O corpo guarda as marcas

Bessel van der Kolk · Capítulo 10 de 28

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O corpo guarda as marcas

9. O que o amor tem a ver com isso?

9

 

O QUE O AMOR TEM A VER

 

COM ISSO?

 

A iniciação, a intimidação, a estigmatização, o isolamento, o

desamparo e a autorrecriminação se baseiam numa terrível realidade

de abuso sexual infantil […]. “Não pense nessas coisas; isso nunca

aconteceria em nossa família.” “Como é que você pode pensar uma

coisa tão horrível?” “Nunca mais me venha com uma história dessas

de novo!” Normalmente a criança nunca pergunta e nunca conta.

 

Roland Summit, The Child Sexual Abuse Accomodation Syndrome

 

C omo organizamos nossas ideias em relação a pessoas como Marilyn, Mary e Kathy? O que podemos fazer para ajudá-las? A maneira como de nimos seus problemas – nossos diagnósticos – vão determinar a

abordagem da terapia. Em geral, esses pacientes recebem cinco ou seis

diagnósticos diferentes no decorrer do tratamento. Se o médico se

concentrar em suas oscilações de humor, serão vistos como bipolares e

receberão uma prescrição de lítio ou valproato. Se o desespero deles

impressionar demais o pro ssional, ele lhes dirá que estão sofrendo de

depressão grave e lhes administrará antidepressivos. Se o médico atentar

sobretudo para a agitação e a falta de atenção que manifestam, eles poderão

ouvir um diagnóstico de TDAH e ser tratados com Ritalina ou outros psicoestimulantes. E se o paciente der informações relevantes e o médico

escutar uma história de trauma, poderá receber um diagnóstico de TEPT.

Nenhum desses diagnósticos estará de todo equivocado e nenhum de nirá

com clareza quem são esses pacientes e qual é o mal de que padecem.

A psiquiatria, como especialidade da medicina, pretende de nir a

doença mental com a mesma exatidão com que outras áreas de nem o

câncer de pâncreas ou a infecção pulmonar por estreptococos. No entanto,

em vista da complexidade da mente, do cérebro e dos sistemas humanos de

apego, não chegamos nem perto de alcançar esse grau de precisão. Hoje em

dia, compreender o que está “errado” com as pessoas é mais uma questão da

atitude mental do médico (e das despesas que os planos de saúde se dispõem

a reembolsar) do que de fatos objetivos e veri cáveis.

A primeira tentativa séria de criar um manual sistemático de

diagnósticos psiquiátricos data de 1980, com a publicação da terceira edição

do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-), a lista

o cial de todas as doenças mentais reconhecidas pela Associação

Psiquiátrica Americana (APA). O preâmbulo do DSM- advertia de modo

explícito que as classi cações não tinham precisão su ciente para ser usadas

em causas judiciais ou para discussão sobre plano de saúde. Não obstante,

aos poucos ele se tornou um instrumento de poder colossal: para ns de

reembolso de despesas médicas, os planos de saúde exigem um diagnóstico

com base no DSM; até pouco tempo atrás, todos os nanciamentos de

pesquisas se baseavam em diagnósticos homologados pelo DSM; programas

acadêmicos eram planejados em torno das categorias do DSM. Além disso,

os rótulos do DSM logo chegaram à cultura popular: milhões de pessoas

sabem que Tony Soprano sofria ataques de pânico e crises de depressão, e

que Carrie Mathison, da série Homeland, luta contra o transtorno bipolar. O

manual se transformou numa indústria virtual que já rendeu à APA mais de

100 milhões de dólares.1 Será que proporcionou aos pacientes benefícios

comparáveis?

Um diagnóstico psiquiátrico tem consequências bastante sérias: ele

determina o tratamento, e o tratamento errado pode ter efeitos desastrosos.

E mais: os diagnósticos quase sempre cam colados às pessoas para o resto

da vida e têm in uência profunda na forma como elas próprias se de nem.

Muitos pacientes já me disseram que “são” bipolares, que “têm” transtorno de personalidade limítrofe (borderline) ou que “têm” TEPT, como se

estivessem condenados a permanecer numa masmorra pelo resto da vida,

como o conde de Monte Cristo.

Nenhum desses diagnósticos leva em conta os talentos que muitos deles

desenvolvem ou a energia criativa que mobilizaram para sobreviver. Os

diagnósticos não passam de listas de sintomas, o que faz pacientes como

Marilyn, Kathy e Mary serem consideradas mulheres descontroladas, que

precisam de ajustes.

O dicionário de ne diagnóstico como “1. Ato ou processo de identi car

ou determinar a natureza e a causa de uma afecção ou lesão por meio de

avaliação da história do paciente, de seu exame e da revisão de dados

laboratoriais. 2. A opinião derivada de tal avaliação”.2 Neste capítulo e

também no seguinte, vou analisar o abismo entre os diagnósticos o ciais e o

que nossos pacientes de fato sofrem, além de mostrar os recursos

empregados por mim e meus colegas para modi car a maneira de chegar ao

diagnóstico de pacientes com histórico de trauma crônico.

 

A COMPILAÇÃO DE UM HISTÓRICO DE TRAUMA

 

Em 1985, comecei a colaborar com a psiquiatra Judith Herman, que

publicara pouco antes seu primeiro livro, Father-Daughter Incest (Incesto

entre pai e lha). Nós trabalhávamos no Hospital de Cambridge, um dos

hospitais universitários de Harvard, e, interessados em veri car como o

trauma afeta a vida das pessoas, passamos a nos encontrar com regularidade

e a comparar anotações. Ficamos impressionados com o número de

pacientes que, com um diagnóstico de transtorno de personalidade limítrofe

(TPL), nos contavam histórias horrendas sobre a infância. O TPL se

caracteriza por medo de abandono, mas também por relacionamentos muito

instáveis, oscilações extremas de humor e comportamento autodestrutivo, o

que inclui automutilação e tentativas de suicídio. Com o intuito de

determinar se havia, de fato, uma relação entre trauma de infância e TPL,

planejamos um estudo cientí co formal e submetemos uma proposta de

nanciamento aos Institutos Nacionais de Saúde. Nossa proposta foi

rejeitada.

Judy e eu decidimos então nanciar nós mesmos o estudo, e achamos

um aliado em Chris Perry, diretor de pesquisas do Hospital de Cambridge.

Perry tinha um nanciamento do NIMH para estudar o TPL e correlatos, os

chamados transtornos de personalidade, em pacientes recrutados no

Hospital de Cambridge. Ele havia reunido volumes de dados valiosos sobre

esses temas, mas nunca investigara abusos e negligência na infância. Embora

cético quanto à nossa ideia, foi muito generoso e nos permitiu entrevistar 55

pacientes externos do hospital, autorizando-nos a comparar nossas

conclusões com os registros do enorme banco de dados que reunira.

A primeira pergunta que Judy e eu enfrentamos foi: como se compila um

histórico de trauma? Não se pode perguntar a um paciente, à queima-roupa:

“Você sofreu abuso sexual quando criança?” ou “Seu pai espancava você?”.

Quantas pessoas se disporiam a con ar a um estranho informações tão

delicadas? Tendo em mente que todo mundo tem vergonha dos traumas que

sofreu, formulamos um instrumento de entrevista, o Questionário de

Antecedentes Traumáticos ( 3 QAT ). A entrevista começava com uma série de

perguntas simples: “Onde você mora e com quem?”, “Quem paga as contas e

quem cozinha e limpa a casa?”. Aos poucos, as perguntas se tornavam mais

reveladoras: “Quem o ajuda na vida diária? Por exemplo, quando você está

doente, quem faz as compras ou leva você ao médico?”, “Com quem você

conversa quando se aborrece? Em outras palavras, quem lhe proporciona

apoio emocional e prático?”. Alguns pacientes davam respostas

surpreendentes: “Meu cachorro”, “Meu terapeuta” ou “Ninguém”.

Seguiam-se perguntas semelhantes a respeito da infância: “Quem

morava na mesma casa que você?”, “Com que frequência vocês se

mudavam?”, “Quem era o principal responsável por você?”. Muitos falavam

de mudanças frequentes, que exigiam trocar de escola no meio do ano.

Vários tiveram ex-presidiários, ex-pacientes de hospitais psiquiátricos ou ex-

militares como cuidadores principais. Outros passavam de um lar de

acolhimento para outro ou haviam morado com uma série de parentes

diferentes.

A seção seguinte abordava os relacionamentos na infância: “Em sua

família, quem demonstrava carinho por você?”, “Quem tratava você como

uma pessoa especial?”. Vinha então uma pergunta crítica, a qual, penso,

nunca havia sido proposta num estudo cientí co: “Havia alguém com quem você se sentia em segurança na infância?” Um em cada quatro entrevistados

não se lembrava de ninguém com quem se sentisse em segurança.

Registrávamos a resposta “ninguém” em nossas planilhas e não

comentávamos nada, mas cávamos atônitos. Imagine ser criança e não

dispor de nenhuma fonte de segurança, abrindo caminho no mundo, sem

proteção e invisível.

As perguntas continuavam: “Quem ditava regras e impunha disciplina

em casa?”, “Como as crianças eram mantidas na linha: mediante conversa,

repreensões, surras, agressões ou outros castigos?”, “Como seus pais

resolviam as discórdias?”. A essa altura, em geral as comportas já estavam

abertas, e muitos pacientes forneciam informações sobre a infância, com

detalhes. Uma mulher tinha visto a irmã menor ser estuprada; outra nos

contou que tivera a primeira experiência sexual aos 8 anos – com o avô.

Homens e mulheres falavam de não dormir à noite, ouvindo a gritaria e a

quebradeira de móveis promovida pelos pais; um rapaz, ao descer à cozinha,

encontrara a mãe jogada numa poça de sangue. Outros contavam ter sido

esquecidos na escola ou terem passado a noite sozinhos, pois ao voltarem

para casa encontraram-na vazia. Uma mulher que ganhava a vida como

cozinheira aprendera a preparar as refeições da família depois que a mãe foi

para a cadeia, condenada por trá co de drogas. Outra tinha 9 anos quando

agarrou o volante do carro numa ocasião em que a mãe, embriagada,

ziguezagueava numa rodovia de quatro pistas na hora do rush.

Nossos pacientes não haviam tido a opção de sair de casa ou fugir; não

tinham ninguém a quem recorrer, nem onde se esconder. No entanto,

precisavam administrar de alguma forma o terror e o desespero. É provável

que fossem para a escola na manhã seguinte, ngindo que estava tudo bem.

Judy e eu percebemos que os problemas do grupo de TPL – dissociação,

dependência desesperada de qualquer pessoa que pudesse ser convocada a

ajudar – haviam provavelmente começado como meios de lidar com

emoções avassaladoras e uma brutalidade inescapável.

Feitas as entrevistas, nós nos reuníamos para codi car as respostas – ou

seja, traduzi-las em números para análise computacional –, e Chris Perry

depois as cotejava com as amplas informações sobre os entrevistados

armazenadas no computador de Harvard. Certa manhã de abril, um sábado,

Chris nos enviou uma mensagem pedindo que passássemos em seu

escritório. Encontramos muitas folhas impressas, sobre as quais Chris pusera uma charge de Gary Larson: cientistas pesquisavam gol nhos e

estavam intrigados com “sons estranhos, parecidos com ‘a bla es span iol’,

emitidos pelos animais”. Os dados o haviam convencido de que, a menos

que entendêssemos a linguagem do trauma e do abuso, não poderíamos de

fato entender o TPL.

Como mais tarde relatamos num artigo no American Journal of

Psychiatry, 81% dos pacientes do Hospital de Cambridge com diagnóstico de

TPL narraram histórias de abuso sexual ou negligência na infância; na grande

maioria desses casos, os maus-tratos começaram antes dos 7 anos. 4 Esse

dado revestiu-se de especial importância, por dar a entender que o impacto

do abuso depende, ao menos em parte, da idade em que inicia. Pesquisas

posteriores de Martin Teicher, no Hospital McLean, mostraram que

diferentes formas de abuso exercem impactos diferentes em várias áreas

cerebrais em distintos estágios do desenvolvimento. 5 Embora diversos

estudos tenham, desde então, corroborado nossas conclusões, 6 ainda hoje

recebo para revisão, em geral, artigos cientí cos que a rmam coisas como

“já se aventou a hipótese de que pacientes com transtornos de personalidade

limítrofe possam ter um histórico de trauma infantil”. Quando é que uma

hipótese se transforma num fato cienti camente comprovado?

Nosso estudo corroborou claramente as conclusões de John Bowlby.

 

Se uma criança está sempre zangada, se sente culpada ou vive

assustada com a possibilidade de abandono, ela realmente teve essas

sensações, ou seja, experimentou-as. Por exemplo, se uma criança

teme ser abandonada, isso não se dá em contrarreação a impulsos

homicidas intrínsecos; é provável que derive do fato de ela já ter sido

abandonada física ou psicologicamente, ou de ter sido várias vezes

ameaçada de abandono. Quando crianças mostram raiva constante,

esse sentimento se deve a rejeição ou tratamento hostil. Se

experimentam intenso con ito interno em relação a seus

sentimentos de fúria, é provável que isso aconteça porque expressá-

los pode ser proibido ou até perigoso.

 

Bowlby observou que, quando crianças precisam renegar experiências

fortes pelas quais passaram, desenvolvem problemas graves, como “descon ança crônica em relação a outras pessoas, inibição da curiosidade,

suspeita quanto aos próprios sentidos e tendência a considerar tudo irreal”. 7

Como se verá, essa negação traz implicações relevantes para o tratamento.

O estudo conduziu nossas re exões para além do impacto deste ou

daquele evento horrendo – o foco do diagnóstico de TEPT –, levando-nos a

examinar os efeitos a longo prazo da brutalização e da negligência nos

relacionamentos entre cuidadores e crianças. E também suscitou outra

pergunta fundamental: Quais são as terapias e cazes para pessoas com

histórico de abuso, em especial aquelas com ideias suicidas crônicas e que se

mutilam deliberadamente?

 

AUTOMUTILAÇÃO

 

Quando eu era estudante de medicina, durante três noites consecutivas fui

tirado da cama às três horas da manhã para suturar uma mulher que cortava

seu pescoço com qualquer objeto a ado que encontrasse. Ela me disse, com

certo ar de triunfo, que se machucar fazia com que se sentisse muito melhor.

Desde então tenho me perguntado por que algumas pessoas combatem a

contrariedade jogando três sets de tênis ou preparando para si um martíni

bem forte, enquanto outras retalham os braços com giletes. Nosso estudo

demonstrou que um histórico de abuso sexual e maus-tratos na infância era

um forte indicador da probabilidade de repetidas tentativas de suicídio e

automutilação.8 Eu me perguntava se as ideias suicidas dessas pessoas

teriam surgido quando elas ainda eram muito pequenas e se elas

encontravam consolo em planejar uma fuga através da morte ou se ferindo.

Por acaso se ferir começa como uma tentativa desesperada de obter alguma

sensação de controle?

O banco de dados de Chris Perry continha dados sobre todos os

pacientes que haviam sido tratados nas clínicas ambulatoriais do hospital, o

que incluía relatórios sobre impulsos suicidas e conduta autodestrutiva. O

que me interessava agora era saber quais membros do grupo haviam se

bene ciado da terapia e quais mantiveram a conduta suicida e

autodestrutiva. A comparação do comportamento atual dos pacientes com

nossas entrevistas baseadas no QAT ofereceu algumas respostas. Pacientes que continuavam autodestrutivos relataram não se lembrar de se sentir em

segurança com alguém na infância; haviam sido abandonados, transferidos

de um lugar para outro e, de modo geral, deixados entregues à própria sorte.

Concluí que se uma pessoa traz consigo a lembrança de ter se sentido

em segurança com alguém há muito tempo, na vida adulta os vestígios

daquele antigo afeto podem ser reativados em relacionamentos

sintonizados, quer ocorram na vida diária, quer numa boa terapia. Contudo,

se a pessoa não tem uma recordação nítida de se sentir amada e em

segurança, os receptores cerebrais que reagem à bondade humana podem

simplesmente não se desenvolver. 9 Nesse caso, como ela poderá aprender a

se acalmar e a se sentir rme em seu corpo? Isso também tem implicações

importantes para a terapia, e voltaremos a essa questão em toda a Parte V.

 

O PODER DO DIAGNÓSTICO

 

Nosso estudo também con rmou que havia um grupo de traumatizados

bastante diferente dos veteranos de guerra e das vítimas de acidentes, para

os quais o diagnóstico de TEPT fora criado. Pessoas como Marilyn e Kathy,

bem como os pacientes que Judy e eu havíamos estudado e as crianças da

clínica ambulatorial do CSMM (capítulo 7), não recordam necessariamente

seus traumas (um dos critérios para o diagnóstico de TEPT), ou pelo menos

não se preocupam com lembranças especí cas dos abusos que sofreram,

mas continuam a se comportar como se ainda estivessem em perigo. Vão de

um extremo a outro; têm di culdade para prestar atenção no que estão

fazendo e investem sem cessar contra si mesmas ou contra outras pessoas.

Até certo ponto, seus problemas são semelhantes aos dos veteranos, porém

são também bastante diferentes, pois o trauma de infância as impediu de

desenvolver algumas capacidades mentais que os militares adultos possuíam

antes dos episódios traumáticos.

Ao constatarmos isso, formamos um grupo para se reunir com Robert

Spitzer, que, depois de orientar a preparação do DSM-, vinha revisando o

manual.10 Spitzer ouviu com atenção o que lhe relatamos. Acreditava que,

por levarem o dia tratando de uma determinada população de pacientes,

médicos desenvolvam uma considerável capacidade de compreender os problemas que os a igem. Propôs que realizássemos um estudo, o chamado

teste de campo, para comparar os problemas de diferentes grupos de pessoas

traumatizadas11 e me encarregou de coordenar o projeto. Antes de mais

nada, criamos uma escala de classi cação que incorporava todos os

sintomas de trauma já mencionados em estudos cientí cos; depois,

entrevistamos 525 pacientes adultos, em cinco cidades do país, para

determinar se certas populações sofriam diferentes classes de problemas.

De nimos três grupos: pessoas com histórico de maus-tratos físicos ou

abuso sexual na infância; vítimas recentes de violência doméstica; e vítimas

de algum desastre natural recente.

Havia diferenças claras entre esses grupos, em particular entre os que se

situavam nos dois extremos do espectro: vítimas de abuso sexual na infância

e adultos sobreviventes de desastres naturais. Os que haviam sofrido abuso

sexual na infância tinham di culdade para se concentrar, queixavam-se de

nervosismo constante e viviam tomados de sentimentos negativos sobre si

mesmos. Apresentavam enorme di culdade para levar adiante

relacionamentos íntimos, oscilando entre envolvimentos sexuais

indiscriminados, de alto risco e insatisfatórios, e o total bloqueio sexual.

Também exibiam grandes lacunas de memória, entregavam-se a

comportamentos autodestrutivos e sofriam de uma série de problemas de

saúde. Esses sintomas eram relativamente raros nos sobreviventes de

desastres naturais.

Para cada diagnóstico importante do DSM havia um grupo de trabalho

incumbido de propor revisões na edição seguinte. Submeti os resultados do

teste de campo ao grupo que revia o TEPT para a próxima edição, e

aprovamos por 19 votos a 2 a criação de um novo diagnóstico para vítimas

de trauma interpessoal: “Transtornos de Estresse Extremo, não

Especi cados de Outra Forma” ou “ 12 13 TEPT Complexo”. , Passamos então a

aguardar, ansiosos, a publicação do DSM- em maio de 1994. Para nossa

surpresa, porém, o diagnóstico que nosso grupo de trabalho aprovara por

uma margem de votos tão ampla não constava do produto nal. Nenhum de

nós fora consultado.

Vimos o fato como uma trágica exclusão. Signi cava que muitos

pacientes não receberiam um diagnóstico correto e que médicos e

pesquisadores não teriam como criar terapias cienti camente adequadas para eles. Não se pode criar um tratamento para um distúrbio que não

existe. Não dispor de um diagnóstico leva os terapeutas a enfrentar um sério

dilema: como tratar pessoas que se confrontam com as consequências de

abuso, traição e abandono se somos obrigados a diagnosticar depressão,

transtorno de pânico, transtorno bipolar ou personalidade limítrofe, que na

realidade não são os problemas que elas estão enfrentando?

As consequências do abuso e da negligência dos cuidadores são muito

mais comuns e complexas do que o impacto de furacões ou acidentes de

carro. Contudo, as autoridades médicas responsáveis por determinar o

formato de nosso sistema de diagnósticos decidiram não reconhecer esse

fato óbvio. Até hoje, mais de vinte anos depois e com várias revisões feitas

desde então, o DSM e todo o sistema que nele se baseia ignoram as vítimas

de abuso infantil e de negligência – tal como ignoravam as atribulações dos

veteranos de guerra antes que o TEPT fosse reconhecido em 1980.

 

A EPIDEMIA OCULTA

 

De que forma um recém-nascido, com todas as suas in nitas e promissoras

capacidades, se transforma num bêbado sem-teto aos 30 anos? Como já

ocorreu em muitas descobertas importantes, foi por acidente que o clínico

Vincent Felitti se deparou com a resposta.

Em 1985, Felitti era chefe do Departamento de Medicina Preventiva do

plano de saúde Kaiser Permanente em San Diego, na época o maior

programa de triagem médica do mundo. Também dirigia uma clínica de

obesidade que utilizava uma técnica chamada “jejum absoluto

suplementado” para obter uma drástica perda de peso sem necessidade de

cirurgia. Um dia, uma auxiliar de enfermagem de 28 anos apareceu em seu

consultório. Felitti aceitou sua declaração de que a obesidade era seu

principal problema e a incluiu no programa. Durante as 51 semanas

seguintes, o peso dela caiu de 185 para 60 quilos.

Contudo, quando Felitti voltou a vê-la, meses depois, ela recuperara

mais peso do que ele considerava biologicamente possível em tão pouco

tempo. O que acontecera? Felitti soube então que a esbelteza recém-

adquirida da mulher atraíra a atenção de um colega de trabalho, que passara a namorá-la e lhe propusera fazer sexo. Ela foi para casa e começou a comer.

Entupia-se de comida de dia e continuava a comer em episódios de

sonambulismo à noite. Felitti decidiu investigar essa reação extrema, e ela

lhe revelou uma história de incesto com o avô.

Esse era apenas o segundo caso de incesto que Felitti registrara em 23

anos de clínica médica, mas dez dias depois ele ouviu uma história

semelhante. Felitti e sua equipe então zeram investigações e descobriram

que a maioria de suas pacientes de obesidade mórbida sofrera abuso sexual

na infância. Além de um sem- m de outros problemas familiares.

Em 1990, numa reunião da Associação Norte-Americana para o Estudo

da Obesidade, em Atlanta, Felitti apresentou dados colhidos nas primeiras

286 entrevistas de pacientes feitas por sua equipe e espantou-se com a

reação violenta de alguns especialistas. Por que ele acreditava nessas

mulheres? Não percebia que inventavam qualquer explicação para suas vidas

fracassadas? Um epidemiologista dos CDC, porém, incentivou-o a

empreender um estudo mais amplo, com base na população em geral, e o

convidou a se reunir com um pequeno grupo de pesquisadores naquela

instituição. O resultado foi o monumental inquérito de Experiências

Adversas na Infância (Adverse Childhood Experiences), conhecido como

ACE, uma colaboração entre os CDC e o Kaiser Permanente, representado

pelos médicos Robert Anda e Vincent Felitti.

Mais de 50 mil pacientes do Kaiser passavam pelo Departamento de

Medicina Preventiva a cada ano para uma avaliação detalhada, preenchendo

um extenso questionário médico. Felitti e Anda dedicaram mais de um ano

na formulação de dez novos quesitos 14 que cobriam categorias

cuidadosamente de nidas de experiências adversas na infância, entre as

quais abusos físicos e sexuais, negligência física e emocional e disfunção

familiar, como ter pais divorciados, com doenças mentais, toxicômanos ou

presos. Depois perguntaram a 25 mil pacientes se estavam dispostos a falar

de episódios da infância; 17.421 concordaram. Suas respostas foram então

comparadas com os pormenorizados prontuários médicos que o Kaiser

mantinha sobre todos os pacientes.

O estudo ACE revelou que as experiências traumáticas durante a infância

e a adolescência eram muito mais comuns do que se pensava. Os

entrevistados eram na maioria brancos de classe média, de meia-idade, instruídos e com condições nanceiras para pagar bons planos de saúde.

Apenas um terço deles relatou não ter vivido experiências adversas na

infância.

 

Uma entre dez pessoas respondeu a rmativamente à pergunta “Um dos

pais ou outro adulto na casa com frequência ou com muita frequência

o xingava, insultava ou humilhava?”.

Mais de um quarto respondeu a rmativamente às perguntas “Um de

seus pais com frequência ou com muita frequência o empurrava,

agarrava, esbofeteava ou atirava alguma coisa em você?” e “Um de seus

pais com frequência ou com muita frequência lhe batia com tanta força

que deixava marcas ou o feria?”. Em outras palavras, é provável que

mais de um quarto da população americana tenha sofrido maus-tratos

físicos na infância.

Às perguntas “Um adulto ou uma pessoa pelo menos cinco anos mais

velha que você algum dia tocou seu corpo com intenção sexual?” e

“Um adulto ou uma pessoa pelo menos cinco anos mais velha que você

algum dia tentou ter uma relação oral, anal ou vaginal com você?”, 28%

das mulheres e 16% dos homens responderam a rmativamente.

Uma entre oito pessoas respondeu a rmativamente às perguntas

“Quando criança, você viu alguém, às vezes, com frequência ou com

muita frequência, empurrar, agarrar, esbofetear sua mãe ou atirar

algum objeto nela?” e “Quando criança, às vezes, com frequência ou

com muita frequência, você viu sua mãe ser chutada, mordida,

esmurrada ou atingida com um objeto pontiagudo?”. 15

 

Cada resposta a rmativa valia um ponto, em uma escala que ia de zero a

dez. Por exemplo, uma pessoa que tivesse sido alvo de maus-tratos verbais

frequentes, tivesse mãe alcoólatra e pais divorciados teria três pontos na

pesquisa ACE. Entre os dois terços de entrevistados que relataram uma

experiência adversa, 87% caram com dois pontos ou mais. Uma pessoa

entre seis marcou quatro pontos ou mais.

Em suma, Felitti e sua equipe haviam constatado que experiências

adversas se inter-relacionam, embora quase sempre sejam estudadas

separadamente. Em geral, as pessoas não crescem numa casa em que um

irmão está na cadeia, mas de resto está tudo bem. Tampouco pertencem a famílias em que a mãe é espancada com frequência, mas fora isso a vida é

um mar de rosas. Os episódios de abuso nunca são isolados. E cada

experiência adversa adicional relatada aumenta o custo em danos

posteriores.

Felitti e sua equipe veri caram que os efeitos do trauma na infância

apareciam primeiro na escola. Mais de metade daqueles com um mínimo de

quatro pontos disseram ter problemas de aprendizado ou de

comportamento, em comparação com 3% daqueles com pontuação zero. Ao

crescer, as crianças não “deixavam para trás” os efeitos de suas primeiras

experiências. Como observa Felitti, “muitas vezes as experiências

traumáticas se perdem no tempo ou são encobertas por vergonha, segredo e

tabu social”, mas o estudo revelou que o impacto do trauma impregnava a

vida adulta. Veri cou-se, por exemplo, que pontuações elevadas no ACE

apontavam para mais faltas ao trabalho, problemas nanceiros e menos

conquistas ao longo da vida.

No tocante ao sofrimento pessoal, os resultados eram devastadores. À

medida que a pontuação no ACE crescia, a depressão crônica na vida adulta

também aumentava bastante. Nos que tinham quatro pontos ou mais de ACE,

o índice de depressão era de 66% entre as mulheres e 35% entre os homens,

em comparação com um índice geral de 12% nas pessoas sem pontuação

ACE. A probabilidade de uso de antidepressivos ou de analgésicos prescritos

também crescia de maneira proporcional. Como Felitti notou, é possível que

estejamos tratando hoje experiências que ocorreram há cinquenta anos, e a

um custo cada vez mais alto. Antidepressivos e analgésicos constituem uma

parcela substancial de nossos gastos nacionais cada vez maiores em

assistência médica. 16 (Por ironia, as pesquisas têm mostrado que pacientes

deprimidos sem história prévia de abuso ou negligência costumam

responder muito melhor aos antidepressivos do que pacientes com esses

antecedentes.)17

A con ssão dos entrevistados sobre tentativas de suicídio aumentou

exponencialmente conforme os pontos do ACE. Entre zero ponto e seis

pontos há um aumento de 5.000% na probabilidade de tentativas de suicídio.

Quanto mais só e desprotegido se sente um indivíduo, mais a morte lhe

parecerá a única saída. Se uma pesquisa informa que determinada questão

ambiental leva a um aumento de 30% na probabilidade de se contrair algum tipo de câncer, a notícia logo vira manchete, mas esses números, muito mais

assustadores, não despertam interesse.

Como parte da avaliação clínica inicial, perguntava-se aos participantes

do estudo: “Algum dia você já se considerou alcoólatra?” Pessoas com

quatro pontos de ACE tinham uma probabilidade sete vezes maior de serem

alcoólatras do que adultos com zero ponto. O uso de drogas injetáveis

crescia de maneira exponencial: entre os que tinham seis pontos ou mais, a

probabilidade do consumo de drogas intravenosas era 4.600% maior do que

no caso de pessoas com zero ponto.

As mulheres que participaram do estudo foram interrogadas a respeito

de estupro na vida adulta. Entre as que não tinham pontos na pesquisa ACE,

o índice de estupro foi de 5%; já entre as que tinham quatro pontos ou mais,

o número subiu para 33%. Por que meninas que sofreram abuso sexual ou

negligência têm muito mais probabilidade de serem vítimas de estupro na

vida adulta? As respostas a essa pergunta contêm implicações que vão muito

além do estupro. Vários estudos mostraram que meninas que

testemunharam violência doméstica na infância correm um risco bem maior

de terminar, elas próprias, em relacionamentos marcados pela violência. Já o

risco de que meninos que assistiram a cenas de violência doméstica venham

a maltratar suas parceiras é multiplicado por sete. 18 Mais de 12% dos

homens que participaram do estudo haviam visto a mãe sofrer violência.

A lista de comportamentos de alto risco previstos pela pontuação na

pesquisa ACE incluía tabagismo, obesidade, gravidez não intencional,

multiplicidade de parceiros sexuais e exposição a doenças sexualmente

transmissíveis. Por m, o custo dos problemas graves de saúde era

impressionante: pessoas que marcaram seis pontos ou mais tinham uma

probabilidade de 15% ou mais, na comparação com as que não pontuaram,

de estar sofrendo uma das dez principais causas de óbito nos Estados

Unidos, entre as quais doença pulmonar obstrutiva crônica, doença cardíaca

isquêmica e doença hepática. Entre elas, a probabilidade de ter câncer era

duas vezes maior, além de quatro vezes maior de sofrer de en sema. O

estresse físico permanente continua a cobrar seu preço.

 

PROBLEMAS QUE NA VERDADE SÃO SOLUÇÕES

Doze anos depois de tê-la tratado, Felitti voltou a ver a mulher cuja drástica

perda de peso e posterior recuperação deram origem à sua pesquisa. Ela lhe

disse que zera uma cirurgia bariátrica, mas que, após perder 43 quilos,

adquirira impulsos suicidas que a levaram a cinco hospitalizações em

instituições psiquiátricas e a três sessões de eletrochoques para controlá-los.

Felitti destaca que a obesidade, considerada um grave problema de saúde

pública, pode, de fato, ser vista como uma solução para muita gente.

Vejamos as implicações: se você encara a solução encontrada por alguém

como um problema a ser eliminado, é provável que essa pessoa não só deixe

de se tratar – o que tantas vezes acontece em programas de tratamento de

dependência de drogas –, como podem surgir outros problemas.

Uma mulher, vítima de estupro, disse a Felitti: “O sobrepeso torna a

pessoa invisível, e é isso que eu quero que aconteça comigo.”19 O peso

também protege os homens. Felitti lembra-se de dois carcereiros de uma

prisão estadual que participaram de seu programa de controle da obesidade.

Eles logo recuperaram o peso, pois se sentiam muito mais seguros sendo os

grandalhões do pavilhão. Outro paciente tornou-se obeso depois que os pais

se divorciaram e ele foi morar com o avô, um homem violento e alcoólatra.

“Não que eu comesse porque tinha fome, ou algo assim. Era só porque

comendo eu me sentia seguro. Desde o jardim de infância eu vivia

apanhando. Quando engordava, isso não acontecia”, explicou.

O grupo de estudos da pesquisa ACE concluiu:

 

É di cílimo abandonar essas adaptações [como tabagismo,

alcoolismo, dependência de drogas ou obesidade], embora, em geral,

elas sejam vistas como prejudiciais à saúde. Pouco se leva em

consideração o fato de muitos riscos à saúde a longo prazo

representarem um benefício no curto prazo. Nossos pacientes nos

falam repetidas vezes dos benefícios desses “riscos para a saúde”.

Embora compreensivelmente chocante para muitas pessoas, a ideia

de que o problema seja uma solução com certeza se harmoniza com

o fato de que forças opostas coexistem de modo rotineiro em

sistemas biológicos. […]. Aquilo que se vê, o problema em questão,

em geral, é apenas o sinal do problema real, que jaz soterrado no

tempo, escondido pela vergonha, pelo segredo e às vezes pela

amnésia do paciente – sem esquecer o frequente desconforto do

clínico.

 

ABUSO DE CRIANÇAS: O MAIOR PROBLEMA DE SAÚDE

PÚBLICA DOS ESTADOS UNIDOS

 

A primeira vez que Robert Anda apresentou os resultados do estudo ACE, ele

não conseguia conter as lágrimas. Em sua carreira nos CDC, Anda já atuara

em diversas áreas de risco, como pesquisas sobre tabagismo e saúde

cardiovascular. Contudo, quando os dados do estudo começaram a aparecer

na tela de seu computador, ele percebeu que os pesquisadores haviam

tropeçado no mais grave e dispendioso problema de saúde pública nos

Estados Unidos: o abuso infantil. Anda calculou que o custo geral do

problema superava o do câncer e o das doenças cardíacas, e que a

erradicação do abuso infantil no país reduziria em mais de metade o índice

geral de depressão, em dois terços o de alcoolismo e em três quartos os de

suicídio, de consumo de drogas injetáveis e de violência doméstica. 20 E teria

efeito substancial sobre a e ciência no trabalho, além de considerável

redução do número de presidiários.

Em 1964, a publicação do relatório do Serviço Público de Saúde dos

Estados Unidos sobre tabagismo e saúde desencadeou uma campanha

judicial e médica que durou décadas e mudou a rotina e as perspectivas de

saúde a longo prazo de milhões de americanos. O número de fumantes

adultos no país caiu de 42% em 1965 para 19% em 2010, e estima-se que

quase 800 mil mortes causadas por câncer de pulmão foram evitadas entre

1975 e 2000. 21

O estudo ACE, entretanto, não teve esse efeito. Pesquisas de seguimento e

teses complementares ainda estão surgindo, mas a realidade do dia a dia de

crianças como Marilyn e as atendidas em clínicas ambulatoriais e centros de

tratamento residenciais em todo o país permanece praticamente a mesma.

Só que agora elas recebem altas doses de psicotrópicos, o que as torna mais

tratáveis, mas também prejudica a capacidade delas de sentir prazer e

curiosidade, de crescer, de se desenvolver em termos emocionais e

intelectuais e de se tornarem membros úteis da sociedade.

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