O corpo guarda as marcas
12. O insustentável peso da lembrança
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O INSUSTENTÁVEL PESO DA
LEMBRANÇA
Nossos corpos são textos que conduzem às memórias; portanto,
lembrar é nada menos que reencarnar.
Katie Cannon
O interesse cientí co pelo trauma tem variado bastante ao longo dos
últimos 150 anos. A morte de Charcot, em 1893, e a ênfase de Freud em
atribuir a origem do sofrimento mental a con itos internos, defesas e
instintos explicam apenas parcialmente a gradual perda de interesse sobre o
assunto pela corrente dominante da medicina. A psicanálise ganhou rápida
popularidade. Em 1911, um psiquiatra de Boston, Morton Prince, que
estudara com William James e Pierre Janet, queixou-se de que aqueles que se
interessavam pelos efeitos do trauma eram como “mariscos carregados pela
maré crescente no porto de Boston”.
Esse descaso, porém, não durou mais do que alguns anos, pois a eclosão
da Primeira Guerra Mundial, em 1914, mais uma vez confrontou a medicina
e a psicologia com centenas de milhares de homens portadores de bizarros
sintomas psicológicos, problemas médicos inexplicados e perda de
memória. Uma nova tecnologia, o cinema, permitiu lmar esses soldados, e
hoje os vemos no YouTube com posturas físicas esquisitas, falas estranhas, expressões aterrorizadas e tiques – a expressão física, corporalizada, do
trauma: “Uma imagem que se acha inscrita ao mesmo tempo na mente, em
imagens e palavras interiores, como também no corpo”. 1
No começo do con ito, os britânicos criaram o diagnóstico de shell
shock, que conferia a veteranos de guerra direito a tratamento e pensão por
invalidez. O diagnóstico alternativo era “neurastenia”, que lhes autorizava o
tratamento, mas não lhes pagava pensão. A opção por um ou outro cava a
critério do médico.2
Mais de 1 milhão de soldados britânicos serviram na frente ocidental. Só
nas primeiras horas de 1o de julho de 1916, na Batalha do Somme, o
Exército britânico sofreu 57.470 baixas, entre as quais 19.240 mortos, o dia
mais sangrento de sua história. A respeito do comandante desses homens, o
marechal de campo Douglas Haig, cuja estátua hoje domina Whitehall, em
Londres – rua que um dia foi o centro do Império Britânico –, o historiador
John Keegan diz: “Nem em sua postura pública nem em seus diários
privados percebia-se ou percebe-se sombra de preocupação com o
sofrimento humano.” No Somme, “ele mandara a or da juventude britânica
para a morte ou a mutilação”.3
Com o prosseguimento da guerra, a e ciência das forças combatentes
viu-se cada vez mais minada pelo shell shock. Dividido entre levar a sério o
sofrimento dos soldados e buscar a vitória sobre os alemães, em junho de
1917 o Estado-Maior britânico baixou a Ordem Geral 2.384, que declarava:
“Em nenhuma circunstância a expressão ‘shell shock’ será usada verbalmente
ou constará de qualquer informe regimental ou de outra natureza sobre
baixas, ou de qualquer documento oriundo de hospital ou outra fonte
médica.” Todos os soldados com problemas psiquiátricos deveriam receber
um único diagnóstico, o de “NYDN”, acrônimo em inglês para “Ainda Sem
Diagnóstico, Nervoso” [Not Yet Diagnosed, Nervous].4 Em novembro de
1917, o Estado-Maior não autorizou [o médico] Charles Samuel Myers, que
visitara quatro hospitais de campanha, a submeter ao British Medical Journal
um artigo sobre o shell shock. Os alemães eram mais rigorosos ainda e
tratavam o transtorno como um defeito de caráter, a ser controlado por
meio de vários tratamentos dolorosos, entre os quais eletrochoque.
Em 1922, o governo britânico publicou o Relatório Southborough, que
visava coibir o diagnóstico de shell shock em guerras futuras e, assim, evitar novos pedidos de pensão. O documento propunha o expurgo da expressão
em todas as publicações o ciais e insistia em não classi car esses casos
“como baixa de batalha, da mesma forma que um mal-estar ou uma doença
não são assim considerados”.5 Na visão o cial, soldados bem treinados e
corretamente comandados não sofreriam de shell shock; aqueles que haviam
sucumbido ao transtorno eram indisciplinados e refratários. Embora a
tempestade política a respeito da legitimidade do shell shock prosseguisse
ainda por muitos anos, textos sobre a melhor forma de tratamento
desapareceram das revistas e livros cientí cos.6
Também nos Estados Unidos a sorte dos veteranos se viu cercada de
problemas. Em 1918, ao retornarem da França e de Flandres, eles foram
saudados como heróis, como os que tempos depois voltaram do Iraque e do
Afeganistão. Em 1924, o Congresso aprovou um projeto que lhes concederia
um bônus de 1,25 dólar por dia servido em além-mar, porém o pagamento
foi adiado para 1945.
Em 1932, o país estava mergulhado na Grande Depressão, e, em maio
daquele ano, cerca de 15 mil veteranos desempregados e sem dinheiro
acamparam no Mall, em Washington, DC, exigindo o pagamento imediato
do bônus. Por 62 votos a 18, o Senado derrotou o projeto que determinava o
desembolso. Um mês depois, o presidente Hoover ordenou ao Exército que
retirasse os homens do acampamento. As tropas, apoiadas por seis tanques,
eram comandadas pelo general Douglas MacArthur, chefe do Estado-Maior
do Exército. O major Dwight D. Eisenhower atuava como intermediário
com a polícia de Washington, e o major George Patton estava no comando
da cavalaria. Soldados com baionetas caladas investiram contra a multidão
de veteranos, utilizando também bombas de gás lacrimogêneo. Na manhã
seguinte, o Mall estava deserto, e o acampamento, em chamas.7 Aqueles
homens jamais receberam suas pensões.
Enquanto a política e a medicina davam as costas para os veteranos, os
horrores da guerra eram registrados pela literatura e pelas artes plásticas.
Em 8 Nada de novo no front , romance sobre as experiências de guerra de
soldados no campo de batalha, do escritor alemão Erich Maria Remarque, o
protagonista, Paul Bäumer, falou por toda uma geração:
Estou ciente de que, sem me dar conta disso, perdi meus
sentimentos… Não faço mais parte daqui, vivo em outro mundo.
Pre ro ser deixado a sós, sem que ninguém me perturbe. As pessoas
falam demais… Não consigo entendê-las… Só se ocupam de
super cialidades.9
Publicado em 1929, o romance logo se tornou um best-seller
internacional. A versão cinematográ ca, rodada em Hollywood (1930),
ganhou o Oscar de melhor lme.
Quando Hitler assumiu o poder anos depois, porém, Nada de novo no
front foi um dos primeiros livros “degenerados” que os nazistas queimaram
em praça pública diante da Universidade Humboldt, em Berlim.10
Evidentemente, informações a respeito dos devastadores resultados da
guerra sobre a mente dos soldados prejudicaria o mergulho dos nazistas em
outra rodada de insanidade.
Negar as consequências do trauma pode esgarçar seriamente o tecido
social. A recusa a encarar os danos causados pela guerra e a intolerância em
relação à “fraqueza” tiveram um papel crucial na ascensão do fascismo e do
militarismo em todo o mundo na década de 1930. As abusivas reparações de
guerra impostas pelo Tratado de Versalhes humilharam ainda mais uma
Alemanha afundada em mil problemas. A sociedade alemã, por sua vez,
tratou sem piedade os próprios veteranos traumatizados, vistos como
criaturas inferiores. Essa cascata de humilhações dos indefesos preparou o
terreno para a suprema degradação dos direitos humanos no regime nazista:
a justi cativa moral para que os fortes subjugassem os inferiores,
fundamento lógico da guerra que viria.
A NOVA FACE DO TRAUMA
A irrupção da Segunda Guerra Mundial induziu Charles Samuel Myers e o
psiquiatra americano Abram Kardiner a publicarem os relatos do trabalho
que zeram com soldados e veteranos durante a Primeira Guerra. Shell
Shock in France 1914-1918 11 (1940) e e Traumatic Neuroses of War
(1941)12 serviram como principais guias para os psiquiatras que tratavam, no novo con ito, os soldados com “neuroses de guerra”. O esforço de guerra
americano foi prodigioso, e os avanços na psiquiatria na linha de frente
re etiam esse empenho. Aqui também, o YouTube oferece uma janela direta
para o passado: o documentário de John Huston Let ere Be Light [Faça-se
a luz] (1946) mostra o principal tratamento para as neuroses de guerra na
época: a hipnose.13
No lme de Huston, rodado quando ele servia no Corpo de Sinaleiros
do Exército, os médicos ainda são paternais, e os pacientes, jovens
aterrorizados. Contudo, eles expressam seus traumas de maneira diferente.
Enquanto os soldados da Primeira Guerra Mundial se debatem, têm tiques
faciais e desmoronam com o corpo paralisado, a geração seguinte conversa e
se encolhe. Os corpos ainda guardam as marcas: o estômago revirado, o
coração disparado e, sobretudo, o pânico. Entretanto, o trauma não afetou
apenas o corpo. O estado de transe induzido pela hipnose lhes possibilitou
encontrar palavras para expressar o que o medo não os deixava recordar: o
horror que sentiam, a culpa do sobrevivente, as lealdades con itantes.
Também me dei conta de que aqueles soldados pareciam esconder muito
mais a raiva e a hostilidade do que os veteranos mais jovens com os quais eu
trabalhara. A cultura molda a expressão do estresse traumático.
A feminista Germaine Greer escreveu a respeito do tratamento do TEPT
do pai depois da Segunda Guerra Mundial:
Quando [os médicos militares] examinavam homens que
apresentavam perturbações graves, quase sempre localizavam a
causa fundamental em experiências anteriores à guerra: os homens
doentes não eram guerreiros de primeira categoria […]. A ideia dos
militares é que não é a guerra que torna os homens doentes, mas que
homens doentes não podem lutar em guerras.14
Parece improvável que os médicos tenham prestado alguma ajuda a esse
homem, mas o esforço de Germaine em entender o sofrimento do pai sem
dúvida a ajudou na análise da dominação sexual em todas as deploráveis
manifestações de estupro, incesto e violência doméstica.
Quando trabalhei na Administração de Veteranos, uma coisa me
intrigava: a grande maioria dos pacientes no serviço de psiquiatria era formada de jovens veteranos do Vietnã, que haviam dado baixa pouco
tempo antes, enquanto os corredores e elevadores que levavam aos
departamentos médicos viviam cheios de homens de idade. Curioso em
relação a essa disparidade, em 1983 z um levantamento sobre os veteranos
da Segunda Guerra Mundial nas clínicas médicas. Segundo as escalas de
classi cação que eu administrava, a grande maioria era formada por vítimas
de TEPT, porém o tratamento era focado em queixas médicas, não
psiquiátricas. O sofrimento desses veteranos se manifestava com dores no
estômago e no peito, não em pesadelos e fúria, que, segundo minha
pesquisa, eles também apresentavam. Médicos dão forma à maneira como
seus pacientes comunicam o sofrimento: se um sujeito se queixa de
pesadelos tenebrosos e o médico pede uma radiogra a de tórax, ele entende
que receberá melhor tratamento caso se concentre em seus problemas
físicos. Tal como meus parentes que lutaram ou foram capturados na
Segunda Guerra Mundial, a maioria desses homens mostrava uma
relutância extrema em narrar suas experiências. Meu palpite era que nem
eles nem seus médicos queriam se lembrar da guerra.
Contudo, as autoridades militares e civis voltaram da Segunda Guerra
Mundial com importantes lições que a geração anterior não havia percebido.
Depois da derrota da Alemanha nazista e do Japão imperial, os Estados
Unidos ajudaram a reconstruir a Europa por meio do Plano Marshall, que
lançou os alicerces econômicos dos cinquenta anos seguintes de relativa paz.
Nos Estados Unidos, a Lei de Reajustes dos Militares de 1944 proporcionou
a milhões de veteranos educação e nanciamento para aquisição de casa
própria, o que promoveu o bem-estar econômico geral e criou uma classe
média ampla e instruída. As Forças Armadas lideraram o campo da
integração racial e a busca de oportunidades. A AV construiu hospitais em
todo o país para proporcionar assistência médica aos veteranos. Todavia,
apesar de toda essa atenção aos veteranos, as cicatrizes psicológicas das
guerras não foram reconhecidas, e as neuroses traumáticas sumiram por
completo da nomenclatura psiquiátrica o cial. O último livro cientí co
sobre trauma de combate depois da Segunda Guerra Mundial foi publicado
em 1947. 15
A REDESCOBERTA DO TRAUMA
Como já disse, quando comecei a trabalhar com veteranos do Vietnã, não
havia um só livro sobre trauma de combate na biblioteca da AV, mas a
Guerra do Vietnã deu origem a numerosos estudos, à criação de
organizações acadêmicas e à inclusão de um diagnóstico de trauma, o TEPT,
no DSM. Ao mesmo tempo, explodia o interesse do público pelo assunto.
Em 1974, o Comprehensive Textbook of Psychiatry (Manual completo de
psiquiatria), de Freedman e Kaplan, a rmava que “o incesto era raríssimo, e
seu índice de ocorrência não ultrapassa um caso para cada grupo de 1,1
milhão de pessoas”.16 Como apontei no capítulo 2, esse conceituado
compêndio louvava, então, os possíveis benefícios do incesto: “Essa
atividade incestuosa reduz a chance de psicose por parte da paciente e
permite um melhor ajuste ao mundo externo […]. A experiência não
agravou em nada o estado da grande maioria delas.”
O crescimento do movimento feminista e a percepção do trauma em
veteranos que voltavam do Vietnã revelaram o absurdo dessas a rmativas ao
estimular dezenas de milhares de vítimas de abuso sexual infantil, violência
doméstica e estupro a compartilhar suas experiências. Formaram-se grupos
de conscientização e de vítimas, e vários livros de sucesso, entre os quais e
Courage to Heal (Coragem para se curar), de 1988, de Ellen Bass e Laura
Davis, best-seller de autoajuda destinado a vítimas de incesto, e Trauma and
Recovery (Trauma e recuperação), de 1992, de Judith Herman, examinaram
com fartura de detalhes os estágios de tratamento e recuperação.
Acautelado pelos exemplos da História, comecei a me perguntar se não
estaríamos às vésperas de outra negação da realidade do trauma, como em
1895, 1917 e 1947. E o que eu temia aconteceu: no início da década de 1990
começaram a surgir em muitos jornais e revistas de prestígio, nos Estados
Unidos e na Europa, artigos a respeito de uma suposta Síndrome da Falsa
Memória, que levaria pacientes psiquiátricos a forjar, com muitos
pormenores, falsas lembranças de abuso sexual, que, antes de ser
recuperadas, teriam estado reprimidas durante muitos anos.
O que saltava aos olhos nesses artigos era a certeza com que se declarava
não haver nenhum indício de que as pessoas lembram do trauma de modo
diferente de como lembram de fatos corriqueiros. Recordo com clareza o telefonema que recebi de uma conhecida revista semanal de Londres;
pretendiam publicar um artigo sobre a lembrança traumática na edição
seguinte e o jornalista me perguntou se eu queria fazer algum comentário
sobre o assunto. Entusiasmado, respondi que a perda de memória de eventos
traumáticos tinha sido estudada pela primeira vez na Inglaterra, mais de um
século antes. Falei do trabalho de John Erich Erichsen e Frederic Myers
sobre acidentes ferroviários nas décadas de 1860 e 1870, e dos amplos
estudos de Charles Samuel Myers e W. H. R. Rivers com soldados da
Primeira Guerra Mundial que apresentavam problemas de memória. Sugeri
ainda que consultasse um artigo publicado na revista e Lancet em 1944,
sobre a retirada de todo o Exército britânico das praias de Dunquerque em
1940. Depois da evacuação, mais de 10% dos soldados manifestaram grave
perda de memória. 17 Na semana seguinte, a revista informava a seus leitores
que não havia qualquer prova de que às vezes as pessoas perdiam, em todo
ou em parte, a memória de fatos traumáticos.
A questão da lembrança retardada do trauma não era particularmente
controversa quando esse fenômeno foi descrito pela primeira vez, por Myers
e Kardiner, em seus livros sobre neuroses de combate na Primeira Guerra
Mundial. Uma grave perda de memória foi observada depois da retirada de
Dunquerque, assim como quando escrevi sobre veteranos do Vietnã ou a
respeito da sobrevivente do incêndio da boate Cocoanut Grove. No entanto,
na década de 1980 e começo da década de 1990, problemas de memória
análogos passaram a ser documentados em mulheres e crianças no contexto
de abuso doméstico. Os esforços das vítimas para buscar a condenação dos
supostos perpetradores desses abusos transferiram a questão, até então
restrita à ciência, para o campo da política e do direito. Foi nesse contexto
que vieram à tona os escândalos de pedo lia na Igreja Católica, responsáveis
por transformar tribunais de muitos estados americanos e, mais tarde, da
Europa e da Austrália, em arenas onde especialistas em memória se
digladiavam.
Peritos que depunham a favor da Igreja alegavam que as lembranças de
abuso sexual na infância eram, na melhor das hipóteses, duvidosas, e que as
queixas das supostas vítimas provavelmente resultavam de falsas lembranças
implantadas em suas mentes por terapeutas muito complacentes, crédulos
ou movidos por interesses próprios. Naquele período, examinei mais de cinquenta adultos que, tal como Julian, lembravam de ter sido molestados
por padres. As a rmações dessas pessoas foram rejeitadas em cerca de
metade dos casos.
A CIÊNCIA DA LEMBRANÇA REPRIMIDA
Centenas de estudos cientí cos, publicados ao longo de bem mais de um
século, documentam que, na verdade, a lembrança do trauma pode ser
reprimida, mas volta a a orar anos ou décadas depois.18 A perda de
memória foi relatada no caso de pessoas que passaram por desastres
naturais, acidentes, trauma de guerra, sequestro, tortura, campos de
concentração ou abuso físico e sexual. A perda total de memória é mais
comum em casos de abuso sexual infantil, com uma incidência que varia de
19% a 38%. 19 Essa questão não é particularmente controversa. Já em 1980, o
DSM- admitia nos critérios de diagnóstico de amnésia dissociativa a perda
de memória de eventos traumáticos: “Incapacidade de recordar informações
pessoais importantes, em geral de natureza traumática ou estressante, numa
amplitude grande demais para ser explicada por esquecimento normal.” A
perda de memória faz parte dos critérios para TEPT desde a criação do
diagnóstico.
Um interessantíssimo estudo sobre a repressão da lembrança foi iniciado
por Linda Meyer Williams no começo da década de 1970, quando fazia pós-
graduação em sociologia na Universidade da Pensilvânia. Williams
entrevistou 206 meninas, de 10 a 12 anos, que tinham dado entrada no
pronto-socorro depois de serem vítimas de abuso sexual. Os arquivos
médicos do hospital ainda conservam seus exames laboratoriais, assim
como as entrevistas com as crianças e seus pais. Dezessete anos depois, ela
conseguiu localizar 136 daquelas meninas, com as quais fez extensas
entrevistas de controle.20 Mais de um terço delas (38%) não se lembrava do
abuso documentado nos prontuários, enquanto 15 (12%) disseram que
nunca haviam sofrido abusos na infância. Mais de dois terços (68%)
relataram outros incidentes de abuso sexual quando meninas. As mulheres
com mais probabilidade de esquecer o abuso eram as mais novas na época
do ocorrido ou as que tinham sido molestadas por algum conhecido.
O estudo também examinou até que ponto as lembranças recuperadas
eram dignas de crédito. Uma em cada dez mulheres (16% das que
recordavam o abuso) relatou tê-lo esquecido em algum momento, porém
mais tarde o recordou. Comparadas às mulheres que sempre se lembraram
do incidente, as que o haviam esquecido em algum período eram as mais
novas na época do abuso e tinham menos probabilidade de receberem apoio
das mães. Linda Williams determinou também que as lembranças
recuperadas eram quase tão precisas quanto as que nunca haviam sido
perdidas. As recordações de todas as mulheres eram corretas em relação aos
fatos centrais do abuso, mas nenhum relato repetia todos os detalhes
documentados nos prontuários.21
As descobertas de Linda Williams são corroboradas por pesquisas
recentes de neurocientistas, segundo as quais, em geral, as reminiscências
recuperadas retornam ao banco de memórias, com modi cações.22
Enquanto uma lembrança está inacessível, a mente não tem como alterá-la.
Não obstante, assim que uma história começa a ser contada, sobretudo
quando é contada repetidas vezes, ela se altera – o próprio ato de contar
muda a narrativa. A mente não pode deixar de dar sentido ao que sabe, e o
sentido que damos à nossa vida altera os fatos que recordamos e como os
lembramos.
Em vista de tantas comprovações de que o trauma pode ser esquecido,
mas a orar anos depois, por que quase cem neurocientistas respeitáveis, de
diversos países, deram todo o apoio ao recurso de revisão criminal para
anular a condenação do padre Shanley, alegando que a ideia de “lembranças
reprimidas” se fundamentava em “ciência espúria”? Como a perda de
memória e a rememoração retardada de experiências traumáticas nunca
haviam sido documentadas em laboratório, alguns cientistas cognitivos
negaram com obstinação que esses fenômenos existissem23 ou que
lembranças traumáticas recuperadas pudessem ser corretas.24 Entretanto, o
que médicos veem em prontos-socorros, pavilhões psiquiátricos e campos
de batalha difere bastante do que cientistas observam em laboratórios
protegidos e organizados.
Vejamos, por exemplo, a situação conhecida como “perder-se no
shopping center”. Pesquisadores já demonstraram ser relativamente fácil
implantar lembranças de fatos que nunca ocorreram, como ter se perdido
num shopping quando criança. 25 Cerca de 25% das pessoas nesses estudos
mais tarde se “lembram” de carem assustadas e chegam a narrar detalhes
do episódio, mas essas rememorações nem chegam perto do terror visceral
que sentiria uma criança realmente perdida.
Outra linha de pesquisa documentou o potencial de falha do
testemunho ocular. Os pesquisadores mostravam às pessoas o vídeo de um
carro trafegando numa rua e depois lhes perguntavam se haviam visto uma
placa indicando parada obrigatória ou um sinal de trânsito. Crianças eram
perguntadas sobre o que estava vestindo um homem que havia visitado a
sala de aula. Outros experimentos de testemunho ocular demonstraram que
as perguntas feitas a testemunhas eram capazes de modi car o que elas
a rmavam recordar. Esses estudos foram importantes para questionar
muitos procedimentos em distritos policiais e tribunais, mas eram de pouca
relevância para a lembrança traumática.
O problema fundamental é o seguinte: situações que acontecem em
laboratório não podem ser consideradas equivalentes àquelas que
provocaram as lembranças traumáticas. O terror e a inevitabilidade
associados ao TEPT não podem ser reproduzidos em tal ambiente. É possível
estudar em laboratório os efeitos de traumas já existentes, como zemos em
nossos estudos roteirizados de ashbacks, mas a marca original do trauma
não pode ser gravada ali. O dr. Roger Pitman promoveu em Harvard um
experimento com estudantes universitários. Após terem assistido ao lme As
faces da morte, com cenas de mortes violentas e execuções tiradas de
cinejornais – lme hoje proibido em grande número de instituições e países,
pois mostra o máximo de violência admitido por qualquer órgão de
classi cação –, os espectadores voluntários recrutados por Pitman não
apresentaram sintomas de TEPT. Quem desejar estudar a lembrança
traumática terá de estudar as memórias de pessoas realmente traumatizadas.
Curiosamente, assim que diminuiu o clima de emoção e a lucratividade
dos depoimentos em juízo, a controvérsia “cientí ca” também desapareceu, e
os clínicos voltaram a cuidar dos estragos causados pela lembrança
traumática.
LEMBRANÇA NORMAL VERSUS LEMBRANÇA
TRAUMÁTICA
Em 1994, eu participei de um grupo de colegas do Hospital Geral de
Massachusetts que decidiu empreender um estudo sistemático comparando
recordações das pessoas sobre experiências, tanto agradáveis quanto
horrendas. Espalhamos em jornais de bairro, lavanderias automáticas e
quadros de avisos de grêmios estudantis anúncios que diziam: “Você já
passou por alguma experiência terrível que não consegue esquecer? Ligue
727-5500. Pagamos dez dólares por sua participação.” Em resposta ao
primeiro anúncio, apareceram 76 voluntários.26
Depois de nos apresentarmos, zemos a seguinte pergunta a cada um:
“Pode nos falar de um acontecimento que, em sua opinião, sempre será
lembrado, mas que não foi traumático?” Uma das voluntárias sorriu e
respondeu: “O nascimento de minha lha.” Outros mencionaram o dia do
casamento, jogar num time campeão ou ter sido o orador da turma do
colégio. A seguir, pedimos que se concentrassem em detalhes sensoriais
especí cos desses acontecimentos, como, por exemplo: “Já aconteceu de
você estar em algum lugar e, de repente, ter uma imagem vívida da
aparência de seu marido no dia do casamento?” As respostas foram sempre
negativas. Uma das perguntas provocou olhares atravessados: “Como você
se lembra do contato com o corpo de seu marido na noite de núpcias?”
Continuamos: “Você recorda com precisão o discurso que fez na
formatura?” “Já teve sensações intensas ao lembrar do nascimento de seu
primeiro lho?” As respostas foram todas negativas.
Perguntamos então sobre os traumas que os participantes tinham
trazido para o estudo – muitos eram estupros. “Você se lembra, às vezes, do
cheiro de seu estuprador?” “Você às vezes tem as mesmas sensações físicas
do momento em que foi estuprada?” Tais perguntas desencadeavam fortes
reações emocionais: “Por isso não consigo mais ir a festas, o cheiro de álcool
no hálito de alguém me dá a sensação de que meu corpo está sendo
violentado outra vez”, ou “Não consigo mais fazer sexo com meu marido,
pois, se ele me toca de determinado jeito, é como se eu estivesse sendo
estuprada outra vez”.
Havia duas diferenças importantes no modo como as pessoas falavam
sobre as recordações de experiências positivas ou traumáticas: 1) a forma
como as lembranças se organizavam; e 2) as reações físicas a elas.
Casamentos, nascimentos e formaturas eram lembrados como eventos do
passado, histórias com começo, meio e m. Ninguém disse que em certos
períodos se esquecera por completo desses acontecimentos.
Por outro lado, as lembranças traumáticas eram desorganizadas. Os
participantes recordavam muito bem certos detalhes (o cheiro do
estuprador, a ferida na testa de uma criança morta), mas não conseguiam
lembrar a sequência de eventos ou outros detalhes vitais (a primeira pessoa
que chegou para ajudar, se embarcaram numa ambulância ou num carro da
polícia).
Também perguntamos como eles se lembravam do trauma em três
momentos: logo após o evento; quando se sentiram mais perturbados pelos
sintomas; durante a semana antes do estudo. Todos disseram que logo
depois do episódio não conseguiam narrar o ocorrido a ninguém. (O que
não surpreende quem trabalha ou já trabalhou num pronto-socorro ou num
serviço de ambulâncias: pessoas que chegam depois de um acidente de carro
em que uma criança ou um amigo morreu se mantêm num silêncio
aturdido, emudecidas de terror.) Quase todos tinham ashbacks
reincidentes: sentiam-se atordoados por imagens, sons, sensações e
emoções. Com o tempo, mais detalhes sensoriais e sentimentos eram
ativados, e a maioria dos participantes passava a lhes dar algum sentido.
Começavam a “saber” o que sucedera e a ter condições de relatar o episódio
a outros, uma história do que chamamos “a lembrança do trauma”.
Aos poucos, as imagens e os ashbacks escasseavam, mas a melhora
maior ocorria na capacidade de concatenar os detalhes e a sequência do
acontecimento. Na época de nosso estudo, 85% dos participantes contavam
uma história coerente, com começo, meio e m. Poucos desses relatos
careciam de detalhes importantes. Percebemos que as narrativas dos cinco
voluntários que diziam ter sido vítimas de abuso quando crianças eram as
mais fragmentárias – as lembranças ainda vinham como imagens, sensações
e emoções intensas.
Em essência, nosso estudo con rmou o sistema duplo de memória que
Janet e seus colegas da Salpêtrière haviam descrito mais de cem anos antes:
as lembranças traumáticas eram fundamentalmente diferentes das histórias que contamos sobre o passado. São dissociadas: as sensações que entraram
em nosso cérebro por ocasião do trauma não se amalgamaram de forma
adequada numa história, num trecho de autobiogra a.
Talvez a constatação mais importante do estudo tenha sido que a
recordação de um trauma, com todos os seus comprometimentos
associados, não o resolve necessariamente, como Breuer e Freud a rmaram
em 1893. Nossa pesquisa não respaldou a ideia de que a linguagem pudesse
substituir a ação. A maioria dos voluntários era capaz de contar uma história
coerente e também experimentar a dor associada a essas histórias, mas eles
continuavam a ser assaltados por imagens e sensações físicas insuportáveis.
A pesquisa sobre o tratamento contemporâneo por exposição, o principal
elemento da terapia cognitivo-comportamental, teve resultados igualmente
desapontadores: a maioria dos pacientes tratados com esse método
continuava a apresentar severos sintomas de TEPT três meses depois de
encerrado o tratamento.27 Como se verá, encontrar palavras que descrevam
o que aconteceu pode ser conveniente, mas nem sempre acaba com os
ashbacks ou melhora a concentração, estimula o envolvimento na própria
vida ou reduz a hipersensibilidade a decepções e ao que se percebe como
agravo.
OUVINDO OS SOBREVIVENTES
Ninguém quer recordar o trauma. Nesse aspecto, a sociedade não difere das
próprias vítimas. Todos queremos viver num mundo seguro, controlável e
previsível, e as vítimas nos lembram que as coisas nem sempre se passam
assim. Para compreender o trauma, temos de superar nossa relutância
natural em confrontar aquela realidade e cultivar a coragem de ouvir os
testemunhos dos sobreviventes.
Em seu livro Holocaust Testimonies: e Ruins of Memory (Testemunhos
do Holocausto: As ruínas da memória), de 1991, Lawrence Langer escreve
sobre seu trabalho no Fortunoff Video Archive na Universidade Yale:
Ouvindo relatos sobre o Holocausto, trazemos à luz um mosaico de
evidências que somem o tempo todo em camadas intermináveis de
incompletude.28 Lutamos com os começos de uma história que não
acaba, repleta de intervalos incompletos, defrontando-nos com o
espetáculo de uma testemunha hesitante, que as solicitações
insuportáveis da memória profunda muitas vezes reduzem a um
silêncio dolorido.
Como diz uma de suas testemunhas, “se você não esteve lá, é difícil
descrever e dizer como era. Como os homens agem sob tal estresse é uma
coisa, mas comunicar e exprimir essa experiência para alguém que nunca
soube que esse grau de brutalidade existe parece uma fantasia”.
Outra sobrevivente, Charlotte Delbo, descreve sua existência dupla
depois de Auschwitz:
O “eu” que estava no campo não sou eu, não é a pessoa que está aqui,
diante de você. Não, é incompreensível demais. E tudo o que
aconteceu a esse outro “eu”, a pessoa que esteve em Auschwitz, não
diz mais respeito ao eu de agora, a mim, não tem nada a ver comigo,
tão diferentes são a memória profunda e a memória comum […].
Sem essa separação, eu não teria sido capaz de voltar à vida.29
Ela comenta que até as palavras têm um duplo sentido:
De outra forma, alguém [nos campos] que foi atormentado pela sede
durante semanas nunca mais seria capaz de dizer: “Estou com sede.
Vamos preparar uma xícara de chá”. Sede [depois da guerra] tornou-
se de novo um termo corrente. Por outro lado, se sonho com a sede
que sentia em Birkenau [as instalações de extermínio em
Auschwitz], eu me vejo como estava naquele tempo, emaciada,
destituída de raciocínio, cambaleante.30
Langer conclui com pungência:
Quem é capaz de encontrar para esses mosaicos feridos da mente um
túmulo adequado onde possam descansar? A vida continua, mas em
duas direções temporais ao mesmo tempo, cando o futuro incapaz
de escapar à pressão de uma memória carregada de dor.31
A essência do trauma consiste em ser esmagador, inacreditável e
insuportável. Cada paciente exige que suspendamos nossa percepção de
normalidade e aceitemos que estamos lidando com uma realidade dupla: a
realidade de um presente relativamente seguro e previsível que convive com
um passado desastroso.
A HISTÓRIA DE NANCY
Poucos pacientes expressaram essa dualidade de maneira tão vívida como
Nancy, chefe de enfermagem num hospital do Meio-Oeste que com
frequência vinha a Boston para se consultar comigo. Algum tempo após o
nascimento de seu terceiro lho, ela submeteu-se a um procedimento
rotineiro em pacientes de ambulatório: uma ligação tubária laparoscópica –
as trompas uterinas são cauterizadas para impedir uma futura gravidez.
Porém, por lhe ter sido administrada anestesia insu ciente, Nancy acordou
depois de iniciada a cirurgia e assim permaneceu quase até o m, às vezes
caindo no que ela chamou de “um sono leve” ou “um sonho”, às vezes
dando-se conta do horror da situação. Não tinha como alertar a equipe de
cirurgia mexendo-se ou gritando, pois recebera um relaxante muscular para
impedir contrações musculares durante a cirurgia.
Estima-se hoje que algum grau de “consciência anestésica” ocorra em
cerca de 30 mil pacientes de cirurgia nos Estados Unidos a cada ano, 32 e
antes disso eu já havia prestado depoimento em juízo em favor de várias
pessoas que tinham cado traumatizadas ao viver experiências dessa
natureza. Nancy, porém, não queria processar o cirurgião ou o anestesista.
Só desejava trazer à consciência a realidade do trauma, a m de poder se
libertar dele. Eu gostaria de encerrar este capítulo citando vários trechos de
uma série de e-mails em que ela descreveu sua torturante jornada até a
recuperação.
No começo, Nancy não sabia o que lhe acontecera.
Quando voltamos para casa, eu ainda estava atordoada, fazendo as
tarefas típicas de uma dona de casa, mas sem sentir, de verdade, que
estava viva ou que era real. Naquela noite tive di culdade para
dormir. Durante dias permaneci em meu próprio mundinho
desconectado. Não podia usar o secador de cabelo, a torradeira, o
fogão, qualquer coisa que esquentasse. Não conseguia me concentrar
no que as pessoas estavam fazendo ou me dizendo. Não me
importava com nada. Estava cada vez mais ansiosa. Dormia cada vez
menos. Sabia que estava me comportando de forma estranha e só
queria entender o que me assustava tanto.
Na quarta noite depois da operação, por volta das três da manhã,
comecei a me dar conta de que o sonho em que eu vivia o tempo
todo se relacionava às conversas que eu tinha ouvido na sala de
cirurgia. De repente fui transportada de volta àquele ambiente e senti
meu corpo paralisado queimando. Estava presa num mundo de
terror e horror.
A partir daí, disse Nancy, sua vida passou a ser invadida por memórias e
ashbacks.
Era como se a porta se abrisse um pouquinho, permitindo a
intrusão. Havia uma mistura de curiosidade e fuga. Eu continuava a
ter medos irracionais. Sentia um medo mortal de dormir; tinha uma
sensação de terror ao ver a cor azul. Meu marido, infelizmente,
arcava com as piores consequências de minha doença. Eu me
zangava com ele, embora não o quisesse. Dormia no máximo de
duas a três horas, e a vigília era tomada por horas de ashbacks.
Mantinha-me cronicamente hiperalerta, sentindo-me ameaçada por
meus próprios pensamentos e querendo fugir deles. Perdi dez quilos
em três semanas. As pessoas comentavam sobre minha aparência o
tempo todo.
Comecei a pensar em morrer. Passei a ter uma visão muito
distorcida da minha vida, todos os meus êxitos diminuíam e velhos
fracassos eram ampliados. Eu estava ferindo meu marido e já não
podia proteger meus lhos de minha raiva.
Três semanas depois da cirurgia, retomei o trabalho no hospital. A
primeira vez que vi alguém com uma roupa cirúrgica foi no elevador.
Quis sair dali no mesmo instante, mas é claro que não podia. Então
fui invadida pela vontade irracional de agredir aquela pessoa, e só
me contive com muito esforço. Esse episódio desencadeou cada vez
mais ashbacks, terror e dissociação. Ao voltar para casa, chorei o
tempo todo. Depois disso, me aperfeiçoei em atitudes de fuga. Jamais
pisava num elevador, nunca ia à lanchonete, evitava os andares
cirúrgicos.
Aos poucos, Nancy conseguiu juntar seus ashbacks e criar uma
lembrança compreensível, ainda que medonha, de sua cirurgia. Recordou as
palavras tranquilizadoras das enfermeiras da sala de cirurgia e um breve
período de sono depois de iniciado o efeito da anestesia. Então lembrou
como começou a acordar.
Toda a equipe estava rindo do namoro de uma das enfermeiras. Senti
o toque do bisturi, depois o corte, e a seguir o sangue quente
escorrendo em minha pele. Tentei desesperadamente me mexer,
falar, mas meu corpo não reagia. Não conseguia entender o que
ocorria. Senti uma dor mais profunda, das camadas de músculos se
separando por sua própria tensão. Eu sabia que não deveria sentir o
que estava sentindo.
Nancy lembrou-se em seguida de alguém “remexendo” em sua barriga e
identi cou os movimentos como a inserção de instrumentos laparoscópicos.
Sentiu sua trompa esquerda ser pinçada.
De repente senti uma dor intensa de queimação. Tentei fugir, mas a
ponta do cautério me perseguia, queimando sem parar. Não existem
palavras para descrever o terror dessa experiência. Essa dor não
estava no mesmo campo de outras que eu tinha sentido e superado,
como as de um osso quebrado ou do parto natural. Ela começa como
uma dor extrema, depois continua, incessante, à medida que vai
queimando a trompa. A dor de ser cortada com o bisturi empalidece
diante desse sofrimento atroz.
Aí, de repente, a trompa direita sentiu o impacto da ponta
cauterizante. Ao ouvir o pessoal rir, por algum tempo perdi a noção
de onde estava. Pensei estar numa sala de tortura, e não entendia por
que me torturavam e não pediam a informação que queriam […].
Meu mundo se reduziu a uma pequena esfera em torno da mesa de
operação. Fiquei sem noção de tempo, de passado, de futuro. Só
existia dor, terror e horror. Eu me sentia isolada da humanidade,
profundamente só, apesar de cercada de tanta gente. A esfera se
fechava a meu redor.
Em minha agonia, devo ter feito algum movimento. Escutei a
enfermeira da anestesia dizer ao anestesiologista que eu estava “leve”.
Ele ordenou mais anestesia e, em seguida, disse à meia-voz: “Não é
preciso pôr nada disso na cha.” Essa foi a última lembrança que
recuperei.
Em e-mails posteriores que me mandou, Nancy lutava para capturar a
realidade existencial do trauma.
Quero lhe descrever como é um ashback. É como se o tempo se
dobrasse ou se deformasse, de modo que passado e presente se
fundem, por assim dizer, como se eu fosse transportada sicamente
ao passado. Os símbolos relacionados ao trauma original, por mais
benignos que sejam na realidade, estão totalmente contaminados e,
por isso, se tornam objetos a ser odiados, temidos, se possível
destruídos; no mínimo, evitados. Por exemplo, um ferro de qualquer
tipo – um brinquedo, um ferro de passar ou uma chapinha de cabelo
– passa a ser visto como um instrumento de tortura. Cada vez que
via uma roupa cirúrgica eu cava à parte da realidade, confusa,
sicamente doente, e, às vezes, conscientemente furiosa.
Meu casamento está se deteriorando aos poucos – meu marido
passou a representar as pessoas sem coração que riam [a equipe
cirúrgica] e que me magoaram. Eu existo num estado duplo. Uma
apatia generalizada me cobre com uma manta. No entanto, o toque
de uma criancinha me traz de volta ao mundo. Por um momento,
estou presente e sou parte da vida, não mera observadora.
Curiosamente, vou muito bem no trabalho e o tempo todo recebo
avaliações positivas. A vida continua, com seu clima de falsidade.
Essa existência dupla é estranha, bizarra. Eu me canso dela.
Entretanto, não posso desistir da vida, não posso me iludir e
acreditar que basta ignorar a fera para que ela vá embora. Muitas
vezes acreditei que lembrava tudo a respeito da cirurgia, só para
descobrir mais uma coisa nova.
São muitos os trechos daqueles 45 minutos de minha vida que
permanecem desconhecidos. Minhas lembranças ainda estão
incompletas e fragmentadas, mas já não penso que preciso saber de
tudo para compreender o que aconteceu.
Quando o medo diminui, eu me dou conta de que posso lidar com
ele, embora parte de mim duvida que eu consiga. O chamado para o
passado é forte; é o lado negro de minha vida; tenho de morar ali de
vez em quando. A luta também pode ser uma forma de saber que
sobrevivi – uma reprodução da luta para sobreviver, uma luta que
aparentemente ganhei, mas não posso admitir.
Nancy precisou submeter-se a outra operação, esta de maior porte.
Escolheu fazê-la num hospital de Boston; convocou uma reunião prévia
com os cirurgiões e o anestesista para expor sua experiência anterior, e
pediu permissão para que eu casse na sala de cirurgia. Pela primeira vez
em muitos anos vesti um traje cirúrgico e a acompanhei enquanto a
anestesia era administrada. Dessa vez, ela acordou com uma sensação de
segurança.
Dois anos depois, escrevi a ela pedindo autorização para usar seu relato
de consciência anestésica. Nancy respondeu, me atualizando quanto ao
progresso de sua recuperação:
Eu gostaria de poder dizer que a cirurgia a que o senhor teve a
bondade de me acompanhar encerrou meus sofrimentos.
Infelizmente, não foi o caso. Depois de mais ou menos seis meses,
tomei duas decisões que se mostraram providenciais. Deixei meu
terapeuta cognitivo-comportamental e procurei um psiquiatra de
linha psicodinâmica; também me matriculei em aulas de pilates.
No último mês de terapia, perguntei a meu psiquiatra por que ele
não tentava me curar como todos os outros haviam tentado, em vão.
Ele disse que partira do princípio de que eu, como fora capaz de
cuidar de meus lhos e de minha carreira, tinha resiliência su ciente
para me curar sozinha desde que se criasse um ambiente protegido.
Aquela hora, a cada semana, se tornou um refúgio no qual eu podia
desvendar o mistério de como cara tão lesionada e, depois, havia
reconstruído uma ideia sobre mim mesma que era una, não
fragmentada; pací ca, não atormentada. Com o pilates, encontrei
um núcleo físico mais forte, assim como o encontrei numa
comunidade de mulheres que de bom grado me deram uma
aceitação e um apoio social que estavam distantes de minha vida
desde o trauma. Essa combinação de fortalecimento – psicológico,
social e físico – proporcionou uma sensação de segurança pessoal e
domínio, relegando minhas lembranças para o passado distante,
permitindo que emergissem o presente e o futuro.
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