O corpo guarda as marcas

Bessel van der Kolk · Capítulo 5 de 28

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O corpo guarda as marcas

PARTE II | O cérebro traumatizado

PARTE II

 

O CÉREBRO

 

TRAUMATIZADO

 

OceanofPDF.com

4

 

CORRENDO ATRÁS DA VIDA: A

 

ANATOMIA DA

 

SOBREVIVÊNCIA

 

Antes do advento do cérebro, não existiam no universo nem cor nem

som, nenhum sabor ou aroma, provavelmente, pouca percepção e

nada de sentimento ou emoção. Antes dos cérebros, o universo

também estava isento de dor e ansiedade.

 

Roger Sperry1

 

E m 11 de setembro de 2001, Noam Saul, de 5 anos, viu das janelas de sua sala do primeiro ano na Escola Pública 234, a cerca de 450 metros do World Trade Center, o primeiro avião atingir a Torre Norte. Ele e os

coleguinhas desceram as escadas e correram para o saguão, onde a maior

parte das crianças encontrou os pais, que as haviam deixado no colégio

momentos antes. Noam, seu irmão mais velho e o pai foram algumas das

dezenas de milhares de pessoas que correram para salvar a vida em meio aos

escombros, às cinzas e à fumaça que tomaram conta da área sul de

Manhattan naquela manhã.

Desenho feito por Noam, de 5 anos, depois de ver o ataque ao World Trade Center no 11 de Setembro. Noam desenhou a cena que havia assombrado tantos sobreviventes – pessoas saltando das janelas para fugir à con agração –, mas acrescentou uma solução salvadora: uma cama elástica na base do edifício em chamas.

 

Dez dias depois, visitei seus pais, que são amigos meus, e naquela noite

saímos para uma caminhada, passando pela cova ainda fumegante onde

antes cava a Torre Norte, avançando em meio às equipes de socorro que

trabalhavam 24 horas por dia sob a luz de re etores potentes. Quando

voltamos para casa, Noam ainda estava acordado e me mostrou um desenho

que tinha feito às nove da manhã do dia 12 de setembro. O desenho revelava

o que ele tinha visto na véspera: um avião se espatifando contra a torre, uma

bola de fogo, bombeiros, pessoas saltando das janelas. No entanto, na base

da imagem ele tinha desenhado outra coisa: um círculo negro junto dos

edifícios. Como não entendi aquilo, perguntei o que era. “Uma cama

elástica”, ele respondeu. O que uma cama elástica estava fazendo ali? Noam

explicou: “Assim, da próxima vez que as pessoas forem saltar, elas terão segurança.” Fiquei atônito: aquele menino de 5 anos, testemunha de uma

confusão e de uma catástrofe pavorosas, ocorridas apenas 24 horas antes de

ele ter feito o desenho, havia usado a imaginação para processar o que vira e

seguir adiante com a vida.

Noam era um garoto afortunado. Ninguém da família se machucara, ele

estava crescendo cercado de amor e conseguiu compreender que a tragédia a

que assistira tinha chegado ao m. Por ocasião de desastres, crianças

pequenas, em geral, reagem imitando os pais. Se os cuidadores se mantêm

calmos e atendem às necessidades delas, é comum que sobrevivam a

incidentes terríveis sem graves danos psicológicos.

Entretanto, a experiência de Noam nos permite observar dois aspectos

críticos da resposta adaptativa à ameaça, fundamental para a sobrevivência

humana. No momento do desastre, ele foi capaz de assumir um papel ativo;

ao fugir correndo, tornou-se agente do próprio socorro. E logo que chegou à

segurança de sua casa, os sinais de alarme em seu cérebro silenciaram. Sua

mente se liberou para conferir algum sentido ao que tinha acontecido e até

imaginar uma alternativa criativa ao que vira – uma cama elástica salva-

vidas.

O trauma afeta todo o organismo humano – o corpo, a mente e o cérebro. No TEPT, o corpo continua a se defender de uma ameaça que cou no passado. Recuperar-se signi ca pôr

m a essa contínua mobilização para o estresse e restaurar a segurança de todo o

organismo.

 

Ao contrário de Noam, as pessoas traumatizadas permanecem presas,

paralisadas em seu desenvolvimento, porque não podem integrar novas

experiências à vida. Fiquei muito comovido quando os veteranos da tropa

de Patton me deram, como presente de Natal, um relógio distribuído pelo

Exército durante a Segunda Guerra Mundial. No entanto, aquele relógio era

um triste lembrete do ano em que a vida de cada um deles efetivamente se

paralisara: 1944. O trauma faz com que o traumatizado continue a organizar

a vida como se o evento traumático ainda estivesse se desenrolando –

inalterado e imutável –, já que o passado contamina cada situação nova ou

evento não rotineiro.

Depois do trauma, a pessoa experimenta o mundo com um sistema

nervoso diferente. A energia do sobrevivente se concentra em suprimir o

caos interior, em prejuízo da espontaneidade em sua vida. Tais tentativas de

manter o controle sobre reações psicológicas insuportáveis podem levar a

toda uma gama de sintomas físicos, entre os quais bromialgia, fadiga

crônica e outras doenças autoimunes. Isso explica o motivo pelo qual no

tratamento do trauma é essencial envolver todo o organismo – corpo, mente

e cérebro.

 

ORGANIZADOS PARA SOBREVIVER

 

A ilustração da página 64 mostra a resposta do corpo a uma ameaça.

Acionado o sistema de alarme do cérebro, ele desencadeia de maneira

automática, nas áreas cerebrais mais antigas, planos pré-programados de

fuga física. Tal como em outros animais, os nervos e as substâncias químicas

que constituem a estrutura cerebral básica estão diretamente ligados ao

corpo. Quando o cérebro primitivo assume o comando, ele fecha

parcialmente o cérebro superior (a mente consciente) e impele o corpo a

correr, esconder-se, lutar ou, de vez em quando, congelar. Quando nos

conscientizamos plenamente da situação, nosso corpo já pode estar em movimento. Se a resposta de lutar, fugir ou congelar tiver êxito e escaparmos

do perigo, recuperamos o equilíbrio interior e, aos poucos, “recuperamos a

razão”.

Se, por algum motivo, a resposta normal for bloqueada – por exemplo,

quando as pessoas são imobilizadas, cam presas ou impedidas de agir de

forma e ciente, tanto numa zona de guerra quanto num acidente de carro,

num episódio de violência doméstica ou num estupro –, o cérebro continua

a secretar substâncias químicas de estresse, enquanto seus circuitos elétricos

seguem liberando essas substâncias em vão. 2 Muito tempo depois de

passado o evento real, o cérebro pode continuar enviando ao corpo sinais

para que ele fuja de uma ameaça que não existe mais. Pelo menos desde

1889, quando o psicólogo francês Pierre Janet publicou o primeiro relato

cientí co de um estresse traumático,3 sabe-se que os sobreviventes de

traumas costumam “dar prosseguimento à ação, ou melhor, à tentativa

(inútil) de ação, que começou antes da ocorrência do fato causador”. Ser

capaz de agir e fazer algo para se proteger é um fator determinante para que

uma experiência horrível deixe ou não cicatrizes duradouras.

 

Ação efetiva versus imobilização. A ação efetiva (o resultado de luta ou de fuga) encerra a ameaça. A imobilização mantém o corpo num estado de choque inescapável ou de impotência adquirida. Diante do perigo, hormônios do estresse são secretados automaticamente pelo organismo para alimentar a resistência ou a fuga. O cérebro e o corpo estão programados para correr para casa, onde a segurança pode ser restaurada, cessando com isso a produção de hormônios do estresse. No caso desses homens amarrados a padiolas enquanto são resgatados de avião depois do furacão Katrina, os níveis de hormônios do estresse permanecem elevados e se voltam contra os sobreviventes, estimulando medo, depressão, raiva e doenças físicas.

Neste capítulo, analisaremos de forma mais profunda a resposta do

cérebro ao trauma. Quanto mais a neurociência aprende a respeito do

cérebro, mais compreendemos que ele é uma vasta rede de partes

interconectadas e organizadas para nos ajudar a sobreviver e crescer. Saber

como essas partes trabalham em conjunto é fundamental para entender

como o trauma afeta cada parte do organismo humano, o que pode vir a ser

um guia indispensável no tratamento do estresse traumático.

 

O CÉREBRO DE BAIXO PARA CIMA

 

A função mais importante do cérebro é garantir nossa sobrevivência, mesmo

nas condições mais difíceis. Tudo o mais é secundário. Para cumprir essa

função, o cérebro precisa: 1) gerar sinais internos que registrem aquilo de

que o corpo necessita, como alimento, descanso, proteção, sexo e abrigo; 2)

criar um mapa do mundo a m de nos mostrar como satisfazer essas

necessidades; 3) gerar a energia e as ações necessárias para que cheguemos a

esses lugares; 4) advertir-nos quanto aos perigos e oportunidades ao longo

do caminho; 5) ajustar nossos atos com base nos requisitos do momento.4 E

como nós, seres humanos, somos mamíferos, criaturas que só sobrevivem e

se desenvolvem em grupo, todos esses imperativos requerem coordenação e

colaboração. Os problemas psicológicos ocorrem quando nossos sinais

internos não funcionam, quando os mapas não nos conduzem para onde

precisamos ir, quando estamos paralisados demais para nos mover, quando

nossas ações não correspondem a nossas necessidades ou quando nossos

relacionamentos se desfazem. Qualquer estrutura cerebral que eu venha a

analisar desempenha um papel nessas funções essenciais, e, como se verá, o

trauma pode interferir em todas elas.

O cérebro racional, cognitivo, é a parte mais jovem do cérebro e não

ocupa mais que 30% do espaço interno do crânio. Ele lida sobretudo com o

mundo que nos rodeia: entende como as coisas e as pessoas funcionam e

decide como atingir os objetivos, administrar o tempo e ordenar nossos

atos. Abaixo do cérebro racional situam-se dois cérebros mais antigos do

ponto de vista evolucionário e, até certo ponto, separados, encarregados de

tudo o mais: o registro e o controle, de momento a momento, da siologia do corpo, e a identi cação de sensações de bem-estar, segurança, ameaça,

fome, fadiga, desejo, saudade, excitação, prazer e dor.

O cérebro é construído de baixo para cima. Ele se desenvolve de nível a

nível na criança ainda no ventre da mãe, do mesmo modo que se

desenvolveu ao longo da evolução. A parte mais antiga, aquela que já atua

quando nascemos, é o cérebro animal primitivo, muitas vezes chamado de

cérebro reptiliano. Ele se localiza no tronco encefálico, pouco acima do

ponto onde a medula espinhal penetra no crânio. O cérebro reptiliano é

responsável por tudo o que bebês recém-nascidos são capazes de fazer:

comer, dormir, acordar, chorar, respirar; sentir frio ou calor, fome, umidade

e dor; livrar o corpo de toxinas, urinando e defecando. Juntos, o tronco

encefálico e o hipotálamo, que se localiza bem em cima do primeiro,

controlam os níveis de energia do corpo. Ambos coordenam o

funcionamento do coração e dos pulmões, e também o sistema endócrino e

o sistema imunológico, assegurando que esses sistemas básicos de

sobrevivência se mantenham dentro do relativamente estável equilíbrio

interno, conhecido como homeostase.

Respirar, comer, dormir, defecar e urinar são atividades tão

fundamentais que é fácil negligenciar sua importância quando

consideramos as complexidades da mente e do comportamento. No entanto,

se o sono de uma pessoa é agitado, se os intestinos não funcionam a

contento, se ela está sempre com fome ou se, ao ser tocada, ela tem vontade

de gritar (como muitas vezes ocorre com crianças e adultos traumatizados),

todo o seu organismo se desequilibra. É espantoso o número de problemas

psicológicos que envolvem di culdades quanto a sono, apetite, toque,

digestão e estado de alerta. Para ser e caz, todo tratamento de trauma tem

de cuidar dessas funções básicas do corpo.

Logo acima do cérebro reptiliano ca o sistema límbico, também

conhecido como cérebro mamífero, pois todo animal que vive em grupo e

cuida das crias o possui. Essa parte do cérebro só começa a se desenvolver

efetivamente depois do nascimento do bebê. É a sede das emoções, o

monitor do perigo, o juiz daquilo que é prazeroso ou assustador, o árbitro do

que é ou não importante para a sobrevivência. É também um posto de

comando central para enfrentar os desa os de viver dentro de nossas

complexas redes sociais.

O sistema límbico se forma em resposta à experiência, em parceria com

a própria composição genética e com o temperamento inato da criança.

(Como percebem rapidamente todos os pais de mais de um lho, os bebês

diferem desde o nascimento quanto à intensidade e à natureza de suas

reações a fatos semelhantes.) Tudo o que acontece a um bebê contribui para

o mapa emocional e perceptivo do mundo criado por seu cérebro em

desenvolvimento. Segundo meu colega Bruce Perry, o cérebro é formado de

“maneira proporcional ao uso”. 5 Essa é outra forma de chamar a

neuroplasticidade, a descoberta relativamente recente de que neurônios que

“disparam juntos se conectam juntos”. Quando um circuito dispara repetidas

vezes, pode tornar-se uma con guração por padrão – a resposta que tem

maior probabilidade de ocorrer. Se a pessoa se sente segura e amada, o

cérebro se especializa em exploração, recreação e cooperação; se ela está

apreensiva e se sente indesejada, em sentimentos de medo e abandono.

Bebês e crianças de colo tomam conhecimento do mundo quando se

movem, agarram coisas, engatinham, e também ao descobrir o que acontece

depois de chorar, sorrir ou reclamar. Testamos o ambiente o tempo todo:

como nossas interações alteram o que nosso corpo sente? Em qualquer festa

de aniversário de 2 anos, sempre haverá uma criança que vai lhe dar atenção,

brincar com você e procurar cativá-lo, sem necessidade de linguagem. Essas

primeiras explorações moldam as estruturas límbicas dedicadas às emoções

e à memória, porém experiências posteriores podem também modi car de

maneira substancial essas estruturas: para melhor, por meio de uma amizade

fraterna ou de uma bela experiência de primeiro amor, por exemplo; para

pior, mediante agressão violenta, bullying constante ou negligência dos

cuidadores.

Considerados juntos, o cérebro reptiliano e o sistema límbico

constituem o que em todo este livro vou chamar de “cérebro emocional”.6 O

cérebro emocional está no âmago do sistema nervoso central e sua tarefa

fundamental é defender nosso bem-estar. Se detecta perigo – ou uma

oportunidade especial, como um sócio promissor –, ele alertará a pessoa

liberando uma descarga de hormônios. As sensações viscerais resultantes

(que vão desde um ligeiro desconforto até uma pressão angustiante de

pânico no peito) hão de interferir em qualquer coisa em que sua mente

estiver concentrada no momento e fazer com que você se mova – física e mentalmente – numa direção diferente. Mesmo que sejam sutilíssimas, essas

sensações exercem enorme in uência nas pequenas e grandes decisões que

tomamos na vida: o que escolhemos comer, onde gostamos de dormir e com

quem, se preferimos jardinagem ou cantar num coral, de quais pessoas

gostamos e aquelas que detestamos.

A organização celular e a bioquímica do cérebro emocional são mais

simples do que as do neocórtex, o cérebro racional. Por avaliar de forma

mais global as informações recebidas, o cérebro emocional tira conclusões

com base em semelhanças aproximadas. Já o cérebro racional está

organizado para analisar um conjunto complexo de alternativas. (O exemplo

clássico é o salto aterrorizado que a pessoa dá ao ver uma cobra, antes de

perceber que não passa de uma corda enrolada.) O cérebro emocional reage

com planos pré-programados de escapar daquela situação, ativando o

mecanismo de luta ou fuga. Essas reações musculares e siológicas são

automáticas, desencadeadas sem nenhuma re exão ou planejamento,

deixando que as respostas conscientes e racionais se manifestem mais tarde,

muitas vezes bem depois de passada a ameaça.

En m, chegamos à camada superior do cérebro, o neocórtex. Outros

mamíferos também apresentam essa camada externa, mas no ser humano

ela é muito mais espessa. No segundo ano de vida, os lobos frontais, que

formam a maior parte do neocórtex, começam a se desenvolver

rapidamente. Os antigos lósofos chamavam os 7 anos de “a idade da razão”.

Para nós, o primeiro ano do ensino fundamental é o prelúdio do que está

por vir, uma vida organizada em torno de aptidões dos lobos frontais: car

sentado quieto; controlar os esfíncteres; ser capaz de usar palavras em vez de

se expressar por meio de mímica; compreender ideias abstratas e simbólicas;

planejar o dia de amanhã e estar em sintonia com professores e colegas de

classe.

Os lobos frontais são responsáveis pelas qualidades que nos tornam

únicos no mundo animal. 7 Eles nos capacitam para usar a linguagem e o

pensamento abstrato. Permitem absorver e integrar vastas quantidades de

informações e atribuir signi cado a elas. Apesar do alvoroço da imprensa

em relação aos feitos linguísticos de chimpanzés e macacos rhesus, só os

seres humanos dominam as palavras e os símbolos necessários para os

contextos comunitário, espiritual e histórico que moldam nossa vida.

Os lobos frontais nos permitem planejar e re etir, imaginar e antever

cenários futuros. Eles nos ajudam a prever o que acontecerá se tomarmos

uma atitude (como nos candidatar a um novo emprego) ou deixarmos de

cumprir um dever (como pagar o aluguel). Tornam as escolhas possíveis e se

sujeitam à assombrosa criatividade humana. Gerações de lobos frontais,

trabalhando em estreita colaboração, criaram a cultura que nos levou das

canoas escavadas em troncos de árvore, dos coches puxados por cavalos e

das cartas aos aviões a jato, aos carros híbridos e ao e-mail. Também nos

deram a cama elástica salva-vidas de Noam.

 

ESPELHAMENTO: A NEUROBIOLOGIA INTERPESSOAL

 

Fundamentais para a compreensão do trauma, os lobos frontais também são

a sede da empatia – nossa capacidade de “sentir” outra pessoa. Uma das

descobertas sensacionais da neurociência moderna ocorreu em 1994,

quando, num golpe de sorte, um grupo de cientistas italianos identi cou no

córtex células especializadas conhecidas como neurônios-espelhos. 8 Os

pesquisadores prenderam eletrodos a neurônios isolados na área pré-motora

de um macaco e, com auxílio de um computador, determinaram quais

neurônios disparavam quando o animal pegava um amendoim ou agarrava

uma banana. Em certo momento, um cientista que guardava alimentos

numa caixa olhou para o computador. As células cerebrais do macaco

estavam disparando exatamente onde se localizavam os neurônios de

comando motor. No entanto, o animal não estava se mexendo ou comendo,

somente olhava para o pesquisador. O cérebro do macaco estava reagindo às

ações do pesquisador, em seu lugar!

O experimento foi repetido diversas vezes em todo o mundo, e logo

cou claro que os neurônios-espelhos elucidavam muitos aspectos da mente

antes inexplicáveis, como empatia, imitação, sincronia e até o surgimento da

linguagem. Um autor comparou os neurônios-espelhos a um “Wi-Fi

neural” 9 – percebemos não só o movimento de outra pessoa como também

seu estado emocional e suas intenções. Quando estão em sincronia, as

pessoas costumam car de pé ou sentadas de maneira semelhante, e a fala

delas têm a mesma cadência. Contudo, os neurônios-espelhos também nos tornam vulneráveis ao negativismo alheio, de modo que reagimos à raiva

delas com fúria ou somos arrastados por suas depressões. Terei mais a dizer

a respeito dos neurônios-espelhos, adiante, neste livro, já que quase sempre

o trauma envolve não ser visto, não ser imitado, nem ser levado em

consideração. O tratamento exige a reativação da capacidade de espelhar os

outros e por eles ser espelhado com segurança, mas também a capacidade de

não se deixar levar pelas emoções negativas do outro.

 

O modelo trino (três partes) do cérebro. O cérebro se desenvolve de baixo para cima. O cérebro reptiliano se desenvolve na vida intrauterina e organiza as funções vitais básicas, sendo altamente reativo ao perigo durante toda a vida. O sistema límbico se organiza sobretudo nos primeiros seis anos de vida, mas continua a evoluir, dependendo do uso. O trauma pode ter um impacto importante em suas funções durante toda a vida. O córtex pré-frontal, o último a se desenvolver, também é afetado pela exposição ao trauma, podendo inclusive tornar-se incapaz de ltrar informações irrelevantes. Durante toda a vida, ca sujeito a se desligar em resposta a uma ameaça.

 

Lobos frontais em bom estado são cruciais para relacionamentos

humanos harmoniosos. É o que aprende qualquer um que tenha trabalhado

com pessoas com lesões cerebrais, ou tenha cuidado de pais com demência.

Perceber que os outros podem pensar e sentir de forma distinta da nossa é um grande avanço no desenvolvimento de crianças de 2 e 3 anos. Elas

aprendem a entender os motivos dos outros, de modo a se adaptar com

segurança a grupos que têm percepções, expectativas e valores diferentes.

Sem lobos frontais exíveis e ativos, as pessoas desenvolvem hábitos

arraigados, e seus relacionamentos passam a ser super ciais e rotineiros.

Invenção e inovação, descoberta e espanto – nada disso existe.

Os lobos frontais também podem (às vezes, mas nem sempre) impedir

que façamos algo que venha a nos constranger ou magoar outras pessoas.

Não precisamos comer toda vez que sentimos fome, beijar qualquer um que

desperte nosso desejo ou explodir toda vez que nos zangamos. Contudo, é

exatamente no limite entre o impulso e o comportamento aceitável que a

maior parte de nossos problemas tem início. Quanto mais intenso for o

aporte sensório visceral proveniente do cérebro emocional, menor é a

capacidade do cérebro racional de atenuá-lo.

 

A IDENTIFICAÇÃO DO PERIGO: O COZINHEIRO E O

DETECTOR DE FUMAÇA

 

O perigo é um componente normal da vida, e ao cérebro cabe detectá-lo e

organizar a resposta a ele. As informações sensoriais do mundo externo nos

chegam pela visão, o olfato, a audição e o tato. Essas sensações con uem

para o tálamo, uma área no interior do sistema límbico que age como

“cozinheiro” no cérebro. O tálamo mistura todos os aportes provenientes de

nossas percepções numa sopa autobiográ ca perfeitamente homogênea,

uma experiência coerente e integrada de “é isso que está acontecendo

comigo”.10 As sensações então seguem em duas direções: para a amídala,

constituída de duas pequenas estruturas em forma de amêndoa situadas no

interior do cérebro límbico, inconsciente, e para os lobos frontais, onde

chegam à percepção consciente. O neurocientista Joseph LeDoux refere-se

ao caminho para a amídala como “a estradinha”, que é rapidíssima, enquanto

chama o que leva ao córtex frontal de “autoestrada”, cujo percurso demora

vários milissegundos a mais quando diante de uma experiência

insuportavelmente ameaçadora. No entanto, o processamento pelo tálamo

pode falhar. Impressões visuais, auditivas, olfativas e táteis são codi cadas como fragmentos isolados, dissociados, e o processamento normal da

memória se desintegra. O tempo congela, dando a impressão de que o

perigo presente durará para sempre.

A função central da amídala, que chamo de detector de fumaça do

cérebro, é identi car se o aporte recebido é relevante para a sobrevivência.11

A amídala cumpre essa função de forma rápida e automática, com a ajuda de

retroalimentação por parte do hipocampo, uma estrutura próxima que

relaciona o novo aporte com experiências passadas. Se percebe uma ameaça

– uma possível colisão com um veículo que vem na direção oposta sua, uma

pessoa na rua que parece intimidadora –, a amídala envia uma mensagem

instantânea ao hipotálamo e ao tronco encefálico, convocando o sistema de

hormônios do estresse e o sistema nervoso autônomo (SNA) a orquestrar

uma resposta de todo o corpo. Como processa as informações que recebe do

tálamo mais depressa do que os lobos frontais, a amídala decide se a

informação recebida constitui uma ameaça para a sobrevivência antes

mesmo de a pessoa estar consciente do perigo. Quando o corpo se dá conta

do que está acontecendo, talvez já esteja agindo.

 

O cérebro emocional faz a primeira interpretação dos dados recebidos. As informações visuais, auditivas, táteis, cinestésicas, etc. sobre o meio ambiente e o estado do corpo convergem para o tálamo, onde são processadas e então chegam à amídala, para que esta interprete seu signi cado emocional. Isso acontece muito rápido. Se é detectado um perigo, a amídala envia mensagens ao hipotálamo para que secrete hormônios do estresse como defesa contra essa ameaça. O neurocientista Joseph LeDoux chama esse caminho de estradinha. O segundo caminho neural, a autoestrada, vai do tálamo, passando pelo hipocampo e pelo cingulado anterior, até o córtex pré-frontal (o cérebro racional), onde os sinais de perigo sofrem uma reinterpretação consciente e muito mais re nada. Isso demora vários milissegundos mais. Se a interpretação de perigo feita pela amídala é demasiado intensa e/ou se o sistema de ltragem das áreas superiores do cérebro for muito fraco, como ocorre com frequência com vítimas de TEPT, as pessoas perdem o controle sobre as respostas automáticas de emergência, como explosões de agressividade ou sobressaltos prolongados.

 

Os sinais de perigo enviados pela amídala desencadeiam a liberação de

poderosos hormônios do estresse, entre eles o cortisol e a adrenalina, que

elevam o ritmo cardíaco, a pressão sanguínea e a frequência respiratória,

preparando-nos para lutar ou fugir. Passado o perigo, o corpo retorna

rapidamente a seu estado normal. Todavia, se a recuperação é bloqueada, o

corpo ca preparado para se defender, o que faz as pessoas se sentirem

agitadas e excitadas.

Embora o detector de fumaça tenha, em geral, bastante e ciência para

captar sinais de perigo, o trauma aumenta o risco de uma interpretação

equivocada quanto a uma determinada situação ser perigosa ou não. Uma

pessoa só consegue lidar bem com as outras caso tenha capacidade de

avaliar corretamente se as intenções delas são amistosas ou perigosas.

Mesmo um pequeno erro de interpretação pode levar a mal-entendidos

dolorosos nos relacionamentos em casa e no trabalho. Atuar com e cácia

num ambiente de trabalho complexo ou numa casa cheia de crianças

indisciplinadas exige a capacidade de avaliar com rapidez como as pessoas

estão se sentindo e ajustar continuamente a própria conduta. Sistemas de

alarme defeituosos levam a explosões ou bloqueios em reação a comentários

ou expressões faciais inócuas.

 

CONTROLE DA RESPOSTA DE ESTRESSE: A TORRE DE

VIGIA

Se a amídala é o detector de fumaça no cérebro, podemos entender os lobos

pré-frontais mediais ( 12 LPFM ), localizados logo acima dos olhos, como um

vigilante, ou a torre de vigia, que permite uma visão geral da cena. A fumaça

é sinal de que a casa está pegando fogo e de que é preciso deixá-la depressa,

ou vem da carne disposta sobre uma chama muito forte? A amídala não faz

esse tipo de julgamento; ela só prepara a pessoa para lutar ou fugir, antes

mesmo que os lobos frontais possam fazer essa avaliação. Desde que você

não esteja transtornado demais, seus lobos frontais podem restaurar seu

equilíbrio ajudando-o a perceber que está reagindo a um alarme falso e

frustrar a reação de estresse.

Normalmente, as aptidões executivas do córtex pré-frontal permitem às

pessoas observar o que está acontecendo, predizer o que ocorrerá se forem

por esse ou aquele caminho e tomar uma decisão consciente. Ser capaz de

avaliar com calma e objetividade pensamentos, sensações e emoções (uma

faculdade que aqui chamarei de atenção plena) e, depois, reagir com calma

permite ao cérebro executivo inibir, organizar e modular as reações

automáticas pré-programadas no cérebro emocional. Essa capacidade é

crucial para preservar nosso relacionamento com as outras pessoas.

Enquanto os lobos frontais estiverem funcionando direito, é improvável que

percamos a paciência toda vez que um garçom demorar a trazer o prato que

pedimos ou o corretor da seguradora não atender os telefonemas. (Nossa

torre de vigia também nos informa que a cólera e as ameaças de outras

pessoas são resultado do estado emocional delas.) Quando esse sistema

entra em pane, reagimos como animais condicionados: no momento em que

detectamos um perigo, entramos automaticamente no modo de luta ou fuga.

No TEPT, o delicado equilíbrio entre a amídala (o detector de fumaça) e o

córtex pré-frontal medial ou CPFM (a torre de vigia) se altera de modo

radical, di cultando enormemente o controle de emoções e impulsos.

Análises de neuroimagens de seres humanos em estados altamente

emocionais revelam que medo, tristeza e raiva intensos aumentam a ativação

das regiões cerebrais subcorticais no lobo frontal, em especial o CPFM.

Quando isso ocorre, a capacidade inibidora do lobo frontal deixa de atuar e

as pessoas “perdem o bom senso”: podem se sobressaltar com qualquer som

mais alto, cam enfurecidas com pequenas frustrações ou paralisam quando

alguém encosta nelas.13

De cima para baixo ou de baixo para cima. Estruturas no cérebro emocional decidem se os sinais que recebemos são perigosos ou seguros. Há duas formas de alterar o sistema de detecção de ameaça: de cima para baixo, mediante a modulação das mensagens oriundas do córtex pré-frontal medial (não apenas o córtex pré-frontal) ou de baixo para cima, por meio do cérebro reptiliano, através da respiração, de movimento e de toques.

 

Lidar bem com o estresse depende de se alcançar um equilíbrio entre o

detector de fumaça e a torre de vigia. Se você quer controlar melhor suas

emoções, seu cérebro lhe oferece duas opções: ou aprende a regulá-las de

cima para baixo, ou de baixo para cima.

Entender a diferença entre esses dois tipos de regulação é fundamental

para compreender e tratar o estresse traumático. A regulação de cima para

baixo implica o fortalecimento da capacidade da torre de vigia para

monitorar as sensações físicas. A meditação de atenção plena e a ioga

podem ajudar nisso. A regulação de baixo para cima implica a recalibração

do SNA, que, como vimos, se origina no tronco encefálico. Podemos atingir o

SNA através da respiração, de movimentos ou do tato. A respiração é uma das

poucas funções corpóreas passíveis de controle consciente e autônomo. Na

Parte V, examino técnicas especí cas para aumentar tanto a regulação de

cima para baixo quanto a de baixo para cima.

O CAVALEIRO E O CAVALO

 

Por ora, é preciso ressaltar que a emoção não se opõe à razão. Nossas

emoções atribuem valor a experiências e, por conseguinte, são o

fundamento da razão. O conhecimento que temos de nós mesmos é produto

do equilíbrio entre o cérebro racional e o emocional. Se esses dois sistemas

estão equilibrados, nós “nos sentimos nós mesmos”. Quando nossa

sobrevivência está em perigo, porém, esses sistemas podem atuar com

relativa independência.

Digamos que você esteja dirigindo e conversando com um amigo e, de

repente, pelo canto do olho, percebe um caminhão se aproximando. No

mesmo instante, você para de falar, diminui a velocidade e gira o volante

para fugir do perigo. Se seus atos instintivos o salvaram de uma colisão, você

pode retomar o que estava dizendo. Sua capacidade de assim proceder

depende da rapidez com que suas reações viscerais se acalmam depois da

ameaça.

O neurocientista Paul MacLean, autor da divisão do cérebro em três

partes que uso aqui, comparou a relação entre o cérebro racional e o

emocional à que existe entre um cavaleiro mais ou menos competente e seu

cavalo indisciplinado.14 Se o tempo estiver ameno e o caminho for tranquilo,

o cavaleiro exerce perfeito controle sobre o animal. Contudo, sons

inesperados ou ameaças de outros animais podem fazer o cavalo disparar,

obrigando o cavaleiro a lutar pela vida. Da mesma forma, quando as pessoas

sentem que sua sobrevivência corre perigo, ou são dominadas pela cólera,

saudade, medo ou desejos sexuais, param de ouvir a razão, e de nada adianta

discutir com elas. Toda vez que o sistema límbico decide que algo é uma

questão de vida ou morte, os caminhos entre os lobos frontais e o sistema

límbico tornam-se extremamente tênues.

Em geral, os psicólogos tentam ajudar as pessoas a usar o discernimento

ou a compreensão da situação para controlar o comportamento. No entanto,

pesquisas da neurociência mostram que raríssimos problemas psicológicos

resultam de defeitos de compreensão; na maior parte das vezes, originam-se

em regiões mais profundas do cérebro, responsáveis por governar a

percepção e a atenção. Quando a sirene do cérebro emocional insiste em

indicar que você está em perigo, não há discernimento que consiga silenciá-la. Isso me lembra uma comédia na qual um paciente que pela sétima vez

participava de um programa de controle da cólera louva as virtudes das

técnicas que aprendeu: “Elas são ótimas e funcionam muito bem… Desde

que você não esteja de fato furioso.”

Se o cérebro racional e o emocional estão em con ito (por exemplo, se

estamos com raiva de uma pessoa que amamos, ou temerosos em relação a

alguém de quem dependemos, ou mesmo apaixonados por uma pessoa fora

de nosso alcance), segue-se um cabo de guerra. Essa batalha se trava, em

essência, no teatro das experiências viscerais – intestinos, coração, pulmões

– e leva ao desconforto físico e ao sofrimento psicológico. O capítulo 6 vai

mostrar como cérebro e vísceras interagem em condições de segurança e de

perigo, o que é vital para o entendimento de muitas manifestações físicas do

trauma.

Encerro o capítulo com um exame de mais duas tomogra as cerebrais

que ilustram aspectos vitais do estresse traumático: a reexperimentação

perpétua do trauma; reviver imagens, sons e emoções; e a dissociação.

 

O TRAUMA DE STAN E UTE

 

Numa bela manhã de setembro de 1999, Stan e Ute Lawrence, então na casa

dos 40 anos, deixaram sua casa em London, na província de Ontário, no

Canadá, para participar de uma reunião de negócios em Detroit, nos

Estados Unidos. No meio da viagem, uma massa densa de névoa reduziu a

visibilidade a zero em segundos. Stan freou e parou o carro no acostamento,

quase batendo num caminhão enorme. Foi quando um caminhão

articulado, de dezoito rodas, passou por cima do porta-malas do carro deles;

outros veículos os atingiram e também bateram entre si. As pessoas que

saíam dos carros para fugir do pandemônio eram atropeladas. As batidas

ensurdecedoras não cessavam, e, a cada uma delas, os Lawrence imaginavam

que não sobreviveriam. Eles estavam presos no carro número treze de um

engavetamento de 87 veículos, o pior desastre rodoviário da história do

Canadá.15

Seguiu-se um silêncio sinistro. Stan tentou abrir as portas e janelas, mas

o caminhão que esmagara o porta-malas o impedia. De repente, alguém começou a bater na capota do carro. Uma menina gritava: “Me tirem

daqui… estou pegando fogo!” Impotentes, eles a viram morrer enquanto o

carro em que a jovem estava era consumido pelo fogo. De repente

perceberam que um caminhoneiro subira no carro deles e, com um extintor

de incêndio, estava quebrando o para-brisa. Stan saiu pela abertura, mas,

quando se virou para ajudar a mulher, Ute estava petri cada em seu assento.

Ele e o caminhoneiro a tiraram do carro, e uma ambulância levou-os a um

pronto-socorro. Afora alguns cortes, os dois nada sofreram.

Em casa, naquela noite, nenhum dos dois queria ir para a cama. Tinham

a sensação de que, ao se entregarem ao sono, morreriam. Estavam com os

nervos à or da pele, agitados e ansiosos. Naquela noite, e por muitas outras,

beberam quantidades generosas de vinho para se entorpecer e car

insensíveis ao medo. Não conseguiam interromper a sucessão de imagens

que os assombrava nem as perguntas que se repetiam: E se tivessem saído

mais cedo? E se não tivessem parado para reabastecer o carro? Depois de

três meses, procuraram a ajuda da dra. Ruth Lanius, psiquiatra da

Universidade Western Ontario.

A dra. Lanius, que alguns anos antes fora minha aluna no Trauma

Center, disse que desejava visualizar o cérebro de cada um deles utilizando a

fMRI. Essa tecnologia mede a atividade neural mediante o rastreio do uxo

sanguíneo no cérebro, e, ao contrário das varreduras da PET, não expõe o

paciente à radiação. Lanius valeu-se da mesma técnica que tínhamos usado

em Harvard com a leitura de roteiros, capturando imagens, sons, cheiros e

outras sensações que o casal havia experimentado enquanto estava preso no

carro.

Stan, o primeiro a ser examinado, logo teve um ashback, tal como

acontecera a Marsha em nosso estudo em Harvard. Saiu da máquina suando,

com o coração disparado e a pressão sanguínea nas alturas. “Foi exatamente

assim que eu me senti durante o acidente”, ele relatou. “Tinha certeza de que

ia morrer, e não havia nada que eu pudesse fazer.” Em vez de recordar o

acidente como um fato ocorrido três meses antes, Stan o vivenciou de novo.

 

DISSOCIAÇÃO E REENCENAÇÃO DO TRAUMA

A dissociação é a essência do trauma. A experiência terrível é dividida e

fragmentada, de modo que emoções, sons, imagens, pensamentos e

sensações físicas relacionadas a ele ganham vida própria. Os fragmentos

sensoriais da memória se misturam no presente e são revividos. Enquanto

não se resolver o trauma, os hormônios do estresse, secretados pelo corpo

como proteção, continuam a circular, e movimentos defensivos e respostas

emocionais continuam a se reproduzir. Ao contrário de Stan, porém, muitas

pessoas podem não estar conscientes da conexão entre suas sensações e

reações “malucas” aos eventos traumáticos que são reencenados. Não têm a

menor ideia do motivo pelo qual reagem a qualquer irritaçãozinha como se

estivessem na iminência de ser aniquiladas.

Os ashbacks e a repetição da experiência são, em certo sentido, piores

que o trauma em si. Um episódio traumático tem um começo e um m –

em algum ponto ele termina. Entretanto, no caso de vítimas do TEPT, um

ashback pode ocorrer a qualquer momento, estejam elas despertas ou

adormecidas. Não há como saber quando vai acontecer novamente ou

quanto tempo vai durar. As pessoas que sofrem esses ashbacks muitas

vezes organizam a vida em função de se proteger deles. Às vezes frequentam

de maneira compulsiva uma academia de ginástica (mas a malhação nunca é

su ciente), se entorpecem com drogas ou tentam cultivar uma sensação

ilusória de controle em situações de extremo perigo (como corridas de

moto, a prática de bungee jump ou o trabalho de motorista de ambulância).

A luta constante contra perigos invisíveis é exaustiva e as deixa fatigadas,

deprimidas e esgotadas.

Se os elementos do trauma forem reencenados sem cessar, os hormônios

do estresse que os acompanham gravam essas memórias na mente cada vez

mais profundamente. Os fatos comuns do dia a dia se tornam cada vez

menos interessantes. Desinteressado em tudo, o traumatizado ca

impossibilitado de se sentir plenamente vivo. É cada vez mais difícil sentir as

alegrias e os aborrecimentos da vida cotidiana ou se concentrar nas tarefas a

executar. O fato de não estarem plenamente envolvidas no presente mantém

as vítimas encarceradas no passado.

As respostas automáticas se manifestam de várias formas. Veteranos de

guerra podem reagir violentamente a coisas triviais – como bater com o

carro no quebra-molas da estrada ou ver uma criança brincando na rua –,

como se estivessem de volta a uma zona de guerra. Sobressaltam-se com qualquer coisa e têm acessos de cólera ou torpor. Vítimas de abuso sexual na

infância podem anestesiar a sexualidade e sentir enorme vergonha se

carem excitadas com sensações ou imagens que lembram o abuso, mesmo

quando essas sensações ou imagens são prazeres naturais associados a

determinadas partes do corpo. Quando estimuladas a falar sobre suas

experiências, as vítimas podem ter uma elevação da pressão sanguínea, ou

reagir com uma enxaqueca. Outras podem apresentar um bloqueio

emocional e não demonstrar nenhuma reação visível. No laboratório,

porém, há como detectar as acelerações cardíacas e as descargas de

hormônios do estresse.

Tais reações são irracionais e, em geral, descontroladas. Ânsias e

emoções intensas e quase incontroláveis provocam nas pessoas a percepção

de que estão loucas – e distantes da espécie humana. O bloqueio emocional

durante festas de aniversário de lhos ou em resposta à morte de entes

queridos faz com que essas pessoas se sintam como monstros. O resultado é

que a vergonha se torna a emoção dominante, e a ocultação da verdade, a

principal preocupação.

Essas pessoas raramente têm ideia das origens de sua alienação. É aí que

entra em cena a terapia – que pode levar o paciente a entender as emoções

geradas pelo trauma, observando o contexto em que elas emergem.

Contudo, o problema é que o sistema cerebral de percepção de ameaças

mudou, e as reações físicas das pessoas são ditadas pelas marcas deixadas

pelo passado.

O trauma que começou “lá” é encenado nos campos de batalha do

próprio corpo das vítimas, em geral sem uma conexão consciente entre o

que aconteceu no passado e o que está ocorrendo agora. A di culdade

consiste menos em aprender a aceitar as coisas terríveis que aconteceram do

que em aprender a dominar as sensações e emoções internas. Perceber,

nomear e identi car o que está acontecendo com a pessoa é o primeiro

passo para a recuperação.

 

O DETECTOR DE FUMAÇA EM MARCHA ACELERADA

A tomogra a cerebral de Stan expõe o ashback em ação. É assim que a

reprodução do trauma se mostra no cérebro: o canto inferior direito bem

iluminado; o lado inferior esquerdo em branco, e, na região central, os

quatro buracos brancos, simétricos. (Percebe-se a amídala iluminada e o

cérebro esquerdo desligado, semelhante ao que aparece no estudo de

Harvard analisado no capítulo 3.) A amídala de Stan não fez distinção entre

passado e presente. Ela se ativou como se o engavetamento na estrada

estivesse acontecendo no tomógrafo e provocou fortes descargas de

hormônios do estresse e respostas do sistema nervoso, responsáveis pela

sudorese e o tremor, a aceleração do ritmo cardíaco e a elevação da pressão

sanguínea: reações bastante normais e possivelmente salvadoras se uma

carreta acabou de esmagar seu carro.

 

Imagem de um flashback obtida por fMRI. O lado direito mostra muito mais atividade do que o esquerdo.

É importante dispor de um detector de fumaça e ciente. Ninguém quer

ser pego desprevenido por um incêndio. Entretanto, se você se sobressalta

toda vez que sente cheiro de fumaça, isso pode se tornar um problema sério.

Sim, é necessário detectar se alguém se aborreceu com você, mas se sua

amídala começa a funcionar em marcha acelerada, há possibilidade de

desenvolver um medo crônico de que as pessoas o odeiem ou de achar que

elas estejam prontas a lhe fazer mal.

 

O CRONÔMETRO DESMORONA

 

Depois do acidente, Stan e Ute se tornaram hipersensíveis e irritadiços, o

que leva a crer que, neles, o córtex pré-frontal estava lutando por manter o

controle diante do estresse. O ashback de Stan precipitou uma reação mais

extremada.

As duas áreas brancas na parte frontal no cérebro (no alto da imagem)

são o córtex pré-frontal dorsolateral (CPFDL) direito e esquerdo. Quando

essas áreas estão desativadas, as pessoas perdem a percepção da passagem

do tempo e cam presas num determinado momento, sem noção de

passado, presente e futuro. 16

Dois sistemas cerebrais são relevantes para o processamento mental do

trauma: os que lidam com a intensidade emocional e com o contexto. A

intensidade emocional é de nida pelo detector de fumaça, a amídala, e por

seu contrapeso, a torre de vigia, o córtex pré-frontal medial. O contexto e o

signi cado de uma experiência são determinados pelo sistema que

compreende o CPFDL e o hipocampo. O CPFDL localiza-se na lateral do

cérebro frontal, enquanto o CPFM ca no centro. As estruturas situadas na

linha média do encéfalo dizem respeito à experiência interior da própria

pessoa, ao passo que as laterais estão ligadas à relação da pessoa com o

ambiente.

O CPFDL nos diz como nossa experiência presente se relaciona com o

passado e como ela pode afetar o futuro – pode ser entendido como um

cronômetro. Saber que tudo o que acontece é nito e que mais cedo ou mais

tarde aquilo vai chegar ao m torna tolerável a maior parte das experiências.

A recíproca também é verdadeira – as situações intoleráveis parecem intermináveis. A maioria das pessoas sabe, por experiência própria, que um

sofrimento terrível, em geral, se faz acompanhar da sensação de que esse

pavoroso estado vai durar para sempre e que nunca vamos superar a perda.

O trauma é a experiência suprema da sensação de que “isso vai durar

eternamente”.

A tomogra a de Stan revela por que as pessoas só podem se recuperar

quando as estruturas cerebrais que foram postas fora de combate durante a

experiência original – o motivo pelo qual o cérebro registrou o episódio

como trauma – voltam a funcionar de maneira normal. A visita ao passado

no decurso da terapia deve ser feita quando as pessoas estão, do ponto de

vista biológico, rmemente ancoradas no presente, sentindo-se calmas,

seguras e centradas tanto quanto possível. (Por “centrada” entenda-se que a

pessoa consegue se manter sentada na cadeira, ver a luz entrar pela janela,

sentir as pernas exionadas e ouvir o vento agitando os ramos das árvores.)

Estar ancorado no presente durante a visita ao trauma abre a possibilidade

de convencer-se, intensamente, de que os fatos horríveis pertencem ao

passado. Para que isso aconteça, o vigilante, o cozinheiro e o cronômetro

devem estar despertos. A terapia não tem como funcionar enquanto as

pessoas continuarem a ser arrastadas para o passado.

 

O BLOQUEIO DO TÁLAMO

 

Um reexame da tomogra a do ashback de Stan pode nos mostrar mais dois

espaços brancos na metade inferior do encéfalo. São o tálamo direito e o

esquerdo, bloqueados durante o ashback, tal como aconteceu durante o

trauma original. Como se viu, o tálamo funciona como um “cozinheiro” –

uma estação retransmissora automática que coleta sensações provenientes

dos ouvidos, dos olhos e da pele para integrá-las à sopa que é a nossa

memória autobiográ ca. Sua pane explica por que o trauma é lembrado

basicamente não como uma história (uma narrativa com começo, meio e

m), mas como impressões sensoriais isoladas: imagens, sons e sensações

físicas acompanhadas de emoções intensas, na maior parte das vezes de

terror e impotência.17

Em circunstâncias normais, o tálamo também age como ltro ou

porteiro, o que faz dele um componente central de faculdades, entre elas

atenção, concentração e aquisição de novos conhecimentos, todas

comprometidas pelo trauma. Enquanto você lê este livro, pode estar

ouvindo uma música de fundo ou o ruído do trânsito, pode estar sentindo

uma sgada no estômago que avisa que é hora de lanchar. Se consegue se

manter concentrado, é porque seu tálamo o ajuda a distinguir entre

informações sensoriais que são relevantes e informações que você pode

ignorar. O capítulo 19, sobre neurofeedback, mostrará alguns testes para

medir a e ciência do funcionamento desse sistema de comportas e também

como fortalecê-lo.

Pessoas com TEPT têm essas comportas escancaradas e, por isso,

apresentam uma constante sobrecarga emocional. Para enfrentar o

problema, elas tentam se bloquear e desenvolvem visão em túnel e

hiperfoco. Se não conseguem se desligar naturalmente, às vezes lançam mão

de drogas ou álcool para bloquear o mundo. A tragédia é que o preço do

bloqueio inclui também a obstrução das fontes de prazer e alegria.

 

DESPERSONALIZAÇÃO: A DIVISÃO DO SELF

 

Vejamos agora como foi a experiência de Ute no tomógrafo. Nem todos

reagem do mesmo modo, mas aqui a diferença é impressionante, pois Ute

estava sentada bem ao lado de Stan. Ela reagiu ao roteiro de seu trauma com

apatia: sua mente se esvaziou e quase todas as áreas cerebrais mostraram

uma atividade bastante reduzida. A frequência cardíaca e a pressão

sanguínea não aumentaram. Quando lhe perguntaram como se sentira

durante a tomogra a, ela respondeu: “Senti o mesmo que na hora do

acidente: nada.”

Anulação (dissociação) em resposta a rememoração de trauma passado. Nesse caso, quase todas as áreas do cérebro apresentam ativação reduzida, o que interfere no pensamento, no foco e na orientação.

 

O termo médico para a reação de Ute é 18 despersonalização . Quem cuida

de vítimas de trauma, sejam elas homens, mulheres ou crianças, mais cedo

ou mais tarde se vê diante de olhares vazios e mentes ausentes, a

manifestação exterior da reação biológica de congelamento. A

despersonalização é um sintoma da intensa dissociação criada pelo trauma.

Os ashbacks de Stan vinham de seus esforços inúteis para fugir da cena do

acidente: orientadas pelo roteiro, suas sensações e emoções, dissociadas e

fragmentadas, retornaram com ímpeto no presente. Já Ute, em vez de lutar

para fugir dali, dissociou seu medo e não sentiu nada.

No consultório, com frequência me deparo com a despersonalização,

pacientes que me contam histórias horrendas sem demonstrar qualquer

emoção. Toda a energia se esvai da sala, e tenho de fazer um esforço tenaz

para continuar a prestar atenção. Um paciente sem ânimo exige do médico um esforço muito maior para manter viva a terapia, e muitas vezes eu pedia

aos céus que a hora passasse depressa.

Depois de analisar a tomogra a de Ute, comecei a ter uma atitude muito

diferente em relação a pacientes com mentes vazias. É claro que, se quase

todo o cérebro está desligado, eles não conseguem pensar, se comover,

recordar ou entender o que está acontecendo. Nessas circunstâncias, a

terapia convencional, pela palavra, é praticamente inútil.

No caso de Ute, foi possível entender por que ela reagia de maneira tão

diferente da de seu marido. Ela usava uma estratégia de sobrevivência que

seu cérebro aprendera na infância para enfrentar a rudeza com que a mãe a

tratava. O pai havia morrido quando ela tinha 9 anos, e, a partir daí, era

comum a mãe tratá-la mal, de forma aviltante. Em algum momento, a

menina descobriu um jeito de bloquear a mente quando a mãe gritava com

ela. Trinta e cinco anos depois, no momento em que Ute se viu presa no

carro esmagado, seu cérebro entrou automaticamente no modo

sobrevivência: fez com que ela desaparecesse.

O desa o para pessoas que, como Ute, desejam recuperar a vida consiste

em se tornar alertas e envolvidas, uma tarefa difícil, mas não impossível.

(Ela mesma conseguiu – escreveu um livro sobre suas experiências e lançou

uma revista de sucesso, Mental Fitness.) É nesse ponto que o enfoque

terapêutico de baixo para cima se torna essencial. Pretende-se modi car a

siologia do paciente, sua relação com as sensações físicas. No Trauma

Center, trabalhamos com elementos básicos, como a frequência cardíaca e o

padrão respiratório. Ajudamos os pacientes a evocar e notar sensações

físicas mediante batidinhas em pontos de acupuntura/ 19 do in do corpo.

Interações rítmicas com outras pessoas também são e cazes: lançar e pegar

uma bola de praia, fazer exercícios com uma bola de Pilates, tocar bateria ou

dançar.

A apatia é o outro lado da moeda no TEPT. Muitas vítimas de trauma não

tratadas que começam a reagir como Stan, com ashbacks explosivos, mais

tarde se mostram apáticas. Ainda que reviver o trauma seja dramático,

assustador e potencialmente destrutivo, com o tempo uma ausência pode

ser ainda mais prejudicial. A situação se agrava no caso de crianças

traumatizadas. As que encenam seus problemas, em geral, recebem atenção; as apáticas não incomodam ninguém e são deixadas à própria sorte para,

pouco a pouco, perder o futuro.

 

APRENDER A VIVER NO PRESENTE

 

O problema do tratamento do trauma não se limita a lidar com o passado;

mais importante é melhorar a qualidade da vida no dia a dia. Um dos

motivos pelos quais as memórias traumáticas se tornam dominantes no TEPT

é porque a pessoa tem extrema di culdade em sentir-se viva no presente. Se

ela não consegue estar aqui de maneira plena, busca lugares onde de fato se

sentiu viva, mesmo que esses lugares sejam dominados por horror e

sofrimento.

Muitas linhas de tratamento do TEPT se concentram na dessensibilização

dos pacientes em relação ao passado, na esperança de que a reexposição aos

traumas reduza as explosões emocionais e os ashbacks. Creio que isso

decorre de um mal-entendido sobre o que acontece no estresse traumático.

Devemos, antes de tudo, ajudar os pacientes a viver no presente com

plenitude e segurança. Para tanto, temos que trazer de volta aquelas

estruturas cerebrais que os abandonaram quando eles foram atingidos pelo

trauma. A dessensibilização pode torná-los menos reativos, mas se eles não

conseguem sentir prazer com coisas comuns e cotidianas como dar um

passeio a pé, preparar uma refeição ou brincar com os lhos, vão passar pela

vida em brancas nuvens.

 

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