O corpo guarda as marcas

Bessel van der Kolk · Capítulo 20 de 28

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O corpo guarda as marcas

19. Reconfiguração do cérebro: neurofeedback

19

 

RECONFIGURAÇÃO DO

 

CÉREBRO: NEUROFEEDBACK

 

Será verdade (ou sonhei?) que, mediante a eletricidade, o mundo da

matéria se tornou um imenso nervo, vibrando ao longo de milhares

de quilômetros num átimo imperceptível?

 

Nathaniel Hawthorne

 

A faculdade de trazer de volta, voluntária e repetidamente, uma

atenção errante é a verdadeira origem do discernimento, da

personalidade e da vontade.

 

William James

 

N o verão seguinte a meu primeiro ano de faculdade, trabalhei como assistente de pesquisa, em meio expediente, no laboratório de sono de Ernest Hartmann no Hospital Estadual de Boston. Além de preparar e

monitorar os participantes, analisava os eletroencefalogramas (EEGs). Os

pacientes chegavam ao anoitecer; eu prendia uma série de os no couro

cabeludo de cada um e outro conjunto de eletrodos ao redor dos olhos, para

registrar os movimentos oculares rápidos que ocorrem durante os sonhos.

Depois os conduzia a seus quartos, desejava boa-noite e ligava o polígrafo, uma máquina grande que registrava a atividade cerebral deles num rolo de

papel.

Mesmo que os pacientes dormissem profundamente, os neurônios

mantinham uma frenética comunicação interna, transmitida ao polígrafo a

noite toda. Enquanto isso, eu examinava os EEGs da véspera; de vez em

quando parava para acompanhar pelo rádio o placar dos jogos de beisebol e

para despertar os pacientes pelo interfone sempre que o polígrafo acusava

um ciclo de sono REM. Perguntava o que haviam sonhado e anotava tudo. De

manhã, ajudava-os a preencher um questionário sobre a qualidade do sono e

ia embora.

Aquelas noites serenas documentaram muitos fatos sobre o sono REM e

contribuíram para compilar as informações básicas a respeito dos processos

do sono, o que preparou o caminho para descobertas cruciais (capítulo 15).

Até pouco tempo atrás, porém, ainda não se concretizara a esperança de que

a eletroencefalogra a poderia nos ajudar a entender a atuação da atividade

elétrica cerebral em problemas psiquiátricos.

 

O MAPEAMENTO DOS CIRCUITOS ELÉTRICOS DO

CÉREBRO

 

Antes da revolução farmacológica, havia um amplo consenso com relação à

atividade cerebral ser determinada por sinais químicos e elétricos. Com a

farmacologia, o interesse pela eletro siologia do cérebro cou praticamente

obliterado por décadas.

O primeiro registro da atividade elétrica do cérebro foi obtido pelo

psiquiatra alemão Hans Berger, em 1924. Recebida com ceticismo e escárnio

pela comunidade médica, a nova tecnologia pouco a pouco se tornou um

instrumento indispensável para diagnosticar a atividade convulsiva em

pacientes com epilepsia. Berger descobriu que diferentes padrões de ondas

re etiam diferentes atividades mentais. (Por exemplo, tentar resolver um

problema de matemática gerava descargas numa frequência de rapidez

moderada, a faixa beta.) Ele esperava que um dia a ciência possibilitasse a

correlação de diferentes problemas psiquiátricos e irregularidades

especí cas no EEG. Essa expectativa ganhou força em 1938, com os primeiros comunicados sobre padrões de EEG em “crianças de comportamento

problemático”. 1 A maioria dessas crianças hiperativas e impulsivas

apresentava ondas mais lentas que o normal nos lobos frontais. Desde então,

esse resultado foi reproduzido inúmeras vezes, e, em 2013, a Food and Drug

Administration certi cou a atividade pré-frontal de onda lenta como um

biomarcador para o transtorno de dé cit de atenção com hiperatividade. A

atividade elétrica lenta no lobo frontal explica por que essas crianças

apresentam uma de ciência executiva: o cérebro racional não exerce um

controle correto sobre o cérebro emocional, o que também ocorre quando o

abuso e o trauma tornam o centro emocional sempre hiperalerta para perigo

e pronto para luta ou fuga.

No início de minha carreira, tive esperança de que a eletroencefalogra a

nos ajudasse a elaborar diagnósticos melhores, e, nos anos 1980 e 1990, pedi

EEG s a muitos pacientes a m de determinar se a instabilidade emocional

deles resultaria de anormalidades neurológicas. Em geral, os laudos

apontavam “Anormalidades não especí cas no lobo temporal”,2 o que me

dizia quase nada. Como naquele tempo a única forma de modi car

resultados ambíguos envolvia o uso de remédios que produziam mais efeitos

colaterais do que benefícios, desisti de submeter meus pacientes a EEGs

rotineiros.

Em 2000, um estudo de meu amigo Alexander McFarlane e colegas

(pesquisadores de Adelaide, na Austrália) reacendeu meu interesse, pois

documentava diferenças claras no processamento de informações entre

pacientes traumatizados e um grupo de australianos “normais”. Os

pesquisadores utilizaram um teste padronizado chamado “paradigma do

objeto estranho”, em que se pede aos pacientes para indicar o elemento que

não se ajusta a uma série de imagens correlacionadas (como uma corneta

num grupo de mesas e cadeiras). Nenhuma das imagens se relacionava a

trauma.

No grupo “normal”, partes importantes do cérebro atuaram juntas para

produzir um padrão coerente de ltragem, foco e análise. (Ver a imagem à

esquerda da página seguinte.) Já a coordenação das ondas cerebrais de

pacientes traumatizados era mais frouxa e elas não formavam um padrão

coerente. Especi camente, não geravam o padrão que ajuda as pessoas a

prestar atenção na tarefa em execução (a curva ascendente, chamada N200). E mais: a con guração de processamento de informações essenciais (o pico

descendente, P300) era mal de nida – a profundidade da onda determina a

qualidade da recepção e da análise de novos dados. Esses novos dados foram

importantes para estabelecer como as vítimas de trauma processam

informações não traumáticas, e tiveram implicações formidáveis para

entender o processamento das informações no dia a dia. Esses padrões de

ondas cerebrais poderiam explicar o motivo pelo qual vítimas de trauma

têm di culdade para aprender pela experiência e se envolver por completo

nas atividades cotidianas. As estruturas cerebrais dessas pessoas não estão

organizadas para focar no que está acontecendo no momento.

 

Pessoas normais versus vítimas de TEPT. Padrões de atenção. Milissegundos depois de receber informações, o cérebro começa a organizar o signi cado delas. Normalmente, todas as regiões do cérebro colaboram num padrão sincronizado (esquerda), mas no caso de pessoas com TEPT as ondas cerebrais não são tão bem coordenadas. É difícil para o cérebro ltrar informações irrelevantes e decidir o que fazer em relação ao estímulo.

 

O estudo de McFarlane me fez lembrar o que Pierre Janet dissera em

1889: “O estresse traumático é uma incapacidade de estar plenamente vivo

no presente.” Há alguns anos, quando vi o lme Guerra ao terror, de 2008,

que trata das experiências de soldados no Iraque, esse estudo me veio à

mente de imediato: enquanto enfrentavam situações de estresse extremo,

aqueles homens agiam com absoluta concentração; de volta à vida civil,

atordoavam-se diante de escolhas simples no supermercado. Vemos hoje

estatísticas alarmantes a respeito do número de veteranos de guerra que se

matriculam em cursos superiores, valendo-se da GI Bill (Lei dos Veteranos),

mas não se formam. (Algumas estimativas superam 80%.) Seus

comprovados problemas de foco e atenção decerto contribuem para esses

maus resultados.

Essa investigação não só elucidou um possível mecanismo para a falta de

foco e atenção nas vítimas de TEPT, como também trouxe um novo desa o:

haveria algum modo de modi car esses padrões de ondas cerebrais

disfuncionais? Sete anos se passaram antes que se descobrissem os meios de

se fazer isso.

Em 2007, conheci Sebern Fisher num congresso sobre crianças com

transtornos de apego. Ex-diretora clínica de um centro de tratamento

residencial para adolescentes com perturbações graves, ela me disse que

vinha usando neurofeedback com seus pacientes particulares havia cerca de

uma década. Mostrou-me desenhos de um menino de 10 anos que não

podia frequentar a escola por causa de seus acessos de fúria, problemas de

aprendizado e di culdades gerais na área de auto-organização.3

De figuras-palito a seres humanos bem definidos. Depois de quatro meses de neurofeedback, os desenhos que um menino de 10 anos fez de sua família mostram o equivalente a seis anos de desenvolvimento mental.

 

O primeiro desenho que ele fez da família, antes de iniciar o tratamento,

situava-se no nível de desenvolvimento de uma criança de 3 anos. Menos de

cinco semanas depois, após vinte sessões de neurofeedback, seus acessos de fúria tinham diminuído e o desenho mostrava uma acentuada melhora na

complexidade. Dez semanas e outras vinte sessões mais tarde, o terceiro

desenho mostrava um claro salto em complexidade, e o comportamento do

garoto se normalizara.

Eu nunca vira um tratamento capaz de produzir uma mudança tão

drástica e tão rápida na função mental. Por isso, quando ela se dispôs a me

fazer uma demonstração do neurofeedback, aceitei entusiasmado.

 

A SINFONIA DO CÉREBRO

 

Em seu consultório em Northampton, Massachusetts, Sebern me apresentou

seu equipamento de neurofeedback – dois computadores de mesa e um alto-

falante pequeno – e alguns dados que coletara. Prendeu um eletrodo em

cada lado de meu crânio e um terceiro em minha orelha direita. Logo, o

computador diante de mim exibia leiras de ondas cerebrais semelhantes às

que eu via no polígrafo do laboratório de sono três décadas antes. O laptop

de Sebern detectava, gravava e exibia a sinfonia elétrica de meu cérebro com

mais rapidez e precisão do que o equipamento de Hartmann, que devia ter

custado 1 milhão de dólares.

Sebern me explicou que o feedback (retorno) proporciona ao cérebro

um espelho de sua própria função: as oscilações e os ritmos gerados pelas

correntes e contracorrentes da mente. O neurofeedback induz o cérebro a

aumentar a produção de ondas de certas frequências e diminuir a de outras,

criando novos padrões que elevam sua complexidade natural e sua

tendência à autorregulação. 4 “Na realidade”, ela disse, “podemos estar

libertando, no cérebro, propriedades oscilatórias inatas mas emperradas, e

permitindo que outras sejam criadas.”

Ela então fez alguns ajustes no equipamento “para con gurar as

frequências de recompensa e inibição”, explicou, de modo que o feedback

reforçasse certos padrões de ondas cerebrais selecionados e tolhesse outros.

Agora eu estava vendo alguma coisa que lembrava um videogame com três

espaçonaves, cada uma de uma cor. O computador emitia sons irregulares, e

as naves se moviam de maneira aleatória. Descobri que, quando eu piscava,

as naves se imobilizavam; quando eu tava a tela com calma, elas se movimentavam juntas, acompanhadas de bipes regulares. Sebern propôs

que eu tentasse fazer a espaçonave verde tomar a dianteira. Inclinei o tronco

para a frente para me concentrar, mas, quanto mais esforço eu fazia, mais a

nave verde cava para trás. Ela sorriu e disse que eu obteria melhor

resultado se relaxasse e deixasse o cérebro receber o feedback que o

computador estava gerando. Recostei-me então na cadeira e logo os sons se

tornaram mais rmes e a espaçonave verde começou a passar à frente das

outras. Eu me sentia calmo e focado – e minha nave estava ganhando.

Em certo sentido, o neurofeedback nos lembra como reagimos ao rosto

do interlocutor. Se notamos sorrisos e sinais de assentimento, nós

percebemos que estamos agradando e continuamos a contar a história ou

expor nosso argumento. No momento em que o interlocutor se mostra

entediado ou desvia o olhar, começamos a abreviar o caso ou mudamos de

assunto. No neurofeedback, em vez de um sorriso, a recompensa é um som

ou um movimento na tela, e a inibição é muito mais neutra que um olhar de

desdém – é apenas um padrão indesejado.

Em seguida, minha instrutora revelou outro elemento do

neurofeedback: sua capacidade de rastrear circuitos em partes especí cas do

cérebro. Transferiu os eletrodos das têmporas para a fronte esquerda, e

comecei a me sentir atento e focado. Sebern disse que estava

recompensando ondas beta em meu córtex frontal, o que explicava minha

vigilância. Quando passou os eletrodos para o alto de minha cabeça, senti-

me mais distante das imagens na tela e mais consciente das sensações

corporais. Depois ela me mostrou um grá co que registrava as modi cações

em minhas ondas cerebrais à medida que eu experimentava mudanças sutis

em meu estado mental e nas sensações físicas.

Como o neurofeedback atuaria no tratamento do trauma? “Esperamos

poder intervir nos circuitos que promovem e mantêm estados de medo e

componentes de temor, vergonha e raiva; é o disparo repetitivo desses

circuitos que de ne o trauma”, ela me disse. Os pacientes precisam de ajuda

para mudar os padrões cerebrais criados pelo trauma e suas consequências.

Quando os padrões de medo relaxam, o cérebro se torna menos suscetível a

reações automáticas de estresse e mais capaz de se concentrar em fatos

comuns. A nal, o estresse não é uma propriedade inerente aos próprios

fatos – é função de como os rotulamos e reagimos a eles. O neurofeedback apenas estabiliza o cérebro e aumenta a resiliência, o que nos permite criar

mais opções de resposta.

 

O SURGIMENTO DO NEUROFEEDBACK

 

O neurofeedback não era uma tecnologia nova em 2007. Já no m da década

de 1950, estudando o fenômeno da percepção interna, Joe Kamiya, professor

de psicologia na Universidade de Chicago, descobrira que as pessoas

podiam aprender, por meio de feedback, a se dar conta de quando estavam

produzindo ondas alfa, associadas ao relaxamento. (Para alguns, bastavam

quatro dias para chegar a uma precisão de 100%.) Kamiya demonstrou

também que era possível entrar voluntariamente num estado alfa em

resposta a um simples sinal sonoro.

Em 1968, a revista de divulgação cientí ca Psychology Today publicou

um artigo sobre o trabalho de Kamiya, popularizando a ideia de que o treino

alfa aliviaria o estresse e seus estados correlatos. 5 A primeira pesquisa a

demonstrar que o neurofeedback teria efeito sobre condições patológicas foi

feita por Barry Sterman, na Universidade da Califórnia em Los Angeles. A

Nasa lhe pedira para estudar a toxicidade de um combustível para foguetes,

a monometil-hidrazina (MMH), que provocava alucinações, náusea e

convulsões. Antes disso, Sterman treinara gatos para produzir uma

frequência de EEG especí ca, conhecida como ritmo sensório-motor. (No

caso dos gatos, o estado vigilante e focado está associado à espera de

alimento.) O pesquisador descobriu que, enquanto os gatos comuns sofriam

convulsões depois de expostos à MMH, o mesmo não ocorria com os que

tinham recebido neurofeedback. De alguma forma, o treinamento

estabilizara o cérebro dos animais.

Em 1971, Sterman fez seu primeiro experimento num corpo humano, o

de Mary Fairbanks, de 23 anos, que sofria de epilepsia desde os 8, com duas

ou mais crises mensais. Recebendo treinamento duas vezes por semana,

durante uma hora, ao cabo de três meses, estava praticamente livre das

convulsões. Mais tarde, com um subsídio dos Institutos Nacionais de Saúde,

Sterman empreendeu um estudo mais sistemático, cujos resultados foram

publicados em 1974 na revista 6 Epilepsia .

Esse período de experimentação e de muito otimismo em relação ao

potencial da mente humana chegou ao m em meados da década de 1970,

com o lançamento no mercado de medicamentos psiquiátricos recém-

criados. A psiquiatria e a neurologia adotaram um modelo químico da

mente e do cérebro, e outras abordagens terapêuticas foram relegadas a

segundo plano.

Desde então, o interesse pelo neurofeedback tornou-se intermitente, e a

maior parte do trabalho cientí co tem sido feita em países da Europa, na

Rússia e na Austrália. Embora haja cerca de 10 mil pro ssionais de

neurofeedback nos Estados Unidos, a técnica não tem mobilizado os

recursos para pesquisa que a fariam ganhar ampla aceitação. Um dos

motivos para isso talvez seja a existência de muitos sistemas de

neurofeedback; outro é a limitação de suas possibilidades comerciais. Poucas

aplicações são cobertas pelos planos de saúde, o que torna o tratamento

dispendioso para os pacientes e impede que os pro ssionais disponham dos

meios necessários para estudos em grande escala.

 

DE UM ABRIGO DE SEM-TETO PARA O CENTRO DE

TRATAMENTO

 

Sebern me encaminhou três pacientes suas, para que eu conversasse com

elas. Todas contaram histórias notáveis, mas foi escutando Lisa, de 27 anos,

que estudava enfermagem, que comecei de fato a me dar conta das

possibilidades assombrosas daquela terapia. Lisa possuía o principal fator de

resiliência que um ser humano pode ter: era uma pessoa que chamava a

atenção – cativante, curiosa e, é óbvio, inteligente. Fazia muito contato visual

e se mostrava ansiosa por dividir o que havia aprendido sobre si mesma. E

sobretudo, como muitos sobreviventes que conheci, tinha um senso de

humor irônico e uma deliciosa atitude em relação à loucura humana.

A julgar pelo que eu sabia sobre seus antecedentes, era um milagre que

ela fosse tão calma e senhora de si. Passara anos em lares sociais e hospitais

mentais, era conhecida nos prontos-socorros do oeste de Massachusetts – a

jovem que de vez em quando chegava de ambulância, meio morta por

overdose de remédios ou por ferimentos autoin ingidos.

Eis como ela começou a contar sua história:

 

Eu tinha inveja das crianças que sabiam o que ia acontecer quando

os pais se embebedavam. Elas pelo menos podiam prever a baderna.

Na minha casa, eu jamais sabia o que esperar. Qualquer coisa podia

deixar minha mãe zureta – jantar, ver TV, voltar da escola para casa,

vestir-se – e eu nunca sabia o que ela ia fazer ou como ia me ferir.

Era tudo muito imprevisível.

 

O pai abandonou a família, deixando Lisa, com 3 anos, entregue à mãe

psicótica. A palavra “tortura” não é forte o bastante para classi car os maus-

tratos que ela sofreu. “Eu morava no sótão”, ela disse, “e ia fazer xixi no

tapete do quarto ao lado porque tinha medo de descer para ir ao banheiro.

Eu tirava toda a roupa das bonecas, en ava lápis nelas e pendurava na

janela.”

Aos 12 anos, ela fugiu de casa; a polícia a encontrou e a devolveu ao lar.

Depois de fugir de novo, serviços de proteção a menores intervieram, e ela,

ao longo dos seis anos seguintes, esteve em hospitais de saúde mental,

abrigos, lares sociais, famílias adotivas e na rua. Lisa era tão dissociada e

autodestrutiva que aterrorizava seus cuidadores. Agredia a si mesma,

destruía móveis e depois não lembrava o que havia feito, o que a fez ganhar

fama de mentirosa e manipuladora. Em retrospecto, disse, não tinha

palavras para comunicar o que estava acontecendo com ela.

Quando completou 18 anos, deixou de ser atendida pelos serviços de

proteção a menores e começou uma vida independente, sem família,

educação, dinheiro ou quali cações. Logo depois, porém, topou com

Sebern, que acabara de adquirir seu primeiro equipamento de

neurofeedback e se lembrava de Lisa do centro de tratamento residencial em

que trabalhara. Aquela menina perdida sempre lhe chamara a atenção, e ela

lhe propôs que experimentasse sua nova geringonça.

“Na primeira vez que Lisa veio ao consultório”, Sebern contou, “ela

andava de um lado para outro com um olhar vazio, como se atrás do rosto

não houvesse nada. Simplesmente não havia como chegar nela. Eu nunca

tive certeza de ter chegado a algum self organizado.” Qualquer forma de

terapia pela palavra era inviável no caso dela. Toda vez que Sebern lhe fazia uma pergunta sobre qualquer fato estressante, ela se fechava ou entrava em

pânico. Nas palavras de Lisa, “sempre que a gente tentava conversar sobre o

que tinha acontecido quando eu era pequena, eu tinha um colapso.

Acordava com cortes e queimaduras, e não conseguia comer. Nem dormir”.

Sua sensação de terror era onipresente.

 

Eu tinha medo o tempo todo. Não gostava de ser tocada. Estava

sempre sobressaltada e nervosa. Não conseguia fechar os olhos se

houvesse outra pessoa por perto, achava que ela poderia me chutar.

Você se sente doida. Sabe que está num lugar com uma pessoa em

quem con a, você sabe, racionalmente, que nada vai lhe acontecer,

mas então existe o resto do corpo, e você nunca consegue relaxar. Se

alguém tentasse me abraçar, eu simplesmente saía correndo.

 

Lisa estava presa num estado de choque inescapável.

Ela se lembrava de se dissociar quando bem pequena, mas as coisas

pioraram após a puberdade:

 

Comecei a acordar com cortes, e as pessoas na escola me conheciam

por diversos nomes. Não podia ter um namorado rme porque

namorava outros caras quando estava dissociada e depois não

lembrava. Tinha muitos apagões, perdas temporárias de consciência,

e dava comigo em situações bizarras.

 

Como muitas vítimas de traumas graves, Lisa não se reconhecia no

espelho.7 Eu nunca vira alguém descrever de forma tão articulada como era

não ter uma noção contínua de self.

Não havia ninguém que con rmasse sua realidade.

 

Quando eu tinha 17 anos e morava num lar social na companhia de

adolescentes com perturbações muito sérias, um dia me cortei

gravemente com a tampa de uma lata. Fui levada ao pronto-socorro,

mas não pude dizer ao médico como havia me cortado… Porque não

lembrava de nada. O médico do pronto-socorro estava convencido

de que o transtorno dissociativo de identidade não existe. […] Muita

gente que trabalha com saúde mental diz que isso não existe. Não

que você não tenha o transtorno, mas que ele não existe.

 

A primeira coisa que Lisa fez ao deixar o programa de tratamento

residencial foi abandonar a medicação. “Não funciona para todo mundo”, ela

admitiu, “e, no meu caso, foi a decisão certa. Conheço gente que precisa de

remédio, mas não era o meu caso. Comecei a fazer neurofeedback, quei

muito mais lúcida.”

Ao convidar Lisa para o neurofeedback, Sebern não sabia o que esperar,

já que ela seria a primeira paciente com quem tentaria a terapia. Eram duas

sessões por semana, e a pesquisadora começou recompensando padrões

cerebrais mais coerentes no lobo temporal direito, o centro de medo do

cérebro. Passadas algumas semanas, Lisa percebeu que não cava mais tão

nervosa perto das pessoas e já não tinha medo de ir à lavanderia no subsolo

do prédio. Veio então um avanço mais signi cativo: ela parou de dissociar.

“Existia um murmúrio constante de conversas em minha cabeça”, ela

contou. “Eu tinha medo de ser esquizofrênica. Depois de meio ano de

neurofeedback, parei de ouvir aqueles ruídos. Eu me integrei, acho. Tudo se

encaixou.”

Ao adquirir uma noção mais contínua de self, Lisa se tornou capaz de

conversar sobre suas experiências:

 

Agora posso até falar sobre a minha infância, por exemplo. Pela

primeira vez, fui capaz de fazer terapia. Até então eu não tinha

distanciamento su ciente e não conseguia me acalmar. Se você ainda

está lá, é difícil falar sobre isso. Eu não era capaz de me apegar da

forma como é preciso, nem de me abrir da forma necessária para ter

uma relação real com um terapeuta.

 

Foi uma revelação assombrosa: são muitos os pacientes que começam o

tratamento e o largam, sem conseguir estabelecer uma ligação verdadeira,

porque ainda estão “lá”. É claro que se o indivíduo não sabe quem é, não

consegue ver a realidade das pessoas que o cercam.

Lisa prosseguiu:

Eu tinha muita ansiedade, não conseguia me apegar a ninguém.

Entrava numa sala e tentava memorizar todas as formas possíveis de

sair, todos os detalhes a respeito das pessoas. Tentava,

desesperadamente, rastrear tudo o que pudesse me ferir. Agora

conheço as pessoas de uma maneira diferente. Não se trata de

memorizá-las, por causa do medo. Quando a gente não tem medo de

ser ferida, pode conhecer as pessoas de um jeito diferente.

 

Essa moça tão articulada tinha saído dos abismos do desespero e do

desnorteio com um grau de clareza e foco que eu nunca vira antes. Era

evidente que tínhamos de explorar o potencial do neurofeedback no Trauma

Center.

 

PRIMEIROS PASSOS NO NEUROFEEDBACK

 

Antes era preciso decidir qual dos cinco sistemas de neurofeedback

existentes seria adotado, e depois reservar um m de semana prolongado

para aprender como funcionava e treinar entre nós.8 Oito médicos e três

estagiários do centro se dispuseram a explorar as complexidades de EEGs,

eletrodos e do feedback gerado por computadores. Na segunda manhã do

treinamento, eu estava trabalhando em dobradinha com meu colega

Michael, pus o eletrodo no lado direito da cabeça dele e recompensei a

frequência de 11 a 14 hertz. Terminada a sessão, Michael pediu a atenção do

grupo. Acabara de passar por uma experiência notável, ele disse. Sempre se

sentira um tanto nervoso e inseguro na presença de outras pessoas, mesmo

colegas, como nós. Embora ninguém parecesse notar – ele era, a nal, um

terapeuta muito respeitado –, era perseguido por uma sensação crônica e

torturante de perigo. Essa sensação desaparecera, ele se sentia seguro,

relaxado, aberto. No decorrer dos três anos seguintes, sua habitual atitude de

reserva no grupo deu lugar a uma participação ativa com insights e

opiniões. Ele foi um dos mais valiosos colaboradores do programa de

neurofeedback.

Com a ajuda da Fundação ANS, iniciamos a nosso primeiro estudo com

um grupo de 17 pacientes que não haviam respondido a tratamentos anteriores. Escolhemos como alvo a área temporal direita do cérebro, local

que nossos antigos estudos de tomogra as cerebrais (ver capítulo 3) 9 haviam

mostrado ser bastante ativado no estresse traumático, e zemos vinte sessões

de neurofeedback durante dez semanas.

Como a maioria desses pacientes sofria de alexitimia, tinham

di culdade em relatar como respondiam ao tratamento. No entanto, seus

atos falavam por eles. Chegavam sempre na hora marcada, mesmo quando

precisavam dirigir um carro em meio à nevasca. Nenhum deles abandonou

o tratamento, e, ao m das vinte sessões, pudemos documentar melhoras

signi cativas não só em suas pontuações de 10 TEPT, como também nas

relações entre eles e com outras pessoas, no equilíbrio emocional e na

autopercepção. 11 Estavam menos agitados, dormiam melhor e se sentiam

mais calmos e focados.

De qualquer modo, relatos dos próprios pacientes podem não ser

con áveis, e mudanças objetivas no comportamento são indicadores muito

melhores da resposta ao tratamento. O primeiro paciente que tratei com

neurofeedback foi um bom exemplo. Era um pro ssional liberal de 50 e

poucos anos que se de nia como heterossexual. Entretanto, sempre que se

sentia abandonado e incompreendido, procurava contatos homossexuais

com estranhos. Seu casamento se des zera por causa disso; um exame de

HIV dera positivo e ele ansiava por assumir o controle sobre seu

comportamento. Durante uma terapia anterior, falara bastante sobre o fato

de ter sido vítima de abuso sexual por parte de um tio quando tinha 8 anos.

O pressuposto era de que sua compulsão tinha relação com esse abuso, mas

fazer essa conexão não acarretara mudança alguma em seu comportamento.

Depois de mais de um ano de psicoterapia regular com um terapeuta

competente, nada havia mudado.

Uma semana depois de começar a treinar seu cérebro para produzir

ondas mais lentas no lobo temporal direito, ele teve uma discussão

desagradável com uma nova namorada, mas, em vez de procurar outro

homem, resolveu pescar. Atribuí essa reação ao acaso. Entretanto, durante as

dez semanas seguintes, em meio a seu tumultuado relacionamento, ele

continuou a buscar desafogo na pesca e começou a reformar uma casinha à

beira de um lago. Quando suspendemos o neurofeedback por três semanas

por causa de férias, minhas e dele, sua compulsão voltou de repente, o que parecia indicar que seu cérebro ainda não se estabilizara no novo padrão.

Depois continuamos o tratamento por mais seis meses, e agora, quatro anos

depois, eu o atendo mais ou menos a cada seis meses para uma revisão. Ele

não sentiu mais nenhum impulso homossexual.

Como foi que seu cérebro passou a buscar bem-estar na pesca em vez de

na conduta sexual compulsiva? Não se sabe. O neurofeedback muda os

padrões de conectividade do cérebro; a mente os acompanha criando novos

padrões de envolvimento.

 

NOÇÕES BÁSICAS DE ONDAS CEREBRAIS

 

Cada linha num EEG registra a atividade de uma parte diferente do cérebro:

uma mistura de diferentes ritmos, dispostos numa escala que vai do lento ao

rápido. 12 O EEG consiste em medições de diversas alturas (amplitude) e

comprimentos de onda (frequência). A frequência indica o número de vezes

que uma onda sobe e desce em um segundo, e é medida em hertz (Hz) ou

ciclos por segundo (cps). Todas as frequências no EEG são relevantes para

compreender e tratar o trauma, e os elementos básicos são de fácil

entendimento.

 

Eletroencefalograma (EEG). Não existe um traçado característico para pessoas com TEPT, porém muitas delas, como este paciente, mostram uma atividade claramente aumentada nos lobos temporais (T3, T4, T5). O neurofeedback pode normalizar esses padrões cerebrais anormais, e, com isso, melhorar a estabilidade emocional.

As ondas delta, de frequência mais lenta (2-5 Hz), são vistas mais vezes

durante o sono. O cérebro está em estado de marcha lenta e a mente se acha

ensimesmada. Se as pessoas têm demasiada atividade de ondas lentas

quando acordadas, seu pensamento é nebuloso e elas mostram de ciência

de julgamento e de controle dos impulsos. Oitenta por cento das crianças

com TDAH e muitas vítimas de TEPT têm um excesso de ondas lentas nos

lobos frontais.

 

A FREQUÊNCIA DAS ONDAS CEREBRAIS ESTÁ

RELACIONADA A NOSSO ESTADO DE ALERTA

 

Os sonhos aceleram as ondas cerebrais. As frequências teta (5-8 Hz)

predominam na borda do sono, como no estado utuante “hipnopômpico”

(ver capítulo 15); são também características dos estados de transe

hipnótico. As ondas teta criam uma atitude mental não restringida pela

lógica ou as exigências comuns da vida e, por conseguinte, abrem a

possibilidade de novas conexões e associações. Um dos mais promissores

tratamentos com neurofeedback para o TEPT, o treinamento alfa/teta, se vale

disso para liberar associações congeladas e facilitar novos aprendizados. No

lado negativo, as frequências teta também ocorrem quando estamos “para

baixo” ou deprimidos.

As ondas alfa (8-12 Hz) correspondem a uma sensação de paz e calma.13

São bem conhecidas por qualquer um que tenha praticado meditação de

atenção plena. (Certa vez, um paciente me disse que o neurofeedback tinha

exercido sobre ele um efeito “semelhante à meditação com esteroides”.) Uso

o treinamento alfa, na maior parte das vezes, para ajudar pessoas que se

acham muito insensíveis para chegar a um estado de relaxamento

concentrado. O Centro Médico Militar Nacional Walter Reed passou a usar

instrumentos de treinamento alfa para tratar soldados com TEPT.

As ondas beta têm as frequências mais rápidas (13-20 Hz). Quando

dominam, o cérebro está orientado para o mundo externo: elas nos

permitem manter uma atenção focada ao executar uma tarefa. Já as ondas

beta altas (acima de 20 Hz) estão associadas a agitação, ansiedade e tensão

corporal – na verdade, elas fazem a pessoa vigiar o tempo todo o que

acontece à sua volta, em busca de sinais de perigo.

 

MELHOR FOCO PARA O CÉREBRO

 

O treinamento de neurofeedback pode melhorar a criatividade, o

desempenho atlético e a percepção interior, mesmo em pessoas que já

tenham excelente desempenho em suas atividades.14 Quando começamos a

estudar o neurofeedback, descobrimos que o departamento de medicina

esportiva era o único na Universidade de Boston que tinha familiaridade

com o assunto. Um de meus primeiros mestres de siologia cerebral foi o

psicólogo Len Zaichkowsky, que logo deixou Boston para dar treinamento

de neurofeedback aos jogadores do Vancouver Canuchs.15

É provável que o neurofeedback tenha sido mais estudado para melhorar

o desempenho de atletas do que para tratar problemas psiquiátricos. Na

Itália, o treinador do AC Milan usava essa técnica para manter os jogadores

relaxados e concentrados quando assistiam aos vídeos que mostravam seus

erros. O maior controle mental e siológico dos atletas rendeu dividendos

quando vários jogadores do time foram convocados para a seleção, que ganhou a Copa do Mundo de 2006, e quando o clube venceu o campeonato

europeu do ano seguinte.16 O neurofeedback foi também incluído no

componente de ciência e tecnologia do Own the Podium, um plano de cinco

anos, no valor de 117 milhões de dólares, planejado para ajudar o Canadá a

dominar os Jogos Olímpicos de Inverno de 2010, em Vancouver. Os

canadenses tiveram o maior número de ouros e se classi caram em terceiro

lugar no quadro geral de medalhas.

O desempenho musical também tem sido bene ciado. Um grupo de

avaliadores do Royal College of Music da Grã-Bretanha constatou que

alunos que haviam feito dez sessões de neurofeedback ministradas por John

Gruzelier, da Universidade de Londres, tiveram uma melhoria de 10% na

execução de uma peça, quando comparados àqueles que não tinham

passado por esse treinamento. É uma diferença astronômica num campo tão

competitivo. 17

Por melhorar o foco, a atenção e a concentração, não surpreende que o

neurofeedback tenha atraído o interesse de especialistas em transtorno de

dé cit de atenção com hiperatividade. Pelo menos 36 estudos demonstraram

que a técnica pode ser um tratamento e ciente e breve para o TDAH – sua

e cácia é mais ou menos a mesma dos remédios. 18 Depois que o cérebro é

treinado para produzir diferentes padrões de comunicação elétrica, não há

necessidade de nenhum tratamento adicional, à diferença dos

medicamentos, que não modi cam a atividade cerebral fundamental e só

atuam enquanto o paciente os utiliza.

 

ONDE ESTÁ O PROBLEMA EM MEU CÉREBRO?

 

A so sticada análise do EEG por computador, conhecida como EEG

quantitativo (qEEG), pode traçar a atividade de ondas cerebrais de

milissegundo a milissegundo, e seu so ware pode converter essa atividade

num mapa em cores que mostra quais frequências estão mais altas ou mais

baixas em áreas vitais do cérebro.19 O qEEG também pode dizer se as regiões

cerebrais estão se comunicando bem entre si e atuando em conjunto. Já

foram compilados diversos bancos de dados, de padrões normais e

anormais, que nos permitem comparar o qEEG de um paciente com os de milhares de outras pessoas com problemas semelhantes. Por m, ao

contrário da tecnologia de imagens por ressonância magnética funcional

(fMRI), o qEEG é relativamente barato e portátil.

O qEEG proporciona comprovações convincentes das fronteiras

arbitrárias das atuais categorias diagnósticas do DSM. As classi cações do

DSM para as doenças mentais não se alinham com padrões especí cos da

ativação cerebral. Estados mentais comuns a muitos diagnósticos, como

confusão, agitação ou sensação de estar fora do corpo, associam-se a

padrões especí cos no qEEG. De modo geral, quanto maior o número de

problemas de um paciente, mais anormalidades aparecem no q 20 EEG .

Nossos pacientes consideram muito útil poder enxergar os padrões de

atividade elétrica localizada no cérebro deles. É possível mostrar aqueles que

parecem ser responsáveis pela di culdade que eles têm de se concentrar ou

por sua falta de controle emocional. Eles enxergam por que diferentes áreas

cerebrais precisam ser treinadas para gerar frequências diferentes e padrões

de comunicação. Assim, ca mais fácil que não se culpem e aprendam a

processar as informações de maneira diferente.

Ed Hamlin, que nos ensinou a interpretar um qEEG, me escreveu há

pouco tempo:

 

Muitas pessoas respondem ao treinamento, porém as que respondem

melhor e mais depressa são aquelas que podem ver como o feedback

está relacionado a alguma coisa que elas fazem. Por exemplo, se

estou tentando ajudar alguém a aumentar sua capacidade de estar

presente, é possível ver como ele está se saindo. É então que o

benefício começa de fato a se acumular. Passar pela experiência de

mudar a atividade do cérebro com a mente faz uma pessoa se sentir

muito forte e competente.

 

COMO O TRAUMA MUDA AS ONDAS CEREBRAIS?

 

Vemos em nosso laboratório de neurofeedback pessoas com longos

históricos de estresse traumático que só responderam parcialmente aos

tratamentos convencionais. Seus qEEGs apresentam vários padrões diferentes. Muitas vezes, há uma atividade excessiva no lobo temporal

direito – o centro cerebral do medo – combinada com excesso de atividade

frontal de onda lenta. Isso signi ca que o cérebro emocional em estado

hiperalerta domina a vida mental desses pacientes. Nossa pesquisa mostrou

que tranquilizar o centro do medo reduz os problemas baseados no trauma

e melhora as funções executivas, acarretando não só uma diminuição

substancial da pontuação de TEPT dos pacientes, como melhor clareza

mental e maior capacidade de regular a irritação em resposta a provocações

relativamente brandas. 21

Outros traumatizados exibem padrões de hiperatividade assim que

fecham os olhos: não ver o que acontece os deixa em pânico e suas ondas

cerebrais enlouquecem. Nós os treinamos para produzir padrões cerebrais

mais relaxados. Já outro grupo reage com exagero a sons e luzes – sinal de

que o tálamo tem di culdade para ltrar informações irrelevantes –, e, nesse

caso, procuramos modi car os padrões de comunicação na parte posterior

do cérebro.

Nosso centro tem como foco a busca de tratamentos e cazes para o

estresse traumático crônico, mas Alexander McFarlane está estudando a

alteração de cérebros normais causada pela exposição ao combate. O

Departamento de Defesa australiano pediu-lhe que analisasse as

consequências de períodos de combate no Iraque e no Afeganistão sobre as

funções mentais e biológicas dos soldados, entre elas os padrões de ondas

cerebrais. Na fase inicial da pesquisa, McFarlane e seus colegas mediram o

qEEG de 179 soldados quatro meses antes e quatro meses depois de cada

período de combate sucessivo no Oriente Médio.

Os pesquisadores veri caram que o número total de meses de combate

no decorrer de um período de três anos estava associado a reduções

progressivas de atividade alfa na parte posterior do cérebro. Essa área, que

monitora o estado do corpo e regula processos elementares, como sono e

fome, normalmente tem o nível mais alto de ondas alfa de qualquer região

do cérebro, em especial quando as pessoas fecham os olhos. Já vimos que as

ondas alfa estão associadas a relaxamento. A redução da atividade alfa

nesses soldados re ete um estado de persistente agitação. Ao mesmo tempo,

as ondas cerebrais na parte anterior do cérebro, que, em geral, apresentam

alta atividade beta, revelam um retardo progressivo a cada período de combate. Pouco a pouco, os soldados mostram uma atividade no lobo

frontal que se assemelha à de crianças com TDAH, o que interfere em suas

funções executivas e na capacidade de manter a concentração.

A consequência nal é que o estado de alerta, que deveria proporcionar

a energia necessária para o cumprimento das tarefas diárias, deixa de ajudar

esses soldados a se concentrarem em tarefas comuns. Isso os faz car

agitados e alvoroçados. No atual estágio da pesquisa de McFarlane, é cedo

demais para saber se esses soldados serão acometidos de TEPT, e só o tempo

dirá em que medida o cérebro deles se reajustará ao ritmo da vida civil.

 

O NEUROFEEDBACK E DEFICIÊNCIAS DE APRENDIZADO

 

O abuso crônico e a negligência na infância interferem na programação

correta dos sistemas de integração sensorial. Em certos casos, isso resulta

em de ciências de aprendizado, entre as quais ligações defeituosas entre o

sistema auditivo e o sistema de processamento verbal, assim como má

coordenação entre olhos e mãos. Em nossos programas de tratamento

residencial, é difícil acompanhar a di culdade de adolescentes se eles se

mantêm travados ou explosivos para processar as informações do dia a dia;

assim que seus problemas comportamentais são tratados com êxito, porém,

muitas vezes as de ciências de aprendizado a oram. Mesmo que esses

jovens pudessem car quietos e prestar atenção às aulas, muitos ainda

seriam prejudicados pela insatisfatória capacidade de aprendizado.22

Lisa contou como o trauma havia interferido na programação correta de

funções básicas de processamento. Disse que “sempre se perdia” quando saía

de casa e que se lembrava de sofrer de um retardo de audição que a

impossibilitava de seguir as instruções dos professores. “Imagine estar numa

sala de aula”, disse, “e aí o professor chega e diz: ‘Bom dia. Abram o livro na

página dois-sete-dois. Resolvam os problemas de um a cinco’. Se a pessoa

estiver desligada durante uma fração de segundo, essas palavras viram uma

mixórdia. A concentração é impossível.”

O neurofeedback a ajudou a reverter essas de ciências de aprendizado.

Aprendi a não perder as coisas de vista. Ler mapas, por exemplo.

Logo depois que começamos a terapia, houve um dia inesquecível

em que eu ia de Amherst a Northampton [não mais de quinze

quilômetros] para me encontrar com Sebern. Era para eu pegar

alguns ônibus, mas acabei caminhando vários quilômetros pela

estrada. Minha desorganização chegava a esse ponto: eu não

conseguia ler os horários, não controlava o tempo. Vivia muito tensa

e nervosa, o que me deixava sempre exausta. Não conseguia prestar

atenção a nada. Eu simplesmente não conseguia organizar meu

cérebro em torno daquilo.

 

Essa declaração de ne o desa o que se coloca para a ciência da mente e

do cérebro: como ajudar as pessoas a organizar o tempo e o espaço, a

distância e as relações, faculdades que são gravadas no cérebro durante os

primeiros anos de nossa vida, se o trauma precoce interferiu no

desenvolvimento dessas faculdades? Nem medicamentos nem terapia

convencional demonstraram ter ativado a neuroplasticidade necessária para

restaurar essas faculdades depois de passados os períodos críticos. É

chegada a hora de veri car se o neurofeedback poderá ter êxito onde outras

intervenções falharam.

 

TREINAMENTO ALFA-TETA

 

O treinamento alfa-teta é um procedimento de neurofeedback

especialmente interessante, pois pode provocar estados hipnagógicos – a

essência do transe hipnótico (ver capítulo 15).23 Quando as ondas teta

predominam, a mente foca no mundo interior, um mundo de imagens

soltas. As ondas cerebrais alfa podem atuar como uma ponte do mundo

externo para o interno e vice-versa. No treinamento alfa-teta, essas

frequências são recompensadas de maneira alternada.

No tocante ao TEPT, o objetivo é abrir a mente a novas possibilidades, de

modo que o presente deixe de ser interpretado como uma reprodução

contínua do passado. Os estados de transe, dominados pela atividade teta,

podem ajudar a separar as conexões condicionadas entre determinados estímulos e respostas, como estampidos sinalizando um tiroteio, um arauto

de morte. Pode-se criar uma nova associação, na qual esse mesmo estouro se

relacione a fogos de artifício ao m de um feriado na praia em companhia

da família.

Nos estados crepusculares fomentados pelo treinamento alfa-teta,

podem-se reviver em segurança eventos traumáticos e promover novas

associações. Alguns pacientes relatam imagens inusitadas e/ou percepções

profundas sobre a vida; outros apenas relaxam e cam menos tensos. Todo

estado em que as pessoas possam reviver, em segurança, imagens, sensações

e emoções associadas a pavor e impotência tende a criar novo potencial e

uma perspectiva mais ampla.

A atividade alfa-teta pode reverter padrões de estado hiperalerta? Os

dados acumulados são promissores. No centro médico da AV em Fort Lyon,

Colorado, os pesquisadores Eugene Peniston e Paul Kulkosky usaram o

neurofeedback para tratar 29 veteranos do Vietnã que tinham histórico de

12 a 15 anos de TEPT crônico decorrente de combates. Quinze foram

dirigidos, ao acaso, para o treinamento alfa-teta, e os outros 14 para um

grupo de controle, que recebeu tratamento médico convencional, com

medicamentos psicotrópicos e terapia individual e de grupo. Os

participantes de ambos os grupos haviam sido hospitalizados, em média,

mais de cinco vezes por causa do TEPT. Ao recompensar ondas alfa e teta, o

neurofeedback contribuiu para estados crepusculares de aprendizado.

Deitados de costas numa cadeira reclinável e de olhos fechados, os homens

eram instruídos a permitir que os sons do neurofeedback os guiassem no

sentido de um profundo relaxamento. Também se recomendava que

usassem imagens mentais positivas (por exemplo, se manter sóbrio, viver

com con ança e serenidade) enquanto eram conduzidos ao estado alfa-teta.

Esse estudo, publicado em 1991, produziu um dos melhores resultados

já obtidos para o TEPT. O grupo tratado com neurofeedback mostrou uma

redução pronunciada dos sintomas do transtorno, acompanhada de uma

queda de queixas físicas, depressão, ansiedade e paranoia. Depois da fase de

tratamento, veteranos e sua família foram entrevistados mensalmente, ao

longo de trinta meses. Somente três desses 15 veteranos relataram ashbacks

perturbadores e pesadelos. Os três concordaram em fazer mais dez sessões

de reforço, e só um deles precisou voltar ao hospital para tratamento adicional. Dos 15 participantes do grupo, 14 estavam usando muito menos

medicação.

Já os 14 veteranos do grupo de controle apresentaram aumento dos

sintomas de TEPT durante o período de seguimento, e todos precisaram de

pelo menos mais duas internações. Dez deles também aumentaram o uso de

medicamentos.24 Esse estudo foi replicado por outros pesquisadores, mas, o

que é surpreendente, recebeu uma atenção mínima fora da comunidade de

neurofeedback.25

 

NEUROFEEDBACK, TEPT E DEPENDÊNCIA

 

Muitos indivíduos com trauma grave – entre um terço e metade deles –

sucumbem a problemas de abuso de substâncias. 26 Desde o tempo de

Homero, soldados bebem para embotar a dor, a irritabilidade e a depressão.

Segundo um estudo recente, metade das vítimas de acidentes com veículos

automotores tem problemas com drogas ou álcool. O álcool torna as pessoas

descuidadas, o que aumenta a probabilidade de passarem por um novo

trauma (embora estar embriagado durante um assalto na verdade diminua a

probabilidade de desenvolver TEPT).

Há uma relação circular entre o TEPT e o abuso de substâncias: embora as

drogas e o álcool proporcionem alívio temporário dos sintomas de trauma, a

abstinência aumenta o estado hiperalerta, intensi cando pesadelos,

ashbacks e irritabilidade. Só existem duas formas de pôr m a esse círculo

vicioso: resolvendo os sintomas do TEPT com métodos como a EMDR ou

tratando o estado hiperalerta, que faz parte tanto do TEPT quanto da

abstinência de drogas ou álcool. Às vezes, para reduzir o estado hiperalerta,

médicos prescrevem drogas como a nalxetrona, mas esse tratamento só tem

sucesso em alguns casos.

Uma das primeiras mulheres a quem ministrei treinamento com

neurofeedback era uma dependente de cocaína de longa data, que tinha um

histórico horrendo de abuso sexual e abandono na infância. Para minha

grande surpresa, seu consumo de cocaína cessou após as duas primeiras

sessões; cinco anos depois, não havia retornado. Como eu nunca havia visto

alguém se recuperar tão depressa de uma dependência química severa,

recorri aos estudos cientí cos existentes em busca de orientação. 27 Havia

pouquíssimos estudos a respeito do uso de neurofeedback para o tratamento

da dependência, ao menos nos Estados Unidos.

Cerca de 75% a 80% dos pacientes internados para desintoxicação e

tratamento do abuso de álcool e drogas terão recidivas. Outro estudo de

Peniston e Kulkosky – acerca dos efeitos do treinamento de neurofeedback

sobre veteranos com diagnóstico de alcoolismo e 28 TEPT – abordava esse

problema. Quinze veteranos receberam treinamento alfa-teta, enquanto o

grupo de controle recebeu o tratamento convencional sem neurofeedback.

Todos os pacientes foram acompanhados com regularidade durante três

anos. Nesse período oito participantes do grupo de neurofeedback pararam

de beber e um se embriagou uma vez, mas adoeceu e não voltou a beber. A

maior parte estava bem menos depressiva. Como a rmou Peniston, as

mudanças relatadas correspondiam a estar “mais afetuoso, mais inteligente,

mais estável emocionalmente, mais ousado socialmente, mais relaxado e

mais satisfeito”. 29 Por outro lado, todos os que zeram o tratamento

convencional tiveram novas internações hospitalares nos 18 meses

seguintes. 30 Desde essa época, publicaram-se vários estudos sobre o uso de

neurofeedback para tratamento de dependências,31 mas essa importante

aplicação precisa de muito mais pesquisa para se determinar seu potencial e

suas limitações.

 

O FUTURO DO NEUROFEEDBACK

 

Nos últimos anos, meu laboratório estudou os efeitos do neurofeedback em

crianças e adultos traumatizados. Nossas conclusões con rmam seu enorme

potencial para melhorar bastante a vida das pessoas: vinte sessões tiveram

como resultado uma redução de 40 por cento nos sintomas de TEPT num

grupo de participantes que, com histórias crônicas de trauma, não haviam

respondido muito bem à terapia pela palavra ou a fármacos. O mais

interessante foi o acentuado efeito do neurofeedback (um aumento de cerca

de 60 por cento) na área da função executiva, ou seja, a capacidade de cada

um planejar atividades, estimar a consequência de suas ações, passar com

facilidade de uma tarefa a outra e se sentir no controle de suas emoções 32. O tratamento produziu uma melhora pronunciada nessa função, que prevê o

quanto uma pessoa atuará bem nos relacionamentos, nos estudos e na vida

pro ssional.

Uso o neurofeedback basicamente para ajudar no tratamento dos

problemas de estado hiperalerta, confusão e concentração de pessoas que

sofrem de trauma de desenvolvimento. No entanto, a técnica também tem

apresentado bons resultados para diversas questões e afecções que

ultrapassam o âmbito deste livro: alívio da cefaleia tensional, melhora da

função cognitiva após lesão cerebral traumática, redução da ansiedade e dos

ataques de pânico, aprofundamento de estados de meditação, tratamento do

autismo, melhora do controle de convulsões e autorregulação em

transtornos de humor, entre outras. Em 2013, o neurofeedback estava sendo

usado em 17 instalações militares e da 33 AV para tratar o TEPT , e a

documentação cientí ca de sua e cácia em aplicações recentes a veteranos

de combate começava a ser avaliada. Frank Duffy, diretor dos laboratórios

de neuro siologia clínica e neuro siologia de desenvolvimento do

Children’s Hospital, em Boston, comentou:

 

Esse conjunto de trabalhos, no qual não há nenhum estudo negativo,

leva a crer que o neurofeedback desempenha um importante papel

terapêutico em muitas áreas diferentes. Em minha opinião, se algum

medicamento tivesse demonstrado um espectro de e cácia tão

amplo, teria sido aceito por todos e amplamente utilizado.34

 

Muitas perguntas a respeito de protocolos de tratamento para o

neurofeedback ainda esperam resposta, mas o paradigma cientí co aos

poucos está mudando numa direção que convida a uma exploração mais

aprofundada dessas questões. Em 2010, omas Insel, diretor do NIMH,

publicou na revista Scienti c American o artigo “Faulty Circuits” (Circuitos

defeituosos), no qual instava por um retorno à visão da mente e do cérebro

em termos dos ritmos e padrões da comunicação elétrica:

 

As regiões cerebrais que atuam juntas para executar operações

mentais normais (e anormais) podem ser vistas como análogas a

circuitos elétricos – a pesquisa mais recente mostra que a disfunção

de circuitos inteiros pode ser a origem de muitos transtornos

mentais.35

 

Três anos depois, Insel anunciou que o NIMH estava “reorientando sua

pesquisa de forma a se afastar das categorias do 36 DSM ” e se concentrando,

em vez disso, em “transtornos do conectoma humano.37

Para Francis Collins, diretor dos Institutos Nacionais de Saúde, órgão de

que o NIMH faz parte,

 

“o termo ‘conectoma’ se refere à requintada interconexão da rede de

neurônios (células nervosas) no cérebro. Tal como ocorreu no caso

do genoma, do microbioma e outros interessantes campos ‘oma’, a

façanha de mapear o conectoma e decifrar os sinais elétricos que

correm por ele a m de gerar pensamentos, sensações e

comportamentos foi possibilitada pela criação de novos

instrumentos e tecnologias”.38

 

O conectoma está sendo mapeado em detalhe sob os auspícios do NIMH.

Enquanto esperamos os resultados dessa pesquisa, deixo a última

palavra a cargo de Lisa, a sobrevivente que me fez conhecer o enorme

potencial do neurofeedback. Ao lhe pedir que sintetizasse o que o

tratamento tinha feito por ela, Lisa disse:

 

Ele me deixou calma. Parei de dissociar. Posso usar as minhas

sensações; não fujo mais delas. Também não sou refém delas. Não

posso ligá-las e desligá-las, mas posso deixá-las de lado. Posso me

sentir triste pelo abuso que sofri, mas posso deixá-lo de lado. Posso

visitar uma pessoa amiga e não falar sobre isso se não quiser, ou

posso estudar ou limpar o apartamento. Agora as emoções

signi cam alguma coisa. Não sinto ansiedade o tempo todo, mas se

estiver ansiosa, posso re etir a respeito. Se a ansiedade está vindo do

passado, eu a localizo lá ou posso pensar em como ela se relaciona

com minha vida agora. E não são apenas emoções negativas, como

raiva e ansiedade… Posso re etir sobre amor, intimidade e atração

sexual. Não me sinto numa situação de luta ou fuga o tempo todo.

Minha pressão sanguínea se normalizou. Não co preparada

sicamente para correr a qualquer momento ou para me defender de

um ataque. O neurofeedback me possibilitou ter um namorado. O

neurofeedback me deu liberdade para levar a vida como eu quiser,

porque não sou mais escrava do que passei e do que isso me causou.

 

Quatro anos depois que a conheci e gravei nossas conversas, Lisa se

formou como uma das melhores alunas de sua turma na escola de

enfermagem, e depois passou a trabalhar em tempo integral num hospital de

Boston.

 

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