O corpo guarda as marcas

Bessel van der Kolk · Capítulo 1 de 28

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O corpo guarda as marcas

Prólogo: O trauma

PRÓLOGO

 

O TRAUMA

 

N inguém precisa ter combatido no front ou visitado um campo de refugiados na Síria ou no Congo para se ver diante do trauma. Acontece com a gente, com nossos amigos, parentes e vizinhos. Pesquisas de

Centros de Controle e Prevenção de Doenças já mostraram que um entre

cinco americanos sofreu abuso sexual na infância; que um entre quatro

apanhou de um dos pais a ponto de ter cado com marcas no corpo; e que a

violência física é a realidade de um em cada três casais. Um quarto dos

americanos cresceu junto de parentes com problemas de alcoolismo, e um

entre oito viu a mãe ser espancada ou agredida. 1

O ser humano pertence a uma espécie com extrema capacidade de

adaptação. Desde o começo dos tempos nos recuperamos de guerras

constantes, de desastres incontáveis (naturais ou provocados), da violência e

da traição em nossa vida pessoal. Entretanto, as experiências traumáticas

deixam marcas, seja em grande escala (na história dos países e nas culturas),

seja em nossos lares e famílias, com seus segredos tenebrosos que passam de

uma geração a outra. Também imprimem marcas na mente, nas emoções,

na capacidade de desfrutar de alegrias e prazeres, e até no sistema biológico

e imunológico.

O trauma afeta não só as pessoas que o sofreram diretamente como

também as que as rodeiam. Soldados que voltam do front podem deixar a

família assustada com crises de fúria e vazio emocional. Mulheres casadas com homens acometidos de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT)

costumam ter depressão. Os lhos de mães deprimidas correm o risco de

crescer inseguros e ansiosos. Uma criança exposta à violência familiar

encontrará, na vida adulta, di culdade para estabelecer relacionamentos

estáveis e baseados na con ança.

Por de nição, o trauma é insuportável e intolerável. As vítimas de

estupro, os soldados que estiveram em combate, assim como as crianças

molestadas sexualmente, em sua maioria, cam tão perturbados ao re etir

sobre suas experiências que tentam expulsar essas lembranças da mente e ir

em frente como se nada tivesse acontecido. É preciso uma energia tremenda

para levar uma vida normal e, ao mesmo tempo, carregar a memória do

terror e a vergonha da absoluta fraqueza e vulnerabilidade.

Embora todos desejem deixar o trauma para trás, a parte do cérebro

dedicada a garantir a sobrevivência (situada abaixo do cérebro racional) não

lida muito bem com a negação. Uma experiência traumática pode se reativar

ao menor sinal de perigo, mesmo muito tempo depois de ela ter acontecido,

mobilizando circuitos cerebrais prejudicados e produzindo uma quantidade

absurda de hormônios do estresse. Surgem então emoções desagradáveis,

sensações físicas intensas e ações impulsivas e agressivas. Tais reações pós-

traumáticas se mostram incompreensíveis e avassaladoras. Sentindo-se

descontroladas, com frequência as pessoas acreditam sofrer de lesões

profundas e irreversíveis.

 

Lembro-me da primeira vez que pensei em estudar medicina: eu tinha uns

14 anos e estava numa colônia de férias. Passei a noite inteira acordado,

ouvindo as explicações do meu primo Michel sobre a complexidade do

funcionamento dos rins, o modo como eles secretam os refugos do corpo e,

depois, reabsorvem as substâncias químicas que mantêm o equilíbrio do

organismo. Fiquei hipnotizado por aquela exposição da forma milagrosa

como o corpo funciona. Tempos depois, ao longo de todas as fases da minha

formação médica, estivesse eu estudando cirurgia, cardiologia ou pediatria,

sempre pensei que a chave para a cura estava em entender como o

organismo humano funciona. Quando comecei a estudar psiquiatria, porém,

quei impressionado com o contraste entre, de um lado, a incrível

complexidade da mente e as maneiras como os seres humanos se conectam e se associam uns aos outros, e, do outro, como os psiquiatras sabiam tão

pouco a respeito das origens dos problemas que tratavam. Será que um dia

seria possível conhecer o cérebro, a mente e o amor tão bem como

conhecemos os demais sistemas que constituem nosso organismo?

É evidente que ainda estamos a anos-luz desse conhecimento minucioso,

mas três novas áreas cientí cas permitiram uma explosão de informações

sobre os efeitos do trauma psicológico, dos maus-tratos e da negligência.

Essas disciplinas recentes são a neurociência, que estuda como o cérebro

respalda os processos mentais; a psicopatologia do desenvolvimento,

dedicada ao impacto de experiências adversas sobre o desenvolvimento da

mente e do cérebro; e a neurobiologia interpessoal, voltada para a in uência

do nosso comportamento sobre as emoções, a biologia e a mentalidade das

pessoas com quem convivemos.

Pesquisas sobre essas novas disciplinas revelaram que o trauma provoca

mudanças siológicas reais, entre as quais a recon guração do sistema de

alarme do cérebro, o aumento da atividade dos hormônios do estresse e

alterações no sistema que separa as informações importantes das

irrelevantes. Sabemos que o trauma compromete a área cerebral que

transmite a sensação física, corpórea, de estar vivo. Essas mudanças

explicam por que pessoas traumatizadas se tornam hipervigilantes em

relação a ameaças, mesmo que isso venha a prejudicar a espontaneidade em

sua rotina diária. Também nos ajudam a entender por que as vítimas passam

repetidas vezes pelos mesmos problemas e têm tanta di culdade de

aprender com a experiência. Sabemos agora que essas condutas não

decorrem de de ciências morais nem indicam pouca força de vontade ou

má índole – são produto de mudanças reais no cérebro.

Essa expansão de conhecimento dos processos básicos que de nem o

trauma também abriu novas possibilidades para atenuar ou até reverter o

dano. Agora podemos criar métodos e fazer experimentos com base na

neuroplasticidade natural do cérebro para ajudar os sobreviventes a se

sentirem plenamente vivos no presente e tocarem a vida. Em essência, são

três os caminhos: 1) de cima para baixo, através da conversa, (re)fazendo o

contato com outras pessoas e nos permitindo conhecer e compreender o que

está acontecendo conosco, ao mesmo tempo que as lembranças do trauma

são processadas; 2) uso de medicamentos que impedem reações de alarme

impróprias, ou utilização de outras tecnologias que alteram o modo como o cérebro organiza as informações; e 3) de baixo para cima, permitindo que o

corpo tenha experiências que respondam de maneira profunda e visceral à

impotência, à raiva ou ao colapso resultantes do trauma. Qual é o melhor

caminho para determinado sobrevivente? Essa é uma questão resolvida na

prática. A maioria dos pacientes com quem trabalhei se bene cia de uma

combinação dos três.

Esse tem sido o trabalho da minha vida. Nessa atividade, tenho contado

com a colaboração de colegas e alunos no Trauma Center, que fundei há

trinta anos. Juntos, tratamos milhares de crianças e adultos traumatizados:

vítimas de abuso infantil, desastres naturais, guerras, acidentes e trá co de

pessoas; vítimas de agressões de conhecidos ou estranhos. As equipes

terapêuticas se reúnem toda semana para discutir em detalhes os casos de

cada paciente e acompanhar com a máxima atenção como os diferentes

tratamentos funcionam para cada um.

Nossa principal missão tem sido cuidar dessas crianças e adultos, mas

desde o começo também nos dedicamos à pesquisa dos efeitos do estresse

traumático nas mais variadas populações e a determinar qual abordagem é

melhor para cada indivíduo. Para estudar a e cácia das muitas formas de

tratamento, que vão da prescrição de medicamentos à terapia pela palavra, à

ioga, à dessensibilização e ao reprocessamento por movimentos oculares

(Eye Movement Desensitization and Reprocessing, EMDR), ao teatro e ao

neurofeedback (também chamado retroinformação neurológica), temos sido

apoiados por verbas de pesquisa do Instituto Nacional de Saúde Mental

(National Institute of Mental Health, NIMH), do Centro Nacional de

Medicina Complementar e Alternativa, dos Centros de Controle e

Prevenção de Doenças (Centers for Disease Control and Prevention, CDC) e

de inúmeras fundações privadas.

Como as pessoas poderiam administrar os resquícios de traumas

passados e voltar a ter controle sobre a própria vida? A terapia pela palavra,

a compreensão e o contato com outras pessoas ajudam, enquanto os

medicamentos podem amortecer sistemas de alarme hiperativos. No

entanto, vemos também que as marcas do passado podem se transformar

mediante experiências físicas que combatem diretamente a impotência, a

raiva e o colapso inerentes ao trauma, e assim levam a pessoa a recuperar o

autodomínio. Não tenho preferência por nenhuma modalidade em

particular, uma vez que nem toda abordagem serve para todo mundo, e utilizo todas as variantes que menciono. Cada uma delas pode produzir

mudanças profundas, a depender da natureza do problema e da constituição

da pessoa.

Este livro é um guia e um convite – um convite para enfrentar a

realidade do trauma, explorar a melhor forma de tratá-lo e, como sociedade,

empregar todos os meios disponíveis para evitá-lo.

 

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