O corpo guarda as marcas

Bessel van der Kolk · Capítulo 9 de 28

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O corpo guarda as marcas

8. Imobilização em relacionamentos: o custo do abuso e da negligência

8

 

IMOBILIZAÇÃO EM

 

RELACIONAMENTOS: O CUSTO

 

DO ABUSO E DA NEGLIGÊNCIA

 

A “viagem marítima noturna” é a viagem a partes de nós mesmos

que estão divididas, repudiadas, desconhecidas, indesejadas, banidas

e exiladas nos vários mundos subterrâneos da consciência […]. A

nalidade dessa viagem é nos reencontrarmos com nós mesmos.

Essa volta para casa pode ser surpreendentemente dolorosa, até

brutal. Para realizá-la, temos de primeiro concordar em nada exilar.

 

Stephen Cope

 

M arilyn era uma mulher alta e de porte atlético. Trinta e poucos anos e trabalhava como instrumentadora cirúrgica numa cidade próxima. Ela me contou que, meses antes, começara a jogar tênis no clube com um

bombeiro de Boston chamado Michael. De modo geral, mantinha-se

distante dos homens, disse, mas aos poucos passou a se sentir bastante bem

na companhia de Michael, a ponto de aceitar seus convites para uma pizza

depois das partidas. Conversavam sobre tênis, lmes, seus sobrinhos – nada

muito pessoal. Era evidente que Michael gostava de estar com ela, mas

Marilyn repetia para si mesma que ele não a conhecia direito.

Numa noite de sábado, em agosto, depois do tênis e da pizza, ela o

convidou para passar a noite em seu apartamento. Contou que se sentira

“tensa e irreal” assim que se viram a sós. Lembrava-se de ter pedido a ele que

fosse devagar, mas fazia pouquíssima ideia do que havia acontecido em

seguida. Depois de algumas taças de vinho e de assistir à reprise de um

episódio de Law & Order, aparentemente adormeceram juntos na cama dela.

Por volta das duas da manhã, Michael virou-se durante o sono. Ao sentir o

corpo dele encostar no seu, ela explodiu, esmurrando, arranhando e

mordendo o rapaz, aos gritos de “Canalha, canalha!”. Assustado, Michael

juntou seus pertences e foi embora. Depois disso, Marilyn cou sentada na

cama durante horas, atônita. Estava profundamente envergonhada e se

odiava pelo que zera. Agora havia me procurado, buscando ajuda para

lidar com seu terror em relação a homens e seus inexplicáveis ataques de

raiva.

Meu trabalho com veteranos de guerra havia me preparado para escutar

histórias dolorosas como a de Marilyn sem tentar intervir de imediato para

resolver o problema. É comum uma pessoa recorrer à terapia após um

comportamento inexplicável: atacar um namorado no meio da noite,

aterrorizar-se quando alguém a encara, ver-se coberta de sangue depois de

se cortar com um caco de vidro ou vomitar de propósito todas as refeições.

É preciso tempo e paciência para que se revele a realidade por trás desses

sintomas.

 

TERROR E APATIA

 

Marilyn contou que Michael tinha sido o primeiro homem que ela

convidara à sua casa em mais de cinco anos, mas que aquela não fora a

primeira vez que perdera o controle quando alguém cava para passar a

noite. Repetiu que sempre se sentia tensa e desorientada ao car sozinha

com um homem, e que em outras ocasiões havia “dado por si” em seu

apartamento, encolhida num canto e incapaz de recordar com clareza o que

havia acontecido.

Ela também disse ter a impressão de estar apenas “ ngindo que vivia”. A

não ser quando estava no clube, jogando tênis, ou trabalhando na sala de cirurgia, em geral se sentia apática. Anos antes, descobrira que essa apatia

podia ser amenizada quando se cortava com uma gilete, porém se assustara

ao perceber que estava se cortando cada vez mais fundo e com maior

frequência para obter alívio. Também tentara o álcool, mas isso lhe

recordava o pai e seu descontrole com a bebida, o que a deixava enojada.

Então começara a jogar tênis como uma louca, sempre que podia: tinha a

sensação de estar viva.

Quando lhe perguntei sobre o passado, Marilyn respondeu que “devia

ter vivido” uma infância feliz, mas que lembrava de pouquíssimas coisas

antes dos 12 anos. Contou que fora uma adolescente tímida, até ter uma

briga violenta com o pai, aos 16 anos, quando fugiu de casa. Matriculou-se

numa escola pública comunitária e formou-se em enfermagem, sem

qualquer ajuda dos pais. Sentia vergonha de, durante essa época, ter-se

tornado um tanto promíscua, o que descrevia como “procurar amor em

todos os lugares errados”.

 

Como costumava fazer com novos pacientes, pedi-lhe para desenhar um

retrato de sua família, e quando vi o desenho (reproduzido acima) decidi

avançar bem devagar. Era evidente que Marilyn guardava lembranças terríveis, mas não se permitia reconhecer o que a imagem revelava. Ela havia

desenhado uma criança extremamente aterrorizada, presa numa espécie de

jaula e ameaçada por três guras de pesadelo – uma delas sem olhos – e um

enorme pênis ereto que adentrava seu espaço. E, no entanto, essa mulher

dizia que “devia ter vivido” uma infância feliz.

Como escreveu o poeta W. H. Auden, “A verdade, como o amor e o sono,

abomina/ Aproximações demasiado intensas [“Truth, like love and sleep,

resents/ Approaches that are too intense 1 ”].

Chamo isso de “regra de Auden” e, respeitando-a, não pressionei

Marilyn a me contar o que recordava. Na verdade, descobri que não é

importante que eu conheça todos os detalhes do trauma de um paciente. É

fundamental que ele mesmo aprenda a suportar sentir o que sente e saber o

que sabe. Pode levar semanas ou até anos. Resolvi começar o tratamento

convidando-a a participar de um grupo de terapia já em andamento, no qual

ela poderia encontrar apoio e aceitação antes de enfrentar o motor de sua

insegurança, vergonha e raiva.

Como eu supunha, Marilyn chegou apavorada à primeira reunião, com

uma expressão muito parecida à da gura central de seu retrato de família;

distante, não se aproximou de ninguém. Eu havia escolhido aquele grupo

porque seus integrantes sempre haviam se mostrado solícitos e acolhiam

bem novos participantes cujo medo os impedia de falar. Sabiam, por

experiência própria, que destravar segredos é um processo gradual. Dessa

vez, entretanto, eles me surpreenderam, fazendo tantas perguntas

intrometidas sobre a vida amorosa de Marilyn que me lembrei da menina do

desenho sendo atacada. Foi quase como se, sem querer, Marilyn tivesse

pedido que o grupo revivesse seu passado traumático. Intervim para ajudá-

la a impor certos limites, e ela começou a car mais à vontade.

Três meses depois, Marilyn contou que havia tropeçado e caído algumas

vezes na calçada entre o metrô e o consultório. Temia que sua visão estivesse

cando ruim, porque, havia algum tempo, também vinha errando várias

bolas ao jogar tênis. Lembrei de novo do desenho da criança assustada, de

olhos esbugalhados e aterrorizada. Seria um tipo de “reação de conversão”,

que leva alguns pacientes a expressar seus con itos perdendo a função de

uma parte do corpo? Muitos soldados nas duas guerras mundiais haviam sofrido paralisias que não podiam ser atribuídas a lesões físicas, e eu vira

casos de “cegueira histérica” no México e na Índia.

Ainda assim, como médico, eu não estava inclinado a concluir, sem

maiores dados, que isso “estava dentro da cabeça dela”. Encaminhei-a a

colegas da enfermaria de o almologia e otorrinolaringologia, pedindo-lhes

exames rigorosos. Semanas depois, recebi os resultados. Marilyn tinha lúpus

eritematoso na retina, doença autoimune que estava acabando com sua

visão, e precisava de tratamento urgente. Fiquei consternado: naquele ano,

ela era a terceira pessoa que, segundo eu suspeitava, tinha um histórico de

incesto e recebia um diagnóstico de doença autoimune – uma doença em

que o corpo ataca a si mesmo.

Depois de me certi car de que Marilyn estava recebendo assistência

médica adequada, consultei dois colegas do Hospital Geral de

Massachusetts, o psiquiatra Scott Wilson e o diretor do laboratório de

Imunologia, Richard Kradin. Contei-lhes a história dela, mostrei-lhes o

desenho e pedi que colaborassem num estudo. Eles generosamente se

dispuseram a contribuir com seu tempo e as despesas vultosas de exames

imunológicos adicionais. Recrutamos doze mulheres com histórico de

incesto que não estavam tomando nenhuma medicação, além de outras doze

que nunca tinham passado por traumas e também não tomavam

medicamentos – um grupo de controle surpreendentemente difícil de

formar. (Marilyn não fazia parte do estudo; em geral, não pedimos a nossos

pacientes clínicos que participem de nossas iniciativas de pesquisa.)

Completado o estudo e analisados os dados, Rich disse que o grupo de

vítimas de incesto apresentava uma proporção anormal de células de CD45

RA e RO em comparação com o grupo de não traumatizadas. As células CD45

são as “células de memória” do sistema imunológico. Algumas delas, as

chamadas células RA, foram ativadas por exposição a toxinas no passado e

reagem com rapidez a ameaças ambientais que já enfrentaram. As células RO,

por sua vez, são reservadas para novos desa os; o corpo recorre a elas para

lidar com ameaças nunca enfrentadas. A razão RA-RO é o equilíbrio entre

células que reconhecem toxinas conhecidas e células que estão à espera de

novas informações para serem ativadas. Em pacientes com histórico de

incesto, o número de células RA prontas para entrar em ação é maior que o

normal. Em decorrência disso, o sistema imunológico ca supersensível a ameaças, o que o predispõe a montar uma defesa quando não é preciso,

mesmo que signi que atacar as células do próprio corpo.

Nosso estudo mostrou que, num nível profundo, o corpo da vítima de

incesto tem di culdade para distinguir entre perigo e segurança. Ou seja: a

marca do trauma passado não consiste apenas em percepções distorcidas de

informações que vêm do exterior; o próprio organismo não sabe como se

sentir em segurança. O passado está gravado não só na mente das vítimas e

em interpretações errôneas de fatos corriqueiros (como aconteceu quando

Marilyn atacou Michael porque ele a tocou sem querer enquanto dormia)

como também no próprio núcleo do ser de cada uma dessas vítimas: na

segurança de seu corpo. 2

 

UM MAPA-MÚNDI RASGADO

 

Como as pessoas aprendem o que é ou não seguro, o que é interior e o que é

exterior, a que se deve resistir e o que se pode aceitar? A melhor maneira de

entender o impacto do abuso infantil e da negligência é ouvindo o que

pessoas como Marilyn podem nos ensinar. Ao conhecê-la melhor,

compreendi claramente que ela desenvolvera uma maneira peculiar de

perceber como o mundo funciona.

Quando crianças, estamos no centro de nosso universo e interpretamos

tudo o que acontece de uma perspectiva egocêntrica. Nossos pais e avós não

param de dizer que somos as coisas mais engraçadinhas e lindas do mundo,

e não contestamos a avaliação deles – devemos ser mesmo. E no fundo, seja

o que for que venhamos a saber sobre nós, levaremos conosco essa ideia:

somos adoráveis. E camos indignados se mais tarde nos ligamos a alguém

que nos trata mal. Como assim? Não nos parece certo: não nos é familiar,

não é como era em nossa casa. Entretanto, se fomos maltratados ou

ignorados quando bebês, ou se crescemos numa família em que a

sexualidade era vista com repulsa, nosso mapa interior contém uma

mensagem diferente. A percepção do self é marcada por desprezo e

humilhação, e o mais provável é pensar que “ele (ou ela) sabe muito bem

como é que eu sou”, e não protestar se somos maltratados.

O passado de Marilyn moldava sua visão de todos os relacionamentos.

Ela estava convencida de que os homens não davam a mínima para os

sentimentos alheios e conseguiam tudo o que queriam. Tampouco as

mulheres mereciam con ança. Fracas demais para se defender, vendiam o

corpo a m de que os homens cuidassem delas. Se você enfrentasse

di culdades, elas não levantavam um dedo para ajudar. Essa visão de

mundo se manifestava na forma como Marilyn tratava os colegas de

trabalho: suspeitava das intenções de qualquer um que fosse amável com ela,

e criticava-os se cometessem o mais leve desvio em relação às normas de

enfermagem. Com relação a si mesma, considerava-se uma semente ruim,

uma pessoa essencialmente tóxica que trazia o mal para quem a cercava.

Até então eu costumava censurar pessoas que pensavam como Marilyn e

tentava ajudá-las a encarar o mundo de maneira mais positiva e exível. Um

dia, porém, uma paciente, Kathy, me corrigiu. Uma moça do grupo tinha

chegado atrasada porque seu carro enguiçara, e Kathy, de imediato, assumiu

a culpa: “Na semana passada, vi que seu carro estava prestes a enguiçar. Eu

sabia que devia ter-lhe oferecido uma carona.” Sua autocrítica foi num

crescendo até chegar ao ponto de, minutos depois, ela se declarar

responsável pelo abuso sexual de que fora vítima: “Eu fui a culpada: tinha 7

anos e adorava meu pai. Queria que ele me amasse, e z o que ele queria que

eu zesse. Foi tudo culpa minha.” Quando intervim para apaziguá-la,

dizendo: “Ora, vamos, você era apenas uma garotinha… Cabia a seu pai

manter os limites”, Kathy voltou-se para mim. “Sabe, Bessel”, ela disse,

 

entendo que para você é importante ser um bom terapeuta, por isso,

quando você faz comentários idiotas como esse, em geral, eu lhe

agradeço muito. A nal de contas, sou uma sobrevivente de incesto…

Fui treinada para atender às necessidades de homens adultos

inseguros. Mas acho que, depois de dois anos, con o em você o

su ciente para lhe dizer que esses seus comentários me fazem sentir

muito mal. É, é verdade. Eu me culpo, instintivamente, por tudo de

ruim que acontece às pessoas que me cercam. Sei que não é racional,

e me sinto mesmo idiota por agir assim, mas é o que eu faço.

Quando você tenta me convencer a ser mais sensata, eu me sinto

ainda mais solitária e isolada… E sua atitude con rma a sensação de

que ninguém, no mundo inteiro, jamais vai compreender como é

que eu sou.

 

Agradeci a Kathy, sinceramente, por seu desabafo, e desde então tento

não dizer a meus pacientes que não devem sentir o que sentem. Kathy me

ensinou que minha responsabilidade vai muito mais fundo: preciso ajudá-

los a reconstruir seu mapa-múndi interior.

Como expus no capítulo anterior, pesquisadores do apego

demonstraram que nossos primeiros cuidadores não apenas nos alimentam,

nos vestem e nos consolam se estamos descontentes; eles moldam a forma

como nosso cérebro, em rápida formação, percebe a realidade. As interações

entre nós e nossos cuidadores ensinam o que é seguro e o que é perigoso:

com quem podemos contar e quem não nos ajudará; aquilo de que

precisamos para que nossas necessidades sejam atendidas. Essas

informações estão incrustadas na rede dos circuitos de nosso cérebro e

formam o padrão de como pensamos a respeito de nós próprios e do mundo

ao redor. Esses mapas interiores mostram uma estabilidade notável ao longo

do tempo.

Isso não quer dizer, porém, que esses mapas não possam ser modi cados

pela experiência. Uma relação amorosa profunda, sobretudo durante a

adolescência, quando o cérebro atravessa, de novo, um período de alteração

exponencial, pode de fato nos transformar. A mesma mudança pode ser

causada pelo nascimento de uma criança, já que com frequência nossos

bebês nos ensinam a amar. Adultos vítimas de abusos ou de negligência na

infância podem descobrir a beleza da intimidade e da con ança mútua ou

viver uma experiência espiritual profunda que ampliem seu universo. Por

outro lado, mapas infantis não contaminados podem ser tão distorcidos por

um estupro ou pela agressão cometidos por um adulto que todas as estradas

se redirecionam para o terror ou o desespero. Tais reações não são racionais

e, por isso, não podem ser alteradas por uma simples correção de convicções

irracionais. Nosso mapa-múndi está codi cado no cérebro emocional, e

alterá-lo exige a reorganização dessa parte do sistema nervoso central (como

se verá na Parte V).

Não obstante, aprender a reconhecer ideias e comportamentos

irracionais pode ser um primeiro passo. Pessoas como Marilyn descobrem que suas premissas não são iguais às de outras pessoas. Se tiverem sorte,

amigos e colegas lhes dirão, com palavras, não atos, que a falta de con ança

e o autodesprezo delas di cultam a colaboração. Todavia, é raro que isso

aconteça, e a experiência de Marilyn foi típica: depois de agredir Michael, ela

não teve nenhum interesse em pôr tudo em pratos limpos, e cou sem o

amigo e parceiro preferido de tênis. É nesse ponto que pessoas inteligentes e

corajosas como ela, que não perdem a curiosidade e a determinação, apesar

de derrotas seguidas, começam a procurar ajuda.

Em geral, o cérebro racional é capaz de se sobrepor ao cérebro

emocional, desde que nossos medos não nos sequestrem. (Por exemplo, o

medo de um motorista de ser parado pela polícia pode se transformar,

instantaneamente, em gratidão se o guarda lhe avisa que ocorreu um

acidente à frente.) Entretanto, no momento em que nos sentimos

aprisionados, furiosos ou rejeitados, camos propensos a ativar mapas

antigos e seguir suas instruções. A mudança começa quando aprendemos a

ser “donos” de nosso cérebro emocional, ou seja: quando aprendemos a

observar e suportar as sensações dilacerantes que indicam sofrimento e

humilhação. Só depois de aprender a tolerar o que sucede dentro de nós é

que começamos a acolher, em vez de ocultar, as emoções que mantêm

nossos mapas xos e imutáveis.

 

APRENDER A LEMBRAR

 

Mais ou menos um ano depois de Marilyn ingressar no grupo, outra

participante, Mary, disse que desejava falar sobre o que lhe acontecera

quando tinha 13 anos. Mary trabalhava como carcereira e estava envolvida

numa relação sadomasoquista com outra mulher. Queria que as pessoas

conhecessem seus antecedentes, na esperança de que se tornassem mais

tolerantes em relação a suas reações extremadas, como sua tendência a se

calar ou explodir à mais leve provocação.

Lutando para pronunciar as palavras, Mary nos contou que certa noite,

quando tinha 13 anos, ela fora estuprada pelo irmão mais velho e por uma

turma de amigos dele. O estupro resultou em gravidez, e a mãe lhe fez um

aborto em casa, na mesa da cozinha. Sensibilizado, o grupo sintonizou-se com o que ela, aos soluços, estava compartilhando, e consolou-a. Fiquei

muitíssimo comovido com a empatia que demonstravam – estavam

confortando Mary de uma maneira que deviam desejar que alguém os

tivesse acolhido ao se confrontarem pela primeira vez com seus traumas.

Expirado o tempo, Marilyn perguntou se poderia usar mais alguns

minutos para falar sobre o que havia sentido durante a sessão. O grupo

concordou e então ela disse: “Ouvindo essa história, quei pensando se fui

mesmo vítima de abuso sexual.” Devo ter cado boquiaberto. Com base

naquele seu desenho, eu sempre imaginara que ela estivesse ciente, ao

menos em algum nível, do que ocorrera. Marilyn reagira como uma vítima

de incesto em sua resposta a Michael, e se comportava cronicamente como

se o mundo fosse um lugar aterrorizante.

No entanto, embora tivesse desenhado uma menina molestada

sexualmente, ela – ou pelo menos seu self cognitivo, verbal – não fazia ideia

do que de fato sucedera. Tudo nela – o sistema imunológico, os músculos e o

sistema de medo – trazia as marcas, mas sua mente consciente carecia de

uma história capaz de comunicar a experiência. Ela reencenava o trauma no

seu dia a dia, mas não tinha narrativa alguma a que se reportar. Como se

verá no capítulo 12, a memória traumática difere de lembranças normais de

modos complexos e envolve várias camadas de mente e cérebro.

Encorajada pelo depoimento de Mary e estimulada pelos pesadelos que

se seguiram, Marilyn começou a fazer terapia individual para enfrentar o

passado. De início, sofreu ondas de terror intenso e generalizado.

Interrompeu as sessões por várias semanas, mas, ao constatar que não

conseguia dormir e teria de tirar uma licença do trabalho, foi adiante. Como

me disse mais tarde: “Meu único critério para decidir se uma situação é

nociva consiste em sentir ‘Isso vai me matar se eu não pular fora’.”

Comecei a ensinar a ela técnicas de tranquilização, como concentrar-se

em inspirar e expirar profundamente seis vezes por minuto; e ao mesmo

tempo eu a guiava, perguntando sobre as sensações da respiração em seu

corpo. Esse exercício se combinava com batidinhas em pontos de

acupuntura, o que a ajudava a se acalmar. Trabalhamos também com

atenção plena: aprender a manter a mente viva, enquanto permitia que o

corpo sentisse o que ela passara a temer, aos poucos levou Marilyn a

conseguir observar sua experiência, em vez de ser imediatamente

sequestrada por suas sensações. Ela tentara embotar ou abolir essas sensações com álcool e exercícios, mas aos poucos veio a se sentir segura o

su ciente para começar a lembrar o que lhe acontecera quando menina. Ao

adquirir domínio sobre as sensações físicas, também pôde perceber a

diferença entre passado e presente: agora, se sentisse a perna de alguém

roçar a sua de noite, poderia reconhecê-la como a perna de Michael, a perna

do belo parceiro de tênis que ela convidara para ir a seu apartamento. A

perna não era de nenhuma outra pessoa, e seu toque não signi cava que

alguém estivesse tentando molestá-la. Permanecer imóvel permitiu-lhe

saber – saber de maneira plena, física – que era uma mulher de 34 anos, não

uma menininha.

Quando Marilyn por m começou a ter acesso a suas memórias, elas

surgiram como ashbacks do papel de parede em seu quarto de menina. Ela

compreendeu que foi nesse papel de parede que ela, aos 8 anos, se

concentrara enquanto o pai a violentava. O estupro a aterrorizara além de

sua capacidade de tolerância, de modo que fora obrigada a expulsar aquilo

de seu banco de memórias. A nal de contas, teria de continuar vivendo com

esse homem, seu pai, que a estuprara. Lembrava ter procurado a mãe em

busca de proteção, mas só recebeu um abraço frouxo ao correr para ela e se

esconder com o rosto enterrado em sua saia. Às vezes a mãe cava em

silêncio, às vezes chorava e, zangada, repreendia Marilyn por “deixar papai

tão chateado”. A criança aterrorizada não achava ninguém que a protegesse,

que lhe desse ânimo ou abrigo.

Como Roland Summit escreveu em seu clássico estudo e Child Sexual

Abuse Accomodation Syndrome [Síndrome da acomodação ao abuso sexual

infantil],

 

a iniciação, a intimidação, a estigmatização, o isolamento, o

desamparo e a autorrecriminação baseiam-se numa terrível realidade

de abuso sexual infantil. Qualquer tentativa da criança de divulgar o

segredo será neutralizada por uma conspiração de silêncio e

descrença por parte dos adultos. “Não pense nisso; é uma coisa que

nunca aconteceria em nossa família.” “Como é que você pode pensar

uma coisa tão horrível?” “Nunca mais me venha com uma história

dessas de novo!” Normalmente a criança nunca pergunta e nunca

conta.3

Depois de quarenta anos como terapeuta, de vez em quando ainda me

pego dizendo “Não pode ser!” ao ouvir certos pacientes. Às vezes eles cam

tão incrédulos quanto eu: como foi possível que guras parentais in igissem

tal tortura e terror ao próprio lho? Alguns continuam insistindo:

certamente imaginaram a experiência ou estão exagerando. Todos sentem

vergonha do que lhes aconteceu e se recriminam, culpam a si mesmos –

num certo nível, acreditam piamente que essas coisas horríveis lhes foram

feitas porque eles são pessoas horríveis.

A seguir, Marilyn começou a analisar como a criança impotente

aprendera a se bloquear por completo e aquiescer a tudo o que lhe era

pedido. Para tanto, ela desaparecia: a partir do momento em que ouvia os

passos do pai no corredor chegando a seu quarto, ela “punha a cabeça nas

nuvens”. Outra paciente minha, que teve uma experiência semelhante, fez

um desenho que mostra como funciona o processo. Quando o pai começava

a tocá-la, ela dava um jeito de sumir; subia como um balão para o teto,

vendo dali outra menina na cama.4 Ficava feliz por não estar ali – era uma

outra que estava sendo molestada.

Ver essas cabeças separadas do corpo por um nevoeiro impenetrável

realmente abriu meus olhos para a experiência da dissociação, tão comum

entre vítimas de incesto. A própria Marilyn mais tarde percebeu que, adulta,

continuara a subir para o teto quando se via numa situação sexual. No

período em que esteve mais sexualmente ativa, de vez em quando um

parceiro comentava, surpreso, como ela mudava na cama e que ele mal a

reconhecia, pois ela até falava diferente. Em geral, ela não se lembrava do

que tinha acontecido, mas em outras ocasiões cava aborrecida e agressiva.

Marilyn não tinha a menor ideia de quem ela de fato era do ponto de vista

da sexualidade, de modo que pouco a pouco se afastou totalmente dos

homens – até conhecer Michael.

 

ÓDIO AO LAR

 

Crianças não escolhem os pais, nem conseguem entender que eles podem

simplesmente estar deprimidos, furiosos ou desnorteados demais para lhes

dar atenção, ou que o modo como se comportam às vezes tem pouco a ver

com os lhos. A única opção que lhes resta é se organizar para sobreviver na

família que têm. Ao contrário dos adultos, para elas não há autoridade a

quem pedir ajuda – seus pais são a autoridade. As crianças não podem

alugar um apartamento ou se mudar para a casa de outra pessoa. A

sobrevivência delas depende de seus cuidadores.

Crianças percebem – mesmo que não sejam ameaçadas de maneira

explícita – que, se contarem aos professores que sofrem espancamentos ou

abusos sexuais, serão castigadas. Assim, focam suas energias em não pensar

sobre o que aconteceu e em não sentir os resíduos de terror e pânico no

corpo. Como não conseguem suportar a consciência do que lhes aconteceu,

também não têm como compreender que a raiva ou o terror que sentem têm

a ver com o ocorrido. Elas se calam; agem e lidam com suas sensações por

meio da raiva, do bloqueio ou do desa o.

Crianças são também programadas para ser fundamentalmente leais a

seus cuidadores, mesmo que sofram abusos em suas mãos. O terror

aumenta a necessidade de apego, muito embora a fonte de conforto seja

também a fonte de terror. Nunca vi uma criança com menos de 10 anos que, mesmo sofrendo torturas em casa (apresentando marcas dos maus-tratos,

como fraturas e queimaduras), não preferisse permanecer com a família em

vez de ser direcionada para um lar de acolhimento. É claro que se agarrar ao

abusador não é uma escolha exclusiva de crianças. Reféns já pagaram ança

para libertar seus sequestradores, já manifestaram o desejo de se casar ou se

envolveram sexualmente com eles; vítimas de violência doméstica muitas

vezes procuram proteger quem as maltrata. Com frequência juízes me

contam o quanto se sentem frustrados quando, depois de expedirem ordens

de restrição para proteger vítimas de violência doméstica, descobrem que

muitas delas permitem em segredo que seus parceiros voltem para casa.

Marilyn levou muito tempo até se dispor a falar do abuso de que fora

vítima: não estava pronta para violar sua lealdade à família – no fundo,

achava que ainda precisava dela para se proteger de seus medos. O preço

dessa lealdade são sensações intoleráveis de solidão, desespero e a inevitável

raiva da impotência. A raiva que não tem alvo é direcionada contra o self, na

forma de depressão, ódio a si mesmo e comportamentos autodestrutivos.

Uma de minhas pacientes disse: “É como odiar sua casa, sua cozinha com

suas panelas e caçarolas, sua cama, suas cadeiras, sua mesa, seus tapetes.”

Nada parece seguro – muito menos o próprio corpo.

Aprender a con ar é difícil. Outra paciente, uma professora primária

cujo avô a estuprava repetidamente quando ela tinha menos de 6 anos,

mandou-me o seguinte e-mail: “Enquanto voltava para casa, depois da

sessão, comecei a re etir sobre o perigo de me abrir com o senhor, e então,

ao chegar à rodovia 124, me dei conta de que tinha violado a regra de não

me apegar, nem ao senhor nem a meus alunos.”

Em nosso encontro seguinte, ela me disse que também tinha sido

estuprada por seu instrutor de laboratório na faculdade. Perguntei-lhe se

tinha procurado ajuda e prestado queixa contra ele. “Eu não conseguia

atravessar a rua para ir à clínica”, ela respondeu. “Precisava

desesperadamente de ajuda, mas, ali, de pé, senti que eu só ia me machucar

ainda mais. E é bem possível que fosse verdade. É claro que tive de esconder

de meus pais… e de todo mundo o que tinha acontecido.”

Depois que lhe falei de minha preocupação com o que estava havendo

com ela, recebi outro e-mail:

Estou tentando lembrar a mim mesma que não z nada para

merecer esse tratamento. Não acho que alguém, algum dia, tenha

olhado para mim desse jeito e dito que se preocupava comigo, e

estou me agarrando a isso como a um tesouro: a ideia de que mereço

ser motivo de preocupação de alguém que respeito e que

compreende o quanto estou lutando.

 

Para saber quem somos – para ter uma identidade –, precisamos saber

(ou ao menos julgar que sabemos) o que é e o que foi “real”. Temos de

observar e classi car o que vemos ao redor de maneira correta; precisamos

também ser capazes de con ar em nossas memórias e distingui-las da

imaginação. Perder a capacidade de fazer essas distinções é um sinal daquilo

que o psicanalista William Niederland chamou de “assassinato da alma”.

Apagar a consciência e cultivar a negação são, muitas vezes, medidas

essenciais para a sobrevivência, mas há um preço: perde-se o rastro de quem

se é, do que se está sentindo e das pessoas em que se pode con ar. 5

 

A REPRODUÇÃO DO TRAUMA

 

Uma lembrança do trauma de infância de Marilyn lhe ocorreu num sonho

em que ela se sentia sufocar e não conseguia respirar. Uma toalhinha de chá,

branca, envolvia suas mãos, e a seguir ela foi erguida no ar com a toalha em

torno do pescoço, impossibilitada de tocar o chão com os pés. Acordou

tomada de pânico, certa de que morreria. Seu sonho me lembrou os

pesadelos que veteranos de guerra me contavam, nos quais viam as imagens

precisas e não adulteradas de rostos e partes de corpos com que tinham

deparado em batalha. Esses sonhos eram tão assustadores que eles

procuravam não dormir à noite, valendo-se de cochilos de dia. Como não

estavam associadas a emboscadas noturnas, essas sonecas pareciam mais ou

menos seguras.

Durante essa fase da terapia, Marilyn foi repetidamente dominada por

imagens e sensações relacionadas com seu sonho de sufocação. Lembrava-se

de estar sentada na cozinha, aos 4 anos, com os olhos inchados, dor de garganta e o nariz sangrando, enquanto o pai e o irmão riam dela e a

chamavam de boba. Um dia Marilyn me contou:

 

Enquanto eu escovava os dentes, na noite passada, fui tomada pela

sensação de me debater. Eu me sentia como um peixe fora d’água,

agitando-me de forma violenta por causa da falta de ar. Eu soluçava e

sufocava ao escovar os dentes. Um pânico crescia no meu peito,

junto com a sensação de me debater. Tive de usar todas as minhas

energias para não gritar “NÃONÃONÃONÃONÃONÃO” ali junto da pia.

 

Foi se deitar e dormiu, mas acordou a cada duas horas, como se um

despertador soasse, durante toda a noite.

O trauma não ca armazenado como uma narrativa ordenada, com

começo, meio e m. Como se verá nos capítulos 11 e 12, no começo as

memórias voltam como aconteceu no caso de Marilyn: ashbacks com

fragmentos da experiência, imagens isoladas, sons e sensações físicas que a

princípio só trazem medo e pânico. Quando Marilyn era criança, não tinha

como exprimir o indizível, e de qualquer modo não faria diferença

nenhuma – ninguém prestava atenção.

Como tantos sobreviventes de abuso na infância, Marilyn exempli cava

o poder da força vital, a vontade de viver e de governar a própria vida, a

energia que neutraliza o aniquilamento do trauma. Aos poucos vim a

compreender que a única coisa que torna viável a tarefa de curar o trauma é

o respeito pela luta de sobrevivência que permitia a meus pacientes resistir

ao abuso de que tinham sido vítimas e, depois, suportar as noites escuras da

alma, que inevitavelmente ocorrem no caminho da recuperação.

 

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