O corpo guarda as marcas
10. Trauma de desenvolvimento: a epidemia oculta
10
TRAUMA DE
DESENVOLVIMENTO: A
EPIDEMIA OCULTA
A ideia de que experiências adversas na primeira infância levam a
perturbações substanciais no desenvolvimento é mais uma intuição
clínica do que um fato com base em pesquisas. Não existe prova
conhecida de perturbações no desenvolvimento que tenham sido
precedidas no tempo, de forma causal, por qualquer tipo de síndrome
de trauma.
Trecho da rejeição, pela Associação Psiquiátrica Americana, do diagnóstico de
transtorno de trauma de desenvolvimento, maio de 2011
A pesquisa sobre os efeitos dos maus-tratos na primeira infância conta
uma história diferente: eles têm efeitos negativos duradouros no
desenvolvimento cerebral. Nosso cérebro é esculpido pelas primeiras
experiências. Os maus-tratos são um cinzel que molda o cérebro para
enfrentar con itos, mas ao custo de lesões profundas e duradouras. O
abuso infantil não é coisa de que uma pessoa “se recupere”. Trata-se de
um mal que temos de reconhecer e enfrentar se pretendemos fazer
alguma coisa em relação ao ciclo descontrolado de violência neste país.
Dr. Martin Teicher, revista Scientific American E xistem centenas de milhares de crianças como as dos próximos parágrafos, e elas absorvem recursos colossais, muitas vezes sem que se constate qualquer benefício. Acabam lotando nossas cadeias, onerando os gastos com
bem-estar social e fazendo la em nossas clínicas médicas. A maior parte das
pessoas só as conhece como estatísticas. Dezenas de milhares de professoras
primárias, agentes de liberdade condicional, assistentes sociais, juízes e
pro ssionais de saúde pública passam o dia tentando ajudá-las, e os
contribuintes pagam as contas.
Anthony tinha 2 anos e meio quando uma creche o encaminhou ao Trauma
Center, pois ninguém conseguia controlar suas mordidas e empurrões, sua
recusa a tirar sonecas e suas constantes crises de choro e de agitação. Ele não se
sentia em segurança com ninguém na creche e oscilava entre a total apatia e
acessos de fúria.
Durante a primeira consulta, ele se agarrou à mãe com ansiedade,
escondendo o rosto, enquanto ela não parava de dizer: “Não seja assim tão
nenezinho.” Anthony se sobressaltou quando uma porta bateu no corredor e se
agarrou com mais força à mãe. Quando ela o afastou, ele se sentou num canto e
se pôs a bater a cabeça. “Ele só faz isso para me chatear”, comentou a mãe.
Indagada sobre seu próprio histórico, contou que fora abandonada pelos pais e
criada por parentes que batiam nela, ignoravam-na e começaram a abusar dela
sexualmente aos 13 anos. Ficou grávida de um namorado bêbado, que a deixou
quando ela lhe contou que estava esperando um lho dele. Anthony era igual
ao pai, ela disse – um inútil. Ela tivera incontáveis brigas violentas com outros
namorados, mas estava certa de que ocorreram bem tarde, à noite, e Anthony
não teria notado.
Se fosse internado num hospital, é bem provável que Anthony recebesse
uma série de diagnósticos de diferentes transtornos psiquiátricos: depressão,
transtorno desa ador de oposição, ansiedade, transtorno de apego reativo,
transtorno de dé cit de atenção com hiperatividade e transtorno de estresse
pós-traumático. Nenhum deles, porém, esclareceria o que havia de errado com
o menino: ele estava morto de medo e lutava pela vida, e não acreditava que a
mãe pudesse ajudá-lo.
Houve também o caso de Maria, latina de 15 anos, uma entre mais de 500
mil adolescentes nos Estados Unidos que crescem em lares de acolhimento e
programas de tratamento residencial. Obesa e agressiva, seu histórico era de
abuso sexual, físico e emocional; desde os 8 anos, havia morado em mais de
vinte casas. A pilha de prontuários que chegou junto com ela a descrevera como muda, vingativa, impulsiva, descuidada e dada a condutas
automutilantes, com temperamento explosivo e extremas oscilações de humor.
Referia-se a si mesma como “inútil, imprestável e rejeitada”.
Depois de várias tentativas de suicídio, Maria foi alojada em um de nossos
centros de tratamento residenciais. De início, cava calada e distante, mas
tornava-se violenta quando as pessoas se aproximavam muito dela. Depois do
insucesso de outras abordagens, foi incluída num programa terapêutico com
equinos; todos os dias ela cuidava de seu cavalo e tinha alunas de adestramento.
Dois anos depois, conversamos durante sua formatura no ensino médio. Fora
aceita para um curso superior de quatro anos. Perguntei-lhe o que mais a tinha
ajudado, e ela disse: “O cavalo do qual eu cuidava.” Contou que havia começado
a se sentir segura com o animal; ele estava lá todos os dias, esperando-a com
paciência e parecendo feliz quando ela se aproximava. Começou a sentir uma
conexão visceral com outra criatura e a conversar com o cavalo como se fosse
um amigo. Aos poucos passou a falar com outros jovens no programa e, por
m, com seu conselheiro.
E Virginia. Uma adolescente branca, adotada, de 13 anos, tirada de casa
porque a mãe biológica era dependente de drogas. Depois que a primeira mãe
adotiva adoeceu e morreu, ela pulou de um lar de acolhimento para outro,
antes de ser adotada de novo. Procurava seduzir todo homem que cruzasse seu
caminho, e relatou ter sofrido abuso sexual e físico por parte de vários
cuidadores. Chegou ao tratamento residencial depois de 13 hospitalizações por
tentativas de suicídio. A equipe do programa a descrevia como isolada,
controladora, explosiva, sexualizada, importuna, vingativa e narcisista. Ela se
descrevia como desagradável e dizia que gostaria de estar morta. Seu
prontuário registrava transtorno bipolar, transtorno explosivo intermitente,
transtorno de apego reativo, transtorno de dé cit de atenção (TDA) do tipo
hiperativo, transtorno desa ador de oposição e transtorno por uso de
substâncias psicoativas. No entanto, quem era mesmo Virginia? Como
poderíamos esperar que ela tivesse uma vida? 1
Só poderemos ter esperanças de solucionar os problemas dessas crianças e
adolescentes se de nirmos de forma correta o que está acontecendo com eles e
zermos algo além de criar novos medicamentos para controlá-los e tentar
descobrir “o” gene responsável pela “doença” que os a ige. O desa o está em
encontrar meios de ajudá-los a levar uma vida produtiva e, com isso, poupar
milhões de dólares dos contribuintes. Esse processo começa com o
enfrentamento da verdade.
GENES RUINS?
Diante de problemas tão generalizados e de pais tão disfuncionais, poderíamos
ser tentados a atribuir a situação dessas pessoas simplesmente a genes ruins. A
tecnologia sempre produz novas direções para pesquisas, e, quando surgiram
os testes genéticos, a psiquiatria passou a buscar causas genéticas para doenças
mentais. Encontrar um elo genético parecia relevante sobretudo no caso da
esquizofrenia, forma de doença mental que, além de grave e desconcertante, é
bastante comum (afeta cerca de 1% da população) e comprovadamente
acomete várias pessoas na mesma família. No entanto, depois de trinta anos e
milhões e milhões de dólares gastos em pesquisas, não achamos padrões
genéticos consistentes para a esquizofrenia – nem, aliás, para qualquer outra
doença psiquiátrica.2 Colegas meus também se esforçaram para descobrir
fatores genéticos que predispusessem as pessoas a ser vitimadas por estresse
traumático.3 A busca continua, mas até agora não produziu nenhuma resposta
robusta.4
Pesquisas recentes puseram m à ideia simplista de que “ter” determinado
gene leve a determinado resultado. Ocorre que muitos genes interagem para
in uenciar um único resultado. Mais importante ainda, os genes não são xos,
já que fatos ocorridos podem disparar mensagens bioquímicas que os ligam ou
desligam – adicionando grupos de metila (aglomerado de átomos de carbono e
hidrogênio) ao exterior do gene (processo chamado metilação) e alterando,
para mais ou para menos, a sensibilidade do gene a mensagens vindas do
corpo. Situações da vida podem mudar o comportamento do gene, mas não
modi cam sua estrutura fundamental. Todavia, os padrões de metilação
podem ser transmitidos à prole, fenômeno conhecido como epigenética. Mais
uma vez, o corpo guarda as marcas nos níveis mais profundos do organismo.
Um dos mais citados experimentos de epigenética foi feito por Michael
Meaney, pesquisador da Universidade McGill que estuda ratos recém-nascidos
e suas mães.5 Meaney descobriu que o tempo que a mãe dedica a lamber os
lhotes e a cuidar deles nas 12 horas que se seguem ao nascimento afeta de
maneira permanente as substâncias químicas que reagem ao estresse e modi ca
a con guração de mais de mil genes. Ratinhos cujas mães os lambiam
intensamente são mais corajosos e produzem menos hormônios do estresse em
situações estressantes do que aqueles cujas mães foram menos dedicadas. Além
disso, recuperam-se mais depressa e conservam essa capacidade por toda a vida. Adquirem conexões mais densas no hipocampo, um centro vital para o
aprendizado e a memória, e se saem melhor num teste importante para os
roedores: achar o caminho num labirinto.
Estamos apenas começando a entender que experiências estressantes
afetam a expressão genética também nos seres humanos. Crianças cujas mães
tinham cado presas em casas sem aquecimento durante uma nevasca
prolongada em Québec, no Canadá, mostravam mudanças epigenéticas
acentuadas em comparação com os lhos de donas de casa cujo aquecimento
havia sido restaurado no mesmo dia.6 O pesquisador Moshe Szyf, da
Universidade McGill, comparou os per s epigenéticos de centenas de crianças
de famílias situadas nos extremos opostos da pirâmide social no Reino Unido e
mediu os efeitos do abuso infantil nos dois grupos. As diferenças de classe
social estavam ligadas a per s epigenéticos nitidamente distintos, porém as
crianças que sofreram abusos, de ambos os grupos, tinham em comum
modi cações especí cas em 73 genes. Segundo Szyf, “grandes mudanças em
nosso organismo podem ser causadas não só por substâncias químicas e
toxinas como também pela maneira como o mundo social conversa com o
mundo impresso nos circuitos cerebrais”.7 8 ,
MACACOS ESCLARECEM VELHAS QUESTÕES RELATIVAS AO
DEBATE NATUREZA VERSUS CRIAÇÃO
Uma das melhores explicações sobre a in uência da qualidade dos cuidados
parentais e do ambiente na expressão dos genes vem de Stephen Suomi, chefe
do Laboratório de Etologia Comparada dos Institutos Nacionais de Saúde.9 Faz
mais de quarenta anos que Suomi investiga a transmissão de traços de
personalidade ao longo de gerações de macacos rhesus, que têm 95% dos genes
humanos, número apenas excedido pelos chimpanzés e bonobos. Tal como o
homem, macacos rhesus vivem em grandes grupos sociais, com alianças e
relacionamentos hierárquicos de alta complexidade, e só os membros do grupo
capazes de sincronizar seu comportamento com as demandas do bando
sobrevivem e se desenvolvem.
Macacos rhesus também se assemelham ao homem em suas formas de
apego. As crias precisam de contato físico íntimo com as mães e, assim como
Bowlby observou nos seres humanos, os pequenos se desenvolvem explorando suas reações ao meio ambiente e correndo para as mães sempre que se sentem
assustados ou perdidos. Assim que se tornam mais independentes, as
brincadeiras com os pares são a principal fonte de aprendizado de conduta na
vida.
Suomi identi cou dois tipos de personalidade que sempre arrumavam
problemas: indivíduos tensos e ansiosos, que cam temerosos, retraídos e
deprimidos até em situações nas quais outros macacos brincam e exploram; e
indivíduos altamente agressivos, que provocam tanta confusão que muitas
vezes são evitados, surrados ou mortos. Do ponto de vista biológico, os dois
tipos diferem de seus pares. Anormalidades em níveis de alerta, secreção de
hormônios do estresse e metabolismo de substâncias químicas cerebrais, como
a serotonina, podem ser detectadas já nas primeiras semanas de vida, e nem a
biologia nem o comportamento tendem a se alterar à medida que os animais
amadurecem. Suomi descreveu uma ampla gama de condutas geneticamente
determinadas. Por exemplo, aos 4 anos, macacos tensos (classi cados como tais
com base tanto no comportamento quanto nos altos níveis de cortisol aos 6
meses de idade) consomem mais álcool em situações experimentais do que os
outros. Macacos geneticamente agressivos também exageram nesse quesito,
mas bebem até perder a consciência, ao passo que os macacos tensos bebem
apenas para se acalmar.
O ambiente social, porém, também contribui para o comportamento e a
biologia. Fêmeas tensas e ansiosas não lidam bem com as demais. Por isso,
muitas vezes, lhes falta apoio social quando dão à luz, o que faz com que elas
tendam a negligenciar ou maltratar os primogênitos. Contudo, quando essas
fêmeas pertencem a um grupo social estável, é mais provável que se tornem
mães diligentes e cuidem das crias com atenção. Em certas condições, uma mãe
ansiosa pode redundar numa proteção muito necessária. Por outro lado, uma
mãe agressiva não proporciona nenhuma vantagem social: muito punitiva com
os lhos, ela os cria com tapas, chutes e mordidas. Se os bebês sobrevivem, as
mães, em geral, impedem que façam amizade com seus pares.
Na vida real é impossível dizer se o comportamento agressivo ou tenso das
pessoas resulta dos genes dos pais ou da criação por uma mãe que maltrata os
lhos – ou de ambos. No entanto, num laboratório de etologia, recém-nascidos
com genes vulneráveis podem ser separados das mães biológicas, quando então
são criados por mães cuidadosas ou entre seus pares.
Macaquinhos tirados da mãe ao nascer e criados apenas entre seus pares
tornam-se intensamente apegados a eles. Unem-se uns aos outros de maneira desesperada e não se desgrudam nem para se arriscar em explorações e
brincadeiras saudáveis. Suas poucas brincadeiras, quando existem, carecem da
complexidade e da imaginação típicas das praticadas por macacos em
condições normais. Esses macaquinhos crescem nervosos e tensos: assustam-se
com situações novas e não demonstram curiosidade. Independentemente da
predisposição genética, macacos criados entre os pares reagem de forma
exagerada a pequenos estresses: em resposta a ruídos altos, o nível de cortisol
aumenta muito mais neles do que nos macacos criados com as mães. Seu
metabolismo de serotonina é ainda mais anormal do que o dos macacos
geneticamente predispostos à agressividade mas criados pelas próprias mães.
Daí se conclui que, ao menos no caso de macacos, as primeiras experiências
têm pelo menos tanto impacto sobre a biologia quanto a hereditariedade.
Macacos e seres humanos têm as mesmas variantes (duas) do gene da
serotonina (chamadas de alelos transportadores de serotonina curto e longo).
No ser humano, o alelo curto vem sendo associado a impulsividade, agressão,
busca de sensações, tentativas de suicídio e depressão grave. Suomi demonstrou
que, ao menos em macacos, o ambiente molda a ação desses genes sobre o
comportamento. Macacos com alelo curto criados por uma mãe adequada
tinham comportamento normal e não apresentavam nenhum dé cit no
metabolismo da serotonina. Os que haviam sido criados entre seus pares
vinham a ser agressivos e gostavam de correr riscos.10 Da mesma forma, o
pesquisador neozelandês Alec Roy constatou que seres humanos com o alelo
curto apresentavam índices de depressão mais elevados, mas só se tinham um
histórico de abuso ou negligência na infância. A conclusão é clara: crianças
com a sorte de ter como um dos genitores uma pessoa sintonizada e atenta não
serão acometidas desse problema de origem genética.11
O trabalho de Suomi rati ca tudo o que aprendemos com nossos colegas
que estudam o apego humano e em nossa própria pesquisa clínica:
relacionamentos seguros e protetores são cruciais para evitar que crianças
enfrentem problemas a longo prazo. Além disso, até pais com as próprias
vulnerabilidades genéticas podem transmitir essa proteção à geração seguinte,
desde que esta tenha o apoio correto.
A REDE NACIONAL DE ESTRESSE TRAUMÁTICO INFANTIL
Para quase toda doença, de câncer a retinite pigmentar, existem grupos que
promovem o estudo e o tratamento de cada afecção em particular. Todavia, até
2001, quando o Congresso americano criou a Rede Nacional de Estresse
Traumático Infantil (National Child Traumatic Stress Network, NCTSN), não
havia nos Estados Unidos nenhuma organização ampla e abrangente dedicada
à pesquisa e ao tratamento de crianças traumatizadas.
Em 1998, Adam Cummings, da Fundação Nathan Cummings, me
telefonou para dizer que a instituição estava interessada em estudar os efeitos
do trauma sobre o aprendizado. Informei que, embora existissem estudos
excelentes sobre o tema,12 não havia nenhum fórum que oferecesse aplicação
prática às descobertas já feitas. O desenvolvimento mental, biológico ou moral
de crianças traumatizadas não estava sendo ensinado de forma sistemática ao
pessoal dos centros de assistência infantil, a pediatras ou nas instituições de
pós-graduação em psicologia ou serviço social.
Ambos concordamos que era preciso remediar esse problema. Cerca de oito
meses depois, reunimos um grupo que incluía representantes do Departamento
de Saúde e Serviços Humanos e do Departamento de Justiça, o assessor de
saúde do senador Ted Kennedy e alguns colegas meus especializados em
trauma infantil. Todos estávamos familiarizados com os dados básicos a
respeito dos efeitos do trauma sobre o desenvolvimento da mente e do cérebro,
e cientes de que o trauma infantil difere radicalmente do estresse traumático
em adultos. O grupo concluiu que, se esperávamos chamar a atenção para a
questão do trauma infantil, era preciso criar uma organização nacional que
promovesse tanto o estudo do problema quanto a educação de professores,
juízes, líderes religiosos, pais adotivos, médicos, agentes de liberdade
condicional, enfermeiros e pro ssionais de saúde pública – qualquer pessoa
que lidasse com crianças vítimas de abusos e traumatizadas.
Um dos membros de nosso grupo, Bill Harris, tinha ampla experiência com
leis referentes a crianças e foi trabalhar com a equipe do senador Kennedy a m
de transformar nossas ideias em leis. Aprovado no Senado com apoio total dos
dois partidos, o projeto de criação da NCTSN desde 2001 vem crescendo: passou
de uma rede colaborativa de 17 postos para mais de 150 centros em todo o país.
Dirigida por centros coordenadores que têm como bases a Universidade Duke
e a Universidade da Califórnia em Los Angeles, a NCTSN compreende hospitais,
universidades, órgãos indígenas, programas de recuperação de toxicômanos,
clínicas de saúde mental e instituições de pós-graduação. Cada um dos centros,
por sua vez, colabora com sistemas municipais de educação, órgãos de assistência social, abrigos de sem-teto, programas de justiça para menores e
abrigos para pessoas ameaçadas por violência doméstica, num total de mais de
8.300 parceiros a liados.
Com a criação e o funcionamento da NCTSN, tivemos condições de traçar
um per l mais claro das crianças traumatizadas em todas as partes do país.
Joseph Spinazzola, meu colega no Trauma Center, dirigiu um levantamento que
examinou os dados de quase 2 mil crianças e adolescentes, fornecidos por
instituições de toda a rede.13 Logo vimos con rmado aquilo de que
suspeitávamos: a grande maioria dessas crianças e adolescentes vinha de
famílias extremamente disfuncionais. Mais da metade sofrera abuso emocional
e/ou estivera entregue a um cuidador extremamente ine ciente para atender a
suas necessidades. Quase 50% deles caram por conta própria em algum
momento – os responsáveis estavam presos, submetendo-se a tratamentos ou
prestando serviço militar – e tinham sido cuidados por estranhos, em lares de
acolhimento, ou por parentes distantes. Quase metade relatava ter assistido a
cenas de violência doméstica, e um quarto sofrera abuso sexual ou maus-tratos
físicos. Em outras palavras, aquelas crianças e adolescentes eram espelhos dos
pacientes de meia-idade e de classe média da Kaiser Permanente com altas
pontuações que Vincent Felitti pesquisara no estudo ACE.
O PODER DO DIAGNÓSTICO
Na década de 1970 não havia meios de classi car os diversi cados sintomas de
centenas de milhares de veteranos que voltavam do Vietnã. Como vimos nos
capítulos iniciais, os médicos eram obrigados a improvisar o tratamento e
estavam impedidos de estudar de maneira sistemática quais enfoques
funcionavam. Adotado pelo DSM- em 1980, o diagnóstico de TEPT levou a
amplos estudos cientí cos e a criação de tratamentos e cazes, relevantes não só
para os veteranos de guerra como para vítimas de uma ampla gama de eventos
traumáticos, entre os quais estupro, agressão e acidentes com veículos
automotores.14 Um exemplo da importância de um diagnóstico especí co é o
fato de que entre 2007 e 2010 o Departamento de Defesa gastou mais de 2,7
bilhões de dólares no tratamento e na pesquisa sobre TEPT em veteranos de
guerra, enquanto só no ano scal de 2009 o Departamento de Assuntos de
Veteranos despendeu 24,5 milhões de dólares em pesquisa interna sobre TEPT.
A de nição que o DSM dá ao TEPT é bastante objetiva: uma pessoa é
exposta a um fato horrendo “que envolveu a morte, a ameaça de morte, uma
lesão grave ou uma ameaça à integridade física de si mesmo ou de outras
pessoas”, causando “medo intenso, impotência ou horror” que resulta em várias
manifestações: reviver o evento ( ashbacks, pesadelos, sensação de que o
evento está ocorrendo), evitamento persistente e incapacitante (de pessoas,
lugares, pensamentos ou sensações associados ao trauma, às vezes com amnésia
de partes importantes do evento) e aumento do nível de alerta (insônia,
hipervigilância ou irritabilidade). Essa descrição sugere um enredo claro: a
pessoa experimenta de maneira súbita e inesperada um evento aterrorizante e
nunca mais volta a ser a mesma. O trauma pode ter passado, mas continua a ser
reproduzido em lembranças que se reciclam sem cessar e num sistema nervoso
reorganizado.
Qual a relevância dessa de nição para as crianças que tratávamos? Depois
de um único incidente traumático – uma mordida de cachorro, um acidente ou
um tiroteio na escola –, crianças podem apresentar sintomas básicos de TEPT
semelhantes aos de adultos, mesmo que vivam em lares seguros. O diagnóstico
de TEPT nos permite hoje tratar esses problemas com bastante e cácia.
Em crianças perturbadas, com histórico de abuso e negligência, espalhadas
em clínicas, escolas, hospitais e delegacias, as raízes traumáticas de seus
comportamentos são menos óbvias, sobretudo porque elas raramente falam
sobre terem sido agredidas, abandonadas ou molestadas, mesmo quando
interrogadas. Entre as crianças traumatizadas atendidas na NCTSN, 82% não
atendem aos critérios de diagnóstico de TEPT 15 . Por serem em geral retraídas,
descon adas ou agressivas, recebem diagnósticos pseudocientí cos, do tipo
“transtorno desa ador de oposição”, que quer dizer “Esse menino me odeia e
não me obedece”, ou “transtorno contestador de desregulação de humor”, que
signi ca que tem acessos de raiva. Como têm diversos problemas, ao longo do
tempo essas crianças acumulam numerosos diagnósticos. Antes dos 20 e
poucos anos muitos desses pacientes já acumularam quatro, cinco, seis ou mais
desses rótulos bombásticos, que nada signi cam. Quando submetidas a
tratamento, terá sido algum que está na última moda: medicação, modi cação
de comportamento ou terapia de exposição. Prescrições que quase nunca
funcionam e muitas vezes agravam os problemas.
À medida que a NCTSN tratava de um número cada vez maior de crianças,
foi cando evidente que precisávamos de um diagnóstico que capturasse a
realidade da experiência delas. Começamos com um banco de dados de quase 20 mil crianças que estavam sendo tratadas em vários centros da rede e
juntamos todas as pesquisas que pudemos encontrar sobre crianças vítimas de
abuso e negligência. Após uma triagem, esses textos foram reduzidos a 130
estudos de especial relevância abrangendo um contingente de 100 mil crianças
e adolescentes em todo o mundo. Um grupo de trabalho formado por 12
médicos/pesquisadores especializados em trauma de infância reuniu-se então
duas vezes por ano,16 ao longo de quatro anos, a m de formular uma proposta
para um diagnóstico apropriado, que decidimos chamar de transtorno de
trauma de desenvolvimento (TTD) 17 .
Organizando nossas conclusões, de nimos um per l constante: 1) um
padrão difuso de desregulação; 2) problemas de atenção e concentração; e 3)
di culdades de relacionamento consigo mesmo e com outras pessoas. Os
humores e sentimentos dessas crianças variavam com rapidez de um extremo a
outro: de ataques de raiva e pânico a indiferença, descaso e dissociação.
Quando cavam irritadas (o que acontecia na maior parte do tempo), não
conseguiam se acalmar nem explicar o que sentiam.
Um sistema biológico que não para de bombear hormônios do estresse para
lidar com ameaças reais ou imaginárias leva a problemas físicos: sono difícil,
cefaleias, dores inexplicáveis, hipersensibilidade ao toque ou a sons. Tanta
agitação e bloqueio não permite que essas crianças foquem a atenção ou se
concentrem. Para aliviar a tensão, não param de se masturbar, de se sacudir ou
de mutilar o próprio corpo (mediante mordidas, cortes, queimaduras e
autolesões, arrancando o cabelo ou ferindo a pele até sangrar). Esse
comportamento também leva a problemas com o processamento da linguagem
e da coordenação motora na. Como gastam toda a energia para manter o
controle, em geral têm di culdade em prestar atenção no que não esteja
diretamente ligado à sobrevivência, como trabalhos escolares. A hiperatividade
faz com que se distraiam com facilidade.
O fato de terem sido muitas vezes negligenciadas ou abandonadas torna
essas crianças “grudentas” até em relação a quem as maltratou. Surras, estupros
e outras formas de violência habituais zeram com que elas se quali quem
como inúteis e sem valor. Acreditam, sinceramente, que são pessoas marcadas
pela inutilidade e pela desimportância. É de admirar que não con em em
ninguém? Por m, o fato de basicamente se julgarem desprezíveis, junto com a
reação exagerada a pequenas frustrações, lhes di culta fazer amigos.
Criamos uma escala de classi cação válida, 18 publicamos os primeiros
artigos sobre nossas conclusões e juntamos dados sobre cerca de 350 crianças e seus pais ou pais adotivos para mostrar que o TTD cobria toda a gama do que
havia de errado com elas. Com isso, poderíamos lhes dar um único
diagnóstico, em vez de múltiplos rótulos, e de niríamos a origem de seus
problemas com segurança, como uma combinação de trauma e apego
prejudicado.
Em fevereiro de 2009, submetemos nossa proposta da criação do
diagnóstico de TTD à AAP, declarando o seguinte numa carta de
encaminhamento:
Crianças que se desenvolvem em ambiente de perigo continuado, maus-
tratos e assistência conturbada estão sendo mal atendidas pelos sistemas
atuais de diagnóstico, que enfatizam o controle comportamental, sem
reconhecimento do trauma interpessoal. Estudos sobre sequelas de
traumas infantis, no contexto de abuso ou negligência por parte de
cuidadores, mostram problemas crônicos e graves quanto à regulação
de emoções, ao controle de impulsos, atenção e cognição, dissociação,
relações interpessoais e esquemas de autoconsciência e relacionais. Na
ausência de um diagnóstico especí co para trauma, essas crianças
recebem hoje em dia um diagnóstico com três a oito transtornos
comórbidos. A manutenção da prática da aplicação de diagnósticos de
comorbidades múltiplas e distintas a crianças traumatizadas tem sérias
consequências: atenta contra o princípio de economia, obscurece a
clareza etiológica e cria o perigo de relegar o tratamento e a intervenção
a um aspecto restrito da psicopatologia da criança, em vez de promover
uma abordagem terapêutica abrangente.
Logo depois de enviar nossa proposta, z uma palestra sobre o TTD em
Washington, DC, num encontro de comissários de saúde mental de todo o país.
Diversos participantes do encontro se dispuseram a apoiar nossa iniciativa,
enviando à AAP uma carta que começava destacando que a Associação Nacional
de Diretores de Programas Estaduais de Saúde Mental atendia 6,1 milhões de
crianças por ano, com um orçamento de 29,5 bilhões de dólares, e concluía:
Instamos a AAP a acrescentar o trauma de desenvolvimento à sua lista de
prioridades para esclarecer e melhor caracterizar seu processo e suas
sequelas clínicas e também para enfatizar a premente necessidade de se
abordar o trauma de desenvolvimento na avaliação dos pacientes.
Eu estava certo de que essa carta garantiria que a AAP levasse a sério nossa
proposta, mas, meses depois, Matthew Friedman, diretor executivo do Centro
Nacional de TEPT e presidente do subcomitê relevante do DSM, informou-nos
que era improvável que o TTD fosse incluído no DSM-. O consenso, escreveu ele,
era de que não havia necessidade de um novo diagnóstico para preencher um
“nicho de diagnóstico ausente”. Um milhão de crianças que eram vítimas de
abusos e negligência a cada ano nos Estados Unidos seriam um “nicho de
diagnóstico”?
A carta continuava:
A ideia de que experiências adversas na primeira infância levam a
perturbações substanciais no desenvolvimento é mais uma intuição
clínica do que um fato com base em pesquisas. […] Essa a rmativa se
faz com frequência, mas não encontra sustentação em estudos
prospectivos.
Na verdade, havíamos incluído em nossa proposta vários estudos
prospectivos. Vejamos apenas dois.
COMO RELACIONAMENTOS MOLDAM O
DESENVOLVIMENTO
A partir de 1975, e ao longo de quase trinta anos, Alan Sroufe e colaboradores
acompanharam 180 crianças e suas famílias no Estudo Longitudinal de
Minnesota de Risco e Adaptação. 19 Na época em que o estudo começou,
travava-se um intenso debate quanto ao papel, no desenvolvimento humano, da
natureza versus o da educação, e o do temperamento versus o do ambiente; esse
estudo pretendia responder a essas dúvidas. O trauma ainda não era uma
questão muito pesquisada, e o abuso e a negligência de crianças não eram o
foco principal do estudo – pelo menos no início, até car evidente que eram os
mais importantes indicadores da saúde mental dos adultos.
Trabalhando com instituições médicas e sociais municipais, os
pesquisadores recrutaram mães primíparas (brancas) cuja renda era restrita o
su ciente para receber assistência pública. Essas mulheres tinham diferentes
antecedentes e dispunham de diferentes tipos e níveis de apoio para o cuidado
dos lhos. O estudo começou três meses antes do nascimento das crianças e
acompanhou-as até os 30 anos de idade, avaliando e, nos casos relevantes,
medindo todos os aspectos importantes da saúde mental dessas pessoas e todas
as circunstâncias signi cativas da vida delas. O estudo considerava várias
questões básicas: como as crianças aprendiam a prestar atenção, ao mesmo
tempo que regulavam seu estado de alerta (isto é, evitando altos e baixos
extremos) e controlavam seus impulsos? De que tipos de apoio precisavam, e
quando estes se tornavam necessários?
Depois de entrevistas bem detalhadas e testes com futuros pais, o estudo
decolou de verdade no berçário, onde os pesquisadores observaram os recém-
nascidos e entrevistaram as enfermeiras que cuidavam deles. Visitaram os pais
no sétimo e no décimo dia de vida das crianças. Antes que entrassem no
primeiro ano da escola, elas e os pais foram cuidadosamente avaliados nada
menos que quinze vezes. A partir daí, as crianças foram entrevistadas e
examinadas a intervalos regulares até os 28 anos de idade. Mães e professores
também forneceram informações.
Sroufe e seus colegas constataram que a qualidade dos cuidados e os fatores
biológicos apresentavam estreita inter-relação. É interessante observar que os
resultados de Minnesota reiteram, embora com muito mais complexidade, o
que Stephen Suomi descobriu no laboratório de primatas. Nada estava gravado
na pedra. A personalidade da mãe, as anomalias neurológicas da criança ao
nascer, seu QI, seu temperamento e mesmo seu nível de atividade e sua
reatividade ao estresse – nada disso indicava que uma criança teria sérios
problemas de comportamento na adolescência.20 A questão-chave era a
natureza da relação entre pais e lhos: o que os pais sentiam em relação aos
lhos e como interagiam com eles. Como no caso dos macacos de Suomi, a
combinação bebês vulneráveis e cuidadores in exíveis levava a lhos carentes e
tensos. Um comportamento insensível, impositivo e invasivo por parte dos pais
aos 6 meses de idade de uma criança apontava para problemas de
hiperatividade e atenção no jardim de infância e depois. 21
Detendo-se em muitos aspectos do desenvolvimento, sobretudo
relacionamentos com cuidadores, professores e pares, Sroufe e seu grupo
concluíram que cuidadores não só contribuem para manter o estado de alerta em limites controláveis como ajudam os lactentes a desenvolver a capacidade
de regular o estado de alerta. Crianças habitualmente forçadas além do limite e
levadas a um nível de alerta exagerado e à desorganização não desenvolviam
uma sintonia adequada entre seus sistemas cerebrais de inibição e excitação, e
cresciam com a expectativa de que perderiam o controle se acontecesse algo
perturbador. Era um grupo vulnerável, e no m da adolescência metade tinha
problemas de saúde mental diagnosticáveis. Havia padrões claros: bebês que
receberam cuidados constantes tornaram-se crianças bem reguladas, enquanto
cuidados irregulares produziram crianças em crônico estado de alerta
siológico. Filhos de pais instáveis estavam sempre reclamando por atenção e
demonstravam intensa frustração ante pequenas di culdades. O alerta
constante os deixava cronicamente ansiosos. A busca constante de
tranquilização atrapalhava as brincadeiras e a exploração, e em decorrência
disso eles cresciam nervosos e tímidos.
A negligência parental ou um tratamento rude na primeira infância
levavam a problemas de comportamento na escola e constituíam indicadores de
di culdades com os colegas e insensibilidade ao sofrimento alheio.22 Assim se
criava um círculo vicioso: o crônico estado de alerta em que viviam,
combinado com a falta de consolo por parte dos pais, tornava-os contestadores,
antagonísticos e agressivos. Crianças contestadoras e agressivas não são
simpáticas e provocam mais rejeição e castigos, não só por parte de seus
cuidadores, como também dos professores e colegas.23
Sroufe também aprendeu muito a respeito de resiliência: a capacidade de
lidar com a adversidade e dar a volta por cima. O mais importante indicador da
capacidade daquelas crianças para enfrentar as inevitáveis frustrações da vida
era, sem a menor dúvida, o nível de segurança estabelecido com o cuidador
principal durante os dois primeiros anos de vida. Informalmente, Sroufe me
disse que julgava que a resiliência na vida adulta podia ser prevista pelo modo
como mães carinhosas avaliavam os lhos aos 2 anos de idade.24
OS EFEITOS DE LONGO PRAZO DO INCESTO
Em 1986, Frank Putnam e Penelope Trickett, sua colega no NIMH, deram início
ao primeiro estudo longitudinal do impacto do abuso sexual sobre o
desenvolvimento feminino.25 Até a publicação dos resultados desse estudo, tudo o que sabíamos sobre os efeitos do incesto se baseava em declarações de
crianças que haviam sido molestadas e em relatos de mulheres que, anos ou
mesmo décadas depois, descreviam as consequências do incesto na vida delas.
Nenhum estudo havia acompanhado meninas para examinar como o abuso
sexual afetava o desempenho escolar, as relações com colegas e o conceito que
elas faziam de si mesmas, tanto na fase de amadurecimento como mais tarde,
no início da vida sexualmente ativa. Putnam e Trickett também analisaram as
mudanças ocorridas em suas pacientes, no decorrer do tempo, com relação a
hormônios do estresse, hormônios reprodutivos, funções imunológicas e outras
medidas siológicas. Além disso, exploraram possíveis fatores de proteção,
como inteligência e apoio prestado por familiares e pares.
Putnam e Trickett selecionaram 84 adolescentes indicadas pelo
Departamento de Serviços Sociais do Distrito de Columbia, todas com
histórico con rmado de abuso sexual por um membro da família. Também
reuniram um grupo de controle formado por 82 adolescentes da mesma idade,
etnia, classe socioeconômica e ambiente familiar, mas que não haviam sofrido
abuso. No início, a média de idade era de 11 anos. Ao longo dos vinte anos
seguintes, os dois grupos foram rigorosamente avaliados seis vezes, uma vez
por ano nos três primeiros anos e de novo aos 18, 19 e 25 anos. As mães dessas
jovens participaram das primeiras avaliações. A última avaliação ouviu os lhos
dessas mulheres. Nada menos que 96% delas, agora adultas – um índice notável
–, mantiveram-se nos grupos do estudo desde o começo.
Os resultados não deixavam dúvidas: comparadas com moças da mesma
idade, etnia e circunstâncias sociais, as adolescentes vitimadas por abuso sexual
sofrem uma ampla gama de efeitos negativos, como dé cit cognitivo, sintomas
dissociativos, depressão, perturbações no desenvolvimento sexual, altos índices
de obesidade e automutilação. Elas contraíam maior número de doenças e
utilizavam mais os serviços de saúde, e os índices de abandono do ensino
médio eram mais elevados que os do grupo de controle. Também apresentavam
anormalidades nas respostas de hormônios do estresse; a puberdade começava
mais cedo e reuniam grande número de diagnósticos psiquiátricos, à primeira
vista não relacionados entre si.
A pesquisa revelou minúcias a respeito das consequências do abuso sobre o
desenvolvimento. Por exemplo, a cada avaliação, pedia-se às moças dos dois
grupos que falassem sobre o que de pior lhes acontecera durante o ano anterior.
Enquanto narravam suas histórias, os pesquisadores observavam seu nível de
agitação e faziam medições siológicas. Na primeira avaliação, todas reagiram com a ição. Três anos depois, em resposta ao mesmo pedido, as do grupo de
controle mais uma vez revelaram sinais de sofrimento, mas as que tinham
sofrido abuso se fecharam e caram apáticas. Seus dados siológicos
correspondiam às reações observadas: durante a primeira avaliação, todas
mostraram aumento no nível de cortisol, um hormônio do estresse; três anos
depois, o cortisol baixou entre as vítimas de abuso no momento em que
falavam sobre o fato mais estressante do ano anterior. Com o tempo, o corpo se
ajusta ao trauma crônico. Uma das decorrências da apatia é a probabilidade de
que professores, amigos e outras pessoas não notem a perturbação da pessoa; é
possível que nem ela perceba. A apatia faz com que se deixe de reagir ao
sofrimento como deveria. Por exemplo, fazendo algo para se proteger.
O estudo de Putnam também detectou os efeitos difusos do incesto, a longo
prazo, sobre amizades e relacionamentos. Antes da puberdade, meninas não
vitimadas em geral têm várias amigas, além de um amigo do sexo masculino,
que funciona como uma espécie de espião que lhes informa como pensam e
agem aquelas estranhas criaturas, os rapazes. Depois que entram na
adolescência, o contato com meninos aumenta. Por outro lado, antes da
puberdade, meninas que sofreram abuso raramente têm amigos íntimos,
independentemente do sexo, e a adolescência traz muitos contatos caóticos – e
com frequência traumatizantes – com rapazes.
Não ter amigos no ensino fundamental faz uma diferença crucial. Sabemos
hoje como meninas do terceiro, quarto e quinto anos podem ser cruéis. É uma
época complexa, em que os amigos de repente se voltam uns contra os outros e
as alianças se dissolvem em exclusões e traições. Contudo, há um lado positivo:
quando as garotas chegam ao sexto ano, a maioria delas já começou a dominar
um repertório amplo de aptidões sociais, entre as quais a capacidade de
identi car o que sentem, negociar relações com outras pessoas, ngir que
gostam de pessoas de que não gostam, etc. E a maioria delas formou uma rede
de apoio bastante rme, integrada por meninas que se tornam sua equipe de
análise de estresses. À medida que vão penetrando no mundo do sexo e dos
namoros, essas relações lhes proporcionam espaço para re exão, mexericos e
discussão sobre o signi cado de tudo isso.
Meninas que sofreram abuso sexual seguem um caminho de
desenvolvimento totalmente diverso. Elas não têm amigas nem amigos, pois
não con am em ninguém; odeiam a si mesmas, e a biologia se volta contra elas,
levando-as a reagir de forma exagerada ou a se tornarem apáticas. Não
conseguem participar em igualdade de condições dos jogos de inclusão/exclusão acionados pela inveja, nos quais os jogadores têm de se
manter calmos mesmo sob estresse. As outras crianças em geral não querem
saber delas – elas lhes parecem esquisitas demais.
Mas isso é apenas o começo dos problemas.Violentadas e isoladas, meninas
com histórico de incesto amadurecem sexualmente um ano e meio mais cedo
do que as que não foram vitimadas. O abuso acelera o relógio biológico e a
secreção de hormônios sexuais. No começo da puberdade, adolescentes que
sofreram abusos têm níveis de testosterona e androstenediona, os hormônios
que alimentam o desejo sexual, três a cinco vezes maiores que as garotas do
grupo de controle.
O estudo de Putnam e Trickett é um importante guia para aqueles que
lidam com meninas vítimas de abuso sexual. No Trauma Center, por exemplo,
um de nossos clínicos informou numa manhã de segunda-feira que uma
paciente chamada Ayesha tinha sido estuprada, de novo, no m de semana.
Após fugir da casa de seu grupo às cinco da tarde do sábado, ela fora a um
lugar de Boston onde se reúnem viciados em drogas, fumara um baseado e
consumira outras substâncias. Depois, saíra de carro com um bando de
rapazes. Às cinco da manhã do domingo, eles a haviam estuprado. Como
muitos adolescentes que tratamos, Ayesha não é capaz de articular o que deseja
ou necessita, nem consegue pensar em como poderia se defender. Vive num
mundo de ações. Tentar explicar seu comportamento em termos de
vítima/atacante em nada ajuda, e o mesmo se pode dizer de rótulos como
“depressão”, “transtorno desa ador de oposição”, “transtorno explosivo
intermitente”, “transtorno bipolar” ou qualquer uma das outras opções que os
manuais de diagnóstico nos oferecem. O trabalho de Putnam nos ajudou a
entender como Ayesha vivencia o mundo – por que não consegue nos dizer o
que está acontecendo com ela, por que é tão impulsiva e carente de
autoproteção, e por que nos considera assustadores e intrometidos, não pessoas
que podem ajudá-la.
O DSM-5: UMA VERDADEIRA MISCELÂNEA DE
“DIAGNÓSTICOS”
As 945 páginas do DSM-, publicado em maio de 2013, registram cerca de
trezentos transtornos. O manual oferece uma verdadeira miscelânea de rótulos
possíveis para os problemas associados a trauma severo na infância, entre os
quais alguns novos, como transtorno disruptivo da desregulação do humor,26
autolesão não suicida, transtorno explosivo intermitente, transtorno de
interação social desinibida e transtorno disruptivo do controle de impulsos.27
Até o m do século XIX, os médicos classi cavam as doenças de acordo com
suas manifestações super ciais, como febres ou pústulas, o que não deixava de
ser razoável, uma vez que eles não tinham muito mais a que recorrer. 28 A coisa
mudou de gura quando cientistas como Louis Pasteur e Robert Koch
descobriram que muitas enfermidades eram causadas por bactérias invisíveis a
olho nu. A medicina então se transformou, tentando descobrir meios de
eliminar esses organismos, e não car apenas nas pústulas e febres por eles
causadas. Com o DSM-, a psiquiatria regressou, sem dúvida, à prática médica
do começo do século XIX. Ainda que conheçamos a origem de muitos
problemas que o manual identi ca, seus “diagnósticos” descrevem fenômenos
super ciais que ignoram por inteiro as causas básicas.
Antes da publicação do DSM-, o American Journal of Psychiatry divulgou os
resultados dos testes de e cácia de vários diagnósticos, que mostravam que
falta ao DSM aquilo que o mundo da ciência conhece como “con abilidade” – a
capacidade de produzir resultados consistentes e passíveis de reprodução. Em
outras palavras, o manual carece de validade cientí ca. Estranhamente, a falta
de con abilidade e de e cácia não impediu que o DSM- fosse publicado na data
prevista, apesar do consenso quase universal de que ele em nada melhorava o
sistema de diagnóstico anterior.29 Será que esse novo sistema veio a existir
porque a AAP ganhou 100 milhões de dólares com o DSM- e previa repetir esses
ganhos com o DSM-, já que todos que trabalham na área de saúde mental, além
de muitos advogados e outros pro ssionais, serão obrigados a comprar a nova
edição?
A con abilidade do diagnóstico não é uma questão acadêmica: se os
médicos não puderem entrar em acordo sobre o que a ige seus pacientes, não
terão como lhes oferecer o tratamento adequado. Quando não há relação entre
o diagnóstico e a cura, um paciente mal diagnosticado será fatalmente tratado
de maneira errônea. Ninguém desejaria submeter-se a uma cirurgia de retirada
de apêndice quando sofre de cálculos renais, nem ser rotulado como
“opositivo” quando, na realidade, seu comportamento tem raízes numa
tentativa de se proteger de um perigo real.
Numa declaração emitida em junho de 2011, a Sociedade Britânica de
Psicologia queixou-se à AAP de que o DSM- a rmava que as fontes de
sofrimento psicológico localizavam-se “dentro das pessoas” e ignorava a
“inegável origem social de muitos problemas”.30 Essa queixa se somou à
enxurrada de protestos de pro ssionais americanos, entre os quais líderes da
Associação Americana de Psicologia e da Associação Americana de
Aconselhamento. Por que as relações ou condições sociais são desconsideradas?
31 Se atentarmos apenas para falhas biológicas e genes defeituosos como causas
de problemas mentais, desdenhando o abandono, o abuso e a privação, é
provável que acabemos em becos sem saída como ocorria com gerações
anteriores, que punham toda a culpa em mães assustadoras.
A mais contundente rejeição do DSM- partiu do NIMH, que nancia a maior
parte das pesquisas psiquiátricas nos Estados Unidos. Em abril de 2013, poucas
semanas antes da divulgação formal do DSM-, o diretor do NIMH, omas Insel,
anunciou que a instituição deixaria de respaldar os “diagnósticos baseados em
sintomas” do manual.32 Em vez disso, concentraria seus aportes nos chamados
projetos de Pesquisa em Domínio de Critérios (Research Domain Criteria –
RDoC) 33 a m de criar um marco para a pesquisa passando por cima de
categorias diagnósticas hoje correntes. Por exemplo, um dos domínios do NIMH
é “Sistemas de Alerta/Modulatórios (Alerta, Ritmo Circadiano, Sono e Vigília)”,
que aparecem perturbados, em graus variados, em muitos pacientes.
Tal como o DSM-, o RDoC conceitua as doenças mentais unicamente como
transtornos cerebrais. Isso signi ca que no futuro as pesquisas nanciadas
explorarão os circuitos cerebrais “e outras medidas neurobiológicas” que são a
base dos problemas mentais. Para Insel, esse é o primeiro passo para o tipo de
“medicina de precisão que transformou o diagnóstico e o tratamento do
câncer”. No entanto, a doença mental não é exatamente como o câncer: o ser
humano é um animal social, e os problemas mentais envolvem a incapacidade
de lidar com outras pessoas, se ajustar, participar, e, de forma geral, se
sintonizar com o que o está a seu redor.
Tudo em nós – cérebro, mente, corpo – está orientado para a colaboração
com sistemas sociais. É a nossa estratégia de sobrevivência mais poderosa, a
chave para nosso êxito como espécie. Pois é exatamente neste ponto que
apresenta defeito na maioria das manifestações de sofrimento mental. Como
vimos na Parte II, as conexões neurais no cérebro e no corpo são vitais para
compreender o sofrimento humano. No entanto, é importante não ignorar os
fundamentos de nossa humanidade: os relacionamentos e as interações que
moldam nosso cérebro e mente na juventude e que dão substância e sentido a
toda a vida.
Pessoas com passado de abuso, negligência e privação grave continuarão
misteriosas e praticamente sem tratamento até darmos ouvidos à advertência
de Alan Sroufe:
Entender plenamente como nos tornamos quem somos – a evolução
complexa e paulatina de nossas orientações, capacidades e
comportamento – requer mais do que uma lista de ingredientes, apesar
da importância de cada um deles. Requer uma compreensão do
processo de desenvolvimento, de como todos esses fatores atuam em
conjunto e de forma permanente ao longo do tempo. 34
Pro ssionais da linha de frente da saúde mental – assistentes sociais e
terapeutas, todos sobrecarregados e mal remunerados – parecem concordar
com esse enfoque. Logo depois que a AAP rejeitou nossa proposta de inclusão
do TTD no DSM, milhares de clínicos de todo o país enviaram pequenas
contribuições para o Trauma Center, com o intuito de colaborar para um
alentado estudo cientí co, chamado teste de campo, que tem por objeto o
transtorno de trauma do desenvolvimento. Essa ajuda nos permitiu entrevistar
centenas de crianças, pais, pais adotivos e funcionários de instituições de saúde
mental em cinco centros da rede por cinco anos, empregando instrumentos de
entrevista formulados segundo princípios cientí cos.35
QUE DIFERENÇA FARIA O TTD?
Uma resposta a essa pergunta é que a adoção do conceito de TTD concentraria a
pesquisa e o tratamento (e também o nanciamento das pesquisas) nos
princípios centrais que constituem a base dos sintomas multiformes de crianças
e adultos com trauma crônico: desregulação biológica e emocional
generalizada, apego falho ou perturbado, problemas para manter o foco e o
rumo, uma noção bastante de ciente de identidade pessoal coerente e de
competência. Essas questões transcendem e incluem quase todas as categorias
diagnósticas, porém um tratamento que não lhes dê destaque e centralidade
quase com certeza será ine ciente. Nosso grande desa o está em aplicar as
lições da neuroplasticidade – a exibilidade dos circuitos cerebrais – a m de reprogramar o cérebro e reorganizar a mente de pessoas que a própria vida
programou para ver os outros como ameaças e a si mesmas como indefesas.
O apoio social é uma necessidade biológica, não uma opção, e essa
realidade deveria ser a espinha dorsal da prevenção e do tratamento.
Reconhecer os efeitos profundos do trauma e da privação no desenvolvimento
infantil não leva forçosamente a culpar os pais. Podemos pressupor que estes
fazem o melhor que podem, mas todos precisam de ajuda para criar os lhos.
Quase todos os países industrializados, salvo os Estados Unidos, reconhecem
esse fato e proporcionam alguma forma de apoio garantido às famílias. James
Heckman, detentor do Prêmio Nobel de Economia de 2000, demonstrou que
bons programas de amparo à infância, envolvendo os pais e promovendo
quali cações básicas em crianças desfavorecidas, mais do que se pagam em
termos de melhores resultados.36
No começo da década de 1970, o psicólogo David Olds trabalhava numa
creche de Baltimore onde muitas crianças vinham de lares destruídos pela
pobreza, violência doméstica e drogas. Consciente de que remediar os
problemas das crianças apenas na escola não bastava para melhorar suas
condições domésticas, ele criou um programa de visitas às famílias –
enfermeiras treinadas ajudavam as mães a oferecer um ambiente seguro e
estimulante aos lhos, e, nesse processo, as mães imaginavam um futuro
melhor para si mesmas. Vinte anos depois, os lhos dessas mães não só eram
mais saudáveis, como tinham menos probabilidade de relatar abusos ou
negligência em comparação com um grupo semelhante cujas mulheres não
haviam sido visitadas. Além disso, tinham mais probabilidade de concluir um
curso, evitar a prisão e ter empregos bem remunerados. Economistas já
calcularam que cada dólar investido em visitas domésticas de boa qualidade,
creches e programas pré-escolares resultam em sete dólares de economia em
gastos de seguridade social, despesas de assistência médica, recuperação de
dependentes de drogas e encarceramento, além de maiores receitas tributárias
decorrentes de empregos de maior remuneração. 37
Quando dou cursos na Europa, é comum que agentes dos ministérios da
Saúde dos países escandinavos, do Reino Unido, da Alemanha ou dos Países
Baixos me procurem, pedindo que passe uma tarde com eles para lhes
transmitir as mais recentes pesquisas sobre o tratamento de crianças e
adolescentes traumatizados, assim como de suas famílias. O mesmo acontece
com muitos colegas meus. Esses países já contam com sistemas de assistência
de saúde universal, garantem à população um salário mínimo, preveem licença de trabalho para pais e mães após o nascimento de seus lhos, além de creches
de qualidade para todos os lhos de mães que trabalham.
Teria essa atitude em relação à saúde pública algo a ver com o fato de que a
taxa de encarceramento seja, para cada 100 mil habitantes, de 71 na Noruega,
de 81 nos Países Baixos e de 781 nos Estados Unidos, enquanto a taxa de
criminalidade naqueles países é muito inferior à americana e o custo da
assistência médica é mais ou menos a metade? Na Califórnia, 70% dos
presidiários passaram algum tempo em lares sociais quando jovens. Os Estados
Unidos gastam 84 bilhões de dólares anuais com seu sistema penitenciário, a
um custo aproximado de 44 mil dólares a cada ano por preso; os países da
Europa setentrional gastam uma fração disso. Preferem investir em assistência
social para que os pais criem seus lhos num ambiente seguro e previsível. As
pontuações em testes de aproveitamento escolar e as taxas de criminalidade
parecem re etir o êxito desses investimentos.
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