O corpo guarda as marcas

Bessel van der Kolk · Capítulo 16 de 28

Páginas do PDF

O corpo guarda as marcas

15. Desfazendo-se do passado: a emdr

15

 

DESFAZENDO-SE DO PASSADO:

 

A EMDR

 

Terá sido uma visão? Um devaneio?

Calou-se a música:

– Estou desperto ou durmo?

 

John Keats

 

D avid, empreiteiro de meia-idade, me procurou porque seus violentos ataques de raiva estavam fazendo de sua vida um inferno. Na primeira sessão, contou um incidente que lhe acontecera num verão, quando tinha 23

anos. Trabalhava como salva-vidas, e certa tarde um grupo de garotos fazia

algazarra na piscina e tomava cerveja. Ele lhes disse que bebidas alcoólicas

não eram permitidas ali e então os garotos o agrediram e um deles lhe

arrancou o olho esquerdo com uma garrafa quebrada. Trinta anos depois,

ele ainda tinha pesadelos e ashbacks relacionados ao incidente.

Dizia ser impiedoso em suas críticas ao lho adolescente, com quem

costumava gritar à mais ligeira infração, e não conseguia demonstrar

qualquer sinal de afeto pela esposa. Em algum nível, julgava que a trágica

perda do olho o autorizava a tratar mal os outros, mas também odiava a

pessoa raivosa e vingativa em que se transformara. Suas tentativas de

dominar a raiva o deixavam cronicamente tenso, e ele se perguntava se o medo de perder o controle não estaria tornando impossível que

demonstrasse amor e amizade.

Na segunda sessão, comecei a usar um procedimento chamado

dessensibilização e reprocessamento por movimentos oculares (EMDR). Pedi-

lhe para contar de novo os detalhes da agressão e que se xasse nas imagens

do ataque, nos sons que ouvira e nos pensamentos que lhe passaram pela

mente. “Deixe que aqueles momentos retornem”, recomendei.

Em seguida, instruí-o a acompanhar meu dedo indicador enquanto eu o

movia devagar, de um lado para outro, a uma distância de mais ou menos 30

centímetros de seu olho direito. Daí a segundos, veio à tona uma torrente de

raiva e terror, junto com vívidas sensações de dor, de sangue escorrendo

pelo rosto, ao mesmo tempo que ele se dava conta de que não conseguia

enxergar. À medida que ele relatava essas sensações, eu fazia alguns sons de

incentivo e continuava a movimentar o dedo de um lado para outro. De vez

em quando, passados alguns minutos, eu parava e lhe dizia para respirar

fundo. Depois lhe pedi para prestar atenção ao que estava agora em sua

mente. Era uma briga que ele tivera na escola. Disse-lhe para se xar nessa

briga e não se esquecer disso. Vieram outras lembranças, aparentemente

aleatórias: procurava seus agressores por toda parte, desejava feri-los, metia-

se em brigas de bar. Toda vez que ele relatava uma nova lembrança ou

sensação, eu o instava a observar o que acorria à sua mente e retomava os

movimentos com o dedo.

No m daquela sessão, David parecia mais calmo e seu alívio era visível.

A lembrança da agressão perdera a intensidade – agora era um troço

desagradável que ocorrera havia muito tempo. “Aquilo foi mesmo ruim”,

disse, pensativo, “e me deixou transtornado durante anos, mas co surpreso

com a vida boa que acabei construindo”.

Na semana seguinte, falamos sobre as consequências do trauma: David

tinha usado drogas e bebido durante anos para enfrentar a raiva. Repetimos

as sequências da EMDR, mais lembranças a oraram. Ele se lembrou de uma

conversa com um guarda penitenciário conhecido seu, para tramar a morte

de seu agressor, àquela altura preso, mas depois mudou de ideia. Recordar

essa decisão teve um profundo efeito liberador. David se julgava um

monstro desde que tramara a tentativa de vingança, porém a lembrança de

que havia desistido o reconectou a seu lado ponderado e generoso.

Em seguida ele percebeu, espontaneamente, que estava tratando o lho

como se ele fosse um dos agressores adolescentes. Pouco antes do m da

sessão, David perguntou se eu me encontraria com ele e sua família, de

modo que conseguisse contar ao lho o que havia acontecido e lhe pedir

perdão. Em nossa quinta e última sessão, informou que estava dormindo

melhor e que, pela primeira vez na vida, tinha uma sensação de paz interior.

Um ano depois, me visitou para dizer que não só ele e a mulher estavam

mais próximos e tinham começado a fazer ioga juntos, como ele ria mais e

sentia prazer verdadeiro com a jardinagem e a marcenaria.

 

MINHA APRESENTAÇÃO À EMDR

 

A terapia de David foi uma das muitas, ao longo das duas últimas décadas,

em que me servi do método EMDR para eliminar recriações penosas do

trauma. Vim a conhecer essa técnica por meio de Maggie, psicóloga jovem e

severa, diretora de um centro de reabilitação para adolescentes vítimas de

abuso sexual. Ela entrava num confronto atrás do outro, discutindo com

quase todo mundo – com exceção das jovens de 13 ou 14 anos de quem

cuidava. Maggie usava drogas, tinha namorados perigosos e muitas vezes

violentos, batia boca com frequência com os chefes e vivia mudando de casa,

pois não tolerava os colegas de apartamento (o desafeto era recíproco). Eu

não entendia como ela conseguira mobilizar estabilidade e concentração

para se doutorar em psicologia numa instituição de renome.

Maggie foi encaminhada a um grupo de terapia que eu formara para

mulheres com problemas semelhantes. Em sua segunda sessão, ela nos

contou que o pai a estuprara duas vezes: aos 5 e aos 7 anos. Estava

convencida de que a culpa fora dela. Adorava o pai, explicou, e devia ter se

mostrado tão sedutora que ele não teve como se controlar. Ouvindo-a falar,

pensei: “Ela não consegue culpar o pai, mas com certeza está culpando

praticamente todo mundo.” Inclusive seus terapeutas anteriores, por não a

ajudarem a melhorar. Como muitos traumatizados, ela contava uma história

com palavras e outra com seu corpo, que não parava de reproduzir aspectos

de seu trauma.

Um dia ela chegou à sessão ansiosa por falar de uma experiência notável

que tivera no m de semana anterior num curso de EMDR para pro ssionais.

Na época, eu só tinha ouvido dizer que a técnica era um novo modismo em

que os terapeutas mexiam os dedos diante dos olhos dos pacientes. Para

mim e meus colegas, a tal EMDR parecia apenas mais uma das práticas

passageiras que sempre foram a praga da psiquiatria, e me convenci de que

aquilo seria outra aventura malsucedida de Maggie.

Ela nos disse que, durante sua sessão de EMDR, recordara vivamente o

segundo estupro que sofrera – lembrou do pai dentro de seu corpo infantil.

De como tinha sentido sicamente o quanto era pequena, o corpo imenso

do pai e o cheiro de álcool. No entanto, contou, mesmo enquanto revivia o

incidente, foi capaz de observá-lo do ponto de vista de seu self de 29 anos.

Rompeu em lágrimas: “Eu era uma menininha. Como um homenzarrão

daquele pôde fazer aquilo com uma criança?” Maggie chorou durante algum

tempo e depois disse: “Agora acabou. Sei o que aconteceu. Não foi culpa

minha. Eu era pequena e não havia nada que eu pudesse fazer para evitar

que ele me molestasse.”

Fiquei estupefato. Fazia muito tempo que eu vinha procurando uma

maneira de ajudar as pessoas a revisitar seu passado traumático sem que se

traumatizassem de novo. Ao que tudo indicava, Maggie vivera uma

experiência muito realista como um ashback, mas não fora sequestrada por

ela. Por acaso a EMDR permitiria que as pessoas tivessem acesso, com

segurança, às marcas do trauma? Poderia a EMDR converter essas impressões

em lembranças de fatos ocorridos havia muito tempo?

Maggie fez mais algumas sessões de EMDR e permaneceu em nosso grupo

tempo su ciente para percebermos como estava mudada. Era visível a

atenuação de sua fúria, ainda que conservasse o senso de humor sardônico

que eu tanto apreciava. Meses depois, envolveu-se com um homem muito

diferente daqueles que até então a atraíam. Deixou o grupo, declarando que

tinha resolvido seu trauma. Quanto a mim, decidi que estava na hora de

procurar treinamento em EMDR.

 

PRIMEIROS CONTATOS COM A TERAPIA EMDR

Como tantos avanços cientí cos, a EMDR teve origem numa observação

casual. Um dia, em 1987, a psicóloga Francine Shapiro caminhava num

parque, irritada com certas lembranças dolorosas, quando notou que

movimentos oculares rápidos lhe traziam um intenso alívio. Como pôde um

importante método terapêutico surgir de uma observação tão fortuita?

Como era possível um processo tão simples não ter sido notado antes? De

início cética em relação ao que havia percebido, ela submeteu sua técnica a

anos de experimentação e pesquisa, transformando-a aos poucos num

procedimento padrão passível de ser ensinado, bem como testado em

estudos controlados. 1

Quando comecei o treinamento, eu estava mesmo precisando processar

um trauma. Semanas antes, o padre jesuíta que presidia meu departamento

no Hospital Geral de Massachusetts decidira, de uma hora para outra, fechar

a Clínica de Trauma, obrigando-nos a correr para conseguir novo local e

novos recursos com os quais tratar os pacientes, treinar os alunos e levar

adiante as pesquisas. Mais ou menos na mesma época, meu amigo Frank

Putnam, que estava à frente do estudo a longo prazo (que mencionei no

capítulo 10), sobre meninas vítimas de abusos sexuais, foi demitido dos

Institutos Nacionais de Saúde, enquanto Rick Klu , o mais destacado

especialista em dissociação nos Estados Unidos, perdia sua unidade no

Instituto do Hospital da Pensilvânia. Talvez tudo não passasse de

coincidência, mas para mim era como se todo o meu mundo estivesse sob

ataque.

Minha consternação pela dissolução da Clínica de Trauma me pareceu

um bom teste para me apresentar ao EMDR. Enquanto acompanhava com os

olhos os dedos de meu parceiro, veio-me à mente uma rápida sucessão de

cenas difusas da infância: animadas conversas à mesa do jantar, brigas com

colegas de escola no recreio, eu e meu irmão mais velho atirando pedras

contra a janela de um galpão – o tipo de imagens “hipnopômpicas”, vívidas e

fugidias, que nos ocorrem no estado de sonolência numa manhã de

domingo, quando nos levantamos numa hora mais tarde que de costume, e

das quais esquecemos assim que acordamos por completo.

Passada mais ou menos meia hora, meu companheiro e eu revisitamos a

cena em que meu chefe dera a notícia de que estava fechando minha clínica.

Agora me senti resignado: “Ok, isso aconteceu, é hora de ir em frente.” Não olhei mais para trás. Algum tempo depois, a clínica se reconstituiu e tem

crescido desde então. Seria a EMDR a única razão para eu ter me livrado da

raiva e da mágoa? É claro que nunca saberei ao certo, mas minha jornada

mental – através de cenas de infância que nada tinham a ver com a clínica,

até a pá de cal que deitei sobre o episódio de seu m – foi diferente de

qualquer experiência que eu já tivera na terapia pela palavra.

O que aconteceu em seguida, quando chegou minha vez de aplicar a

EMDR , foi ainda mais misterioso. Houve um rodízio das pessoas e coube-me

como parceiro um sujeito que eu não conhecia, que pretendia abordar

alguns incidentes dolorosos da infância envolvendo seu pai, mas que não

queria falar sobre eles. Antes disso, eu nunca havia tentado resolver o

trauma de alguém sem conhecer “a história” e me senti irritado e

desconcertado com sua recusa em me dar alguma informação. Enquanto eu

mexia os dedos diante de seus olhos, ele parecia passar por uma agonia,

começou a soluçar e sua respiração cou acelerada e super cial. Contudo,

toda vez que eu lhe dirigia as perguntas que o protocolo determinava, ele se

recusava a abrir a boca.

Terminada nossa sessão de 45 minutos, a primeira frase que ouvi desse

colega foi que o trabalho comigo tinha sido tão desagradável que ele nunca

me enviaria um paciente. Por outro lado, declarou, a sessão de EMDR tinha

resolvido a questão do abuso perpetrado por seu pai. Embora eu me

mantivesse cético e suspeitasse de que a rudeza dele comigo fosse um

resquício de sentimentos não resolvidos em relação ao pai, não havia como

negar que ele parecia bem mais relaxado.

Procurei meu instrutor de EMDR, Gerald Puk, e comentei o quanto cara

atordoado. Era evidente que meu parceiro não gostara de mim e pareceu

estar profundamente agoniado durante a sessão. No entanto, quando

acabamos, ele disse que os sofrimentos que o atormentaram por tanto

tempo haviam chegado ao m. Como eu poderia saber o que ele tinha (ou

não tinha) resolvido se não me dizia o que acontecera durante a sessão?

Gerry sorriu e perguntou se por acaso eu me tornara um pro ssional de

saúde mental com o objetivo de solucionar problemas pessoais. Con rmei

que a maioria das pessoas que me conheciam endossavam esse julgamento.

Em seguida, ele me perguntou se eu considerava signi cativo que as pessoas

me contassem suas histórias de trauma. Mais uma vez, respondi que sim.

Gerry então disse:

Sabe, Bessel, talvez você precise aprender a conter suas tendências

voyeuristas. Se para você é importante ouvir histórias de trauma, por

que não vai a um bar, põe uns dólares no balcão e diz a seu vizinho

de mesa: “Eu lhe pago uma bebida se você me contar sua história de

trauma”? Entretanto, você precisa realmente saber a diferença entre

seu desejo de ouvir histórias e o processo interno de cura de seus

pacientes.

 

Re eti seriamente a respeito da censura de Gerry e desde então gosto de

contá-la a meus alunos.

Saí do treinamento em EMDR muito absorto em três questões que até

hoje me fascinam:

 

A EMDR destrava na mente/cérebro algo que dá aos pacientes acesso

rápido a memórias e imagens do passado, frouxamente associadas. Isso

parece ajudá-los a pôr a experiência traumática num contexto ou

perspectiva de maior amplitude.

O trauma pode ser curado sem que os pacientes falem sobre ele. A

EMDR lhes permite observar suas experiências de uma nova forma, sem

relação recíproca verbal com outra pessoa.

A EMDR pode ser útil mesmo que o paciente e o terapeuta não tenham

uma relação de con ança um com o outro. Isso é particularmente

interessante porque o trauma, como é compreensível, quase nunca

deixa as pessoas com o coração aberto e con ante.

 

Desde então, e estou me referindo a um período de muitos anos, tenho

aplicado a EMDR em pessoas cujo idioma nativo é suaíli, mandarim e bretão,

línguas que só me permitem dizer “Registre isso”, a principal instrução do

método. (Sempre contei com um tradutor, mas basicamente para explicar os

passos do processo.) Como não exige que os pacientes falem sobre o

intolerável ou expliquem ao terapeuta por que se sentem tão perturbados, a

EMDR permite que eles se mantenham plenamente concentrados em sua

experiência interna, às vezes com resultados extraordinários.

 

APROFUNDAMENTO EM EMDR

A Clínica de Trauma foi salva por um gerente do Departamento de Saúde

Mental de Massachusetts que havia acompanhado nosso trabalho e agora

nos pedia para organizar a equipe comunitária de resposta ao trauma na

área de Boston. Tal tarefa bastava para cobrir nossas operações básicas,

enquanto o resto cava a cargo de um grupo ativo que adorava o que

fazíamos – inclusive o recém-descoberto poder da EMDR para curar

pacientes que antes não tínhamos conseguido ajudar.

Meus colegas e eu começamos a mostrar uns aos outros lmagens de

sessões de EMDR com pacientes de TEPT, o que nos permitia observar

melhoras espetaculares de semana para semana. Então passamos a medir

formalmente o progresso de cada um numa escala convencional de

classi cação de TEPT. Conseguimos também com Elizabeth Matthews, jovem

especialista em neuroimagens do Hospital Deaconess, da Nova Inglaterra,

que o cérebro de doze pacientes fosse tomografado antes e depois do

tratamento. Após apenas três sessões, oito deles já apresentavam queda

acentuada em sua pontuação na escala de TEPT. Suas tomogra as indicavam

um nítido aumento da ativação do lobo pré-frontal depois do tratamento,

assim como muito mais atividade no cingulado anterior e nos gânglios

basais. Essas alterações podiam explicar a diferença obtida na atitude deles

em relação ao trauma.

Um homem declarou: “Eu me recordo do episódio como uma lembrança

real, porém mais distante. Normalmente, eu me afogava nessas memórias,

mas agora co utuando numa boa. Tenho a sensação de estar no controle.”

Uma mulher disse: “Antes, eu sentia cada momento daquilo. Agora, o que

aconteceu é um todo completo, em vez de fragmentos, de modo que ca

mais fácil controlar.” O trauma tinha perdido seu imediatismo e se tornado a

história de um fato acontecido havia muito tempo.

Mais tarde, obtivemos verbas do NIMH para comparar a EMDR com a

prescrição de Prozac ou um placebo.2 De 88 pacientes, trinta foram tratados

com EMDR, 28 com Prozac e o restante com placebo. Como muitas vezes

acontece, estes últimos se saíram bem. Depois de oito semanas, a melhora de

42% foi superior à obtida por eles com muitos outros tratamentos

anunciados como “baseados em evidências”.

Os que tomaram Prozac apresentaram resultados melhores que os do

grupo do placebo, mas não muito. É o que em geral acontece nos estudos sobre o tratamento do TEPT com drogas. A simples participação na pesquisa

gera uma melhora de 30% a 42%; quando os medicamentos fazem efeito, os

resultados têm um adicional de 5% a 15%. Todavia, os pacientes tratados

com EMDR melhoraram bem mais do que os que tomaram Prozac ou

placebo: depois de oito sessões de EMDR, 25% estavam totalmente curados

(suas pontuações na escala de TEPT caíram a níveis desprezíveis). Contudo, a

diferença mais signi cativa ocorreu ao longo do tempo. Passados oito meses,

60% dos pacientes tratados com EMDR estavam inteiramente curados. Como

disse o famoso psiquiatra Milton Erickson, assim que se chuta uma tora, os

troncos começam a descer rio abaixo. Ao integrarem suas lembranças, as

pessoas começaram a melhorar de forma espontânea. No entanto, todos os

pacientes tratados com Prozac tiveram uma recaída assim que deixaram de

tomar o medicamento.

O estudo foi importante por demonstrar que uma terapia como a EMDR,

focada no TEPT e especí ca para ele, era muito mais e caz do que medicação.

Outros estudos con rmaram que se os pacientes tomam Prozac ou

substâncias correlatas, como Celexa, Paxil e Zolo , muitas vezes melhoram

dos sintomas, mas só enquanto a medicação é mantida; portanto, tratar com

remédios é muito mais caro a longo prazo. (É curioso que, embora o Prozac

seja visto como um importante antidepressivo, em nosso estudo a EMDR

produziu também maior redução em pontuações de depressão do que ele.)

Outra das principais constatações desse estudo: adultos com histórico de

trauma infantil responderam à EMDR de maneira muito diferente dos que se

traumatizaram já na idade adulta. Ao m de oito semanas de tratamento

com EMDR, quase 50% do grupo de traumatizados na idade adulta estavam

completamente curados, enquanto apenas 9% do grupo de abuso na infância

havia se curado. Oito meses depois, o índice de cura era de 73% para o

grupo de trauma adulto, contra 25% do grupo de trauma infantil. Quanto ao

Prozac, o grupo de abuso na infância apresentava respostas modestas, mas

consistentemente positivas.

Tais resultados corroboram as conclusões mencionadas no capítulo 9: o

abuso infantil crônico causa adaptações mentais e biológicas muito

diferentes das geradas por eventos traumáticos isolados na vida adulta. A

EMDR é uma terapia bastante e caz para lembranças traumáticas

emperradas, mas não resolve necessariamente os efeitos da traição e do

abandono que acompanham o abuso físico ou sexual na infância. Oito semanas de terapia de qualquer tipo raramente bastam para resolver o

legado de um trauma antigo.

Em 2014, nenhum estudo sobre o tratamento com EMDR de vítimas de

TEPT em reação a um evento traumático na vida adulta mostrava resultados

melhores do que o nosso. Todavia, apesar desses resultados e de dezenas de

outros estudos, muitos colegas continuam céticos em relação à EMDR – talvez

porque o método pareça bom demais para ser verdade, simples demais para

ser tão e ciente. Entendo esse tipo de ceticismo, a nal a EMDR é um

procedimento insólito. Lembro que no primeiro estudo cientí co sério sobre

o emprego da técnica em veteranos de combate, esperava-se que ela desse

resultados tão pí os que só foi incluída como condição de controle para

comparação com terapia de relaxamento com biofeedback. Para surpresa dos

pesquisadores, doze sessões de EMDR se mostraram o tratamento mais

e caz.3 Desde então, tornou-se um dos tratamentos de TEPT sancionados

pelo Departamento de Assuntos dos Veteranos.

 

A EMDR É UMA FORMA DE TERAPIA DE EXPOSIÇÃO?

 

Alguns psicólogos argumentaram que, como a EMDR na verdade

dessensibiliza as pessoas quanto ao material traumático, o método é

aparentado à terapia de exposição. Mais correto seria dizer que a EMDR

integra o material traumático. Como mostrou nossa pesquisa, depois da

EMDR as pessoas passaram a ver o trauma como um evento coerente no

passado, em vez de vivenciar sensações e imagens dissociadas de qualquer

contexto.

As lembranças evoluem e se alteram. Assim que uma lembrança se xa,

ela começa a sofrer um prolongado processo de integração e reinterpretação

que ocorre de maneira automática na mente e no cérebro, sem nenhum

aporte por parte do self consciente. Concluído o processo, a experiência se

integra a outros eventos da vida e já não é mais independente. 4 Como se

sabe, no TEPT esse processo deixa de funcionar e a lembrança ca emperrada

– não digerida e em estado bruto.

Infelizmente, durante a formação poucos psicólogos aprendem como o

sistema de processamento da memória funciona no cérebro, uma falha que pode induzir a enfoques equivocados quanto ao tratamento. À diferença das

fobias (que se baseiam num medo irracional especí co), o estresse pós-

traumático é resultado de uma reorganização do sistema nervoso central

depois de uma ameaça real de aniquilação (ou de ver outra pessoa ser

aniquilada), o que reorganiza a experiência de self (como impotente) e a

interpretação da realidade (o mundo inteiro é um lugar perigoso).

Durante a exposição, de início os pacientes cam extremamente

perturbados. Ao revisitarem a experiência traumática, apresentam aumentos

pronunciados na frequência cardíaca, na pressão sanguínea e nos

hormônios do estresse. No entanto, se continuam o tratamento e revivem o

trauma, tornam-se aos poucos menos reativos e menos propensos a se

desintegrar ao recordar o evento, e marcam menos pontos na escala de

classi cação de TEPT. Contudo, pelo que se sabe, a mera exposição ao velho

trauma não integra a lembrança ao contexto geral da vida do paciente, que

raramente recupera o envolvimento prazeroso com outras pessoas e as

atividades que tinha antes do trauma.

Por sua vez, a EMDR e outros tratamentos examinados em capítulos

subsequentes – sistemas familiares internos, ioga, neurofeedback, terapia

psicomotora e teatro – procuram regular as lembranças ativadas pelo

trauma e restaurar um sentimento de agência, envolvimento e

comprometimento, por meio do poder sobre o corpo e a mente.

 

PROCESSAMENTO DO TRAUMA COM EMDR

 

Kathy, de 21 anos, estudava numa universidade de Boston. Quando a

conheci, parecia apavorada. Fazia três anos que vinha sendo tratada por um

psicoterapeuta em quem con ava e por quem se sentia compreendida, mas

não estava obtendo progresso algum. Após sua terceira tentativa de suicídio,

o serviço de saúde da universidade enviou-a a mim, esperando que a nova

técnica de que eu lhes falara pudesse ajudá-la.

Como vários outros pacientes de trauma, ela conseguia se concentrar

totalmente nos estudos. Quando lia um livro ou redigia um trabalho,

desligava-se de tudo o mais. Era uma boa aluna, mas não tinha a menor ideia de como estabelecer uma relação carinhosa consigo mesma, quanto

mais um vínculo com um parceiro afetivo.

Kathy me contou que durante muitos anos, quando pequena, o pai a

prostituíra; nesse caso, eu normalmente teria pensado em usar a EMDR

apenas como terapia auxiliar. No entanto, ela se mostrou uma virtuose da

EMDR e se recuperou por completo depois de oito sessões, até então o

período mais curto em minha experiência de tratar alguém com um

histórico de grave abuso na infância. As sessões ocorreram quinze anos

atrás. Há pouco tempo, nos vimos para debater os prós e os contras de sua

intenção de adotar uma terceira criança. Tornara-se uma pessoa cativante:

esperta, engraçada e dedicada à família e a seu trabalho como professora

assistente de desenvolvimento infantil.

Quero partilhar com os leitores o que anotei sobre a quarta sessão do

tratamento de Kathy, não apenas a m de divulgar o que em geral ocorre

numa dessas sessões, mas também para explicar como a mente humana

integra uma experiência traumática. Não existe tomogra a cerebral, exame

de sangue ou escala de classi cação que possa medir isso, e mesmo uma

gravação em vídeo só consegue transmitir uma sombra de como a EMDR é

capaz de liberar os poderes imaginativos da mente.

Kathy sentou-se numa cadeira colocada num ângulo de 45 graus em

relação à minha, e camos a pouco mais de um metro um do outro. Pedi-lhe

que se xasse numa lembrança particularmente dolorosa e incentivei-a a

recordar o que havia ouvido, visto, pensado e sentido no corpo enquanto

aquilo acontecia. (Minhas notas não informam se ela me falou daquela

lembrança em particular; penso que não, já que nada anotei.)

Perguntei-lhe se já estava “na lembrança” e, como ela con rmou,

perguntei até que ponto lhe parecia real, numa escala de um a dez. Mais ou

menos nove, ela disse. Pedi-lhe então que seguisse com os olhos os

movimentos de meu dedo. De vez em quando, depois de completar uma

série de uns 25 movimentos oculares, eu dizia “Respire fundo”, seguido de

“O que você vê agora?” ou “O que lhe vem à mente agora?”. Toda vez que o

tom de voz, a expressão facial, um movimento corporal ou a respiração

indicavam que aquele era um tema de importante signi cado emocional, eu

dizia “Registre isso” e dava início a outra série de movimentos oculares

durante os quais ela nada dizia. Com exceção dessas palavras, quei em

silêncio por toda a sessão.

Depois da primeira sequência de movimentos oculares, Kathy relatou a

seguinte associação: “Percebo que tenho cicatrizes… de quando ele prendeu

minhas mãos a minhas costas. Há outra cicatriz da vez em que ele me

marcou para deixar claro que era meu dono, e ali [ela apontou] são marcas

de mordidas.” Parecia atordoada, mas surpreendentemente calma ao contar:

“Eu me lembro de ter sido molhada com gasolina… ele tirou fotos Polaroid

de mim… e depois me mergulhou em água. Fui estuprada por meu pai e

dois amigos dele; fui amarrada numa mesa; lembro que eles me estupraram

com garrafas de Budweiser.”

Meu estômago revirava, mas não z comentário algum, só lhe dizia para

guardar essas lembranças. Depois de mais ou menos trinta outros

movimentos do dedo de um lado para outro, parei ao perceber que ela

estava sorrindo. Perguntei-lhe em que pensava. “Eu estava fazendo aula de

caratê. Era ótimo! Eu arrasava! Percebi que eles estavam recuando. Gritei:

‘Não veem que estão me machucando? Não sou a namorada de vocês’.” “Pare

aí”, eu lhe disse, e iniciei a série seguinte. Quando terminou, Kathy disse:

“Vejo uma imagem de dois eus… Uma garotinha esperta, bem bonitinha…

e aquela putinha. Todas aquelas mulheres que não sabiam cuidar de si

mesmas, de mim ou de seus homens… Deixando que eu atendesse todos

aqueles homens.” Ela começou a soluçar durante a série seguinte, e quando

paramos disse: “Eu vi o quanto eu era pequena… a brutalização da

menininha. Não foi culpa minha.” Assenti com a cabeça: “Isso mesmo. Pare

aí.” A sequência seguinte terminou com Kathy relatando: “Estou

contemplando minha vida agora… Meu eu grande segurando meu eu

pequena… e dizendo: ‘Agora você está bem’.” Con rmei com um gesto de

cabeça, animando-a, e dei continuidade à sessão.

As imagens não paravam. “Vejo um trator demolindo a casa em que eu

morava. Acabou!” Nesse ponto, Kathy começou a seguir uma linha

diferente: “Estou pensando em como eu gosto do Jeffrey [um colega de

turma]. Penso que talvez ele não queira saber de mim. Penso que não sei o

que fazer. Nunca namorei e não sei como proceder.” Perguntei-lhe o que

achava que precisava saber para namorar e comecei a série seguinte. “Olha,

tem uma pessoa que quer car comigo… É bem simples. Não sei como ser

eu mesma com os homens. Fico petri cada.”

Enquanto acompanhava meu dedo, ela começou a chorar. Quando parei,

ela disse: “Tenho uma lembrança de Jeffrey e eu na lanchonete. Meu pai aparece na porta. Começa a gritar, está brandindo um machado. Ele diz: ‘Já

falei que você é minha.’ Ele me bota em cima da mesa… e aí me estupra e

depois estupra Jeffrey.” Agora ela chorava alto. “Como é que você pode se

abrir com uma pessoa se tem visões de seu pai estuprando você e depois os

dois?” Tive vontade de consolá-la, mas sabia que era mais importante dar

continuidade às associações dela. Pedi-lhe que se concentrasse no que sentia

no corpo. “Sinto uma coisa nos braços, nos ombros e do lado direito do

peito. Só quero ser abraçada.” Continuamos a sessão, e quando terminamos

Kathy parecia relaxada. “Ouvi Jeffrey dizer que estava tudo bem, que tinha

sido mandado lá para tomar conta de mim. E que não era nada que eu

tivesse feito, e que ele só quer car comigo para me proteger.” Perguntei de

novo o que ela sentia.

 

Eu me sinto realmente em paz. Um pouco trêmula… Como acontece

quando a gente começa a se exercitar. Um certo alívio. Jeffrey já sabe

tudo isso. Sinto que estou viva e que tudo acabou. Mas estou com

medo de que meu pai tenha outra lha, e isso me deixa muito, muito

triste. Eu quero salvá-la.

 

Mais adiante, porém, o trauma voltou, junto com outros pensamentos e

imagens. “Quero vomitar… Sinto o aparecimento de muitos cheiros…

Perfume vagabundo, álcool, vômito.” Minutos depois, estava em prantos:

 

Agora eu sinto mamãe aqui. É como se ela quisesse que eu a

perdoasse. Eu tenho a sensação de que a mesma coisa aconteceu a

ela… Está me pedindo desculpas sem parar. Está me dizendo que

isso aconteceu a ela… que foi meu avô. Diz também que minha avó

está triste por não estar aqui para me proteger.

 

Continuei a pedir que respirasse fundo e registrasse tudo o que visse.

No m da sequência seguinte, ela disse: “Tenho a impressão de que

acabou. Senti minha avó me abraçando agora, com a idade que tenho e me

dizendo que sentia muito por ter se casado com meu avô. Que ela e mamãe

estão tomando providências para isso parar por aqui.” Depois da última

série, Kathy sorria: “Vejo uma imagem em que empurro meu pai para fora da lanchonete e Jeffrey fecha a porta atrás dele. Ele está lá fora. Pode ser

visto através do vidro… Todo mundo está caçoando dele.”

Com ajuda da EMDR, Kathy conseguiu integrar as lembranças de seu

trauma e recorrer à imaginação para sepultá-las, alcançando uma sensação

de completude e controle. Os aportes de minha parte foram mínimos, sem

nenhuma análise sobre os detalhes de suas experiências. (Nunca vi motivo

para questionar a realidade dessas experiências; eram reais para ela, e minha

tarefa consistia em ajudá-la a lidar com elas no presente.) O processo liberou

algo em sua mente e seu cérebro para que novas imagens, sentimentos e

ideias fossem ativados; foi como se sua força vital emergisse a m de criar

novas possibilidades para o futuro.5

Como vimos, as lembranças traumáticas persistem em imagens,

sensações e sentimentos cindidos e inalterados. Entendo que o aspecto mais

notável da EMDR seja sua evidente capacidade de ativar, em conjunção com a

lembrança original, uma série de sensações, emoções, imagens e

pensamentos, aparentemente não relacionados entre si. Essa forma de reunir

antigas informações em novas embalagens talvez seja a maneira como

integramos as experiências comuns e não traumáticas do dia a dia.

 

A EXPLORAÇÃO DA CONEXÃO DO SONO

 

Pouco depois de tomar contato com a EMDR, o laboratório de sono dirigido

por Allan Hobson no CSMM me convidou para falar de meu trabalho. Junto

com seu mestre, Michel Jouvet, 6 Hobson cara famoso pela descoberta da

área cerebral em que são gerados os sonhos; na época, um de seus

assistentes, Robert Stickgold, estava começando a estudar a função dos

sonhos. Exibi o vídeo de uma paciente que sofrera de TEPT grave durante 13

anos, vítima de um terrível acidente de carro, e que, com apenas duas

sessões de EMDR, deixara de ser uma pessoa impotente, sempre em pânico,

para se transformar numa mulher con ante e decidida. Bob cou

impressionado.

Semanas mais tarde, uma amiga da família de Stickgold cou tão

deprimida depois da morte de seu gato que teve de ser hospitalizada. O

psiquiatra que a atendeu concluiu que a morte do animal desencadeara memórias não resolvidas da morte da mãe dela, quando ela estava com 12

anos, e a pôs em contato com Roger Solomon, conhecido instrutor de EMDR,

que a tratou com êxito. Depois dessa terapia, ela procurou Stickgold e lhe

disse: “Bob, você precisa estudar isso. É uma coisa estranha… tem a ver com

o cérebro, e não com a mente.”

Pouco depois, um artigo publicado na revista Dreaming a rmava que a

EMDR estava relacionada ao sono REM (rapid eye movement, movimento

ocular rápido) – a fase do sono em que ocorrem os sonhos.7 Pesquisas já

haviam demonstrado que o sono, e sobretudo os sonhos, desempenham um

papel importante na regulação do humor. Como destacava o artigo, no sono

REM os olhos se movimentam para um lado e para o outro, tal como na

EMDR . Aumentar o tempo de sono REM reduz a depressão; quanto menor o

tempo de sono REM, mais aumenta a probabilidade de sermos acometidos de

depressão.8

O TEPT, é claro, está notoriamente associado a um sono conturbado, e o

uso de álcool ou drogas perturba ainda mais o sono REM. No tempo em que

trabalhei na AV, meus colegas e eu percebemos que os veteranos muitas

vezes acordavam assim que entravam na fase de somo 9 REM – talvez por

terem ativado um fragmento do trauma durante um sonho. 10 Outros

pesquisadores também haviam notado o fenômeno, mas o consideraram

irrelevante para a compreensão do 11 TEPT .

Hoje sabemos que tanto o sono profundo quanto o REM exercem

importantes papéis no modo como as memórias se modi cam. O cérebro

adormecido reformula a lembrança, intensi cando a marca deixada por

informações relevantes e contribuindo para a eliminação de material

irrelevante.12 Numa série de estudos excelentes, Stickgold e colaboradores

mostraram que o cérebro adormecido pode dar sentido a informações cuja

importância nos parece pouco clara quando estamos despertos, e integrá-las

ao sistema geral da memória. 13

Os sonhos reproduzem, recombinam e reintegram pedaços de

lembranças antigas durante meses e até anos. 14 Atualizam sem cessar as

realidades subjacentes que determinam aquilo em que a mente desperta

presta atenção. E mais relevante, talvez, para a EMDR, seja o fato de que no

sono REM ativamos associações mais distantes do que no sono não REM ou

no estado normal de vigília. Por exemplo, se despertamos uma pessoa do sono não REM e a submetemos a um teste de associação de palavras, ela dá

respostas convencionais: quente/frio, duro/macio, etc. Ao ser despertada de

sono 15 REM , ela faz conexões menos convencionais, como ladrão/erro. Além

disso, resolve anagramas simples com mais facilidade. Essa passagem para a

ativação de associações distantes talvez explique por que os sonhos sejam

tão bizarros. 16

Stickgold, Hobson e colegas descobriram que os sonhos ajudam a forjar

novas relações entre lembranças aparentemente desvinculadas. 17 Perceber

conexões novas é o aspecto fundamental da criatividade; como foi dito, é

essencial para a cura. A incapacidade de recombinar experiências é também

um dos aspectos visíveis do TEPT. Embora Noam, no capítulo 4, imaginasse

uma cama elástica para salvar futuras vítimas de terrorismo, os indivíduos

com trauma estão aprisionados em associações congeladas: toda pessoa de

turbante tentará me matar; todo homem que me julgar atraente desejará me

estuprar.

Por m, Stickgold propõe um elo claro entre a EMDR e o processamento

de lembranças pelos sonhos:

 

Se a estimulação bilateral da EMDR é capaz de alterar os estados

cerebrais de forma semelhante à que se observa durante o sono REM,

há então bons indícios de que a EMDR pode tirar proveito de

processos dependentes do sono, que podem estar bloqueados ou

desativados em vítimas de TEPT, para permitir um e caz

processamento de memórias e a resolução do trauma. 18

 

É bem possível que a instrução básica da EMDR, “Mantenha essa imagem

em sua mente e acompanhe com o olhar meus dedos mexendo-se de um

lado para o outro”, reproduza o que acontece no cérebro durante o sonho.

No momento em que este livro está sendo enviado à grá ca, Ruth Lanius e

eu estamos estudando como o cérebro reage (tanto ao recordar um evento

traumático quanto um fato comum) a movimentos oculares enquanto os

pacientes são submetidos a um exame de ressonância magnética. Mantenha-

se sintonizado.

 

à Ã

ASSOCIAÇÃO E INTEGRAÇÃO

 

À diferença do tratamento de exposição convencional, a EMDR não dedica

muito tempo revisitando o trauma original. O trauma em si é, sem dúvida, o

ponto de partida, porém o foco está em estimular e encadear o processo

associativo. Como cou patente no estudo comparativo entre o Prozac e a

EMDR , medicamentos podem embotar as imagens e sensações de terror,

porém elas continuam incrustadas na mente e no corpo. Em contraste com

os participantes que melhoraram com o uso do Prozac – cujas lembranças

foram apenas debilitadas (e ainda causavam considerável ansiedade), mas

não integradas como um evento que ocorreu no passado –, os que foram

tratados com EMDR não experimentavam mais as marcas fortes do trauma. O

trauma se tornara a história de um evento excepcionalmente ameaçador,

que ocorrera havia muito tempo. Como disse um de meus pacientes, com

um gesto de desdém: “Acabou.”

Ainda não sabemos exatamente como funciona a EMDR, mas o mesmo se

pode dizer do Prozac. A uoxetina, seu princípio ativo, exerce um efeito

sobre a serotonina, mas resta esclarecer se seus níveis se elevam ou se

reduzem, em quais células cerebrais isso ocorre e por que as pessoas cam

menos temerosas. Da mesma forma, não sabemos por que conversar com

um amigo em quem con amos causa um alívio tão grande, e me surpreende

que tão poucas pessoas pareçam interessadas em explorar essa questão.19

Médicos têm uma única obrigação: fazer o possível para oferecer alívio

para os pacientes. E por isso a prática clínica sempre tem se mostrado um

campo rico para a experimentação. Alguns experimentos falham, outros têm

êxito, e alguns – como a EMDR, a terapia comportamental dialética e a terapia

dos sistemas familiares internos – mudam a forma como os pacientes são

tratados. A validação de todos esses tratamentos leva décadas e se ressente

de o apoio à pesquisa em geral ser canalizado para métodos de e cácia

comprovada. Busco consolo na história da penicilina: quase quatro décadas

transcorreram entre a descoberta de suas propriedades antibióticas por

Alexander Fleming em 1928 e a elucidação nal de seus mecanismos, em

1965.

 

OceanofPDF.com