O Imperador-Deus de Duna
Frank Herbert
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
O IMPERADOR-DEUS DE DUNA
Série Duna — Livro 4
O imperador-deus de Duna
Em Rakis, que outrora havia sido o desértico planeta Arrakis, apelidado Duna, são encontrados os diários do filho do Muad’Dib, de inestim ável valor arqueológico e cuj as interpretações são contraditórias.
Relata-se então o governo de Leto II, o descendente do m essias Paul Atreides, sobre o Im pério m ultigalático descrito em Duna. O passo decisivo de Leto em relação a todos os seus antecessores é o abandono da form a hum ana, e o conseqüente desprezo pelos princípios m orais que atorm entavam seu pai. Não só isso: o uso continuado da “especiaria”, a m elange — que, além dos efeitos psíquicos e de longevidade, tem um a im portância estratégica ainda m ais vasta —, valeu-lhe um a presciência quase absoluta, um controle genético e um a m em ória que abarca toda a História, reunindo num a única identidade confusa todos os seus ancestrais. Com esse poder, Leto transform a-se num tirano preocupado com a idéia da divindade e com a possibilidade de controlar o Tem po.
Frank Herbert, que na série Duna j á abordara os aspectos político-religiosos e psicológicos do m essianism o, exam ina agora um a tirania sem i-religiosa. A pergunta m arcante dos livros anteriores — pode-se m udar a História? — desloca-se da profecia e da guerra para as disputas sobre a fé, a fidelidade, a crença. Ressalta-se que nas m itologias e nas religiões é a invenção que cria História, tanto no passado quanto no futuro. Misturando elem entos da cultura islâm ica e da sociedade m edieval com outros da Antigüidade e dos prim órdios do Cristianism o, Herbert dá um a chave para a com preensão das m últiplas forças que com põem e direcionam os cam inhos de Duna (e tam bém os nossos): guerras e intrigas, m as igualm ente a capacidade de persuasão das palavras.
Esse fascínio que a ficção exerce, a m istura de fantasia e realism o que Frank Herbert explora com m aestria nos seus livros, continua conquistando cada vez m ais leitores em todo o m undo, j á tendo a saga de Duna ultrapassado os doze m ilhões de exem plares vendidos em m ais de catorze idiom as.
Quando eu estava escrevendo Duna
... não havia lugar em m inha m ente para preocupações quanto ao sucesso ou fracasso do livro. Só m e preocupava com o que estava escrevendo. Seis anos de pesquisas tinham antecedido aquele dia em que m e sentei para estruturar a história, e a textura das m uitas cam adas de tram as que planej ara exigia um grau de concentração que eu nunca antes experim entara.
Devia ser um a história explorando o m ito do Messias.
Devia produzir um a visão diferente de um planeta ocupado pelo hom em com o m áquina energética.
Devia penetrar no funcionam ento interligado da política e da econom ia.
Devia ser um estudo da previsão absoluta e de suas arm adilhas.
Devia ter um a droga de expansão da consciência e revelar as conseqüências de um a dependência prolongada em relação a tal substância.
A água potável devia constituir um a analogia em relação ao petróleo e à própria água com o substância cuj o suprim ento. dim inui a cada dia.
Devia ser um rom ance ecológico, portanto, com m uitas nuances, assim com o um a história a respeito das pessoas e de suas preocupações hum anas com os valores hum anos. E eu precisava m onitorar todas essas coisas em cada estágio da criação do livro.
Não havia espaço em m inha cabeça para pensar em outra coisa.
Seguindo-se à prim eira edição, houve um a lenta resposta dos editores, que m ais tarde se revelou im precisa. Os críticos tinham m alhado. E m ais de 12 editores se haviam recusado a publicar o livro. Não houve publicidade, m as algum a coisa estava acontecendo lá fora.
Durante dois anos fui saturado de queixas de livrarias e leitores que não conseguiam encontrar o livro. “The Whole Earth Catalog” (Catálogo Integral da Terra) elogiou. E eu ficava recebendo telefonem as de pessoas m e perguntando se estava iniciando algum a religião.
A resposta: “Meu Deus! Claro que não!”
O que estou descrevendo e a lenta concretização de um sucesso. Quando os três prim eiros livros de Duna estavam prontos, j á não havia m ais dúvidas de que este era um trabalho popular — um dos m ais populares em toda a história, disseram -m e, com m ais de 10 m ilhões de exem plares vendidos no m undo inteiro. Agora, o que a m aioria das pessoas m e pergunta é: “O que esse sucesso representa para você?”
Ele m e surpreende, j á que; não o esperava. Tam pouco esperava o fracasso. Era um trabalho e eu o realizei. Certos trechos de O Messias de Duna e Os filhos de Duna foram escritos antes m esm o de eu term inar Duna. Eles tornaram -se m ais vividos ao serem postos no papel, m as a história essencial perm anecia intacta. Eu sou um escritor e estava escrevendo. O sucesso significava que eu poderia passar m ais tem po escrevendo.
Olhando para trás agora, percebo que realizei a coisa certa instintivam ente. Não se escreve obj etivando-se o sucesso. Isso tira a sua atenção daquilo que está criando. Se você o está fazendo realm ente, com toda a dedicação, então escrever é tudo.
Existe um pacto im plícito entre você e o leitor. Se alguém entra em um a livraria e paga pelo seu livro com dinheiro duram ente ganho (energia), devem os a essa pessoa algum entretenim ento, e tanto quanto possam os dar.
Essa foi realm ente a m inha intenção o tem po todo.
Para Peggy Rowntree
com amor e profunda admiração e grande estima
Trecho de um a palestra de Hadi Benotto anunciando as descobertas em Dar-es-Balat, no planeta de Rakis:
Não apenas é um prazer para m im anunciar a vocês, nesta m anhã, nossa descoberta desse m aravilhoso depósito contendo, entre outras coisas, um a m onum ental coleção de m anuscritos inscritos em papel de cristal riduliano. Tam bém tenho orgulho em lhes dar nossos argum entos quanto à autenticidade dessas descobertas e lhes revelar por que acreditam os ter encontrado os diários originais de Leto II, o Im perador-Deus.
Prim eiram ente, perm itam -m e que lhes recorde os tesouros históricos que todos conhecem os pelo nom e de Os diários roubados, volum es de conhecida antigüidade que, através dos séculos, têm sido tão valiosos para nos aj udar no entendim ento de nossos ancestrais. Com o todos sabem , Os diários roubados foram decifrados pela Corporação Espacial, e a Chave de Tradução da Corporação foi usada para traduzir os volum es recém -descobertos. Ninguém nega a antigüidade da Chave de Tradução da Corporação, e ela, apenas ela, traduz esses volum es.
Em segundo lugar, esses volum es foram im pressos por um sistem a Ixiano cuj a criação é realm ente antiga. E Os diários roubados não deixam dúvida de que esse foi de fato o m étodo em pregado por Leto II para registrar suas observações históricas.
Terceiro, e nós acreditam os que isto é igual, em im portância, à descoberta do próprio depósito: o repositório desses diários é sem dúvida um artefato Ixiano. Um a criação tão prim itiva e, no entanto, tão m aravilhosa que certam ente irá lançar um novo entendim ento sobre a época histórica conhecida com o “A Dispersão”. Com o era de se esperar, o depósito encontrava-se m uito bem oculto. Ele foi enterrado a um a profundidade m aior do que o m ito ou a História Oral nos levaria a esperar, em itindo e absorvendo radiação de m odo a sim ular as características naturais de suas cercanias. Um m im etism o m ecânico que em si m esm o não constitui surpresa. O que surpreende nossos engenheiros, entretanto, é o m odo com o foi construído, usando m étodos dos m ais rudim entares e verdadeiram ente prim itivos.
Percebo que alguns de vocês se encontram tão excitados com isso com o nós próprios ficam os. Acreditam os estar olhando para o prim eiro Globo Ixiano, o não-espaço a partir do qual todos os aparelhos sem elhantes se desenvolveram . Não se trata realm ente do prim eiro, m as acreditam os que deve ser “um ” dos prim eiros, incorporando os m esm os princípios do prim eiro.
Perm itam -m e satisfazer sua óbvia curiosidade assegurando-lhes que serão conduzidos para um a breve inspeção do depósito dentro em pouco. Apenas solicitam os que m antenham silêncio quando estiverem lá dentro, pois nossos engenheiros e outros especialistas continuam a trabalhar na solução dos m istérios.
O que m e conduz ao quarto ponto, e este pode ser o coroam ento de nossas descobertas. É com um a em oção difícil de descrever que lhes revelo agora outra descoberta feita no local — gravações orais verdadeiras que se encontram rotuladas com o tendo sido feitas por Leto II na voz de seu pai, Paul Muad’Dib. Um a vez que registros autenticados do Im perador-Deus se encontram guardados nos Arquivos das Bene Gesserit, nós lhes enviam os um a am ostra de nossas gravações, todas elas feitas a partir de um antigo sistem a de m icrobolha, com um pedido form al à Irm andade para que realizasse um teste de com paração. Restam -nos poucas dúvidas de que esses registros serão autenticados.
Agora, por gentileza, voltem sua atenção para os trechos traduzidos que lhes entregam os quando chegaram . Perm itam -m e que eu aproveite a oportunidade para m e desculpar pelo peso. Ouvi alguns de vocês fazendo piadas a respeito. Nós usam os papel com um por um a razão prática — econom ia. Os volum es originais foram escritos em sím bolos tão pequenos que precisam ser am pliados substancialm ente antes de poderem ser lidos. De fato, isso exige m ais de 40 volum es com uns, do tipo que vocês agora estão segurando, apenas para reproduzir o conteúdo de um cristal riduliano original.
Se o proj etor... sim . Agora estam os proj etando parte de um a página original na tela à sua esquerda. É da prim eira página do prim eiro volum e. Nossa tradução aparece nas telas à direita. Cham o-lhes a atenção para a evidência interior, a poética vaidade das palavras, assim com o o significado derivado da tradução. O estilo traduz um a personalidade que é coerente e identificável. Nós acreditam os que isso só pode ter sido escrito por alguém que possuía um a experiência direta de m em órias ancestrais, por alguém que estivesse trabalhando para com partilhar a experiência extraordinária de vidas anteriores de um m odo com preensível apenas àqueles que carecem desse dom .
Olhem agora para o significado real do conteúdo. Todas as referências estão de acordo com tudo que a história nos revelou a respeito de um a pessoa, a qual acreditam os seria a única capaz de ter deixado tal registro.
Tem os outras surpresas para vocês. Tom ei a liberdade de convidar um poeta bem conhecido, Rebeth Vreeb, para com partilhar esta plataform a conosco nesta m anhã e ler, dessa prim eira página, um a curta passagem de nossa tradução. É de nossa opinião que, m esm o em um a tradução, essas palavras assum em um a característica diferente quando lidas em voz alta. Querem os assim partilhar com vocês um a qualidade verdadeiram ente extraordinária que descobrim os nesses volum es.
Senhoras e senhores, por gentileza, dêem boas-vindas a Rebeth Vreeb.
Da leitura de Rebeth Vreeb:
Eu lhes afirm o que sou o livro do destino.
As perguntas são o m eu inim igo, pois m inhas perguntas explodem ! As respostas saltam para o ar com o um bando de aves assustadas, escurecendo o céu com m em órias das quais não consigo escapar. Não há um a só resposta, nenhum a é suficiente.
Que prism as relam pej am quando penetro no cam po terrível do m eu passado! Sou um a lasca de pedra fechada em um a caixa.
A caixa gira e estrem ece. Sou atirado em um a tem pestade de m istérios. E quando a caixa se abre eu retorno a esta presença com o um estranho em terra prim itiva.
Lentam ente (lentam ente, eu digo), reaprendo o m eu nom e.
Mas isso, apenas, não é conhecer-m e.
Essa pessoa que tem m eu nom e, esse Leto que é o segundo a ser cham ado assim , descobre outras vozes em sua m ente, outros nom es, outros lugares. Oh, eu lhes prom eto (assim com o m e prom eteram ) responder a um único nom e. Se m e cham arem Leto, eu responderei. O sofrim ento faz isso possível. O sofrim ento e m ais um a coisa:
Eu seguro as rédeas!
Todas elas são m inhas. Deixem -m e im aginar um tópico — digam os... hom ens que m orreram pela espada — e eu os tenho em toda a sua carnificina, cada im agem intacta, cada gem ido, cada careta.
As alegrias de ser m ãe. Eu penso e os leitos de parto são m eus. Sorrisos de bebês desfilam em série, e assim os suaves balbucios de novas gerações. Os prim eiros passinhos e as prim eiras vitórias dos j ovens são m inhas para partilhar. Elas caem um as sobre as outras até que nada m ais vej o senão igualdade e repetição.
“Mantenha isso tudo intacto”, advirto a m im m esm o.
Quem poderá negar o valor de tais experiências, a riqueza de aprendizado através da qual eu visualizo cada novo instante?
Ah, m as isso é o passado.
Não com preendem ?
É apenas o passado!
Esta manhã eu nasci num yurt na borda de uma planície num planeta que não mais existe. Amanhã nascerei alguém mais em outro lugar. Ainda não escolhi. Nesta manhã, entretanto... ah essa vida! Quando meus olhos aprenderam a localizar, olhei para a luz do sol e pisei na grama, e vi gente vigorosa indo e vindo nas suaves atividades de suas vidas. Onde... oh, para onde foi todo esse vigor?
— Os diários roubados
As três pessoas correndo para o norte, através das som bras do luar na Floresta Proibida, enfileiravam -se por quase m eio quilôm etro. O últim o corredor da fila estava m enos de 100 m etros à frente dos lobos D que os perseguiam . Os anim ais podiam ser ouvidos grunhindo e ofegando em sua avidez. Do m odo com o fazem quando estão com a presa à vista.
Com a Prim eira Lua diretam ente acim a, a floresta estava bem ilum inada, e em bora essas fossem latitudes elevadas em Arrakis, ainda estava quente com o calor de um dia de verão. A brisa noturna, vinda do Últim o Deserto de Sareer, trazia o perfum e de resinas e a um idade exalada pelo solo abaixo. De vez em quando um a brisa do Mar de Ky nes, além do Sareer, flutuava no cam inho dos corredores com seus odores de sal e peixes.
Por um capricho do destino, o últim o corredor cham ava-se Ulot, o que na linguagem Frem en significa “Querido Extraviado”. Ulot era de pequena estatura e com um a tendência à obesidade que colocara o peso extra de um a dieta em seu treinam ento para essa aventura. Mesm o em agrecido para realizar essa carreira desesperada, seu rosto perm anecia redondo, os grandes olhos castanhos vulneráveis num a sugestão de carne em dem asia.
Para Ulot, tornara-se claro que não poderia correr m uito m ais. Ele ofegava e chiava. Ocasionalm ente, tropeçava, m as não cham ava seus com panheiros. Sabia que não podiam aj udá-lo. Todos tinham feito o m esm o j uram ento, sabendo que não tinham defesas, exceto as velhas virtudes e lealdades dos Frem en. Isso perm anecia verdadeiro, m uito em bora tudo que um dia se relacionara com os Frem en tivesse agora um caráter de m useu — velhos recitais aprendidos em um Museu Frem en.
E era a lealdade dos Frem en que m antinha Ulot em silêncio, na perfeita com preensão do seu destino. Um belo exem plo dos antigos valores, e deveras lam entável pelo fato de nenhum dos corredores ter tido um conhecim ento que não tivesse saído de livros e tradições orais a respeito das virtudes que adotavam .
Os lobos D corriam bem atrás de Ulot, gigantescas figuras cinzentas com quase a altura de um hom em . Eles saltavam e ganiam em sua ferocidade, cabeças erguidas, olhos focalizados em suas presas traídas pelo luar.
Um a raiz prendeu o pé de Ulot e ele quase caiu. Isso lhe forneceu um a energia renovada. Ele disparou, ganhando talvez a distância do com prim ento de um lobo sobre seus perseguidores. Seus braços m oviam -se de m odo ritm ado, e ele respirava ruidosam ente pela boca aberta.
Os lobos D não m udaram seu ritm o. Eram som bras prateadas avançando através dos verdes odores da floresta. Sabiam que haviam ganho, era-lhes um a experiência fam iliar.
Novam ente Ulot tropeçou. Equilibrou-se de encontro a um arbusto e continuou sua ofegante carreira, as pernas trem endo, rebeladas contra tais exigências. Não havia m ais energia para outra corrida.
Um dos lobos D, um a fêm ea grande, avançou pelo flanco esquerdo de Ulot. Ele se desviou, saltando em seu cam inho. Dentes enorm es rasgaram -lhe o om bro, e Ulot cam baleou. Ainda assim , não caiu. O cheiro de sangue adicionou-se aos odores da floresta. Um m acho pequeno agarrou-lhe o quadril direito e finalm ente Ulot tom bou gritando. A m atilha o envolveu e seus gritos interrom peram -se abruptam ente.
Sem pararem para com er, os lobos D reiniciaram a perseguição. Suas narinas sondavam o chão da floresta ?— as brisas errantes no ar, sentindo o rastro quente de m ais dois seres hum anos em fuga.
O corredor seguinte na fila era cham ado Kwuteg, nom e antigo e honrado em Arrakis, nom e dos tem pos de Duna. Um ancestral seu havia servido no Sietch Tabr com o Mestre dos Alam biques da Morte, m as isso era tão distante, m ais de 3 m il anos no passado, que a m aioria tinha dúvidas a respeito. Kwuteg corria com passadas longas e um corpo alto e esguio que parecia perfeitam ente adequado para sem elhante esforço. Seus longos cabelos negros fluíam de suas feições aquilinas. Assim com o os com panheiros, ele usava um traj e de corrida negro, feito de algodão finam ente trançado. Este revelava o m ovim ento das nádegas e das coxas m usculosas, o ritm o firm e e profundo de sua respiração. Som ente a passada de Kwuteg, m arcadam ente lenta, traía o fato de que ele havia ferido o j oelho direito ao descer os precipícios feitos pelo hom em que cercavam a cidadela-fortaleza do Im perador-Deus em Sareer.
Kwuteg ouvira os gritos de Ulot e o abrupto silêncio, depois os renovados ganidos de perseguição dos lobos D. Não perm itiu que sua m ente criasse a im agem de outro am igo sendo m orto pelos m onstros guardiões de Leto, m as a im aginação exerceu um encantam ento sobre ele. Kwuteg pensou em um a m aldição contra o tirano, m as não desperdiçou fôlego em pronunciá-la. Ainda restava um a chance de que pudesse alcançar o santuário do Rio Idaho. Kwuteg sabia o que seus am igos pensavam a respeito dele — até m esm o Siona. Sem pre fora conhecido com o um poupador. Mesm o quando criança ele reservava suas energias até o m om ento m ais necessário, parcelando suas reservas com o que por avareza.
A despeito do j oelho ferido, Kwuteg acelerou o passo. Sabia que o rio estava próxim o. O ferim ento ultrapassara o lim ite da agonia, pulsando com o um a cham a que queim ava toda a sua perna e o lado esquerdo do corpo. Conhecia os lim ites de sua resistência. Sabia tam bém que Siona estava quase alcançando a água. O corredor m ais rápido de todos, ela carregava o pacote fechado e nele as coisas que haviam roubado da fortaleza no Sareer. Kwuteg focalizou os pensam entos naquele em brulho enquanto corria.
“Salve-o, Siona! Use-o para destruí-lo!”
O ruído dos lobos D penetrou na consciência de Kwuteg. Eles estavam m uito perto e ele agora sabia que não ia escapar.
“Mas Siona deve escapar!”
Arriscou um a olhada para trás e viu um dos lobos correndo para flanqueá-lo. O padrão de ataque im prim iu-se em sua consciência e, quando o lobo ao lado saltou, Kwuteg saltou tam bém . Colocando um a árvore entre ele e a m atilha, m ergulhou por baixo do lobo do flanco e o agarrou por um a das pernas traseiras. Sem parar, segurando-o com am bas as m ãos, ele girou o lobo cativo com o um caj ado que espalhou os outros. Descobrindo que a criatura não era tão pesada quanto esperava, e quase apreciando a m udança na ação, ele golpeou os atacantes com sua arm a viva, num rodopio que derrubou dois deles com um quebrar de crânios. Infelizm ente, não podia guardar-se por todos os lados. Um m acho m agro o atingiu pelas costas, lançando contra um a árvore e fazendo-o perder sua arm a.
— Deus! — gritou ele.
A m atilha o cercou e Kwuteg alcançou a garganta do lobo m agro com seus dentes. Mordeu com cada gram a de seu desespero final. O sangue do lobo esguichou em seu rosto, cegando.
Rolando sem ter qualquer noção de para onde ia, Kwuteg agarrou outro lobo. Parte da m atilha se dissolveu num a turba, ganindo e rodopiando. Outra voltou-se contra os próprios com panheiros feridos. Mas a m aioria continuou sobre a vítim a. Denotes rasgaram a garganta de Kwuteg de am bos os lados.
Siona tam bém ouvira o grito de Ulot, e então o inconfundível silêncio, seguido pelos ganidos dos lobos que reassum iam a perseguição. Tam anho ódio a tom ou que ela sentiu que poderia explodir. Ulot fora incluído nessa m issão devido à sua habilidade analítica, sua capacidade para enxergar o todo a partir de um as poucas partes conhecidas. Fora Ulot que, tirando o indispensável am pliador de seu estoj o, exam inara os dois estranhos volum es que haviam encontrado com as plantas da Cidadela.
— Creio que é um código — dissera Ulot.
E Radi, pobre Radi, que fora o prim eiro da equipe a m orrer... Radi dissera:
— Não podem os nos perm itir o peso extra. Jogue-os fora.
Ulot fora contra:
— Coisas sem im portância não são ocultas desse m odo.
Kwuteg se unira a Radi:
— Viem os em busca dos planos da Cidadela, e estam os com eles. Aquelas coisas são m uito pesadas.
Mas Siona concordara com Ulot:
— Eu as carrego.
Isso term inara a discussão.
“Pobre Ulot.”
Todos sabiam que ele era o pior corredor da equipe. Ulot era lento na m aioria das coisas, m as a clareza de sua m ente não podia ser negada.
“Ele é confiável.”
Ulot fora confiável.
Siona controlou o ódio e usou sua energia para aum entar o passo. Árvores passavam com o m anchas à luz da lua. Havia penetrado no vazio sem tem po dos corredores, onde nada m ais restava senão seus próprios m ovim entos, seu próprio corpo fazendo o que fora condicionado a fazer.
Os hom ens a achavam bonita quando corria, Siona sabia disso. Seu cabelo com prido era preso num coque para evitar que chicoteasse ao vento. Havia acusado Kwuteg de ser tolo quando ele se recusara a lhe copiar o estilo.
“Onde estará Kwuteg?”
Seu cabelo não era com o o de Kwuteg. Tinha aquele castanho escuro que às vezes se confunde com o preto, m as que não é realm ente preto, não com o o de Kwuteg, de fato.
Na m aneira com o os genes ocasionalm ente fazem , suas feições copiavam as de um a ancestral há m uito tem po m orta: rosto suavem ente oval com boca generosa e olhos de alerta consciência acim a do nariz pequeno. O corpo tornara-se m agro pelos anos de corrida, m as ainda enviava fortes estím ulos sexuais aos hom ens em torno dela.
“Onde estará Kwuteg?”
A m atilha ficara em silêncio e isso a enchia de preocupação. Eles tinham feito isso antes de derrubar Randi. E fora o m esm o quando pegaram Setuse.
Disse a si m esm a que o silêncio poderia significar outras coisas. Kwuteg tam bém era silencioso e forte. O ferim ento não parecera incom odá-lo m uito.
Siona com eçou a sentir dor no peito, o final do fôlego, coisa que ela conhecia m uito bem dos longos quilôm etros de treinam ento. O suor ainda se derram ava em seu corpo, sob o fino traj e de corrida. A m ochila, com a preciosa carga fechada para a travessia do rio, encontrava-se bem presa em suas costas. Ela pensou nos planos da Cidadela ali dobrados.
“Onde será que Leto esconde sua reserva de especiaria?”
Tinha que ser em algum lugar dentro da Cidadela. Tinha que ser. Em algum lugar das plantas haveria um indício. A especiaria m elange pela qual a Bene Gesserit, a Corporação e todos os outros tinham fom e... esse era um preço que valia o risco.
E aqueles dois volum es cifrados. Kwuteg estivera certo em um a coisa: o papel de cristal riduliano era pesado. Mas ela com partilhara a excitação de Ulot. Algum a coisa im portante estava oculta naquelas linhas em código.
Um a vez m ais os ávidos ganidos de caça dos lobos soaram na floresta atrás dela.
“Corra, Kwuteg! Corra!”
Agora, bem diante dela, através das árvores, podia ver a larga faixa de clareira que bordej ava o Rio Idaho. Vislum brou o brilho da lua além da clareira.
“Corra, Kwuteg!”
Ansiava por ouvir um som da parte dele, qualquer som . Som ente eles dois restavam agora, dos 11 que tinham iniciado a corrida. Nove haviam pago com suas vidas por essa aventura:
Radi, Aline, Ulot, Setuse, Inineg, Onem ao, Huty e, Mem ar e Oala.
Siona pensou em seus nom es e por cada um deles enviou um a prece silenciosa aos velhos deuses, não ao tirano Leto. Em especial, rezou ao Shai-Hulud.
“Eu rezo ao Shai-Hulud que vive nas areias.
De repente saiu da floresta, encontrando-se no trecho de solo ceifado, brilhando ao luar. Bem adiante, além da estreita praia de seixos, a água cham ava por ela. A praia parecia prateada contra o fluir oleoso.
Um grito alto, vindo de trás das árvores, quase a fez vacilar. Reconheceu a voz de Kwuteg acim a dos sons selvagens dos lobos. Kwuteg gritando para ela sem m encionar o nom e, um grito inconfundível com um a única palavra que resum ia incontáveis conversas — um a m ensagem de vida e m orte.
— Corra!
Os sons da m atilha transform aram -se num a terrível com oção, um frenesi de ganidos e rosnados, e nada m ais se ouviu de Kwuteg. Sabia agora que ele gastara as últim as energias de sua vida.
“Retardando-os para m e aj udar a escapar.”
Obedecendo ao grito de Kwuteg, ela disparou para a beira do rio e m ergulhou de cabeça na água. O rio foi um choque enregelante depois do calor da corrida. Atordoou-a por um m om ento e ela se debateu para diante, lutando a fim de nadar e recuperar o fôlego. A m ochila preciosa flutuava e batia na parte de trás de sua cabeça.
O rio Idaho não era largo naquele trecho, não tinha m ais que 50 m etros, fazendo um a curva suave, com um denteado de areia orlada de raízes e bancos luxuriantes de capim e j uncos, onde a água se recusava a seguir as linhas retas proj etadas pelos engenheiros de Leto. Siona sentiu-se m ais forte ante o conhecim ento de que os lobos D tinham sido condicionados para pararem na água. Suas fronteiras territoriais tinham sido traçadas, desse m odo, o rio de um lado e a m uralha do deserto do outro. Ainda assim , ela nadou os últim os m etros sob a água e em ergiu nas som bras de um banco, antes de se voltar e olhar para trás.
A m atilha parara, enfileirando-se ao longo da m argem — todos, exceto um , que descera até a beira do rio e se inclinava sobre as patas dianteiras quase dentro da correnteza. Ela o ouviu ganir.
Siona sabia que o lobo podia vê-la. Sem dúvida, os lobos D eram notáveis por seu agudo senso de visão. Eram localizadores na ancestralidade dos guardiães florestais de Leto, e ele os cruzava apurando o sentido da visão. Perguntou a si m esm a se dessa vez os lobos quebrariam o condicionam ento. Eles eram principalm ente caçadores unidos. Se aquele na beira do rio entrasse na água, todos os outros poderiam segui-lo. Siona prendeu a respiração. Sentia a exaustão acum ulada. Tinham atravessado quase 30 quilôm etros, a m etade disso com os lobos D nos calcanhares.
O lobo na beira do rio uivou e saltou de volta para se reunir aos com panheiros. Ante algum sinal silencioso, eles se voltaram , retornando à floresta.
Siona sabia para onde iam . Os lobos D tinham perm issão para com er qualquer coisa que abatessem na Floresta Proibida. Todos sabiam disso. Era o m otivo pelo qual os lobos vagueavam na floresta — os guardiões do Sareer.
— Você pagará por isso, Leto — ela sussurrou. Era um som abafado, m uito próxim o do suave sussurro da água contra os j uncos logo abaixo dela. — Você pagará por Ulot, por Kwuteg e por todos os outros. Você pagara.
Lançou-se para a frente com suavidade e flutuou na corrente até que seus pés encontraram a prim eira praia estreita. Lentam ente, arrastando o corpo fatigado, ela saiu da água e parou para verificar se os conteúdos fechados na m ochila perm aneciam secos. O selo não fora rom pido. Ela olhou para aquilo por um m om ento, sob a luz do luar, então ergueu os olhos para a m uralha da floresta do outro lado do rio.
“O preço foi pago. Dez am igos queridos.”
Lágrim as cintilaram em seus olhos, m as ela tinha a herança dos antigos Frem en e suas lágrim as foram poucas. A aventura através do rio, diretam ente pela floresta, enquanto os lobos patrulhavam as fronteiras do norte, depois através do Últim o Deserto do Sareer e sobre as m uralhas da Cidadela — tudo isso j á assum ia as nuances de um sonho em sua m ente... até m esm o a fuga dos lobos, que ela antecipara porque era certo que a m atilha guardiã cruzaria a trilha dos invasores e estaria esperando... tudo um sonho. Era o passado.
“Eu escapei.”
Colocou o estoj o na m ochila fechada e a prendeu um a vez m ais nas costas.
“Eu penetrei em suas defesas, Leto.”
Siona pensou então nos volum es cifrados. Tinha certeza de que algum a coisa oculta naquelas linhas em código abriria o cam inho para a sua vingança.
“Eu vou destruí-lo, Leto!”
Não “nós o destruirem os!” Esse não era o cam inho de Siona. Ela o faria sozinha.
Virou-se cam inhando para os pom ares além da m argem ceifada do rio. Enquanto cam inhava, repetia o j uram ento, acrescentando em voz alta o velho enunciado Frem en que term inava com seu nom e com pleto:
— Siona Ibn Fuad al-Sey efa Atreides é quem o am aldiçoa, Leto. Você pagará por tudo!
O que se segue é um a tradução de Hadi Benotto dos volum es descobertos em Dar-es-Balat:
Eu nasci Leto Atreides II há mais de 3 mil anos padrão, medidos a partir do momento em que faço estas palavras serem impressas. Meu pai era Paul Muad’Dib. Minha mãe, sua consorte Fremen, Chani. Minha avó materna era Faroula, notável especialista em ervas entre os Fremen. Minha avó paterna foi Jessica, produto do projeto de procriação Bene Gesserit em sua busca por um elemento masculino capaz de compartilhar os poderes das Reverendas Madres da Irmandade. Meu avô materno foi Liet-Kynes, o planetólogo que organizou a transformação ecológica de Arrakis. Meu avô paterno foi O Atreides, descendente da casa de Atreus e possuidor de uma ancestralidade que recua diretamente até o original grego.
Basta dessas tolices!
Meu avô paterno morreu, como muitos bons gregos morreram, tentando matar seu inimigo mortal, o velho Barão Vladimir Harkonnen. Ambos agora repousam inconfortavelmente em minhas memórias ancestrais, e mesmo meu pai não está contente. Eu fiz o que ele temia fazer e agora sua sombra deve partilhar as conseqüências.
O Caminho Dourado o exige. E que é o Caminho Dourado?, você me pergunta. E a sobrevivência da humanidade, nem mais, nem menos. Nós, que possuímos a presciência, que conhecemos as armadilhas em nossos futuros humanos, possuímos sempre essa responsabilidade.
Sobrevivência.
Como você se sente a respeito disso? Suas mesquinhas alegrias e mágoas, até mesmo seus enlevos e agonias, raramente nos preocupam. Meu pai tinha esse poder. Eu o possuo ainda mais forte. Nós podemos olhar, quando queremos, através dos véus do Tempo.
Este planeta Arrakis, a partir do qual dirijo meu Império multigaláctico, não é mais como era nos dias em que o conheciam como Duna. Naquele tempo o planeta inteiro era um deserto. Agora existe apenas um remanescente muito pequeno, o meu Sareer. O gigantesco verme da areia não vagueia mais livremente produzindo a especiaria melange. A especiaria! Duna era notado apenas como fonte da melange, a única fonte. Que substância extraordinária! Nenhum laboratório jamais foi capaz de reproduzi-la. E se trata da substância mais valiosa que a humanidade jamais encontrou.
Sem a melange para disparar a presciência linear dos Navegadores da Corporação, as pessoas só conseguem atravessar os parsecs a passo de tartaruga. Sem a melange, a Bene Gesserit não pode produzir Reveladoras da Verdade e Reverendas Madres. Sem as propriedades geriátricas da melange, as pessoas vivem e morrem de acordo com as escalas antigas: não mais que uns 100 anos de vida. Agora, a única especiaria existente é a que está guardada nos depósitos da Corporação e da Bene Gesserit, além de uns pequenos tesouros entre o que restou das Grandes Casas e do meu gigantesco depósito, que todos ambicionam. Como eles gostariam de poder me assaltar! Mas não se atrevem. Sabem que eu destruiria a todos antes de me render.
Não. Eles chegam aqui de chapéu na mão e esmolam por melange. Eu a forneço como recompensa e a nego como punição. E como eles me odeiam por isso.
Esse é o meu poder, eu lhes digo. E a minha dádiva.
Com ela eu criei a Paz. Eles desfrutaram de mais de 3 mil anos da Paz de Leto. Uma tranqüilidade imposta que a humanidade só conheceu por breves períodos antes da minha ascensão. E, caso tenham esquecido, estudem a Paz de Leto uma vez mais nestes meus diários.
Eu comecei estes registros no primeiro ano da minha administração, nos primeiros espasmos da minha metamorfose, quando era principalmente humano, até mesmo visivelmente humano. A pele da truta da areia que eu aceitei (e meu pai recusou) e que me deu uma força ampliada, além da virtual imunidade a ataques convencionais e ao envelhecimento — essa pele cobria uma forma ainda reconhecível como humana: duas pernas, dois braços, um rosto humano emoldurado nas dobras de pergaminho da pele de truta da areia.
Ah, aquele rosto! Ainda o possuo — a única pele humana que exponho ao universo. Todo o resto da minha carne permanece coberto pelos corpos unidos daqueles pequenos vetores da areia profunda que um dia poderão converter-se em gigantescos vermes da areia.
Algo que eles farão... algum dia.
Freqüentemente penso em minha metamorfose final, aquela semelhança de morte. Conheço o modo pelo qual ela virá, mas não conheço o momento nem os outros seres que dela tomarão parte. Essa é uma coisa que não posso saber. Só sei se o Caminho Dourado continua ou termina. E, enquanto faço com que estas palavras sejam registradas, o Caminho Dourado continua e, por isso, pelo menos, me sinto contente.
Não posso mais sentir os cílios da truta da areia sondando a minha carne, apreendendo a água do meu corpo dentro de suas barreiras placentárias. Somos virtualmente um corpo agora, elas são a minha pele e eu sou a força que as move como um todo... na maior parte do tempo.
Enquanto estou escrevendo isto, o todo pode ser considerado um tanto grosseiro. Meu corpo tem aproximadamente sete metros de comprimento e algo mais que dois metros de diâmetro, frisado na maior parte de sua extensão, com meu rosto Atreides posicionado na altura de um homem, em uma das extremidades.
Os braços e mãos (ainda bem reconhecíveis como humanos) vêm logo abaixo. As pernas e os pés? Bem, estes atrofiaram-se quase inteiramente. Apenas nadadeiras, é o que restou, e estas recuaram ao longo do meu corpo. Meu peso total é de aproximadamente cinco toneladas antigas. Acrescento esses detalhes porque agora sei que serão de interesse histórico.
Como faço para carregar comigo todo esse peso? Principalmente na minha Carreta Real, manufaturada pelos Ixianos. Estão chocados? As pessoas invariavelmente odeiam e temem os Ixianos ainda mais do que me temem ou odeiam. Melhor o diabo, vocês sabem. Pois quem sabe o que os Ixianos podem construir ou inventar? Quem sabe?
Eu decerto não sei. Não inteiramente.
Mas tenho certa simpatia pelos Ixianos. Eles acreditam tão fortemente em sua tecnologia, em sua ciência, em suas máquinas. E como acreditamos (não importa a razão), nos entendemos entre nós, os Ixianos e eu. Eles fizeram muitos engenhos para mim, e acreditam conquistar assim a minha gratidão. Estas próprias palavras que estão lendo são impressas por um artefato Ixiano, um ditadeiro, como é chamado. Se eu produzir meus pensamentos de modo adequado, o ditadeiro é ativado. Só faço pensar desta maneira e as palavras são impressas para mim em folhas de cristal riduliano com apenas uma molécula de espessura. Algumas vezes mando fazer cópias impressas num material de menor capacidade de permanência. Duas cópias desse tipo é que me foram roubadas por Siona.
Ela não é fascinante, a minha Siona? Na medida em que compreenderem sua importância para mim, vocês poderão indagar se eu realmente teria permitido que ela morresse lá na floresta. Não tenham dúvida quanto a isso. A morte é uma coisa muito pessoal, raramente interfiro com ela. Nunca no caso de alguém que deva ser testado, como é o caso de Siona. Eu a deixaria morrer em qualquer ocasião. Afinal, eu poderia produzir uma nova candidata em muito pouco tempo, da maneira como meço o tempo.
Mas até a mim ela fascina. Eu a observei lá na floresta. Observei-a através de meus engenhos Ixianos, e perguntando-me por que não previ essa aventura. Mas Siona é... Siona. Por isso não fiz qualquer movimento para deter os lobos. Estaria errado se o fizesse. Os lobos D não passam de uma extensão dos meus propósitos, e meus propósitos são os maiores predadores já conhecidos.
— Os diários de Leto II
O seguinte diálogo, de pouca extensão, é atribuído a um m anuscrito cham ado “O Fragm ento de Welbeck”. Aponta-se com o autor Siona Atreides Os participantes do diálogo são a própria Siona e seu pai, Moneo, que era (com o todas as histórias revelam ) m aj ordom o e aj udante-chefe de Leto II. Data de um a época em que Siona ainda não atingira os 20 anos e estava sendo visitada pelo pai em seus aloj am entos na Escola das Oradoras Peixes, na Cidade Festival de Onn, o m aior centro populacional do planeta agora conhecido com o Rakis. De acordo com os papéis de identificação do m anuscrito, Moneo visitava sua filha em segredo para avisá-la de que se arriscava a ser destruída.
SIONA: Com o sobreviveu com ele por tanto tem po, pai? Ele m ata todos aqueles que se encontram perto dele. Todos sabem disso.
MONEO: Não! Você está errada. Ele não m ata ninguém .
SIONA: Não precisa m entir a respeito dele.
MONEO: Eu não m into. Ele não m ata ninguém .
SIONA: Então, com o explica as m ortes conhecidas?
MONEO: E o Verm e que m ata. O Verm e é Deus. Leto vive no colo de Deus, m as ele não m ata ninguém .
SIONA: Então, com o você sobrevive?
MONEO: Eu sei reconhecer o Verm e. Posso vê-lo em seu rosto e em seus m ovim entos. Sei quando o Shai-Hulud se aproxim a.
SIONA: Ele não é o Shai-Hulud!
MONEO: Bem , essa era a m aneira pela qual eles cham avam o Verm e nos dias dos Frem en.
SIONA: Já li sobre isso. Mas ele não é o Deus do Deserto.
MONEO: Fique quieta, m enina tola! Você não conhece nada sobre estas coisas.
SIONA: Sei que o senhor é um covarde.
MONEO: Quantas coisas você desconhece. Nunca se colocou lá, onde eu m e coloco, e viu aquilo em seus olhos, nos m ovim entos de suas m ãos.
SIONA: Que faz então quando o Verm e se aproxim a?
MONEO: Saio.
SIONA: Isso é prudente. Ele j á m atou nove Duncans Idahos, disso tem os certeza.
MONEO: Eu lhe digo que ele não m ata ninguém !
SIONA: E qual a diferença? Leto ou o Verm e, eles são um só corpo agora.
MONEO: Mas são duas coisas distintas — Leto, o Im perador, e O Verm e que é Deus.
SIONA: Você está louco!
MONEO: Talvez. Mas eu sirvo a Deus.
Eu sou o mais ardente observador de pessoas que já existiu. Eu as observo dentro de mim e do lado de fora. Passado e presente podem fundir-se em estranhas colocações dentro de mim. E enquanto a metamorfose continua em minha carne, coisas maravilhosas acontecem aos meus sentidos. E como se eu visse tudo em dose. Tenho a audição extremamente aguda, assim como a visão, além de um olfato extraordinariamente sensível. Posso detectar e identificar feromônios a três partes por milhão. Eu sei, já testei isso. Você não pode esconder muita coisa dos meus sentidos. Creio que você” ficaria horrorizado com o que posso detectar apenas pelo cheiro. Seus feromônios revelam-me o que você está fazendo ou se preparando para fazer. E gesto e postura! Certa vez fiquei olhando, durante metade de um dia, um velho sentado num banco em Arrakeen. Ele era um descendente de quinta geração de Stilgar, o Naib, e nem mesmo sabia disso. Observei o ângulo do seu pescoço, as dobras da pele abaixo do queixo, os lábios rachados e a umidade em torno das narinas. Os poros atrás das orelhas e os fios de cabelo grisalho escapando por detrás do capuz de um antiqüíssimo traje destilador. Nem uma vez ele detectou que estava sendo observado. Ah! Stilgar teria percebido num segundo ou dois. Mas esse velho estava apenas esperando por alguém que nunca chegou. Acabou por se levantar e sair. Estava muito rígido depois de todo aquele tempo sentado. Eu sabia que nunca mais o veria em carne e osso novamente. Ele estava muito perto da morte e sua água certamente seria desperdiçada. Bem, isso não importava mais.
— Os diários roubados
Leto pensava que fosse o lugar m ais interessante de todo o universo, o lugar onde ele esperava a chegada de seu atual Duncan Idaho. Pela m aioria dos padrões hum anos, era um espaço gigantesco, o núcleo de um a intrincada série de catacum bas em baixo de sua Cidadela. Câm aras com 30 m etros de altura e 20 de largura partiam com o raios do eixo onde ele aguardava. Seu carro fora posicionado no centro de um a câm ara circular abobadada, com 400 m etros de diâm etro e 100 de altura no ponto m ais elevado acim a dele.
Ele achava essas dim ensões tranquilizadoras.
Era início da tarde na Cidadela, m as a única luz na câm ara vinha da disposição casual de alguns globos lum inosos, presos a suspensores que flutuavam aj ustados para um brilho laranj a. A luz não penetrava m uito longe dentro dos raios, m as as m em órias de Leto lhe revelavam a posição exata de tudo que havia lá — a água, os ossos, a poeira de seus ancestrais e dos Atreides que haviam vivido e m orrido desde os tem pos de Duna. Todos eles se encontravam ali, ao lado de alguns recipientes de m elange para criar a ilusão de que esse era todo o seu tesouro, se algum dia a situação chegasse a tal extrem o.
Leto sabia por que o Duncan se aproxim ava. Idaho soubera que os Tleilaxu estavam fazendo outro Duncan, outro ghola criado segundo as especificações exigidas pelo Im perador-Deus. E este Duncan tem ia estar sendo substituído após quase 60 anos de serviço. Era sem pre algum a coisa dessa natureza que iniciava a subversão dos Duncans. Um enviado da Corporação tinha aguardado Leto m ais cedo para adverti-lo de que os Ixianos haviam entregue um a arm a laser a esse Duncan.