao

McDonald’s depois –, as traumatizadas vinham com fantasias medonhas. Uma garota disse que a menina estava prestes a rachar o crânio do pai com o

martelo. Um menino de 9 anos, que sofrera graves maus-tratos físicos,

contou uma história complexa, na qual o adolescente da foto chutaria para

longe o macaco, de modo que o carro esmagaria o corpo do pai, cujo sangue

esguicharia em todas as paredes e no chão da o cina.

Narrando essas histórias, nossos pacientes caram muito agitados e

perturbados. Tivemos de interromper a sessão e afastá-los por um bom

tempo, levando-os ao bebedouro e para dar uma caminhada, antes de lhes

mostrar o cartão seguinte. Não era de admirar que quase todos tivessem

diagnóstico de transtorno de dé cit de atenção com hiperatividade (TDAH) e

que a maioria fosse medicada com Ritalin [no Brasil, Ritalina], embora o

remédio não parecesse atenuar suas reações à situação.

As crianças vítimas de abuso sexual zeram comentários semelhantes

sobre a imagem aparentemente inocente da silhueta de uma mulher grávida

contra uma janela. Quando a mostramos à menina de 7 anos que fora

molestada pelo pai aos 4, ela se pôs a falar de pênis e vaginas, e várias vezes

fez a Nina perguntas como “Com quantas pessoas você já transou?”. Como

várias outras meninas vítimas de abuso sexual, ela cou tão agitada que

tivemos de interromper a sessão. Uma garota de 7 anos do grupo de controle

captou o clima melancólico da imagem: contou a história de uma viúva que

olhava, triste, pela janela, sentindo falta do marido. No m, porém, ela

encontrava um homem carinhoso que seria um bom pai para a criança.

Cartão após cartão, víamos que, embora alertas para a possibilidade de

surgirem problemas, as crianças que não haviam sofrido abusos ainda

con avam num universo essencialmente benigno; eram capazes de imaginar

boas saídas para situações ruins. Pareciam se sentir protegidas e seguras com

a família; também se sentiam amadas por ao menos um dos pais, o que fazia

uma diferença sensível em sua vontade de participar das atividades escolares

e aprender.

As reações das crianças da clínica foram alarmantes. As imagens mais

inocentes remetiam a intensas sensações de perigo, agressão, estímulo sexual

e terror. Não havíamos selecionado aquelas guras porque apresentassem

algum sentido oculto que pessoas sensíveis pudessem perceber – eram

imagens comuns do dia a dia. Só podíamos concluir que para crianças

vítimas de abuso o mundo inteiro está repleto de ameaças. Como só eram

capazes de imaginar resultados desastrosos para situações relativamente

benignas, qualquer um que entrasse na sala, qualquer estranho, qualquer

imagem, numa tela ou num cartaz de rua, poderia ser percebido como um

prenúncio de catástrofes. Visto sob essa luz, o comportamento das crianças

na clínica infantil fazia todo o sentido.2

Para meu espanto, era raro que as discussões médicas na unidade

mencionassem as horrendas experiências das crianças na vida real e os

impactos desses traumas nas sensações, no pensamento e na autorregulação

delas. Ao contrário, os prontuários estavam repletos de diagnósticos:

“transtorno de conduta” e “transtorno desa ador de oposição”, no caso das

crianças furiosas e rebeldes; ou “transtorno bipolar”. O TDAH era um diagnóstico de “comorbidade” para quase todas. Por acaso o trauma original

estaria sendo obscurecido por essa avalanche de diagnósticos?

Agora tínhamos diante de nós dois grandes desa os. O primeiro,

descobrir se o modo pelo qual as crianças “normais” viam o mundo podia

explicar sua resiliência e, num nível mais profundo, como cada criança cria

seu mapa do mundo. O segundo, também fundamental: seria possível ajudar

a mente e o espírito de crianças brutalizadas a redesenhar seus mapas

internos e incorporar a eles um sentimento de con ança no futuro?

 

HOMENS SEM MÃES

 

O estudo cientí co da relação vital entre lactentes e suas mães foi iniciado

por ingleses da elite que haviam sido separados da família na infância e

matriculados em internatos, onde cresceram em ambientes masculinos,

rígidos e opressivos. Em minha primeira visita à famosa Clínica Tavistock,

em Londres, notei uma série de fotos em preto e branco de grandes

psiquiatras do século XX na parede do corredor que levava à escadaria

principal: John Bowlby, Wilfred Bion, Harry Guntrip, Ronald Fairbairn e

Donald Winnicott. Todos eles tinham estudado o processo pelo qual as

primeiras experiências de uma criança se tornam modelos para todas as

suas conexões posteriores, e como a mais remota percepção do self se forma

nos menores diálogos com os pais ou responsáveis.

Os cientistas estudam aquilo que para eles é mais enigmático, de forma

que se tornam especialistas em assuntos que outros veem como ponto

pací co. (Ou, como um dia me disse Beatrice Beebe, que pesquisa o apego,

“a maior parte dos estudos é uma busca do eu”.) Esses homens que

estudaram o papel das mães na vida das crianças tinham sido mandados

para internatos numa idade vulnerável, entre 6 e 10 anos, muito antes da

época em que deveriam estar confrontando o mundo sozinhos. O próprio

Bowlby me disse que talvez tivessem sido essas experiências de internato

que induziram George Orwell a escrever o romance 1984, que expressa de

maneira brilhante como os seres humanos podem ser levados a sacri car

tudo o que mais amam e respeitam – inclusive seu senso de identidade – para granjearem a apreciação e a aprovação de alguém que ocupa uma

posição de autoridade.

Como Bowlby era muito amigo dos Murray, sempre que ele visitava

Harvard eu tinha a oportunidade de conversar sobre seu trabalho. Bowlby

vinha de uma família aristocrática (seu pai era cirurgião médico da corte) e

estudara psicologia, medicina e psicanálise nos melhores centros britânicos.

Depois de se formar pela Universidade de Cambridge, trabalhou com

delinquentes juvenis no East End de Londres, área conhecida pela violência

e em grande parte destruída pelos ataques aéreos alemães na Segunda

Guerra Mundial. Durante a guerra, na qual serviu como médico, e depois

dela, Bowlby observou os efeitos da evacuação de amplas áreas e das grandes

creches que separavam crianças pequenas da família. Estudou também o

efeito da hospitalização, demonstrando que até breves separações (os pais

não tinham permissão para passar a noite no hospital) elevavam o nível de

sofrimento das crianças. No m da década de 1940, Bowlby se tornara

persona non grata na comunidade psicanalítica inglesa por defender uma

tese radical: os transtornos visíveis na conduta de certas crianças eram uma

reação a experiências de vida reais – negligência, brutalidade e separação –,

não o resultado de fantasias sexuais infantis. Não se deixando intimidar, ele

dedicou o resto da vida a elaborar sua teoria do apego.3

 

UMA BASE SEGURA

 

Quando chegamos ao mundo, gritamos para anunciar nossa presença. De

imediato alguém nos pega, nos limpa, nos veste e enche nosso estômago. E o

melhor de tudo: nossa mãe nos põe sobre a barriga ou o peito para um

delicioso contato pele a pele. Somos criaturas profundamente sociais, e

nossa vida consiste em encontrar nosso lugar na comunidade de seres

humanos. Adoro as palavras do grande psiquiatra francês Pierre Janet:

“Cada vida é uma obra de arte, montada com todos os meios disponíveis.”

À medida que crescemos, aos poucos aprendemos a cuidar de nós

mesmos, física e emocionalmente, mas as primeiras aulas de cuidados

pessoais vêm do modo como fomos cuidados. O domínio da arte da

autorregulação depende, em boa medida, da harmonia das primeiras interações com nossos cuidadores. Crianças cujos pais são fontes con áveis

de bem-estar e resistência têm uma vantagem para toda a vida – uma

espécie de amortecedor contra o pior que a sorte possa lhes trazer.

John Bowlby percebeu que crianças são cativadas por rostos e vozes, e

que têm uma sutil sensibilidade a expressões faciais, posturas, tons de voz,

modi cações siológicas, ritmos de movimentos e intenções. Viu essa

capacidade inata como um produto da evolução, essencial para a

sobrevivência dessas criaturas indefesas. Crianças também são programadas

para escolher um determinado adulto (ou no máximo alguns) com quem

seu sistema natural de comunicação se desenvolve. Isso cria um vínculo

primário de apego. Quanto mais receptivo o adulto, maior será o apego e a

probabilidade de que a criança desenvolva formas saudáveis de reagir às

pessoas a seu redor.

Bowlby ia muito ao Regent’s Park, em Londres, onde fazia observações

sistemáticas das interações entre crianças e suas mães. Enquanto estas, nos

bancos, tricotavam ou liam o jornal, as crianças se afastavam para explorar o

mundo, olhando para trás de vez em quando, para se assegurar de que a mãe

continuava ali. Quando uma vizinha se aproximava e começava a conversar,

as crianças voltavam correndo e se punham perto da mãe, para se certi car

de que ainda tinham sua atenção. Lactentes e crianças pequenas cam

nervosos ao notar que a mãe não está plenamente envolvida com eles.

Quando a mãe some de vista, podem chorar e parecer inconsoláveis, mas,

assim que ela reaparece, se aquietam e voltam a brincar.

Bowlby considerou o apego como a base segura a partir da qual uma

criança se aventura no mundo. Ao longo das cinco décadas seguintes, a

pesquisa comprovou que ter um porto seguro promove autocon ança e

instila um sentido de solidariedade e solicitude em relação a outras pessoas

em di culdades. A partir do dar e receber do vínculo de apego, as crianças

aprendem que os outros têm sentimentos e ideias tanto semelhantes como

diferentes dos delas mesmas. Em outras palavras, entram “em sintonia” com

seu ambiente e com as pessoas que as rodeiam, adquirindo a

autoconsciência, a empatia, o controle de impulsos e a automotivação que

lhes permitem se tornar membros úteis da cultura social mais ampla. Eram

essas qualidades que, lamentavelmente, faltavam às crianças de nossa clínica

infantil.

A DANÇA DA SINTONIA

 

Crianças se apegam a quem quer que atue como principal responsável por

seus cuidados, mas a natureza desse apego – o fato de ele ser seguro ou

inseguro – faz uma enorme diferença no decurso de suas vidas. O apego

seguro se desenvolve quando o cuidado inclui sintonia emocional. A

sintonia começa nos mais sutis níveis físicos de interação entre os bebês e

seus cuidadores e dá aos primeiros a sensação de serem atendidos e

entendidos. Como disse o escocês Colwyn Trevarthen, pesquisador do

apego, “o cérebro coordena movimentos corporais rítmicos e os orienta para

atuar em sintonia com o cérebro de outras pessoas. Bebês ouvem e

aprendem musicalidade com a conversa da mãe antes mesmo do

nascimento”.4

No capítulo 4, falei dos neurônios-espelhos, os elos de cérebro a cérebro

que nos proporcionam a capacidade de empatia. Os neurônios-espelhos

começam a funcionar assim que os bebês nascem. Quando o pesquisador

Andrew Meltzoff, da Universidade do Oregon, comprimia os lábios ou

mostrava a língua a bebês com seis horas de vida, eles prontamente

imitavam seus atos. 5 (Um recém-nascido só consegue focalizar a vista em

objetos situados a vinte ou trinta centímetros de distância – apenas o

su ciente para ver a pessoa que o segura.) A imitação é nossa habilidade

social mais fundamental. Ela garante que iremos captar e re etir

automaticamente o comportamento de nossos pais, professores e pares.

A maioria dos pais se liga aos lhos de forma tão espontânea que não

percebe como a sintonia se a na. No entanto, um convite de Ed Tronick, um

amigo que pesquisa o apego, me permitiu estudar esse processo mais de

perto. Através de um espelho unidirecional, no Laboratório de

Desenvolvimento Humano, em Harvard, observei uma mãe que brincava

com o lho de cinco meses, sentado numa cadeira alta diante dela.

A mãe e o bebê brincavam um com o outro e se divertiam à beça, até

que ela aproximou o rosto do bebê, que, em sua excitação, puxou o cabelo

dela. A mãe foi pega desprevenida e gritou de dor, empurrando a mão da

criança, contorcendo o rosto de raiva. O bebê a largou no mesmo instante, e

os dois se afastaram sicamente. Para ambos, a fonte de prazer se tornara

fonte de sofrimento. Obviamente assustado, o bebê levou as mãos ao rosto para não ver a zanga da mãe, que, por sua vez, sentindo a perturbação do

lho, voltou a concentrar nele sua atenção, emitindo barulhinhos

tranquilizantes na tentativa de reverter a situação. O bebê ainda mantinha os

olhos tapados, mas sua ânsia de conexão logo reapareceu. Começou

espiando de forma sorrateira, para ver se estava tudo bem, ao mesmo tempo

que a mãe lhe fazia agradinhos. Quando ela começou a coçar a barriguinha

dele, o bebê baixou as mãos e deu uma risadinha feliz. Com isso a harmonia

se restabeleceu. Bebê e mãe voltaram a se sintonizar. Toda essa sequência de

prazer, ruptura, reparação e novo prazer durou pouco menos de doze

segundos.

Tronick e outros mostraram que lactentes e cuidadores em sintonia num

nível emocional também estão em sintonia física.6 Bebês não conseguem

regular os próprios estados emocionais, muito menos mudanças na

frequência cardíaca, nos níveis hormonais e na atividade do sistema nervoso

que acompanham as emoções. Quando uma criança está em sintonia com

quem cuida dela, seu senso de alegria e conexão se re ete na regularidade

dos batimentos cardíacos e da respiração, bem como num baixo nível de

hormônios do estresse. Seu corpo está calmo, bem como suas emoções. No

momento em que esse ritmo é interrompido – o que acontece com

frequência durante um dia normal –, todos esses fatores psicológicos

também se alteram. Pode-se dizer que o equilíbrio foi restaurado quando a

siologia se normaliza.

Acalmamos os recém-nascidos, mas logo começamos a ensinar os lhos

a tolerar níveis mais altos de alerta, tarefa que muitas vezes cabe aos

homens. (Uma vez ouvi o psicólogo John Gottman dizer: “As mães adulam,

os pais açulam.”) Aprender a controlar o estado de alerta é fundamental para

a vida, e os pais têm de fazer isso pelos bebês antes que eles tenham

autonomia para tanto. Se aquela sensação incômoda na barriga faz um bebê

chorar, logo vem o peito ou a mamadeira. Se o bebê está assustado, alguém o

segura e o embala até ele se acalmar. Se a fralda ca cheia, alguém aparece

para limpá-lo e secá-lo. Associar sensações intensas a segurança, bem-estar e

tranquilidade constitui o fundamento da autorregulação, da

autotranquilização e da autoeducação, tema que retomo em todo o livro.

Um apego seguro, combinado com o cultivo da competência, constrói

um locus interno de controle, o fator-chave para uma maneira saudável de

lidar com situações durante toda a vida.7 Crianças que desenvolvem apego

seguro aprendem a distinguir o que as faz se sentir bem. Também

descobrem o que faz com que elas (e os outros) se sintam mal, e adquirem

um senso de agência: percebem que seus atos podem modi car o modo

como se sentem e como as outras pessoas reagem. Crianças com apego

seguro aprendem a diferença entre as situações que podem controlar e

aquelas nas quais precisam de ajuda. Aprendem que podem exercer um

papel ativo diante de situações difíceis. Crianças com histórico de abuso e

negligência, ao contrário, aprendem que o terror, as súplicas e o choro não

têm efeito sobre o responsável por elas. Nada que possam fazer ou dizer faz

cessar os maus-tratos físicos nem lhes traz atenção e ajuda. Na realidade,

estão sendo condicionadas a não reagir quando mais tarde, na vida adulta,

enfrentarem desa os.

 

O CAMINHO PARA O REAL

 

O pediatra e psicanalista Donald Winnicott, contemporâneo de Bowlby, foi

quem desenvolveu os modernos estudos de sintonia. Suas minuciosas

observações sobre mães e lhos começaram com o modo como as mães

seguram os bebês. Winnicott acreditava que essas interações físicas

preparam o caminho para a consciência de self por parte do bebê – e, com

isso, para um senso de identidade durante toda a vida. A forma como a mãe

pega o bebê no colo condiciona “a capacidade de sentir o corpo como o

lugar onde vive o psiquismo”.8 Essa sensação visceral e cinestésica de como

nosso corpo é visto prepara o caminho para aquilo que experimentamos

como o “real”.9

Winnicott considerava que a maior parte das mães mostrava boa

sintonia com os lhos – não é preciso talento excepcional para ser o que se

chama uma “boa mãe”. 10 Contudo, a situação pode se complicar bastante

quando as mães são incapazes de entrar na mesma sintonia da realidade

física do bebê. Se a mãe não atende aos impulsos e necessidades do lho, “o

bebê aprende a tornar-se a ideia que a mãe faz dele”. Ter de reduzir suas

sensações interiores e tentar ajustar-se às necessidades de quem cuida dela

faz a criança perceber que “alguma coisa está errada”. Crianças carentes de sintonia física podem bloquear o retorno que emana de seu corpo, a sede de

prazer, propósito e direção.

Desde a época em que Bowlby e Winnicott divulgaram suas ideias,

pesquisas sobre o apego, no mundo inteiro, demonstraram que a vasta

maioria das crianças goza de apego seguro. Quando crescem, seu histórico

de cuidados con áveis e sensíveis contribuirá para manter o medo e a

ansiedade à distância. Se não ocorrer nenhum evento desastroso que

dani que o sistema de autorregulação – um trauma –, essas pessoas

provavelmente vão manter um estado fundamental de segurança emocional

durante toda a vida. Um apego seguro constitui também um gabarito para

os relacionamentos das crianças. Elas captam o que os outros estão sentindo

e logo aprendem a distinguir o que é jogo e o que é realidade, e adquirem

bom faro para situações e pessoas perigosas. Crianças com apego seguro, em

geral, se tornam companheiras afáveis de outras crianças e têm muitas

experiências de autoa rmação com seus pares. Como aprenderam a entrar

em sintonia com outras pessoas, tendem a perceber mudanças sutis em

vozes e expressões e a ajustar seu comportamento de forma correspondente.

Aprendem a viver de acordo com uma visão compartilhada do mundo, e é

provável que se tornem membros respeitados da comunidade.

No entanto, essa espiral ascendente pode ser prejudicada por abuso ou

negligência. É comum que crianças vítimas de maus-tratos sejam muito

sensíveis a alterações de vozes e expressões, com a tendência de ver essas

mudanças como ameaças, não sinais para entrar em sintonia. O dr. Seth

Pollak, da Universidade de Wisconsin, mostrou uma série de rostos a um

grupo de crianças de 8 anos e comparou suas reações com as de um grupo

de crianças da mesma idade, mas vítimas de abusos. Diante desse espectro

de expressões, que variavam da fúria à tristeza, as crianças que sofreram

abusos mostraram-se hiperalertas aos mais ligeiros sinais de fúria. 11

Essa é uma das razões por que uma criança vítima de maus-tratos ca na

defensiva ou se assusta. Imaginemos como ela se sente diante de um mar de

rostos no corredor da escola, tentando prever quem poderá agredi-la. É

provável que crianças que reagem com exagero à agressão de um colega, que

não se dão conta das necessidades de outras crianças, que com facilidade se

fecham ou perdem o controle de seus impulsos sejam deixadas de lado e

nunca recebam convites para brincadeiras ou festinhas na casa dos colegas.

Em determinado momento podem acabar aprendendo a assumir uma

fachada de agressividade a m de encobrir seus medos. Ou podem car

cada vez mais tempo sozinhas, vendo TV ou diante do computador,

atrasando-se cada vez mais na área de quali cações interpessoais e no

desenvolvimento de autorregulação emocional.

A necessidade de apego nunca diminui. A maioria das pessoas não

suporta viver distante do convívio humano durante muito tempo. Quem não

se liga aos outros pelo trabalho, por amizades ou pela família, em geral,

busca diferentes formas de vinculação, seja por meio de doenças, causas

judiciais ou brigas de família. Qualquer coisa é preferível àquela sensação

desolada de irrelevância e alienação.

Há alguns anos, numa véspera de Natal, fui chamado a examinar um

garoto de 14 anos na cadeia do condado de Suffolk. Jack havia sido preso

por invadir a casa de vizinhos que estavam viajando, de férias. O alarme

contra roubo continuava tocando quando os policiais o encontraram na sala.

A primeira pergunta que lhe z foi quem ele achava que iria visitá-lo na

cadeia no Natal. “Ninguém”, ele respondeu. “Ninguém presta atenção em

mim.” Vim a saber que ele tinha sido preso várias vezes por casos

semelhantes de invasão de domicílio. Ele conhecia a polícia, e a polícia o

conhecia. Havia prazer em sua voz ao me contar que, quando os policiais o

viram de pé no meio da sala, exclamaram: “Vejam só, é Jack de novo, aquele

puto!” Alguém o reconhecera. Alguém sabia seu nome. Daí a pouco ele

confessou: “Sabe, é isso que faz valer a pena.” Crianças farão quase tudo para

serem vistas e reconhecidas.

 

VIVER COM OS PAIS QUE SE TEM

A criança nasce com o instinto biológico de se apegar – ela não tem opção.

Sejam os pais ou responsáveis carinhosos e atentos, ou distantes, insensíveis

e inclinados à rejeição ou aos maus-tratos, ela desenvolverá uma estratégia

de enfrentamento na tentativa de fazer com que sejam atendidas ao menos

algumas de suas necessidades.

Dispomos hoje em dia de meios con áveis para avaliar e identi car esses

estilos de enfrentamento, graças sobretudo ao trabalho de duas cientistas

americanas, Mary Ainsworth e Mary Main, e também de seus

colaboradores, que observaram mães e seus bebês durante milhares de horas

ao longo de muitos anos. Com base nesses estudos, Ainsworth criou uma

ferramenta de pesquisa, por ela chamada Situação Estranha, que examina o

modo como um lactente reage à separação temporária da mãe. Como

Bowlby já havia observado, bebês com apego seguro se irritam quando a

mãe os deixa, mas cam felizes quando ela volta e, depois de uma rápida

con rmação, retomam a brincadeira.

Entretanto, no caso de crianças com apego inseguro, o quadro é mais

complexo. Crianças cujo cuidador principal não é ágil em suas respostas ou

as rejeita aprendem a lidar com a ansiedade de duas maneiras distintas. Os

pesquisadores notaram que algumas pareciam cronicamente ressentidas e

exigentes com as mães, enquanto outras eram mais passivas e distantes.

Nesses dois grupos, o reencontro com a mãe não as satisfazia – elas não

voltavam a brincar, felizes, como ocorria no caso das crianças com apego

seguro.

Num padrão denominado “apego evitativo” (ou esquivo), as crianças

passam a impressão de que nada as incomoda de verdade – não choram

quando a mãe se afasta, e a ignoram quando ela volta. Entretanto, isso não

signi ca que não se perturbem. Na verdade, a frequência cardíaca sempre

elevada mostra que elas permanecem em constante estado de

hipervigilância. Meus colegas e eu dizemos que crianças desse padrão

“relacionam-se, mas não sentem”. 12 A maioria das mães de bebês esquivos

parece não gostar de tocar nos lhos. Têm di culdade para acarinhá-los e

pegá-los no colo, e não usam expressões faciais e a voz para criar ritmos

prazerosos e recíprocos com os bebês.

Em outro padrão, chamado de apego “ansioso” ou “ambivalente”, bebês

chamam a atenção o tempo todo para si, chorando, gritando, agarrando-se à

mãe ou berrando. Estes “sentem, mas não se relacionam”.13 Parecem ter

aprendido que, a menos que façam um show, ninguém vai lhes dar atenção.

Ficam angustiadíssimos quando não sabem onde está a mãe, mas consolam-

se pouco com sua volta. E ainda que não pareçam apreciar a companhia da

mãe, mantêm-se focados nela de forma passiva ou furiosa, mesmo em

situações em que outras crianças prefeririam brincar. 14

Pesquisadores do apego creem que as três estratégias “organizadas” de

apego (a segura, a evitativa e a ansiosa) funcionam porque extraem o melhor

que um dado cuidador é capaz de proporcionar. Bebês que se veem diante

de um padrão consistente de assistência – mesmo que marcado por

distância emocional ou insensibilidade – podem se adaptar para manter o

relacionamento. O que não signi ca que não haja problemas: os padrões de

apego muitas vezes persistem na vida adulta. Crianças que ao começar a

andar são ansiosas tendem a se transformar em adultos ansiosos, enquanto

as que são evitativas provavelmente se tornarão adultos distanciados dos

sentimentos, próprios e alheios. (Como aquelas pessoas que dizem: “Uma

boa surra nada tem de mau. Eu apanhava e isso fez de mim a pessoa de

sucesso que sou hoje.”) Na escola, crianças evitativas tendem a praticar

bullying contra colegas, enquanto as ansiosas costumam ser suas vítimas.15

Não obstante, o desenvolvimento não é linear, e muitas experiências de vida

podem intervir para alterar esses resultados.

Existe, porém, um outro grupo, menos adaptado, ao qual pertence a

maior parte das crianças que tratamos e um número considerável dos

adultos das clínicas psiquiátricas. Há alguns anos, Mary Main e seus

colaboradores em Berkeley começaram a identi car crianças (cerca de 15%

das que foram estudadas) que pareciam incapazes de decidir sobre como se

relacionar com seus cuidadores. A questão crítica estava no fato de que os

próprios cuidadores lhes provocavam angústia ou terror.16

Crianças nessa situação não têm a quem recorrer e cam diante de um

dilema insolúvel: a mãe é, ao mesmo tempo, necessária para a sobrevivência

delas e uma fonte de medo.17 Tais crianças “não conseguem se aproximar (as

‘estratégias’ segura e ambivalente), nem desviar a atenção (a ‘estratégia’

evitativa), nem fugir”. 18 Quem as observa numa creche ou num laboratório

de apego percebe que, quando os pais entram na sala, elas olham para eles e

rapidamente desviam o olhar. Incapazes de escolher entre car perto deles ou evitá-los, começam a engatinhar de um lado para outro, parecem entrar

em transe, cam paradas com as mãos para o alto ou se levantam para

saudar o pai ou a mãe e depois caem no chão. Por não saberem quem

merece con ança ou a quem pertencem, podem se mostrar muito afetuosas

com estranhos ou então não con ar em ninguém. Main chamou esse padrão

de “apego desorganizado”. O apego desorganizado é “medo sem solução”.19

 

PESSOAS QUE SE DESORGANIZAM INTERIORMENTE

 

É comum que pais conscienciosos se alarmem quando tomam

conhecimento da teoria do apego, temendo que uma impaciência ocasional

ou os eventuais lapsos de sintonia possam causar danos permanentes aos

lhos. Na vida real, é inevitável haver mal-entendidos, reações infelizes e

falhas de comunicação. Já que mães e pais falham aqui e ali, ou apenas estão

ocupados com outros afazeres, muitas vezes os bebês têm de se virar

sozinhos para se acalmar. Isso não é problema, dentro de limites. As crianças

precisam aprender a resolver frustrações e desapontamentos. Com

cuidadores “bons”, elas aprendem que ligações rompidas podem ser

reparadas. A questão crítica é se conseguem incorporar uma sensação

visceral de segurança ao lado dos pais ou de outros cuidadores. 20

Num estudo sobre padrões de apego com mais de 2 mil bebês em

ambientes “normais” de classe média, concluiu-se que 62% eram seguros,

15% esquivos, 9% ansiosos (também chamados ambivalentes) e 15%

desorganizados.21 Curiosamente, esse amplo estudo revelou que o gênero e

o temperamento básico da criança têm pouco efeito sobre o tipo de apego.

Por exemplo, crianças com temperamentos “difíceis” não apresentam maior

probabilidade de desenvolver um estilo desorganizado. Crianças de níveis

socioeconômicos mais baixos têm mais probabilidade de ser

desorganizadas, 22 por terem pais gravemente estressados pela instabilidade

econômica e familiar.

Crianças que não se sentem seguras na infância têm problemas para

regular seus humores e respostas emocionais ao crescer. No jardim de

infância, muitas crianças desorganizadas se mostram agressivas ou

atarantadas e distanciadas, e no futuro vêm a desenvolver um leque de

problemas psiquiátricos.23 Além disso, apresentam mais estresse siológico,

que se manifesta em frequência cardíaca, na variação da frequência

cardíaca,24 em respostas de hormônios do estresse e na queda dos fatores

imunológicos.25 Será que esse tipo de desregulação biológica volta ao

normal automaticamente à medida que a criança amadurece ou é transferida

para um ambiente seguro? Ao que se saiba, não.

O abuso por parte dos pais não é a única causa do apego desorganizado:

pais preocupados com o próprio trauma, como violência doméstica ou

estupro, ou a morte recente de um dos pais ou de um irmão, também podem

ser fatores de instabilidade emocional que reduzem as condições para

oferecer bem-estar e proteção. 26 27 , Os pais precisam de toda a ajuda que

conseguirem obter para criar lhos seguros, porém, aqueles que são

traumatizados, em particular, necessitam de auxílio para estar em sintonia

com as necessidades dos lhos.

Muitas vezes os cuidadores não se dão conta de que estão fora de

sintonia. Lembro bem de um vídeo que Beatrice Beebe me mostrou.28 Uma

jovem mãe brincava com seu bebê de três meses. Tudo ia bem até o

momento em que o bebê se afastou e olhou para o outro lado, sinalizando

que precisava de uma pausa. No entanto, a mãe não entendeu o sinal e

intensi cou seus esforços para atrair o lho, aproximando-se e aumentando

o volume da voz. Ele se afastou ainda mais, e a mãe continuou a sacudi-lo e

apertá-lo. O bebê por m começou a gritar e nesse momento a mãe o pôs no

chão e se afastou, parecendo desapontada. Estava claro que ela havia se

sentido muito mal com aquilo, mas não havia percebido os sinais

importantes. É fácil imaginar que esse tipo de dessintonia, repetido muitas

vezes, pode levar a uma desconexão crônica. (Qualquer pessoa que tenha

cuidado de um bebê com cólicas ou hiperativo conhece a rapidez com que o

estresse aumenta quando nada parece dar resultado.) Se a mãe falha

repetidas vezes nas tentativas de acalmar o bebê e criar uma interação

prazerosa com ele, pode vê-lo como uma criança difícil. Logo se julga

incompetente e desiste de confortar o lho.

Na prática, nem sempre é fácil distinguir problemas resultantes do apego

desorganizado daqueles decorrentes de trauma, pois não é raro que esses

problemas estejam entrelaçados. Minha colega Rachel Yehuda estudou

índices de 29 TEPT em nova-iorquinas adultas vítimas de agressão ou estupro. Aquelas cujas mães, sobreviventes do Holocausto, tinham TEPT,

apresentavam uma probabilidade muito maior de desenvolver graves

problemas psicológicos depois de experiências traumáticas. A explicação

mais razoável era que a criação que receberam lhes provocara uma siologia

vulnerável, di cultando a recuperação do equilíbrio depois de serem

violentadas. Yehuda encontrou vulnerabilidade semelhante em lhos de

mulheres grávidas que estavam no World Trade Center naquele dia fatal de

2001. 30

Da mesma forma, as reações de crianças a eventos dolorosos são, em

grande parte, determinadas pelo grau de tranquilidade ou estresse dos pais.

Meu ex-aluno Glenn Saxe, hoje diretor do Departamento de Psiquiatria de

Crianças e Adolescentes na Universidade de Nova York, constatou que, num

grupo de crianças hospitalizadas para tratamento de queimaduras graves, a

probabilidade de que desenvolvessem TEPT era previsível com base em

quanto elas se sentiam seguras junto às mães. 31 Essa segurança determinava

a quantidade de mor na necessária para controlar suas dores: quanto mais

seguro o apego, menor a quantidade de analgésico.

Outro colega, Claude Chemtob, que dirige o Programa de Pesquisa de

Trauma Familiar no Centro Médico Langone, na Universidade de Nova

York, acompanhou 112 crianças que haviam sido testemunhas oculares dos

ataques terroristas do 11 de Setembro. 32 Filhos de mulheres com diagnóstico

de TEPT ou depressão no período subsequente tinham seis vezes mais

probabilidade de apresentar problemas emocionais graves e onze vezes mais

de se tornarem hiperagressivos em reação à sua experiência. Crianças cujos

pais sofriam de TEPT também tinham problemas emocionais, mas Chemtob

concluiu que esse efeito era indireto e transmitido pela mãe. (Conviver com

um cônjuge irascível, distante ou aterrorizado costuma impor um pesado

ônus psicológico ao parceiro, o que inclui depressão.)

Quem não tem uma sensação interna de segurança apresentará

di culdade para distinguir segurança de perigo. Se a pessoa se sente

cronicamente apática, situações com potencial de perigo podem lhe dar a

sensação de estar viva. Se a pessoa conclui que não presta mesmo (caso

contrário, por que os pais a tratavam tão mal?), passa a esperar que os outros

a tratem do mesmo jeito. Já as desorganizadas com esse tipo de autopercepções estão predispostas a se traumatizarem por experiências

subsequentes.33

 

OS EFEITOS A LONGO PRAZO DO APEGO

DESORGANIZADO

 

No início da década de 1980, minha colega Karlen Lyons-Ruth,

pesquisadora do apego em Harvard, começou a registrar interações face a

face entre mães e seus bebês – aos 6, 12 e 18 meses. Repetiu as gravações

quando as crianças estavam com 5 anos e também com 7 ou 8. 34 Todas

pertenciam a famílias vulneráveis: 100% delas cumpriam os critérios

federais de pobreza e quase 50% das mães eram solteiras.

O apego desorganizado assumia duas formas. Havia um grupo de mães

demasiado preocupadas com seus problemas para cuidar dos bebês;

mostravam-se hostis e revoltadas, ora rejeitando os lhos, ora agindo como

se esperassem que eles cuidassem das necessidades delas. O outro grupo era

composto por mães desamparadas e temerosas; meigas e frágeis, não sabiam

agir como adultas e pareciam desejar que os lhos as confortassem. Não

faziam afagos nos lhos depois de se ausentarem nem os pegavam no colo

quando estavam angustiados. Não pareciam agir assim de propósito –

apenas não sabiam como entrar em sintonia com eles e reagir a seus sinais, e

por isso deixavam de confortá-los e tranquilizá-los. De modo geral, as mães

hostis/revoltadas tinham um histórico de maus-tratos físicos e/ou de haver

presenciado violência doméstica, enquanto as distantes/dependentes tinham

um histórico de abuso sexual ou perda de pais (mas não de maus-tratos

físicos). 35

Sempre me perguntei por que alguns pais maltratam os lhos. A nal,

criar uma prole saudável está no cerne da ideia de realização humana. O que

leva uma pessoa a, de maneira deliberada, ferir ou negligenciar seus lhos?

A pesquisa de Karlen me deu uma resposta: assistindo a seus vídeos, vi

crianças cada vez mais inconsoláveis, taciturnas ou resistentes a mães

dessintonizadas. Ao mesmo tempo, as mães cavam cada vez mais

frustradas, derrotadas e impotentes em suas interações. Assim que a mãe

começa a ver o lho não como seu parceiro numa relação bem sintonizada, mas como um estranho frustrante, irritante e desconectado, está montado o

palco para futuros maus-tratos.

Mais ou menos dezoito anos depois, quando aquelas crianças tinham

por volta de 20 anos, Lyons-Ruth fez um estudo complementar para ver

como estavam se saindo. As que aos 18 meses exibiam graves problemas de

comunicação emocional com a mãe haviam se tornado jovens com uma

percepção instável de self, impulsividade autodestrutiva (que incluía, por

exemplo, gastos excessivos, sexo promíscuo, bulimia, uso de drogas, direção

perigosa), fúria desmedida e intensa, repetidos comportamentos suicidas.

Karlen e seus colegas tinham a expectativa de que o comportamento

revoltado ou hostil das mães fosse o mais forte indicador de instabilidade

mental em seus lhos quando adultos, mas o resultado a que chegaram foi

outro. O distanciamento emocional foi o que causou impacto mais profundo

e duradouro no grupo. O retraimento emocional e a inversão de papéis

(mães que esperam ser cuidadas pelos lhos) estavam ligados,

especi camente, nos jovens adultos, a comportamento agressivo contra si

mesmos e outras pessoas.

 

DISSOCIAÇÃO: SABER E NÃO SABER

 

Lyons-Ruth estava especialmente interessada no fenômeno da dissociação,

que leva a pessoa a se sentir perdida, esmagada, abandonada e desconectada

do mundo, e a ver a si mesma como não apreciada, vazia, indefesa,

aprisionada e imobilizada, como se carregasse um peso enorme. Encontrou

uma relação “acentuada e imprevista” entre distanciamento e dessintonia

por parte das mães durante os dois primeiros anos de vida dos lhos e

sintomas dissociativos no começo da vida adulta desses lhos, e concluiu

que bebês que não são verdadeiramente vistos e percebidos por suas mães

correm alto risco de se transformar em adolescentes incapazes de perceber e

ver as coisas.36

Um bebê que desfruta de relações seguras aprende a comunicar suas

frustrações e sofrimentos e também seu self incipiente – seus interesses,

preferências e metas. Ser alvo de uma reação receptiva protege bebês (e

adultos) contra níveis extremos de um estado de alerta assustado. Mas se os cuidadores não dão atenção às necessidades do bebê ou se ressentem da

própria existência dele, este aprende a esperar rejeição e afastamento. Ele

enfrenta a situação da melhor maneira que pode, bloqueando a hostilidade

ou a negligência da mãe, agindo como se isso não tivesse importância,

contudo seu corpo tende a se manter num estado de alerta máximo,

preparado para resistir a golpes, privações ou abandono. Dissociação

signi ca, ao mesmo tempo, saber e não saber. 37

Bowlby escreveu: “O que não pode ser comunicado à mãe/ao outro não

pode ser comunicado ao self.”38 Quem não é capaz de tolerar o que sabe

nem o que sente, tem como alternativas a negação e a dissociação.39 É

possível que o efeito de longo prazo desse bloqueio seja não se sentir real

interiormente, um estado que observamos nas crianças da clínica infantil, e

nas crianças e adultos que chegam ao Trauma Center. Quando a pessoa não

se sente real, nada mais importa, daí a impossibilidade de se proteger do

perigo. Talvez ela recorra a extremos, num esforço de sentir alguma coisa –

mesmo que seja se cortar com gilete ou se meter em brigas com estranhos.

A pesquisa de Karlen mostrou que crianças aprendem a se dissociar

cedo: abusos posteriores ou outros traumas não foram os responsáveis por

sintomas dissociativos em adultos jovens. 40 Abusos e traumas explicam

muitos outros problemas, mas não dissociação crônica e autolesões. O

problema fundamental e crítico era que esses pacientes não sabiam como se

sentir seguros. A ausência de segurança nas primeiras relações com os

cuidadores leva a uma sensação prejudicada da realidade interior, à

idealização excessiva de outras pessoas e ao comportamento autodestrutivo,

sintomas que não são previsíveis por fatores como pobreza, ausência de uma

gura parental masculina ou os transtornos psiquiátricos maternos.

Isso não signi ca que o abuso infantil seja irrelevante,41 mas que a

qualidade dos primeiros cuidados é de suma importância para prevenir

problemas de saúde mental, independentemente de outros traumas.42 Por

isso, além das marcas de eventos traumáticos especí cos, o tratamento

precisa corrigir também as consequências de não se ter contado com

espelhamento e sintonia, tampouco recebido cuidados consistentes e amor:

dissociação e perda de autorregulação.

 

Ã

RESTAURAÇÃO DA SINTONIA

 

Os padrões de apego na primeira infância criam os mapas interiores que

balizam nossos relacionamentos ao longo de toda a vida, não só em termos

do que esperamos dos outros mas também do nível de bem-estar e de prazer

que podemos auferir na presença deles. Duvido que o poeta e. e. cummings

pudesse ter escrito aqueles seus versos tão exultantes, “gosto de meu corpo

quando ele está com teu corpo […] os músculos melhores, os nervos ainda

mais” [“i like my body when it is with your body… muscles better and nerves

more”], se suas primeiras experiências fossem rostos sem expressão e olhares

hostis.43 Nossos mapas de relacionamento estão implícitos, gravados no

cérebro emocional, e não são reversíveis simplesmente por entendermos

como foram criados. Você pode compreender que seu medo da intimidade

tem alguma coisa a ver com a depressão pós-parto de sua mãe ou com o fato

de ela ter sido molestada quando criança, mas é improvável que essa

compreensão, por si só, lhe permita ter um envolvimento feliz e con ante

com outras pessoas.

Contudo, tal entendimento pode ajudar uma pessoa a começar a

explorar outras formas de conexão em relacionamentos – seja em seu

próprio benefício, seja para não transmitir um apego inseguro aos lhos. Na

Parte V, apresento várias abordagens para a cura de sistemas de sintonia

dani cados, mediante treinamento com ritmos e reciprocidade.44 Estar em

sintonia consigo mesmo e com outras pessoas exige a integração dos

sentidos físicos – visão, audição, tato e equilíbrio. Se isso não ocorreu

durante a infância, há uma maior probabilidade de posteriores problemas de

integração sensorial (para os quais os traumas e a negligência não são, de

forma alguma, os únicos caminhos).

Estar em sintonia é ressoar em meio a sons e movimentos que se

conectam, que estão embutidos nos ritmos sensoriais cotidianos de cozinhar

e limpar, ir dormir e se levantar. Estar em sintonia pode signi car partilhar

caretas e abraços, expressar prazer ou desaprovação nos momentos certos,

atirar e pegar bolas ou cantar com outras pessoas. No Trauma Center,

criamos programas para ajudar os pais a estabelecer conexão e sintonia, e

meus pacientes me propuseram muitas outras formas de fazer isso, desde

canto coral e dança de salão a jogar basquete e participar de conjuntos de jazz e grupos de música de câmara. Todas essas atividades, como disse no

capítulo 5, promovem uma sensação de sintonia e de prazer comunal.

 

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