O Imperador-Deus de Duna
Frank Herbert
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
— Não a criei, Moneo? — Leto perguntou. — Não controlei as condições de sua ancestralidade e de sua criação?
— Ela é m inha única filha, m inha única criança, Senhor.
— De certo m odo ela m e lem bra o Harq al-Ada — disse Leto.
— Não parece haver nela m uito de Ghani, em bora isso tenha que estar presente de algum a form a. Talvez ela rem onte aos nossos ancestrais no program a de Procriação da Irm andade.
— Por que diz isso, Senhor?
Leto refletiu. Haveria necessidade de que Moneo conhecesse esse detalhe particular a respeito de sua filha? Siona podia escapar à visão presciente algum as vezes. O Cam inho Dourado perm anecia, m as Siona se apagava. E no entanto... ela não era presciente. Ela era um fenôm eno único e se sobrevivesse... Leto decidiu que não atrapalharia a eficiência de Moneo com inform ações desnecessárias.
— Relem bre seu próprio passado — ele disse.
— De fato, m eu Senhor! E ela possui tam anho potencial. tão m aior do que algum dia tive. Mas isso a faz perigosa tam bém .
— E ela não ouvirá seus conselhos — observou Leto.
— Não, m as eu possuo um agente em sua rebelião.
“Deve ser Topri”, pensou Leto.
Não era preciso presciência para saber que Moneo devia ter um agente plantado entre os rebeldes. Desde a m orte da m ãe de Siona Leto conhecera com certeza crescente o curso das ações de Moneo. As suspeitas de Nay la apontavam para Topri. E agora Moneo exibia seus tem ores e revelava suas ações, oferecendo isso com o o preço da contínua segurança de sua filha.
“Que pena que ele tenha tido apenas essa filha com aquela m ulher.”
— Lem bra-se de com o o tratei em circunstâncias sem elhantes
— disse Leto. — Conhece as exigências do Cam inho Dourado tão bem com o eu.
— Mas eu era j ovem e tolo, m eu Senhor.
— Jovem e im petuoso, j am ais um tolo.
Moneo sorriu sem graça ante esse cum prim ento, seus pensam entos inclinando-se cada vez m ais em direção à crença de que agora entendia as intenções de Leto. “E os perigos tam bém !”
Alim entando sua crença, Leto disse:
— Sabe com o adoro surpresas.
“Isso é verdade”, pensou Leto. “Moneo sabe disso. Mas m esm o quando Siona m e surpreende, ela m e faz lem brar aquilo que eu m ais tem o — o tédio e a rotina que destruiriam o Cam inho Dourado. Olhe com o o tédio m e colocou tem porariam ente à m ercê do poder de Duncan! E Siona é o contraste através do qual encaro m eus m ais profundos tem ores. A preocupação de Moneo quanto à m inha segurança é bem j ustificada.”
— Meu agente continuará vigiando os novos com panheiros dela, m eu Senhor. Não gosto deles.
— Os com panheiros dela? Eu m esm o tive tais com panhias m uito tem po atrás.
— Rebeldes, Senhor? — Moneo parecia genuinam ente surpreso.
— Não m e provei um am igo da rebelião?
— Mas Senhor...
— As aberrações do nosso passado são m uito m ais num erosas do que possa pensar!
— Sim , m eu Senhor. — Moneo estava desconcertado. m as ainda assim curioso. E ele sabia que o Im perador-Deus algum as vezes se tornava loquaz após a m orte de um Duncan. — Deve ter visto m uitas rebeliões, Senhor.
Involuntariam ente, os pensam entos de Leto m ergulharam nas m em órias erguidas por tais palavras.
— Ah, Moneo — ele m urm urou. — Minhas viagens pelos labirintos ancestrais m em orizaram incontáveis lugares e eventos que eu nunca desej ei ver repetidos.
— Posso im aginar suas j ornadas interiores, Senhor.
— Não, não pode. Já vi povos e planetas, em tam anho núm ero que eles perdem o significado até m esm o na im aginação. Oh, e as paisagens pelas quais passei. A caligrafia de estradas alienígenas vislum brada desde o espaço e im pressas em m inha m ais profunda visão interior. A escultura carcom ida de desfiladeiros e penhascos, de galáxias que m e transm itiram o conhecim ento de que sou apenas um cisco.
— Não, Senhor, certam ente que não é.
Menos que um cisco! Já vi povos e suas sociedades inúteis através de tão repetitivas posturas que suas tolices m e enchem de tédio, está m e ouvindo?
— Não pretendia enfurecê-lo, m eu Senhor — disse Moneo com hum ildade.
— Você não m e enfurece. Algum as vezes m e irrita, apenas isso. Não pode im aginar o que eu vi — califas e raj ás, bashares, reis e im peradores, prim itos e presidentes. Já os observei a todos. Cada chefe feudal. Cada pequeno faraó.
— Esqueça m inha presunção, Senhor.
— Malditos rom anos! — gritou Leto.
Ele falou para o seu interior, repetindo a m aldição para os ancestrais. “Malditos rom anos!”
A gargalhada deles o expulsou de sua arena interior.
— Não com preendo, Senhor — arriscou Moneo.
— E verdade. Você não com preende. Os rom anos transm itiram a doença faraônica com o fazendeiros espalhando sem entes para a próxim a colheita — césares, kaiseres, czares, im peradores... caseris... palatos... m alditos faraós!
— Meus conhecim entos não abrangem todos esses títulos, Senhor.
— Eu posso ser o últim o da linha, Moneo. Reze para que assim sej a.
— O que o m eu Senhor ordenar.
Leto olhou para baixo na direção do hom em .
— Nós som os os m atadores do m ito, você e eu, Moneo. Esse é o sonho que com partilham os. E eu lhe asseguro, falando do trono olím pico de um Deus, que o governo é sem pre um m ito com partilhado. Quando o m ito m orre, assim m orre o governo.
— Assim m e ensinou, Senhor.
— Aquele hom em -m áquina, o Exército, criou nosso sonho atual, m eu am igo.
Moneo pigarreou.
Leto reconheceu os pequenos sinais de im paciência da parte do m aj ordom o.
“Moneo entende a respeito de exércitos. Sabe o sonho de tolo que foi a idéia de que os exércitos eram instrum entos básicos de governo.”
Com o Leto continuasse em silêncio, Moneo cam inhou até a pistola laser e a apanhou do frio chão da cripta. Com eçou a desm ontá-la.
Leto o observava, pensando com o essa m inúscula cena representava a essência do m ito do Exército. O Exército im pulsionava a tecnologia porque o poder das m áquinas parecia tão óbvio para os de visão curta.
“Aquela pistola laser não é m ais que um a m áquina. Mas todas as m áquinas falham ou são superadas. Ainda assim , o Exército reza na catedral de tais coisas — ao m esm o tem po fascinado e tem eroso. Olhem com o as pessoas tem em os Ixianos! Em suas entranhas, o Exército sabe que é um Aprendiz de Feiticeiro. Ele liberta a tecnologia e nunca m ais consegue tornar a prender a m ágica na garrafa.
“Eu lhes ensinei outra m ágica.”
E Leto falou às bordas em seu interior:
“Estão vendo? Moneo desarm ou o instrum ento m ortífero. Um a conexão partida aqui, um a pequena cápsula esm agada ali.”
Leto cheirou. Ele sentia os esteres de um óleo preservativo no cheiro da transpiração de Moneo.
Ainda falando ao seu interior, Leto acrescentou: “Mas o gênio não está m orto. A tecnologia gera a anarquia. Ela distribui essas ferram entas ao acaso. E com elas a provocação para a violência. A habilidade de construir e usar instrum entos de destruição selvagem vai passando inevitavelm ente para as m ãos de grupos cada vez m enores, até que o últim o desses grupos é um único indivíduo.”
Moneo retornou para um ponto abaixo de Leto, segurando a pistola laser, desm ontada, inform alm ente na m ão direita.
— Existe um boato em Parella e nos planetas de Dan a respeito de um j ihad contra coisas com o esta aqui.
Moneo ergueu a arm a laser e sorriu, m ostrando que conhecia o paradoxo im plícito em tais coisas.
Leto fechou os olhos. As hordas dentro dele queriam argum entar, m as ele as calou pensando: “Jihads criam exércitos. O Jihad Butleriano tentou livrar nosso universo das m áquinas que sim ulam a m ente do hom em . Os Butlerianos deixaram exércitos em seu rastro e os Ixianos ainda m anufaturam engenhos questionáveis... pelos quais lhes agradeço. Qual é o anátem a? A m otivação para devastar, não im portam os instrum entos.”
— Aconteceu — m urm urou ele.
— Senhor?
Leto abriu os olhos.
— Irei para a m inha torre — disse. — Preciso de m ais tem po para lam entar o m eu Duncan.
— O novo Duncan j á se encontra a cam inho — disse Moneo.
Você a primeira pessoa a encontrar meu diário em pelo menos 4 mil anos, cuidado. Não se sinta orgulhoso de sua privacidade ao ler as revelações do meu arquivo Ixiano. Vai encontrar muita dor nelas. A não ser alguns vislumbres necessários para me assegurar de que o Caminho Dourado continuava, eu nunca desejei perscrutar além desses 4 milênios. Por isso não estou certo do que os eventos registrados em meus diários irão significar para a sua época. Apenas sei que meus diários caíram no esquecimento e que os acontecimentos que neles reconto terão sofrido indubitável distorção histórica através dos Enos. Eu lhes asseguro que a habilidade de vislumbrar nosso futuro pode tornar-se tediosa. Mesmo sendo considerado um deus, como certamente o fui, isto pode converter-se num tédio derradeiro. A mim me ocorreu, mais de uma vez, que o tédio sagrado constitui razão suficiente para a criação do livre arbítrio.
— Inscrição no Depósito de Dar-es-Balat
“Eu sou Duncan Idaho.”
Isso era tudo que ele desej ava saber com certeza. Não apreciava as explicações dos Tleilaxu ou suas “histórias”. Mas os Tleilaxu haviam sido sem pre tem idos. Desacreditados e tem idos.
Eles o haviam feito descer no planeta num pequeno ônibus espacial da Corporação, chegando pela linha do crepúsculo, com o brilho esverdeado da corôa solar aparecendo ao longo do horizonte enquanto m ergulhavam na som bra do planeta. O espaço-porto não se parecera nem um pouco com qualquer coisa de que ele se lem brasse. Era m aior e possuía um anel de prédios estranhos.
— Tem certeza de que aqui é Duna? — ele perguntara.
— Arrakis — corrigira sua escolta de Tleilaxu.
E eles o tinham levado apressadam ente, dentro de um carro fechado, até esse prédio, em algum ponto do interior da cidade que cham avam de Onn, dando ao “n” um a crescente e estranha inflexão nasal. A sala na qual o deixaram tinha aproxim adam ente três m etros quadrados, e na verdade não passava de um cubo. Não havia sinal de globos lum inosos, m as o lugar se encontrava cheio de um a luz am arela e quente.
“Eu sou um ghola”, disse para si m esm o.
Isso fora um choque, m as tinha que acreditar. Estar vivo sabendo que tinha m orrido era prova suficiente. Os Tleilaxu haviam retirado células de sua carne m orta e feito crescer um broto em seus tanques axlotl. E o broto se convertera em seu corpo através de um processo que o fizera sentir-se, de início, um estranho em sua própria carne.
Olhou para o próprio corpo. Estava vestido em calças m arrons-escuras e um a j aqueta de tecido grosso que lhe irritava a pele. Sandálias protegiam -lhe os pés. Exceto pelo corpo, isso era tudo que haviam lhe dado, um a parcim ônia que revelava algum a coisa a respeito do caráter real dos Tleilaxu.
Não havia m obília na sala. Eles o haviam feito entrar através de um a única porta que não tinha m açaneta pelo lado de dentro. Olhou para o teto, à volta, na direção das paredes e da porta. A despeito do aspecto despido do lugar, sentia estar sendo vigiado.
— Mulheres da Guarda Im perial virão buscá-lo — eles haviam dito. E então tinham ido em bora, sorrindo um para o outro.
Mulheres da Guarda Im perial?
A escolta dos Tleilaxu exibira um prazer sádico em expor suas habilidades na técnica de m udança de form as corporais. Ele nunca soubera, de um instante para o outro, que nova form a o fluxo plástico da carne deles iria apresentar.
“Malditos dançarm os faciais!”
Eles sabiam tudo a respeito dele, é claro, sabiam o quanto aqueles “capazes de assum ir m últiplas form as” o desagradavam .
No que poderia acreditar vindo de Dançarm os Faciais? Muito pouco. Poderia crer em algum a coisa do que eles dissessem ?
“Meu nom e. Sei o m eu nom e.”
E tinha as suas m em órias. Eles lhe haviam im presso a identidade. Supunha-se que gholas fossem incapazes de recuperar suas identidades originais. Mas os Tleilaxu haviam feito exatam ente isso e ele fora forçado a crer porque entendia com o fora feito.
No início, ele sabia, existira apenas um ghola plenam ente desenvolvido, um a carne adulta sem nom e ou m em órias — um palim psesto sobre o qual os Tleilaxu poderiam ter escrito qualquer coisa que tivessem desej ado.
— Você é Ghola — haviam dito.
Esse fora o seu único nom e durante algum tem po. Ghola fora tratado com o um a criança suscetível e condicionado para m atar um hom em em especial — um hom em tão sem elhante ao Paul Muad’Dib original, a quem ele servira e adorara, que Idaho agora suspeitava de que tivesse existido um outro ghola. Mas, se isso fosse verdade, com o eles haviam obtido as células originais?
E algum a coisa nas células de Idaho se havia rebelado contra m atar um Atreides. Ele se havia surpreendido, de faca na m ão, com a form a am arrada de um pseudo-Paul olhando para ele em furioso terror.
Mem órias tinham j orrado em sua consciência. Ele se lem brou Ghola e se lem brou Duncan Idaho.
“Eu sou Duncan Idaho, m estre-espadachim dos Atreides.”
Agarrava-se a essas m em órias enquanto esperava na sala am arela:
“Eu m orri defendendo Paul e sua m ãe em um a caverna-sietch, debaixo das areias de Duna. Fizeram -m e retornar a este planeta, m as Duna não existe m ais. Agora é apenas Arrakis.”
Tinha lido a história truncada que os Tleilaxu haviam fornecido, m as não acreditara nela. “Mais de 3.500 anos?” Quem poderia acreditar que sua carne perm anecia após tam anho espaço de tem po?’ Exceto que... com os Tleilaxu era possível. Tinha que crer nos próprios sentidos.
— Houve m uitos de você — seus instrutores haviam dito.
— Quantos?
— Lorde Leto fornecerá tal inform ação.
“Lorde Leto?”
A história dos Tleilaxu dizia que esse Lorde Leto era Leto II, neto do m esm o Leto a quem Idaho servira com devoção fanática. Mas esse segundo Leto (assim a história dizia) se havia transform ado em algum a coisa... algum a coisa tão estranha que Idaho perdera a esperança de com preender a transform ação.
Com o poderia um ser hum ano converter-se lentam ente num verm e da areia? Com o poderia qualquer criatura pensante viver por m ais de 3 m il anos? Nem m esm o as m ais loucas proj eções da especiaria geriátrica perm itiriam tam anho tem po de vida.
“Leto II, o Im perador-Deus?”
Não era para se acreditar na história dos Tleilaxu!
Idaho lem brava-se de um a criança estranha — gêm eos na verdade: Leto e Ghanim a. Filhos de Paul, filhos de Chani, que m orrera ao dar à luz. A história dos Tleilaxu dizia que Ghanim a tinha m orrido após um a vida relativam ente norm al, m as que o Im perador-Deus continuara vivendo, vivendo...
— Ele é um tirano — haviam dito seus instrutores. — Ordenou que o produzíssem os em nossos tanques axlotl e o enviássem os para o seu serviço. Nós não sabem os o que aconteceu aos seus predecessores.
“E aqui estou eu.”
Um a vez m ais Idaho deixou que seu olhar percorresse as paredes nuas e o teto.
O som fraco de vozes penetrou em sua consciência. Olhou para a porta. As vozes eram abafadas, m as pelo m enos um a delas soava fem inina.
“Mulheres da Guarda Im perial?”
A porta girou para dentro, sobre dobradiças silenciosas, e duas m ulheres entraram . A prim eira coisa que lhe captou a atenção foi o fato de um a das m ulheres usar um a m áscara, um capuz sem form a, de um negro que devorava a luz. Ela podia vê-lo claram ente através do capuz, Duncan bem o sabia, m as suas feições nunca se revelariam , nem m esm o ante os m ais sutis instrum entos de penetração. Aquele capuz revelava que os Ixianos, ou seus herdeiros, ainda se encontravam operando no Im pério. Am bas as m ulheres usavam tam bém uniform es de um a só peça, com um a cor azul forte e o falcão sím bolo dos Atreides bordado em verm elho sobre o seio esquerdo.
Idaho as observou enquanto fechavam a porta e se voltavam para ele.
A m ulher m ascarada tinha um corpo forte e volum oso. Cam inhava revelando o cuidado ilusório de um a fanática por m usculação profissional. A outra m ulher era esguia e graciosa com olhos am endoados e feições bem -definidas num a ossatura saliente. Idaho teve a im pressão de j á tê-la visto em algum lugar, m as não conseguia fixá-la na m em ória. Am bas carregavam facas-agulhas em bainhas colocadas nos quadris, e algum a coisa na m aneira com o se m ovim entavam revelou a Idaho que essas m ulheres seriam extrem am ente hábeis com tais arm as.
A esguia falou prim eiro.
— Meu nom e é Luli. Perm ita-m e que sej a a prim eira a lhe falar com o Com andante. Minha com panheira deve perm anecer no anonim ato. Nosso Senhor Leto o ordenou. Pode cham á-la de Am iga.
— Com andante? — ele indagou.
— É desej o de nosso Senhor Leto que com ande sua Guarda Real — disse Luli.
— É m esm o? Então vam os falar com ele a respeito disso.
— Oh, não! — Luli encontrava-se visivelm ente chocada.
— O Senhor Leto o cham ará quando for a hora. Enquanto isso ele desej a que cuidem os do seu conforto e de sua satisfação.
— E eu devo obedecer?
Luli m eram ente sacudiu a cabeça, intrigada.
— Serei um escravo?
Luli relaxou e sorriu.
— De m odo algum . E só que Lorde Leto tem preocupações enorm es, que exigem sua atenção pessoal. Ele precisa encontrar tem po para vê-lo. Enviou-nos porque estava preocupado quanto ao seu Duncan Idaho. Esteve por longo tem po nas m ãos suj as dos Tleilaxu.
“Tleilaxus suj os”, pensou Idaho.
Isso pelo m enos não tinha m udado.
Ele estava preocupado, entretanto, com um a referência em particular que surgira na explicação de Luli.
— Seu Duncan Idaho?
— Não é um guerreiro Atreides? — indagou Luli.
Ela o tinha apanhado. Idaho assentiu com a cabeça, virando-a levem ente para olhar a enigm ática m ulher m ascarada.
— Por que está usando m áscara?
— Não deve ser conhecido que eu sirvo ao Senhor Leto — disse ela num a voz que era um agradável contralto. Mas Idaho suspeitava de que isso tam bém fosse um a ilusão produzida pela m áscara.
— Então, por que se encontra aqui?
— O Senhor Leto confia em m im para verificar se você foi alterado pelos suj os Tleilaxu.
Idaho tentou engolir com um a garganta subitam ente seca. Tal pensam ento tinha-lhe ocorrido várias vezes a bordo do transporte da Corporação. Se os Tleilaxu podiam condicionar um ghola a tentar o assassinato de um am igo querido, que m ais não poderiam plantar na psique da carne regenerada?
— Vej o que pensou a respeito disso — disse a m ulher m ascarada.
— Você é um m entat? — perguntou Idaho.
— Oh, não! — interrom peu Luli. — O Senhor Leto não perm ite o treinam ento de m entats.
Idaho olhou para Luli e então voltou sua atenção para a m ulher m ascarada: “Sem m entats.” A história dos Tleilaxu não havia m encionado este fato interessante. Por que Leto teria proibido os m entats? Certam ente que a m ente hum ana treinada nas super-habilidades da com putação ainda possuiria seus usos. Os Tleilaxu lhe haviam assegurado que a Grande Convenção perm anecia em vigor e que os com putadores m ecânicos continuavam banidos. Certam ente essas m ulheres teriam conhecim ento de que os Atreides j á tinham usado m entats.
— Qual é a sua opinião? — a m ulher m ascarada indagou.
— Os suj os Tleilaxu m exeram com sua psique?
— Eu não... penso que tenham .
— Mas não tem certeza?
— Não.
— Não tem a, Com andante Idaho — ela disse. — Tem os m eios de nos certificar e m eios de lidar com tais problem as, se eles surgirem . Os suj os Tleilaxu tentaram tal coisa apenas um a vez e pagaram m uito caro por seu erro.
— Isso é tranqüilizador. O Senhor Leto enviou-m e algum a m ensagem ?
Luli respondeu:
— Ele nos m andou assegurá-lo de que ainda o am a, com o os Atreides sem pre o am aram . — Ela estava obviam ente adm irada com suas próprias palavras.
Idaho relaxou ligeiram ente. Com o um antigo servidor dos Atreides, soberbam ente treinado por eles, achara m uito fácil determ inar várias coisas a partir desse encontro. Essas duas haviam sido fortem ente condicionadas a um a obediência fanática. Se um a m áscara especial podia esconder a identidade daquela m ulher, haveria m uitas outras cuj os corpos seriam sem elhantes. Tudo isso revelava perigos à volta de Leto que ainda exigiriam os velhos e sutis serviços de espiões e um im aginativo arsenal de arm as.
Luli olhou para a com panheira.
— Que m e diz, Am iga?
— Ele pode ser levado à Cidadela — disse a m ulher m ascarada. — Este lugar não é bom . Os Tleilaxu estiveram aqui.
— Um banho quente e um a m uda de roupa seriam agradáveis — disse Idaho.
Luli continuava olhando para a Am iga.
— Tem certeza?
— A sabedoria do Senhor não pode ser questionada — disse a m ulher m ascarada.
Idaho não gostava do tom de fanatism o na voz desta Am iga, m as se sentia seguro ante a integridade dos Atreides. Eles poderiam parecer cínicos e cruéis ante estranhos ou inim igos, m as ante sua própria gente eram j ustos e leais. Acim a de tudo os Atreides eram leais à sua gente.
“E eu sou um deles” pensou Idaho. “Mas que terá acontecido ao eu que estou substituindo?” Sentia fortem ente que essas duas não responderiam sua pergunta.
“Mas Leto responderá.”
— Podem os ir? — ele perguntou. — Estou ansioso para lavar de m eu corpo o fedor dos suj os Tleilaxu.
Luli sorriu para ele.
— Venha. Eu vou banhá-lo eu m esm o.
Os inim igos aum entam a sua força.
Os aliados a enfraquecem .
Eu lhes digo isso na esperança de que os ajude a compreender por que agi da maneira como agi, no pleno conhecimento de que grandes forças se acumulavam em meu Império com apenas um desejo — o de me destruir. Você que lêem estas palavras podem saber muito bem o que realmente aconteceu, mas eu duvido de que compreendam o porque.
— Os diários roubados
A cerim ônia da “Exibição”, pela qual os rebeldes iniciavam suas reuniões, arrastara-se interm inavelm ente para Siona. Ela sentara-se na fileira da frente e olhara para todos os lados, exceto para Topri, que conduzia a cerim ônia a apenas alguns passos de distância. Essa sala, nos fossos de serviço abaixo de Onn, era um a que nunca tinham usado antes, m as tão sem elhante a Outros lugares de reunião que poderia ter sido usada com o m odelo padrão.
“Sala de Reuniões dos Rebeldes — Classe B”, ela pensou. Era um lugar oficialm ente designado com o câm ara de arm azenagem e seus globos lum inosos fixos não podiam ser regulados fora de um brilho branco. A sala tinha aproxim adam ente 30 passos de com prim ento e era ligeiram ente m enor em largura. Poderia ser alcançada através de um a série labiríntica de câm aras sem elhantes, um a das quais se encontrava convenientem ente repleta com um estoque de rígidas cadeiras de dobrar destinadas às pequenas câm aras onde dorm ia o pessoal de serviço. Dezenove dos com panheiros de rebelião de Siona ocupavam agora essas cadeiras em torno dela, com algum as deixadas vagas para os possíveis retardatários.
O período escolhido fora entre m eia-noite e as m udanças de pessoal do início da m anhã, de m odo a m ascarar o fluxo extra de pessoas nos porões de serviço. A m aioria dos rebeldes usava disfarces de operários do setor de energia — calças e casacos cinzentos, descartáveis. Alguns poucos, entre eles Siona, usavam o verde dos inspetores de m aquinaria.
Na sala, a voz de Topri era insistente é m onótona. Ele não guinchava enquanto conduzia a cerim ônia. De fato, Siona tinha de adm itir que ele era bom naquilo, especialm ente com os novos recrutas. No entanto, desde a declaração franca de Nay la de que não confiava no hom em , Siona passara a olhar para Topri de m aneira diferente. Nay la era capaz de falar com um a ingenuidade cortante que arrancava os disfarces e as m áscaras. E havia coisas que Siona descobrira a respeito de Topri desde aquela confrontação.
Ela voltou-se finalm ente e olhou para o hom em . A fria luz prateada não favorecia a pele pálida de Topri. Na cerim ônia, ele usava a cópia de um a faca cristalina, um a cópia contrabandeada, com prada dos Frem en de Museu. Siona lem brou-se da transação enquanto olhava para a lâm ina nas m ãos de Topri. Fora um a idéia dele que parecera boa na ocasião. Ele a levara para um encontro num casebre nos lim ites da cidade, deixando Onn ao entardecer. Tinham esperado durante a noite até que a escuridão pudesse ocultar a vinda do Frem en de Museu. Os Frem en não deviam deixar seus aloj am entos nos sietch sem um a dispensa especial recebida do Im perador-Deus.
Ela j á estava quase desistindo quando o Frem en chegara, deslizando para fora da escuridão noturna enquanto sua escolta ficava para trás, guardando a porta. Topri e Siona estavam esperando sentados num banco tosco colocado de encontro à parede úm ida de um aposento absolutam ente sim ples A única luz provinha de um a fraca tocha am arela suportada por um a vareta fincada na parede de barro em desagregação.
As prim eiras palavras do Frem en encheram Siona de dúvidas.
— Trouxeram o dinheiro?
Ela e Topri tinham se levantado quando ele entrara. Topri não pareceu incom odado com a pergunta. Ele bateu na sacola em baixo de seu m anto, fazendo-a tilintar.
— Eu tenho o dinheiro aqui.
O Frem en era um a figura enrugada, curvada e áspera, usando um a cópia de velhos m antos Frem en com algum traj e lustroso por baixo, provavelm ente sua versão de um traj e destilador. O capuz estava puxado para a frente, som breando-lhe as feições. A luz da tocha fez as som bras dançarem sobre seu rosto.
Ele olhou prim eiro para Topri e então para Siona antes de tirar de debaixo de seu m anto um obj eto enrolado num pano.
— Esta é um a cópia verdadeira, em bora sej a feita de plástico — ele disse. — Não cortaria gordura endurecida.
Tirou a lâm ina do envoltório e a exibiu.
Siona, que vira facas cristalinas apenas em m useus e nos raros registros visuais antigos dos arquivos de sua fam ília, sentiu-se curiosam ente tocada pela visão da lâm ina naquele lugar. Sentia algum a coisa atávica agindo sobre ela e im aginou aquele pobre Frem en de Museu, com sua faca cristalina de plástico, com o um verdadeiro Frem en dos velhos dias. A coisa que ele exibia era subitam ente a lâm ina prateada de um a faca cristalina, brilhando nas som bras am areladas.
— Eu garanto a autenticidade da lâm ina a partir da qual fizem os esta cópia — disse o Frem en. Falava num a voz baixa, que de algum m odo se fazia am eaçadora pela ausência de ênfase.
Siona então ouviu o m odo com o ele carregava seu rancor num a m anga de suaves vogais e ficou subitam ente alerta.
— Tente algum a traição e nós o caçarem os com o a um inseto — advertiu ela.
Topri olhou-a espantado.
O Frem en de Museu pareceu encolher. A lâm ina trem eu em sua m ão, m as seus dedos de gnom o ainda se curvavam em torno dela, com o se agarrassem um a garganta.
— Traição, senhora? Oh, não. Mas nos ocorreu que pedim os m uito pouco por esta cópia. Pobre com o ela pareça, sua fabricação e venda nos coloca à m ercê de um terrível perigo.
Siona olhou furiosa para ele, pensando em antigas palavras Frem en da História Oral: “Um a vez que você adquire um a alm a vendida, o Suk é a totalidade da sua existência.
— Quanto você quer? — perguntou ela autoritária.
Ele disse um a som a duas vezes m aior que a anterior.
Topri deixou escapar um a exclam ação de espanto.
Siona olhou para ele.
— Tem essa quantia?
— Não inteiram ente, m as nós tínham os concordado.
— Dê-lhe o que você tem , tudo — disse Siona.
— Tudo?
— Não foi o que eu disse? Cada m oeda daquela sacola. — Ela virou-se para o Frem en de Museu. — Você aceitará este pagam ento! — Não era um a pergunta e o velho a ouviu corretam ente. Enrolou a lâm ina no pano e a passou para ela.
Topri entregou a sacola de m oedas e resm ungou algum a coisa.
Siona dirigiu-se ao Frem en:
— Nós sabem os o seu nom e. Você é Teishar, aj udante do Garun de Tuono. Você tem um a m entalidade suk e m e faz estrem ecer vendo em que os Frem en se tornaram .
— Senhora, nós tem os de ganhar a vida — ele protestou.
— Você não está vivo — disse ela. — Desapareça!
Teishar voltara-se e saíra correndo com a sacola de dinheiro segura j unto ao peito.
A m em ória daquela noite não parecia agradável na m ente de Siona enquanto ela observava Topri exibir a faca cristalina em sua cerim ônia rebelde. “Não som os m elhores do que Teishar”, ela pensou “Um a cópia é pior do que nada.” Topri brandia a estúpida lâm ina sobre a cabeça enquanto se aproxim ava da conclusão da cerim ônia.
Siona olhou para longe dele, fitando Nay la sentada à sua esquerda. Nay la olhou prim eiro para um a direção e depois para outra. Dedicava especial atenção ao novo conj unto de recrutas no fundo da sala. Nay la não dava sua confiança com facilidade. Siona torceu o nariz quando o m ovim ento do ar trouxe o cheiro de lubrificantes. As profundezas de Onn sem pre cheiravam perigosam ente “m ecânicas”! Ela cheirou. E essa sala! Não apreciava esse lugar de reunião, podia facilm ente, tornar-se um a arm adilha. Guardas podiam bloquear os corredores externos e m andar patrulhas arm adas. Este podia ser facilm ente o lugar onde sua rebelião term inaria. E Siona estava duplam ente incom odada pelo fato de que o local fora um a escolha de Topri.
“Um dos poucos enganos de Ulot”, ela pensou. O pobre Ulot, m orto, aprovara a adm issão de Topri na rebelião.
— Ele é um funcionário subalterno nos serviços m unicipais.
— Ulot explicara. — Topri pode encontrar m uitos lugares úteis para nos encontrarm os e nos arm arm os.
Topri chegara quase ao fim de sua cerim ônia. Colocou a faca em sua caixa decorada e pôs a caixa no piso ao lado dele.
— Meu rosto é o m eu j uram ento — ele disse, e voltou seu perfil para a sala, prim eiro um lado, depois o outro. — Eu lhes m ostro a m inha face, de m odo que m e possam reconhecer em qualquer lugar e saber que sou um de vocês.
“Cerim ônia estúpida”, pensou Siona.
Mas ela não se atrevia a quebrar o padrão estabelecido. E quando Topri tirou um a m áscara de gaze negra de um bolso e a colocou sobre a cabeça, ela tirou sua própria m áscara e tam bém a colocou. Todos na sala fizeram a m esm a coisa, e se podia ouvir o ruído da m ovim entação. A m aioria dos presentes havia sido alertada de que Topri trouxera um visitante especial. Siona prendeu o nó da m áscara sobre a nuca, ansiosa por ver o visitante.
Topri cam inhou até a única porta da sala. Houve um tum ulto de m etal batendo enquanto todos se levantavam e dobravam suas cadeiras, colocando-as de encontro à parede oposta à porta. Mediante um sinal de Siona, Topri bateu três vezes no painel da porta, esperou duas batidas vindas de fora e então bateu quarto vezes.
A porta se abriu e um hom em alto, em traj e oficial m arrom -escuro, deslizou para dentro da sala. Não usava m áscara, o rosto descoberto para que todos o vissem — um rosto m agro e im perioso, com boca estreita, nariz fino e olhos castanho-escuros, profundos sob sobrancelhas espessas. Era um rosto reconhecido pela m aioria dos ocupantes da sala.
— Meus am igos — disse Topri —, eu lhes apresento Iy o Kobat, o em baixador de Ix.
— Ex-em baixador — corrigiu Kobat. Sua voz era gutural e m uito controlada. Ele tom ou posição com as costas para a parede e de frente para as pessoas m ascaradas na sala. — No dia de hoj e recebi ordens de nosso Im perador-Deus para deixar Arrakis em desgraça.
— Por quê?
Siona fez a pergunta sem qualquer form alidade.
Kobat girou a cabeça num gesto brusco, um m ovim ento rápido que fixou seu olhar no rosto m ascarado.
— Houve um atentado contra a vida do Im perador. E ele traçou a origem da arm a até m inha pessoa.
Os com panheiros de Siona abriram um espaço entre ela e o em baixador, claram ente assinalando que a respeitavam .
— Então por que ele não o m atou? — quis ela saber.
— Acho que ele está querendo dizer que eu não valho um a execução. Existe tam bém o fato de que ele m e usa agora para levar um a m ensagem a Ix.
— Que m ensagem ? — Siona cam inhou através do espaço aberto até parar a dois passos de Kobat. Reconheceu o apetite sexual do hom em enquanto este lhe observava o corpo.
— Você é filha de Moneo — ele disse.
Um a tensão silenciosa explodiu dentro da sala. Por que ele revelava que a tinha reconhecido? Quem m ais ele teria reconhecido ali? Kobat não parecia um tolo. Por que fizera isso?
— Seu corpo, sua voz e suas m aneiras são bem -conhecidas aqui em Onn — disse ele. — Esta m áscara é um a tolice.
Ela arrancou a m áscara e sorriu para ele.
— Concordo. Agora responda a m inha pergunta.
Ouviu Nay la cam inhando para se colocar à sua esquerda. Mais dois auxiliares escolhidos por Nay la ficaram j unto dela.
Siona viu o instante da conscientização atingir Kobat — sua m orte aconteceria ali se ele falhasse em satisfazer suas exigências. Sua voz não perdeu o controle, m as ele falou m ais lentam ente, escolhendo as palavras com m ais cuidado.
— O Im perador-Deus m e disse que, tem conhecim ento de um acordo entre Ix e a Corporação. Nós estam os tentando construir um am plificador m ecânico daqueles... talentos de navegação da Corporação que atualm ente dependem da m elange.
— Nesta sala nós o cham am os O Verm e — disse Siona. — Que faria sua m áquina Ixiana?
— Vocês estão conscientes de que os Navegadores da Corporação necessitam da especiaria antes que possam ver o cam inho seguro para a travessia?
— Vocês substituiriam os navegadores com essa m áquina?
— Pode ser possível.
— E que m ensagem deve levar aos seus com relação a essa m áquina?
— Devo dizer aos m eus que eles só podem prosseguir com o proj eto se enviarem ao Im perador relatórios diários a respeito dos progressos obtidos.
Ela sacudiu a cabeça.
— Ele não precisa de tais relatórios! Essa é um a m ensagem estúpida.
Kobat engoliu em seco, não m ais ocultando seu nervosism o.
— A Corporação e a Irm andade estão excitadas com nosso proj eto — ele disse. — Estão cooperando conosco.
Siona assentiu um a vez:
— E pagam por sua participação partilhando sua especiaria com Ix.
Kobat olhou furioso para ela.
— Trata-se de um trabalho dispendioso e nós precisam os de especiaria para testes com parativos com os Navegadores da Corporação.
— Isso é um a m entira e um a trapaça. Seu engenho nunca funcionará e O Verm e sabe disso.
— Com o se atreve a nos acusar de.
— Cale-se! Eu apenas lhe disse a verdadeira m ensagem . O Verm e está dizendo a vocês, Ixianos, para continuarem trapaceando a Corporação e a Bene Gesserit. Isso o diverte.
— Mas pode funcionar! — insistiu Kobat.
Ela m eram ente sorriu para ele.
— Quem tentou m atar o Verm e?
— Duncan Idaho.
Nay la em itiu um som ofegante. Houve outros pequenos sinais de surpresa através da sala, um a testa franzindo-se, um a inspiração súbita.
— E Idaho está m orto? — perguntou Siona.
— Nós presum im os que sim , m as o... ah, Verm e recusa-se a confirm ar.
— Por que presum e que ele estej a m orto?
— Os Tleilaxu enviaram outro ghola Idaho.
— Percebo.
Siona voltou-se e fez sinal para Nay la, que foi até um a extrem idade da sala e retornou com um em brulho delgado enrolado em papel Suk cor-de-rosa. O tipo de papel que os loj istas usavam para em balar pequenas com pras. Nay la entregou o em brulho a Siona.
— Esse é o preço do nosso silêncio — disse Siona, estendendo o em brulho para Kobat. — Foi por isso que perm itim os que Topri o trouxesse aqui esta noite.
Kobat aceitou o em brulho, sem desviar sua atenção do rosto dela.
— Silêncio? — perguntou ele.
— Nós nos com prom etem os a não inform ar a Corporação nem a Irm andade de que vocês as estão trapaceando.
— Nós não estam os trapa...
— Não sej a tolo!
Kobat tentou engolir com a garganta seca. O significado das palavras dela tinha se tornado claro para ele: verdade ou não, se a rebelião espalhasse tal história todos acreditariam . Era o senso com um ”, com o Topri se orgulhava de dizer.
Siona olhou para Topri, que esperava logo atrás de Kobat. Ninguém se unia a essa rebelião por m otivos de “senso com um ”. Será que Topri não percebia que esse “senso com um ” poderia traí-lo? Ela voltou sua atenção para Kobat.
— Que há no em brulho? — ele perguntou.
Algum a coisa em sua m aneira de perguntar revelou a Siona que ele j á sabia.
— Essa é um a coisa que estou enviando para Ix. Você a levará até lá para m im . São cópias de dois volum es que retiram os da fortaleza do Verm e.
Kobat olhou para o em brulho em suas m ãos. Era óbvio que ele queria largar a coisa, que essa sua aventura na rebelião o tinha carregado com um peso m ais m ortífero do que ele havia esperado. Lançou um olhar de escárnio para Topri, que foi com o se tivesse verbalizado: “Por que você não m e avisou?”
— O que... — ele voltou a encarar Siona e pigarreou. — O que há nestes... volum es?
— Sua gente pode nos dizer isso. Pensam os que são as próprias palavras do Verm e, escritas num código que não podem os ler.
— E que os faz pensar...
— Vocês Ixianos são hábeis com tais coisas.
— E se fracassarm os?
Ela encolheu os om bros.
— Nós não os culparem os por isso. Todavia, se usarem estes volum es para qualquer outro propósito, ou deixarem de nos dar o relato total de um a descoberta...
— Com o alguém pode ter certeza de que nos...
— Nós não vam os depender som ente de vocês. Outros tam bém receberão cópias. Acho que a Irm andade e a Corporação não hesitarão em tentar decifrar esses volum es.
Kobat colocou o em brulho debaixo do braço, pressionando-o contra seu corpo.
— Que a faz pensar que o... o Verm e não conhece suas intenções... ou não sabe a respeito deste encontro?
— Eu penso que ele sabe de m uitas coisas assim ; pode até saber quem lhe retirou esses volum es. Meu pai acredita que ele é verdadeiram ente presciente.
— Seu pai acredita na História Oral!
— Todos nesta sala acreditam nela. A História Oral não está em desacordo com a História Form al nas questões que são im portantes.
— Então, por que o Verm e não age contra você?
Ela apontou para o em brulho debaixo do braço de Kobat.
— Talvez a resposta estej a aí.
— Ou será que você e estes volum es cifrados não representam am eaça real para ele? — Kobat não ocultava seu ódio. Não apreciava ser forçado a tom ar decisões.
— Talvez. Diga-m e por que você m encionou a História Oral.
Um a vez m ais Kobat sentiu a am eaça na voz.
— Ela diz que o Verm e é incapaz de ter em oções hum anas.
— Essa não é a razão — ela respondeu. — Você terá m ais um a chance para m e dizer a razão.
Nay la m oveu-se m ais dois passos para j unto de Kobat.
— Eu... eu recebi instruções para rever a História Oral antes de vir aqui, aquela que sua gente... — ele encolheu os om bros.
— Que nós cantam os?
— Sim .
— Quem lhe disse isso?
Kobat engoliu em seco, dirigiu um olhar tem eroso para Topri e então de volta para Siona.
— Topri? — ela perguntou.
— Eu achei que o aj udaria a nos com preender — disse Topri.
— E você lhe disse o nom e de seu líder — acrescentou Siona.
— Ele j á sabia! — A voz de Topri tinha reencontrado seu guincho.
— Que partes, em particular, da História Oral lhe m andaram rever? — indagou Siona.
— A... ah, linhagem Atreides.
— E agora você j ulga que sabe por que as pessoas se unem a m im na rebelião.
— A História Oral revela exatam ente com o ele trata a todos da linhagem Atreides! — exclam ou Kobat.
— Ele nos dá um pouco de corda e então nos enforca? indagou Siona, sua voz ilusoriam ente calm a.
— Isso foi o que ele fez com o seu próprio pai — disse Kobat.
— E agora ele está deixando que eu brinque de rebelião?
— Sou apenas um m ensageiro — lem brou Kobat. — Se m e m atar, quem levará sua m ensagem ?
— Ou a m ensagem do Verm e — disse Siona.
Kobat perm aneceu em silêncio.
— Não creio que você com preenda a História Oral — ela disse. — E acho que você não conhece o Verm e m uito bem , nem com preende suas m ensagens.
O rosto de Kobat ficou verm elho de raiva.
— O que evitará que você se torne com o todos os outros Atreides, um a parte subm issa e obediente do... — Kobat interrom peu a frase, subitam ente consciente do que a raiva o fizera dizer.
— Apenas m ais um recruta para o círculo interno do Verm e — disse Siona. — Com o os Duncans Idaho?
Ela voltou-se e olhou para Nay la. Os dois auxiliares, Anouk e Taw tornaram -se subitam ente alertas, m as Nay la perm anecia im passível.
Siona acenou com a cabeça um a vez para Nay la.
Com o haviam j urado fazer, Anouk e Taw tom aram posições bloqueando a porta. Nay la deu a volta para se postar j unto ao om bro de Topri.
— Que... que está acontecendo? — indagou Topri.
— Querem os saber tudo de im portante que o ex-em baixador possa partilhar conosco — respondeu Siona. — Querem os a m ensagem integral.
Topri com eçou a trem er. A transpiração surgiu na testa de Kobat. Ele olhou um a vez para Topri e então voltou sua atenção para Siona. Aquele único olhar foi com o um véu arrancado, para que Siona percebesse nitidam ente o relacionam ento entre os dois.
Ela sorriu. Isso m eram ente confirm ava o que j á descobrira.
Kobat ficou im óvel.
— Pode com eçar — ordenou Siona.