O corpo guarda as marcas

Bessel van der Kolk · Capítulo 2 de 28

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O corpo guarda as marcas

PARTE I | A redescobertado trauma

PARTE I

 

A REDESCOBERTA DO TRAUMA

 

OceanofPDF.com

1

 

LIÇÕES APRENDIDAS COM

 

VETERANOS DO VIETNÃ

 

Tornei-me o que sou hoje aos 12 anos, num dia gelado e nublado no

verão de 1975 […]. Isso foi há muito tempo, mas o que dizem sobre

o passado está errado […]. Hoje compreendo que estive olhando

para aquele beco deserto durante os últimos 26 anos.

 

Khaled Hosseini, O caçador de pipas

 

A vida de algumas pessoas parece uir numa narrativa; a minha teve

muitas interrupções e recomeços. É o que um trauma faz. Ele

interrompe o enredo […]. Ele apenas acontece, e depois a vida

continua. Ninguém prepara você para isso.

 

Jessica Stern, Denial: A Memoir of Terror

 

O dia seguinte ao feriado de 4 de Julho de 1978, uma terça-feira, foi minha

estreia como psiquiatra da clínica da Administração de Veteranos (AV)

em Boston. No momento em que pendurava na parede uma reprodução de

A parábola dos cegos, meu quadro predileto de Bruegel, escutei uma

balbúrdia na área de recepção, no m do corredor. Dali a pouco, irrompeu

na minha sala um homenzarrão desgrenhado, com o paletó todo manchado e um exemplar da revista Soldier of Fortune debaixo do braço. Estava tão

agitado e numa ressaca tão óbvia que quei me perguntando o que poderia

fazer por aquele brutamontes. Ofereci-lhe uma cadeira e me coloquei à

disposição.

Seu nome era Tom. Dez anos antes servira no Corpo de Fuzileiros

Navais e combatera no Vietnã. No dia anterior havia se entocado em seu

escritório de advocacia no centro de Boston, bebendo e vendo fotos antigas,

em vez passar o feriado com a família. A experiência de anos anteriores lhe

mostrara que o barulho, os fogos de artifício, o calor e o piquenique no

quintal da irmã, além do entorno coberto pela folhagem densa do começo

do verão, o deixariam louco – tudo isso lhe fazia lembrar o Vietnã. Nessas

ocasiões tinha medo de car perto da mulher e dos dois lhos pequenos,

pois se comportava como um monstro. O alvoroço dos meninos o deixava

tão agitado que ele saía de casa para evitar agredi-los. Só se acalmava

bebendo até desmaiar ou pegando a estrada com sua Harley-Davidson em

alta velocidade.

A noite não lhe trazia alívio, pois o sono era constantemente

interrompido por pesadelos que reviviam uma emboscada num arrozal,

quando todos os integrantes de seu pelotão foram mortos ou feridos. Visões

aterrorizadoras de crianças vietnamitas mortas também lhe assomavam à

lembrança. Os pesadelos eram tão horríveis que ele tinha medo de

adormecer e preferia car acordado a maior parte da noite, com uma garrafa

ao lado. De manhã, a mulher o encontrava chapado no sofá da sala, e todos

tinham de caminhar na ponta dos pés enquanto ela preparava o café antes

de levar os meninos à escola.

Tom me contou que havia concluído o ensino médio em 1965, e que fora

o orador da turma. Como vinha de uma família de militares, alistou-se no

Corpo de Fuzileiros Navais logo depois de concluir os estudos. Na Segunda

Guerra Mundial, seu pai serviu na tropa do general Patton, e o lho nunca

questionou as expectativas do pai em relação a ele. Atlético, inteligente, um

líder nato, sentiu-se poderoso e competente ao terminar o treinamento

básico, integrando uma equipe preparada para qualquer coisa. No Vietnã,

ele logo tomou a frente do pelotão, no comando de outros oito fuzileiros.

Sobreviver ao fogo de metralhadoras inimigas enquanto se avança em meio

à lama pode deixar a pessoa muito orgulhosa de si – e de seus camaradas.

Terminado o tempo de serviço, Tom deu baixa com honras, e tudo o que

desejava era esquecer o Vietnã. Aparentemente, foi o que fez. Matriculou-se

numa faculdade de direito, aproveitando os benefícios garantidos em lei

para veteranos de guerra. Depois da formatura, se casou com a namorada do

colégio, com quem teve dois lhos. Incomodava-o a di culdade de

experimentar uma afeição real pela esposa, ainda que as cartas dela o

tivessem mantido vivo na loucura da selva. Simulava levar uma vida normal,

na esperança de que, procedendo assim, conseguiria voltar a ser o homem

que havia sido. Tinha um escritório bem-sucedido e uma família

aparentemente perfeita, como as dos comerciais de margarina. Mas ele

percebia que nem tudo estava normal. Por dentro, sentia-se morto.

Embora Tom fosse o primeiro veterano com que me deparava em minha

vida pro ssional, muitos aspectos de sua história me eram familiares. Fui

criado na Holanda, depois da Segunda Guerra, brincando em prédios

bombardeados e tendo como pai um homem que fora opositor do nazismo

de forma tão veemente que acabou enviado a um campo de concentração.

Meu pai nunca falava sobre suas experiências de guerra, mas era dado a

explosões de cólera que me deixavam atônito. Como era possível que o

homem que eu ouvia descer a escada em silêncio, toda manhã, para orar e

ler a Bíblia, enquanto o resto da família dormia, tivesse temperamento tão

aterrador? Como alguém cuja vida era dedicada à busca de justiça social se

deixava dominar por tamanha fúria? Eu identi cava esse mesmo

comportamento em meu tio, que, capturado pelos japoneses nas Índias

Orientais Holandesas (hoje Indonésia), fora sentenciado a trabalhos

forçados na Birmânia, onde participou da construção da famosa ponte sobre

o rio Kwai. Tal como meu pai, ele quase nunca mencionava a guerra; e, com

frequência, também era tomado por acessos de raiva incontroláveis.

Enquanto escutava o relato de Tom, eu me perguntava se meu tio e meu

pai haviam tido pesadelos e ashbacks – se eles também se sentiam

distanciados dos entes queridos e incapazes de encontrar prazer autêntico

na vida. Em algum lugar no fundo da minha memória devia haver

lembranças – muitas vezes apavorantes – de minha mãe assustada. Ela

mesma mencionava, vez por outra, os próprios traumas de infância, que,

acredito hoje, retornavam com frequência. Minha mãe tinha o hábito

enervante de desmaiar quando eu lhe perguntava a respeito de sua vida de

menina, e depois me acusava de deixá-la angustiada.

Tranquilizado por meu evidente interesse, Tom se dispôs a me explicar

seu pavor e sua confusão. Tinha medo de estar cando como o pai, que,

sempre zangado, raramente conversava com os lhos – a não ser quando os

comparava, de maneira desfavorável, aos companheiros que haviam

morrido no nal de 1944, na Batalha das Ardenas, na Bélgica.

À medida que a consulta chegava ao m, z o que os médicos em geral

fazem, ou seja, concentrei-me na única parte da história que eu julgava

entender: os pesadelos. No curso de medicina, eu havia trabalhado num

laboratório de sono, observando ciclos de sono e sonhos de pessoas, e

colaborara na redação de alguns artigos sobre pesadelos. Também havia

participado de pesquisas preliminares sobre os efeitos bené cos das

substâncias psicoativas que começavam a ser usadas na década de 1970. Por

isso, embora não tivesse uma ideia perfeita da extensão dos problemas de

Tom, os pesadelos eram algo com que eu podia lidar, e, entusiasta da

possibilidade de oferecer uma vida melhor por meio da química, prescrevi-

lhe uma droga que julgávamos e ciente na redução da incidência e

severidade de pesadelos. Marquei outro encontro para dali a duas semanas.

Nessa nova consulta, ansioso, logo quis saber qual fora o efeito do

remédio. Tom disse que não tinha tomado nenhum comprimido.

Procurando ocultar minha irritação, perguntei-lhe por quê. “Se eu tomar os

comprimidos e os pesadelos sumirem”, ele respondeu, “estarei abandonando

meus amigos, e a morte deles terá sido em vão. Preciso ser um monumento

vivo para meus companheiros que morreram no Vietnã.”

Fiquei estupefato. A lealdade de Tom aos mortos o impedia de viver a

própria vida. Era igual à devoção do pai aos amigos, que havia impedido que

ele aproveitasse a vida. As experiências do pai e do lho em campos de

batalha tornaram irrelevantes o resto da vida deles. Como isso acontecera?

O que podíamos fazer? Naquela manhã, compreendi que talvez passaria

minha vida pro ssional tentando desvendar os mistérios do trauma. Como

experiências horrendas levam as pessoas a permanecerem

irremediavelmente presas ao passado? O que acontece na mente e no

cérebro de certas pessoas que as mantêm congeladas, con nadas num local

de onde querem desesperadamente fugir? Por que a guerra desse homem

não terminou em fevereiro de 1969, quando os pais o abraçaram no

Aeroporto Internacional Logan, em Boston, depois do longo voo de volta de

Da Nang?

A necessidade de Tom de fazer de sua vida uma homenagem aos

companheiros me mostrou que seu problema era muito mais complexo do

que ter lembranças ruins ou uma disfunção na química cerebral – ou uma

alteração dos circuitos cerebrais do medo. Antes da emboscada no arrozal,

ele fora um amigo dedicado e leal, um homem que desfrutava a vida, com

muitos interesses e prazeres. Num momento de pavor, o trauma

transformara tudo.

Durante o tempo em que trabalhei na AV, conheci muitos veteranos que

reagiam da mesma maneira. Mesmo diante de frustrações menores, aqueles

homens podiam ser dominados por acessos repentinos de fúria extrema. As

áreas comuns da clínica apresentavam marcas dos murros que eles

desferiam nas divisórias, e frequentemente os guardas eram obrigados a

proteger as recepcionistas e os representantes das companhias de seguro da

cólera de pacientes enfurecidos. O comportamento deles nos amedrontava, é

claro, mas também me intrigava.

Em casa, minha mulher e eu enfrentávamos problemas parecidos com

nossos lhos pequenos, tomados de acessos de raiva quando os

mandávamos comer espinafre ou calçar meias mais grossas. Por que a

conduta imatura de meus lhos não me aborrecia, enquanto me preocupava

tanto o que acontecia com os veteranos (além do tamanho dos ex-

combatentes, que lhes conferia potencial de causar muito mais estragos do

que meus garotinhos)? Eu tinha certeza absoluta de que, com cuidado e

carinho, os meninos aprenderiam a aceitar frustrações e desapontamentos,

mas não acreditava que eu pudesse ajudar os veteranos a readquirir a

capacidade de autocontrole e contenção que tinham perdido na guerra.

Infelizmente, nada em minha formação psiquiátrica me preparara para

lidar com os problemas apresentados por Tom e outros veteranos. Fui à

biblioteca da AV em busca de livros sobre neurose de guerra, estado de

choque, fadiga de combate ou qualquer outra terminologia ou diagnóstico

que esclarecesse os dramas de meus pacientes. Para minha surpresa, a

biblioteca não tinha um só livro a respeito de qualquer um desses

problemas. Cinco anos depois que o último americano havia deixado o

Vietnã, ninguém estava interessado na questão do trauma de guerra. Por

m, na Biblioteca Countway, na Escola de Medicina de Harvard, descobri

e Traumatic Neuroses of War (Neuroses traumáticas de guerra), publicado

em 1941 pelo psiquiatra Abram Kardiner. O livro, que descrevia as observações do autor a respeito de veteranos da Primeira Guerra Mundial,

foi lançado devido à expectativa do surgimento de um grande número de

soldados traumatizados pela Segunda Guerra Mundial. 1

Kardiner relatava os mesmos fenômenos que eu estava presenciando.

Depois da guerra, seus pacientes foram dominados por uma sensação de

inutilidade; tornaram-se alheios e silenciosos, quando antes tinham um

comportamento normal. O que ele chamava de “neuroses traumáticas”

agora era classi cado como transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).

Kardiner notara que as vítimas de neuroses traumáticas desenvolviam uma

vigilância crônica em relação a ameaças, às quais eram altamente sensíveis.

Sua síntese atraiu minha atenção: “O núcleo da neurose é uma

sioneurose.”2 Em outras palavras, nem todo estresse pós-traumático “está

na cabeça da pessoa”, como supunham alguns: pode ter uma base siológica.

Já naquela época o autor entendera que os sintomas têm origem na resposta

de todo o corpo ao trauma original.

O livro corroborava minhas próprias observações, o que era

tranquilizador, mas pouco orientava sobre a melhor forma de ajudar os

veteranos. A carência de literatura sobre o assunto era um obstáculo, porém

meu grande professor, Elvin Semrad, nos ensinara a sermos céticos quanto a

compêndios. Só havia um compêndio real, ele dizia: os pacientes. Devíamos

con ar apenas no que pudéssemos aprender com eles – e em nossa

experiência. Pode parecer muito simples, mas se Semrad nos estimulava a

con ar no conhecimento adquirido na prática, também nos advertia sobre a

di culdade desse processo, já que as pessoas são extremamente hábeis na

arte do autoengano e de obscurecer a verdade. Lembro de ouvi-lo dizer: “As

maiores fontes do sofrimento humano são as mentiras que contamos para

nós mesmos.” Trabalhando na AV, logo descobri como pode ser doloroso

enfrentar a realidade. Valia tanto para meus pacientes como para mim.

Não queremos saber o que os soldados passam em combate. Na verdade,

não queremos nem saber quantas crianças estão sendo molestadas ou

sofrendo abusos em nossa sociedade, ou quantos casais – quase um terço,

como se sabe – usam de violência em algum ponto de seu relacionamento.

Queremos ver a família como um abrigo seguro num mundo impiedoso e

acreditar que nosso país é povoado por pessoas esclarecidas e civilizadas.

Preferimos pensar que a crueldade só ocorre em lugares distantes. Se é difícil testemunhar cenas de dor, por que nos espantamos que as próprias

vítimas de traumas não suportem recordá-los e que muitas vezes recorram a

drogas, ao álcool ou à automutilação para bloquear suas lembranças?

Tom e outros veteranos foram meus primeiros mestres na tentativa de

compreender como experiências devastadoras destroem vidas e descobrir o

que fazer para que as vítimas possam se sentir plenamente vivas de novo.

 

O TRAUMA E A PERDA DO SELF

 

No primeiro estudo que z na AV, eu perguntava aos veteranos o que lhes

havia acontecido no Vietnã. Queria saber o que os empurrara ladeira abaixo

e por que alguns tinham sido destruídos, enquanto outros haviam

conseguido levar a vida adiante. 3 Os homens que entrevistei, em sua

maioria, tinham ido para a guerra com a sensação de que estavam bem

preparados, unidos pelos rigores do treinamento básico e pelo perigo

comum. Mostravam fotogra as das famílias e das namoradas, toleravam os

defeitos, uns dos outros. E estavam dispostos a arriscar a vida pelos

companheiros. Boa parte con ava seus maiores segredos a um amigo, e

alguns chegavam a compartilhar camisas e meias.

Muitos daqueles homens eram amigos, como Tom e Alex. Tom tinha

conhecido Alex, um rapaz de família italiana de Malden, Massachusetts, em

seu primeiro dia no Vietnã, e no mesmo instante se tornaram amigos.

Usavam o mesmo jipe, ouviam as mesmas músicas e um lia as cartas que o

outro recebia de casa. Bebiam juntos e saíam com as mesmas garotas

vietnamitas.

Uma tarde, cerca de três meses depois de chegarem ao Vietnã, pouco

antes do pôr do sol, Tom liderava seu pelotão, que fazia patrulha num

arrozal. De repente, soaram tiros que vinham da muralha verde da selva ao

redor, e, um a um, os homens que o rodeavam foram abatidos. Ele me

contou que assistiu, horrorizado e sem nada poder fazer, a todos os

membros de seu pelotão serem mortos ou feridos em questão de segundos.

Uma imagem jamais lhe saiu da memória: a nuca de Alex, caído de bruços

no arrozal e com os pés no ar. Tom chorava ao narrar a cena: “Ele foi o único

amigo de verdade que tive.” À noite, naquele mesmo dia, Tom continuava a ouvir os gritos de seus homens e a ver os corpos afundando na água do

arrozal. Todo som, cheiro ou imagem que lhe lembrasse a emboscada (como

o estalar de fogos no 4 de Julho) o deixava tão paralisado, aterrorizado e

furioso como no dia em que o helicóptero o resgatara do arrozal.

A lembrança do que aconteceu em seguida talvez fosse ainda pior do que

as recordações recorrentes da emboscada. Não tive di culdade em entender

como a raiva pela morte do amigo conduziu Tom à desgraça que se sucedeu.

Demorou alguns meses para que Tom superasse a vergonha paralisante e

conseguisse me contar. Desde o início dos tempos, guerreiros, como

Aquiles, na Ilíada, de Homero, reagiram à morte dos camaradas com

indescritíveis atos de vingança. No dia seguinte ao da emboscada, Tom,

desvairado, foi a uma aldeia próxima, matou crianças, atirou num camponês

inocente e estuprou uma vietnamita. Depois disso, foi impossível voltar

plenamente à vida normal. Como você pode encarar a namorada e contar a

ela que violentou com brutalidade uma moça? Ou ver seu lho ensaiar os

primeiros passos sem se lembrar das crianças que assassinou? Tom

vivenciou a morte de Alex como se uma parte dele tivesse sido destruída

para sempre – aquela parte que era boa, honrada e con ável. O trauma, quer

resulte de algum mal que a pessoa sofreu, quer decorra de algo que ela

mesma fez, quase sempre di culta a criação de intimidade. Depois de ter

vivenciado tal monstruosidade, como reaprender a con ar em si mesmo ou

em outra pessoa? Ou, em outros termos, como você consegue se entregar a

um relacionamento íntimo depois de ter sido brutalmente violentado?

Tom comparecia às consultas com assiduidade. Eu me tornara uma

tábua de salvação – o pai que ele nunca tivera, um Alex que houvesse

sobrevivido à emboscada. É preciso reunir muita con ança e coragem para

se permitir recordar. Uma das maiores di culdades para as vítimas de

trauma é confrontar a vergonha por seu comportamento durante um

episódio traumático, quer esse comportamento se traduza em atos objetivos

(como o soldado que comete atrocidades), quer não (como no caso de uma

criança que tenta tranquilizar o abusador). Uma das primeiras pessoas a

escrever a respeito desse fenômeno foi Sarah Haley, que trabalhava numa

sala ao lado da minha na AV. No artigo “When the Patient Reports Atrocities”

(Quando o paciente relata atrocidades),4 de grande importância na

formulação do diagnóstico de TEPT, ela discutiu a di culdade quase intransponível de conversar sobre os atos horrendos frequentemente

cometidos por soldados em combate – ou até de ouvi-los. Já é bastante

difícil enfrentar o sofrimento in igido por outros, porém, no fundo, muitas

vítimas de trauma sofrem ainda mais pela vergonha que sentem do que

zeram (ou não zeram) naquelas circunstâncias. Eles se desprezam porque

se sentiram apavorados, fragilizados, emocionados ou furiosos.

Anos depois me confrontei com um fenômeno semelhante em vítimas

de abuso infantil: a maioria experimentava uma torturante vergonha de tudo

o que fez para continuar a viver e manter uma ligação com quem abusou

dela – sobretudo quando o abusador era alguém próximo, como tantas vezes

acontece. O resultado pode ser, por parte de quem sofreu o abuso, uma

dúvida quanto a seu papel: foi uma vítima ou um participante voluntário? E

isso, por sua vez, acaba embaralhando a diferença entre amor e terror, dor e

prazer. Voltarei a esse dilema no decorrer de todo o livro.

 

APATIA

 

Talvez o pior dos sintomas de Tom fosse a paralisia emocional. Ele queria,

com todas as forças, amar a família, mas não conseguia evocar nenhum

sentimento profundo por ela. Sentia-se emocionalmente distante de todos,

como se o coração estivesse congelado e ele vivesse atrás de uma parede de

vidro. Essa apatia se estendia também a ele mesmo. Na verdade, Tom não

sentia nada, a não ser surtos episódicos de raiva e vergonha. Contou que mal

se reconhecia quando se olhava no espelho ao fazer a barba. Ao ouvir sua

voz defendendo uma causa no tribunal, buscava se observar à distância e

pensava como aquele sujeito, parecido com ele e falando como ele, era capaz

de des ar argumentos tão persuasivos. Se ganhava uma causa, ngia estar

satisfeito; se a perdia, era como se tivesse percebido a derrota iminente e se

resignasse a ela. Embora fosse um advogado muito competente, sempre se

sentia utuando no espaço, sem objetivo ou direção.

A única válvula de escape para aliviar a sensação de falta de propósito

era o envolvimento intenso num determinado processo. Ao longo da terapia,

ele defendeu um ma oso acusado de homicídio. Durante o julgamento,

esteve totalmente concentrado em formular uma estratégia para ganhar a causa, e foram muitas as ocasiões em que cou acordado a noite toda,

mergulhado numa atividade que realmente o empolgava. Era como estar em

combate, ele dizia – estava plenamente vivo, e nada mais interessava.

Contudo, no momento em que ganhou a causa, Tom perdeu a energia e

cou novamente sem propósito. Voltaram os pesadelos, assim como os

acessos de raiva – tão intensos que ele teve de se mudar para um hotel para

não fazer mal à mulher e aos lhos. No entanto, estar sozinho também era

aterrador, pois os demônios da guerra voltavam com força total. Tom

procurava se manter ocupado, trabalhando, bebendo e se drogando –

fazendo de tudo para evitar o confronto com seus demônios.

Tom vivia folheando edições da revista Soldier of Fortune, com a fantasia

de se alistar como mercenário numa das muitas guerras em regiões da

África. Naquela primavera, ele pegou a Harley-Davidson e saiu pela

Kancamagus Highway, em New Hampshire. As vibrações, a velocidade e o

perigo o ajudaram a se recompor, a ponto de poder deixar o quarto de hotel

e voltar para a família.

 

A ORGANIZAÇÃO DA PERCEPÇÃO

 

Outro estudo que z na Administração de Veteranos, que começou como

uma pesquisa sobre pesadelos, acabou explorando as modi cações operadas

pelo trauma na percepção e na imaginação das pessoas. Bill, ex-membro do

serviço médico do Exército, que tinha participado de ações sangrentas no

Vietnã dez anos antes, foi o primeiro a se inscrever nessa investigação. Ao

dar baixa, ele havia se matriculado num seminário de teologia e fora

designado para sua primeira paróquia, uma igreja congregacional num

subúrbio de Boston. Tudo ia bem, até o nascimento de seu primeiro lho.

Pouco depois do parto, a esposa, enfermeira, retomou o serviço. Ele caria

em casa, trabalhando no sermão semanal, cumprindo outras obrigações

paroquiais e tomando conta do bebê. Logo no primeiro dia o bebê se pôs a

chorar e, de repente, Bill se viu inundado por imagens insuportáveis de

crianças morrendo no Vietnã.

Bill precisou chamar a mulher e, em pânico, procurou a clínica. Disse

que não parava de ouvir o choro de bebês e de ver imagens de rostos infantis queimados e ensanguentados. Meus colegas acreditavam que Bill estivesse

psicótico, pois os livros da época a rmavam que alucinações auditivas e

visuais eram sintomas de esquizofrenia paranoide. Os mesmos textos que

ofereciam esse diagnóstico também propunham uma causa: talvez a psicose

tivesse sido desencadeada porque Bill sentia que toda a afeição da mulher se

voltava para o lho.

Ao chegar à área de internação naquele dia, vi Bill cercado por médicos

preocupados, que se preparavam para lhe injetar um antipsicótico forte e

mandá-lo para uma enfermaria isolada. Descreveram seus sintomas e

pediram minha opinião. Como, num emprego anterior, eu havia trabalhado

numa enfermaria especializada no tratamento de esquizofrênicos, percebi

algo estranho naquele diagnóstico. Perguntei a Bill se podíamos conversar e,

depois de ouvir sua história, parafraseei sem querer as palavras que Freud

tinha dito a respeito de trauma em 1895: “Creio que este homem está

sofrendo de lembranças.” Disse-lhe que procuraria ajudá-lo e, depois de lhe

dar alguns remédios para controlar o pânico, perguntei se estaria disposto a

voltar à clínica dali a alguns dias para participar da minha pesquisa sobre

pesadelos.5 Ele concordou.

No estudo, os participantes eram submetidos a um teste de Rorschach.6

Ao contrário do que ocorre em testes que propõem perguntas objetivas, é

quase impossível falsi car respostas no Rorschach – ele nos permite

acompanhar como as pessoas geram uma imagem mental a partir de algo

que, em essência, é um estímulo sem sentido: uma mancha de tinta. Como o

ser humano é um produtor de signi cados, tendemos a criar algum tipo de

imagem ou história com base nessas manchas, assim como fazemos quando,

deitados num parque num dia de verão, observamos as nuvens que se

movem no céu. O que as pessoas imaginam com base nessas manchas pode

nos informar muito sobre o funcionamento de sua mente.

Ao ver o segundo cartão do teste, Bill exclamou, horrorizado: “Essa é a

criança que vi morrer numa explosão no Vietnã. No meio vejo a carne

queimada, as feridas e o sangue esguichando para todo lado.” Ofegando e

com o suor escorrendo pela testa, Bill passava por uma crise de pânico

semelhante à que o levara, inicialmente, à clínica da AV. Eu já havia ouvido

descrições de ashbacks, mas aquela era a primeira vez que eu assistia a um

deles. Naquele exato momento, em minha sala, Bill estava obviamente vendo as mesmas imagens, sentindo os mesmos cheiros e tendo as mesmas

sensações físicas que experimentara originalmente. Dez anos depois de ter

um bebê morto nos braços, Bill revivia o trauma ao ver uma mancha de

tinta.

Testemunhar seu ashback me ajudou a compreender a agonia pela qual

passavam os veteranos que eu tentava ajudar e contribuiu para que eu

percebesse, mais uma vez, como era urgente encontrar uma solução. O fato

traumático em si, por mais horrendo que fosse, tinha um começo, um meio

e um m, mas agora eu me dava conta de que os ashbacks podiam ser até

piores. A vítima nunca sabe quando será atacada, quando a coisa começa ela

não sabe se vai parar. Levei anos para aprender a tratar os ashbacks, e,

nesse processo, Bill veio a ser um dos meus mais importantes orientadores.

Ao submeter 21 outros veteranos ao teste, a resposta foi consistente:

dezesseis deles, diante do segundo cartão, reagiram como se estivessem

experimentando um trauma de guerra. Esse cartão é o primeiro a ter cor, e

muitas vezes provoca como resposta o chamado choque cromático. Os

veteranos interpretavam a mancha com comentários como “Esses são os

intestinos de meu amigo Jim depois que um morteiro o abriu ao meio” ou “É

o pescoço de meu amigo Danny depois que uma granada arrancou a cabeça

dele enquanto a gente almoçava”. Ninguém aludiu a monges dançando,

borboletas esvoaçantes, motociclistas ou alguma das imagens corriqueiras,

às vezes fantasiosas, que quase todo mundo vê.

Enquanto a maioria dos veteranos se mostrava muito perturbada com o

que via, as reações dos outros cinco foram ainda mais alarmantes: eles

caram mudos. Um deles disse: “Essas coisas não são nada, apenas

manchas.” Sim, é claro, mas a reação humana normal a estímulos ambíguos

consiste em usar a imaginação para enxergar algo neles.

Com esses testes descobrimos que pessoas traumatizadas têm a

tendência de projetar seus traumas em tudo que as cerca, e têm di culdade

em decifrar o que ocorre à sua volta. Descobrimos também que o trauma

afeta a imaginação. Os cinco homens que não viram nada nas manchas

tinham perdido a capacidade de deixar a mente correr solta. No entanto, o

mesmo acontecera com os outros dezesseis: ao ver naqueles cartões cenas do

passado, eles não mostravam a exibilidade mental que é a marca da

imaginação. Continuavam fechados, tocando na mesma tecla.

A imaginação é absolutamente fundamental para a qualidade da vida.

Ela nos permite abandonar a rotina do dia a dia – fantasiamos viagens,

refeições exóticas, sexo, namoros e ter a última palavra numa discussão:

tudo o que torna a vida interessante. Ela nos dá oportunidade de contemplar

novas possibilidades – é uma alavanca fundamental para fazer com que

esperanças se tornem realidade. Aciona a criatividade, alivia o tédio, realça

os prazeres e enriquece os relacionamentos mais próximos. Quando as

pessoas são arrastadas para o passado de modo compulsivo e constante, para

a última vez em que sentiram um envolvimento intenso e emoções

profundas, elas padecem de uma falha na imaginação, de uma perda da

exibilidade mental. Sem imaginação não há esperança, nenhuma

possibilidade de antever um futuro melhor, nenhum lugar aonde ir,

nenhuma meta a alcançar.

Os testes de Rorschach nos ensinaram também que as vítimas de trauma

veem o mundo de uma maneira radicalmente diversa. Para a maioria das

pessoas, um homem na rua é só um transeunte. No entanto, uma mulher

que tenha sido vítima de estupro pode entrar em pânico ao identi cá-lo

como alguém capaz de molestá-la. Uma professora primária severa pode ser

uma presença intimidante para qualquer criança, mas o garoto espancado

pelo padrasto pode vê-la como uma torturadora, o que vai lhe provocar um

ataque de fúria ou fazê-lo se encolher num canto, assustado.

 

O TRAUMA COMO PRISÃO

 

A clínica se encheu de veteranos em busca de ajuda psiquiátrica. Devido a

uma escassez aguda de pro ssionais quali cados, só nos restava pôr a

maioria deles numa lista de espera, ainda que continuassem a agredir a si

mesmos e à família. Percebemos um nítido aumento de prisões de veteranos

por delitos violentos e brigas em bares, bem como um número alarmante de

suicídios. Criei, então, um grupo de jovens veteranos do Vietnã que serviria

como uma espécie de “tanque de contenção” até que a terapia “real” pudesse

começar.

Na reunião inicial com um grupo de ex-fuzileiros navais, o primeiro a se

manifestar foi taxativo: “Não quero falar sobre a guerra.” Respondi que os participantes poderiam discutir sobre o que quisessem. Depois de meia hora

de doloroso silêncio, um veterano começou en m a discorrer sobre o

desastre de seu helicóptero. Para meu espanto, na mesma hora os demais

ganharam vida, falando com grande intensidade de suas experiências

traumáticas. Todos voltaram na semana seguinte e na outra. No grupo,

encontravam ressonância e sentido para o que antes não passava de

sensações de terror e vazio. Voltavam a experimentar aquele

companheirismo tão vital na época da guerra. Insistiam para que eu

compartilhasse daquela irmandade recém-descoberta, e, no meu

aniversário, me deram um uniforme de capitão dos fuzileiros. Em

retrospecto, aquele gesto revelou parte do problema: ou você estava dentro

ou estava fora – ou você pertencia à unidade ou não era ninguém. Depois do

trauma, o mundo se divide nitidamente entre quem sabe e quem não sabe.

As pessoas que não vivenciaram a experiência traumática não são dignas de

con ança, pois não são capazes de compreendê-la. Infelizmente, essa

exclusão muitas vezes abrange cônjuges, lhos e colegas de trabalho.

Mais tarde liderei outro grupo, dessa vez para veteranos da tropa de

Patton – homens já bem entrados na casa dos 70, todos com idade su ciente

para ser meu pai. Nossos encontros aconteciam toda segunda-feira, às oito

da manhã. Em Boston, no inverno, vez por outra as tempestades de neve

paralisam o sistema de transporte público, mas mesmo assim todos eles

compareciam às reuniões mesmo tendo que caminhar muitos quilômetros

pela neve. No Natal, eles me presentearam com um relógio de pulso usado

pelos soldados na década de 1940. Tal como acontecera com meu grupo de

fuzileiros navais, eu não poderia tratá-los se não me transformasse num

deles.

Por mais tocantes que fossem as experiências, os limites da terapia de

grupo caram claros quando pedi que falassem dos problemas que

enfrentavam na vida diária: o relacionamento com as mulheres, os lhos, as

namoradas e a família; a relação com os chefes e com o trabalho; o

alcoolismo. Em geral, relutavam e desconversavam, contando mais uma vez

o episódio em que haviam metido um punhal no coração de um soldado

alemão na oresta de Hürtgen, ou como tinha sido a queda do helicóptero

nas selvas do Vietnã.

A situação traumática podia ter acontecido dez ou mais de quarenta

anos antes, não importava: eles não conseguiam transpor o fosso entre as experiências de guerra e a vida atual. Aquilo que lhes causava tanto

sofrimento era também a única coisa que fazia sentido para eles. Só se

sentiam plenamente vivos ao revisitar o passado traumático.

 

O DIAGNÓSTICO DE ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO

 

Naquele tempo, os veteranos recebiam diversos diagnósticos – de

alcoolismo, abuso de substâncias, depressão e transtorno de humor até

esquizofrenia –, e tentávamos todos os tratamentos indicados nos manuais.

Contudo, apesar do nosso esforço, obtíamos escassos resultados. A

medicação prescrita, bastante forte, às vezes deixava os homens

praticamente imprestáveis. Quando os incentivávamos a detalhar um fato

traumático, em vez de ajudá-los a resolver o problema, muitas vezes,

provocávamos um intenso ashback. Muitos abandonaram o tratamento,

porque, além de não conseguirmos ajudar, só piorávamos a situação.

A mudança veio em 1980. Com a ajuda de dois psicanalistas de Nova

York, Chaim Shatan e Robert J. Li on, um grupo de veteranos do Vietnã

conseguiu convencer a Associação Americana de Psiquiatria (AAP) a criar

um novo diagnóstico: o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). A

identi cação sistemática dos sintomas – que, em maior ou menor grau,

eram comuns a todos os nossos veteranos – e seu agrupamento num

transtorno, en m, deu um nome ao sofrimento de pessoas destruídas pelo

horror e pelo desespero. Uma vez instituído o quadro conceitual do TEPT,

abria-se o caminho para uma mudança radical no modo como

enxergávamos os pacientes, o que levou à multiplicação de pesquisas e

experimentos para encontrar tratamentos e cazes.

Animado pelas possibilidades apresentadas por esse novo diagnóstico,

propus à AV um estudo biológico das memórias traumáticas. As memórias

das vítimas do TEPT eram diferentes das memórias de outros pacientes? No

caso da maioria das pessoas, a lembrança de um fato desagradável acaba por

se dissipar ou se transforma em algo mais positivo. No entanto, muitos de

nossos pacientes não conseguiam transformar o passado numa história

ocorrida muito tempo atrás. 7

A primeira frase da carta de recusa da verba dizia: “Nunca se

demonstrou que o TEPT seja relevante para a missão da Administração de

Veteranos.” Algum tempo depois, a missão da AV se organizou em torno do

diagnóstico de TEPT e de lesão cerebral, e passou a destinar recursos

consideráveis em “tratamentos baseados em evidências” a veteranos de

guerra traumatizados, mas naquela época a situação era diferente. Como eu

não desejava trabalhar numa organização cuja visão da realidade ia de

encontro à minha, pedi demissão. Em 1982, assumi um cargo no Centro de

Saúde Mental de Massachusetts (CSMM), o hospital da Universidade de

Harvard, onde havia feito minha formação. Fui lecionar em uma área então

recente, a psicofarmacologia, a utilização de medicamentos para aliviar

doenças mentais.

Em meu novo emprego, passei a enfrentar quase todos os dias questões

que eu julgava ter deixado para trás na AV. Minha experiência com veteranos

de guerra me sensibilizara de tal forma para o impacto do trauma que agora

eu escutava com outros ouvidos as histórias de abuso sexual e violência

doméstica que pacientes deprimidos e ansiosos me contavam.

Impressionava-me, em particular, o número de pacientes do sexo feminino

que relatavam ter sofrido abuso sexual na infância. Ora, o tratado de

psiquiatria clássico na época a rmava que o incesto era raríssimo nos

Estados Unidos – o número de casos era da ordem de um para 1 milhão de

mulheres. 8 Na época, a população feminina no país contava 100 milhões.

Como, então, 47 mulheres, quase metade das vítimas, segundo o tratado,

tinham ido parar no meu consultório?

Além disso, o manual a rmava: “Há pouca concordância em relação ao

papel do incesto entre pai e lha como fonte de uma séria psicopatologia

subsequente.” As pacientes que me narravam histórias de incesto não

estavam de modo algum isentas de “psicopatologia subsequente” –

encontravam-se profundamente deprimidas, confusas e, com frequência,

tinham comportamentos bizarros e autodestrutivos, como cortar-se com

giletes. E o tratado passava praticamente a endossar o incesto, explicando

que “essa atividade incestuosa reduz a possibilidade de a paciente vir a sofrer

de psicose e permite um melhor ajuste ao mundo externo”.9 Na verdade, o

incesto tinha efeitos devastadores sobre o bem-estar das mulheres.

Em muitos aspectos, essas pacientes não eram tão diferentes dos

veteranos que eu deixara na AV. Também sofriam de pesadelos e ashbacks.

Elas também alternavam crises ocasionais de raiva explosiva com longos

períodos de insensibilidade emocional. A maioria tinha enorme di culdade

em lidar com outras pessoas, além de problemas para manter

relacionamentos sérios.

Como é sabido hoje, a guerra não é a única tragédia que arruína vidas

humanas. Embora se estime que cerca de um quarto dos soldados que

servem em zonas de guerra venha a desenvolver sérios problemas pós-

traumáticos,10 a maioria dos americanos enfrenta um crime violento em

algum momento da vida, e registros mais precisos revelam que 12 milhões

de mulheres nos Estados Unidos foram estupradas. Mais da metade dos

estupros tem como vítimas adolescentes com menos de 15 anos. 11 Para

muitas pessoas, a guerra começa em casa: a cada ano, cerca de 3 milhões de

crianças no país são apontadas como vítimas de abuso e negligência. Desses

casos, um milhão é grave o su ciente para que serviços municipais de

proteção à infância ou tribunais intervenham. 12 Em outras palavras, para

cada soldado que serve numa zona de guerra no exterior, há dez crianças em

situação de risco no próprio lar. Uma situação particularmente trágica pela

di culdade de os pequenos se recuperarem quando a fonte de terror e de

dor não são soldados inimigos, mas seus próprios cuidadores.

 

UMA NOVA COMPREENSÃO

 

Nas três décadas transcorridas desde que conheci Tom, aprendemos não

apenas a respeito do impacto e das manifestações do trauma, como também

sobre como ajudar traumatizados a encontrar o caminho de volta. Nos

primeiros anos da década de 1990, novas técnicas de obtenção de imagens

cerebrais revelaram o que de fato acontece no cérebro de vítimas de trauma,

o que foi essencial para compreender a extensão do dano e nos orientar na

formulação de meios de cura inteiramente novos.

Entendemos como experiências arrasadoras afetam nossas sensações

mais íntimas e nossa relação com a realidade física – o núcleo do que somos.

Aprendemos que o trauma não é apenas um fato que ocorreu num momento do passado; é também a marca que essa experiência deixou na

mente, no cérebro e no corpo. Marca com consequências duradouras na

maneira como o organismo humano consegue sobreviver no presente.

O trauma provoca uma reorganização fundamental no processo do

cérebro e da mente administrarem as percepções. Ele modi ca não só o

modo como pensamos e o que pensamos como a própria capacidade de

pensar. Descobrimos que ajudar as vítimas a encontrar palavras para

descrever o que lhes aconteceu é de enorme importância, mas às vezes não

basta. Contar a história não necessariamente altera as respostas físicas e

hormonais, automáticas, de corpos que permanecem hipervigilantes,

preparados para ser agredidos ou violados a cada momento. Para que ocorra

uma mudança real, o corpo precisa aprender que o perigo passou e a viver

na realidade do momento atual. Nosso esforço para compreender o trauma

nos levou a encarar de outro modo não só a estrutura da mente, mas

também os processos pelos quais ela se cura.

 

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