O Príncipe Corvo

Elizabeth Hoyt · Capítulo 10 de 26

Páginas do PDF

O Príncipe Corvo

Capítulo Oito

 

“O corvo voou com Aurea por mais um dia e por mais uma noite, e tudo

que ela viu nesse período pertencia a ele. Aurea tentou compreender

tamanha riqueza, tamanho poder, mas isso estava além de sua

compreensão. Seu pai tinha somente comandado uma pequena porção das pessoas e terras que esta ave parecia possuir. Finalmente, na quarta noite,

ela viu um grande castelo, feito de mármore branco e ouro. O sol poente

que se refletia era tão brilhante que fazia seus olhos arderem.

— Quem é o dono desse castelo? — murmurou Aurea, e um temor sem

nome encheu seu coração.

O corvo virou a imensa cabeça e a fitou com um olho preto cintilante.

— Seu marido! — grasnou ele...”

 

— O Príncipe Corvo

 

Naquela noite, Anna se arrastou para casa sozinha. Depois de se esforçar

para se acalmar, no jardim destruído, voltara para a biblioteca a fim de

trabalhar. Não precisava ter se preocupado. Lorde Swartingham não

aparecera durante o restante da tarde, e, quando ela reunia suas coisas no

fim do dia, um jovem lacaio trouxera um pequeno cartão dobrado. Era

breve e objetivo. O conde sairia muito cedo pela manhã e por isso não a

veria antes de ir. Ele lamentava o fato.

Como o conde não estava por perto para protestar, Anna foi para casa a

pé, em vez de pegar a carruagem, em parte por rebeldia, em parte porque

precisava de algum tempo sozinha para pensar e se recompor. Ela não

poderia voltar para casa com o rosto tristonho e os olhos vermelhos. Não, a

menos que quisesse ser interrogada durante metade da noite por Mãe Wren.

Quando Anna finalmente alcançou os arredores da cidade, seus pés

doíam. Ela se acostumara ao luxo da carruagem. Seguiu com dificuldade, pegou a estrada que levava ao seu chalé e parou. Uma carruagem escarlate e

preta com borda dourada estava parada diante de sua porta. O cocheiro e

dois lacaios apoiados no veículo usavam libré preta com debrum escarlate e

dourado. Ao lado do veículo, um grupo de meninos pequenos pulava,

interrogando os lacaios. Anna não podia culpá-los — parecia que um

membro da realeza a visitava. Ela se esgueirou em torno da carruagem e

entrou no chalé.

Lá dentro, Mãe Wren e Pearl tomavam chá na sala de estar com uma

terceira mulher que Anna nunca tinha visto. A mulher era muito jovem, mal

chegara aos 20 anos. O cabelo empoado de branco estava penteado num

estilo enganosamente simples, destacando estranhos olhos verde-claros. Ela

usava um vestido preto. Preto indicava luto, mas Anna nunca vira um

vestido de luto como este. Uma cascata de tecido escuro descia ao redor da

mulher sentada, e a sobressaia puxada para trás revelava um bordado

escarlate na anágua abaixo. Os pontos aparentes se repetiam no decote

quadrado e baixo e nas três camadas de renda que saíam das meias-mangas.

Ela parecia destoar tanto na pequena sala quanto um pavão num galinheiro.

Mãe Wren ergueu o olhar, animada, quando Anna entrou.

— Querida, esta é Coral Smythe, a irmã caçula de Pearl. Estamos

tomando chá agora. — Ela fez um gesto com a xícara e quase derramou a

bebida no colo de Pearl. — Minha nora, Anna Wren.

— Como vai, Sra. Wren? — cumprimentou Coral com uma voz rouca e

grave que parecia vir de um homem, e não de uma mulher exótica.

— Prazer em conhecê-la — murmurou Anna ao aceitar uma xícara de

chá.

— Temos que ir embora logo se quisermos chegar a Londres antes do

anoitecer — disse Pearl.

— Você já está recuperada para a viagem, irmã? — Coral não

demonstrava emoção, mas observava Pearl atentamente.

— Vocês não vão passar a noite conosco, Srta. Smythe? — perguntou

Mãe Wren. — Depois Pearl poderá partir descansada pela manhã.

Os lábios de Coral se curvaram num esboço de sorriso.

— Eu não gostaria de ser um inconveniente, Sra. Wren.

— Ah, não é inconveniência alguma. Está quase escuro lá fora, e não

seria seguro para duas jovens damas viajarem neste momento. — Mãe

Wren acenou com a cabeça na direção da janela, que, de fato, estava

praticamente preta.

— Obrigada. — Coral inclinou a cabeça.

Depois que terminaram o chá, Anna levou Coral até o quarto que Pearl

ocupava para que a nova hóspede pudesse se lavar antes do jantar. Ela

levara alguns lençóis e água fresca para a bacia e estava se virando para sair

quando Coral a deteve.

— Sra. Wren, eu gostaria de lhe agradecer. — Coral observava Anna

com olhos verde-claros impenetráveis. Sua expressão não combinava com

suas palavras.

— Não foi nada, Srta. Smythe — retrucou Anna. — Nós dificilmente

poderíamos mandá-las para a estalagem.

— Claro que poderiam. — Os lábios de Coral se contorceram numa

careta irônica. — Mas não é disso que estou falando. Quero agradecer por

ajudar Pearl. Ela me contou como estava doente. Se a senhora não a tivesse

trazido para casa e cuidado dela, minha irmã teria morrido.

Anna deu de ombros, sem graça.

— Outra pessoa teria passado por lá em um minuto e...

— E a teria deixado lá — completou Coral. — Não me diga que alguém

faria o mesmo que a senhora. Ninguém o fez.

Anna não sabia o que dizer. Por mais que quisesse protestar contra a

visão cínica que Coral tinha da humanidade, ela sabia que a outra mulher

tinha razão.

— Minha irmã caminhava pelas ruas para pôr comida em minha boca

quando éramos mais novas — emendou Coral. — Ficamos órfãs quando

Pearl tinha menos de 15 anos, e pouco depois ela foi dispensada de seu

emprego como criada numa casa elegante. Ela poderia ter simplesmente me

deixado num abrigo. Sem mim, seria mais fácil para ela arrumar outro

emprego respeitável, talvez casado e constituído família. — Os lábios de

Coral se estreitaram. — Em vez disso, ela divertia homens.

Anna se encolheu, tentando imaginar uma vida assim tão triste. Uma

total falta de opções.

— Eu tentei convencer Pearl a me deixar ajudá-la agora. — Coral virou

a cabeça para o outro lado. — Mas a senhora não iria querer ouvir nossa

história. Basta dizer que ela é a única criatura na face da Terra que eu amo.

Anna ficou em silêncio.

— Se houver alguma coisa que eu possa fazer pela senhora, Sra. Wren...

— Os olhos estranhos de Coral se fixaram nela. — Basta que a senhora

peça.

— Seu agradecimento é o bastante — disse Anna por fim. — Fiquei

feliz por ajudar sua irmã.

— Vejo que a senhora não acreditou na seriedade da minha oferta. Mas

tenha-a em mente. Eu faria qualquer coisa ao meu alcance pela senhora.

Qualquer coisa.

Anna fez que sim com a cabeça e se precipitou para fora do cômodo.

Qualquer coisa... Ela fez uma pausa na porta e se virou impulsivamente,

antes que tivesse tempo de reconsiderar.

— A senhora já ouviu falar de um estabelecimento chamado Grotto de

Aphrodite?

— Sim. — A expressão de Coral se tornou obscura. — Sim, e conheço a

proprietária, a própria Aphrodite. Posso lhe arrumar uma noite ou todas as

noites de uma semana no Grotto de Aphrodite, se a senhora quiser.

Ela deu um passo na direção de Anna.

— Posso lhe arrumar uma noite com um amante experiente ou um

estudante virginal. — Os olhos de Coral se arregalaram e pareceram arder.

— Famosos libertinos ou catadores de rua. Um homem muito especial ou

dez completos estranhos. Negros, ruivos, asiáticos, homens com os quais a

senhora sonhou apenas no escuro da noite, sozinha em sua cama, metida

embaixo das cobertas. Não importa o que queira. Não importa o que deseje.

Não importa o que cobice. A senhora precisa apenas me pedir.

Anna olhou para Coral como um ratinho hipnotizado diante de uma

cobra particularmente bonita.

Ela começou a gaguejar uma recusa, mas Coral fez um gesto com a mão.

— Pense mais um pouco e me responda amanhã. Agora, se a senhora

não se incomodar, eu gostaria de ficar sozinha.

Anna se encontrou no corredor, do lado de fora do quarto. Ela balançou

a cabeça. Será que o diabo poderia assumir a forma de uma mulher?

Porque, sem dúvida, a tentação fora posta diante dela.

Anna desceu lentamente as escadas, com a sedutora oferta guardada na

mente. Tentou esquecer o assunto, mas, para seu horror, descobriu que

simplesmente não podia. E, quanto mais ela pensava no Grotto de

Aphrodite, mais aceitável aquela ideia se tornava.

Durante a noite, Anna mudou várias vezes de ideia sobre a oferta

ultrajante de Coral. Ela acordava de sonhos nebulosos e ameaçadores e

ficava deitada, refletindo, mas depois adormecia de novo e caía num mundo

onde Lorde Swartingham estava sempre se afastando, e ela, inutilmente, corria atrás dele. Quase de manhã, desistiu de fingir que dormia e deitou-se

de barriga para cima, fitando o teto ainda escuro. Ela juntou as mãos

debaixo do queixo como uma garotinha e pediu a Deus que a deixasse

resistir a essa terrível proposta. Uma mulher virtuosa não deveria ter

problema para resistir, ela estava certa disso. Uma verdadeira dama nunca

pensaria em se esgueirar para os antros de Londres a fim de seduzir um

homem que havia deixado bem claro que não estava interessado nela.

Quando Anna abriu os olhos de novo, já era dia. Ela se levantou e lavou

o rosto e o pescoço com a água fria da bacia, depois se vestiu e se esgueirou

em silêncio pela porta, para não acordar a sogra.

Ela saiu para o jardim. Ao contrário do jardim do conde, o dela era

pequeno e organizado. A maioria dos açafrões já havia florescido, mas

restavam alguns narcisos tardios. Ela se curvou para retirar um narciso que

havia parado de florescer. A visão das tulipas em flor momentaneamente

trouxe a paz de volta à sua alma. Então, Anna lembrou que o conde viajaria

para Londres naquele mesmo dia e fechou os olhos com força para bloquear

o pensamento.

Foi quando ouviu um passo atrás de si.

— Já se decidiu, Sra. Wren?

Ela girou e viu um adorável Mefistófeles com olhos verde-claros. Coral

sorriu para ela.

Anna começou a balançar a cabeça, mas então se ouviu dizer:

— Aceito sua oferta.

O sorriso de Coral se abriu numa curva perfeita, mas sem alegria.

— Ótimo. Você pode nos acompanhar de volta para Londres em minha

carruagem. — Ela deu uma risada baixinha. — Isso será interessante.

A mulher entrou novamente no chalé antes que Anna pudesse pensar em

uma resposta.

 

—Ôa, calma — murmurou Edward para o cavalo baio.

Ele segurou sua cabeça e, pacientemente, esperou que o cavalo

pisoteasse e ajeitasse o freio na boca. O animal costumava ser mal-

humorado pela manhã, e ele o havia selado mais cedo que o normal. O céu

estava apenas começando a clarear a leste.

— Ôa, seu velho bastardo — murmurou ele.

Pela primeira vez, ocorreu-lhe que o cavalo com quem falava não tinha

nome. Há quanto tempo ele era dono do cavalo baio? Meia dúzia de anos já, pelo menos, e nunca se importara em lhe dar um nome. Anna Wren o

reprovaria se soubesse disso.

Edward se encolheu quando enfim montou. Esse era exatamente o

motivo pelo qual ele estava fazendo a viagem: tirar da cabeça a viúva. Ele

havia escolhido aquietar um pouco — o corpo e a mente — ao viajar para

Londres. Sua bagagem e o valete seguiram na carruagem. Mas, como se

quisesse estragar o plano, o recém-nomeado Jock começou a pular assim

que o cavalo saiu dos estábulos. O cão correu pela porta à frente dele; havia

passado a última meia hora desaparecido. Agora, seu traseiro estava coberto

de lama malcheirosa.

Edward segurou os arreios do cavalo e suspirou. Ele planejava visitar a

noiva e sua família nessa viagem e concluir as negociações do noivado. Um

mestiço fedorento e gigantesco não ajudaria sua causa com a família

Gerard.

— Fique, Jock.

O cão se sentou e o encarou com olhos grandes, castanhos e apenas

ligeiramente avermelhados. Seu rabo varria o paralelepípedo atrás dele.

— Sinto muito, meu velho. — Edward se inclinou para afagar as orelhas

do animal. O cavalo nervoso recuou alguns passos, rompendo o contato. —

Você vai ter que ficar aqui dessa vez.

O cão inclinou a cabeça.

Edward sentiu uma onda de indesejada melancolia. O cão não pertencia

à sua vida, assim como a dama.

— De guarda, Jock. Tome conta dela por mim, garoto. — Ele deu um

meio-sorriso e achou graça do próprio capricho. Jock não era um cão de

guarda treinado. E, de qualquer forma, Anna Wren não lhe pertencia para

ser guardada.

Afastando os pensamentos, Edward guiou o cavalo para o outro lado e

seguiu a meio-galope pela estrada.

 

Após refletir um pouco, Anna disse à Mãe Wren que iria a Londres com

Pearl e Coral para comprar tecido para fazer vestidos novos.

— Fico feliz por finalmente podermos comprar tecido, mas você tem

certeza disso? — retrucou Mãe Wren. Suas bochechas tinham um tom

rosado, e a mulher emendou em voz baixa: — Elas são muito gentis, claro,

mas, no fim das contas, são cortesãs.

Anna teve dificuldade em encará-la.

— Coral ficou muito grata por cuidarmos de Pearl. Elas são muito

próximas, sabe?

— Sim, mas...

— E ela me ofereceu a carruagem para me levar a Londres e me trazer

de volta.

As sobrancelhas de Mãe Wren se uniram, em dúvida.

— É uma oferta muito generosa — comentou Anna baixinho. — Vai nos

poupar o custo de uma corrida de carruagem, além de ser mais confortável.

Vou conseguir comprar mais tecido com o dinheiro que gastaríamos com o

transporte.

Mãe Wren hesitou.

— A senhora não gostaria de ter um vestido novo? — perguntou Anna,

em tom persuasivo.

— Bem, eu me preocupo com o seu conforto, querida — disse Mãe

Wren finalmente. — Se você está satisfeita com esse arranjo, então eu

também estou.

— Obrigada. — Anna a beijou na bochecha e correu escadaria acima

para terminar de arrumar as coisas.

Os cavalos já estavam prontos para partir quando Anna desceu

novamente. Ela se apressou com as despedidas e entrou na carruagem, onde

as irmãs Smythe a esperavam.

Anna acenou da janela quando elas se afastaram, para a diversão de

Coral. Ela estava prestes a se afastar da janela quando avistou Felicity

Clearwater parada na rua. Anna hesitou, e seus olhos se encontraram com

os da outra mulher. Então a carruagem passou, e ela voltou a se sentar no

banco. Anna mordeu o lábio inferior. Felicity poderia não saber o motivo de

sua viagem a Londres, mas vê-la ali deixou Anna inquieta.

À sua frente, Coral ergueu uma sobrancelha.

Anna segurou a correia acima de sua cabeça quando a carruagem virou

uma esquina, sacudindo as mulheres dentro dela. Ela ergueu o queixo.

Coral sorriu levemente e acenou com a cabeça.

Elas fizeram uma parada na Abadia de Ravenhill, para que Anna

pudesse informar ao Sr. Hopple que se ausentaria do trabalho por alguns

dias. A carruagem esperou no fim da entrada, fora do campo de visão,

enquanto ela ia até a abadia e voltava. Somente ao se aproximar da

carruagem foi que percebeu que Jock a seguia.

Anna se virou para encarar o cão.

— Volte, Jock.

Jock se sentou no meio do caminho e a encarou calmamente.

— Ora, senhor! Volte para casa, Jock! — Anna apontou para a abadia.

Jock virou a cabeça para olhar na direção do dedo dela, mas não se

moveu.

— Muito bem, então — disse ela, irritada, sentindo-se ridícula por

discutir com um cachorro. — Vou simplesmente ignorar você.

Anna seguiu pelo restante do caminho determinada a não prestar atenção

no imenso cão que a seguia. Mas, quando ela passou pelos portões da

abadia e viu a carruagem, soube que tinha um problema. O lacaio a avistara

e tinha aberto a porta do veículo, esperando que ela entrasse nele. Houve

um borrão e um esgaravatar de garras no seixo quando Jock passou por ela

e pulou dentro do veículo.

— Jock! — Anna estava escandalizada.

Do interior da carruagem, veio uma comoção que fez o veículo balançar

brevemente de um lado para o outro; então, tudo ficou parado. O lacaio

espiou pela porta. Anna parou ao lado dele e também olhou, hesitante.

Jock ocupava um dos assentos de veludo. À sua frente, Pearl observava

o cão, horrorizada. Coral, como era de imaginar, não se perturbou e

esboçava um sorriso.

Anna esquecera que Jock poderia ser assustador à primeira vista.

— Sinto muito. Ele é inofensivo.

Pearl, virando os olhos para fitá-la, parecia não estar convencida.

— Espere, deixe-me tirá-lo daí — disse Anna.

Mas isso se mostrou difícil. Depois de um rosnado ameaçador de Jock, o

lacaio deixou claro que seu trabalho não incluía lidar com animais

perigosos. Anna entrou com dificuldade na carruagem para tentar

convencer o cão a sair. Quando viu que isso não ia funcionar, segurou o

pelo perto de seu pescoço e tentou arrastá-lo. Jock simplesmente firmou as

patas e esperou enquanto ela fazia esforço.

Coral começou a rir.

— Parece que o seu cão quer vir conosco, Sra. Wren. Deixe-o em paz.

Não me importo com outro passageiro.

— Ah, eu não poderia — ofegou Anna.

— Poderia, sim. Não vamos discutir. Entre e proteja Pearl e a mim do

animal.

Jock pareceu contente quando Anna se sentou. Uma vez que ficou

decidido que o cão não seria expulso, ele se deitou e dormiu. Pearl o

observou, tensa, por algum tempo. Como ele não se movia, ela se deixou

levar pelo sono. Anna repousou nas almofadas de veludo fino da carruagem

e pensou, sonolenta, que eram ainda mais delicadas que as de Lorde

Swartingham. Dali a pouco, ela também estava cochilando, cansada, em

virtude da falta de descanso da noite anterior.

Elas fizeram uma parada durante a tarde para um almoço tardio em uma

estalagem na estrada. Cavalariços berrando correram para fora, para conter

os cavalos, que pisoteavam enquanto as mulheres desciam. A estalagem era

surpreendentemente limpa, e elas comeram um belo cozido de carne e

tomaram sidra. Anna fez questão de levar um pedaço de carne para a

carruagem, para dar a Jock. Depois o deixou correr pelo pátio e assustar os

estribeiros antes de seguirem viagem.

O sol já se pusera quando a carruagem parou diante de uma bela casa

geminada em Londres. Anna ficou surpresa ao ver tamanho luxo, mas então

pensou na carruagem de Coral e se deu conta de que não deveria ficar

assim.

Coral deve ter notado quando ela olhou com assombro para a fachada,

pois sorriu enigmaticamente.

— Tudo bondade do marquês. — Ela fez um gesto amplo e seu sorriso

se tornou cínico. — Meu bom amigo.

Anna a acompanhou pelos degraus principais até a entrada

ensombrecida. Seus passos ecoaram no assoalho de mármore branco

reluzente. As paredes também estavam cobertas por mármore branco até o

teto de gesso com um candelabro de cristal brilhante. A entrada era muito

bonita, porém muito vazia. Ela se perguntou se refletia a personalidade da

atual ocupante ou do dono ausente.

Nesse momento, Coral se virou para Pearl, que começava a desfalecer

por causa da longa viagem.

— Quero que você fique aqui comigo, irmã.

— Seu marquês não vai gostar que eu fique por muito tempo. Você sabe

disso. — Pearl parecia ansiosa.

Os lábios de Coral se contorceram imperceptivelmente.

— Deixe que eu me preocupo com o marquês. Ele vai compreender

minhas razões. Além disso, ficará fora do país pelas próximas duas semanas. — Ela sorriu quase calorosamente. — Agora, vou levá-las aos

seus aposentos.

O quarto de Anna era uma bonita e pequena câmara num tom de azul

envelhecido e branco. Coral e Pearl lhe deram boa-noite, e ela se aprontou

para deitar. Jock suspirava pesadamente e se deitou diante da lareira acesa.

Ela escovou o cabelo e conversou com o cão. E, com muita determinação,

não se permitiu pensar no dia seguinte. Mas, ao se deitar para dormir, todos

os pensamentos que havia tentado manter afastados invadiram sua mente.

Será que estava prestes a cometer um grave pecado? Será que conseguiria

suportar a culpa depois de amanhã? Será que satisfaria o conde?

Para sua humilhação, esse último pensamento era o que mais a

preocupava.

 

Felicity acendeu o candelabro em seu círio e pousou-o cuidadosamente no

canto da mesa. Reginald tinha sido particularmente amoroso naquela noite.

Um homem de sua idade já deveria ter diminuído o ritmo na cama.

Ela bufou para si mesma. A única coisa que havia diminuído o ritmo era

o que ele fazia para chegar ao clímax. Felicity poderia ter escrito uma peça

de cinco atos enquanto o marido bufava e suava em cima dela. Em vez

disso, ela considerou as razões pelas quais uma viúva como Anna Wren

poderia ir para Londres. A Sra. Wren mais velha, quando questionada,

afirmou que a viagem era para comprar tecido para vestidos novos. Uma

desculpa plausível, na verdade, mas havia muitas outras diversões que uma

dama solteira poderia encontrar na cidade. Tantas, de fato, que Felicity

pensou que poderia valer a pena descobrir exatamente o que Anna estava

fazendo em Londres.

Ela pegou uma folha de papel da mesa do marido e destampou o tinteiro.

Encheu a pena e então parou. Quem entre seus conhecidos em Londres seria

a melhor escolha? Veronica era curiosa demais. Timothy, embora fosse um

cavalo de corrida entre os lençóis, infelizmente tinha a mesma capacidade

mental de um cavalo fora da cama. E havia... Claro!

Felicity sorriu presunçosamente enquanto traçava as primeiras letras da

carta. Ela escreveu a um homem que não era nada honesto. Nem era um

cavalheiro.

E nada gentil.

 

OceanofPDF.com