O corpo guarda as marcas
14. Linguagem: milagre e tirania
14
LINGUAGEM: MILAGRE E
TIRANIA
Expressa teu sofrimento! A dor sufocada em teu peito machuca teu
coração até dilacerá-lo.
William Shakespeare, Macbeth
Mal suportamos olhar. A sombra pode levar o melhor da vida que
não vivemos. Desça ao porão, suba ao sótão, vá ao quarto de despejo.
Ache ouro ali. Ache um animal a quem não deram comida ou água.
Você! Esse animal negligenciado, faminto de atenção, é parte de seu
ser.
Marion Woodman (citada por Stephen Cope em The Great Work of Your Life)
E m setembro de 2001, diversas organizações, entre as quais os Institutos Nacionais de Saúde, o laboratório P zer e a New York Times Company Foundation, criaram grupos de peritos para recomendar os melhores
tratamentos para pessoas traumatizadas pelos ataques ao World Trade
Center. Como muitas intervenções relacionadas ao trauma nunca haviam
sido avaliadas com rigor por várias comunidades (ao contrário de pacientes
que buscam ajuda psiquiátrica), achei que aquela seria uma excelente oportunidade para comparar as diversas abordagens. Meus colegas foram
mais conservadores, e, depois de longos debates, as comissões
recomendaram apenas duas formas de tratamento: a terapia de orientação
psicanalítica e a terapia cognitivo-comportamental. Por que a terapia
analítica pela palavra? Como Manhattan é um dos últimos redutos da
psicanálise freudiana, seria um erro político excluir uma parcela substancial
dos pro ssionais locais da saúde mental. Por que a TCC? Como esse
tratamento pode ser decomposto em passos concretos e “manualizados” em
protocolos uniformes, é o predileto dos pesquisadores acadêmicos, outro
grupo que não podia ser ignorado. Aprovadas as recomendações, camos à
espera de que os nova-iorquinos buscassem os consultórios dos terapeutas.
Quase ninguém apareceu.
O dr. Spencer Eth, que dirigia o departamento de psiquiatria do hoje
extinto St. Vincent’s Hospital, em Greenwich Village, cou intrigado: onde
os sobreviventes tinham procurado ajuda? No começo de 2002, auxiliado
por alguns estudantes de medicina, ele fez um estudo com 225 pessoas que
haviam conseguido fugir das Torres Gêmeas. Indagados sobre o que fora
mais útil para superar os efeitos daquela experiência, os sobreviventes
citaram acupuntura, massagem, ioga e 1 EMDR , nessa ordem. Entre os
socorristas, as massagens foram a solução preferencial. A pesquisa de Eth
leva a crer que as intervenções mais úteis se concentravam em aliviar os
problemas físicos gerados pelo trauma. A disparidade entre as escolhas dos
sobreviventes e as recomendações dos especialistas é curiosa. É evidente que
não sabemos quantos acabaram procurando terapias mais tradicionais. No
entanto, o evidente desinteresse pela terapia pela palavra suscita uma
pergunta fundamental: até que ponto vale a pena conversar sobre o trauma?
A VERDADE INEXPRIMÍVEL
Terapeutas con am cegamente na capacidade da palavra para curar o
trauma. Essa con ança remonta a 1893, quando Freud e seu mentor, Breuer,
escreveram que o trauma
desaparecia de forma imediata e permanente quando conseguíamos
trazer à luz, claramente, a memória do fato que o provocara e
despertar seu afeto concomitante, e quando o paciente descrevia
aquele fato com o máximo possível de detalhes e expressava o afeto
em palavras.2
Infelizmente, as coisas não são tão simples. Para qualquer pessoa, não
apenas os acometidos de TEPT, é quase impossível expressar os eventos
traumáticos em palavras. As marcas iniciais dos acontecimentos do 11 de
Setembro não foram histórias, mas imagens: gente em pânico correndo pelas
ruas, com o rosto coberto de cinza; um jato comercial chocando-se contra a
Torre Um; pontinhos ao longe que eram pessoas saltando do edifício. Essas
imagens foram reproduzidas repetidas vezes, em nossa mente e na tela da
TV, até o prefeito Giuliani e os meios de comunicação nos ajudarem a criar
uma narrativa que podíamos dividir uns com os outros.
Em Os sete pilares da sabedoria, T. E. Lawrence falou sobre suas
experiências de guerra:
Descobrimos que havia dores desmedidamente cruciantes,
sofrimentos demasiado profundos, êxtases sublimes demais para
serem registrados por nossos seres nitos. Quando a emoção
alcançava esse nível, a mente se sufocava; e a memória se obliterava
até as circunstâncias se tornarem de novo triviais. 3
Embora o trauma nos deixe mudos, saímos dele por um caminho
pavimentado de palavras, reunidas aos poucos, com cuidado, até que a
história possa ser revelada.
A QUEBRA DO SILÊNCIO
Na primeira campanha pela conscientização do problema da aids, os
ativistas criaram um slogan forte: “Silêncio = Morte”. O silêncio em relação
ao trauma também leva à morte – a morte da alma. O silêncio reforça o isolamento do trauma. Ser capaz de dizer a outro ser humano, em alto e
bom som, “Fui estuprada” ou “Meu marido me espancou” ou “Meus pais
diziam que era disciplina, mas eram maus-tratos” ou “Não consigo transar
desde que voltei do Iraque” é um sinal de que a cura pode começar.
Podemos pensar que somos capazes de controlar o sofrimento, o terror
ou a vergonha mantendo silêncio, mas dar nome às coisas abre a
possibilidade de um tipo diferente de controle. No Gênesis, o primeiro ato de
Adão, quando o reino animal ca a seus cuidados, é dar nome a todas as
criaturas vivas.
Se você foi magoado, precisa admitir o que lhe aconteceu e dar um nome
a isso. Falo por experiência própria: enquanto não houve espaço para que eu
pudesse admitir o que senti quando meu pai me prendeu no porão de casa
por vários erros que cometi, aos 3 anos, permaneci preocupado com a
possibilidade de ser exilado e abandonado. Só quando pude falar sobre o
que o garotinho tinha sentido, só quando fui capaz de perdoá-lo por ser tão
medroso e submisso, foi que comecei a desfrutar do prazer de minha
própria companhia. Sentir que somos ouvidos e compreendidos muda nossa
siologia; poder articular um sentimento complexo e ter nossos sentimentos
reconhecidos ilumina nosso cérebro límbico e cria um “momento de
triunfo”. Por outro lado, ser recebido com silêncio e incompreensão mata o
espírito. Ou, como John Bowlby expressou com muita felicidade, “o que não
pode ser dito ao outro não pode ser dito a si mesmo”.
Se você esconde de você que um tio o molestou na infância, está sujeito a
reagir como um animal durante uma trovoada: com uma resposta de corpo
inteiro aos hormônios que sinalizam “perigo”. Sem linguagem e contexto,
sua percepção pode se restringir a “Estou com medo”. No entanto, decidido
a manter o controle, é provável que evite qualquer pessoa ou qualquer coisa
que lhe recorde, ainda que de maneira vaga, seu trauma. Você também pode
se alternar entre a inibição e o nervosismo, ou entre a reação e a explosão –
sempre sem saber por quê.
Enquanto mantiver segredos e reprimir informações, você estará,
basicamente, em guerra consigo mesmo. Esconder os sentimentos mais
profundos consome uma energia gigantesca, exaure a motivação para buscar
metas e provoca sentimentos de enfado e bloqueio. Ao mesmo tempo,
hormônios do estresse inundam seu corpo, provocando dores de cabeça e
dores musculares, problemas intestinais ou sexuais – além de comportamentos irracionais que talvez venham a lhe causar embaraço e
magoar outras pessoas. Só depois de identi car a fonte dessas reações é que
você conseguirá usar suas sensações como sinais de problemas que
requerem atenção urgente.
Desprezar sua realidade interior também corrói seu senso de self, de
identidade e de objetivo. A psicóloga clínica Edna Foa criou, com
colaboradores, o Inventário de Cognições Pós-Traumáticas para avaliar o
que os pacientes pensam de si mesmos. 4 Os sintomas de TEPT com
frequência incluem declarações como “Eu me sinto morto por dentro”,
“Nunca mais serei capaz de sentir emoções normais de novo”, “Mudei para
pior, e para sempre”, “Eu me sinto um objeto, não uma pessoa”, “Não tenho
futuro nenhum”, “É como se eu não me conhecesse mais”.
O fundamental é permitir-se saber o que se sabe. No livro What It Is Like
to Go to War (Como é ir para a guerra), Karl Marlantes, veterano do Vietnã,
luta com suas lembranças de integrar uma competente e destacada unidade
de combate dos fuzileiros navais, enfrentando a terrível cisão que descobriu
dentro de si:
Durante anos, não percebi a necessidade de curar aquela cisão, e não
houve ninguém, depois que voltei, que chamasse minha atenção para
isso […]. Por que supus que existisse uma única pessoa dentro de
mim? […]. Há uma parte de mim que simplesmente adora mutilar,
matar e torturar. Essa parte de mim não sou eu inteiro. Tenho outros
elementos que, na verdade, são o exato oposto disso, e dos quais me
orgulho. Então, sou um assassino? Não, mas parte de mim é. Sou um
torturador? Não, mas parte de mim é. Sinto horror e tristeza ao ler
no jornal que uma criança foi vítima de maus-tratos. Sinto. Mas será
que co fascinado? 5
Marlantes diz que sua trajetória para a recuperação exigiu aprender a
dizer a verdade, mesmo quando era brutalmente dolorosa.
A morte, a destruição e a amargura precisam ser o tempo todo
justi cadas se não houver um sentido que dê conta do sofrimento. A
ausência desse sentido preponderante leva a inventar, mentir, preencher o
vazio de signi cado.6
Eu nunca fui capaz de dizer a alguém o que se passava dentro de
mim. Por isso reprimi essas imagens, afastei-as, durante anos. Só
comecei a reintegrar aquela parte cindida de minha experiência
depois que me pus a imaginar aquele garoto como um garoto, talvez
meu lho. Foi então que surgiu essa tristeza imensa – e a cura.
Integrar à ação os sentimentos de tristeza, de raiva e tudo o mais
deveria ser o procedimento operacional padrão para todos os
soldados que já mataram alguém. Não é preciso nenhuma formação
psicológica so sticada. Basta formar grupos dirigidos por um
camarada da companhia ou do pelotão que tenha passado por alguns
dias de treinamento como líder de um grupo e estimular as pessoas a
falar.7
Ver o próprio terror em perspectiva e dividir essa visão com outros pode
restabelecer a sensação de que você faz parte da espécie humana. Depois que
os veteranos do Vietnã de quem tratei participaram de um grupo de terapia
em que podiam dividir as atrocidades que tinham visto e cometido,
conseguiram começar a abrir o coração para as namoradas.
O MILAGRE DA AUTODESCOBERTA
Descobrir o self com palavras é sempre uma epifania, embora encontrar as
palavras para descrever a realidade interior possa ser um processo a itivo. É
por isso que considero tão fascinante o relato de Helen Keller a respeito de
como ela “nasceu para a linguagem”.8
Quando Helen estava com 19 meses e começava a falar, uma infecção
viral tirou-lhe a visão e a audição. Cega, surda e muda, essa criança linda e
ativa se transformou numa criatura indócil e isolada. Depois de cinco anos
de desespero, sua família convidou como preceptora da menina uma
professora parcialmente cega, Anne Sullivan. Anne se mudou de Boston
para a casa deles na zona rural do Alabama e logo começou a ensinar à
menina o alfabeto manual, escrevendo palavras em sua mão, letra a letra.
Foram necessárias dez semanas de tentativas de conexão com a criança
selvagem antes que ocorresse o grande salto, que aconteceu quando Anne escreveu água numa das mãos de Helen enquanto mantinha a outra sob a
bomba d’água.
Mais tarde, Helen relembrou aquele momento em A história de minha
vida:
Água! Aquela palavra sacudiu minha alma, que despertou, cheia do
espírito da manhã […]. Até aquele dia, minha vida fora um cômodo
às escuras, esperando que nele entrassem palavras que acendessem a
lâmpada, que é o pensamento. Aprendi muitas, muitas palavras
naquele dia.
Aprender os nomes das coisas possibilitou à criança não só criar uma
representação interior da realidade física invisível e inaudível que a rodeava,
como encontrar a si própria: seis meses depois, ela já empregava o pronome
da primeira pessoa: “eu”.
Essa história lembra a das crianças vítimas de violência sexual,
recalcitrantes e não comunicativas que vemos nos programas de tratamento
residencial. Antes de ter acesso à linguagem, Helen era desnorteada e
autocentrada. Revendo seu passado, ela chamou aquela criatura de
“Fantasma”. Com efeito, nossas crianças se comportam como fantasmas até
descobrirem quem são e se sentirem seguras a ponto de comunicar o que
ocorre com elas.
Num livro posterior, e World I Live In (O mundo em que vivo), Helen
Keller descreveu mais uma vez sua transformação:
Antes da chegada de minha professora, eu não sabia que eu existia.
Vivia num mundo que era um não mundo […]. Não tinha vontade
nem intelecto […]. Lembro de tudo isso não porque soubesse que
era assim, mas porque tenho memória tátil. Ela me permite lembrar
que eu nunca contraía a testa ao pensar. 9
As lembranças “táteis” de Helen – memórias baseadas apenas no tato –
não podiam ser compartilhadas. Entretanto, a linguagem lhe abriu a
possibilidade de participar de uma comunidade. Aos 8 anos, quando foi com Anne para o Instituto Perkins de Cegos, em Boston (onde a própria Anne
recebera formação), Helen pôde, pela primeira vez, se comunicar com
outras crianças: “Ah, que felicidade!”, escreveu. “Conversar livremente com
outras crianças! Sentir-se em casa com o mundo tão vasto!”
Sua descoberta da linguagem, com a ajuda de Anne Sullivan, capta a
essência de uma relação terapêutica: encontrar palavras onde antes elas
faltavam e, assim, conseguir dividir as dores e os sentimentos mais
profundos com outro ser humano. Uma das experiências mais signi cativas
que podemos ter, essa ressonância, na qual palavras até então não emitidas
podem ser descobertas, pronunciadas e recebidas, é fundamental para curar
o isolamento do trauma – sobretudo se outras pessoas em nossa vida nos
ignoraram ou silenciaram. Comunicar-se plenamente é o oposto de estar
traumatizado.
CONHECER A SI MESMO OU CONTAR SUA HISTÓRIA?
NOSSO SISTEMA DUPLO DE PERCEPÇÃO
Toda pessoa que começa uma terapia pela palavra se confronta quase de
imediato com as limitações da linguagem. Foi o que aconteceu em minha
própria psicanálise. Embora eu fale com facilidade e seja capaz de narrar
histórias interessantes, logo compreendi a di culdade em perceber de
maneira profunda meus sentimentos e, ao mesmo tempo, relatá-los a outra
pessoa. Em contato com os momentos mais íntimos, dolorosos ou
desconcertantes, muitas vezes eu era obrigado a escolher: ou me
concentrava em reviver antigas cenas e me permitia perceber o que tinha
sentido naquele tempo, ou dizia a meu analista, com lógica e coerência, o
que havia acontecido. Se escolhia esse segundo caminho, perdia o contato
comigo e passava a me focar na opinião dele sobre o que eu estava lhe
dizendo. O menor sinal de dúvida ou avaliação me silenciava, e eu transferia
a atenção para reconquistar sua aprovação.
Desde então, a neurociência constatou que temos duas formas de
autopercepção: uma que rastreia o self no tempo, outra que mantém contato
com o self no momento presente. A primeira, nosso self autobiográ co, cria
conexões entre experiências e as reúne numa história coerente. Esse sistema tem raízes na linguagem. Nossas narrativas mudam com a narração, assim
como nossa perspectiva se modi ca quando incorporamos novas
informações.
O outro sistema, a autopercepção de momento a momento, se baseia
sobretudo em sensações físicas, mas, se nos sentimos em segurança e não
nos precipitamos, encontramos palavras para comunicar também essa
experiência. Essas duas formas de conhecimento se localizam em diferentes
partes do cérebro, praticamente separadas uma da outra. 10 Só o sistema
dedicado à autopercepção, com base no córtex pré-frontal medial, pode
mudar o cérebro emocional.
Nos grupos de veteranos que eu coordenava, às vezes percebia esses dois
sistemas trabalhando juntos. Os soldados narravam histórias tétricas de
morte e destruição, mas eu notava que era habitual que seus corpos
transmitissem uma sensação de orgulho e espírito de equipe. Da mesma
forma, muitos pacientes elogiam as famílias felizes nas quais foram criados
enquanto encolhem o corpo e falam em tom ansioso e tenso. Um sistema
cria histórias para consumo público, e, se narramos essa história com
frequência, é provável que passemos a acreditar nela. O outro sistema,
porém, registra uma verdade diferente: a maneira como vemos essa situação
dentro de nós. É este que precisa ser conectado, acolhido e reconhecido.
Há pouco tempo, eu e um grupo de residentes de psiquiatria do hospital
da Universidade de Medicina de Boston, onde leciono, entrevistamos uma
mulher com epilepsia do lobo temporal, em avaliação depois de uma
tentativa de suicídio. Os residentes zeram as perguntas convencionais sobre
os sintomas, a medicação que estava tomando, sua idade quando foi
diagnosticada, o que a levara a tentar se matar. Ela respondia num tom
distante e automático: tinha 5 anos quando sua doença fora diagnosticada.
Perdera o emprego, mas reconhecia que havia se desinteressado pelo
trabalho. Sentia-se inútil. Não sei por que um residente lhe indagou se tinha
sido vítima de abuso sexual. A pergunta me surpreendeu, pois ela não nos
dera indício algum de que tivesse problemas de ordem sexual, e quei
pensando que talvez aquela indagação apontasse para algum plano pessoal
de pesquisa.
A história que a paciente contou não explicava por que ela desmoronara
depois de perder o emprego. Perguntei-lhe o que a garota de 5 anos tinha sentido ao ouvir que havia algo errado em seu cérebro. A pergunta a obrigou
a re etir, como se não tivesse uma resposta preparada de antemão. Com a
voz bem mais baixa, ela nos contou que a pior parte de seu diagnóstico foi
que, depois de revelado, seu pai não quis mais saber dela: “Ele só me
enxergava como uma menina defeituosa.” Ninguém tinha lhe dado apoio,
ela disse, de modo que teve basicamente de se virar sozinha.
Perguntei-lhe então como se sentia agora em relação àquela garotinha
que, com um diagnóstico recente de epilepsia, fora largada por conta
própria. Em vez de chorar por causa de sua solidão ou de enfurecer-se pela
falta de apoio, ela exclamou com veemência: “Ela era burra, chorona e
dependente. O que devia ter feito era encarar as di culdades e lutar por seus
direitos.” Essa exaltação vinha, é óbvio, da parte dela que tentara enfrentar
os percalços com coragem, e re eti que era provável que esse enfrentamento
a tivesse ajudado a sobreviver. Pedi-lhe que deixasse a menina abandonada
contar como se sentira com a doença agravada pela rejeição da família. Ela
começou a soluçar e se manteve em silêncio durante muito tempo, até que
por m disse: “Não, ela não merecia aquilo. Ela devia ter sido apoiada,
alguém devia ter cuidado dela.” Então mudou de atitude e me expôs,
orgulhosa, seus feitos: tudo o que havia realizado, apesar daquela falta de
apoio. A história pública e a vivência interior tinham, en m, se encontrado.
O CORPO É A PONTE
As histórias contadas sobre o trauma reduzem o isolamento criado por ele e
proporcionam uma explicação para o sofrimento das pessoas. Permitem aos
médicos fazer diagnósticos, permitindo-lhes abordar problemas como
insônia, raiva, pesadelos ou apatia. As histórias também oferecem às pessoas
um alvo onde lançar a culpa. Culpar alguém ou alguma coisa é um traço
humano universal que as ajuda a se sentirem bem quando estão mal, ou,
como dizia meu antigo professor Semrad, “o ódio faz o mundo girar”.
Entretanto, as histórias também obscurecem um fato importante: o trauma
muda radicalmente as pessoas. Na verdade, elas não são mais “elas mesmas”.
É di cílimo expressar em palavras a sensação que uma pessoa pode ter
de já não ser ela própria. A linguagem surgiu sobretudo para indicar coisas concretas e falar sobre elas, não para comunicar nossas sensações interiores,
nossa interioridade. (Além disso, o centro de linguagem, no cérebro, se
localiza sicamente o mais distante possível da área mediante a qual
percebemos nosso self.) Em geral, é mais fácil descrever outra pessoa do que
falar de nós mesmos. Certa vez escutei Jerome Kagan, psicólogo de Harvard,
dizer: “A tarefa de relatar a maior parte das experiências particulares pode
ser comparada à de uma pessoa que desce por um poço profundo, calçando
luvas grossas de couro, para pegar pecinhas frágeis de cristal.” 11
Podemos superar a di culdade com as palavras mobilizando o sistema
de autopercepção do self, auto-observador e baseado no corpo, que fala por
sensações, tom de voz e tensões corporais. A capacidade de perceber
sensações viscerais é o verdadeiro fundamento da consciência emocional. 12
Se um paciente diz que tinha 8 anos quando o pai abandonou a família,
costumo parar e pedir que se pergunte: o que acontece em seu íntimo
quando ele me fala daquele menino que nunca mais viu o pai? Onde aquele
abandono cou registrado em seu corpo? Ao ativar suas sensações viscerais
e escutar seu coração partido – quando você segue os caminhos
interoceptivos que levam a seus recessos mais recônditos –, as coisas
começam a mudar.
ESCREVENDO PARA VOCÊ MESMO
Há outros meios de ter acesso ao mundo interno de sensações. Um dos mais
e cazes é a escrita. Quem já não abriu o coração em mensagens coléricas,
acusadoras, lastimosas ou tristes depois de ser traído ou abandonado? Quase
sempre essa reação leva a sentir-se melhor, mesmo que a mensagem nunca
seja enviada. Quando você escreve para si mesmo, não precisa se preocupar
com o julgamento de outras pessoas – ouve os próprios pensamentos e deixa
que o uxo deles assuma o comando. Mais tarde, relendo o que escreveu,
muitas vezes descobre verdades surpreendentes.
Como membros da sociedade, espera-se que sejamos “reservados” em
nossas interações cotidianas e que subordinemos os sentimentos à tarefa em
execução. Ao conversamos com alguém com quem não nos sentimos em
total segurança, nosso editor social assume a atitude de alerta vermelho e
camos em guarda. Escrever é diferente. Se pedir a seu editor que o deixe a
sós por algum tempo, sairão coisas que você nem imaginava que existiam.
Você está livre para entrar num transe no qual sua caneta (ou seu teclado)
parece canalizar tudo o que borbulha e jorra do interior. Você pode conectar
essas partes auto-observadoras e narrativas de seu cérebro sem se preocupar
com a recepção que terá.
Na chamada escrita livre, você pode utilizar qualquer objeto – seu teste
de Rorschach, por exemplo – para penetrar numa corrente de associações.
Escreva a primeira ideia que lhe vier à cabeça enquanto ta um objeto e
continue sem parar, sem reler ou riscar nada que tenha escrito. Uma colher
de pau na bancada da cozinha pode trazer lembranças de quando você fazia
molho de tomate com sua avó – ou de quando era surrado, em criança. O
bule de chá que vem passando de geração a geração pode levá-lo aos cantos
mais longínquos de sua mente, a entes queridos que você perdeu ou a festas
de família que misturavam amor e con ito. Logo emergirá uma imagem,
depois uma recordação, e aí um parágrafo para registrá-la. Tudo o que
aparecer no papel será uma manifestação de associações singularmente suas.
É frequente que meus pacientes tragam fragmentos de textos e desenhos
sobre memórias que eles talvez não estejam prontos para discutir. Ler o
conteúdo em voz alta pode ser massacrante, mas eles querem que eu esteja a
par daquilo contra o que lutam. A rmo apreciar a coragem que mostram ao
se permitirem explorar partes de sua vida até então ocultas e ao me
con arem tais revelações. Essas comunicações exploratórias orientam meu
plano de tratamento – ajudando-me, por exemplo, a decidir se acrescento
processamento somático, neurofeedback ou EMDR ao trabalho em
andamento.
Que eu saiba, o primeiro teste sistemático do poder da linguagem para
aliviar o trauma teve lugar em 1986, quando James Pennebaker transformou
sua aula de introdução à psicologia da Universidade do Texas, em Austin,
num laboratório experimental. Ele abriu os trabalhos com um saudável
respeito pela importância da inibição, de guardar coisas para si mesmo, o
que, em seu entender, era a argamassa da civilização. 13 No entanto, também
considerava que as pessoas pagam um preço elevado ao tentar ngir que não
veem o elefante na sala.
Pennebaker começou pedindo a cada estudante que apontasse uma
experiência pessoal que considerasse estressante ou traumática. Em seguida,
dividiu a turma em três grupos: um escreveria sobre o que estava ocorrendo
na vida naquele momento; o segundo exporia os pormenores do fato
traumático ou estressante; o terceiro narraria os fatos do episódio,
comentaria seus sentimentos e emoções em relação a ele e o impacto que
esse evento tinha exercido. Em quatro dias consecutivos, todos os estudantes
escreveram durante quinze minutos, sozinhos, num cubículo no prédio da
psicologia.
Os estudantes levaram o estudo a sério, e vários se referiram a segredos
que nunca haviam revelado. Alguns choravam ao escrever, e muitos
con denciaram a assistentes do curso que tinham cado muito envolvidos
com essas experiências. Entre os duzentos participantes, 65 escreveram
sobre um trauma de infância. Embora a morte de um membro da família
fosse o tópico mais constante, 22% das moças e 10% dos rapazes relataram
um trauma de cunho sexual antes dos 17 anos.
Os pesquisadores interrogaram os estudantes sobre sua saúde e se
surpreenderam com a frequência com que eles espontaneamente relatavam
histórias de problemas, graves ou não: câncer, hipertensão arterial, úlceras,
gripe e dores de ouvido.14 Os que relatavam uma experiência sexual
traumática na infância haviam sido hospitalizados durante uma média de
1,7 dia no ano anterior – quase o dobro dos demais.
A equipe, então, comparou o número de visitas que os participantes
tinham feito ao centro de saúde estudantil durante o mês anterior ao estudo
com o número de visitas no mês que se seguiu à pesquisa. O grupo que
escrevera sobre os fatos e as emoções relacionadas com seus traumas foi o
que, claramente, mais se bene ciou: seus integrantes apresentavam uma
queda de 50% em visitas a médicos em comparação aos outros dois grupos.
Escrever sobre ideias e sensações dos traumas havia melhorado o humor
deles e os levado a uma atitude mais otimista, além de melhor saúde física.
Quando se pediu que avaliassem o estudo, os estudantes deram ênfase à
maneira como ele aumentara o conhecimento que tinham de si mesmos.
“Ajudou-me a pensar sobre o que senti naquela época. Nunca notara o
quanto aquilo me afetara.” “Tive de pensar e resolver experiências passadas. Um dos resultados foi a paz de espírito. Escrever sobre emoções e
sentimentos ajudou a entender o que eu sentia e por quê.” 15
Num estudo posterior, Pennebaker pediu à metade de um grupo de 72
estudantes que registrassem em áudio um relato sobre a experiência mais
traumática pela qual já tinha passado; os outros alunos falaram sobre o que
pretendiam fazer durante o resto do dia. Enquanto os jovens gravavam sua
história, os pesquisadores monitoravam suas reações siológicas: pressão
sanguínea, frequência cardíaca, tensão muscular e temperatura da mão.16
Esse estudo produziu resultados semelhantes aos da pesquisa anterior: os
estudantes que expuseram abertamente suas emoções mostraram
acentuadas mudanças siológicas, tanto de imediato quanto a longo prazo.
Enquanto falavam, a pressão sanguínea, a frequência cardíaca e outras
funções autônomas se elevaram. Mais tarde, o estado de alerta caiu para um
nível inferior ao registrado antes do começo do estudo. A queda na pressão
sanguínea persistia seis semanas depois.
Há hoje um consenso de que experiências estressantes – sejam elas
divórcio, exames nais ou solidão – exercem efeito negativo sobre as funções
imunológicas, mas essa era uma ideia controversa na época do estudo de
Pennebaker. Com base nos protocolos por ele de nidos, uma equipe de
pesquisadores do Colégio de Medicina da Universidade Estadual de Ohio
comparou dois grupos de estudantes que escreveram sobre um trauma
pessoal ou sobre um tema super cial.17 Também nesse caso, os que
escreveram sobre traumas pessoais recorreram menos ao centro de saúde
estudantil, e a melhora na saúde coincidiu com uma melhora nas funções
imunológicas, medida pela ação dos linfócitos T (células destruidoras
naturais) e outros marcadores imunológicos no sangue. Esse efeito cou
mais evidente logo depois do estudo, mas ainda podia ser detectado seis
semanas mais tarde. No mundo inteiro, pesquisas com alunos de escolas
primárias, residentes em casas de repouso, estudantes de medicina,
prisioneiros em instituições de segurança máxima, pessoas com artrite,
mulheres que haviam acabado de dar à luz o primeiro lho, além de vítimas
de estupro, mostram que escrever sobre fatos perturbadores melhora a saúde
física e mental.
Outro aspecto dos estudos de Pennebaker chamou minha atenção:
participantes que discorriam sobre questões íntimas ou difíceis mudavam o tom de voz e o modo de falar. As diferenças eram tão acentuadas que
Pennebaker achou que talvez pudesse ter misturado as tas. Uma moça, por
exemplo, relatou seus planos para o resto do dia com voz infantil e
estridente, porém, minutos depois, quando contou ter furtado cem dólares
de uma caixa registradora aberta, tanto o volume quanto a altura da voz
haviam baixado tanto que parecia vir de outra pessoa. As alterações no
estado emocional também se re etiam na caligra a. Ao passar de um tema a
outro, os participantes trocavam a escrita cursiva por letras de fôrma, para
depois voltar ao cursivo; havia variações também na inclinação das letras e
na pressão da caneta.
Essas alterações, que os clínicos chamam de “desvios”, são comuns em
pessoas com histórico de trauma. Os pacientes ativam estados emocionais e
siológicos claramente diferentes ao mudar de tema. Os desvios se
manifestam não só em tons de voz notavelmente diferentes como também
em expressões faciais e movimentos corporais. Em alguns pacientes, parece
haver uma mudança de identidade pessoal, pois passam de tímidos a
enérgicos e agressivos, ou de uma submissão ansiosa a uma óbvia intenção
sedutora. Quando escrevem sobre seus temores mais profundos, a caligra a
costuma ser mais infantil e primitiva.
Pacientes que manifestam esses estados radicalmente diferentes
costumam emudecer se acusados de simulação ou se instados a não mais
mostrar suas facetas imprevisíveis e incômodas. É provável que continuem a
procurar ajuda, mas, depois de terem sido silenciados, seus gritos de socorro
não serão com palavras, mas atos: tentativas de suicídio, depressão e acessos
de raiva. Como se verá no capítulo 17, só ocorre uma melhora se pacientes e
terapeutas entenderem os papéis que esses diferentes estados
desempenharam em sua sobrevivência.
ARTES VISUAIS, MÚSICA E DANÇA
Milhares de terapeutas se valem das artes visuais, da música e da dança para
trabalhar com crianças vítimas de abuso, soldados com TEPT, vítimas de
incesto, refugiados ou sobreviventes de tortura, e numerosos estudos
cientí cos atestam a e cácia dessas terapias expressivas.18 Entretanto, não sabemos quase nada sobre como elas atuam ou quais aspectos dos estresses
traumáticos buscam corrigir. As pesquisas necessárias para determinar em
termos cientí cos o valor desses trabalhos envolveriam enormes obstáculos
logísticos e nanceiros.
A capacidade das artes visuais, da música e da dança para superar a
mudez causada pelo terror pode ser um dos motivos pelos quais culturas de
todo o mundo as empreguem como tratamento para o trauma. Um dos
raros estudos sistemáticos que compararam a expressão artística não verbal
e a escrita foi feito por James Pennebaker e Anne Krantz, terapeuta de San
Francisco que usa dança e movimento,19 incluiu 64 estudantes, divididos em
três grupos. Os membros do primeiro grupo deveriam expressar uma
experiência traumática pessoal através de movimentos corporais, em três
dias consecutivos, por um mínimo de dez minutos diários, e depois escrever
sobre essa experiência durante dez minutos. O segundo grupo dançou, mas
não escreveu; o terceiro cumpriu um programa rotineiro de exercícios. Ao
longo dos três meses seguintes, todos disseram que se sentiam mais felizes e
saudáveis. No entanto, somente o primeiro grupo mostrava sinais
inequívocos dessas sensações: melhor saúde física e aumento da média de
pontuação. (O estudo não avaliou sintomas especí cos de TEPT.) Pennebaker
e Anne Krantz concluíram: “A mera expressão do trauma não basta. Ao que
parece, a saúde exige que as experiências sejam traduzidas em palavras.”
Entretanto, não sabemos ainda se essa conclusão – de que a linguagem é
essencial para a cura – é sempre verdadeira. Estudos sobre o uso de textos
focados em sintomas de TEPT (não na saúde em geral) têm sido
desapontadores. Quando falei sobre isso com Pennebaker, ele me advertiu
de que a maioria dos estudos sobre textos com pacientes de TEPT haviam
sido realizados com grupos cujos participantes pensavam que suas histórias
se destinavam ao conhecimento dos demais. E reiterou o ponto que ressaltei
acima – o leitor dos textos deve ser o próprio autor, para que descubra o que
vinha tentando ocultar.
OS LIMITES DA LINGUAGEM
O trauma massacra tanto os ouvintes como o narrador. Em e Great War
in Modern Memory (A Grande Guerra na memória moderna), magistral
estudo sobre a Primeira Guerra Mundial, Paul Fussell faz comentários
brilhantes sobre a zona de silêncio criada pelo trauma:
Um dos pontos críticos da guerra […] é a colisão entre os fatos e a
linguagem de que se dispõe – ou tida como apropriada – para
descrevê-los […]. Não há, logicamente, razão alguma para que a
língua inglesa não possa traduzir à perfeição a realidade da […]
guerra: ela é rica em vocábulos como sangue, terror, agonia, loucura,
merda, crueldade, homicídio, traição, dor e embuste, assim como
frases como pernas decepadas por explosão, segurava nas mãos a
massa de intestinos, gritando a noite inteira, sangrando pelo reto até
morrer e outras semelhantes […]. O problema era menos de
“linguagem” que de polidez e otimismo […]. O verdadeiro motivo
[pelo qual os soldados se calam] é que descobriram que ninguém
está muito interessado nas notícias ruins que eles têm a dar. Que
ouvinte quer ser dilacerado e abalado se não precisa passar por isso?
Fizemos com que indizível signi que indescritível: na verdade a
palavra quer dizer 20 desagradável.
Falar de fatos dolorosos não cria necessariamente comunhão de
sentimentos – não é raro ocorrer justo o contrário. Famílias e organizações
podem rejeitar membros que expõem a roupa suja; amigos e parentes às
vezes perdem a paciência com pessoas que empacam em suas angústias ou
dores. Esse é um dos motivos por que vítimas de trauma muitas vezes se
retraem e suas histórias se tornam narrativas mecânicas, editadas de forma a
ter menos probabilidade de provocar rejeição.
É muito difícil encontrar locais seguros onde expressar a dor do trauma,
e é por isso que comunidades como Alcoólicos Anônimos, Filhos Adultos
de Alcoólicos, Narcóticos Anônimos e outros grupos de apoio podem ser
tão importantes. Descobrir uma comunidade receptiva a ouvir a sua verdade
torna possível a recuperação. É também por essa razão que sobreviventes
precisam de terapeutas pro ssionais treinados para escutar os detalhes
torturantes da vida deles. Lembro a primeira vez que um veterano me contou ter matado uma criança no Vietnã. Experimentei um vívido
ashback de quando eu tinha uns 7 anos e meu pai me disse que soldados
nazistas haviam espancado até a morte uma criança vizinha, em frente à
nossa casa, por tê-los desrespeitado. Minha reação à con ssão do veterano
foi insuportável, e foi necessário encerrar a sessão. É por isso que terapeutas
precisam ter feito a própria terapia profunda para que possam cuidar de si
mesmos e mostrar estabilidade emocional diante de seus clientes, mesmo
quando o que eles revelam desperte sensações de raiva ou repugnância.
Às vezes surge outro problema: as vítimas emudecem, pois a área
cerebral da linguagem se bloqueia.21 Já presenciei esses silêncios em
tribunais, em processos por imigração ilegal e também num processo contra
um acusado de chacina em Ruanda. Chamadas a depor, as pessoas muitas
vezes cam tão perturbadas que mal emitem um som, ou são tomadas por
tal estado de pânico que não conseguem articular com clareza o que lhes
aconteceu. É comum que seus depoimentos acabem desconsiderados pelo
tribunal por serem demasiado caóticos, confusos e fragmentados.
Outros traumatizados tentam contar sua história de uma forma que não
os deixe descontrolados. Entretanto, agindo assim, parecem testemunhas
evasivas e pouco con áveis. Já vi dúzias de processos serem extintos porque
indivíduos que pediam asilo político eram incapazes de fazer relatos
coerentes sobre suas motivações. Sei também de diversos casos de veteranos
que tiveram reivindicações rejeitadas pela AV pela incapacidade em expor
com precisão o que lhes acontecera.
Desorientação e mutismo são rotina em consultórios de terapia.
Sabemos muito bem que os pacientes se mostrarão atarantados se
insistirmos para que exponham certos detalhes de sua história. Aprendemos
a “balancear” nossa abordagem do trauma, para usar um termo criado por
meu amigo Peter Levine. Não é que descartemos os detalhes, mas ensinamos
as pessoas a colocar primeiro um dedo do pé na água, repetir com o outro, e
assim aproximar-se da verdade de maneira gradual.
Começamos criando “ilhas de segurança” no interior do corpo.22 Isso
signi ca ajudar os pacientes a identi car partes do corpo, posturas ou
movimentos com os quais possam contar quando se sentirem empacados,
aterrorizados ou enraivecidos. Essas partes do corpo, em geral, estão fora do
alcance do nervo vago, que leva as mensagens de pânico ao peito, ao abdome e à garganta, e podem atuar como aliadas na integração do trauma.
Posso perguntar a uma paciente se suas mãos estão bem, e, se ela responder
que sim, eu lhe pedirei que as movimente, explorando sua leveza, sua
exibilidade e seu calor. Mais adiante, se vejo seu peito se comprimir e a
respiração quase cessar, posso lhe pedir que pare, concentre-se nas mãos e as
movimente, de modo que ela se sinta à parte do trauma. Ou posso lhe dizer
para se concentrar em sua expiração e perceber como pode mudá-la, ou que
levante e abaixe os braços a cada ciclo respiratório – um movimento de
qigong.
Para alguns, dar batidinhas em pontos de acupuntura é uma boa
âncora.23 Peço a outros que sintam o peso do corpo na cadeira ou que
plantem os pés no chão. A alguém que esteja sucumbindo ao silêncio,
aconselho a veri car o que acontece quando se senta com o tronco ereto.
Alguns descobrem as próprias ilhas de segurança – percebem que podem
criar sensações corporais para contrabalançar a sensação de perda de
controle. Isso prepara o terreno para a resolução do trauma: pendular entre
estados de exploração e segurança, entre linguagem e corpo, entre
rememorar o passado e se sentir vivo no presente.
LIDAR COM A REALIDADE
Entretanto, lidar com lembranças traumáticas é apenas o começo do
tratamento. Numerosos estudos constataram que pessoas com TEPT têm
mais problemas para concentrar a atenção e adquirir novas informações. 24
Alexander McFarlane fez um teste simples: pediu a um grupo que citasse em
um minuto o maior número possível de palavras começadas com a letra B.
Pessoas normais citavam em média quinze palavras; indivíduos com TEPT,
três ou quatro. Palavras ameaçadoras como “sangue”, “ferida” ou “estupro”
provocavam certa hesitação em pessoas normais; já as com TEPT mostravam
a mesma hesitação diante de palavras inocentes como “lã”, “sorvete” e
“bicicleta”. 25
Depois de um tempo, a maioria das vítimas de TEPT não gasta muito
tempo ou esforço lidando com o passado – seu grande problema consiste em
simplesmente chegar ao m do dia. Mesmo indivíduos traumatizados que dão contribuições reais nas áreas de ensino, negócios, medicina ou artes, e
que estão se saindo bem na criação dos lhos, gastam muito mais energia
nas tarefas do dia a dia do que as demais.
No entanto, outra cilada da linguagem é a ilusão de que nosso
pensamento pode ser corrigido com facilidade se não “ zer sentido”. A parte
“cognitiva” da terapia cognitivo-comportamental se concentra em mudar
esse “pensamento disfuncional”. Essa é uma atitude autoritária em relação à
mudança, na qual o terapeuta desa a ou “reformula” cognições negativas,
como se dissesse “Vamos comparar suas sensações de que você é culpada
por seu estupro com os fatos reais do incidente” ou “Vamos comparar seu
terror de dirigir com as estatísticas atuais sobre segurança nas estradas”.
Lembro-me da mulher desnorteada que certa vez bateu às portas de
nossa clínica pedindo ajuda para lidar com seu bebê de dois meses porque
ele era “muito egoísta”. Será que ela conseguiria resolver a situação lendo um
folheto sobre desenvolvimento infantil ou uma explicação do conceito de
altruísmo? É pouco provável que esse tipo de informação a ajudasse sem que
antes ela tivesse acesso às partes assustadas e abandonadas de si mesma – as
partes expressadas por seu terror da dependência.
Não resta dúvida de que os traumatizados têm pensamentos irracionais:
“A culpa foi minha, por ser tão sexy”, “Os outros caras não tinham medo, são
homens de verdade”, “Eu devia ter pensado melhor e não andar por aquela
rua”. O melhor a fazer é encarar essas ideias como ashbacks cognitivos –
não se discute com essas pessoas, da mesma forma como não discutiríamos
com quem tem constantes ashbacks de um terrível acidente. São resíduos
de incidentes traumáticos: pensamentos que estavam passando pela cabeça
dessas pessoas quando os traumas ocorreram, ou logo depois, e que são
reativados em condições de estresse. Uma forma de tratá-los é com EMDR,
tema do capítulo seguinte.
O NINGUÉM SE TORNA ALGUÉM
Por que as pessoas cam arrasadas ao contar a história de sua vida? E por
que têm ashbacks cognitivos? Porque o cérebro delas mudou. Como Freud
e Breuer já haviam observado, o trauma não age simplesmente como um agente liberador de sintomas. Na verdade, “o trauma psíquico – ou melhor, a
lembrança do trauma – age como um corpo estranho que, muito tempo
depois de sua in ltração, continua visto como um agente que ainda exerce
sua função”. 26 Tal como a infecção causada por uma farpa, o trauma é a
resposta do corpo ao objeto estranho, uma resposta que se torna um
problema maior do que o invasor.
A moderna neurociência corrobora plenamente a ideia de Freud de que
muitos de nossos pensamentos conscientes são racionalizações complexas
da profusão de instintos, re exos, motivos e memórias entranhadas que
emanam do inconsciente. Como vimos, o trauma interfere no
funcionamento de áreas cerebrais que gerenciam e interpretam a
experiência. Uma percepção saudável de self – uma percepção que permita a
alguém a rmar com con ança “É isso que penso e sinto” ou “É isso que está
acontecendo comigo” – depende de uma interação saudável e dinâmica
entre essas áreas.
Quase todos os estudos tomográ cos de pacientes traumatizados
constatam uma ativação anormal da ínsula, parte do cérebro que integra e
interpreta as informações enviadas pelos órgãos internos, entre os quais
músculos, articulações e o sistema de equilíbrio – o sistema proprioceptivo
–, para gerar na pessoa a sensação de possuir um corpo. A ínsula transmite à
amídala sinais que desencadeiam as respostas de luta ou fuga. Para tanto,
não requer que haja informação cognitiva ou reconhecimento consciente de
que algo deu errado – a pessoa apenas se sente inquieta e incapaz de
concentrar a atenção ou, na pior das hipóteses, tem uma sensação de
tragédia iminente. Essas fortes sensações são geradas nas áreas mais
profundas do cérebro e não podem ser eliminadas mediante a razão ou o
entendimento.
Permanecer o tempo todo perturbado pela origem das sensações
corporais, mas estar conscientemente isolado dela, produz alexitimia: a
incapacidade de sentir e verbalizar o que está acontecendo. Só se entrar em
contato com o corpo, conectando-se visceralmente com o self, é que a
pessoa consegue recobrar a noção de quem ela é, de suas prioridades e
valores. Tanto a alexitimia quanto a dissociação e o bloqueio envolvem as
estruturas cerebrais que nos permitem focar a atenção, saber o que sentimos
e tomar medidas para nos proteger. Se essas estruturas essenciais são submetidas a um choque inescapável, o resultado pode ser confusão e
agitação, ou então alheamento emocional, muitas vezes acompanhado de
experiências extracorporais – a sensação de que você está olhando para si
mesmo à distância. Em outras palavras, com o trauma o indivíduo se sente
como outra pessoa, ou como ninguém. Para superá-lo, é preciso retomar o
contato com seu corpo, com seu self.
A linguagem, sem dúvida, é essencial: o senso de self depende de o
indivíduo ser capaz de organizar as memórias num todo coerente,27 o que
requer conexões funcionais entre o cérebro consciente e o sistema de self do
corpo – conexões com frequência dani cadas pelo trauma. A história só
pode ser contada na íntegra se essas estruturas forem restauradas e os
alicerces lançados – depois que o ninguém se torna alguém.
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