O corpo guarda as marcas

Bessel van der Kolk · Capítulo 17 de 28

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O corpo guarda as marcas

16. Sensação de segurança em seu corpo: ioga

16

 

 

SENSAÇÃO DE SEGURANÇA EM

 

SEU CORPO: IOGA

 

Ao voltar a sentir uma conexão visceral com as necessidades do

corpo, surge uma novíssima capacidade de amar ternamente o self.

Experimentamos um novo sentimento de autenticidade em nossos

cuidados, que redirecionam nossa atenção para a saúde, a dieta, a

energia, a administração do tempo. Esse maior cuidado com o self

surge de forma espontânea e natural, não como reação a um “dever”.

Passamos a experimentar um prazer imediato e intrínseco no

cuidado pessoal.

 

Stephen Cope, Yoga and the Quest for the True Self

 

Q uando a vi pela primeira vez, Annie estava curvada numa cadeira da sala de espera do consultório. Usava jeans desbotados e uma camiseta roxa com uma imagem de Jimmy Cliff. Suas pernas tremiam visivelmente,

os olhos continuaram pregados no chão mesmo depois que a convidei a

entrar. Dela, eu só sabia que tinha 47 anos e dava aulas para crianças com

necessidades especiais. Seu corpo comunicava de maneira clara que estava

aterrorizada demais para conversar – e até para fornecer informações

rotineiras como endereço e número do plano de saúde. Uma pessoa assim amedrontada não raciocina direito, qualquer pressão só a fará se fechar

ainda mais. Se houver insistência, ela vai fugir e você nunca mais a verá.

Annie a nal entrou em minha sala e cou de pé, mal respirando, um

passarinho assustado. Eu sabia que não podia fazer nada antes que se

acalmasse. Postei-me a quase dois metros dela, certi cando-me de que ela

dispunha de caminho livre para a porta, e lhe disse para respirar um pouco

mais profundamente. Comecei a respirar junto com ela e pedi que me

imitasse, erguendo lateralmente os braços devagar ao inspirar e baixando-os

ao expirar, uma técnica de qigong que um de meus alunos chineses me

ensinara. Ela imitou meus gestos, relutante, os olhos ainda pregados no

chão. Repetimos os movimentos por mais ou menos meia hora. De vez em

quando eu lhe pedia, em voz baixa, que prestasse atenção na sensação de

seus pés ncados no chão e observasse como seu peito se expandia e se

contraía a cada respiração. Aos poucos, ela passou a respirar mais devagar e

mais fundo, a expressão do rosto abrandou e seu olhar subiu à altura de meu

pescoço. Comecei a ter uma ideia da pessoa que havia por trás daquele

terror paralisante. Por m, ela relaxou um pouco e me dirigiu uma sombra

de sorriso, numa admissão de que estávamos os dois na sala. Propus parar

por ali – eu já havia exigido demais dela – e perguntei-lhe se gostaria de

voltar uma semana depois. Ela anuiu e murmurou: “O senhor é esquisito!”

À medida que a fui conhecendo, inferi, pelos bilhetes que escrevia e os

desenhos que me entregava, que sofrera abusos terríveis do pai e da mãe

quando bem pequena. A história toda custou a ser revelada, pois era difícil

que ela falasse sem que seu corpo fosse dominado por uma ansiedade

incontrolável.

Descobri que Annie era extraordinariamente hábil e atenciosa em seu

trabalho. (Experimentei com crianças da clínica algumas das técnicas que

ela me disse empregar e considerei-as utilíssimas.) Ela falava sem rodeios

sobre as crianças a quem dava aulas, mas fechava-se em total mutismo se a

conversa se encaminhava para suas relações com adultos. Eu sabia que era

casada, mas ela mal mencionava o marido. Era comum que, ao enfrentar

discordâncias e confrontos, sua mente se apagasse. Quando estressada

demais, cortava os braços e o peito com uma gilete. Durante anos

experimentara vários tipos de terapia e medicações diferentes, que pouco a

ajudaram a lidar com as marcas de seu passado medonho. Fora também internada em vários hospitais psiquiátricos devido a seus comportamentos

autodestrutivos, mas sem muitos benefícios visíveis.

Como ela só conseguia falar de maneira indireta sobre o que estava

sentindo e pensando, antes de se calar e congelar, nossas primeiras sessões

de terapia foram dedicadas a acalmar o caos siológico que havia dentro

dela. Usamos todas as técnicas que eu aprendera ao longo dos anos, como

respirar concentrando-se na expiração, o que ativa o sistema nervoso

parassimpático. Também a ensinei a dar batidinhas com os dedos numa

série de pontos de acupuntura em várias partes do corpo, prática ensinada

com o nome de EFT (Emotional Freedom Tecniques, ou Técnicas de

Libertação Emocional), que, como já foi demonstrado, ajuda os pacientes a

se manter dentro da janela de tolerância e muitas vezes exerce efeitos

positivos sobre os sintomas de 1 TEPT .

 

O LEGADO DO CHOQUE INESCAPÁVEL

 

Por conhecermos hoje os circuitos cerebrais envolvidos no sistema de

alarme, podemos ter uma ideia do que ocorria no cérebro de Annie naquele

primeiro dia na sala de espera. Sua amídala – o detector de fumaça – fora

reprogramada para interpretar certas situações como indícios de perigo e

estava enviando a seu cérebro de sobrevivência sinais urgentes para lutar,

congelar ou fugir. Annie experimentava todas essas reações ao mesmo

tempo – estava agitada e mentalmente bloqueada.

Como vimos, defeitos do sistema de alarme se manifestam de várias

maneiras, e, se seu detector de fumaça não funciona bem, você não

consegue con ar em suas percepções. Por exemplo, quando Annie começou

a gostar de mim, esperava ansiosa pelas sessões, porém ainda chegava ao

consultório tomada de pânico. Um dia ela teve um ashback em que se

sentia feliz por seu pai estar chegando cedo em casa – porém mais tarde,

naquela noite, ele a molestou. Pela primeira vez, ela percebeu que sua mente

associava de maneira automática a satisfação de ver uma pessoa que ela

amava com o terror de ser molestada.

Crianças pequenas são particularmente dadas a compartimentar

experiências, de modo que tanto o amor natural que Annie sentia pelo pai quanto o medo de seus ataques eram mantidos em estados de consciência

separados. Ao se tornar adulta, ela passou a culpar a si mesma pelo abuso

que sofrera, pois acreditava que a criança carinhosa e animada que ela havia

sido provocara as ações do pai – imaginava-se responsável pela agressão de

que fora vítima. Sua mente racional lhe dizia que era absurdo, mas aquela

convicção vinha das profundezas de seu cérebro emocional, o cérebro de

sobrevivência, da programação básica de seu sistema límbico. Isso não

mudaria até Annie se sentir bastante segura em seu corpo para voltar

conscientemente àquela experiência e saber com precisão o que aquela

menininha tinha sentido e feito durante o abuso.

 

A APATIA INTERIOR

 

A lembrança da impotência ca armazenada de várias formas; uma delas é

tensão muscular ou sensações de desintegração nas áreas afetadas: cabeça,

costas e membros em vítimas de acidentes, vagina e reto nas de abuso

sexual. A vida de muitos sobreviventes de trauma passa a girar em torno de

suportar e neutralizar experiências sensoriais indesejadas; quase todos os

meus pacientes são hábeis em se autoentorpecer. Às vezes se tornam obesos

ou anoréxicos, ou então viciados em exercícios ou em trabalho. O outro lado

da apatia é a busca de sensações: muitos se cortam, enquanto outros

praticam esportes radicais como bungee-jump, ou se dedicam a atividades de

alto risco, como prostituição e jogos de azar. Qualquer uma dessas

estratégias pode lhes proporcionar uma falsa e paradoxal sensação de

controle.

Em pessoas cronicamente coléricas ou amedrontadas, a constante tensão

muscular acaba provocando espasmos, dores nas costas, enxaquecas,

bromialgia e outros tipos de dores crônicas. Em geral, elas consultam

diversos especialistas, fazem muitos exames diferentes e lhes são prescritos

vários medicamentos, alguns dos quais podem até produzir alívio

temporário, mas nenhum resolve os problemas subjacentes. Os diagnósticos

que essas pessoas ouvem acabam de nindo sua realidade, que jamais é

identi cada como sintoma de suas tentativas de enfrentar o trauma.

Os dois primeiros anos da terapia de Annie foram dedicados a auxiliá-la

a tolerar suas sensações físicas e entender o que eram – só sensações no

presente, com começo, meio e m. Meu objetivo era ajudá-la a se acalmar o

bastante para observar o que sentia sem julgar, para analisar essas imagens e

sentimentos que surgiam espontaneamente como resíduos de um passado

horroroso, não como ameaças intermináveis à sua vida atual.

Pacientes como Annie nos desa am o tempo todo a encontrar novos

meios de ajudar as pessoas a regular seu estado de alerta e controlar sua

própria siologia. Foi assim que meus colegas do Trauma Center e eu

viemos a nos envolver com a ioga.

 

NOSSO CAMINHO PARA A IOGA: REGULAÇÃO DE BAIXO

PARA CIMA

 

Nosso envolvimento com a ioga começou em 1998, quando Jim Hopper e eu

ouvimos falar de um novo marcador biológico, a variabilidade da frequência

cardíaca (VFC), que estudos recentes haviam constatado ser um bom

indicador da qualidade do funcionamento do sistema nervoso autônomo.

Como vimos no capítulo 5, o sistema nervoso autônomo é o sistema de

sobrevivência mais primitivo do cérebro, e seus dois ramos regulam o estado

de alerta em todo o corpo. Em linhas gerais, o sistema nervoso simpático

utiliza substâncias químicas como a adrenalina para fazer o corpo e o

cérebro agirem, enquanto o sistema nervoso parassimpático usa a

acetilcolina para regular funções orgânicas básicas, entre elas a digestão,

cicatrização de ferimentos e os ciclos do sono e dos sonhos. Quando

estamos bem, esses dois sistemas atuam em estreita colaboração para nos

manter num estado ideal de envolvimento com o meio ambiente e com nós

mesmos.

A variabilidade da frequência cardíaca mede o equilíbrio relativo entre o

SNS e o SNP. Quando inspiramos, estimulamos o SNS e a frequência cardíaca

aumenta; ao expirar, estimulamos o SNP, e ela diminui. Em pessoas

saudáveis, as inspirações e expirações produzem utuações regulares,

rítmicas, na frequência cardíaca – uma boa variabilidade dessa frequência é

indicador de bem-estar básico.

Por que a VFC é importante? Se nosso sistema nervoso autônomo está

equilibrado, temos um razoável grau de controle sobre nossas reações a

pequenas frustrações e desapontamentos, o que nos permite avaliar com

calma o que acontece quando nos sentimos insultados ou ignorados. Pessoas

cujo sistema nervoso autônomo se acha mal modulado se desequilibram

com facilidade, tanto mental quanto sicamente. Como esse sistema

controla o estado de alerta no corpo e no cérebro, uma VFC de ciente – isto

é, uma falta de utuação da frequência cardíaca em resposta às duas fases da

respiração – exerce efeitos negativos tanto sobre o pensamento e as

sensações quanto sobre a forma pela qual o corpo responde ao estresse. A

falta de coerência entre a respiração e a frequência cardíaca torna as pessoas

vulneráveis a várias afecções físicas, como doenças cardíacas e câncer, além

de poder acarretar problemas mentais como depressão e 2 TEPT .

Para aprofundar o estudo dessa questão, adquirimos uma máquina que

mede a VFC. Atando tas ao redor do tórax dos participantes das pesquisas,

alguns traumatizados, outros sem TEPT, pudemos registrar a profundidade e

o ritmo da respiratório, enquanto pequenos monitores ligados aos lobos de

suas orelhas veri cavam a pulsação. Depois de examinar cerca de sessenta

pessoas, cou claro que as vítimas de TEPT têm uma VFC bem baixa. Ou seja,

nessas pessoas o 3 SNS e o SNP se acham fora de sincronia. Essa descoberta

acrescentou um novo elemento à questão já complicada do trauma:

con rmamos que mais um sistema regulador cerebral não funcionava a

contento. 4 O desequilíbrio desses dois sistemas explica por que pessoas

traumatizadas como Annie costumam reagir de forma tão exagerada a

estresses relativamente fracos: os sistemas biológicos destinados a nos ajudar

a enfrentar os altos e baixos da vida não cumprem seu papel.

 

Variabilidade da frequência cardíaca (VFC) numa pessoa bem regulada. As linhas pretas ascendentes e descendentes representam a respiração, neste caso, inspirações e expirações lentas e regulares. A área cinzenta mostra utuações na frequência cardíaca. Quando a pessoa enche os pulmões de ar, a frequência cardíaca sobe; durante a expiração, ela diminui. Esse padrão de VFC indica excelente saúde siológica.

Resposta a perturbação. Quando alguém recorda uma experiência perturbadora, a respiração se acelera e se torna irregular, e o mesmo acontece com a frequência cardíaca. O coração e a respiração deixam de estar em perfeita sincronia. Esta é uma reação normal.

 

 

VFC em TEPT. A respiração é acelerada e rasa. A frequência cardíaca, baixa, está fora de sincronia com a respiração. É o que acontece em geral com uma pessoa bloqueada e vítima de TEPT.

 

Vítima de TEPT crônico revivendo uma situação de trauma. No começo, a respiração é difícil e profunda, característica de uma reação de pânico. O coração dispara, fora de sincronia com a respiração. A isso se segue uma respiração acelerada e super cial, além de uma frequência cardíaca lenta, sinais de que a pessoa está se bloqueando.

 

Agora havia uma nova pergunta a responder: como melhorar a VFC das

pessoas? Eu tinha interesse pessoal em investigar a questão, pois descobrira

que minha VFC estava abaixo do nível ideal para garantir boa saúde a longo

prazo. Na internet, descobri estudos recomendando a participação em

maratonas para melhorar a VFC. Infelizmente, nem eu nem nossos pacientes

éramos bons candidatos para a Maratona de Boston. O Google também

listava 17 mil sites de ioga, e todos a rmavam que a prática melhorava a VFC,

mas não conseguimos localizar estudos que rati cassem essas declarações.

Os iogues talvez tivessem criado um maravilhoso método para ajudar as

pessoas a obter equilíbrio interno e saúde, mas em 1998 poucos estudos avaliavam suas a rmações usando os instrumentos da tradição médica

ocidental.

Desde então, porém, métodos cientí cos comprovaram que mudar o

modo como se respira pode reduzir problemas como raiva, depressão e

ansiedade, 5 e que a ioga é capaz de incidir de maneira positiva sobre uma

ampla faixa de problemas de saúde, como hipertensão, nível elevado de

secreção de hormônios do estresse,6 7 asma e dores na região lombar. No

entanto, nenhuma revista de psiquiatria havia divulgado qualquer estudo

cientí co sobre o emprego da ioga no tratamento do TEPT até a publicação

de nosso trabalho, em 2014. 8

Por coincidência, dias depois de nossa busca na internet, um professor

de ioga bem magrinho, David Emerson, nos procurou no Trauma Center.

Disse que tinha criado uma forma modi cada de hata ioga para tratar o TEPT

e que vinha dando aulas para ex-combatentes num centro de veteranos da

cidade e para mulheres no Centro de Crise de Estupro na Área de Boston.

Por acaso estaríamos interessados em trabalhar com ele? Aquela visita

acabou fazendo-nos desenvolver um programa de ioga, e, mais tarde,

recebemos o primeiro subsídio dos Institutos Nacionais de Saúde para

estudar seus efeitos sobre o TEPT. O trabalho de Dave também contribuiu

para que eu criasse meu próprio curso regular de ioga, e me tornei um

instrutor assíduo no Kripalu, um centro nos montes Berkshire, em

Massachusetts. (Com isso, minha VFC também regularizou.)

Ao decidir explorar a ioga para melhorar a VFC, estávamos optando por

uma postura radical. Poderíamos ter usado um dos muitos dispositivos de

preço módico que ajudam as pessoas a diminuir o ritmo da respiração e

sincronizá-la com a frequência cardíaca, o que leva a um estado de

“coerência cardíaca”, como o padrão mostrado na primeira ilustração da

página 317. 9 Existem hoje vários aplicativos nos smartphones capazes de

melhorar a 10 VFC . Em nossa clínica, temos estações de trabalho onde os

pacientes podem treinar sua VFC, e recomendo a todos aqueles que, por um

motivo ou outro, não podem praticar ioga, artes marciais ou qigong que se

exercitem em casa.

 

A EXPLORAÇÃO DA IOGA

A decisão de estudar ioga nos levou a aprofundarmos as pesquisas sobre o

impacto do trauma sobre o corpo. As primeiras aulas experimentais

ocorreram numa sala cedida por um curso de dança próximo. David

Emerson e seus colegas Dana Moore e Jodi Carey atuavam como voluntários

e minha equipe de pesquisa procurou a melhor forma de medir os efeitos da

ioga no aspecto psicológico. Espalhamos folhetos em supermercados e

lavanderias, entrevistamos dezenas de pessoas que nos procuraram. Por m,

selecionamos 37 mulheres com graves históricos de trauma que já haviam

feito muitos anos de terapia sem grandes resultados. Metade das voluntárias

formaria o grupo da ioga, enquanto as demais fariam terapia

comportamental dialética (TCD), consagrado tratamento de saúde mental

que ensina as pessoas a usar a atenção plena para se manterem calmas. Por

m, encomendamos a um engenheiro do MIT um complexo computador que

mediria a VFC em oito pessoas ao mesmo tempo. (Em cada grupo de estudo

haveria várias turmas, cada uma com oito participantes no máximo.)

Enquanto a ioga melhorou bastante os problemas de alerta no TEPT e

facilitou a relação das pacientes com o corpo (“Agora controlo meu corpo”;

“Escuto as necessidades de meu corpo”), as oito semanas de TCD não

afetaram os níveis de alerta ou os sintomas de TEPT. Assim, modi camos o

foco da pesquisa: em vez de procurar determinar se a ioga pode mudar a VFC

(pode),11 nós nos concentramos em, por meio dessa prática, ensinar os

pacientes a se sentirem à vontade com seus corpos torturados.

Com o tempo, lançamos um programa de ioga para fuzileiros navais em

Camp Lejeune, e temos obtido êxito também com veteranos com TEPT. Não

dispomos de dados formais, mas nossos estudos parecem indicar que a

prática é tão e caz para eles quanto para as mulheres.

Todos os programas de ioga consistem numa combinação de exercícios

de respiração (pranayama), alongamentos ou posturas (asanas) e meditação.

As diferentes escolas dão ênfase a variações na intensidade e no foco desses

componentes básicos. Por exemplo, variações na velocidade e na

profundidade da respiração e no uso da boca, das narinas e da garganta

produzem diferentes resultados, e algumas técnicas exercem fortes efeitos

sobre a energia. 12 Adotamos um enfoque simples. Muitos pacientes mal

percebem que respiram, de modo que já pode ser um avanço aprender a prestar atenção na inspiração e na expiração, notar se ela foi acelerada ou

lenta e contar o número de respirações em cada postura.13

Aos poucos, adotamos algumas posturas clássicas. Não damos ênfase à

precisão delas, mas em ajudar os pacientes a notar quais músculos são

ativados em cada uma. As sequências são pensadas para criar um ritmo

entre tensão e relaxamento – algo que esperamos que passem a perceber no

dia a dia.

Não ensinamos meditação propriamente dita, mas conseguimos atenção

plena ao incentivar a observação do que está acontecendo em diferentes

partes do corpo entre uma postura e outra. Vemos o tempo todo como é

difícil que pessoas traumatizadas se sintam inteiramente relaxadas e

sicamente seguras. Medimos a VFC dos pacientes xando minúsculos

monitores em seus braços durante a shavasana, a postura nal da maioria

das aulas (as pessoas se deitam de costas, com as palmas das mãos viradas

para cima, os braços e as pernas relaxados). Em vez de relaxamento, muitas

vezes detectamos um excesso de atividade muscular – os músculos

continuam a preparar a pessoa para enfrentar inimigos invisíveis. Um

grande problema na recuperação do trauma ainda é alcançar um estado de

relaxamento total e entrega con ante.

 

O APRENDIZADO DA AUTORREGULAÇÃO

 

Ao constatar o êxito de nossos estudos-piloto, montamos um programa

terapêutico de ioga no Trauma Center. Imaginei que essa poderia ser uma

oportunidade para Annie ter uma relação mais carinhosa com seu corpo e

insisti com ela para que tentasse. A primeira aula foi difícil. O simples toque

do instrutor para ajustar sua posição a aterrorizou de tal forma que ela

correu para casa e se cortou – seu sistema de alarme interpretou até mesmo

o toque suave em suas costas como um ataque físico. Ao mesmo tempo,

porém, ela descobriu que a ioga poderia lhe oferecer um meio de se libertar

da constante sensação de perigo. Incentivada por mim, ela voltou na semana

seguinte.

Para Annie sempre fora mais fácil escrever do que falar a respeito do que

sentia. Depois da segunda aula, ela me escreveu:

Não sei todos os motivos pelos quais a ioga me deixa tão

aterrorizada, mas sei que será uma fonte incrível de cura, e é por isso

que estou me convencendo a experimentá-la. A ioga me faz olhar

para dentro, não para fora, e prestar atenção a meu corpo, e muito de

minha sobrevivência foi pensada para nunca fazer isso. Ao ir para a

aula hoje meu coração estava disparado, e uma parte de mim queria

ir embora, mas aí me forcei a pôr um pé diante do outro até chegar à

porta e entrar. Depois da aula, vim para casa e dormi por quatro

horas. Esta semana tentei fazer ioga em casa e me ocorreram as

palavras: “Seu corpo tem algo a dizer.” E eu me respondi: “Vou tentar

escutar.”

 

Alguns dias depois, ela escreveu:

 

Alguns pensamentos durante e depois da ioga hoje. Pensei em como

devo estar desligada de meu corpo quando me corto. Quando eu

estava fazendo as posturas, notei que meu maxilar ca rígido e desde

as pontas dos pés até o umbigo co retesada, tensa e segurando a dor

e as lembranças. Às vezes, você me pergunta onde sinto as coisas e

não consigo nem começar a localizar, mas hoje senti esses lugares

com muita clareza, e isso me deu vontade de chorar baixinho.

 

No mês seguinte, nós dois tiramos férias, e, como eu lhe pedira para

manter contato, Annie me escreveu:

 

Tenho feito ioga sozinha num quarto que tem vista para o lago.

Continuo a ler o livro que você me emprestou [o magní co Yoga and

the Quest for the True Self, de Stephen Cope]. É interessante pensar

no quanto tenho me recusado a prestar atenção a meu próprio

corpo, que é uma parte tão importante de mim. Ontem, fazendo

ioga, pensei em deixar meu corpo me contar a história que ele quer

contar, e nas posturas de abertura do quadril havia muita dor e

tristeza. Não acredito que minha mente permitirá o surgimento de

imagens realmente vívidas enquanto eu estiver fora de casa, o que é

bom. Tenho pensado no quanto estive descompensada e em como

tenho tentado negar o passado, que é uma parte de meu verdadeiro

eu. São tantas as coisas que posso aprender se me abrir para elas, e aí

não terei de brigar comigo mesma durante cada minuto de todos os

dias.

 

Uma das posições de ioga mais difíceis para ela era aquela comumente

chamada de “Bebê Feliz”, na qual a pessoa se deita de costas com os joelhos

bem exionados e as solas dos pés viradas para o teto, enquanto segura os

dedos dos pés. Essa postura faz a pélvis car totalmente exposta, e é fácil

entender por que vítimas de estupro se sintam vulneráveis. No entanto,

enquanto uma postura como o Bebê Feliz, ou qualquer outra assemelhada,

causar pânico intenso, será difícil manter relacionamentos pessoais.

Aprender a colocar-se bem nessa posição é um desa o para muitos

pacientes.

 

CONHECER-SE: O CULTIVO DA INTEROCEPÇÃO

 

Uma das lições mais claras da neurociência contemporânea é que nossa

autopercepção está ancorada numa conexão vital com o corpo.14 Não

podemos nos conhecer de verdade se não pudermos sentir e interpretar

nossas sensações físicas. Temos de registrá-las e agir com base nelas para

navegar com segurança pela vida. 15 Embora a apatia (ou a busca

compensatória de sensações) possa tornar a vida tolerável, o preço que se

paga é a perda da consciência do que está acontecendo no interior do corpo

e, com isso, da sensação de estar plena e sensualmente vivo.

No capítulo 6, falei de alexitimia, termo técnico da incapacidade de

identi car o que ocorre no interior do corpo.16 Pessoas que sofrem dessa

incapacidade sentem um desconforto físico, mas não sabem descrever com

precisão qual é o problema. Por isso, queixam-se de vários males físicos

vagos e incômodos que os médicos não conseguem diagnosticar. Além do

mais, não conseguem de nir o que sentem de fato em qualquer situação

dada, ou o que as faz se sentirem melhor ou pior. A apatia as impede de

prever ou reagir às necessidades ordinárias do corpo de forma serena e

atenta. A alexitimia sufoca prazeres sensoriais simples, como ouvir música, ter contato físico com outras pessoas e ver a luz, que dão encanto à vida. A

ioga mostrou ser uma forma esplêndida de (re)conquistar uma relação

como o mundo interior e, com isso, uma relação atenta, carinhosa e sensual

com o self.

Se você não tem consciência das necessidades de seu corpo, não é capaz

de cuidar dele. Se não sente fome, não pode se alimentar. Se confunde

ansiedade com fome, poderá comer em excesso. E se não percebe quando

está satisfeito, continuará comendo. Por isso, cultivar a percepção sensorial

constitui um aspecto crítico da cura do trauma. Terapias tradicionais em

geral minimizam ou ignoram as mudanças pontuais em nosso mundo

sensorial interior. Entretanto, são elas que transmitem a essência das

respostas do organismo: os estados emocionais que se acham gravados no

per l químico do corpo, nas vísceras, na contração dos músculos estriados

do rosto, do pescoço, do tronco e dos membros.17 Pessoas traumatizadas

precisam aprender que podem tolerar essas sensações, tratar bem suas

experiências interiores e cultivar novos modelos de ação.

O praticante de ioga concentra a atenção na respiração e em suas

sensações de momento a momento. Começa a notar a relação entre suas

emoções e o corpo (por exemplo, como a ansiedade causada pela di culdade

de assumir uma postura o faz se desequilibrar). Começa a tentar mudar o

que sente. Respirar fundo vai aliviar a tensão no ombro? Concentrar-se em

expirar produzirá uma sensação de calma? 18

A simples observação do que você está sentindo promove a regulação

emocional e o ajuda a não mais ignorar o que está acontecendo em seu

interior. Como costumo dizer a meus alunos, as duas frases mais

importantes tanto na terapia como na ioga são “Observe isso” e “O que

acontece em seguida?”. Quando você começa a se aproximar de seu corpo

com curiosidade, não com medo, tudo muda.

A consciência do corpo também altera a percepção do tempo. O trauma

faz com que você se sinta eternamente preso num estado de horror sem

solução. Com a ioga, você aprende que as sensações se elevam até um pico e,

em seguida, diminuem. Por exemplo, se o instrutor o convida a assumir uma

postura particularmente difícil, no começo você pode ter uma sensação de

fracasso ou resistência, acreditando que não será capaz de tolerar as

sensações que ela provoca. Um bom professor o estimulará a observar qualquer tensão e xará um tempo para você suportar essas sensações,

usando o uxo de sua respiração. “Vamos manter essa posição durante dez

respirações.” Assim se pode prever o m do desconforto e fortalecer a

capacidade de lidar com contratempos físicos e emocionais. A consciência

de que toda experiência é passageira muda a perspectiva em relação aos

problemas.

Mas isso não signi ca que recuperar a interocepção seja simples. O que

acontece quando uma sensação no peito antes desconhecida é

experimentada como raiva, medo ou ansiedade? Em nosso primeiro estudo

da ioga, tivemos uma desistência de 50%, a maior em todas as pesquisas que

já zemos – entrevistados, os pacientes disseram considerá-lo demasiado

intenso: qualquer postura que envolvesse a pélvis podia desencadear fortes

sensações de pânico ou até ashbacks de agressões sexuais. Intensas

sensações físicas punham em ação os demônios do passado,

cuidadosamente contidos graças à apatia e à deliberada desatenção.

Aprendemos a ir devagar, às vezes a passo de tartaruga. Deu certo: em nosso

estudo mais recente, com 34 participantes, só um não foi até o m.

 

A IOGA E A NEUROCIÊNCIA DA AUTOPERCEPÇÃO

 

Nos últimos anos, pesquisadores como minhas colegas Sara Lazar e Britta

Hölzel, de Harvard, vêm mostrando que a meditação intensa exerce um

efeito positivo exatamente sobre as áreas do cérebro fundamentais para a

autorregulação siológica.19 Em nosso mais recente estudo sobre a ioga,

com seis mulheres com histórico de trauma infantil profundo, encontramos

os primeiros indícios de que vinte semanas de prática de ioga aumentavam a

ativação do sistema do self básico, da ínsula e do córtex pré-frontal medial

(ver o capítulo 6). Essa pesquisa necessita de mais aprofundamento, porém

abre perspectivas sobre o modo como ações que envolvem a observação e o

favorecimento das sensações físicas podem produzir, na mente e no cérebro,

mudanças profundas capazes de levar à cura do trauma.

Efeitos de vinte aulas semanais de ioga. Ao m do período, mulheres com trauma crônico apresentaram maior ativação de estruturas cerebrais críticas para a autorregulação: a ínsula e o córtex pré-frontal medial.

 

Depois de cada estudo, perguntávamos que efeito a ioga havia exercido

sobre os participantes. Nunca falávamos de ínsula ou de interocepção; na

verdade, reduzíamos ao mínimo a discussão e a explicação, para que eles se

concentrassem em seu interior.

Segue-se uma amostra das respostas:

 

“Minhas emoções parecem mais fortes. Talvez seja apenas porque agora

consigo identi cá-las.”

“Posso descrever melhor minhas sensações porque as identi co melhor.

Sinto-as no corpo, identi co-as e as corrijo.”

“Agora vejo opções, vários caminhos. Posso decidir e escolher minha

vida, as coisas não precisam ser repetidas ou vividas como se eu fosse

criança.”

“Eu me tornei capaz de mover o corpo e sentir que nele estou num

lugar seguro e sem me ferir ou ser ferida.”

 

APRENDENDO A SE COMUNICAR

 

Pessoas que se sentem seguras em seu corpo podem traduzir em palavras as

lembranças que antes as subjugavam. Depois de praticar ioga três vezes por

semana durante cerca de um ano, Annie notou que era capaz de conversar

comigo com muito mais tranquilidade sobre sua infância. Julgava quase um

milagre. Um dia ela derrubou um copo d’água; levantei-me da poltrona e me

aproximei com uma caixa de lenços de papel, dizendo “Deixa que eu limpo

isso”. Essas palavras provocaram uma breve e intensa reação de pânico, logo

contida. E ela explicou que aquelas palavras eram o que o pai lhe dizia

depois de estuprá-la. Annie escreveu para mim depois daquela sessão:

 

Você notou que fui capaz de pronunciar as palavras em voz alta? Não

precisei escrevê-las para lhe dizer o que estava acontecendo. Não

perdi a con ança em você por ter dito palavras que me zeram mal.

Compreendi que a frase tinha sido um gatilho; não eram palavras

terríveis que ninguém deveria pronunciar.

 

Annie continua a fazer ioga e a me escrever sobre suas experiências.

 

Fui hoje a uma aula de ioga matinal, em meu novo curso. A

professora falou sobre respirar até o limite de quanto pudermos e

então observar esse limite. Disse que se notamos nossa respiração é

porque estamos no presente, já que não podemos respirar no futuro

ou no passado. Achei incrível estar respirando daquele jeito depois

de termos acabado de falar sobre o assunto, foi como se eu tivesse

ganhado um presente. Algumas posturas me trazem sensações ruins.

Houve duas hoje, uma em que a gente levanta as pernas como as de

um sapo e aquela em que a gente respira bem fundo usando a pélvis.

Senti um início de pânico, sobretudo na postura da respiração: ah,

não, essa não é uma parte de meu corpo que eu queira sentir. Mas aí

consegui me controlar e pensar (mais ou menos): note que essa parte

de seu corpo está retendo experiências, e daí em diante é deixar as

coisas rolarem. Você não precisa se prender ali, mas também não

precisa fugir, é só usar aquilo como informação. Não sei se já fui

capaz de fazer isso de forma consciente. Isso me fez pensar que se eu

puder sentir aquilo sem car com medo, será mais fácil acreditar em

mim mesma.

 

Em outra mensagem, ela re etiu sobre as mudanças em sua vida:

 

Aprendi lentamente a viver minhas sensações sem ser dominada por

elas. A vida é mais controlável. Estou mais sintonizada com o meu

dia e mais presente no momento. Tolero melhor o contato físico.

Meu marido e eu estamos gostando de ver lmes aconchegados um

ao outro na cama… Um passo enorme. Tudo isso me ajudou, por

m, a me sentir próxima de meu marido.

 

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