O corpo guarda as marcas
17. Juntando os pedaços: autoliderança
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JUNTANDO OS PEDAÇOS:
AUTOLIDERANÇA
Um ser humano é uma casa de hóspedes. A cada manhã, uma
novidade. A alegria, a depressão, a mesquinharia ou uma percepção
momentânea vêm como visitantes inesperados […]. Acolha e
entretenha a todos. Trate cada hóspede de maneira honrosa. Receba
à porta, risonho, o pensamento sombrio, a vergonha, a malícia, e
convide-os a entrar. Seja grato a quem aparecer, pois cada um foi
enviado como um guia do além.
Rumi
Um homem tem tantas identidades sociais quanto pessoas que o
reconhecem.
William James, Princípios de psicologia
N o começo de minha carreira, tratei de Mary, uma jovem tímida, solitária e sicamente arrasada. As sessões semanais de psicoterapia buscavam reparar as destruições causadas por seu terrível histórico de abuso
na infância. Um dia, cerca de três meses depois de iniciado o tratamento, ao
abrir a porta da sala de espera, encontrei-a em pé, de minissaia e numa atitude provocante, com o cabelo tingido de ruivo amejante, um copo de
café numa das mãos e uma expressão hostil no rosto. “O senhor deve ser o
dr. Van der Kolk”, ela disse. “Eu me chamo Jane e vim aqui para lhe avisar
que não deve acreditar em nenhuma das mentiras que Mary anda lhe
contando. Posso entrar?” Fiquei atônito, mas felizmente me abstive de
confrontar “Jane” e, em vez disso, escutei o que ela queria me dizer. No
decorrer da sessão, além de Jane, conheci uma menininha machucada e um
rapazola furioso. Esse foi o começo de um tratamento longo e produtivo.
Mary foi meu primeiro contato com o transtorno dissociativo de
identidade (TDI), que na época era chamado de transtorno de múltiplas
personalidades. Por mais impressionantes que sejam seus sintomas, a
divisão interna e o surgimento de diferentes identidades que caracterizam o
TDI representam apenas o extremo do espectro da vida mental. Todos
conhecemos a sensação de ter, dentro de nós, impulsos ou partes
antagônicas, mas essa pluralidade acontece especialmente em pessoas
traumatizadas que tiveram de recorrer a medidas extremas para sobreviver.
Explorar essas partes – e até tratá-las bem – é um componente importante
da cura.
ÉPOCAS DESESPERADAS EXIGEM MEDIDAS
DESESPERADAS
Todos sabemos o que acontece quando nos sentimos humilhados:
canalizamos toda a energia para nos proteger, agarrando qualquer estratégia
de sobrevivência que exista. Podemos reprimir nossos sentimentos, assim
como podemos nos enfurecer e tramar uma vingança. Podemos decidir nos
tornar tão poderosos e bem-sucedidos que ninguém jamais será capaz de
nos ferir de novo. Muitos comportamentos classi cados como problemas
psiquiátricos, entre os quais certas obsessões, compulsões e ataques de
pânico, tanto quanto a maioria dos comportamentos autodestrutivos,
começaram como estratégias de autoproteção. Essas adaptações ao trauma
podem interferir de tal modo na vida normal que, muitas vezes,
pro ssionais e os próprios pacientes acreditam que a plena recuperação será
inviável. Encarar esses sintomas como de ciências permanentes desvia o foco do tratamento na direção da descoberta da medicação apropriada, o
que pode levar à dependência por toda a vida – como se os sobreviventes do
trauma fossem pacientes renais em diálise.1
Muito mais produtivo é entender a agressão ou a depressão, a arrogância
ou a passividade como comportamentos aprendidos. Em algum ponto do
caminho, o paciente passou a acreditar que só poderia sobreviver se fosse
duro, invisível ou ausente, ou que era melhor desistir. Tal como as
lembranças traumáticas que se mantêm intrusivas até serem sepultadas, as
adaptações prosseguem até o organismo se sentir seguro e integrar todas as
suas partes que estão focadas em lutar contra o trauma ou dele se defender.
Todos os sobreviventes de trauma que conheci são, de certa forma,
resilientes. Suas histórias inspiram respeito pela forma que enfrentam o
problema. Sabendo quanta energia é requerida para o simples ato de
sobreviver, não me surpreendo com o preço que eles com frequência pagam:
a ausência de uma relação amorosa com o próprio corpo, a mente e a alma.
O enfrentamento do trauma cobra um alto tributo. Para muitas crianças,
é mais seguro odiar a si mesmas do que pôr em risco a relação com seus
cuidadores, expressando fúria ou fugindo. Em consequência disso, crianças
vítimas de abusos costumam crescer acreditando que são fundamentalmente
indignas de amor; essa era a única maneira como suas mentes jovens
podiam explicar a razão pela qual eram tratadas tão mal. Para sobreviver,
negam, ignoram e eliminam grandes porções da realidade: esquecem o
abuso; reprimem a raiva ou o desespero; entorpecem suas sensações físicas.
Uma pessoa que sofreu abusos na infância provavelmente carregará dentro
de si uma parte infantil que se acha congelada no tempo, ainda agarrada a
esse tipo de negação e repulsa por si mesma. Muitos sobreviventes adultos se
veem presos na mesma armadilha. Afastar sentimentos intensos pode ser
um mecanismo altamente adaptativo a curto prazo. Pode ajudar a pessoa a
preservar a dignidade e a independência; pode ajudá-la a manter o foco em
tarefas críticas como salvar um companheiro, cuidar dos lhos ou
reconstruir sua casa.
Os problemas surgem mais tarde. Depois de ver o corpo de um amigo
ser despedaçado, um soldado pode voltar à vida civil e tentar afastar da
mente essa experiência. Uma parte protetora dele mesmo sabe ser
competente em seu serviço e se dar bem com os colegas. Mas ele pode ter constantes acessos de raiva com a namorada ou car apático e paralisado
quando o prazer de se render ao toque dela o leva a sentir que está perdendo
o controle. É provável que não perceba que sua mente associa de maneira
automática a entrega passiva com a paralisia que o dominou quando o
amigo foi morto. Por isso, outra parte se adianta para criar uma manobra
diversionista: ele se enfurece e, sem ter ideia do que o perturbou, acha que
está zangado porque a namorada fez determinada coisa. É claro que se ele
continuar a explodir com ela (e com namoradas subsequentes), cará cada
vez mais isolado, e talvez nunca perceba que a passividade desperta nele
uma parte traumatizada e que outra parte, um gerente furioso, interfere para
proteger esse lado vulnerável. É ajudando essas partes a renunciar a suas
convicções extremas que a terapia pode salvar vidas.
Como vimos no capítulo 13, uma tarefa crucial para que um indivíduo
se recupere consiste em aprender a viver com as lembranças do passado sem
que elas o massacrem no presente. No entanto, a maioria dos sobreviventes,
inclusive aqueles que mostram e ciência – e brilhantismo – em alguns
aspectos da vida, enfrentam outro desa o, até maior: recon gurar um
sistema cérebro/mente que foi construído para enfrentar o pior. Do mesmo
modo que precisamos revisitar lembranças traumáticas a m de integrá-las,
precisamos revisitar aquelas nossas partes que adquiriram os hábitos
defensivos que nos ajudaram a sobreviver.
A MENTE É UM MOSAICO
Todos temos partes. Neste exato momento, parte de mim quer tirar um
cochilo; outra quer continuar escrevendo. Ainda aborrecido por um e-mail
injurioso, parte de mim deseja revidar, enquanto outra só quer esquecer essa
história. A maioria das pessoas que me conhece vê minhas partes
compenetradas, sinceras e irritáveis; outras já viram o cachorrinho enfezado
que mora em mim. Meus lhos lembram de minhas partes brincalhonas e
aventureiras durante as férias.
Se você chega ao escritório de manhã e vê a expressão fechada do chefe,
sabe muito bem o que está por vir. Aquela parte exasperada mostra um tom
de voz, um vocabulário e uma postura característicos – e ainda ontem vocês mostravam um para o outro fotos dos lhos. As partes não são apenas
sentimentos, mas diferentes maneiras de ser, com suas convicções, interesses
e papéis nos diferentes ambientes de nossa vida.
A maneira de nos relacionarmos com nós mesmos depende em boa
medida de nossas aptidões de liderança interna – o modo como ouvimos
nossas diferentes partes, nos certi camos de que estão atendidas e evitamos
que se sabotem umas às outras. Com frequência, as partes dão a impressão
de serem absolutas, mas na realidade representam apenas um único
elemento numa constelação de pensamentos, emoções e sensações. Se
Margaret grita “Não quero saber de você!” no meio de uma discussão, Joe
talvez vá acreditar que ela o despreza – e nesse instante Margaret talvez
concorde. Na verdade, porém, só uma parte dela está zangada, e essa parte
obscurece por algum tempo seus sentimentos ternos e generosos, que
poderão voltar assim que Margaret perceber a expressão de mágoa no rosto
de Joe.
Todas as grandes linhas de psicologia reconhecem que as pessoas têm
subpersonalidades, a que dão diferentes nomes.2 Em 1890, William James
escreveu: “Cumpre admitir que […] a possível consciência total pode
dividir-se em partes que coexistem, mas ignoram-se mutuamente e
partilham entre si os objetos do conhecimento.”3 Já Carl Jung registrou: “A
psique é um sistema autorregulador que se equilibra da mesma forma que o
corpo,” 4 “O estado natural da psique humana consiste em um ajuntamento
confuso de seus componentes, que se comportam de maneira
contraditória”,5 e “A conciliação desses opostos é um grande problema.
Assim, o adversário não é outro senão ‘o outro dentro de mim’.” 6
A neurociência moderna con rmou essa visão da mente como uma
espécie de sociedade. Michael Gazzaniga, pioneiro em pesquisas sobre a
divisão da mente, concluiu que ela se compõe de módulos funcionais
semiautônomos, cada qual com um papel em particular.7 Em seu livro e
Social Brain (1985), ele declarou:
Mas que dizer da ideia de que o self não é um ser uno, e que podem
existir dentro de nós vários domínios de consciência? […]. Nossos
estudos [sobre o cérebro dividido] levam à ideia de que, literalmente,
existem dentro de nós diversos selves, que nem sempre “conversam”
entre si. 8
O cientista do MIT Marvin Minsky, pioneiro da inteligência arti cial,
a rmou:
A lenda do self único só pode nos desviar do alvo de nossa
investigação.9 […] Pode fazer sentido pensar que existe, dentro do
cérebro, uma sociedade de diferentes mentes. Da mesma forma que
os membros de uma família, as diferentes mentes podem trabalhar
em equipe para ajudar umas às outras, tendo cada qual as próprias
experiências mentais sobre as quais as demais nada sabem.10
Terapeutas, treinados para ver nas pessoas seres humanos complexos,
com múltiplas características e potencialidades, podem nos ajudar a
explorar nosso sistema de partes internas e a cuidar, nós mesmos, de suas
facetas feridas. Existem vários enfoques de tratamento, entre eles o modelo
de dissociação estrutural, de amplo uso na Europa, elaborado por meus
colegas holandeses Onno van der Hart e Ellert Nijenhuis, e por Kathy Steele,
de Atlanta; e o trabalho de Richard Klu nos Estados Unidos.11
Vinte anos depois de tratar de Mary, conheci Richard Schwartz, criador
da terapia dos sistemas familiares internos (SFI). Foi graças a seu trabalho
que a metáfora da “família” proposta por Minsky ganhou vida para mim e
me proporcionou um método de trabalhar com as partes divididas
resultantes do trauma. A essência da terapia SFI é a ideia de que a mente de
cada um é como uma família cujos membros têm diferentes níveis de
maturidade, excitabilidade, sabedoria e dores. As partes formam uma rede
ou sistema em que a mudança em qualquer uma delas afetará todas as
outras.
O modelo da SFI me ajudou a compreender que a dissociação se dá num
continuum. No trauma, o sistema do self se desarranja e partes do self se
polarizam e entram em guerra umas com as outras. A autorrepulsa coexiste
com a presunção e luta com ela; o carinho amoroso com o ódio; a apatia e a
passividade com a raiva e a agressão. Essas partes extremas arcam com o
ônus do trauma.
Na SFI, uma parte é vista não só como um estado emocional passageiro
ou um modelo costumeiro de pensamento, mas como um sistema mental
diferenciado, com a própria história, capacidades, necessidades e visão do
mundo.12 O trauma injeta nas partes convicções e emoções que lhes roubam
as qualidades naturais. Por exemplo, todos nós temos partes infantis e
brincalhonas. Se somos vítimas de abuso, essas são as partes mais feridas:
elas se congelam, encerrando em si a dor, o terror e a traição do abuso. Esse
ônus faz com que se tornem tóxicas – partes de nós que temos de negar a
todo custo. Por estarem trancadas no interior do corpo, a SFI as classi ca
como exiladas.
Nesse ponto, as outras partes se organizam para proteger a família
interna contra as partes exiladas. Esses protetores mantêm as partes tóxicas
distantes, mas, ao proceder assim, adquirem uma porção da energia do
abusador. Gerentes críticos e perfeccionistas incumbem-se de garantir que
nunca nos aproximemos de ninguém ou que sejamos incansavelmente
produtivos. Outro grupo de protetores, que a SFI chama de bombeiros, são
socorristas de emergência, agindo de forma impulsiva sempre que uma
experiência ativa uma emoção exilada.
Cada parte dividida tem diferentes lembranças, convicções e sensações
físicas; uma guarda a vergonha, outra a raiva; uma o prazer e o entusiasmo,
outra a solidão intensa ou a submissão degradante. São todos aspectos da
experiência do abuso. O insight crucial é que todas elas têm uma função:
proteger o self do terror da aniquilação.
Em geral, crianças que expressam em atos sua dor, em vez de trancá-la
dentro de si, recebem diagnóstico de “transtorno desa ador de oposição”,
“transtorno de apego” ou “transtorno de conduta”. Entretanto, esses rótulos
não contemplam o fato de que a raiva e o retraimento são apenas facetas de
uma ampla faixa de tentativas desesperadas de sobrevivência. Tentar
controlar o comportamento de uma criança sem remediar a questão básica –
o abuso – leva a tratamentos que são, na melhor das hipóteses, ine cazes e,
na pior, nocivos. À medida que essa criança cresce, suas partes não se
integram de maneira espontânea numa personalidade coerente, mas
continuam a levar uma existência mais ou menos autônoma.
As partes que se acham “fora” podem desconhecer por completo as
demais.13 A maioria dos homens que avaliei, a pedido da Justiça, por terem sido molestados por padres católicos, tomavam esteroides anabolizantes e
dedicavam um tempo desmedido à musculação nas academias. Malhadores
compulsivos, viviam numa cultura masculina de suor, futebol americano e
cerveja, onde medo e fraqueza eram cuidadosamente ocultos. Só depois que
se sentiram em segurança comigo pude conhecer os meninos aterrorizados
que viviam dentro deles.
Pacientes também podem não gostar das partes que estão “fora”: as
coléricas, destrutivas ou críticas. Todavia, a SFI oferece um quadro para
compreendê-las – e, isso também é importante, falar delas de uma forma
que não as mostre como patológicas. Reconhecer que cada uma carrega
fardos do passado e respeitar sua função no sistema global as torna menos
ameaçadoras ou insuportáveis.
Diz Schwartz:
Aceitando-se a ideia básica de que as pessoas têm um impulso inato
para cuidar da própria saúde, conclui-se que, quando elas têm
problemas crônicos, alguma coisa impede o acesso a recursos
internos. Por isso, o papel dos terapeutas consiste em colaborar, mais
que ensinar, confrontar ou preencher buracos em seu psiquismo. 14
O primeiro passo nessa colaboração é garantir ao sistema interno que
todas as partes são bem-vindas e que todas elas – mesmo as suicidas ou
destrutivas – formaram-se numa tentativa de proteger o sistema do self, por
mais que agora pareçam ameaçá-lo.
AUTOLIDERANÇA
A terapia SFI reconhece que o cultivo de uma autoliderança com atenção
plena é o fundamento da cura do trauma. A atenção plena não apenas nos
permite analisar nossa paisagem interna com boa vontade e curiosidade:
também pode nos conduzir ativamente na direção correta, no sentido do
cuidado pessoal. Os sistemas – famílias, organizações e nações – só atuam
com e cácia sob uma liderança competente e claramente de nida. A família
interna não difere: todas as facetas do self têm de ser atendidas. O líder interno deve distribuir com sensatez os recursos disponíveis e oferecer uma
visão do conjunto que leve em conta todas as partes.
Como explica Richard Schwartz,
o sistema interno de uma vítima de abuso difere do sistema de uma
pessoa que não sofreu abuso no que diz respeito à ausência
persistente de liderança efetiva, às regras radicais que regem a
atuação das partes e à ausência absoluta de equilíbrio ou harmonia
coerentes. Em geral, as partes atuam em torno de convicções e
pressupostos anacrônicos, derivados do abuso na infância, julgando,
por exemplo, que ainda é extremamente perigoso revelar segredos
sobre experiências suportadas na infância.15
O que acontece quando o self não está mais no comando? A essa
situação a SFI chama “mistura”: quando o self se identi ca com uma parte,
como ocorre na frase “Quero me matar” ou “Eu te odeio”. Note-se a
diferença em relação a “Uma parte de mim gostaria que eu estivesse morto”
ou “Uma parte de mim se ativa quando você faz isso e sou tomado por um
ímpeto assassino”.
Schwartz faz duas a rmações que estendem o conceito de atenção plena
ao campo da liderança ativa. A primeira é que o self não precisa ser
cultivado ou desenvolvido. Sob a superfície das partes protetoras dos
sobreviventes de trauma há uma essência não dani cada, um self con ante,
curioso e calmo, um self cuja destruição foi impedida pelos vários protetores
que a oraram em seus esforços de garantir a sobrevivência. Quando esses
protetores têm certeza de que é seguro separar-se, o self a ora
espontaneamente, e as partes podem ser mobilizadas para o processo de
cura.
De acordo com a segunda a rmação, longe de ser um observador
passivo, esse self atento pode contribuir para reorganizar o sistema interior e
comunicar-se com as partes, ajudando-as a se certi car de que existe no
interior alguém que pode ter o controle. Mais uma vez, pesquisas
neurocientí cas mostram que não se trata de mera metáfora. A atenção
plena aumenta a ativação do córtex pré-frontal medial e reduz a ativação de estruturas, como a amídala, que desencadeiam nossas respostas emocionais.
E assim nosso controle sobre o cérebro emocional aumenta.
Mais do que incentivar um relacionamento entre o terapeuta e um
paciente impotente, a SFI concentra-se em cultivar um relacionamento
interno entre o self e as várias partes protetoras. Nesse modelo de
tratamento, o self não se limita a assistir ou observar de maneira passiva,
como em algumas tradições de meditação, mas tem um papel de liderança
ativo. O self é o regente de orquestra que ajuda todas as partes a soar de
maneira harmoniosa – como uma sinfonia, não uma cacofonia.
A PAISAGEM INTERIOR
A tarefa do terapeuta é ajudar os pacientes a separar essa mistura confusa
em entidades separadas, de modo que possam dizer: “Essa parte de mim é
igual a uma criancinha; aquela ali é mais madura, mas se sente vítima.”
Talvez eles desprezem muitas dessas partes, mas identi cá-las faz com que
elas se tornem menos intimidadoras e opressivas. O passo seguinte será
estimulá-los a pedir a cada parte protetora, ao a orar, que se detenha por
algum tempo. Assim, eles poderão ver o que ela está protegendo. Depois que
o procedimento é repetido várias vezes, as partes começam a se separar do
self e abrem espaço para uma auto-observação com atenção plena. Os
pacientes aprendem a dominar o medo, a raiva ou a repulsa e a abrir-se para
estados de curiosidade e re exão. A partir da perspectiva estável do self,
podem iniciar diálogos interiores construtivos com suas partes.
Pede-se aos pacientes que identi quem a parte envolvida no problema
do momento, entre eles o sentir-se imprestável, abandonado ou obcecado
por ideias de vingança. À pergunta “O que é, dentro de mim, que sente
isso?”, talvez surja uma imagem.16 Talvez a parte deprimida pareça uma
criança abandonada, um homem que envelhece ou uma enfermeira que
cuida de feridos, sobrecarregada de trabalho; uma parte sedenta de vingança
pode se mostrar como um soldado em combate ou um membro de uma
gangue de rua.
Em seguida, o terapeuta pergunta: “Como você se sente em relação a
essa parte [triste, vingativa, aterrorizada] sua?” Arma-se o cenário para a auto-observação com atenção plena, ao separar o “você” da parte em
questão. Se o paciente dá uma resposta extremada, como “Eu a odeio”, o
terapeuta sabe que há outra parte protetora misturada com o self. Pode
então dizer: “Veja se a parte que você odeia se afasta.” A parte protetora com
frequência recebe agradecimentos por sua vigilância e se sente autorizada a
voltar sempre que necessário. Se a parte protetora estiver disposta, a
pergunta seguinte é: “Como você se sente agora em relação àquela parte
[antes rejeitada]?” É provável que o paciente diga algo do tipo “Por que ela é
tão [triste, vingativa, etc.]?” O terreno, então, está preparado para conhecer
melhor essa parte – pergunta-se, por exemplo, há quanto tempo ela existe e
como veio a se sentir assim.
Tão logo o paciente manifesta uma massa crítica de self, esse diálogo
começa a ocorrer de maneira espontânea. Nesse ponto, é importante o
terapeuta tomar distância e apenas vigiar se outras partes interferem nesse
diálogo, fazendo comentários ocasionais ou perguntas, entre elas, “O que
você diz sobre isso?”, “Aonde você quer ir agora?” ou “Qual parece ser o
próximo passo?”, assim como a pergunta constante: “Como você se sente
agora em relação a essa parte?”
UMA VIDA EM PARTES
Joan me procurou para que eu a ajudasse a dar um jeito em seus
incontroláveis ataques de fúria e a lidar com a culpa pelos incontáveis casos
amorosos, o mais recente deles com seu professor de tênis. Em nossa
primeira sessão, ela disse:
De repente deixo de ser uma pro ssional competente para agir como
uma criança chorona, logo depois como uma megera furiosa e daí a
pouco como uma comilona insaciável, tudo isso num intervalo de
dez minutos. Não faço ideia de qual dessas pessoas eu de fato sou.
Àquela altura da sessão, ela já tinha criticado minhas gravuras, os
móveis meio bambos, a mesa entulhada. Ofender era sua forma predileta de
se defender. Joan estava se preparando para ser magoada de novo – provavelmente eu a decepcionaria, como tanta gente já zera antes. Ela sabia
que para a terapia ter êxito era necessário se mostrar vulnerável, de modo
que precisava descobrir se eu seria capaz de tolerar sua cólera, seu medo e
sua tristeza. Compreendi que o único modo de enfrentar sua atitude
defensiva seria mostrar muito interesse pelos detalhes de sua vida, apoio
inabalável ao risco que ela corria ao conversar comigo e aceitar as partes de
que ela mais se envergonhava.
Perguntei-lhe se ela se dava conta de sua parte crítica. Sim. E como ela se
sentia em relação a essa pessoa crítica? Essa pergunta-chave lhe permitiu
começar a separar aquela parte e ter acesso ao seu self. Disse odiar a parte
crítica, porque lhe lembrava a mãe. E essa parte crítica a defende do quê? A
essa pergunta, sua raiva se dissipou e Joan se tornou mais curiosa e re exiva:
“Fico pensando por que será que ela me insulta com alguns dos mesmos
xingamentos com que minha mãe costumava me agredir e outros piores.”
Depois contou que, em criança, tinha muito medo da mãe e achava que
nunca conseguiria fazer nada direito. A parte crítica era, obviamente, uma
gerente: não só a protegia de mim como tentava esvaziar as críticas da mãe.
Nas semanas seguintes, Joan contou que havia sido molestada
sexualmente pelo namorado da mãe, quando estava no primeiro ou segundo
ano da escola. Achava que tinha sido “estragada” para relacionamentos
íntimos. Ao mesmo tempo que era exigente e crítica em relação ao marido,
por quem não sentia nenhum desejo, era ardente e arrojada em seus casos
amorosos. Entretanto, esses casos sempre acabavam da mesma forma: no
meio de uma relação sexual, ela de repente se aterrorizava e se encolhia,
choramingando como uma garotinha. Essas cenas a deixavam perplexa e
enojada, e depois ela não suportava voltar a ver o amante.
Como Marilyn, no capítulo 8, Joan me disse que havia aprendido a
desaparecer enquanto era molestada, utuando sobre a cena como se aquilo
estivesse acontecendo com outra menina. Afastar da mente o estupro lhe
permitira levar uma vida escolar normal – ter amigas, dormir na casa delas,
praticar esportes coletivos. O problema começou na adolescência, quando
passou a demonstrar desprezo e frieza pelos rapazes que a tratavam bem, e a
ter transas casuais que a humilhavam e envergonhavam. Disse-me que a
bulimia era para ela o que os orgasmos deviam ser para outras pessoas, e
que o sexo com o marido era o que vomitar devia ser para os outros. Embora as lembranças especí cas do abuso que sofrera tivessem sido
divididas (dissociadas), inconscientemente ela não parava de reencená-lo.
Não tentei lhe explicar por que se sentia tão enraivecida, culpada ou
bloqueada – ela já se via cheia de defeitos. Na terapia, como no
processamento da memória, a pendulação – a aproximação gradual de que
falei no capítulo 13 – é vital. Para que Joan pudesse lidar com sua amargura
e sua dor, teríamos de recrutar suas forças e sua autoestima, o que lhe
permitiria curar a si mesma.
Para mim, isso signi cava focar em seus recursos internos e ter em
mente que eu não podia lhe proporcionar o amor e o carinho que ela não
recebera em criança. Se um terapeuta, professor ou mentor tenta preencher
as lacunas deixadas pela privação, logo se defronta com o fato de que é a
pessoa errada, no momento errado e no lugar errado. A terapia teria como
foco a relação de Joan com suas várias partes, não comigo.
SURGEM OS GERENTES
À medida que o tratamento avançava, identi camos várias partes, que
assumiam o controle em diferentes momentos: uma infantil agressiva que
tinha ataques de raiva, uma adolescente promíscua, uma suicida, uma
gerente obsessiva, uma moralista presunçosa, etc. Como de costume, o
primeiro contato foi com os gerentes, cujo trabalho consistia em impedir a
humilhação e o abandono, mantendo Joan organizada e em segurança.
Alguns gerentes podem ser agressivos, como a parte crítica de Joan,
enquanto outros são perfeccionistas ou reservados, cuidando para não atrair
muita atenção para si. Podem nos recomendar fazer vista grossa para o que
está havendo e nos manter numa atitude passiva a m de evitar riscos.
Gerentes internos também controlam o acesso às emoções, de modo a não
sobrecarregar o sistema do self.
Manter o sistema sob controle exige um enorme montante de energia.
Um único comentário sedutor pode mobilizar várias partes ao mesmo
tempo: uma que mostra intenso desejo sexual, outra dominada por
autorrepulsa, uma terceira que tenta acalmar as coisas com cortes no corpo.
Outros gerentes criam obsessões e distrações, ou negam por completo a realidade. No entanto, cada uma das partes deve ser abordada como um
protetor interno que mantém uma importante posição defensiva. Gerentes
arcam com gigantescas cargas de responsabilidade e, em geral, têm
di culdades para cumpri-las satisfatoriamente.
Alguns gerentes são muito competentes. Muitos de meus pacientes têm
cargos de responsabilidade, são esplêndidos pro ssionais e excelentes pais. A
gerente crítica de Joan sem dúvida contribuiu para seu sucesso como
o almologista. Tratei de diversos pacientes que eram habilíssimos
professores ou enfermeiras. Embora seus colegas de trabalho talvez os
considerassem um tanto distantes ou reservados, decerto cariam atônitos
se soubessem que esses pro ssionais exemplares se automutilavam, tinham
transtornos alimentares ou se dedicavam a práticas sexuais incomuns.
Aos poucos, Joan começou a compreender que é normal ter sensações
ou ideias con itantes e simultâneas, o que lhe deu mais con ança para
enfrentar a tarefa que tinha diante de si. Em vez de acreditar que o ódio
consumia todo o seu ser, aprendeu que só uma parte dela se sentia
paralisada por esse ódio. Certa vez, porém, depois de uma avaliação
negativa no trabalho, Joan cou perturbada, culpando-se por não ter se
protegido. Depois, sentiu-se dependente, fraca e indefesa. Quando lhe pedi
que procurasse ver onde se localizava essa parte indefesa em seu corpo e o
que ela sentia a seu respeito, ela resistiu. Disse que não suportava aquela
garotinha lamuriosa e incompetente que a fazia sentir vergonha e desprezar
a si mesma. Suspeitei que essa parte guardasse uma porção substancial da
memória de seu abuso e decidi não a pressionar naquele momento. Joan
deixou o consultório abatida e confusa.
No dia seguinte à sessão, ela assaltou a geladeira e depois passou horas
vomitando. Ao voltar na semana seguinte, contou que pensara em se matar e
mostrou-se surpresa por eu parecer genuinamente curioso e imparcial, sem
condená-la por sua bulimia ou suas tendências suicidas. Quando lhe
perguntei quais eram as partes envolvidas, a crítica voltou e explodiu: “Ela é
repulsiva.” Quando pedi àquela parte que se retirasse, a parte seguinte disse
“Ninguém nunca vai me amar”, sendo seguida outra vez pela crítica, que me
disse que a melhor forma de ajudá-la seria ignorar toda aquela gritaria e
aumentar sua medicação.
Obviamente, desejando proteger as partes feridas de Joan, esses gerentes,
sem querer, estavam lhe fazendo mal. Por isso continuei a lhes perguntar o que achavam que aconteceria se eles se afastassem. Joan respondeu: “As
pessoas vão me odiar” e “Vou car sozinha e jogada na rua”. A isso se seguiu
uma lembrança: a mãe lhe dissera que, se ela lhe desobedecesse, seria dada
em adoção e nunca mais veria as irmãs nem o cachorro. Perguntei o que ela
sentia por aquela menina assustada dentro dela. Chorando, Joan disse sentir
pena. Agora seu self tinha voltado e tive certeza de que havíamos serenado o
sistema, mas aquela sessão revelara muitos segredos.
APAGANDO AS CHAMAS
Na semana seguinte, ela não foi à sessão. Tínhamos ativado suas partes
exiladas e seus bombeiros estavam agitados e violentos. Como contou mais
tarde, certa noite, depois de conversarmos sobre seu pavor de ser dada em
adoção, Joan se sentiu prestes a explodir. Foi a um bar e saiu de lá com um
sujeito. Chegando em casa tarde, bêbada e desgrenhada, recusou-se a falar
com o marido e adormeceu na sala. No dia seguinte, agiu como se nada
tivesse acontecido.
Bombeiros fazem tudo o que podem para afastar a dor emocional. Além
de dividirem a tarefa de manter tranca adas as partes exiladas, eles são o
oposto dos gerentes: estes se dedicam a se manter no controle, enquanto os
bombeiros se dispõem a demolir a casa para apagar o incêndio. O con ito
entre gerentes nervosos e bombeiros descontrolados prosseguirá até que as
partes exiladas, que arcam com o ônus do trauma, sejam autorizadas a voltar
para casa e receber cuidados.
Toda pessoa que lida com sobreviventes vai acabar encontrando esses
bombeiros. Já vi bombeiros viciados em compras, em álcool, em jogos de
computador, em romances impulsivos ou em exercícios físicos. Uma transa
sórdida pode embotar o horror e a vergonha de uma criança violentada,
ainda que só por algumas horas.
É fundamental não perder de vista que, em sua essência, os bombeiros
também estão tentando, desesperadamente, proteger o sistema. Ao contrário
dos gerentes, que, em geral, prestam uma cooperação super cial durante a
terapia, bombeiros não se mantêm arredios: insultam e saem zangados do
consultório. São desvairados, e se você lhes perguntar o que acontecerá se pararem de fazer seu trabalho, descobrirá que eles acreditam que as
sensações exiladas destruirão todo o sistema do self. Além disso, não
percebem que existem meios melhores de garantir a segurança física e
emocional, e que, mesmo que cessem as atitudes insensatas de entregar-se à
esbórnia ou ferir o corpo com objetos perfurocortantes, com frequência eles
encontrem outros métodos de automutilação. Esses ciclos só chegam ao m
quando o self se torna capaz de assumir o comando e o sistema se sente
seguro.
A CARGA DA TOXICIDADE
As partes exiladas são o vazadouro do lixo tóxico do sistema. Como
encerram as lembranças, sensações, convicções e emoções associadas ao
trauma, é perigoso libertá-las. Elas contêm a experiência do “Ai, meu Deus,
me ferrei” – a essência do choque inescapável – e com ela o terror, o colapso
e a acomodação. As partes exiladas podem se revelar como horríveis
sensações físicas ou extrema apatia, e contrariam tanto a racionalidade dos
gerentes quanto a ousadia dos bombeiros.
Como a maioria das vítimas de incesto, Joan odiava suas partes exiladas,
em especial a menininha que atendia às exigências sexuais de seu estuprador
e a criança que chorava baixinho na cama. Quando as partes exiladas
subjugam os gerentes, elas nos dominam – somos apenas aquela criança
rejeitada, fraca, desamada e abandonada. O self se “mistura” com as partes
exiladas, e todas as alternativas possíveis para a nossa vida se eclipsam. E
então, como escreve Schwartz, “vemos a nós mesmos e ao mundo através
dos olhos delas e acreditamos que esse seja o mundo. Nesse estado, não nos
ocorrerá que fomos sequestrados”. 17
Entretanto, manter tranca adas as partes exiladas elimina não só as
memórias e as emoções como as partes que as guardam – aquelas que foram
mais feridas pelo trauma. Nas palavras de Schwartz, “em geral, essas são as
partes mais sensíveis, criativas, desejosas de intimidade, vívidas, travessas e
inocentes. Ao serem exiladas quando feridas, sofrem um duplo revés – o
insulto da rejeição se soma à lesão original”.18 Como Joan descobriu, manter ocultas e desprezadas as partes exiladas signi cava condená-la a uma vida
sem relacionamentos calorosos ou prazer genuíno.
A LIBERTAÇÃO DO PASSADO
Meses depois do início do tratamento de Joan, revisitamos aquela menina
exilada que carregava a humilhação, a perplexidade e a vergonha de ter
sofrido abuso. Àquela altura Joan já tinha bastante con ança em mim e
desenvolvera uma percepção de self su ciente para conseguir observar a si
mesma quando criança, com todas as sensações havia tanto sepultadas – de
terror, exaltação, rendição e cumplicidade. Ela não falou muito durante esse
processo, e minha principal tarefa consistiu em mantê-la em estado de auto-
observação serena. Muitas vezes ela conteve a vontade de se afastar, tomada
de repugnância e horror, deixando aquela menina rejeitada sozinha com sua
desgraça. Nesses momentos, eu pedia a seus protetores que retornassem
para que ela pudesse continuar a ouvir o que a menininha queria saber.
Por m, Joan conseguiu irromper na cena e acolher a menina consigo,
num local seguro. Disse, rme, a seu estuprador que nunca mais permitiria
que ele se aproximasse dela de novo. Em vez de negar a criança, exerceu um
papel ativo em sua libertação. Tal como na EMDR, a resolução do trauma
resultou da capacidade de acessar a imaginação e retrabalhar as cenas nas
quais se congelara tanto tempo antes. A passividade indefesa foi substituída
pela ação decidida conduzida pelo self.
Assim que começou a controlar seus impulsos e comportamentos, Joan
percebeu o vazio de seu relacionamento com o marido, Brian, e exigiu
mudanças. Pedi-lhe que o chamasse para um encontro. Tivemos oito
sessões, nós três, antes que ele começasse a se consultar comigo sozinho.
Schwartz observa que a terapia SFI pode ajudar os membros de uma
família a serem “mentores” uns dos outros, à medida que aprendem a
observar as partes de uma pessoa interagindo com as de outra. Testemunhei
os resultados, em primeira mão, com Joan e Brian. De início, ele se mostrou
orgulhoso por ter aguentado o comportamento de Joan durante tanto
tempo; saber que ela precisava dele o impedira de considerar a possibilidade
de divórcio. Agora, porém, quando ela desejava mais intimidade, ele se sentia pressionado e inadequado – o que revelava uma parte em pânico que
se obliterava e levantava uma muralha contra sensações.
Aos poucos ele contou que fora criado numa família de alcoólatras, na
qual comportamentos como o de Joan eram comuns e até mesmo ignorados.
Sua história fora marcada pelas internações do pai em centros de
reabilitação e as longas hospitalizações da mãe por depressão e tentativas de
suicídio. Quando perguntei à sua parte em pânico o que aconteceria se
permitisse a Brian sentir alguma coisa, ele revelou seu medo de ser
dominado pela dor – a dor de sua infância somada à de seu relacionamento
com Joan.
Ao longo das semanas seguintes, outras partes se manifestaram.
Primeiro apareceu um protetor com medo de mulheres e decidido a nunca
permitir que ele se tornasse vulnerável a manipulações femininas. Em
seguida, descobrimos uma forte parte cuidadora que havia tomado conta da
mãe e dos irmãos mais novos. Essa parte dava a Brian uma sensação de
valor e objetividade, além de ajudá-lo a lidar com o terror. Por m ele cou
pronto para se defrontar com a própria parte exilada, a criança
amedrontada, essencialmente órfã de mãe, que não tivera quem cuidasse
dele.
Exponho aqui a versão breve de uma longa exploração, que envolveu
muitos desvios, tal como ocorria quando a crítica de Joan ressurgia de vez
em quando. Desde o começo, porém, a SFI ajudou Joan e Brian a escutarem a
si mesmos e um ao outro da perspectiva de um self objetivo, curioso e
compassivo. Não estavam mais trancados no passado, e todo um leque de
novas possibilidades se abriu para eles.
O PODER DA AUTOCOMPAIXÃO: A TERAPIA SFI NO
TRATAMENTO DA ARTRITE REUMATOIDE
A reumatologista Nancy Shadick, do Brigham and Women’s Hospital, em
Boston, combina a pesquisa médica sobre artrite reumatoide (AR) com um
intenso interesse pela experiência pessoal de seus pacientes. Ao descobrir a
SFI numa o cina com Schwartz, decidiu incorporar essa terapia a um estudo
de intervenção psicossocial com pacientes de AR.
A artrite reumatoide é uma doença autoimune que provoca transtornos
in amatórios em todo o corpo, causando dores crônicas e incapacitação. A
medicação pode retardar o avanço e aliviar as dores, mas o mal não tem
cura e pode levar a depressão, ansiedade, isolamento e prejudicar a
qualidade de vida do paciente. Acompanhei esse estudo com particular
interesse, devido à ligação que já percebera entre trauma e doença
autoimune.
Trabalhando com a terapeuta Nancy Sowell, a dra. Shadick planejou um
estudo aleatório de nove meses; um grupo de pacientes de artrite
reumatoide receberia instrução em grupo e individual de SFI, enquanto um
grupo de controle receberia com regularidade cartas e telefonemas sobre
sintomas e controle da doença. Todos os pacientes mantiveram a medicação
habitual e foram periodicamente avaliados por reumatologistas que não
sabiam a qual dos grupos eles pertenciam.
A meta do grupo de SFI era ensinar pacientes a aceitarem e entenderem
seus inevitáveis sentimentos de medo, desesperança e raiva, tratando-os
como membros de sua própria “família interna”. Aprenderiam as técnicas de
diálogo interior que lhes permitiriam reconhecer sua dor, identi car os
pensamentos e emoções concomitantes e, depois, abordar esses estados
interiores com interesse e solidariedade.
Logo surgiu um problema básico. Como muitas vítimas de trauma, os
pacientes de AR eram alexitímicos. Sowell me diria mais tarde que eles nunca
se queixavam das dores ou da incapacitação, a menos que estivessem
totalmente arrasados. Indagados sobre como se sentiam, quase sempre
respondiam: “Estou bem.” Suas partes estoicas, é evidente, os ajudavam a
enfrentar a doença, mas esses gerentes também os mantinham num estado
de negação. Alguns bloqueavam as sensações físicas e as emoções a ponto de
não colaborarem de maneira efetiva com os médicos.
Para que a coisa andasse, os pesquisadores introduziram teatralmente as
partes do SFI, reordenando móveis e objetos cênicos de modo a
representarem gerentes, exilados e bombeiros. Ao longo de várias semanas,
os membros do grupo começaram a falar sobre os gerentes que lhes diziam
para “relaxar e aguentar rme”, pois ninguém estava interessado em suas
dores. Em seguida, como se pedissem às partes estoicas que recuassem,
reconheceram a parte furiosa que desejava protestar e botar a boca no
trombone, a parte que queria car na cama o tempo todo e a exilada que se sentia humilhada porque não tinha permissão para falar. Descobriu-se que,
na infância, quase todos eram vistos, mas não ouvidos – segurança
signi cava calar suas necessidades.
A terapia individual SFI ajudou os pacientes a aplicarem a linguagem das
partes a questões do dia a dia. Por exemplo, uma mulher sentia-se dominada
por con itos no emprego, onde uma parte gerente insistia em que a única
saída era se matar de trabalhar até a artrite lhe causar dores insuportáveis.
Com a ajuda da terapeuta, ela percebeu que podia cuidar de suas
necessidades sem deixar que a doença a dominasse.
Os dois grupos, o da SFI e o de controle, foram avaliados três vezes
durante os nove meses do estudo e, de novo, um ano depois. Ao m dos
nove meses, o grupo da SFI apresentava signi cativas melhoras mensuráveis
no tocante a dores articulares (avaliadas pelos próprios pacientes), a
autocompaixão e a dores generalizadas. Além disso, mostrou avanços
substanciais com relação à depressão e à e ciência. Um ano depois, os
ganhos nas áreas de percepção da dor e de sintomas depressivos persistiam,
embora exames médicos objetivos não pudessem mais detectar melhoras
mensuráveis em relação a dores ou funções. Em outras palavras, o que mais
havia mudado era a capacidade de conviver com a doença. Em suas
conclusões, Shadick e Sowell ressaltaram o foco da SFI na autocompaixão
como fator fundamental.
Esse não foi o primeiro estudo a mostrar que intervenções psicológicas
podem ajudar pacientes de artrite reumatoide. Já cou comprovado que
terapias cognitivo-comportamentais e práticas baseadas na atenção plena
têm impacto positivo sobre a dor, in amações articulares, incapacidade
física e depressão.19 No entanto, nenhum desses estudos fez uma pergunta
crucial: o aumento da segurança e do bem-estar psicológicos se re ete num
sistema imune mais e ciente?
A LIBERTAÇÃO DA CRIANÇA EXILADA
Peter dirigia o serviço de oncologia de um prestigiado centro médico
acadêmico classi cado entre os melhores do país. Ao me procurar, em
perfeita forma física (praticava squash), sua autocon ança tinha cruzado a linha divisória que a separava da arrogância. Aquele era um homem que
sem dúvida não parecia sofrer de TEPT. Queria saber como ajudar a mulher a
ser menos “suscetível”. Ela ameaçara deixá-lo, caso ele não tomasse alguma
providência em relação a uma conduta que ela considerava “insensível”.
Peter me garantiu que a percepção dela estava distorcida, pois sua conduta
empática com os doentes era evidente.
Ele adorava falar de seu trabalho, orgulhoso do fato de residentes e
colegas competirem entre si para trabalhar com ele, e também de um boato
que ouvira – que o pessoal do centro médico tinha pavor dele. Descreveu-se
como brutalmente honesto, um verdadeiro cientista, alguém que só
analisava os fatos, e que – com um olhar signi cativo em minha direção –
não tinha paciência para idiotas. Fazia questão de padrões altos, mas não
superiores aos que exigia de si mesmo, e me garantiu que não precisava do
amor de ninguém, só de respeito.
Disse também que seu período de psiquiatria na faculdade de medicina
o convencera de que psiquiatras ainda praticavam bruxaria, e que uma
experiência com terapia de casais só servira para con rmar essa opinião.
Expressou desprezo por quem culpava os pais ou a sociedade pelos próprios
problemas. Ainda que houvesse tido seu quinhão de sofrimento quando
criança, estava determinado a não se ver como vítima.
Embora a tenacidade e o amor de Peter à precisão me agradassem, eu
não podia deixar de pensar que descobriríamos algo que eu já vira com
muita frequência: que gerentes internos obcecados pelo poder, em geral, são
criados com uma muralha para manter a sensação de desamparo afastada.
Perguntei-lhe sobre sua família. O pai, industrial, sobrevivente do
Holocausto, era um homem que podia ser bruto e exigente, mas tinha
também um lado terno e sentimental que mantivera Peter próximo e o
incentivara a estudar medicina. Ao falar da mãe, percebeu pela primeira vez
que ela substituíra um cuidado autêntico pelo rigor nos serviços domésticos,
mas isso não o incomodava. Na escola, só tirava a nota máxima. Decidira
construir para si uma vida que não permitisse a rejeição e a humilhação,
mas, o que era irônico, ele convivia a cada dia com a morte e a rejeição – a
morte na ala de oncologia e a luta constante para conseguir que suas
pesquisas fossem nanciadas e publicadas.
Sua mulher se juntou a nós na sessão seguinte. Disse que Peter a
criticava sem parar: o modo como criava os lhos, as roupas, as leituras, a inteligência, os amigos. Ele quase não cava em casa e nunca estava
emocionalmente disponível. Como tinha muitas obrigações importantes e
era dado a explosões, perto dele a família sempre pisava em ovos. A menos
que ele zesse certas mudanças radicais, ela estava decidida a deixá-lo e
começar uma vida nova. Nesse ponto, pela primeira vez Peter mostrou-se
visivelmente consternado. Garantiu a mim e à mulher que desejava ajeitar as
coisas.
Na sessão seguinte, pedi-lhe que deixasse o corpo relaxar, fechasse os
olhos e focasse a atenção em seu interior, e então perguntasse à sua parte
crítica – aquela identi cada pela mulher – o que aconteceria se ele parasse
de fazer seus julgamentos implacáveis. Depois de trinta segundos, Peter
disse que se sentia um idiota falando consigo mesmo. Não queria tentar
nenhum truque new age – viera a mim em busca de uma “terapia
empiricamente comprovada”. Garanti-lhe que, como ele, eu estava na
vanguarda de terapias com fundamentos empíricos, e que aquela era uma
delas. Ele se manteve calado por cerca de um minuto antes de sussurrar: “Eu
caria magoado.” Instei-o a perguntar ao crítico o que signi cava isso. Ainda
de olhos fechados, ele respondeu: “Se você critica outras pessoas, elas não se
atrevem a criticar você.” E logo depois: “Se você for perfeito, ninguém pode
criticá-lo.” Pedi-lhe que agradecesse a seu crítico por protegê-lo da dor e da
humilhação, e, quando Peter voltou a se calar, vi que seus ombros relaxavam
e sua respiração se tornava mais lenta e profunda.
Depois ele me disse que tinha consciência de que sua soberba estava
afetando as relações com colegas e alunos; sentia-se solitário e preterido em
reuniões pro ssionais, e pouco à vontade em festas do pessoal do hospital.
Perguntei-lhe se queria modi car aquela parte colérica que ameaçava as
pessoas. Sim. Pedi então que a localizasse em seu corpo e ele a encontrou no
meio do peito. Mantendo ainda o foco em seu interior, perguntei-lhe como
se sentia em relação a ela. Ela o deixava amedrontado.
Em seguida, pedi que continuasse concentrado naquela parte e
veri casse o que sentia agora. Peter disse que estava curioso em ter mais
informações sobre ela. Qual é a idade daquela parte? Mais ou menos 7 anos.
Pedi que seu crítico mostrasse do que ele o protegia. Depois de um silêncio
prolongado, ele disse, ainda de olhos fechados, que estava vendo uma cena
de sua infância. O pai batia num menino, ele, e Peter, assistindo àquilo,
pensava em como o menino era burro por provocar o pai. Perguntei-lhe o que sentia em relação ao menino que estava apanhando, e ele respondeu que
o desprezava. Era um fracote e um chorão. Depois de abandonar qualquer
resistência ao autoritarismo do pai, a criança capitulou e disse que seria um
menino obediente. Aquela criança não mostrava nenhum sinal de coragem,
nenhum ímpeto. Perguntei ao crítico se estaria disposto a se pôr de lado
para podermos ver o que estava havendo com aquele menino. Em resposta,
o crítico apresentou-se com toda a energia e xingou a criança de “molenga” e
“maricas”. Perguntei de novo se ele poderia fazer o crítico se afastar e dar ao
menino uma oportunidade de falar. Peter se fechou e deixou a sessão
declarando que pretendia nunca mais pisar em meu consultório.
Na semana seguinte, porém, ele estava de volta. Sua mulher tinha
procurado um advogado e aberto o processo de divórcio. Arrasado, Peter
em nada se parecia com aquele médico perfeitamente seguro de si que eu
havia passado a conhecer e, em muitos aspectos, temer. Confrontado com a
perda da família, cou desatinado mas se sentiu reconfortado com a ideia de
que se as coisas cassem ruins demais ele poderia tomar as rédeas da
situação.
Entramos de novo em seu interior e identi camos a parte que estava
destruída por ser abandonada. Assim que ele chegou a seu atento estado de
self, recomendei-lhe que pedisse ao menino aterrorizado que lhe mostrasse
o fardo que carregava. Mais uma vez, sua primeira reação foi indignar-se
pela debilidade do menino, mas depois que lhe pedi que zesse aquela parte
recuar, ele viu uma imagem de si mesmo, criança, na casa dos pais, sozinho
no quarto, aos gritos e soluços. Peter viu essa cena durante vários minutos,
chorando em silêncio durante um bom momento. Perguntei-lhe se o
menino havia lhe contado tudo o que queria que Peter soubesse. Não, havia
outras cenas, como correr para abraçar o pai à porta e ele o esbofetear por
ter desobedecido a mãe.
De vez em quando ele interrompia o processo e desculpava os pais,
alegando que eles, sobreviventes do Holocausto e tudo o mais, só poderiam
ter agido daquela forma. De novo lhe sugeri procurar as partes protetoras
que estavam interrompendo a cena do sofrimento do menino e lhes dizer
que por um momento passassem para outro cômodo. E assim ele conseguia
voltar a seu sofrimento.
Pedi a Peter que dissesse ao menino que ele agora entendia como a
experiência fora ruim. Ele mergulhou num silêncio longo e triste. Então falei que mostrasse ao menino o quanto gostava dele. Depois de alguma
insistência minha, ele abraçou o menino. Fiquei surpreso ao ver que aquele
homem aparentemente áspero e insensível sabia muito bem o que fazer para
cuidar de si.
Passado um tempinho, pedi que Peter retornasse à cena e levasse o
menino consigo. Peter imaginou-se enfrentando o pai como adulto e lhe
dizendo: “Se voltar a maltratar esse menino, venho aqui e vamos acertar
contas.” Depois, em sua imaginação, levou a criança a um belo parque, onde
o garoto poderia brincar e se divertir com pôneis, enquanto o adulto zelava
por ele.
Nosso trabalho não estava terminado. Depois que sua mulher recuou na
ameaça de divórcio, alguns dos velhos hábitos de Peter ressurgiram, e
tivemos de revisitar de vez em quando aquele menino isolado para cuidar
das partes feridas de Peter, sobretudo quando ele se sentia magoado por
algum fato ocorrido em casa ou no trabalho. Esse é o estágio que a terapia
SFI chama de “alijamento” e que corresponde a cuidar das partes exiladas
para que recobrem a saúde. A cada novo alijamento, o crítico interno de
Peter, antes virulento, relaxava. Pouco a pouco ele cou mais parecido com
um mentor do que com um juiz, e Peter começou a restaurar suas relações
com a família e os colegas. E deixou de sofrer de dores de cabeça causadas
pela tensão.
Um dia, ele me disse que passara a vida adulta tentando se livrar do
passado, e observou a ironia de ter precisado se aproximar dele para se
libertar de suas sombras.
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