O Príncipe Corvo

Elizabeth Hoyt · Capítulo 9 de 26

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O Príncipe Corvo

Capítulo Sete

 

“O imenso corvo voou com a nova esposa em suas costas durante dois dias e duas noites, até que, no terceiro dia, eles chegaram aos campos dourados

com grãos maduros.

— Quem é o dono desses campos? — perguntou Aurea, olhando para

baixo.

— Seu marido — retrucou o corvo.

Eles chegaram a uma campina infinita, cheia de bois gordos, sua pele

reluzindo ao sol.

— Quem é o dono desse gado? — perguntou Aurea.

— Seu marido — retrucou o corvo.

Então uma vasta floresta esmeralda se estendia abaixo deles, cobrindo as

montanhas até onde os olhos podiam ver.

— Quem é o dono dessa floresta? — perguntou Aurea.

— Seu marido — grasnou o corvo...”

 

— O Príncipe Corvo

 

Anna caminhou até Ravenhill na manhã seguinte, sentindo-se cansada e

tristonha depois de uma noite inquieta. Ela parou por um momento e

admirou o mar de jacintos florescendo debaixo das árvores que ladeavam a

entrada. Os pontinhos azuis brilhavam sob a luz do sol, como moedas

recém-cunhadas. Normalmente, a visão de qualquer flor trazia leveza ao seu

coração, mas, naquele dia, isso não aconteceu. Ela suspirou e continuou seu

trajeto até fazer uma curva e parar repentinamente. Lorde Swartingham,

caminhando pesadamente em suas habituais botas salpicadas de lama, vinha

dos estábulos e ainda não a vira.

Ele soltou um grito terrível.

— CÃO!

Pela primeira vez naquele dia, Anna sorriu. Evidentemente, o conde não

conseguia encontrar o cão sempre presente e foi obrigado a rosnar seu nome

genérico.

Ela foi até ele.

— Não vejo por que ele atenderia a um chamado assim.

Lorde Swartingham deu meia-volta ao ouvir a voz dela.

— Eu acredito que lhe dei a tarefa de nomear o vira-lata, Sra. Wren.

Anna olhou para ele com os olhos arregalados.

— Eu lhe dei três opções, milorde.

— E todas estavam fora de cogitação, como a senhora sabe muito bem.

— Ele sorriu malignamente. — Creio que lhe dei tempo suficiente para

arrumar um nome. A senhora vai inventar um agora.

Ela achou graça pela óbvia intenção de deixá-la numa situação difícil.

— Bolota?

— Juvenil demais.

— Tibério?

— Imperial demais.

— Otelo?

— Assassino demais. — Lorde Swartingham cruzou os braços. — Ora,

ora, Sra. Wren. Uma mulher com a sua inteligência pode fazer melhor do

que isso.

— Que tal Jock, então?

— Não serve.

— Por que não? — retrucou Anna, de forma impertinente. — Eu gosto

do nome Jock.

— Jock. — O conde pareceu rolar o nome em sua língua.

— Aposto que o cão virá se eu chamá-lo por esse nome.

— Rá. — Ele olhou para ela com aquele ar superior que todos os

homens assumem ao lidar com mulheres ingênuas. — Pode tentar.

— Muito bem, vou tentar. — Anna ergueu o queixo. — E, se ele vier, o

senhor deve me levar para um passeio pelos jardins da abadia.

Lorde Swartingham ergueu as sobrancelhas.

— E se ele não vier?

— Não sei. — Ela não havia pensado nisso. — Pode escolher o seu

prêmio.

Ele fez um muxoxo e contemplou o terreno aos seus pés.

— Acho que é uma tradição em apostas entre uma mulher e um homem

que o cavalheiro peça para tomar liberdades com a dama.

Anna respirou fundo e, em seguida, teve dificuldade para soltar o ar.

Sob as sobrancelhas dele, seus olhos escuros reluziram para ela.

— Um beijo, talvez?

Ai, Deus. Provavelmente, ela se precipitara. Anna soltou o ar num

suspiro e endireitou os ombros.

— Muito bem.

Ele acenou com uma mão lânguida.

— Pode chamar.

Anna pigarreou.

— Jock!

Nada.

— Jock!

Lorde Swartingham começou a dar uma risadinha.

Anna respirou fundo e soltou um grito bastante indigno para uma dama.

— JOCK!

Ambos ficaram atentos à chegada do cachorro. Nada.

Lentamente, o conde girou para encará-la, e, em meio ao silêncio, o

barulho das botas no cascalho parecia bem alto. Os dois estavam parados a

apenas alguns passos de distância um do outro. Ele se adiantou, e seus belos

e grandes olhos estavam fixos no rosto dela.

Anna podia sentir o sangue pulsando em seu peito. Ela lambeu os lábios.

O olhar do conde baixou para a boca de Anna, e as narinas dele

incharam. Ele deu outro passo, e agora os dois estavam bem próximos.

Como se fosse um sonho, ela viu as mãos dele se erguerem e segurarem

seus braços, sentiu a pressão dos grandes dedos através da capa e do

vestido.

Anna começou a tremer.

Ele inclinou a cabeça de cabelos escuros na direção da cabeça dela, e a

respiração quente roçou seus lábios. Ela fechou os olhos.

E ouviu o barulho do cão no pátio.

Anna abriu os olhos. Lorde Swartingham parecia paralisado.

Lentamente, ele virou a cabeça, ainda a alguns centímetros dela, e fitou o

cão. O animal parecia sorrir para ele, com a língua pendendo da boca,

arfando.

— Merda — xingou baixinho o conde.

Droga, pensou Anna.

No mesmo instante, ele a soltou, deu um passo para trás e lhe deu as

costas. Então passou as duas mãos pelo cabelo, balançando os ombros. Ela

o ouviu respirar fundo, mas sua voz ainda estava rouca quando ele falou:

— Parece que a senhora ganhou a aposta.

— Sim, milorde. — Ela esperava soar suficientemente despreocupada,

como se estivesse acostumada a quase beijar cavalheiros ao ar livre e não

estivesse com dificuldade para recuperar o fôlego. Como se não quisesse

desesperadamente que o cão tivesse ficado bem, bem longe.

— Será um prazer lhe mostrar os jardins — resmungou o conde —, tal

como estão, após o almoço. Talvez a senhora possa trabalhar na biblioteca

até lá?

— O senhor não vem para a biblioteca também? — Ela tentou disfarçar

a decepção.

O conde ainda não se virara para ela.

— Descobri que há questões que precisam da minha atenção na

propriedade.

— Claro — murmurou Anna.

Lorde Swartingham finalmente a encarou. Ela notou que suas pálpebras

ainda estavam pesadas e quase fantasiou que ele olhava para seu busto.

— Vejo a senhora no almoço.

Ela acenou com a cabeça, e o conde estalou os dedos para o cão. Ao

passar por ela, Anna pensou tê-lo ouvido resmungar alguma coisa para o

animal. Soava mais como idiota do que como Jock.

 

Meu Deus, o que eu estava pensando? Edward caminhava, irritado, ao

redor da abadia.

Deliberadamente, ele deixara a Sra. Wren numa situação difícil. Não

havia como ela negar seus rudes avanços. Como se uma mulher tão sensível

pudesse querer um beijo de um homem marcado pela varíola. Mas Edward

não havia pensado nas cicatrizes quando a segurou em seus braços. Ele não

tinha pensado em nada. Agira por puro instinto: o prazer de tocar os

próprios lábios naquela boca bonita e sensual. Seu pênis estava duro,

dolorosamente ereto, segundos após simplesmente pensar nisso. Por um

instante, pensou ser impossível soltar a Sra. Wren quando o cão apareceu, e

então foi forçado a virar as costas para evitar que ela visse sua situação. Ele

ainda não havia relaxado.

— E o que você estava fazendo, Jock? — rosnou Edward para o mastim

alegremente distraído. — Você precisa escolher melhor a hora de aparecer,

rapaz, se quiser continuar devorando os restos da cozinha da abadia.

Jock deu ao dono um adorável sorriso de cão. Uma orelha estava virada

para fora, e Edward a ajeitou distraidamente.

— Um minuto antes ou um minuto depois, de preferência depois, teria

sido um momento melhor para vir com seus pulos.

Ele suspirou. Não podia deixar esse desejo incontrolável continuar. Ele

gostava daquela mulher, pelo amor de Deus. Ela era inteligente e não tinha

medo do temperamento dele. E fazia perguntas sobre seus estudos agrícolas.

Percorria as plantações em meio à lama e ao esterco sem reclamar. Ela até

parecia gostar dessas saídas. E, algumas vezes, quando Anna o fitava, com

a cabeça inclinada para o lado e toda a atenção concentrada apenas nele,

algo parecia se revirar em seu peito.

Edward franziu o cenho e chutou um seixo na trilha.

Era injusto e constrangedor sujeitar a Sra. Wren aos seus avanços

brutais. Ele não deveria estar lutando contra pensamentos acerca daqueles

seios macios, perguntando-se se seus mamilos eram rosados ou se tinham

uma tonalidade mais escura. Contemplando se os mamilos iriam intumescer

imediatamente quando ele os tocasse ou se esperariam timidamente para

sentir sua língua.

Diabos.

Edward riu e rosnou ao mesmo tempo. Seu pênis estava novamente duro

e latejava ao pensar em Anna. Seu corpo não ficava tão fora de controle

desde que ele se tornara um rapaz com a voz grave.

Ele chutou outro seixo e parou no caminho, com as mãos no quadril,

levantando novamente a cabeça para o céu.

Não adiantava. Edward girou a cabeça de novo contra os ombros,

tentando aliviar a tensão. Ele teria de fazer uma viagem a Londres em breve

e passar uma ou até duas noites no Grotto de Aphrodite. Talvez depois disso

ele conseguisse ficar na presença da secretária sem ter pensamentos

libidinosos invadindo sua mente.

Ele esmagou o seixo que estivera chutando na lama ao girar e voltar para

os estábulos. A ideia de ir a Londres se tornara uma tarefa. Ele não estava

ansioso por passar a noite na cama de uma cortesã. Em vez disso, sentia-se

incomodado. Incomodado e desejando uma mulher que não podia ter. Depois, naquela tarde, Anna estava lendo O Príncipe Corvo quando

começaram as batidas. Ela avançara somente até a terceira página, que

descrevia uma batalha mágica entre um príncipe mau e um imenso corvo.

Era um estranho conto de fadas, mas soava cativante, e ela precisou de um

minuto para reconhecer o som da aldrava da porta principal. Nunca o ouvira

antes. A maioria dos visitantes da abadia vinha pela entrada dos criados.

Anna voltou a guardar o livro em sua mesa e pegou uma pena quando

ouviu o som de passos rápidos, provavelmente do lacaio no corredor para

atender à porta. Um murmúrio vago de vozes, uma delas feminina; depois,

saltos femininos caminhando na direção da biblioteca. O lacaio abriu a

porta com vigor, e Felicity Clearwater entrou.

Anna se levantou.

— Posso ajudar?

— Ah, não se levante! Não quero atrapalhar seus afazeres. — Felicity

girou uma das mãos na direção de Anna enquanto inspecionava a escada

frágil de ferro no canto. — Vim apenas para entregar um convite da minha

soirée de primavera a Lorde Swartingham. — Ela passou a ponta do dedo

enluvado sobre o corrimão de ferro e franziu o nariz para a poeira cor de

ferrugem que subiu.

— Ele não está no momento — disse Anna.

— Não? Então devo confiá-lo a você. — Felicity foi calmamente até a

mesa e retirou um envelope extremamente decorado do bolso. — Você vai

dar isto... — Ela estendeu o envelope, mas parou de falar ao olhar para

Anna.

— Sim? — Constrangida, Anna passou uma das mãos pelo cabelo. Será

que tinha uma mancha no rosto? Alguma coisa presa entre os dentes?

Parecia que Felicity se transformara numa estátua. Certamente sujeira

alguma justificava tal choque.

O papel velino na mão de Felicity tremeu e caiu em cima da mesa. Ela

desviou o olhar, e o momento passou.

Anna piscou. Talvez ela tivesse imaginado coisas.

— Certifique-se de que Lorde Swartingham receba meu convite, está

bem? — pediu Felicity. — Tenho certeza de que ele não vai querer perder o

evento social mais importante da região. — Ela esboçou um sorriso para

Anna e saiu pela porta.

Distraidamente, Anna abaixou a mão para o pescoço e sentiu o metal

frio sob sua palma. E franziu o cenho ao lembrar. De manhã, enquanto se vestia, achou que o fichu em seu pescoço era um tanto sem graça. Ela havia

revirado a minúscula caixa que continha sua pequena coleção de joias, mas

o único broche que encontrou era grande demais. Então, seus dedos tocaram

no relicário que ela havia encontrado na caixa de Peter. Dessa vez, tinha

sentido somente uma pontada ao ver o objeto. Talvez ele estivesse perdendo

o poder de machucá-la, e ela pensou, Ora, por que não?, e

desafiadoramente colocou-o no pescoço.

Anna tocou o badulaque em seu pescoço. Era frio e duro sob sua mão, e

ela desejou não haver cedido ao impulso matinal.

 

Droga! Droga! Droga! Felicity olhava sem notar a paisagem enquanto sua

carruagem se afastava da Abadia de Ravenhill. Ela não havia suportado 11

anos de apalpadas e cutucadas de um homem velho o suficiente para ser seu

avô para pôr tudo a perder agora.

Era de esperar que o desejo de Reginald Clearwater por herdeiros

estivesse satisfeito com os quatro filhos adultos que as duas primeiras

esposas tinham dado à luz, sem mencionar as seis filhas. Afinal, a

antecessora de Felicity havia morrido dando à luz o rebento mais jovem.

Mas não, Reginald era obcecado com a própria potência e a tarefa de fazer

filhos na esposa. Algumas vezes, durante as visitas matrimoniais, duas

vezes por semana, ela se perguntava se tudo aquilo valia a pena. O homem

tivera três esposas e ainda não tinha talento algum na cama.

Felicity soltou um muxoxo.

Mas, apesar dessa desvantagem, ela adorava ser a esposa do escudeiro.

Clearwater Hall era a maior casa do condado, atrás apenas da Abadia de

Ravenhill, e ela recebia uma generosa mesada para roupas e tinha a própria

carruagem.

Felicity mal podia esperar pelas joias lindas — e muito caras — que

ganhava em todos os seus aniversários. E os lojistas da região praticamente

se ajoelhavam quando ela os visitava. No fim das contas, era uma vida que

valia a pena ser preservada.

O que a trouxe de volta ao problema de Anna Wren.

Felicity tocou seu cabelo, passando a mão nele, à procura de mechas

fora de lugar. Há quanto tempo Anna sabia? Era impossível que o relicário

fosse um acidente. Coincidências dessa magnitude simplesmente não

aconteciam, o que significava que aquela mulher desprezível a estava

achincalhando depois de tanto tempo. A carta de Felicity a Peter fora escrita no calor da paixão e era muito, muito perigosa. Ela a havia colocado no

relicário que ele lhe dera e o devolvera a Peter, sem imaginar que o amante

guardaria o ridículo objeto. E então ele tinha morrido, e ela ficara tensa, à

espera de que Anna batesse à sua porta com aquela evidência. Mas o

relicário não apareceu, e ela imaginou que ele o tivesse vendido ou

enterrado — junto com a carta em seu interior — antes de morrer.

Homens! Que criaturas inúteis eles eram — com exceção das óbvias

vantagens.

Felicity tamborilou no parapeito. As únicas razões para Anna lhe

mostrar o relicário agora eram vingança ou chantagem. Ela fez uma careta e

passou a língua pelos dentes da frente, sentindo suas pontas. Finos, lisos e

afiados. Muito afiados. Se a pequena Anna Wren pensava que poderia

assustar Felicity Clearwater, ela estava prestes a descobrir como estava

errada.

 

— Acredito que tenho que pagar uma aposta, Sra. Wren — anunciou o

conde ao entrar na biblioteca no fim daquela tarde.

O sol que entrava pelas janelas delineava os fios prateados no cabelo de

Lorde Swartingham. Suas botas estavam novamente enlameadas.

Anna pousou a pena e estendeu a mão para Jock, que havia

acompanhado o dono até a sala.

— Eu estava começando a pensar que o senhor tinha esquecido a dívida

de hoje de manhã, milorde.

Ele arqueou uma sobrancelha arrogante.

— A senhora está duvidando da minha honra?

— Se estivesse, o senhor me desafiaria para um duelo?

Ele emitiu um som pouco elegante.

— Não. A senhora provavelmente ganharia se eu fizesse isso. Minha

pontaria não é das melhores, e minha esgrima precisa de prática.

Anna ergueu o queixo com a expressão arrogante.

— Então, talvez o senhor devesse tomar cuidado com o que fala para

mim.

Um canto da boca de Lorde Swartingham se ergueu.

— A senhora quer ver o jardim ou prefere continuar trocando ofensas

aqui?

— Não vejo por que não podemos fazer as duas coisas — murmurou ela

e pegou seu xale.

Anna lhe deu o braço, e os dois saíram da biblioteca. Jock os seguia;

orelhas em pé diante da perspectiva de um passeio. O conde a conduziu

pela porta principal e dobrou a esquina da abadia, passando pelos estábulos.

Ali, os paralelepípedos davam lugar à grama aparada. Eles passaram por

uma cerca viva baixa, que delimitava uma horta ao lado da entrada dos

criados. Alguém já tinha plantado alho-poró. Delicados tufos verdes

ladeavam uma vala que mais tarde ficaria cheia, conforme as plantas

cresciam. Além da horta, via-se um gramado inclinado, no fim do qual

havia um jardim murado maior. Eles seguiram o declive numa trilha de

ardósia cinzenta. À medida que iam se aproximando, Anna viu que a hera

praticamente obscurecia os tijolos vermelhos e antigos das paredes. Havia

uma porta de madeira escondida, com vinhas marrons penduradas.

Lorde Swartingham pegou a maçaneta de ferro enferrujado e puxou. A

porta rangeu e abriu um centímetro, então parou. Ele resmungou alguma

coisa e olhou para ela.

Anna sorriu encorajadoramente.

Ele fechou as duas mãos na maçaneta e firmou os pés antes de puxar

com força. Nada aconteceu por um segundo e, então, a porta cedeu com um

gemido. Jock passou correndo pela abertura para o jardim. O conde ficou de

lado e gesticulou para ela.

Anna abaixou a cabeça para espiar o interior.

E viu uma selva. O jardim parecia ter a forma de um imenso retângulo.

Ou, pelo menos, esse fora seu desenho a certa altura. Uma trilha de tijolos,

que pouco se distinguia sob os destroços, percorria o interior das paredes e

se conectava a uma vereda central em formato de cruz, que dividia o jardim

em quatro retângulos menores. Na parede oposta, via-se outra porta, quase

oculta pelo esqueleto de uma trepadeira. Talvez houvesse um segundo

jardim ou uma série de jardins mais adiante.

— Minha avó desenhou os planos originais para esses canteiros —

explicou o conde atrás dela. De alguma maneira, eles tinham passado pela

porta, embora Anna não se lembrasse de ter caminhado. — E minha mãe os

ampliou e deu continuidade ao trabalho.

— Deve ter sido muito bonito antigamente. — Ela passou por cima de

uma rachadura na trilha, onde alguns dos tijolos estavam fora do lugar. Será

que a árvore no canto era uma pereira?

— Não sobrou muito do trabalho dela, não é? — retrucou ele. Ela podia

ouvi-lo chutando alguma coisa. — Suponho que seria simplesmente melhor botar as paredes abaixo e aplainar o local.

Anna fez um movimento brusco com a cabeça na direção dele.

— Ah, não, milorde. O senhor não deve fazer isso.

Ele franziu o cenho ao ouvir o protesto.

— Por que não?

— Tem muita coisa aqui que pode ser salva.

O conde examinou o jardim descuidado e a trilha destruída com evidente

ceticismo.

— Não vejo uma única coisa digna de ser salva.

Ela lançou-lhe um olhar exasperado.

— Ora, veja as treliças nas paredes.

Ele girou até o ponto para o qual Anna apontava.

Ela começou a procurar um caminho até a parede e tropeçou numa pedra

escondida pelas ervas e se esticou, mas bateu o dedo do pé novamente.

Braços fortes a pegaram por trás e a ergueram com facilidade. Com dois

passos compridos, Lorde Swartingham estava junto à parede.

Ele a colocou no chão.

— Era isto que a senhora queria ver?

— Sim. — Anna, sem fôlego, observou-o de esguelha.

Ele fitou a treliça com uma expressão triste.

— Obrigada. — Ela se virou para a árvore patética contra a parede e

imediatamente se distraiu. — Creio que seja uma macieira ou talvez uma

pereira. O senhor pode ver onde plantaram em torno das paredes do jardim.

E este aqui está brotando.

O conde obedientemente examinou o galho indicado e resmungou.

— E, na verdade, tudo que as plantas precisam é de uma boa poda —

tagarelou ela. — O senhor poderia fazer sua própria sidra.

— Nunca gostei muito de sidra.

Anna baixou as sobrancelhas para ele.

— Ou a cozinheira poderia fazer geleia de maçã.

O conde arqueou uma das sobrancelhas.

Ela quase defendeu os méritos da geleia de maçã, mas então espiou uma

flor escondida entre as ervas.

— O senhor acha que é uma violeta, ou talvez uma pervinca?

A flor estava a dois passos da beirada de um dos canteiros. Anna se

inclinou para olhar mais de perto, colocando uma das mãos no solo para se

equilibrar.

— Ou talvez um miosótis, embora elas normalmente floresçam em

grupos grandes. — Com cuidado, Anna colheu a flor. — Não. Que

bobagem a minha! Olhe as folhas.

Lorde Swartingham estava parado, imóvel, atrás dela.

— Acho que pode ser um tipo de jacinto. — Ela se esticou e se virou

para consultá-lo.

— Ah? — A palavra saiu num barítono gutural.

Anna piscou ao ouvir a voz.

— Sim e, claro, onde tem um, tem mais.

— Do quê?

Ela estreitou os olhos, desconfiada.

— O senhor não está me escutando, não é?

Ele balançou a cabeça.

— Não.

O conde a observava fixamente, de tal modo que a respiração de Anna

se acelerou. Ela podia sentir o rosto esquentar. Naquela tranquilidade, a

brisa brincalhona soprou um fino cacho de cabelo em sua boca. Ele esticou

a mão bem devagar e retirou-o com as pontas dos dedos. Os calos na mão

de Lorde Swartingham roçaram a pele delicada de seus lábios, e ela fechou

os olhos, cheia de desejo. Com cuidado, ele ajeitou o cacho de volta no

penteado, e sua mão desceu pela têmpora dela.

Ela sentiu a respiração do conde acariciar seus lábios. Ah, por favor.

E então ele baixou a mão.

Anna abriu os olhos e se deparou com o olhar de obsidiana. Ela esticou a

mão para protestar — ou talvez tocar o rosto dele, não sabia ao certo, mas

isso não importava. Lorde Swartingham já dera meia-volta e se afastara

alguns passos dela. Anna não pensou que ele tivesse sequer notado o

próprio gesto interrompido.

Ele virou a cabeça de modo que ela somente pudesse ver seu rosto de

perfil.

— Perdoe-me.

— Pelo quê? — Ela tentou sorrir. — Eu...

Ele fez um gesto com a mão para cima e para baixo.

— Viajarei para Londres amanhã. Infelizmente, tenho negócios lá que

não podem esperar.

Anna cerrou os punhos.

— A senhora pode continuar admirando o jardim, se quiser. Tenho que

voltar para os meus escritos. — Ele se afastou rapidamente, e suas botas

esmagaram os tijolos quebrados.

Anna abriu os punhos e sentiu a flor esmagada escorregar de seus dedos.

Ela olhou ao redor do jardim destruído. Havia tantas coisas a fazer.

Aquele trecho ali precisava ser capinado; o canteiro aqui precisava de

plantas. Nenhum jardim está realmente morto quando um jardineiro de

verdade sabe como cuidar dele. Ora, o lugar precisava apenas de um pouco

de cuidado, de um pouco de amor...

Um véu de lágrimas obscureceu seus olhos. Ela limpou o rosto, irritada,

com uma mão trêmula. Esquecera o lenço em casa. As lágrimas encheram

seus olhos e rolaram para o queixo. Droga. Ela teria de usar a manga para

limpar. Que tipo de dama esquece o lenço? Um tipo muito patético,

obviamente. O tipo que nenhum homem tem vontade de beijar. Ela esfregou

o rosto com a parte interna do braço, mas as lágrimas não paravam de

brotar. Como se ela tivesse acreditado naquela bobagem sobre trabalho em

Londres. Anna era uma mulher madura. Sabia onde o conde pretendia

trabalhar. Naquele bordel nojento.

Ela prendeu a respiração num soluço. Ele ia a Londres, para a cama de

outra mulher.

 

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