O corpo guarda as marcas
6. Perder o corpo, perder o self
6
PERDER O CORPO, PERDER O
SELF
[…] eu gostaria de lhe pedir […] para ter paciência com relação a
tudo que não está resolvido em seu coração. Peço-lhe que tente ter
amor pelas próprias perguntas […]. Viva agora as perguntas. Talvez
passe, gradativamente, em um belo dia, sem perceber, a viver as
respostas.
Rainer Maria Rilke, Cartas a um jovem poeta
S herry entrou no consultório – os ombros caídos, o queixo quase encostado no peito. Antes mesmo que trocássemos qualquer palavra, seu corpo já me dizia que ela estava com medo de enfrentar o mundo.
Também notei que as mangas da blusa só cobriam parte das cicatrizes dos
antebraços. Depois de se sentar, ela contou, num tom agudo e sem
expressão, que não conseguia parar de futucar a pele dos braços e do peito.
A mãe de Sherry fora responsável por um lar social, e a casa com
frequência abrigava até quinze crianças desconhecidas, desordeiras,
assustadas e assustadoras, que desapareciam da mesma forma como haviam
chegado. Ela crescera cuidando dessas crianças transitórias, sentindo que
não havia lugar para ela e suas necessidades. “Eu sabia que não era desejada”,
ela disse.
Não sei bem quando foi que percebi, mas pensei nas coisas que
minha mãe me dizia, e os sinais estavam sempre presentes. Ela vivia
falando: “Sabe, acho que você não pertence a esta família. Acho que
nos entregaram o bebê errado”. E ela dizia isso com um sorriso. Mas,
como se sabe, as pessoas muitas vezes ngem estar brincando
quando falam uma coisa a sério.
No decorrer dos anos, nossa equipe de pesquisa tinha veri cado,
repetidas vezes, que um histórico de agressões emocionais e desatenção
pode ser tão prejudicial quanto maus-tratos físicos e abuso sexual.1 Sherry
era um exemplo vivo: não ser visto, não ser conhecido e não ter onde se
sentir em segurança é ruim em qualquer idade, porém particularmente
destrutivo no caso de crianças que ainda procuram um lugar no mundo.
Sherry havia completado o ensino médio, mas agora exercia uma função
sem graça num escritório, morava sozinha com seus gatos e não tinha
amigos próximos. Quando lhe perguntei sobre namoro, contou que seu
único “relacionamento” fora com um homem que a sequestrara quando ela
estava em Nova Orleans numa excursão de férias do colégio. Ele a manteve
em cárcere privado e a estuprou várias vezes durante cinco dias. Sherry se
lembrava de ter cado encolhida, aterrorizada e paralisada durante a maior
parte do tempo, até compreender que poderia ir embora. Ela fugiu
simplesmente abrindo a porta da casa enquanto ele estava no banheiro.
Quando ligou a cobrar para a mãe, esta se recusou a receber a chamada.
Sherry por m conseguiu voltar para casa com a ajuda de um abrigo para
vítimas de violência doméstica.
Sherry começara a ferir o próprio corpo porque lhe proporcionava certo
alívio à sensação de apatia. As sensações físicas faziam com que se sentisse
mais viva, porém lhe causavam profunda vergonha – ela sabia que estava
viciada nesses atos, mas não conseguia parar. Antes de me consultar, havia
procurado muitos pro ssionais de saúde mental e fora interrogada várias
vezes sobre seu “comportamento suicida”. Além disso, tinha sido submetida
a hospitalização involuntária por um psiquiatra que se recusou a tratá-la, a
menos que ela prometesse que nunca mais voltaria a se ferir. Minha
experiência, porém, mostrava que pacientes que se cortam ou se ferem raramente são suicidas, estão apenas tentando se sentir melhor da única
maneira que conhecem.
Muitas pessoas têm di culdade em compreender esses gestos. Como se
viu no capítulo anterior, a reação mais comum ao sofrimento consiste em
procurar pessoas de quem gostamos e nas quais con amos para que nos
ajudem e nos deem coragem para ir em frente. Podemos também nos
acalmar com a prática de uma atividade física, como andar de bicicleta ou
frequentar uma academia. Começamos a aprender esses meios de regular os
sentimentos na primeira vez que alguém nos alimenta quando temos fome,
nos cobre quando temos frio ou nos embala quando estamos com dor ou
amedrontados.
No entanto, se ninguém nunca o olhou com uma expressão amorosa ou
sorriu ao vê-lo, se ninguém nunca correu para ajudá-lo (pelo contrário, se
disse: “Pare de chorar, ou vou lhe dar um bom motivo para isso”), você
precisa descobrir outros meios de se cuidar. É provável que venha a
experimentar qualquer coisa – drogas, álcool, compulsão alimentar ou
automutilação – que ofereça algum alívio.
Embora Sherry comparecesse às consultas e respondesse a minhas
perguntas com muita sinceridade, eu não sentia que estávamos
estabelecendo a conexão vital necessária para o êxito da terapia. Surpreso
com seu nível de paralisação e tensão, sugeri que procurasse Liz, uma
massoterapeuta com quem eu já trabalhara. Na primeira sessão, Liz lhe
pediu que se deitasse na mesa de massagem; foi até a outra extremidade da
maca e com suavidade segurou seus pés. Deitada e de olhos fechados, Sherry
gritou de repente, em pânico: “Onde você está?” De alguma forma, ela
perdera o contato com Liz, que segurava seus pés.
Sherry foi uma das primeiras pacientes em quem testemunhei a extrema
desconexão do corpo, experimentada por muitas pessoas com histórico de
trauma e desatenção. Descobri que minha formação pro ssional, com foco
na compreensão e no insight, tinha praticamente ignorado a relevância do
corpo vivo, da respiração nesse corpo, a base de todos nós. Ela sabia que se
ferir era um ato destrutivo, relacionado à desatenção com que a mãe a
tratara, mas compreender a fonte do impulso não fazia diferença alguma
para ajudar a controlá-lo.
A PERDA DO CORPO
Uma vez alertado para isso, impressionou-me ouvir de muitos pacientes que
eles não conseguiam sentir áreas inteiras do corpo. Às vezes eu lhes pedia
que fechassem os olhos e me dissessem o que eu havia depositado em suas
mãos. Chave de carro, moeda de 25 centavos ou abridor de latas, não
importa, com frequência, eles não tinham ideia do que estavam segurando –
suas percepções sensoriais simplesmente não funcionavam.
Conversei sobre o assunto como meu amigo Alexander McFarlane, na
Austrália, que observara o mesmo fenômeno. Lá de seu laboratório em
Adelaide, ele re etira: Como é que sabemos, sem olhar, que estamos
segurando uma chave de carro? Reconhecer um objeto na palma da mão
exige perceber sua forma, peso, temperatura, textura e posição. Cada uma
dessas experiências sensoriais é transmitida para uma diferente parte do
cérebro, que, a seguir, tem de integrá-las em uma única percepção.
McFarlane descobriu que vítimas de TEPT costumam ter di culdade para
concatenar todos esses elementos.2
Quando nossos sentidos cam abafados, deixamos de nos sentir
plenamente vivos. Num artigo intitulado “What Is an Emotion?” (O que é
uma emoção?),3 de 1884, William James, o pai da psicologia americana,
relatou um caso de “insensibilidade sensorial” numa mulher que
entrevistou: “Eu não tenho […] sensações humanas”, ela lhe disse.
[Estou] cercada por tudo que pode tornar a vida feliz e agradável e,
entretanto, falta-me a capacidade de deleite e sentimento […]. É
como se todos os meus sentidos, todas as partes do meu ser,
estivessem separados de mim e não pudessem me proporcionar
sensação alguma; parece-me que essa impossibilidade decorre de um
vazio que percebo na frente da cabeça e se deve à diminuição da
sensibilidade em toda a superfície de meu corpo, uma vez que parece
que nunca alcanço de fato os objetos que toco. Essas coisas teriam
pouca importância, não fosse sua aterradora consequência, que é a
impossibilidade de qualquer outro tipo de sensação e de qualquer
espécie de prazer, muito embora a necessidade e o desejo que tenho
dessas sensações e desse prazer tornem minha vida uma tortura
incompreensível.
Essa reação ao trauma levanta uma pergunta importante: como as
pessoas traumatizadas podem aprender a incorporar experiências sensoriais
comuns, de modo a viver com o uxo natural de sensações e se sentirem
seguras e completas em seu corpo?
COMO SABEMOS QUE ESTAMOS VIVOS?
Os primeiros estudos com neuroimagens de vítimas de trauma eram, na
maioria, semelhantes àqueles examinados no capítulo 3: concentravam-se na
reação dos pacientes a lembranças especí cas do trauma. Então, em 2004,
minha colega Ruth Lanius, que fez as tomogra as do cérebro de Stan e de
Ute Lawrence, formulou uma nova pergunta: O que acontece no cérebro dos
sobreviventes de trauma quando não estão pensando no passado? Os
estudos da Dra. Lanius sobre o cérebro em ponto morto – o circuito
funcional cerebral conhecido como estado de descanso (rest state) ou default
mode network (DMN) – abriram um novo capítulo na compreensão de como
o trauma afeta a autoconsciência, em especial a autoconsciência sensorial.4
A Dra. Lanius recrutou um grupo de dezesseis canadenses “normais”,
que se submeteram a tomogra as cerebrais num momento em que não
pensavam em nada em particular. Não é fácil para ninguém fazer isso, pois,
quando estamos acordados, nosso cérebro funciona a toda, mas Ruth lhes
pediu que concentrassem a atenção na respiração e tentassem esvaziar a
mente o máximo possível. Depois repetiu o mesmo experimento com
dezoito pessoas que tinham histórico de abusos crônicos graves na infância.
O que seu cérebro faz quando você não está pensando em nada em
especial? Você acaba prestando atenção em si mesmo: o estado de descanso
ativa as áreas cerebrais que colaboram para criar seu senso de “self ”.
A percepção do self. O moicano da autoconsciência. A partir de um ponto logo acima dos olhos, esse conjunto é formado por várias estruturas: o córtex pré-frontal orbital, o córtex pré-frontal medial, o cingulado anterior, o cingulado posterior e a ínsula. Em indivíduos com trauma crônico, as mesmas regiões mostram uma atividade praticamente nula, o que os impede de registrar estados internos e avaliar a relevância pessoal das informações recebidas.
Analisando as tomogra as dos participantes normais do estudo, Ruth
encontrou a ativação de regiões de DMN, já descrita por outros
pesquisadores. Costumo chamá-la de moicano da autoconsciência – as
estruturas da linha média do cérebro, que, partindo de um ponto logo acima
dos olhos, correm pelo centro do cérebro até a nuca. Todas essas estruturas
mediais estão envolvidas em nosso senso de self. A maior região brilhante
no fundo do cérebro é o cingulado posterior, que nos proporciona uma
sensação física de onde estamos – é o nosso GPS interno. Esse cingulado tem
uma ligação estreita com o córtex pré-frontal medial (CPFM), a torre de vigia
examinada no capítulo 4. (Essa conexão não aparece na tomogra a porque a
fMRI não tem como medi-la.) Está ligado também a áreas cerebrais que
registram sensações provenientes do resto do corpo: a ínsula, que transmite
mensagens das vísceras aos centros emocionais; os lobos parietais, que
integram informações sensoriais; e o cingulado anterior, que coordena as
emoções e o pensamento. Todas essas áreas contribuem para a consciência.
O contraste desses exames com as tomogra as dos dezoito pacientes
crônicos de TEPT com histórico de trauma grave na infância foi notável. Era
quase nula a ativação de qualquer uma das áreas cerebrais ligadas à
consciência do self: o CPFM, o cingulado anterior, o córtex parietal e a ínsula
não apresentavam nenhuma iluminação; a única área que mostrava uma
débil ativação era o cingulado posterior, responsável pela orientação básica
no espaço.
Só podia haver uma explicação para esses resultados: em resposta ao
trauma em si, e para enfrentar o medo que persistia tanto tempo depois, eles
haviam aprendido a bloquear as áreas cerebrais que transmitem as sensações
e emoções viscerais que acompanham e de nem o terror. No entanto, na
vida cotidiana, essas mesmas áreas cerebrais são responsáveis por registrar
todo o leque de emoções e sensações que fundamentam nossa
autoconsciência, nossa percepção de quem somos. Testemunhávamos ali
uma trágica adaptação: num esforço para enxotar sensações aterrorizadoras,
aqueles pacientes também abriam mão da capacidade de se sentirem
plenamente vivos.
O desaparecimento da ativação pré-frontal medial poderia explicar o
motivo pelo qual tantos traumatizados perdem o senso de propósito e
direção. Quando comecei a atender esses pacientes, eu me surpreendia pela
frequência com que eles me pediam orientação sobre as coisas mais triviais. Depois, raramente seguiam minhas instruções. Agora eu compreendia que a
relação deles com sua realidade interior estava prejudicada. Como podiam
tomar decisões ou pôr em prática qualquer plano, se não eram capazes de
de nir o que desejavam ou, para ser mais preciso, o que as sensações em
seus corpos, a base de todas as emoções, estavam tentando lhes dizer?
Às vezes a ausência de autoconsciência em vítimas de trauma crônico na
infância é tamanha que elas não conseguem se reconhecer num espelho.
Tomogra as cerebrais mostram que isso não resulta de mera desatenção: as
estruturas responsáveis pelo autorreconhecimento podem estar fora de ação,
junto com aquelas que se relacionam à percepção do self.
Quando Ruth Lanius me mostrou seu estudo, recordei uma frase que
ouvi no ensino médio. Consta que, falando sobre a alavanca, o matemático
Arquimedes teria dito: “Dê-me um ponto de apoio e levantarei o mundo.”
Ou, como disse Moshe Feldenkrais, o grande pioneiro da terapia corporal
no século XX: “Você não pode fazer o que deseja até saber o que está
fazendo.” As implicações são claras: para se sentir presente, você tem de
saber onde está e ter ciência do que está acontecendo com você. Se o sistema
de autopercepção enguiça, precisamos encontrar meios de consertá-lo.
O SISTEMA DE AUTOPERCEPÇÃO
Foi impressionante constatar como a massoterapia bene ciou Sherry. Ela se
sentiu mais relaxada e ousada no dia a dia, também passou a se abrir mais
comigo. Comprometeu-se de verdade com a terapia, mostrando uma
curiosidade genuína em relação a seu comportamento, ideias e sentimentos.
Parou de se ferir e, quando chegou o verão, ao anoitecer, de sua varanda,
começou a conversar com vizinhos. Até começou a cantar no coral de uma
igreja, uma maravilhosa experiência de sincronia grupal.
Foi mais ou menos nessa época que conheci António Damásio, num
pequeno centro de estudos organizado por Dan Schacter, catedrático do
Departamento de Psicologia de Harvard. Numa série de livros e artigos
cientí cos brilhantes, Damásio esclarecia a relação entre estados físicos,
emoções e sobrevivência. Neurologista que já havia tratado de centenas de
pessoas com lesões cerebrais variadas, Damásio estava fascinado pela consciência e pela identi cação das áreas do cérebro necessárias para uma
pessoa saber como se sente. Dedicou a carreira ao mapeamento das áreas
reservadas à experiência do “eu”. Para mim, seu livro mais importante é O
mistério da consciência: Do corpo e das emoções ao conhecimento de si, e lê-lo
foi uma revelação. 5 Ele começa destacando a profunda cisão entre a
percepção do self e a vida sensorial do corpo. Como explica, de maneira
poética:
Às vezes usamos a mente não para descobrir fatos, mas para encobri-
los […]. Uma das coisas que a mente encobre com mais e ciência é o
corpo, nosso próprio corpo, e com isso me re ro a seu íntimo, seu
interior. Como um véu posto sobre a pele para assegurar o recato,
porém não em demasia, a tela parcialmente remove da mente os
estados interiores do corpo, aqueles que constituem o uxo da vida
enquanto ela segue em seu dia a dia.” 6
Em seguida, ele explica como essa “tela” pode atuar em nosso favor, ao
nos permitir cuidar de problemas prementes no mundo exterior. No
entanto, há um custo: “Ela tende a nos impedir de percebermos a possível
origem e a natureza do que denominamos self.” 7 Baseando-se no trabalho
centenário de William James, Damásio a rma que o cerne de nossa
autoconsciência reside nas sensações físicas que transmitem os estados
internos do corpo:
Os sentimentos primordiais […] proporcionam uma experiência
direta de nosso corpo vivo, sem palavras, sem adornos e ligada tão
somente à pura existência. Esses sentimentos primordiais re etem o
estado corrente do corpo em várias dimensões, […] na escala que vai
da dor ao prazer, e se originam no nível do tronco cerebral, não no
córtex cerebral. Todos os sentimentos de emoções são variações
musicais complexas de sentimentos primordiais.8
O mundo sensorial começa a se formar antes mesmo do nascimento. No
útero, sentimos o líquido amniótico na pele, ouvimos os débeis sons da corrente sanguínea e de um trato digestório em ação, rolamos e nos
reviramos com os movimentos da mãe. Depois do nascimento, as sensações
físicas de nem nosso relacionamento conosco e com o ambiente. Nós
começamos sendo umidade, fome, saciedade e sono. Uma cacofonia de
imagens e sons incompreensíveis pressiona nosso incipiente sistema
nervoso. Mesmo depois que adquirimos consciência e linguagem, o sistema
sensório corporal proporciona um retorno crucial para nosso estado de
momento a momento. Seu zumbido constante comunica alterações – nas
vísceras e nos músculos do rosto, do torso, das pernas e dos braços – que
indicam dor ou bem-estar, bem como impulsos como fome e excitação
sexual. O que acontece ao redor também afeta nossas sensações físicas. Ver
uma pessoa que reconhecemos, ouvir determinados sons – uma música,
uma sirene – ou perceber uma alteração de temperatura, tudo isso modi ca
nosso foco de atenção e, sem que tenhamos consciência, molda nossos
pensamentos e ações subsequentes.
Como vimos, cabe ao cérebro monitorar e avaliar o tempo todo aquilo
que acontece dentro de nós e a nossa volta. Essas avaliações são transmitidas
por mensagens químicas na corrente sanguínea e por mensagens elétricas
nos nervos, causando alterações, sutis ou substanciais, em todo o corpo e no
cérebro. As regiões subcorticais do cérebro são e cientíssimas na regulagem
da respiração, do ritmo cardíaco, da digestão, da secreção hormonal e do
sistema imunológico. Contudo, esses sistemas podem car sobrecarregados
se confrontados com uma ameaça contínua, ou mesmo com a impressão de
uma ameaça – o que explicaria o sem-número de problemas físicos que os
pesquisadores têm documentado em vítimas de trauma.
No entanto, o self consciente também desempenha papel vital na
manutenção de nosso equilíbrio interior: para que o corpo que em
segurança, precisamos registrar as sensações físicas e agir de acordo com
elas. Perceber que estamos com frio nos impele a vestir um agasalho; sentir
fome ou tontura informa que o nível de açúcar no sangue está baixo e nos
incita a comer alguma coisa; a pressão da bexiga cheia nos leva ao banheiro.
Damásio observa que todas as estruturas cerebrais que registram sensações
de fundo localizam-se perto de áreas que controlam funções de manutenção
básicas, como respiração, apetite, excreção e os ciclos de sono e vigília:
Isso [acontece] porque as consequências de ter emoção e atenção se
relacionam totalmente ao trabalho fundamental de gerir a vida no
interior do organismo, enquanto, por outro lado, não é possível gerir
a vida e manter o equilíbrio homeostático sem dados sobre o estado
atual do corpo propriamente dito do organismo.9
Damásio se refere a essas aéreas de manutenção do cérebro como o
“protosself ”, pois criam o “conhecimento mudo” que está por trás da
percepção consciente do self.
O SELF AMEAÇADO
No ano 2000, Damásio e colaboradores publicaram um artigo na revista
Science, a mais relevante publicação cientí ca do mundo, a rmando que
reviver uma forte emoção negativa causa mudanças importantes nas regiões
cerebrais que recebem sinais nervosos dos músculos, dos intestinos e da pele
– áreas cruciais para regular funções corporais básicas. As tomogra as
cerebrais feitas por sua equipe demonstraram que recordar um episódio
passado carregado de emoção nos leva a reviver as sensações viscerais
experimentadas por ocasião do evento original. Cada tipo de emoção
produzia um padrão característico, diferente dos demais. Por exemplo, uma
determinada parte do tronco encefálico se mostrava “ativa na tristeza e na
fúria, mas não na felicidade ou no medo”.10 Todas essas regiões cerebrais
cam sob o sistema límbico, a que atribuímos tradicionalmente as emoções,
e, no entanto, admitimos o envolvimento delas toda vez que usamos
expressões comuns que ligam emoções fortes ao corpo: “Você me dá nojo”,
“Aquilo me deixou arrepiado”, “Fiquei sem fala”, “Fiquei com o coração
apertado”, “Ele me fez car de cabelo em pé”.
O elementar sistema do self no tronco encefálico e no sistema límbico é
ativado energicamente quando as pessoas se veem diante da ameaça de
aniquilamento, o que tem como resultado uma sensação avassaladora de
medo e terror, acompanhada de intenso estímulo siológico. Para os que
estão revivendo um trauma, nada faz sentido; sentem-se presos numa
situação de vida ou morte, um estado de medo paralisante ou fúria cega. A mente e o corpo cam o tempo todo estimulados, como se corressem um
perigo iminente. Eles têm sobressaltos em reação aos mais leves ruídos,
pequenas contrariedades os irritam. O sono se mostra cronicamente
perturbado, e com frequência a comida deixa de lhes proporcionar prazer.
Por sua vez, isso pode desencadear tentativas desesperadas de bloquear essas
sensações mediante congelamento e dissociação. 11
Como as pessoas recuperam o controle quando seus cérebros animais
estão ocupados numa luta pela sobrevivência? Se o que acontece nas
profundezas de nossos cérebros animais determina o que sentimos, e se
nossas sensações são orquestradas por estruturas cerebrais subcorticais
(inconscientes), qual é o nível de controle que temos realmente sobre essas
sensações?
AGÊNCIA: VOCÊ NO CONTROLE DE SUA VIDA
“Agência” é o nome técnico para a sensação de efetivamente tomar conta da
própria vida: sabemos em que pé estamos, sabemos que temos voz ativa em
relação ao que nos acontece, que contamos com alguma capacidade de
moldar nossas circunstâncias. Os veteranos que desferiam murros nas
divisórias da AV estavam tentando a rmar sua agência – fazer com que
alguma coisa acontecesse. Entretanto, acabavam se sentindo mais
impotentes ainda, e muitos deles, antes cheios de autocon ança, estavam
presos num ciclo que ia da atividade frenética à imobilidade.
A agência começa com aquilo que os neurocientistas chamam de
interocepção, a percepção de sutis sensações sensoriais, com base no corpo:
quanto maior essa percepção, maior a possibilidade de controlar a vida.
Saber o que sentimos é o primeiro passo para saber por que sentimos. Se
estivermos conscientes das mudanças constantes no ambiente interno e
externo, podemos mobilizar recursos para administrá-las. No entanto, só
podemos dar conta da tarefa se nossa torre de vigia, o CPFM, aprender a
observar o que acontece dentro de nós. É por isso que a prática da atenção
plena, que fortalece o 12 CPFM , é fundamental para a recuperação do trauma.
Depois que vi o maravilhoso lme A marcha dos pinguins, pensei um
bocado em alguns de meus pacientes. Os pinguins são estoicos e afetuosos, e é trágico saber que, desde tempos imemoriais, eles caminham 110
quilômetros desde o litoral até o interior da Antártida, suportam agruras
indizíveis para chegar à área de procriação, perdem vários ovos viáveis
devido a intempéries e depois, famintos, arrastam-se de volta para o oceano.
Se os pinguins tivessem nossos lobos frontais, usariam suas pequeninas
nadadeiras para construir iglus, criariam uma melhor divisão de trabalho e
organizariam de outra forma seus suprimentos de alimentos. Muitos
pacientes meus sobreviveram ao trauma graças a uma imensa coragem e
persistência, só para incorrer nos mesmos tipos de problemas. O trauma
lhes bloqueou a bússola interna e lhes roubou a imaginação de que
precisariam para criar algo melhor.
A neurociência da identidade individual e da agência justi ca os tipos de
terapias somáticas criadas por meus amigos Peter Levine 13 14 e Pat Ogden.
Veremos essas e outras abordagens sensório-motoras com mais detalhes na
Parte V, mas, em essência, elas têm três objetivos:
extrair as informações sensoriais bloqueadas e congeladas pelo trauma;
ajudar os pacientes a proteger (em vez de suprimir) as energias
liberadas por essa experiência interior;
completar as ações físicas autopreservadoras cerceadas quando o terror
as deteve, aprisionou ou imobilizou.
Nossas sensações viscerais sinalizam o que é seguro, ameaçador ou o que
garante o sustento à vida, ainda que não possamos explicar direito por que
experimentamos certas sensações. Os sentidos continuam a nos enviar
mensagens sutis sobre as necessidades de nosso organismo. As sensações
viscerais ainda nos ajudam a avaliar o que acontece a nossa volta. Advertem
que o sujeito que se aproxima parece perigoso, mas também transmitem a
sensação de que o cômodo voltado para oeste e cercado de ores nos deixa
mais serenos. Se você tem uma boa conexão com suas sensações interiores –
se con a que elas lhe enviam informações corretas –, você se sentirá dono
de seu corpo, de suas sensações e de seu self.
As vítimas de trauma, no entanto, se sentem cronicamente inseguras
dentro do próprio corpo: o passado está vivo na forma de um desconforto
interior corrosivo. O corpo desses indivíduos é bombardeado o tempo todo
por sinais viscerais de alerta, e, numa tentativa de controlar tais processos, eles se tornam peritos em ignorar as sensações viscerais e entorpecer a
percepção do que está sendo encenado dentro deles. Aprendem a se
esconder de si mesmos.
Quanto mais as pessoas tentam rejeitar e ignorar os sinais interiores de
alerta, mais esses sinais assumem o comando e as deixam desnorteadas,
confusas e envergonhadas. As pessoas que não conseguem observar com
tranquilidade o que acontece dentro delas tornam-se propensas a reagir a
qualquer mudança sensorial bloqueando-se ou entrando em pânico –
passam a temer o próprio medo.
Sabemos hoje que os sintomas de pânico são duradouros sobretudo
porque o indivíduo teme as sensações físicas associadas a ataques de pânico.
O ataque pode ser provocado por algo que ele sabe ser irracional, porém o
medo faz essas sensações físicas aumentarem e se transformarem numa
emergência intensa. Expressões como “morto de medo” e “se borrar de
medo” (entrar em colapso e entorpecer-se) descrevem com exatidão os
efeitos do terror e do trauma, descrevem o fundamento visceral dessas
sensações. A experiência do medo deriva de respostas primitivas a uma
ameaça da qual, por algum motivo, não havia escapatória. A vida da pessoa
continuará subjugada ao medo até aquela experiência visceral mudar.
O preço de ignorar ou distorcer as mensagens do corpo é tornar-se
incapaz de detectar o que é verdadeiramente perigoso ou nocivo para si e,
por outro lado, o que é seguro ou propício. A autorregulação depende de um
relacionamento amistoso com o corpo, caso contrário a pessoa terá de
depender de regulação externa – de medicação, de drogas como o álcool, de
apoio constante ou de obediência compulsiva aos desejos alheios.
Muitos de meus pacientes respondem ao estresse não ao identi cá-lo e
nomeá-lo, mas desenvolvendo enxaquecas ou ataques de asma. 15 Sandy,
uma enfermeira de meia-idade, contou que, quando criança, se sentia
aterrorizada, solitária e invisível para seus pais alcoólatras. Lidava com essa
invisibilidade mostrando deferência para com todas as pessoas de quem
dependia (inclusive eu, seu terapeuta). Sempre que o marido fazia um
comentário depreciativo sobre ela, sofria um ataque de asma. Quando
notava que não conseguia mais respirar, era tarde demais para que o
inalador zesse efeito e ela precisava ser levada ao pronto-socorro.
Reprimir nossos pedidos de socorro interiores não impede que os
hormônios do estresse mobilizem o corpo. Embora Sandy tivesse aprendido
a ignorar seus problemas de relacionamento e a bloquear os sinais físicos de
sofrimento, eles apareciam em sintomas que exigiam sua atenção. A terapia
se concentrou em identi car o elo entre suas sensações físicas e suas
emoções, e eu também lhe recomendei fazer aulas de kickboxing. Durante os
três anos em que foi minha paciente, ela não foi uma única vez ao pronto-
socorro.
Sintomas somáticos sem causa física clara são mais do que comuns em
crianças e adultos traumatizados. Entre eles contam-se dor crônica nas
costas e no pescoço, bromialgia, enxaqueca, problemas gastrointestinais,
síndrome do cólon irritável, fadiga crônica e algumas formas de asma.16 O
índice de asma em crianças traumatizadas é cinquenta vezes maior do que
entre as não traumatizadas.17 De acordo com estudos, muitas crianças e
adultos vitimados por crises fatais de asma não sabiam que tinham
problemas respiratórios antes das crises.
ALEXITIMIA: AUSÊNCIA DE PALAVRAS PARA SENSAÇÕES
Uma de minhas tias, viúva, com um doloroso histórico de trauma, tornou-se
avó honorária de meus lhos. Fazia-nos visitas frequentes, marcadas por
muitas atividades – costurava cortinas, organizava armários da cozinha,
consertava roupas das crianças – e pouquíssima conversa. Estava sempre
querendo agradar, mas era difícil perceber do que ela gostava. Depois de
vários dias de troca de amenidades, a conversa chegava ao m, e eu
precisava me esforçar para preencher os longos silêncios. No dia de sua
partida, eu a levava ao aeroporto e ela me dava um abraço de despedida bem
rígido, e lágrimas rolavam por seu rosto. Sem qualquer traço de ironia, ela
dizia que o vento frio no Aeroporto Internacional Logan fazia seus olhos
marejarem. Seu corpo sentia a tristeza que a mente não conseguia registrar –
ela estava deixando nossa jovem família, seus parentes vivos mais próximos.
Os psiquiatras batizaram esse fenômeno de alexitimia, termo que
designa a falta de palavras referentes a sentimentos. Muitas crianças e
adultos traumatizados não têm como descrever o que sentem simplesmente porque não conseguem identi car o signi cado de suas sensações físicas.
Podem demonstrar fúria, mas a negam; podem demonstrar terror, mas
a rmam que estão bem. A incapacidade de discernir o que acontece no
corpo faz com que percam o contato com suas necessidades, e, para eles, é
difícil cuidar de si mesmos, assim como comer a quantidade certa de
alimento na hora correta ou conciliar o sono de que necessitam.
Tal como minha tia, os alexitímicos substituem a linguagem da emoção
pela da ação. À pergunta “O que você sentiria se visse uma jamanta
avançando na sua direção a 130 quilômetros por hora?”, a maioria das
pessoas responderia “Eu caria assustado” ou “Morreria de medo”. Um
alexitímico diz: “O que eu sentiria? Não sei… Eu sairia da frente”. 18 Esses
indivíduos costumam registrar emoções como problemas físicos, não como
sinais de alguma coisa que merece sua atenção. Em vez de sentir raiva ou
tristeza, sentem dores musculares, distúrbios intestinais ou outros sintomas
para os quais não há motivos. Cerca de três quartos dos pacientes com
anorexia nervosa e mais de metade dos pacientes com bulimia cam
desnorteados com suas sensações emocionais e têm muita di culdade para
descrevê-las.19 Quando pesquisadores exibiram fotos de rostos coléricos ou
atormentados a alexitímicos, eles não foram capazes de avaliar o que aquelas
pessoas estavam sentindo.20
Uma das primeiras pessoas a me falar de alexitimia foi o psiquiatra
Henry Krystal, que trabalhou com mais de mil sobreviventes do Holocausto
em seu estudo sobre o trauma psíquico em massa. 21 Krystal, ele próprio
sobrevivente de campos de concentração, constatou que muitos de seus
pacientes eram pro ssionais bem-sucedidos, mas seus relacionamentos mais
próximos eram frios e distantes. Reprimir os sentimentos lhes permitira
cuidar de suas atividades mundanas, ao preço de aprender a bloquear suas
emoções antes avassaladoras. Consequentemente, não entendiam mais o que
sentiam. Poucos tinham interesse por terapia.
Paul Frewen, da Universidade Western Ontario, fez uma série de
tomogra as cerebrais em pessoas com TEPT que sofriam de alexitimia. Uma
paciente lhe disse:
Não sei o que sinto, é como se minha cabeça e meu corpo não
estivessem ligados. Vivo num túnel, num nevoeiro, e, não importa o
que aconteça, a reação é sempre a mesma – torpor, nada. Tomar um
banho de espuma, ser queimada ou estuprada dá no mesmo. Meu
cérebro não sente.
Frewen e sua colega Ruth Lanius veri caram que, quanto mais as
pessoas estavam desconectadas de suas sensações, menos atividade havia
nas áreas de autopercepção do cérebro.22
Traumatizados costumam ter di culdade para perceber o que se passa
em seu corpo; por isso, a reação deles à frustração não tem nuances. Em
geral, reagem ao estresse de duas formas: ou se “desligando” ou com fúria
desmedida. Não importa a reação, muitas vezes eles não sabem dizer o que
os a ige. A incapacidade de manter contato com o corpo contribui para sua
bem documentada falta de autoproteção e seus elevados índices de
revitimização, 23 assim como para a enorme di culdade em sentir prazer,
grati cação sensual e ter uma sensação de importância.
Alexitímicos só conseguem melhorar aprendendo a reconhecer a relação
entre as sensações físicas e as emoções, mais ou menos da mesma maneira
que os daltônicos penetram no mundo da cor aprendendo a distinguir e
apreciar tonalidades de cinza. Como minha tia e os pacientes de Henry
Krystal, em geral eles relutam em fazer isso: a maioria parece ter tomado a
decisão inconsciente de que continuar a ver médicos e tratar de doenças que
não passam é melhor do que o esforço doloroso de enfrentar os demônios
do passado.
DESPERSONALIZAÇÃO
O próximo degrau descendente na escada que leva à perda da identidade
pessoal é a despersonalização – perder a percepção de si mesmo. A
tomogra a do cérebro de Ute (capítulo 4) traz, com seus vazios, uma
ilustração clara da despersonalização. Certa vez, tarde da noite, fui assaltado
num parque perto de casa e, como se estivesse utuando sobre a cena, me vi
jogado na neve, com uma pequena ferida na cabeça, cercado por três
adolescentes armados de facas. Dissociei a dor dos cortes que eles zeram em minhas mãos e não senti medo enquanto negociava com toda a calma a
devolução de minha carteira vazia.
Acredito que não me tornei uma vítima de TEPT em parte porque estava
bastante curioso quanto a vivenciar uma experiência que havia estudado tão
detidamente em outras pessoas, em parte porque tinha a ilusão de que seria
capaz de fazer um retrato falado dos assaltantes para mostrar à polícia. É
claro que eles nunca foram pegos, mas minha fantasia de vingança deve ter
me proporcionado uma grati cante sensação de agência.
As vítimas de traumas não têm a mesma sorte, sentem-se separadas de
seus corpos. Uma excelente descrição da despersonalização foi feita pelo
psicanalista alemão Paul Schilder, que escreveu em Berlim, em 1928: 24
Para a pessoa despersonalizada, o mundo parece estranho, peculiar,
exótico, onírico. Os objetos às vezes parecem ter-se encolhido de
maneira estranha, às vezes parecem planos. Os sons parecem vir de
longe […]. Da mesma forma, as emoções sofrem acentuada
alteração. Os pacientes se queixam de não sentir nem dor nem
prazer […]. Tornaram-se estranhos para si mesmos.
Fiquei impressionado quando soube que neurocientistas da
Universidade de Genebra25 haviam induzido sensações semelhantes à
experiência de estar fora do corpo aplicando fracas correntes elétricas num
ponto especí co do cérebro, a junção têmporo-parietal. Em uma paciente,
tal corrente produziu a sensação de que ela pendia do teto e olhava para seu
corpo; em outra, induziu uma estranha sensação de que havia alguém de pé
atrás dela. Essa pesquisa con rma o que nossos pacientes nos dizem: que o
self pode se desligar do corpo e levar uma vida – como um espírito –
própria. Lanius e Frewen, bem como pesquisadores da Universidade de
Groningen, nos Países Baixos,26 zeram tomogra as de pessoas que tinham
dissociado seu terror e descobriram que os centros cerebrais do medo
simplesmente se desligavam quando elas recordavam o evento.
SEJA AMIGO DE SEU CORPO
Traumatizados só podem se recuperar depois que se familiarizam com as
sensações em seu corpo e as tratam bem. Estar assustado signi ca viver num
corpo sempre em guarda. Indivíduos raivosos vivem num corpo raivoso. O
corpo de crianças que sofreram abusos está sempre tenso e na defensiva até
elas encontrarem um meio de relaxar e se sentirem seguras. Para mudar, as
pessoas precisam tomar consciência de suas sensações e da maneira como o
próprio corpo interage com o mundo que as rodeia. A autoconsciência física
é o primeiro passo para se libertar da tirania do passado.
Como as pessoas podem se abrir e explorar seu mundo interno de
sensações e emoções? No consultório, começo o processo aconselhando os
pacientes a anotar e, depois, relatar as sensações do corpo – não emoções
como cólera, ansiedade ou medo, mas as sensações físicas sob as emoções:
pressão, calor, tensão muscular, formigamento, um vazio e assim por diante.
Peço também que identi quem sensações associadas ao relaxamento ou ao
prazer, ou que prestem atenção em mudanças físicas sutis, como um aperto
no peito ou um incômodo na barriga quando falam sobre fatos negativos
que, segundo eles, não os incomodavam.
Dar-se conta de sensações pela primeira vez pode ser bastante a itivo e
precipitar ashbacks nos quais as pessoas se curvam ou mostram posturas
defensivas. Essas posições do corpo são reencenações somáticas do trauma
não digerido, e é muito provável que representem as posturas que elas
tomaram quando ocorreu o episódio. Nesse ponto, imagens e sensações
físicas podem dominar os pacientes, e o terapeuta deve conhecer bem os
meios de deter torrentes de sensações e emoções para impedir que eles
passem por um novo trauma quando revivem o passado. (Muitos
professores de ensino fundamental, enfermeiros e policiais se tornam muito
hábeis em acalmar reações de terror, pois lidam quase todos os dias com
pessoas descontroladas ou dolorosamente desorientadas.)
Com enorme frequência, entretanto, os médicos prescrevem remédios
como Abilify, Zyprexa e Seroquel, em vez de ensinar a enfrentar essas
reações físicas penosas. É claro que a medicação apenas embota as sensações
e em nada contribui para resolvê-las ou transformá-las em aliadas.
O caminho mais natural que os seres humanos buscam para se acalmar
quando estão perturbados é procurar amparo em outra pessoa. No entanto,
isso leva pacientes que foram brutalizados ou sexualmente abusados a
enfrentarem um dilema: ao mesmo tempo que anseiam desesperadamente o apoio humano, aterrorizam-se com a perspectiva de contato físico. A mente
precisa ser reeducada para perceber sensações físicas, enquanto o corpo tem
de ser ajudado a tolerar e apreciar o aconchego do contato. Pessoas que
carecem de percepção emocional podem, com a prática, relacionar suas
sensações físicas a eventos psicológicos. Pouco a pouco, conseguem religar-
se a si mesmas. 27
LIGAR-SE A SI MESMO E AOS OUTROS
Encerro o capítulo com um estudo nal que demonstra o custo da perda do
corpo. Depois que Ruth Lanius e seu grupo escanearam o cérebro em ponto
morto, concentraram-se em outra questão da vida cotidiana: o que ocorre
com vítimas crônicas de trauma quando fazem contato visual?
Muitos de meus pacientes são incapazes de fazer contato visual. Percebo
de imediato a gravidade de seus problemas pela di culdade que
demonstram para olhar em meus olhos. No m das contas, eles têm nojo e
não suportam que eu veja como são horríveis. Nunca tinha me ocorrido que
esses sentimentos de vergonha se traduziriam em ativações anormais do
cérebro. Ruth Lanius mais uma vez mostrou que a mente e o cérebro são
indistinguíveis – o que acontece em um ca registrado no outro.
Lanius comprou um dispendioso instrumento com o qual apresenta um
personagem em vídeo a uma pessoa que se submete a uma tomogra a
(nesse caso, o personagem lembrava um amável Richard Gere). O
personagem pode se aproximar de frente (olhando direto para a pessoa) ou
num ângulo de 45 graus, olhando de lado. Tal disposição permitia comparar
os efeitos de um contato visual direto com os de um olhar lateral sobre a
ativação do cérebro.28
A diferença mais acentuada entre sujeitos “normais” de um grupo de
controle e indivíduos com trauma crônico estava na ativação do córtex pré-
frontal (CPF) em resposta a um olhar direto. O CPF, em geral, nos ajuda a
avaliar a pessoa que caminha em nossa direção, e nossos neurônios-espelhos
auxiliam na percepção de suas intenções. No entanto, no caso dos pacientes
com TEPT do experimento, nenhuma parte do lobo frontal foi ativada, o que
signi ca que eles não sentiam curiosidade alguma em relação ao estranho. Só exibiam intensa ativação na profundeza dos cérebros emocionais, as áreas
primitivas chamadas de substância cinzenta periaquedutal, que geram
sobressalto, hipervigilância, a postura de se encolher de medo e outras
condutas autoprotetoras. Não havia ativação alguma em qualquer parte do
cérebro envolvida em relações sociais. Quando eram olhados, simplesmente
entravam no modo de sobrevivência.
O que signi ca isso no tocante à capacidade desses indivíduos para fazer
amigos e lidar com pessoas? O que isso signi ca para a terapia desses
pacientes? Uma vítima de TEPT pode con ar ao terapeuta seus medos mais
profundos? Num relacionamento autêntico, devemos ser capazes de ver o
outro como alguém separado, com as próprias motivações e intenções.
Embora precisemos assumir uma posição clara e rme, também precisamos
reconhecer que as outras pessoas têm as próprias ideias. O trauma pode
tornar tudo isso brumoso e cinzento.
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