O Imperador-Deus de Duna
Frank Herbert
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Leto riu. A Corporação continuava extrem am ente sensível a qualquer coisa que pudesse am eaçar seu m inguado suprim ento de especiaria. Eles ficavam aterrorizados ao pensar que Leto constituía a últim a ligação com os verm es da areia, produtores dos suprim entos originais de m elange.
“Se eu m orrer longe da água, não haverá m ais especiaria — nunca m ais.”
Esse era o tem or da Corporação. E seus historiadores-contabilistas asseguravam que Leto repousava sobre o m aior suprim ento de m elange de todo o universo. Isso transform ava os m em bros da Corporação em aliados quase confiáveis.
Enquanto aguardava, Leto executou, com os dedos e a m ão, os exercícios de sua herança Bene Gesserit. As m ãos eram seu orgulho. Debaixo da m em brana cinzenta, da pele de truta da areia, seus longos dedos e polegares em oposição podiam ser usados com o qualquer m ão hum ana. Já as quase nadadeiras, que um dia haviam sido seus pés e suas pernas, eram m ais um a inconveniência do que um a vergonha. Ele podia arrastar, rolar e lançar seu corpo com um a velocidade espantosa, m as algum as vezes caía sobre as nadadeiras, e então havia dor.
Que estaria retardando o Duncan?
Leto im aginava o hom em vacilando, olhando de um a j anela para o horizonte fluido do Sareer. O ar estava vivo com o calor do dia e, antes de descer à cripta, Leto vira um a m iragem a sudoeste. O espelho do calor inclinara-se transm itindo um a im agem através da areia. Mostrara-lhe um bando de Frem en de Museu avançando diante de um Sietch de Exibição para instruir um grupo de turistas.
Era frio na cripta, sem pre frio, a ilum inação sem pre reduzida. Os túneis que serviam de raios eram buracos escuros subindo e descendo em suaves gradientes para acom odarem a Carreta Real. Alguns túneis estendiam -se para além de falsas paredes através de m uitos quilôm etros. Passagens que Leto havia criado para si m esm o com ferram entas Ixianas — túneis de alim entação e cam inhos secretos.
Enquanto antevia a próxim a entrevista, um senso de nervosism o com eçou a crescer em Leto. Achou que essa era um a em oção interessante, que ele se acostum ara a apreciar. Leto sabia que se tornara orgulhoso do atual Duncan e em si perm anecia a esperança de que o hom em sobrevivesse à próxim a entrevista. Algum as vezes acontecia. Havia pouca probabilidade de que Duncan representasse um a am eaça m ortal, em bora isso devesse ser deixado ao acaso. Leto tentara explicar tal coisa a um dos prim eiros Duncans... bem ali nessa m esm a câm ara.
— Você vai j ulgar estranho que eu, com os m eus poderes, possa falar em sorte e acaso — Leto dissera.
O Duncan estava furioso.
— Você não deixa nada ao acaso. Eu o conheço!
— Que ingenuidade. A casualidade é a própria natureza do nosso universo.
— Não a casualidade! A discórdia. E você é o causador da discórdia!
— Excelente, Duncan. A discórdia é um grande prazer. E pelo m odo com o lidam os com a discórdia que afiam os nossa criatividade.
— Você não é nem m ais hum ano! — Oh, com o aquele Duncan estava furioso.
Leto achara tal acusação irritante, com o um grão de areia no olho. Ele se agarrava aos vestígios de hum anidade em sua personalidade com inegável rigidez, em bora a irritação fosse o m ais próxim o que pudesse chegar da raiva.
— Sua vida está se tornando um clichê — acusou Leto.
Com isso o Duncan retirara um pequeno explosivo das dobras de seu m anto. Que surpresa!
Leto adorava surpresas, m esm o perversas.
— Eis um a coisa que não previ! — disse ele para Duncan, que perm anecia ali, estranham ente indeciso, agora que um a decisão lhe era absolutam ente exigida.
— Isto poderia m atá-lo — disse o Duncan.
— Sinto m uito, Duncan. Causará um pequeno dano, não m ais que isso.
— Mas disse que não previra isto! — A voz do Duncan tornara-se aguda.
— Duncan, Duncan, a previsão absoluta é que é igual à m orte para m im . Com o a m orte é insuportavelm ente aborrecida.
No últim o instante, o Duncan tentara atirar o explosivo para um lado, m as o m aterial era m uito instável e detonara cedo dem ais. O Duncan m orrera. Ah, bem ... os Tleilaxu sem pre tinham outro em seus tanques axolotl.
Um dos globos lum inosos acim a de Leto com eçou a piscar. A excitação o dom inou. Sinal de Moneo! O fiel Moneo alertando seu Im perador de que o Duncan estava descendo a cripta.
A porta do elevador hum ano, entre duas passagens no arco noroeste da câm ara, se abriu. Duncan cam inhou decidido, um a figura pequena na distância, m as os olhos de Leto discerniam até m esm o m inúsculos detalhes — um am arrotado no cotovelo do uniform e, revelando que o hom em estivera inclinado em algum lugar, com o queixo apoiado na m ão. Sim , ainda havia m arcas da m ão no queixo. O odor do Duncan o precedeu: o hom em estava saturado da própria adrenalina.
Leto perm aneceu silencioso enquanto o Duncan se aproxim ava, observando detalhes. Esse Duncan ainda cam inhava com o passo de um j ovem , apesar de seu longo tem po de serviço. Ele podia agradecer por isso a um a pequena ingestão de m elange. O hom em usava o velho uniform e dos Atreides, preto com o falcão dourado do lado esquerdo do peito. Um a declaração interessante esta:
— Eu sirvo à honra dos velhos Atreides!
Seu cabelo ainda era um gorro negro de karakul, as feições fixas num a agudeza de rocha, com m açãs do rosto salientes.
“Os Tleilaxu criam bem os seus “gholas”, pensou Leto.
O Duncan carregava um a pequena valise de fibra m arrom escura trançada, um a que ele carregara por m uitos anos. Geralm ente continha o m aterial no qual ele baseava seus relatórios, m as hoj e ela se avolum ava com algum a carga m ais pesada.
“A arm a laser Ixiana.”
Idaho m antinha sua atenção no rosto de Leto enquanto cam inhava. O rosto perm anecia desconcertadoram ente Atreides, feições esguias com olhos de um azul total, que os m ais nervosos tom avam com o um a intrusão física. Eles observavam bem de dentro do capuz cinzento de truta da areia que, Idaho sabia, podia desenrolar-se para a frente, protetoram ente, num trem ulante reflexo — um piscar do rosto em vez de um piscar de olhos. A pele era rosada dentro de sua m oldura cinzenta. Era difícil evitar o pensam ento de que o rosto de Leto era um a obscenidade, um fragm ento perdido de hum anidade preso dentro de algum a coisa totalm ente alienígena.
Parando a apenas seis passos da Carreta Real, Idaho não tentou esconder sua furiosa determ inação. Nem m esm o pensava se Leto sabia a respeito da arm a laser. Esse Im pério se afastara em dem asia da velha m oralidade Atreides, tornara-se um a crença cega e im pessoal que esm agava os inocentes em seu cam inho. Tinha de acabar!
— Eu vim para lhe falar a respeito de Siona e de outras questões — disse Idaho. Colocou a valise num a posição em que pudesse tirar a arm a laser com facilidade.
— Muito bem — a voz de Leto estava cheia de tédio.
— Siona foi a única que escapou, m as ela ainda possui um a base de com panheiros rebeldes.
— Acha que não sei disso?
— Conheço sua perigosa tolerância para com os rebeldes! O que não conheço é o conteúdo daquele em brulho que ela roubou.
— Oh, isto. Ela tem as plantas com pletas da Cidadela.
Por apenas um instante, Idaho era o Com andante da Guarda de Leto, profundam ente chocado com sem elhante quebra na segurança.
— E você a deixou escapar com isso?
— Não, foi você.
Idaho estrem eceu com essa acusação. Lentam ente, o assassino recentem ente decidido que agora havia nele recuperou sua predom inância.
— É tudo que ela conseguiu? — perguntou Idaho.
— Eu tinha dois volum es, cópias do m eu diário, com as plantas. Ela roubou as cópias.
Idaho observou a face im óvel de Leto
— O que havia nesses registros? Às vezes você diz que é um diário, às vezes que é um a história.
— Um pouco de am bos. Você poderia m esm o dizer que é um m anual.
— Incom oda-lhe que ela se tenha apoderado desses volum es?
Leto perm itiu-se um suave sorriso que Idaho aceitou com o resposta negativa. Um a tensão m om entânea ondulou através do corpo de Leto enquanto Idaho levava a m ão à delgada pasta. Que seria: a arm a ou os relatórios? Em bora o núcleo do seu corpo possuísse um a poderosa resistência ao calor, Leto sabia que parte de sua carne era vulnerável a pistolas laser, especialm ente o rosto.
Idaho tirou um relatório da valise e, antes m esm o de com eçar a leitura, os indícios j á eram óbvios para Leto. Idaho estava buscando respostas, não fornecendo inform ações. Desej ava obter um a j ustificativa para um curso de ação que j á escolhera.
— Nós descobrim os um Culto de Alia em Giedi Prim e — disse Idaho.
Leto perm aneceu em silêncio enquanto Idaho contava os detalhes. “Que coisa chata.” Deixou que os pensam entos vagueassem . Os adoradores de sua tia, há m uito m orta, só serviam nesses dias para provocarem um divertim ento ocasional. Os Duncans, previsivelm ente, viam tal atividade com o um a espécie de am eaça subterrânea.
Idaho term inou a leitura. Seus agentes eram m inuciosos, não havia com o negar isso. Aborrecidam ente m inuciosos.
— Isso nada m ais é que um ressurgim ento de Isis — disse Leto. — Meus sacerdotes e sacerdotisas terão um bom passatem po suprim indo esse culto e seus seguidores.
Idaho sacudiu a cabeça com o se respondesse a um a voz interior.
— A Bene Gesserit sabia a respeito desse culto — disse ele.
Isso interessava a Leto.
— A Irm andade nunca m e perdoou por lhe tom ar seu program a de procriação.
Leto escondeu seu ligeiro divertim ento. Os Duncans eram sem pre m uito sensíveis às questões de procriação, em bora alguns deles, ocasionalm ente, ficassem disponíveis com o reprodutores.
— Percebo — disse Leto. — Bem , as Bene Gesserit são todas m ais do que levem ente insanas, m as a loucura representa um caótico reservatório de surpresas. E algum as surpresas podem ser valiosas.
— Não consigo ver algum valor nisso.
— Acha que a Irm andade estava por trás do culto? — indagou Leto.
— Acho.
— Explique.
— Eles possuíam um tem plo. E o cham avam Santuário da Faca Cristalina.
— E m esm o?
— E sua principal sacerdotisa era cham ada “A Guardiã da Luz de Jessica.” Isso lhe sugere algum a coisa?
— E adorável! — Leto não ocultou seu divertim ento.
— Que há de adorável nisso?
— Eles unem m inha avó e m inha tia em um a única deusa.
Idaho sacudiu a cabeça de um lado para o outro, sem com preender.
Leto perm itiu-se um a pequena pausa interior, m enos que o tem po de um piscar de olho. Sua avó dentro dele não apreciava particularm ente esse culto de Giedi Prim e. Ele precisou bloquear as m em órias e suprim ir-lhe a identidade.
— Que supõe que fosse o propósito desse culto? — indagou Leto.
— Óbvio. Um a religião rival para m inar sua autoridade.
— Isso é sim ples dem ais. Sej am o que forem , as Bene Gesserits não são patetas.
Idaho aguardou um a explicação.
— Elas querem m ais especiaria! — exclam ou Leto. — Mais Reverendas Madres.
— Assim , elas o aborrecem até que pague o preço que elas pedem ?
— Estou desapontado com você, Duncan.
Idaho m eram ente olhou para Leto, que conseguiu produzir um suspiro, um gesto com plicado, não m ais intrínseco à sua nova form a. Os Duncans eram norm alm ente brilhantes, m as Leto calculou que a tram a em que este se envolvera lhe afetara a percepção.
— Eles escolheram Giedi Prim e com o seu lar. Que é que isso lhe sugere? — perguntou Leto.
— Era um a fortaleza dos Harkonnen, m as isso é história antiga.
— Sua irm ã m orreu lá, vítim a dos Harkonnen. E correto que os Harkonnen e Giedi Prim e estej am unidos em seus pensam entos. Por que não m encionou isso antes?
— Não pensava que fosse im portante.
Leto com prim iu a boca em um a linha estreita. A referência à irm ã tinha perturbado Duncan. O hom em sabia intelectualm ente ser apenas o últim o de um a longa linhagem de renascidos, produtos dos tanques axlotl dos Tleilaxu e retirados das células originais que lá se encontravam . O Duncan não podia escapar de suas m em órias recuperadas. Sabia que os Atreides o tinham salvo da escravidão dos Harkonnen.
“E sej a lá o que eu for”, pensou Leto, “ainda sou Atreides”.
— Que está tentando dizer? — exigiu Idaho.
Leto concluiu que era necessário um grito. E alto.
— Os Harkonnen eram acum uladores de especiaria!
Idaho recuou um passo.
Leto continuou em voz baixa:
— Existe um depósito de m elange não-descoberto em Giedi Prim e. E a Irm andade estava tentando descobri-lo, usando seus truques religiosos com o cobertura.
Idaho estava envergonhado. Um a vez dita, a resposta parecia óbvia.
“E eu deixei de percebê-la”, pensou.
O grito de Leto lançara-o novam ente em seu papel de Com andante da Guarda Real. Idaho conhecia tudo a respeito da econom ia do Im pério, sim plificada ao extrem o: taxas de j uros proibidas, dinheiro controlado. A única m oeda exibia um a reprodução da face envolta de Leto: o Im perador-Deus. Mas tudo se baseava na especiaria, um a substância que, em bora de valor enorm e, continuava decrescendo em quantidade. Um hom em podia carregar o preço de um planeta inteiro em sua bagagem de m ão.
“Controle a cunhagem e as cortes. Deixe que a ralé possua o resto”, pensou Leto. O velho Jacob Broom dissera isso, e Leto podia ouvir o velho rindo em seu interior. “As coisas não m udaram m uito, Jacob.”
Idaho respirou fundo.
— O Bureau da Fé devia ser notificado im ediatam ente.
Leto perm aneceu em silêncio.
Tom ando isso com o um indício para que continuasse, Idaho prosseguiu com seus relatórios, m as Leto ouvia com apenas um a fração de sua consciência. Era com o um circuito de m onitoração que apenas registrava as palavras de Idaho e suas ações, perm itindo um a intensificação ocasional para um com entário interior.
E agora ele desej ava falar a respeito dos Tleilaxu.
“Esse terreno é perigoso para você, Duncan.”
Mas abria um a nova linha para as reflexões de Leto.
“Os m atreiros Tleilaxu ainda produzem m eus Duncans a partir das células originais. Fazem um a coisa religiosam ente proibida, tanto eles com o eu sabem os disso. Eu não perm ito a m anipulação artificial da genética hum ana. Mas os Tleilaxu aprenderam que eu aprecio os Duncans com o Com andantes da m inha Guarda. Não creio que eles apreciem o valor disso com o divertim ento. Diverte-m e que o rio agora ostentando o nom e de Idaho fosse certa vez um a m ontanha. Essa m ontanha não m ais existe. Nós a dem olim os a fim de obter m aterial para as elevadas m uralhas que envolvem m eu Sareer.
“E claro que os Tleilaxu agora sabem que ocasionalm ente utilizo os Duncans em m eu próprio program a de procriação controlada. Os Duncans representam a força do m estiço... e m uito m ais. Cada fogo deve ter sua m aneira de abafar.
“Era m inha intenção unir este com Siona para fins de procriação, m as talvez isso não sej a m ais possível agora.
“Ah! Ele quer que eu castigue severam ente os Tleilaxu. Por que não pergunta diretam ente? ‘Está se preparando para m e substituir?’
“Sinto-m e tentado a lhe dizer.”
Um a vez m ais, a m ão de Idaho entrou na bolsa. A introspecção m onitorante de Leto não perdeu o m ovim ento.
“A arm a laser ou m ais relatórios? São m ais relatórios.
“Este Duncan perm anece cuidadoso. Não apenas quer ter certeza de que sou ignorante quanto à sua intenção, m as tam bém quer m ais provas de que sou indigno de sua lealdade. Fica hesitando por m uito tem po. Sem pre foi assim . Já lhe disse vezes sem conta que não usarei m inha presciência para predizer o m om ento de m inha saída desta antiga form a. Mas ele tem dúvidas. Sem pre duvidou.
“Esta câm ara cavernosa engole a sua voz e, não fosse por m inha sensibilidade, a um idade aqui existente bloquearia a evidência quím ica de seus tem ores. Eu reduzo sua voz para fora da consciência im ediata. Que chato se tornou este Duncan. Ele está recontando a história, a história da rebelião de Siona, sem dúvida para chegar a repreensões pessoais quanto à últim a escapada.
“— Não se trata de um a rebelião ordinária — ele diz. “Tolo. Isso m e leva de volta! Todas as rebeliões são ordinárias e de um tédio definitivo. E com o se fossem copiadas de um m esm o padrão, um a igual à outra. Sua força im pulsionadora é o vício da adrenalina e o desej o de obter poder pessoal. Todos os rebeldes são aristocratas de gabinete. E por isso que consigo convertê-los tão facilm ente.
“Por que os Duncans nunca m e escutam realm ente quando lhes falo a respeito disso? Já tive essa discussão com este m esm o Duncan. Foi um dos nossos prim eiros desentendim entos e o tivem os aqui m esm o nesta cripta.
“— A arte de governar exige que você nunca ceda a iniciativa aos elem entos radicais — ele diz.
“Que pedante. Radicais surgem a cada nova geração, e não se deve tentar evitar isso. Isso é o que ele quer dizer com ‘ceder-lhes a iniciativa’. Ele desej a esm agá-los, suprim i-los, controlá-los, evitá-los. Ele é a prova viva de que existe pouca diferença entre a m ente m ilitar e a m ente policial.
“E eu lhe disse:
“— Os radicais só devem ser tem idos quando se tenta suprim i-los. Você deve dem onstrar-lhes que está disposto a utilizar o que de m elhor eles possam oferecer.
“— Eles são perigosos. Eles são perigosos! — Ele acha que repetindo isso pode criar algum a verdade.
Lentam ente, passo a passo, eu o levo através da m inha concepção e ele chega m esm o a dar a im pressão de estar ouvindo.
“— Esta é a fraqueza deles, Duncan. Os radicais sem pre vêem as questões em term os m uito sim ples: preto e branco, bom e m al, eles e nós. E, ao abordarem questões com plexas desse m odo, abrem cam inho para o caos. E a arte de governar, com o você a cham a, consiste no dom ínio do caos.
“— Ninguém pode lidar com todas as surpresas.
“— Surpresa? E quem está falando em surpresa? O caos não é surpresa. Ele possui suas características previsíveis. Por um m otivo: ele afasta a ordem e reforça as forças que são opostas. Os extrem os.
“Não é isso o que os radicais estão tentando fazer? Não estão tentando sacudir as coisas de m odo a que possam assum ir o controle?
“— Isso é o que eles pensam que estão fazendo. Na verdade, estão criando novos extrem istas, novos radicais e continuando um velho processo.
“— E que m e diz de um radical que perceba as com plexidades e venha a você desse m odo?
“— Esse não seria um radical. Seria um rival pela liderança.
“— Mas o que você faz?
“— Você entra em sociedade com ele ou então o m ata. Foi assim que a luta pela liderança com eçou, em nível de grunhidos.
“— Sim , m as e no caso de um m essias?
“— Com o m eu pai?
“O Duncan não aprecia essa pergunta. Sabe que, de um m odo m uito especial, eu sou m eu pai. Percebe que eu posso falar com a voz e a persona de m eu pai, que as m em órias são precisas, não-censuradas e inescapáveis.
“Relutantem ente, ele diz:
“— Bem ... se quer colocar assim .
“— Duncan, eu sou todos eles e eu sei. Nunca houve um rebelde verdadeiram ente abnegado por sua causa, apenas hipócritas — hipócritas conscientes ou inconscientes, dá tudo no m esm o.
“Isso sacode um pequeno ninho de m arim bondos entre m inhas m em órias ancestrais. Alguns deles j am ais cederam na crença de que eles, e som ente eles, possuíam a chave para solucionar todos os problem as da hum anidade. Bem , nisso eram com o eu. Posso concordar com eles m esm o quando lhes digo que o fracasso é a m elhor prova.
“Sou forçado a bloqueá-los, contudo. Não há sentido em m e alongar entre eles. Não passam agora de lem branças sentim entais... enquanto este Duncan se coloca diante de m im com um a pistola laser.
“Grandes Deuses! Ele m e pegou distraído e está com a arm a na m ão, apontada para o m eu rosto.”
— Você, Duncan? Até você m e traiu?
“Até tu, Brutus?”
Cada fibra de consciência de Leto tornou-se totalm ente alerta. Ele podia sentir seu corpo se contraindo. A carne de verm e tinha vontade própria.
Idaho falou com escárnio.
— Diga-m e, Leto, quantas vezes devo pagar o preço da lealdade?
Leto reconheceu a pergunta im plícita: “Quantos de m im j á houve?” Os Duncans sem pre queriam saber isso. Cada Duncan fazia essa pergunta e nenhum a resposta lhe satisfazia. Eles duvidavam .
Em sua voz m ais triste de Muad’Dib, Leto perguntou:
— Você não se orgulha de m inha adm iração, Duncan? Nunca se perguntou o que é que m e faz desej á-lo com o m eu com panheiro constante através dos séculos?
— Você sabe que sou o derradeiro tolo!
— Duncan!
A voz de um Muad’Dib furioso sem pre conseguia desarm ar Idaho. A despeito do fato de ele saber que nenhum a Bene Gesserit j am ais dom inara os poderes da Voz com o Leto os dom inara, era previsível que dançasse ao com ando dessa voz. A arm a laser trem ulou em sua m ão.
Foi o suficiente. Leto estava rolando para fora do carro e Idaho nunca o tinha visto m over-se desse m odo. Nem m esm o suspeitara de que tal coisa pudesse acontecer. Para Leto, só eram necessárias duas coisas: um a am eaça real que o corpo de verm e pudesse sentir e um a liberação desse corpo. O resto era autom ático, e a velocidade com que acontecia sem pre assom brava o próprio Leto.
A arm a laser era sua m aior preocupação. Ela podia arranhá-lo bastante, m as poucos entendiam a capacidade de um corpo pré-verm e para enfrentar o calor.
Leto atingiu Idaho enquanto rolava e a arm a laser foi desviada ao disparar. Um a das inúteis nadadeiras que tinham sido as pernas e os pés de Leto enviou-lhe um a chocante descarga de sensações, golpeando-lhe a consciência. Por um instante, havia apenas dor. Mas o corpo de verm e ficou livre para agir e os reflexos dispararam um violento paroxism o de espasm os. Leto ouviu o som de ossos quebrando-se e a arm a laser foi atirada longe através do piso da cripta por um m ovim ento descontrolado da m ão de Idaho.
Rolando de cim a de Idaho, Leto preparou-se para um novo ataque, m as j á não havia necessidade. A nadadeira ferida ainda transm itia sinais de dor e ele sentiu que a ponta fora destruída. A pele de truta da areia j á selara o ferim ento e a dor dim inuía para um a sensação latej ante.
Idaho se m exeu. Era praticam ente certo que fora m ortalm ente ferido. Seu peito parecia visivelm ente esm agado. Havia um a agonia evidente quando ele tentava respirar, m as ainda assim abriu os olhos e fitou Leto.
“A persistência dessas possessões m ortais!”, pensou Leto.
— Siona — ofegou Idaho.
E Leto viu a vida abandoná-lo.
“Interessante”, pensou. “Será possível que este Duncan e Siona. .. Não! Este Duncan sem pre revelou um verdadeiro desdém pela insensatez de Siona.”
Leto subiu de volta à Carreta Real. Dessa vez fora por pouco. Havia pouca dúvida de que o Duncan estivera apontando para o cérebro. Leto sem pre fora consciente de que suas m ãos e seus pés eram vulneráveis, m as não perm itira a ninguém saber que aquilo que um dia fora o seu cérebro não se encontrava m ais associado ao rosto. Nem m esm o havia um cérebro de dim ensões hum anas, e sim dispersas agregações nodulares através de seu corpo. Não revelara tal coisa a ninguém , exceto a seus diários.
Oh, os panoramas que Eu já vi! E as pessoas! As longínquas peregrinações dos Fremen e todo o resto. Até mesmo os antigos mitos da Terra. Oh, as lições de astronomia e intriga, as migrações, os vôos desordenados, as corridas de doer as pernas e os pulmões através de todos aqueles pontos do cosmo onde defendemos nossas possessões passageiras. Eu lhes digo que somos uma maravilha e minhas memórias não deixam dúvida a esse respeito.
— Os diários roubados
A m ulher trabalhando na pequena escrivaninha de parede era m uito grande para a cadeira estreita na qual se em poleirava. Fora dali era o m eio da m anhã, m as na câm ara sem j anelas, enterrada profundam ente em baixo da cidade de Onn, havia apenas um globo lum inoso colocado num canto, ao alto. Fora regulado para um a luz am arela cálida, m as a luz não conseguia com pensar o cinzento utilitarism o da pequena sala. Paredes e teto eram cobertos com painéis retangulares, idênticos, de m onótono m etal cinzento.
Havia apenas um a outra peça de m obília: um estreito catre coberto por um cobertor cinzento. Era óbvio que nenhum a das duas peças de m obiliário tinham sido proj etadas para aquela ocupante.
A m ulher usava um a espécie de pij am a azul-escuro de um a única peça que se esticava sobre os om bros largos enquanto ela se curvava sobre a escrivaninha. A luz do globo lum inoso refletia-se no cabelo louro cortado curto e sobre o lado direito da face, enfatizando o queixo quadrado. Este m ovia-se com palavras silenciosas enquanto dedos grossos pressionavam cuidadosam ente as teclas de um fino teclado sobre a m esa. Ela tratava com deferência um a m áquina que prim eiro lhe produzira assom bro e depois um a excitação tem erosa. Um a longa fam iliaridade ainda não conseguira elim inar qualquer das duas em oções.
Enquanto ela escrevia, as palavras iam aparecendo em um a tela oculta dentro do retângulo de parede, exposto pela escrivaninha ao se curvar para baixo.
“Siona continua seguindo um curso de ação que prevê violento ataque à Sua Sagrada Pessoa”, ela escreveu. “Siona continua inabalável em seu declarado propósito. Ela m e disse hoj e que pretende entregar cópias de seus livros roubados a grupos cuj a lealdade à Sua Pessoa não pode ser assegurada. Os beneficiários citados são a Bene Gesserit, a Corporação e os Ixianos. Ela diz que os livros contém suas palavras cifradas e que com esse presente pretende aj udar na tradução de Suas Sagradas Palavras.
“Senhor, não sei que grandes revelações podem estar ocultas naquelas páginas, m as se elas contém algum a coisa que am eace a Sua Sagrada Pessoa eu lhe suplico que m e liberte do m eu voto de obediência a Siona. Não com preendo por que o Senhor m e fez tom ar esse voto, e o tem o.
“Perm aneço Sua serva fiel, Nay la.”
A cadeira estalou quando Nay la se reclinou para trás, pensando em suas palavras. O aposento m ergulhou no isolam ento quase desprovido de sons produzido pelo poderoso revestim ento. Havia apenas a suave respiração de Nay la e um distante pulsar de m aquinaria, sentido m ais no piso do que no ar.
Nay la fitava a m ensagem na tela. Destinada apenas aos olhos do Im perador-Deus, ela exigia m ais do que um a sagrada sinceridade. Exigia um a candura profunda que Nay la achava exaustiva. Daí a pouco ela assentiu para si m esm a e pressionou a chave codificadora das palavras, preparando-as para a transm issão. Curvando a cabeça, orou em silêncio antes de ocultar a escrivaninha dentro da parede. Essas ações, ela sabia, transm itiriam a m ensagem . O próprio Deus tinha im plantado um engenho físico dentro de sua cabeça, fazendo com que ela j urasse m anter segredo e avisando-a de que poderia chegar a ocasião em que precisasse falar com ela através daquela coisa dentro do seu crânio. Nunca o fizera, m as Nay la suspeitava de que os Ixianos tinham construído o engenho. Aquilo tinha algo do j eito deles. Mas o próprio Deus fizera aquela coisa e portanto ela podia ignorar a suspeita de que houvesse um com putador dentro dela, que aquilo pudesse ser algo proibido pela Grande Convenção.
“Não farás engenhos à sem elhança da m ente hum ana!”
Nay la estrem eceu. Levantou-se, então, em purrando a cadeira para sua posição norm al ao lado do catre. Seu corpo pesado e m usculoso pressionou o fino traj e azul. Ela transm itia um aspecto de deliberação contínua, suas ações eram as de alguém que se aj ustava constantem ente a um a grande força física. Voltou-se para a cam a e estudou o local onde estivera a escrivaninha. agora havia apenas um painel cinzento e retangular, com o os outros. Nenhum fiapo de tecido, nenhum fio de cabelo, nada ficara preso que pudesse revelar o segredo do painel.
Nay la respirou de m odo profundo, restaurador, e saiu pela única porta do aposento para um a passagem cinzenta, fracam ente ilum inada por globos brancos am plam ente espaçados. Os sons das m áquinas eram m ais altos ali. Virou para a esquerda e m inutos depois estava com Siona num a câm ara um pouco m aior. No centro havia um a m esa onde as coisas roubadas da Cidadela tinham sido expostas. Dois globos lum inosos prateados ilum inavam a cena: Siona sentada à m esa com um assistente cham ado Topri de pé ao lado dela.
Nay la nutria um a adm iração relutante por Siona, m as Topri era um hom em pelo qual não se podia sentir coisa algum a, exceto aversão. Era um suj eito gordo e nervoso, com olhos verdes esbugalhados, nariz chato e lábios finos acim a de um queixo encovado. Topri guinchava ao falar.
— Olhe aqui, Nay la! Olhe o que Siona encontrou esprem ido entre as páginas destes dois livros.
Nay la fechou e trancou a única porta da câm ara.
— Você fala dem ais, Topri — advertiu Nay la. — Você é um tagarela. Com o podia saber que eu estava sozinha naquela passagem ?
Topri em palideceu e um a careta furiosa m oldou-se em sua face.
— Tem o que ela estej a certa — disse Siona. — Que lhe fez pensar que eu desej ava que Nay la conhecesse a respeito de m inha descoberta?
— Você lhe confia tudo!
Siona voltou sua atenção para Nay la.
— Sabe por que eu confio em você, Nay la? — A pergunta foi feita num a voz destituída de qualquer em oção.
Nay la dom inou um súbito tem or. Teria Siona descoberto o segredo?
“Terei falhado ante m eu Senhor?”
— Não tem nenhum a resposta para a m inha pergunta? — indagou novam ente Siona.
— Ter-lhe-ei dado m otivos para pensar de outro m odo? — perguntou Nay la.
— Isso não é causa suficiente para a confiança — disse Siona.
— Não existe um a coisa com o a perfeição... não nos seres hum anos ou nas m áquinas.
— Então, por que confia em m im ?
— Suas palavras e suas ações estão sem pre em concordância. E essa é um a coisa m aravilhosa. Por exem plo, você não gosta de Topri e nunca tentou esconder isso.
Nay la olhou para Topri, que pigarreou.
— Não confio nele — disse Nay la.
As palavras surgiram em sua m ente e saíram sem reflexão. Só depois de falar foi que Nay la percebeu o verdadeiro núcleo de sua aversão: Topri trairia qualquer um em troca de ganho pessoal.
“Será que ela descobriu tudo a m eu respeito?”
Ainda carrancudo, Topri disse:
— Não vou ficar aqui e aceitar suas ofensas. — Fez m enção de sair, m as Siona ergueu a m ão para contê-lo. Topri hesitou.
— Em bora falem os com as velhas palavras dos Frem en e j urem os nossa lealdade um ao outro, não é isso que nos m antém unidos — disse Siona. — Tudo é baseado no desem penho. Isso é tudo o que eu levo em consideração. Vocês dois estão entendendo?
Topri assentiu autom aticam ente, m as Nay la sacudiu a cabeça de um lado para o outro.
Siona sorriu para ela.
— Nem sem pre você concorda com m inhas decisões, não é, Nay la?
— Não — a resposta saiu forçada.
— E nunca tentou esconder sua discordância, m as ainda assim sem pre m e obedece. Por quê?
— Foi isso que j urei fazer.
— Mas eu tenho dito que isso não é suficiente.
Nay la sabia que estava transpirando, sabia que isso era revelador, m as não podia se m over. “Que devo fazer? Jurei a Deus que obedeceria Siona, m as não lhe posso dizer isso.”
— Deve responder a m inha pergunta — insistiu Siona. Eu lhe ordeno.
Nay la prendeu a respiração. Esse era o dilem a que m ais tem ia. Não havia m aneira de escapar. Ela entoou um a prece silenciosa e falou em voz baixa.
— Jurei a Deus que lhe obedeceria.
Siona bateu as m ãos de alegria e riu.
— Eu sabia disso!
Topri riu.
— Cale-se — ralhou Siona. — Estou tentando ensinar um a lição a você. Você não acredita em nada. Nem m esm o em si próprio.
— Mas eu...
— Fique calado, j á disse! Nay la crê. Eu acredito. Isso é o que nos une. A fé!
Topri estava abism ado.
— Fé? Você acredita no...
— Não no Im perador-Deus, seu idiota! Nós acreditam os que um poder superior pedirá contas ao verm e tirano. E nós som os esse poder superior.
Nay la respirou, trêm ula.
— Está tudo em ordem , Nay la. Não m e im porta de onde você tira a sua força, desde que tenha fé.
Nay la conseguiu sorrir, o sorriso se am pliou. Nunca m ais fora tocada pela sabedoria de seu Senhor. “Eu posso falar a verdade e ela só funciona para o Meu Deus!”
— Deixem -m e m ostrar-lhes o que encontrei nestes livros disse Siona, indicando com um gesto algum as folhas de papel sobre a m esa. — Esprem idas entre as páginas.
Nay la deu a volta à m esa e olhou para as folhas.
— Prim eiro, tem os isto.
Siona ergueu um obj eto em que Nay la não tinha reparado. Era um fio fino de algum a coisa... e o que parecia ser um a.
— Um a flor? — indagou Nay la.
— Isso se encontrava entre duas páginas e nas páginas estava escrito isto.
Siona inclinou-se sobre a m esa e leu:
— Um fio do cabelo de Ghanim a com um a florestrela que certa vez ela trouxe para m im .
Olhando para Nay la, Siona disse:
— Nosso Im perador-Deus se revela um sentim ental. Essa é um a fraqueza que eu não esperava.
— Ghanim a? — indagou Nay la.
— A irm ã dele! Esqueceu sua História Oral.
— Oh, sim ... A Prece para Ghanim a.
— Agora escutem isto. — Siona pegou outra folha de papel e leu o que havia nela:
“Um a praia de areia tão cinzenta quanto um a face m orta
A m aré verde reflete a ondulação das nuvens,
Eu m e coloco na borda escura e úm ida.
E a espum a fria lim pa m eus dedos.
Sinto o cheiro dos fum os da m adeira.”
Novam ente Siona ergueu os olhos para Nay la.
— Isso é identificado com o: “Palavras que escrevi quando m e falaram da m orte de Ghanim a.” Que vocês acham disso?
— Ele... ele am ava a irm ã.
— Sim ! Ele é capaz de am ar. Oh, sim ! Agora ele é m eu!
Algumas vezes eu me entrego a expedições que nenhum outro ser pode realizar. Mergulho interiormente através do eixo de minhas memórias. Como uma criança de escola contando uma viagem de férias, escolho o assunto. Vamos ver... mulheres intelectuais! Busco atrás no tempo através do oceano de minha ancestralidade. Sou como um grande peixe alado nas profundezas. A boca de minha consciência se abre e eu as engulo! Algumas vezes... algumas vezes caço pessoas específicas registradas em nossas histórias. Que alegria íntima é reviver a vida de alguém enquanto zombo das suas pretensões acadêmicas.
— Os diários roubados
Moneo desceu a cripta com um a triste resignação. Não havia m eio de escapar aos deveres que agora lhe eram exigidos. O Im perador-Deus exigia um pequeno espaço de tem po para lam entar a perda de outro Duncan... m as a vida continuava... e continuava e continuava...
O elevador escorregou suavem ente para baixo em sua soberba confiabilidade Ixiana. Um a vez, só um a vez, o Im perador-Deus havia gritado para seu m aj ordom o:
— Moneo! Às vezes eu penso que você foi feito pelos Ixianos!
Moneo sentiu o elevador parar. A porta se abriu e ele olhou através da cripta para o volum e som brio da Carreta Real. Não havia qualquer indicação de que Leto tivesse reparado em sua chegada. Moneo suspirou com eçando a longa cam inhada através da sala cheia de ecos. Havia um corpo no chão perto da Carreta. Nada de déj a vu. A coisa era m eram ente fam iliar.
Um a vez, nos prim eiros dias de serviço de Moneo, Leto dissera:
— Você não gosta deste lugar, Moneo. Posso ver isso.
— Não, Senhor.
Com apenas um a pequena sondagem de m em ória, Moneo pôde ouvir sua própria voz naquele passado tolo. E a voz do Im perador-Deus respondendo.
Você não pensa num m ausoléu com o um lugar confortador, Moneo. Eu o vej o com o um a fonte de força infinita.
Moneo relem brou-se de que ficara ansioso para m udar de assunto.
— Sim , m eu Senhor.
Mas Leto insistira.
— Existem apenas alguns de m eus ancestrais aqui. A água do Muad’Dib está aqui. Ghani e Harq al-Ada estão aqui, é claro, m as eles não são m eus ancestrais. Não, se existe realm ente algum a verdadeira cripta de m eus ancestrais, eu sou essa cripta. Esta é principalm ente para os Duncans e para os produtos do m eu program a de procriação. Você virá para cá algum dia.
Moneo percebeu que tais recordações haviam retardado seu passo. Suspirou e andou um pouco m ais depressa. Leto podia ser violentam ente im paciente em certas ocasiões, m as ainda não em itia qualquer sinal. Moneo não considerou tal coisa com o indício de que sua aproxim ação não estivesse sendo observada.
Leto encontrava-se com os olhos fechados e apenas seus dem ais sentidos registravam o avanço de Moneo através da cripta. Sua atenção estivera concentrada em pensam entos a respeito de Siona.
“Siona é m inha ardente inim iga e não preciso das palavras de Nay la para confirm ar isso. Siona é m ulher de ação. Vive sobre a superfície de im ensas energias que m e enchem com fantasias de prazer. Não posso contem plar aquelas energias vitais sem um sentim ento de êxtase. Elas são a razão de m inha existência, a j ustificativa para tudo que fiz... até m esm o para o cadáver deste tolo Duncan agora diante de m im .”
Os ouvidos de Leto revelaram -lhe que Moneo ainda não atravessara m etade da distância até a Carreta Real. O hom em andava cada vez m ais devagar e então, subitam ente, recuperava o passo.
“Que presente Moneo m e deu com sua filha”, pensou Leto. “Siona é j ovem e preciosa. Ela representa o novo, enquanto eu sou um a reunião do obsoleto, um a relíquia dos am aldiçoados, dos perdidos e extraviados. Sou os fragm entos da história, que m ergulharam além das recordações de todos os nossos passados. Um a acum ulação de refugos com o j am ais se im aginou.”
Leto fez as m em órias desfilarem dentro dele e perm itiu que observassem o que acontecera na cripta.
“As m inúcias não m inhas!”
Siona, porém ... Siona era um quadro lim po sobre o qual ainda poderiam ser escritas coisas grandiosas.
“Eu guardo este quadro com infinito cuidado. Eu o estou preparando, lim pando-o. Que pensaria o Duncan ao cham ar pelo nom e dela?”
Moneo aproxim ou-se do carro, confiante m as com todo cuidado. Certam ente Leto não estava dorm indo.
Leto abriu os olhos e os dirigiu para baixo, em direção a Moneo, que parara j unto do cadáver. Nesse m om ento Leto achou um deleite observar o m aj ordom o. Moneo usava um uniform e branco dos Atreides, sem qualquer insígnia, o que em si constituía um com entário sutil. O rosto dele, quase tão bem conhecido por Leto quanto seu próprio rosto, era todas as insígnias de que necessitava. Moneo esperou pacientem ente e não houve m udança de expressão em suas feições sim ples e uniform es. O cabelo louro e grosso encontrava-se repartido ao m eio igualm ente. Bem lá dentro de seus olhos cinzentos, encontrava-se aquele caráter direto que costum a acom panhar o conhecim ento de um grande poder pessoal. Era um a aparência que ele m odificava apenas na presença do Im perador-Deus e, algum as vezes, nem m esm o ali. Nem um a vez ele olhou para o corpo no chão da cripta.
Com o Leto continuasse em silêncio, Moneo pigarreou e disse:
— Encontro-m e entristecido, m eu Senhor.
“Estranho!”, pensou Leto. “Ele sabe que sinto um verdadeiro rem orso com relação aos Duncans. Moneo exam inou m eus registros e j á viu um núm ero suficiente deles m ortos. Sabe que apenas 19 Duncans tiveram o que as pessoas geralm ente consideram m orte natural.”
— Ele tinha um a arm a laser Ixiana — disse Leto.
O olhar de Moneo voltou-se diretam ente para a pistola no piso da cripta, à sua esquerda, dem onstrando com isso que j á a tinha visto. Voltou depois sua atenção para Leto, percorrendo com o olhar todo o com prim ento de seu grande corpo.
— Está ferido, m eu Senhor?
— Sem conseqüências.
— Mas ele o feriu?
— Aquelas barbatanas m e são inúteis. Terão desaparecido inteiram ente dentro de m ais 200 anos.
— Rem overei o corpo deste Duncan pessoalm ente, m eu Senhor. Existe algo.
— A parte de m im que ele queim ou reduziu-se inteiram ente a cinzas. Vam os deixar que o vento a leve. E um fim adequado para as cinzas.
— Com o o m eu Senhor desej e.
— Antes de rem over o corpo, desarm e a arm a laser e a coloque onde eu possa apresentá-la ao em baixador Ixiano. Quanto ao hom em da Corporação, que nos advertiu a respeito dela, presenteie-o pessoalm ente com 10 gram as de especiaria. Oh... e nossas sacerdotisas em Giedi Prim e devem ser alertadas quanto a um depósito de m elange oculto por lá, provavelm ente um velho contrabando dos Harkonnen.
— Que desej a que façam os com ele quando o encontrarm os, Senhor?
— Use um a porção para pagar os Tleilaxu por um novo ghola, o resto deve ser acrescentado aos nossos suprim entos aqui na cripta.
— Senhor — Moneo reconheceu as ordens, acenando levem ente com a cabeça, sem realm ente curvar-se. Seu olhar encontrou o de Leto.
Leto sorriu, pensando: “Am bos sabem os que Moneo não sairá sem tocar diretam ente no assunto que m ais nos preocupa.
— Vi o relatório a respeito de Siona — disse Moneo.
O sorriso de Leto am pliou-se. Moneo lhe dava tanto prazer nesses m om entos. Suas palavras transm itiam tantas coisas que não exigiam um a discussão aberta entre eles. Palavras e ações num alinham ento preciso, transm itindo a consciência m útua de que ele, é claro, espionava a respeito de tudo. Agora havia um a preocupação natural por sua filha, m as ainda assim ele desej ava deixar bem entendido que sua preocupação para com o Im perador-Deus continuava superior a tudo. De sua própria passagem por um a evolução sim ilar, Moneo conhecia com precisão a delicada natureza dos atuais problem as de Siona.