O Príncipe Corvo

Elizabeth Hoyt · Capítulo 8 de 26

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O Príncipe Corvo

Capítulo Seis

 

 

“Os habitantes do castelo dançaram e gritaram de alegria. O inimigo fora

derrotado, e eles nada mais tinham a temer. Porém, em meio à

comemoração, o corvo voltou voando e pousou diante do duque.

— Eu cumpri minha promessa e derrotei o príncipe. Agora me dê o que é

meu.

Mas qual das filhas seria sua esposa? A mais velha gritou que não queria

desperdiçar sua beleza com uma ave nojenta. A segunda retrucou que,

agora que o exército do príncipe malvado fora derrotado, por que deveriam cumprir o combinado? Somente a mais jovem, Aurea, concordou em manter

a palavra de honra de seu pai. Naquela mesma noite, na mais estranha

cerimônia já vista, Aurea desposou o corvo. E, assim que foram

pronunciados casados, o corvo pediu à esposa que subisse em suas costas e

voou com ela agarrada nele...”

 

— O Príncipe Corvo

 

Edward observou Anna ir embora com um misto de raiva e perplexidade. O

que havia acabado de acontecer? Quando foi que ele perdera o controle da

situação?

Ele deu meia-volta e pegou dois bibelôs de porcelana e uma caixa de

rapé da cornija e os jogou na parede em rápida sucessão. Cada peça

explodiu com o impacto, mas isso não ajudou. O que dera naquela mulher?

Ele tinha meramente sugerido — de modo firme, claro — que era

inadequado que ela abrigasse na própria casa uma pessoa de má reputação,

e, por alguma razão, aquilo se voltara contra ele.

O que diabos havia acontecido?

Edward foi até o corredor, onde um lacaio que parecia assustado fitava a

porta principal.

— Não fique aí parado, homem. — O lacaio deu um pulo e girou ao

ouvir o rosnado de Edward. — Vá e mande John Cocheiro pegar a

carruagem e ir atrás da Sra. Wren. Aquela mulher tola provavelmente vai

caminhar todo o trajeto de volta até a aldeia apenas para me irritar.

— Milorde. — O lacaio fez uma mesura e saiu correndo.

Edward enfiou as duas mãos no cabelo e puxou o suficiente para sentir

que desfizera seu rabicho. Mulheres! Ao lado dele, o cachorro ganiu.

Hopple espiou de um canto, como um rato que saísse de seu buraco para

ver se a tempestade havia passado. Ele pigarreou.

— As mulheres não são nada sensatas algumas vezes, não é, milorde?

— Ora, cale a boca, Hopple. — Edward deixou o corredor, batendo os

pés.

 

Os pássaros tinham acabado sua alegre cacofonia na manhã seguinte,

quando as batidas à porta principal do chalé começaram. Primeiro, Anna

pensou que o barulho fizesse parte de um sonho confuso, mas então seus

olhos se abriram, turvos, e o sonho se dissipou.

Infelizmente, o barulho, não.

Anna engatinhou para fora do colchão e pegou seu robe azul da cor do

céu. Amarrando-o a seu redor, ela desceu descalça os degraus frios,

bocejando tanto que sua mandíbula estalou. O visitante estava frenético a

essa altura. Fosse lá quem fosse, não tinha muita paciência. E, para ser

sincera, a única pessoa que ela conhecia que tinha tal temperamento era...

— Lorde Swartingham!

Um dos braços musculosos do conde se apoiara na verga da porta, acima

da cabeça de Anna; o outro braço se erguia, preparado para outra pancada.

Rapidamente, ele baixou o punho. O cão estava parado ao seu lado e

abanava o rabo.

— Sra. Wren. — Ele a encarou. — A senhora ainda não se vestiu?

Anna baixou o olhar para o robe amassado e pés descalços.

— Evidentemente que não, milorde.

O cão passou pelas pernas do conde e enfiou o focinho na mão dela.

— Por que não? — perguntou ele.

— Porque é cedo demais para isso! — O cão se aninhou em Anna

enquanto ela o afagava.

Lorde Swartingham observou o absorto animal de cara feia.

— Pilantra — rosnou ele.

— Como é que é?

O conde virou-se para ela.

— Não a senhora, o cachorro.

— Quem é, Anna? — Mãe Wren estava parada na escada e fitava o

andar de baixo com ansiedade. Fanny estava parada no corredor.

— É o conde de Swartingham, mãe — respondeu Anna, como se fosse

comum homens nobres aparecerem naquela casa antes do café da manhã.

Ela se virou novamente para ele e falou, com mais formalidade: — Permita-

me apresentar minha sogra, a Sra. Wren. Mãe, este é o Lorde Edward de

Raaf, conde de Swartingham.

Mãe Wren, num roupão cor-de-rosa, cheio de babados, fez uma mesura

perigosa nos degraus.

— Como vai o senhor?

— É um prazer conhecê-la, sem dúvida, senhora — resmungou o

homem na porta.

— Ele já comeu o desjejum? — perguntou Mãe Wren a Anna.

— Não sei. — Anna se virou para Lorde Swartingham, cujas bochechas

com cicatrizes estavam ruborizadas. — O senhor já comeu o desjejum?

— Eu... — Estranhamente, o conde parecia não saber o que dizer. Ele

franziu o cenho com mais força.

— Por favor, convide-o a entrar, Anna — insistiu Mãe Wren.

— O senhor gostaria de se juntar a nós para o café da manhã, milorde?

— perguntou Anna docemente.

O conde fez que sim com a cabeça. Ainda com o cenho franzido, ele se

abaixou para evitar a verga e entrou no chalé.

Mãe Wren desceu correndo a escada, com fitas fúcsia flutuando atrás de

si.

— Fico muito feliz por conhecê-lo, milorde. Fanny, vá colocar a chaleira

no fogo.

Fanny soltou um gritinho e disparou para a cozinha. Mãe Wren

empurrou o convidado para a minúscula sala de estar, e Anna notou que o

cômodo parecia ter reduzido de tamanho quando ele entrou. O conde

sentou-se cauteloso na única poltrona, enquanto as senhoras ficaram com o

canapé. O cão alegremente deu a volta no cômodo, enfiando o focinho nos

cantos até o conde chamá-lo para se sentar com um rosnado.

Mãe Wren abriu um largo sorriso.

— Anna deve ter se enganado quando disse que o senhor a demitira.

— O quê? — Ele apertou os braços da poltrona.

— Ela achou que o senhor não teria mais necessidade de uma secretária.

— Mãe — murmurou Anna.

— Foi isso que você disse, querida.

Os olhos do conde estavam fixos em Anna.

— Ela estava enganada. Ela ainda é minha secretária.

— Ah, que bom! — Mãe Wren estava radiante. — Ela ficou muito

chateada ontem à noite, quando pensou que não tinha mais emprego.

— Mãe...

A mulher mais velha se inclinou para a frente, com ar confidencial,

como se Anna tivesse desaparecido do cômodo.

— Ora, os olhos dela estavam bem vermelhos quando ela chegou na

carruagem. Acho que pode ter andado chorando.

— Mãe!

A Sra. Wren virou seu olhar inocente para a nora.

— Ora, eles estavam vermelhos, querida.

— Estavam mesmo? — murmurou o conde. Seus olhos de ébano

reluziram.

Felizmente, Fanny a salvou de responder a pergunta ao entrar com a

bandeja do café. Aliviada, Anna percebeu que a garota havia pensado em

fazer ovos poché e algumas torradas para acompanhar o mingau de sempre.

Ela até encontrou um pedaço de presunto. Anna deu um aceno de aprovação

para a pequena criada, que sorriu para ela, animada.

Depois que o conde se serviu de uma quantidade verdadeiramente

impressionante de ovos poché — por sorte, Fanny tinha ido à feira na

véspera —, levantou-se e agradeceu à Mãe Wren pelo café da manhã. Mãe

Wren sorriu para ele, encantada, e Anna se perguntou quanto tempo se

passaria até que a aldeia toda soubesse que elas haviam recebido o conde de

Swartingham em seus robes.

— A senhora pode se vestir para cavalgar, Sra. Wren? — perguntou o

conde. — Meu cavalo e Daisy estão esperando lá fora.

— Claro, milorde. — Anna pediu licença e foi se trocar em seu quarto.

Alguns minutos depois, ela desceu correndo os degraus e encontrou o

conde à sua espera, no jardim da frente. Ele contemplava a terra molhada ao

lado da porta, onde cachos de jacinto-uva e narcisos amarelos floresciam

alegremente. Ele ergueu o olhar quando ela saiu de casa e, por um instante, havia, nos olhos dele, uma expressão que a fez perder o fôlego. Anna

baixou o olhar para calçar as luvas e sentiu suas bochechas arderem.

— Bem na hora — disse ele. — Estamos mais atrasados do que eu havia

planejado.

Anna ignorou sua rispidez e ficou de pé ao lado da égua, esperando que

ele a ajudasse a montar. O conde avançou e passou as mãos grandes ao

redor de sua cintura antes de botá-la na sela. Ele ficou parado, olhando para

ela de uma altura mais baixa por um momento, o vento brincando com um

cacho do cabelo escuro, examinando o rosto de Anna. Ela retribuiu o olhar,

e todos os pensamentos sumiram de sua mente. Então, ele se virou para o

próprio cavalo e montou nele.

O dia estava claro. Anna não se lembrava de ter ouvido barulho de

chuva à noite, mas notou algumas evidências. Havia poças na alameda, e as

árvores e cercas pelas quais passavam ainda pingavam. O conde guiou os

cavalos da aldeia para o campo.

— Aonde estamos indo? — perguntou ela.

— As ovelhas do Sr. Durbin começaram a parir, e eu quero ver como as

fêmeas estão se saindo. — Ele pigarreou. — Suponho que deveria ter lhe

avisado antes sobre o passeio de hoje.

Anna continuou olhando para a frente, mostrando indiferença.

Ele tossiu.

— Eu poderia ter feito isso se a senhora não tivesse ido embora tão

precipitadamente ontem à tarde.

Ela arqueou uma sobrancelha, mas não respondeu.

Fez-se uma longa calmaria, interrompida somente pelo latido ansioso do

cão quando incitava um coelho a sair do arbusto ao longo da alameda.

Então, o conde tentou novamente.

— Ouvi algumas pessoas dizerem que meu temperamento é um tanto...

— Ele fez uma pausa, aparentemente em busca de uma palavra.

Anna o ajudou.

— Selvagem?

Ele estreitou os olhos e a fitou.

— Feroz?

Ele franziu o cenho e abriu a boca.

Ela foi mais rápida.

— Bárbaro?

O conde a interrompeu antes que Anna pudesse acrescentar mais alguma

coisa à lista.

— Sim, bem, vamos simplesmente dizer que isso intimida algumas

pessoas. — Ele hesitou. — Eu não queria intimidá-la, Sra. Wren.

— Não intimidou.

Ele a encarou na mesma hora. Não disse mais nada, mas sua expressão

se iluminou. Depois de um minuto, ele esporeou o cavalo baio para um

galope ao longo da alameda suja de lama, lançando no ar grandes torrões de

terra. O cão saiu correndo atrás dela com a língua pendendo da lateral da

boca.

Anna sorriu sem motivo e ergueu o rosto para a brisa da manhã.

Os dois seguiram pela alameda até chegarem a um pasto bordejado por

um córrego. O conde se abaixou para abrir o portão, e eles seguiram em

frente. À medida que se aproximavam da curva, Anna viu cinco homens

reunidos perto do riacho com alguns cães pastores dando voltas ao redor

deles.

Um dos homens, um senhor idoso com cabelos grisalhos, ergueu os

olhos quando eles se aproximaram.

— Milorde! Ora, isto aqui está uma confusão.

— Durbin. — O conde acenou com a cabeça para o fazendeiro e

desmontou do cavalo. Ele se aproximou para ajudar Anna a descer. — Qual

é o problema? — perguntou, olhando para trás.

— Ovelhas no riacho. — Durbin cuspiu para o lado. — Novelos de lã

idiotas. Devem ter seguido umas às outras pela margem e agora não

conseguem sair. E três delas ainda estão prenhas.

— Ah. — O conde se aproximou do riacho, e Anna o acompanhou.

Agora ela podia ver as cinco ovelhas pegas pela correnteza. Os pobres

animais estavam presos nos detritos por um turbilhão de água. A margem

tinha quase um metro e meio de profundidade naquele ponto específico e

estava escorregadia com a lama.

Lorde Swartingham balançou a cabeça.

— Não tem outro jeito a não ser o uso da força bruta.

— Era o que eu estava pensando aqui com meus botões. — O fazendeiro

fez que sim com a cabeça ao ver a própria ideia confirmada.

Dois homens, junto com o conde, deitaram-se na margem do riacho e

estenderem o braço para baixo a fim de puxar as ovelhas. Isso, com o

incentivo extra dos cães pastores atormentando-as, fez com que quatro delas subissem na margem enlameada. Elas cambalearam, balindo em confusão.

A quinta, porém, estava fora do alcance dos homens na margem. Ela estava

presa ou era estúpida demais para sair do riacho por conta própria.

Prostrada na lateral, ela baliu, infeliz, na água.

— Meu Deus! Aquela ali está bem presa. — O fazendeiro Durbin

suspirou e enxugou a testa com a bainha da bata.

— Por que não mandamos a velha Bess lá embaixo para dar uma ajuda,

pai? — O filho mais velho do fazendeiro afagou as orelhas de uma cadela

preta e branca.

— Não, rapaz. Não quero perder Bess na água. Ali é muito fundo para

ela. Um de nós vai ter que ir atrás da bobona.

— Eu vou, Durbin. — O conde se afastou dos homens e tirou o casaco.

Ele o jogou para Anna, que mal conseguiu segurá-lo antes de cair no chão.

Em seguida, foi o colete, e então o homem retirou a fina camisa pela

cabeça. Ele se sentou na margem para arrancar as botas.

Anna tentou não olhar a cena. Não via homens seminus com frequência.

Na verdade, ela não conseguia se lembrar de já ter visto um homem sem

camisa em público. Havia marcas de varíola espalhadas por seu torso, mas

ela estava mais interessada em outras coisas. Sua imaginação estava correta.

O conde realmente tinha pelos no peito. Muitos, na verdade. Redemoinhos

escuros cobriam seu peito e iam afunilando até a barriga rija. Os pelos se

estreitavam para uma fina faixa que cruzava o umbigo liso e, então,

desapareciam sob a calça.

O conde ficou de pé, ainda de meias, e desceu meio escorregando pela

margem íngreme para dentro da água. O riacho enlameado girava ao redor

de seu quadril à media que ele caminhava na direção da ovelha apavorada.

Ele se inclinou por cima do animal para alcançar suas patas e segurá-lo. Os

ombros largos dele reluziam com suor, rajados de lama.

Um grito irrompeu dos homens que observavam. A ovelha estava livre,

mas, em sua pressa para escapar do riacho, ela esbarrou no conde, que caiu

em um gêiser de água enlameada. Anna arfou e começou a correr. O cão de

Lorde Swartingham correu de um lado para outro na margem, latindo,

agitado. O conde emergiu do riacho como um Netuno maltrapilho, com

água escorrendo em camadas pelo tronco. Ele sorria, apesar do cabelo

grudado na cabeça; a fita que o prendia ficara perdida no riacho.

O cão ainda latia em desaprovação a todo aquele procedimento.

Enquanto isso, o fazendeiro e seus parentes cambaleavam, dando gargalhadas de tanto rir. Faltava pouco para todos rolarem no chão com

tamanho divertimento. Anna suspirou. Aparentemente, um aristocrata quase

se afogando era a coisa mais divertida que os homens já tinham visto. Às

vezes, era difícil entender os homens.

— Ei! Milorde! O senhor sempre tem problema para segurar garotas? —

gritou um dos homens.

— Não, rapaz, ela simplesmente não gostou da mão dele em sua bunda.

— O fazendeiro fez um gesto explícito que, mais uma vez, fez os homens

caírem na gargalhada.

O conde riu, mas acenou com a cabeça para Anna. Lembrados de sua

presença, os homens pararam com as brincadeiras, embora continuassem a

abafar as risadas. O conde ergueu ambas as mãos para limpar a água do

rosto.

Anna ficou sem fôlego com aquela visão. Com as mãos na nuca,

espremendo a água do cabelo, seus músculos ficaram ressaltados. O peito e

os braços flexionados brilhavam sob o sol, e os pelos escuros sob o braço,

úmidos, se enrolaram. Fios de água suja, misturada com o sangue da

ovelha, desciam pelo peito e pelos braços. A calça baixa grudava no quadril

e nas coxas, contornando o volume de sua masculinidade. Ele parecia um

pagão.

Ela estremeceu.

O conde caminhou com dificuldade até a margem e a escalou com a

ajuda dos filhos do fazendeiro. Anna se sacudiu e correu com as roupas.

Ele usou a camisa fina como toalha e depois jogou o casaco sobre o

peito nu.

— Bem, Durbin, espero que você me chame da próxima vez que não

conseguir lidar com uma fêmea.

— Sim, milorde. — O fazendeiro deu um tapinha nas costas de Lorde

Swartingham. — Obrigado por nos ajudar. Não me lembro da última vez

que vi um mergulho tão bonito.

O comentário fez os homens rirem novamente, e levou algum tempo até

o conde e Anna conseguirem sair. No momento em que montaram, o corpo

do conde tremia de frio, mas ele não demonstrava sinais de pressa.

— O senhor vai pegar um resfriado terrível, milorde — disse Anna. —

Por favor, vá para a abadia na minha frente. O senhor pode ir muito mais

rápido sem mim e sem Daisy para atrasá-lo.

— Estou muito bem, Sra. Wren — respondeu ele com os dentes

trincados para evitar batê-los. — Além do mais, não quero me privar de sua

doce companhia nem por um instante sequer.

Anna o olhou de cara feia, pois sabia que ele estava sendo sarcástico.

— O senhor não tem que provar quanto é viril pegando malária.

— Então a senhora me considera viril, Sra. Wren? — Ele sorriu como

um garotinho. — Eu estava começando a pensar que tinha lutado contra

uma ovelha fedida à toa.

Anna tentou, mas era impossível evitar um sorriso.

— Não sabia que proprietários de terras ajudavam tanto seus

arrendatários — comentou ela. — Sem dúvida não é comum.

— Ah, certamente não é comum — retrucou ele. — Suponho que a

maioria dos nobres fique sentada em Londres enquanto sua bunda cresce e

seus administradores cuidam de suas propriedades.

— Então por que o senhor prefere entrar em riachos enlameados atrás de

ovelhas?

O conde sacudiu os ombros úmidos.

— Meu pai me ensinou que um bom proprietário de terras conhece seus

arrendatários e sabe o que eles estão fazendo. E eu também estou mais

envolvido por causa dos meus estudos agrícolas. — Ele deu de ombros de

novo e sorriu para ela um tanto ironicamente. — E gosto de lutar com

ovelhas e tudo o mais.

Anna retribuiu o sorriso.

— Seu pai também lutava com ovelhas?

Fez-se silêncio e ela temeu, por um momento, ter feito uma pergunta

pessoal demais.

— Não, eu não me lembro de vê-lo ficar assim tão sujo. — Lorde

Swartingham observou a estrada à sua frente. — Mas ele não se importava

em caminhar num campo inundado na primavera ou supervisionar a

colheita no outono. E sempre me levava junto para conhecer as pessoas e a

terra.

— Ele deve ter sido um pai maravilhoso — murmurou ela. Para ter

criado um filho tão maravilhoso.

— Sim. Se para os meus filhos eu for apenas metade do que ele foi para

mim, ficarei satisfeito. — Ele a encarou com curiosidade. — A senhora não

teve filhos de seu casamento?

Anna baixou o olhar para as mãos. Eram dois punhos cerrados sobre os

arreios.

— Não. Fomos casados por quatro anos, mas não foi a vontade de Deus

que tivéssemos filhos.

— Sinto muito. — Parecia haver um arrependimento sincero nos olhos

do conde.

— Eu também, milorde. — Todos os dias.

Os dois ficaram em silêncio até avistarem a Abadia de Ravenhill.

 

Quando Anna chegou à sua casa naquela noite, Pearl estava sentada na

cama e tomava sopa com a ajuda de Fanny. A hóspede ainda estava magra,

mas seu cabelo tinha sido penteado para trás e preso com um pedaço de fita,

e ela usava um dos vestidos velhos da pequena criada. Anna assumiu a

tarefa e mandou Fanny descer para terminar o jantar.

— Eu esqueci de lhe agradecer, senhora — disse Pearl, timidamente.

— Está tudo bem. — Anna sorriu. — Só espero que você se sinta

melhor logo.

A outra mulher suspirou.

— Ah, eu preciso apenas de um pouco de descanso.

— Você é de perto ou estava viajando quando adoeceu? — Anna

ofereceu um pouco de carne.

Pearl mastigou lentamente e engoliu a comida.

— Não, senhora. Eu estava tentando voltar para Londres, onde moro.

Um senhor me trouxe para cá numa bela carruagem, prometendo me dar

moradia por aqui.

Anna ergueu as sobrancelhas.

— Eu pensei que ele iria me botar num pequeno chalé. — Pearl alisou o

lençol sob seus dedos. — Estou ficando velha, sabe? Não posso trabalhar

muito mais.

Anna permaneceu em silêncio.

— Mas foi um golpe — disse Pearl. — Ele me queria apenas para uma

festa com alguns amigos.

Anna pensou em algo para dizer.

— Sinto muito que não fosse um emprego permanente.

— Pois é. E isso nem foi o pior. Ele queria que eu o divertisse e também

a seus dois amigos. — A boca de Pearl fez um movimento para baixo.

Dois amigos?

— Você quer dizer que deveria, hum, entreter três cavalheiros ao mesmo

tempo? — perguntou Anna em voz baixa.

Pearl fez um muxoxo e assentiu com a cabeça.

— Sim. Os três juntos ou um depois do outro. — Ela deve ter notado o

choque de Anna. — Alguns desses cavalheiros finos gostam de fazer isso

juntos, para se exibirem uns pros outros. Mas, muitas vezes, a garota acaba

machucada.

Meu Deus! Anna fitou Pearl, horrorizada.

— Mas, na verdade, isso não importa — emendou Pearl. — Eu fui

embora.

Anna conseguiu apenas assentir com a cabeça.

— Então comecei a me sentir mal no trajeto de volta, na carruagem.

Devo ter desmaiado, porque, quando dei por mim, minha bolsa havia

sumido e eu tive de caminhar, porque o cocheiro não ia me deixar voltar

sem meu dinheiro. — Pearl balançou a cabeça. — Com certeza, eu estaria

morta se a senhora não tivesse me encontrado.

Anna baixou o olhar para as palmas das mãos.

— Posso lhe fazer uma pergunta, Pearl?

— Claro. Vá em frente. — A outra mulher colocou as mãos uma sobre a

outra no colo e fez que sim com a cabeça. — Pode me perguntar o que

quiser.

— Você já ouviu falar de um lugar chamado Grotto de Aphrodite?

Pearl encostou a cabeça de volta no travesseiro e encarou Anna com

curiosidade.

— Não pensei que uma dama como a senhora conhecesse lugares assim.

Anna evitou o olhar de Pearl.

— Ouvi alguns cavalheiros comentando. Não creio que soubessem que

eram ouvidos.

— Creio que não — concordou Pearl. — Ora, o Grotto de Aphrodite é

um prostíbulo caro. As garotas que trabalham lá têm uma vida fácil, com

certeza. Claro, já ouvi dizer que algumas damas de alta sociedade vão lá

com os rostos cobertos por máscaras para fingirem ser o que eu sou.

Anna arregalou os olhos.

— Você quer dizer...?

— Elas escolhem um cavalheiro que as agrada no recinto no primeiro

andar e passam a noite com eles. — Pearl assentiu como se isso fosse algo

óbvio. — Ou o tempo que quiserem. Algumas até alugam um quarto e instruem madame a mandar subir um homem com alguma característica

específica. Pode ser um sujeito baixo, louro ou alto, de cabelos vermelhos.

— Parece um pouco como escolher um cavalo. — Anna franziu o nariz.

Pearl deu o primeiro sorriso que ela já vira.

— Isso é espirituoso, senhora. Como escolher um garanhão. — Ela deu

uma risada. — Eu não me importaria de ser quem escolhe, para variar, em

vez de os cavalheiros sempre ficarem com essa opção.

Anna sorriu um pouco sem graça ao se recordar da vida dura da

profissão de Pearl.

— Mas por que um cavalheiro se submeteria a tal arranjo?

— Os homens gostam porque sabem que vão passar a noite com uma

dama de verdade. — A outra mulher deu de ombros. — Se é que podemos

chamá-la de dama.

Anna piscou e então se sacudiu.

— Estou atrapalhando o seu descanso. Melhor eu ir preparar o meu

jantar.

— Muito bem, então. — Pearl bocejou. — Obrigada novamente.

Durante todo o jantar naquela noite, Anna ficou distraída. O comentário

de Pearl de que seria bom escolher de vez em quando não saía de sua

mente. Ela cutucou, um tanto distraída, a torta de carne. Era verdade,

mesmo em seu nível social, que eram os homens que escolhiam, na maioria

das vezes. Uma jovem dama esperava ser visitada por um cavalheiro,

embora tal homem pudesse decidir quais jovens queria cortejar. Depois de

casados, uma mulher respeitável aguardava obedientemente o marido no

leito nupcial. O homem era quem fazia as propostas nas relações

matrimoniais. Ou não, dependendo do caso. Pelo menos, havia sido assim

no casamento de Anna. Ela certamente nunca tinha deixado Peter saber que

poderia ter as próprias necessidades ou que talvez não estivesse satisfeita

com o que acontecia na cama.

Mais tarde naquela noite, enquanto Anna se preparava para dormir, ela

não conseguia parar de imaginar Lorde Swartingham no Grotto de

Aphrodite, como Pearl descrevera. O conde sendo visto e escolhido por

alguma dama ousada da aristocracia. O conde passando a noite nos braços

de uma mulher mascarada. Aqueles pensamentos fizeram seu peito doer,

mesmo quando ela adormeceu.

E então Anna estava no Grotto de Aphrodite.

Ela usava uma máscara e buscava o conde. Homens de todas as

descrições: velhos, jovens, bonitos e feios, centenas deles, lotavam uma

sala. Freneticamente, ela empurrou a massa, à procura de um par singular

de olhos escuros e brilhantes, ficando mais desesperada quanto mais se

demorava em sua busca. Finalmente ela o viu do outro lado do salão e

começou a correr em sua direção. Mas, como acontece em tais pesadelos,

quanto mais rápido Anna corria, mais lenta ficava. Cada passo parecia levar

uma eternidade. Enquanto ela se esforçava, viu outra mulher mascarada

chamá-lo. Sem nem sequer notá-la, o conde deu meia-volta e seguiu a outra

mulher para fora do salão.

Anna acordou no escuro; seu coração batia forte e sua pele estava

gelada. Ficou deitada, absolutamente imóvel, lembrando-se do sonho e

ouvindo a própria respiração entrecortada.

Não tardou para ela perceber que chorava.

 

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