O corpo guarda as marcas
18. Preenchimento das lacunas: criação de estruturas
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PREENCHIMENTO DAS
LACUNAS: CRIAÇÃO DE
ESTRUTURAS
A grande descoberta de minha geração é que seres humanos podem
mudar a vida mediante a mudança de suas atitudes mentais.
William James
Não se vê uma coisa diferente, mas se vê de forma diferente. É como
se o ato especial de ver fosse alterado por uma nova dimensão.
Carl Jung
U ma coisa é processar lembranças de um trauma; outra, totalmente diversa, é enfrentar o vazio interior – as lacunas na alma que resultam de não ter sido desejado, visto ou não ter tido permissão para dizer a
verdade. Se seus pais não sorriam de felicidade ao olhar para você, será
difícil que você saiba como é se sentir amado. Se você vem de um mundo
incompreensível, repleto de segredos e de medo, é praticamente impossível
encontrar palavras que exprimam o que suportou. Se você cresceu ignorado e indesejado, será difícil desenvolver um senso visceral de agência e
autoestima.
A pesquisa que eu, Judy Herman e Chris Perry zemos (ver o capítulo 9)
demonstrou que tanto as pessoas que se percebiam como indesejadas na
infância quanto aquelas que não se lembravam de se sentir em segurança
não colhiam todos os benefícios da psicoterapia convencional, talvez porque
não pudessem ativar velhas lembranças de se perceberem alvos de cuidados.
Eu identi cava essa impossibilidade até em alguns de meus pacientes
mais empenhados e articulados. Apesar dos esforços na terapia e das
realizações pessoais e pro ssionais, não conseguiam eliminar as marcas
demolidoras de uma mãe demasiado deprimida para lhes dar atenção ou de
um pai que os tratava como se desejasse que nunca tivessem nascido. A vida
deles mudaria de modo radical se pudessem reconstruir aqueles mapas
implícitos. No entanto, como fazer isso? Como ajudar as pessoas a conhecer
visceralmente sensações antes ausentes em sua vida?
Vislumbrei uma possível solução em junho de 1994, ao participar da
conferência de criação da Associação Americana de Psicoterapia Corporal,
numa pequena faculdade em Beverley, na costa rochosa de Massachusetts.
Ironicamente, eu fora convidado para representar a corrente dominante da
psiquiatria e falar da utilização de tomogra as cerebrais para visualização de
estados mentais. Mas assim que entrei no saguão onde muitos participantes
tomavam café, percebi que o grupo era bem diferente do pessoal que eu
costumava ver em congressos de psicofarmacologia e psicoterapia. O jeito
como eles se comunicavam, suas posturas e gestos, tudo irradiava vitalidade
e envolvimento – o tipo de reciprocidade física que é a essência da sintonia.
Logo comecei a conversar com Albert Pesso, um parrudo ex-dançarino
da Companhia de Dança de Martha Graham, então com 70 e poucos anos.
Sob suas bastas sobrancelhas, ele destilava bondade e segurança. Contou que
descobrira como modi car de maneira fundamental a relação de uma
pessoa com seu self somático. Seu entusiasmo era contagiante, mas
continuei cético e lhe perguntei se ele tinha certeza de que era capaz de
alterar as con gurações da amídala. Sem se importar com o fato de seu
método nunca ter sido testado cienti camente, ele me garantiu que era
possível.
Pesso ia dirigir uma o cina de “terapia psicomotora 1 PBSP ”, e me
convidou para assistir. Aquilo não parecia com nenhum trabalho em grupo
que eu já vira. Ele se sentou numa cadeira baixa diante de uma mulher,
Nancy, a quem chamava de “protagonista”, com os demais participantes
sentados em círculo, em almofadas. Começou pedindo a Nancy que falasse
sobre o que a perturbava, e de vez em quando usava as pausas dela para
“testemunhar” o que observava. Por exemplo: “Uma testemunha vê como
você ca abatida quando conta que seu pai abandonou a família.” Admirei a
atenção com que ele acompanhava mudanças sutis em Nancy quanto a
postura corporal, expressão facial e direção do olhar, as expressões não
verbais da emoção. (O termo para isso na terapia psicomotora é
“microrrastreio”.)
Toda vez que Pesso fazia uma “declaração de testemunha”, o rosto e o
corpo de Nancy relaxavam um pouco – como se ela se sentisse reconfortada
por ser observada e validada. Os comentários tranquilos de Pesso pareciam
injetar ânimo em sua disposição de se abrir e ir mais fundo. Quando ela
começou a chorar, ele observou que ninguém deveria suportar tanto
sofrimento sem ajuda e perguntou se ela queria escolher alguém (a quem se
referiu como “pessoa de contato”) para se sentar a seu lado. Nancy anuiu e,
depois de correr os olhos pela sala, apontou para uma mulher de meia-idade
e aspecto bondoso. Pesso pediu a Nancy que mostrasse o local em que
gostaria que a pessoa de contato se sentasse. Decidida, Nancy apontou para
uma almofada à sua direita.
Eu estava fascinado. As pessoas processam relações espaciais com o
hemisfério cerebral direito, e nossos estudos com neuroimagens haviam
mostrado que a marca do trauma ca gravada sobretudo no hemisfério
direito (ver o capítulo 3). Desvelo, desaprovação e indiferença se traduzem
basicamente por expressões faciais, tom de voz e movimentos físicos. De
acordo com pesquisas recentes, até 90% das comunicações humanas
ocorrem no domínio do hemisfério direito, não verbal,2 e era para ele que o
trabalho de Pesso parecia se orientar. À medida que a o cina prosseguia,
impressionou-me também como a presença da pessoa de contato parecia
ajudar a protagonista a tolerar as experiências dolorosas que ela estava
escavando. 3
O mais inusitado, porém, era como Pesso criava quadros – ou
“estruturas”, como os chamava – do passado dos protagonistas. À medida
que as narrativas se desenrolavam, ele pedia a participantes do grupo que
representassem o papel de pessoas importantes na vida dos protagonistas,
como pais e outros membros da família, de tal modo que aquele mundo
interior começava a ganhar forma no espaço tridimensional. Outras pessoas
também zeram o papel dos pais ideais, desejados, que proporcionariam o
apoio, o amor e a proteção que faltaram em momentos críticos. Os
protagonistas tornavam-se os diretores das próprias peças, criando em torno
de si o passado que não haviam tido, e era evidente que sentiam um
profundo alívio físico e mental após essas representações. Essa técnica
poderia gravar marcas de segurança e bem-estar mesmo décadas depois de
as marcas originais de terror e abandono terem sido registradas na mente e
no cérebro?
Interessado no trabalho de Pesso, aceitei contente seu convite para visitá-
lo em sua casa numa colina no sul de New Hampshire. Almoçamos sob um
antigo carvalho e ele me convidou a acompanhá-lo a seu celeiro de tábuas
pintadas de vermelho, agora um ambiente de trabalho, para fazer uma
estrutura. Eu já havia feito psicanálise, como paciente, durante vários anos, e
não esperava grandes revelações. Era um pro ssional conhecido, de 40 e
poucos anos, com minha própria família, e pensava em meus pais como
idosos que procuravam viver a velhice da melhor maneira possível. Não
imaginava que eles ainda fossem uma in uência importante para mim.
Como não havia ali quem pudesse interpretar papéis, Pesso me pediu
que escolhesse um objeto ou um móvel que representasse meu pai. Escolhi
um gigantesco sofá de couro preto e pedi a ele que o colocasse de pé a uns
dois metros diante de mim, um pouco à esquerda. Em seguida, ele
perguntou se eu gostaria de pôr minha mãe na cena, e escolhi uma
luminária pesada, mais ou menos da mesma altura do sofá. À medida que a
sessão se desenrolava, o espaço se povoou com as pessoas importantes em
minha vida: meu melhor amigo (uma caixinha de lenços de papel à minha
direita); minha mulher (uma almofadinha perto dele); meus dois lhos
(outras duas almofadinhas).
Depois de algum tempo, examinei a projeção de minha paisagem
interna: dois objetos pesadões, escuros e ameaçadores que representavam
meus pais, e um conjunto de objetos minúsculos representando minha mulher, meus lhos e amigo. Fiquei atônito; havia recriado minha imagem
interna de meus severos pais calvinistas da época em que eu era garotinho.
Meu peito cou apertado, e tenho certeza de que minha voz soava ainda
mais comprimida. Eu não podia negar o que meu cérebro espacial estava
revelando: a estrutura me permitira visualizar meu mapa implícito do
mundo.
Disse a Pesso o que havia acabado de descobrir. Ele assentiu e perguntou
se eu lhe permitiria modi car minha perspectiva. Senti o ceticismo voltar,
mas como gostava de Pesso e estava curioso em relação a seu método,
concordei, não sem hesitar. Ele então colocou o corpo entre mim e o sofá e a
luminária, impedindo-me vê-los. Fui tomado no mesmo instante por uma
sensação de alívio no corpo – a pressão no peito diminuiu e minha
respiração voltou ao normal. Foi nesse momento que decidi ter aulas com
Pesso. 4
REESTRUTURAÇÃO DE MAPAS INTERNOS
Projetar seu mundo interno no espaço tridimensional de uma estrutura
permite enxergar o que está acontecendo no teatro de sua mente e lhe
proporciona uma perspectiva muito mais clara de suas reações a pessoas e
episódios no passado. Ao dispor no espaço representantes dos personagens
importantes em sua vida, você talvez se surpreenda com as lembranças,
pensamentos e emoções inesperadas que surgem. Pode então mover as
peças no tabuleiro externo que você criou e ver os efeitos que isso lhe causa.
Embora as estruturas envolvam diálogo, a terapia psicomotora não
explica nem interpreta o passado. Em vez disso, permite que você sinta o
que sentiu naquela ocasião, veja o que viu e diga o que não pôde dizer
quando aquilo aconteceu. É como se pudesse retroceder o lme de sua vida
e reescrever as cenas cruciais. Você pode dirigir os atores para que ajam
diferentemente, como impedir que seu pai venha a agredir sua mãe. Esses
quadros podem estimular emoções fortes. Por exemplo, ao colocar sua “mãe
real” no canto, encolhida de terror, talvez você tenha uma enorme vontade
de protegê-la e perceba como se sentia impotente no passado. Mas se você
cria uma mãe ideal, que enfrenta seu pai e que sabe como não se deixar prender a relacionamentos abusivos, poderá experimentar uma sensação
visceral de alívio e de banimento da culpa e da impotência antigas. Ou
poderá confrontar o irmão que batia em você e então criar um irmão ideal
que o protege e que se torna seu modelo de vida.
O trabalho do diretor/terapeuta e de outros membros do grupo consiste
em oferecer ao protagonista o apoio de que ele necessita para aprofundar-se
naquilo que temia explorar sozinho. A segurança dada pelo grupo permite
que você perceba aspectos que escondeu de si mesmo – em geral, aqueles de
que mais se envergonha. Quando não precisa esconder nada, a estrutura lhe
permite colocar a vergonha em seu devido lugar – nas guras que estão bem
diante de você e representam aqueles que o feriram e o zeram se sentir
indefeso quando criança.
Sentir-se seguro signi ca que você pode dizer a seu pai (ou melhor, à
pessoa ou ao objeto que o representa) o que gostaria de poder ter falado aos
5 anos. Pode dizer ao objeto que simboliza sua mãe deprimida e assustada o
quanto se amargurava por não ser capaz de cuidar dela. Pode pôr à prova a
distância e a proximidade e testar o que acontece quando muda a posição
dos objetos. Como participante ativo, você pode mergulhar numa cena de
uma forma que seria impossível quando simplesmente conta uma história. E
enquanto você se encarrega de encenar a realidade de sua experiência, a
testemunha lhe faz companhia, descrevendo as mudanças em sua postura,
expressão facial e tom de voz.
Em minha experiência, reviver sicamente o passado no presente e
depois retrabalhá-lo num ambiente seguro e de apoio pode ter força
su ciente para criar memórias novas, suplementares: experiências simuladas
de crescer num ambiente sintonizado e afetuoso no qual se está protegido de
todo mal. As estruturas não apagam lembranças ruins nem as neutralizam,
como faz a EMDR: elas oferecem novas opções – uma memória alternativa na
qual suas necessidades humanas básicas são satisfeitas e suas ânsias de amor
e proteção atendidas.
UMA VISITA AO PASSADO
Não faz muito tempo, coordenei uma o cina no Instituto Esalen, em Big
Sur, na Califórnia. Maria era uma lipina esguia e atlética, de 40 e poucos
anos, que tinha se mostrado simpática e gentil nos dois primeiros dias de
trabalho, dedicados à exploração a longo prazo do impacto do trauma e ao
ensino de técnicas de autorregulação. Agora, porém, sentada a uns dois
metros de mim, parecia amedrontada, arrasada. Pensei: será que ela se
dispôs a participar como protagonista basicamente para agradar à amiga que
a acompanhara à o cina?
Incentivei Maria a observar o que se passava dentro dela e partilhar
conosco o que lhe viesse à mente. Depois de um longo silêncio, ela disse:
“Na verdade, não consigo sentir nada no corpo, e minha mente está vazia.”
Re etindo, como um espelho, sua tensão interna, eu disse: “Uma
testemunha vê o quanto você está preocupada com o fato de sua mente estar
vazia e você não sentir nada depois de se apresentar como voluntária para
fazer uma estrutura. Correto?” “É isso mesmo!”, ela exclamou, parecendo
um pouco aliviada.
A “ gura da testemunha” entra na estrutura bem no início e assume o
papel de observador compreensivo e acrítico, que descreve o estado
emocional do protagonista e sublinha o contexto em que ele surgiu (isso
ocorreu quando me referi a Maria como uma pessoa que se apresentara
“como voluntária para fazer uma estrutura”). Considerar-se legitimada por
se sentir vista e ouvida é precondição para a pessoa se perceber em
segurança, algo crucial quando exploramos o perigoso território do trauma
e do abandono. Um estudo com neuroimagens demonstrou que, quando as
pessoas ouvem uma declaração que espelha seu estado interno, a amídala
direita por um instante se ilumina, como que para ressaltar o acerto do
re exo.
Recomendei que Maria se concentrasse na respiração, um dos exercícios
que tínhamos feito antes, e observasse o que ocorria em seu corpo. Após
outro longo silêncio, ela começou a falar, hesitante: “Existe sempre uma
sensação de medo em tudo o que faço. Não tenho a impressão de estar com
medo, mas estou sempre me forçando. Na verdade, é difícil para mim estar
aqui.” Devolvi: “Uma testemunha vê o desconforto que você sente por se
forçar a estar aqui.” Ela assentiu com a cabeça, endireitando de leve a coluna,
o que sinalizava que se sentia compreendida. Continuou: “Cresci achando
que minha família era normal. Mas sempre senti pavor de meu pai. Nunca achei que ele gostasse de mim. Ele nunca me batia com tanta força quanto
batia nos meus irmãos, mas tenho uma sensação difusa de medo.” Comentei
que uma testemunha percebia o medo que ela sentia ao falar do pai, e, a
seguir, convidei-a a escolher um membro do grupo para representá-lo.
Maria examinou a sala e escolheu Scott, um afável produtor de vídeos,
um dos mais entusiasmados participantes do grupo. Dei a ele seu roteiro:
“Eu assumo o papel de seu pai real, que a aterrorizava quando você era
pequena”, o que ele repetiu. (Cumpre destacar que esse método não é um
trabalho de improvisação, é uma encenação precisa do diálogo e das
instruções dadas pela testemunha e pelo protagonista.) Perguntei então a
Maria onde ela desejava que seu pai real casse, e ela pediu a Scott que
casse à sua direita, de pé, a mais ou menos dois metros e sem olhar para
ela. Estávamos começando a montar o quadro, e toda vez que dirijo uma
estrutura admiro a precisão das projeções externas do hemisfério direito. O
protagonista sempre sabe com exatidão onde devem car os vários
personagens de suas estruturas.
Também me surpreende, sempre, como as pessoas que representam os
personagens importantes no passado do protagonista assumem quase de
imediato uma realidade virtual: elas parecem se tornar as pessoas com quem
o protagonista tinha de lidar na época, não só para o protagonista, como
também, muitas vezes, para os outros participantes. Incentivei Maria a olhar
demoradamente para o pai real, e, enquanto ela o tava, podíamos ver que
suas emoções oscilavam entre o terror e a profunda compaixão. Ela contava,
em lágrimas, como a vida tinha sido difícil para ele: na infância, durante a
Segunda Guerra Mundial, ele vira pessoas sendo decapitadas e fora obrigado
a comer peixe estragado infestado de vermes. As estruturas promovem uma
das condições essenciais para uma mudança terapêutica profunda: um
estado, análogo ao transe, em que realidades múltiplas se desenrolam lado a
lado – o passado e o presente; saber que você é adulto e sentir o que sentia
quando criança; expressar sua raiva ou terror por alguém que se porta como
seu abusador, mas sabendo muito bem que está falando com Scott, que não
se parece em nada com seu pai real; experimentar ao mesmo tempo as
complexas emoções de lealdade, ternura, raiva e saudade que as crianças
sentem pelos pais.
Maria começou a falar de seu relacionamento com o pai quando era
menina, e continuei a re etir suas expressões. O pai agredia a mãe. Ele a criticava sem cessar: sua dieta, seu corpo, a forma como cuidava da casa, e
Maria sempre temia o que poderia acontecer à mãe quando ele a censurava.
Ela falava da mãe como uma pessoa carinhosa e meiga; sem a mãe, não teria
sobrevivido. Ela sempre a consolava depois que o pai brigava com ela, mas
não fazia nada para proteger os lhos da fúria paterna. “Acho que mamãe
também tinha muito medo dele. Tenho a impressão de que ela não nos
protegia porque se sentia aprisionada.”
Nesse ponto, sugeri que era hora de chamar à sala a mãe real de Maria.
Ela passou os olhos pelo grupo e abriu um sorriso largo ao pedir a Kristin,
uma pintora loura, com jeito de escandinava, para representar o papel de sua
mãe real. “Eu assumo o papel de sua mãe real, que era meiga e carinhosa, e
sem a qual você não teria sobrevivido, mas que não protegia você de seu pai
abusivo.” Maria pediu que ela se sentasse numa almofada à sua direita, bem
mais perto dela que o pai real.
Recomendei-lhe que olhasse para Kristin e perguntei: “E então, o que
acontece quando você olha para ela?” Maria respondeu, zangada: “Nada.”
“Uma testemunha veria que você se retesa ao olhar para sua mãe real e diz,
com raiva, que não sente nada”, eu disse. Depois de um longo silêncio,
perguntei de novo: “E agora, o que acontece?” Maria me pareceu um pouco
mais abatida e repetiu: “Nada.” Perguntei: “Há alguma coisa que você queira
dizer à sua mãe?” Por m, ela disse “Eu sei que você fez o melhor que podia”,
e um momento depois acrescentou: “Eu queria que você me protegesse.”
Começou a chorar baixinho, e eu perguntei: “O que está acontecendo dentro
de você?” “Pondo a mão no peito, sinto que meu coração está batendo com
muita força”, Maria disse.
Minha tristeza é por causa de minha mãe, incapaz de enfrentar meu
pai e nos proteger. Ela só se fecha, ngindo que tudo está bem, e na
sua mente é provável que esteja mesmo, e isso hoje me enfurece.
Tenho vontade de dizer: “Mamãe, quando vejo você não reagir a
papai quando ele está sendo ruim… Quando vejo seu rosto, você
parece aborrecida e não sei por que você não diz: “Vá se foder e
suma daqui.” Você não sabe lutar… você é uma mosca-morta… uma
parte sua não serve para nada e não está viva. Eu nem sei o que
quero dizer. Eu só quero que você seja diferente… Você não faz nada
certo, como ao aceitar tudo quando está tudo errado.
Observei: “Uma testemunha veria como você ca furiosa quando quer
que sua mãe enfrente seu pai.” Em seguida, Maria contou que desejava que a
mãe fugisse de casa com os lhos, que os tirasse de perto do pai
aterrorizador.
Propus então que outra integrante do grupo fosse escolhida para
representar sua mãe ideal. Maria correu os olhos pela sala e escolheu Ellen,
terapeuta e praticante de artes marciais. Maria a fez sentar-se numa
almofada à sua direita, entre sua mãe real e ela, e pediu-lhe que passasse o
braço em torno dela. “O que você quer que sua mãe ideal diga a seu pai?”,
perguntei. “Quero que ela diga: ‘Se você vai falar assim, vou deixar você e
levar as crianças. Não vamos car plantados aqui e escutar essa merda’”.
Ellen repetiu as palavras de Maria. Perguntei: “E agora, o que acontece?”
Maria respondeu: “Gostei. Sinto uma leve pressão na cabeça. Minha
respiração está tranquila. Sinto meu corpo fazendo uma dancinha animada.
Legal.” “Uma testemunha pode ver como você ca feliz ao ouvir sua mãe
dizer que não vai mais tolerar as merdas que seu pai diz e que vai tirar você
de perto dele”, eu disse. Maria começou a soluçar e disse: “Eu teria sido uma
menina segura e feliz.” Pelo canto do olho, vi vários membros do grupo
chorando em silêncio – era evidente que poder se sentir em segurança e feliz
quando criança tocava num ponto delicado na lembrança de todos eles.
Daí a pouco propus chamarmos o pai ideal de Maria. Vi com clareza a
alegria nos olhos dela ao examinar o grupo, imaginando seu pai ideal. Por
m, ela escolheu Danny. Dei a ele roteiro, que ele leu para ela: “Eu assumo o
papel de seu pai ideal, que a amaria e cuidaria e que nunca lhe daria medo.”
Maria lhe pediu que se sentasse à sua esquerda e sorriu. “Minha mãe e meu
pai saudáveis!”, exclamou. Respondi: “Permita-se sentir essa alegria, olhando
para um pai ideal que a cobriria de carinho.” “É lindo”, gritou Maria,
abraçando Danny e sorrindo para ele, apesar das lágrimas. “Estou me
lembrando de um momento de ternura real com meu pai, e é isso que sinto
agora. Eu adoraria ter minha mãe perto de mim também.” O pai e a mãe
ideais a embalaram. Deixei que a cena prosseguisse por algum tempo para
que pudessem introjetar plenamente a experiência.
Terminamos com Danny dizendo: “Se eu tivesse sido seu pai ideal
naquele tempo, eu teria amado você assim e não teria feito maldades com
você”, enquanto Ellen acrescentava: “Se eu tivesse sido sua mãe ideal, teria
defendido você e não teria permitido que nenhum mal lhe sucedesse.” Todos
os personagens deram, então, declarações nais, abandonando os papéis que
haviam representado e retornando formalmente cada qual à própria
identidade.
REESCREVER A VIDA
Ninguém é criado em circunstâncias ideais – se é que sabemos que
circunstâncias são essas. Como meu falecido amigo David Servan-Schreiber
disse um dia: cada vida é difícil à sua maneira. Mas sabemos que para nos
tornarmos adultos autocon antes e aptos é importante termos sido criados
por pais rmes e previsíveis; pais que se alegravam conosco, com nossas
descobertas e explorações; pais que nos ajudavam a organizar nossas idas e
vindas; e que serviam de modelos para cuidados pessoais e para as relações
com outras pessoas.
De ciências em qualquer dessas áreas costumam se manifestar mais
tarde. Em geral, uma criança ignorada ou alvo de humilhações contínuas
carece de respeito por si própria. Crianças que não puderam se a rmar
provavelmente terão di culdade para não se deixar intimidar na vida adulta,
e a maioria dos adultos que sofreram maus-tratos físicos na infância carrega
uma raiva latente que exige muita energia para ser contida.
Nossos relacionamentos sofrerão também. Quanto mais pesada tiver
sido a carga de dor e privações sofridas na infância, maior a probabilidade
de interpretarmos as ações de outras pessoas como se fossem dirigidas
contra nós. Também teremos menos compreensão de suas lutas,
inseguranças e preocupações. Se não pudermos avaliar a complexidade da
vida delas, nossa tendência será a de ver em todos os seus atos a
con rmação de que nos magoaremos e nos decepcionaremos.
Vimos, nos capítulos sobre a biologia do trauma, como o trauma e o
abandono desconectam as pessoas de seu corpo como fonte de prazer e
conforto, ou até como uma parte delas que precisa de cuidados e cultivo. Se não pudermos con ar que nosso corpo é capaz de enviar sinais de segurança
ou de perigo e, em vez disso, nos sentirmos oprimidos cronicamente por
sensações físicas, perderemos a capacidade de car à vontade em nossas
peles e, por extensão, no mundo. Enquanto seu mapa-múndi se basear em
trauma, abuso e negligência, as pessoas vão procurar atalhos rumo ao
esquecimento. Prevendo rejeição, escárnio e privação, relutam em tentar
novas opções, convencidas de seu fracasso. Essa falta de experimentação as
aprisiona num ambiente de crescente medo, isolamento e carência em que é
impossível acolher bem até aquelas experiências que poderiam alterar sua
visão básica de mundo.
Essa é uma das razões pelas quais as experiências altamente estruturadas
da terapia psicomotora são tão valiosas. Os participantes projetam sua
realidade interna num espaço ocupado por pessoas reais, onde podem
explorar a cacofonia e a confusão do passado. Uma experiência que nos leva
a momentos concretos de satisfação triunfante. “Isso, era assim mesmo. Era
o que eu tinha de enfrentar. E era assim que teria sido na época se eu tivesse
sido apreciado e tratado com carinho.” Passar por uma experiência sensorial
de se sentir querido e protegido, aos 3 anos, no ambiente de uma estrutura,
permite às pessoas reescrever sua vivência interna, como se dissessem:
“Posso interagir de forma espontânea com outras pessoas sem precisar
temer ser rejeitado ou ferido.”
As estruturas mobilizam o extraordinário poder da imaginação para
transformar as narrativas internas que impulsionam e con nam nossa
atuação no mundo. Com o apoio adequado, segredos antes perigosos demais
para ser revelados podem ser contados não só a um terapeuta, um padre
confessor, mas, em nossa imaginação, às próprias pessoas que nos feriram e
atraiçoaram.
A natureza tridimensional da estrutura transforma o oculto, o vedado e
o temido numa realidade visível, concreta. Nesse aspecto, assemelha-se um
pouco à terapia SFI, explorada no capítulo anterior. A SFI expõe as partes
cindidas criadas para a sobrevivência e permite que a pessoa as identi que e
converse com elas, de forma que seu self ileso possa se manifestar. Já uma
estrutura cria uma imagem tridimensional daqueles e daquilo com que você
tinha de lidar e lhe dá oportunidade de criar um resultado diferente.
A maioria das pessoas hesita em voltar ao passado e ao desencanto – eles
só prometem trazer de volta o intolerável. Contudo, quando esse passado e esse desencanto são re etidos e testemunhados, uma nova realidade começa
a ganhar forma. Um re exo correto cria uma sensação totalmente oposta a
ser ignorado, criticado e depreciado. O re exo lhe permite sentir o que sente
e saber o que sabe: um dos pilares da recuperação.
O trauma faz com que as pessoas continuem a interpretar o presente à
luz de um passado imutável. A cena que você recria numa estrutura pode
não ser exatamente o que aconteceu, mas representa a estrutura de seu
mundo interior: seu mapa interno e as regras ocultas segundo as quais você
tem vivido.
A CORAGEM DE DIZER A VERDADE
Dirigi outra estrutura de grupo com Mark, de 26 anos, que aos 13 ouviu por
acaso o pai fazendo sexo ao telefone com a cunhada, irmã de sua mãe.
Sentindo-se desnorteado, constrangido, ferido, traído e paralisado, tentou
conversar com o pai sobre o assunto, mas se deparou com raiva e negação: o
pai lhe disse que ele tinha a mente suja e o acusou de tentar destruir a
família. Mark nunca se atreveu a contar à mãe o episódio, mas daí em diante
os segredos de família e a hipocrisia contaminaram todos os aspectos da
vida em sua casa. A sensação generalizada de que ninguém merecia
con ança levou-o a uma adolescência solitária; seus dias, depois da escola,
eram nas quadras de basquete do bairro e vendo TV em seu quarto. Quando
ele tinha 21 anos, a mãe morreu – de tristeza, segundo ele – e o pai se casou
com a cunhada. Mark não foi convidado nem para o enterro nem para o
casamento.
Segredos desse tipo tornam-se toxinas dentro da gente – realidades que a
pessoa não tem permissão para admitir a si mesma ou aos outros, mas que,
ainda assim, se convertem no parâmetro de sua vida. Eu não fazia ideia da
história de Mark quando ele se juntou ao grupo, mas seu distanciamento
emocional chamava a atenção; nas avaliações, admitia sentir-se separado de
todas as pessoas por um denso nevoeiro. Preocupou-me o que viria à tona
quando começássemos a investigar o que se escondia atrás de seu exterior
congelado e inexpressivo.
Quando propus que Mark falasse de sua família, ele resmungou alguma
coisa e se fechou ainda mais. Sugeri que elegesse uma “ gura de contato”
para lhe dar apoio. Ele escolheu Richard, um homem de cabelo branco, e o
fez sentar-se numa almofada a seu lado, tocando-lhe o ombro. Começou a
contar sua história e convidou Joe para representar seu pai real, indicando
que casse a três metros de distância; pediu a Carolyn, que fazia o papel de
sua mãe, que se agachasse num canto, com o rosto escondido. Em seguida,
Amanda, como sua tia, se postou num lado da sala, em atitude desa adora e
com os braços cruzados sobre o peito – representando todas as mulheres
calculistas, perversas e ardilosas que correm atrás de homens.
Examinando o quadro que montara, Mark endireitou-se na cadeira, com
os olhos bem abertos. Era evidente que o nevoeiro se dissipara. “Uma
testemunha pode ver como você está inquieto ao se defrontar com a
situação que enfrentava”, eu disse. Mark assentiu, com ar aprovador, e
permaneceu calado e pensativo por algum tempo. Então, olhando para o
“pai”, falou, de repente: “Seu babaca, seu embusteiro, você arruinou minha
vida.” Pedi a Mark que dissesse a seu “pai” tudo o que sempre quis mas
nunca pudera. Seguiu-se uma longa lista de acusações. Instruí o pai a reagir
sicamente, como se tivesse sido esmurrado, para que o lho visse que seus
golpes tinham surtido efeito. Não me surpreendi quando Mark declarou
espontaneamente que sempre temera perder o controle sobre sua fúria, e
que esse medo o tinha impedido de se defender na escola, no trabalho e em
outras situações.
Depois do confronto de Mark com seu pai real, perguntei-lhe se gostaria
que Richard assumisse um novo papel, o de seu pai ideal. Instruí Richard a
encará-lo e dizer: “Se eu tivesse sido seu pai ideal naquela época, teria
escutado você e não o acusaria de ter uma mente suja.” Quando Richard
repetiu essas palavras, Mark pôs-se a tremer. “Ah, meu Deus, a vida teria
sido tão diferente se eu conseguisse con ar no meu pai e conversado sobre o
que estava acontecendo. Eu poderia ter um pai.” Pedi então a Richard que
dissesse: “Se eu fosse seu pai ideal naquela época, teria acolhido sua raiva e
você teria um pai em quem pudesse con ar.” Mark relaxou visivelmente e
disse que essa frase teria feito toda a diferença.
Nesse ponto, ele se voltou para a intérprete de sua tia, surpreendendo o
grupo com a torrente de desaforos que lhe lançou: “Sua puta conivente,
desclassi cada. Você traiu sua irmã e arruinou a vida dela”. Assim que acabou de falar, Mark caiu no choro. Então contou que sempre vira com
muita suspeita toda mulher que demonstrava interesse por ele. O resto da
estrutura consumiu mais meia hora, durante a qual, aos poucos,
estabelecemos condições para que ele criasse duas novas mulheres: a tia
ideal, que não traía a irmã, mas contribuía para ajudar a família de
imigrantes, isolada, e a mãe ideal, que mantinha o interesse e a devoção do
marido, e com isso não morria de tristeza. Ele encerrou contemplando com
serenidade a cena que criara, com um sorriso no rosto.
Durante o restante da o cina, ele se portou como um membro
participante e valioso do grupo, e três meses depois me enviou um e-mail
dizendo que a experiência mudara a sua vida. Estava morando com a
primeira namorada e, embora eles tivessem algumas discussões acaloradas,
ele conseguira acatar o ponto de vista da moça sem se fechar de maneira
defensiva, voltar à atitude de medo ou raiva ou pensar que ela estava
querendo traí-lo. Espantava-se por se sentir bem, mesmo discordando dela,
e por ter sido capaz de defender seus pontos de vista. Terminou me pedindo
o nome de um terapeuta em sua comunidade que o ajudasse nas mudanças
que estava empreendendo. Por sorte eu tinha um colega que pude lhe
indicar.
ANTÍDOTOS PARA LEMBRANÇAS DOLOROSAS
Da mesma forma que as aulas de defesa pessoal (capítulo 13), as estruturas
da terapia psicomotora encerram a possibilidade de formar memórias
virtuais que vão coexistir com as realidades dolorosas do passado e
proporcionar experiências sensoriais de reconhecimento, carinho e apoio
capazes de servir como antídotos para lembranças de mágoas e traições.
Para mudar, as pessoas precisam se familiarizar visceralmente com
realidades que contradigam de maneira frontal as sensações estáticas do self
congelado ou aterrorizado criado pelo trauma, substituindo-as por
sensações que tenham raízes em segurança, domínio, prazer e conexão. No
capítulo sobre EMDR, vimos que uma das funções do sonho é criar
associações nas quais os fatos frustrantes do dia se entrelaçam com o resto da vida da pessoa. Ao contrário dos sonhos, as estruturas psicomotoras
ainda estão sujeitas às leis da física, mas podem refazer o passado.
Está claro que nunca conseguiremos desfazer o que aconteceu, mas
podemos criar novos roteiros emocionais, intensos e reais o su ciente para
desarmar e neutralizar alguns antigos. Os quadros terapêuticos das
estruturas oferecem uma experiência em cuja possibilidade muitos
participantes jamais acreditaram: serem bem recebidos num mundo em que
as pessoas os apreciam, os protegem, atendem a suas necessidades e os
fazem se sentir à vontade.
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