O Príncipe Corvo

Elizabeth Hoyt · Capítulo 26 de 26

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O Príncipe Corvo

Trecho de “O Príncipe Leopardo”

Leia a seguir um trecho de

 

 

“O Príncipe Leopardo”,

 

livro dois da Trilogia

 

dos Príncipes

 

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Para minha irmã, SUSAN.

Nenhum personagem imaginário foi ferido

enquanto este livro era escrito.

 

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Capítulo Um

 

YORKSHIRE, INGLATERRA

SETEMBRO DE 1760

 

Depois da destruição da carruagem e um pouco antes de os cavalos fugirem,

Lady Georgina Maitland percebeu que o administrador de suas terras era

um homem. Ora, naturalmente ela sabia que Harry Pye era um homem. Não

tinha o delírio de que ele fosse um leão, um elefante ou uma baleia, nem, de

fato, qualquer outro membro do reino animal — se é que seria possível

dizer que uma baleia era um animal, e não simplesmente um peixe muito

grande. O que ela queria dizer era que sua masculinidade de repente se

tornara muito evidente.

Georgina, de pé na desolada estrada que conduzia a East Riding, em

Yorkshire, franziu as sobrancelhas. Ao redor deles, as montanhas cobertas

de tojo se estendiam no horizonte cinzento. A escuridão não tardava a cair;

a chuva a trouxera precocemente. Os dois pareciam estar no meio do nada.

— O senhor considera a baleia um animal ou um peixe muito grande, Sr.

Pye? — gritou ela para o vento.

Os ombros de Harry Pye se retesaram. Estavam cobertos apenas por uma

camisa molhada que grudou nele de modo esteticamente agradável. Ele

havia tirado o casaco e o colete para ajudar John Cocheiro a desenganchar

os cavalos da carruagem que capotara.

— Um animal, milady. — A voz do Sr. Pye, como sempre, era

invariável e grave, com um tipo de tom rouco no final.

Georgina nunca o ouvira elevar a voz nem demonstrar emoção de

alguma forma. Nem quando ela havia insistido em acompanhá-lo até a

propriedade de Yorkshire; nem quando a chuva começou, fazendo com que viajassem a passos de tartaruga; nem quando a carruagem capotou vinte

minutos atrás.

Que coisa irritante!

— O senhor acha que vai conseguir endireitar a carruagem? — Ela

puxou a capa encharcada por cima do queixo enquanto contemplava os

restos do veículo. A porta estava presa por uma dobradiça, batendo ao

vento, duas rodas haviam sido amassadas, e o eixo na parte de trás se

encontrava num ângulo esquisito. Era uma pergunta totalmente tola.

O Sr. Pye não indicava por ato ou palavra estar consciente da tolice de

sua indagação.

— Não, milady.

Georgina suspirou.

Na verdade, era praticamente um milagre que eles e o cocheiro não

tivessem se ferido ou morrido. A chuva deixara as estradas escorregadias e

enlameadas, e, na última curva, a carruagem começara a deslizar. Em seu

interior, ela e o Sr. Pye ouviram o cocheiro gritar enquanto tentava

estabilizar o veículo. Harry Pye havia pulado de seu assento para o de

Georgina, como um grande gato. Ele a envolvera antes que ela pudesse

sequer proferir uma palavra. Seu calor a envolvera, e o nariz dela, enterrado

intimamente na camisa dele, tinha inalado o odor de linho limpo e de pele

máscula. Nesse momento, a carruagem se inclinara, e ficara óbvio que eles

cairiam na vala.

Lenta e terrivelmente, o veículo havia tombado com uma pancada e o

barulho de algo sendo triturado. Os cavalos relincharam lá na frente, e a

carruagem gemeu, como se protestasse contra seu destino. Georgina havia

agarrado o casaco do Sr. Pye enquanto seu mundo se revirava, e ele

resmungara de dor. Então tudo parou novamente. O veículo estava caído de

lado, e o Sr. Pye cobria Georgina como um grande e quente cobertor. Mas

Harry Pye era bem mais firme do que qualquer cobertor que ela já tocara

antes.

O administrador havia pedido desculpas, muito corretamente

desvencilhando-se dela e subindo no banco para forçar a abertura da porta

acima dos dois. Ele se esgueirara pela saída e então puxara Georgina para

fora. Ela esfregou o pulso que o Sr. Pye segurara. O homem era

desconcertantemente forte — ninguém nunca teria imaginando isso ao olhar

para ele. A certa altura, quase todo o seu peso pendera sobre o braço dele, e

ela não era uma mulher pequena.

O cocheiro deu um grito, que foi levado pelo vento, mas foi o suficiente

para trazê-la de volta ao presente. A égua que ele havia soltado estava livre.

— Vá com a égua até a próxima cidade, Sr. John Cocheiro, se puder —

orientou Harry Pye. — Veja se há outra carruagem que possa mandá-la.

Ficarei aqui com milady.

O cocheiro montou na égua e acenou antes de desaparecer no aguaceiro.

— Qual é a distância até a próxima cidade? — perguntou Georgina.

— Vinte ou vinte e cinco quilômetros. — Ele soltou uma das correias

dos cavalos.

Ela o estudou enquanto ele trabalhava. Apesar de estar molhado, Harry

Pye não parecia nem um pouco diferente de quando o grupo havia partido

de uma estalagem em Lincoln, pela manhã. Ainda era um homem de altura

mediana. Um tanto magro. O cabelo era castanho — nem escuro nem

avermelhado —, apenas marrom. Ele o amarrara num rabicho simples, sem

se importar em usar pomadas ou pó. E usava cor marrom: calça, colete e

casaco, como se fosse uma camuflagem. Somente seus olhos, de um verde-

esmeralda escuro que, às vezes, tremeluziam com o que poderia ser

emoção, lhe davam um pouco de cor.

— Só estou com muito frio — resmungou Georgina.

O Sr. Pye ergueu o olhar rapidamente. Seus olhos foram para as mãos

dela, tremendo em seu pescoço, e então se focaram nas montanhas ao

fundo.

— Sinto muito, milady. Eu deveria ter percebido que sentia frio antes. —

Ele deu as costas para o cavalo assustado que tentava soltar. Suas mãos

deviam estar tão dormentes quanto as dela, mas continuavam se movendo.

— Tem um chalé não muito longe daqui. Nós podemos ir neste cavalo e

naquele outro. — Ele apontou um dos animais. — A égua está manca.

— É mesmo? Como o senhor sabe? — Ela não havia notado que o

animal estava ferido. Os três cavalos estremeceram e reviraram os olhos

com o assobio do vento. A égua que ele havia indicado não parecia mais

estropiada que os outros animais.

— Ela está favorecendo a pata dianteira direita — resmungou o Sr. Pye

e, no mesmo instante, os três cavalos se viram livres da carruagem, embora

continuassem amarrados uns aos outros. — Ôa, docinho. — Ele segurou o

cavalo da frente e o afagou, e sua mão direita morena se moveu

delicadamente sobre o pescoço do animal. Faltavam duas juntas do dedo

anelar.

Georgina virou a cabeça na direção das montanhas. Os criados — e, na

verdade, um administrador de terras era simplesmente um tipo superior de

criado — não deveriam ter gênero. Claro, sabia-se que eram pessoas com

vida própria e tudo o mais, mas facilitava muito as coisas considerá-los

assexuados. Como uma cadeira. Uma cadeira servia para se sentar quando

se estava cansado. Por outro lado, ninguém nunca pensava muito nelas, e

era assim que deveria ser. Como era incômodo se perguntar se a cadeira

tinha percebido que seu nariz estava escorrendo, ficar curiosa para saber o

que ela estava pensando ou notar que os olhos dela eram muito bonitos.

Não que cadeiras tivessem olhos, bonitos ou não, mas homens tinham.

E Harry Pye tinha.

Georgina voltou a encará-lo.

— O que vamos fazer com o terceiro cavalo?

— Vamos ter que deixá-lo aqui.

— Na chuva?

— Sim.

— Isso não será bom para ele.

— Não, milady. — Os ombros de Harry Pye se retesaram mais uma vez,

uma reação que Georgina considerou curiosamente fascinante. Ela ficou

com vontade de lhe dar motivos para fazer isso com mais frequência.

— Talvez devêssemos levá-la conosco, não?

— Impossível, milady.

— O senhor tem certeza?

Os ombros dele se tensionaram, e o Sr. Pye lentamente virou a cabeça.

No clarão de luz que iluminou a estrada naquele instante, ela viu aqueles

olhos verdes brilharem, e um arrepio percorreu sua espinha. Então, o trovão

seguinte caiu como o prenúncio do apocalipse.

Georgina se encolheu.

Harry Pye se empertigou.

E os cavalos saíram em disparada.

 

— Oh, céus! — exclamou Lady Georgina, com a chuva pingando do nariz

fino. — Parece que estamos encrencados.

Encrencados, realmente. Aquilo estava mais para uma merda fenomenal.

Harry estreitou os olhos para observar a estrada onde os cavalos

desapareceram, correndo como se o próprio diabo os estivesse perseguindo.

Não havia sinal dos tolos animais. E, pela velocidade com que galopavam, não iam parar antes de andarem um quilômetro ou mais. Não adiantava ir

atrás deles naquele aguaceiro. Harry voltou a olhar para sua patroa de

menos de seis meses. Os lábios aristocráticos de Lady Georgina estavam

azuis, e a pele na borda de seu capuz estava em desalinho e encharcado. Ela

mais parecia uma criança de rua em trapos de roupas sofisticadas do que a

filha de um conde.

O que ela estava fazendo aqui?

Se não fosse por Lady Georgina, ele teria ido a cavalo de Londres até a

propriedade em Yorkshire. Teria chegado a Woldsly Manor ontem. Nesse

momento, estaria desfrutando de uma refeição quente na frente da lareira

em seu próprio chalé, e não congelando o esqueleto, parado no meio da

estrada, debaixo de chuva, sendo rapidamente cercado pela escuridão. Mas,

na última viagem de Harry a Londres para entregar a Lady Georgina um

relatório sobre suas posses, ela decidira vir com ele para Woldsly Manor. O

que significara viajar na carruagem que agora jazia num monte de madeira

quebrada na vala.

Harry conteve um suspiro.

— A senhora consegue andar, milady?

Lady Georgina arregalou os olhos, azuis como um ovo de sabiá.

— Ah, sim. Faço isso desde que eu tinha 11 meses de idade.

— Ótimo.

Harry vestiu o colete e o casaco com um movimento dos ombros, sem se

dar ao trabalho de abotoá-los. Suas roupas estavam completamente

encharcadas, assim como o restante dele. Ele desceu de maneira desajeitada

pelo barranco para recuperar as cobertas de dentro da carruagem. Por sorte,

ainda estavam secas. Ele as enrolou e pegou o lampião, que ainda estava

aceso; então segurou o cotovelo de Lady Georgina, para o caso de ela

vacilar e cair sentada sobre a pequena bunda aristocrática, e começou a

subir o morro coberto de tojo.

De início, Harry pensara que o desejo de ir até Yorkshire fosse apenas

um capricho infantil. Um passatempo para uma mulher que nunca precisava

se preocupar com a origem da carne em sua mesa ou das joias em seu

pescoço. Para ele, aqueles que não trabalhavam para sobreviver

frequentemente tinham ideias frívolas. Mas quanto mais tempo passava na

companhia dela, mais começava a duvidar de que aquela mulher fosse

assim. Ela dizia bobagens, era verdade, mas Harry percebera de imediato

que fazia isso para o próprio divertimento. Ela era mais inteligente do que a maioria das damas da sociedade. Ele tinha a sensação de que havia um bom

motivo para a ida de Lady Georgina a Yorkshire.

— Fica muito longe? — A dama ofegava, e seu rosto, normalmente

pálido, tinha duas manchas vermelhas.

Harry examinou as montanhas, à procura de um ponto de referência na

escuridão. Aquele carvalho retorcido que crescia contra uma rocha lhe era

familiar?

— Não muito.

Pelo menos, ele esperava que não. Fazia anos que não andava por

aquelas colinas, e talvez ele tivesse se enganado sobre a localização do

chalé. Ou talvez o chalé tivesse desmoronado desde a última vez que o vira.

— Espero que o senhor saiba acender uma fogueira, Sr. Pye. — Seu

nome vibrou nos lábios dela.

Lady Georgina precisava se aquecer. Se não encontrassem o chalé logo,

ele teria de fazer um abrigo com as cobertas da carruagem.

— Ah, sim. Faço isso desde que tinha 4 anos, milady.

Isso lhe rendeu um sorriso atrevido. Os olhos de ambos se encontraram,

e Harry desejou... Um relâmpago repentino interrompeu seu pensamento, e

ele viu uma parede de pedra iluminada pelo clarão.

— Ali está. — Graças a Deus!

Pelo menos o minúsculo chalé ainda estava de pé. Quatro paredes de

pedra com um telhado de palha escurecido por causa do tempo e da chuva.

Ele forçou a porta lisa com um ombro, e, após um ou dois empurrões, ela

cedeu. Harry entrou cambaleando e ergueu o lampião bem alto para

iluminar o interior do chalé. Pequenos vultos fugiram para as sombras. Ele

tentou não estremecer.

— Eca! Está fedendo aqui. — Lady Georgina entrou e balançou a mão

diante do nariz rosado, como se pudesse espantar o fedor de mofo.

Harry bateu a porta atrás dela.

— Sinto muito, milady.

— Por que o senhor simplesmente não me diz para calar a boca e ficar

feliz por ter saído da chuva? — Ela sorriu e tirou o capuz.

— Eu não faria isso. — Harry foi até a lareira e encontrou um pouco de

lenha queimada pela metade. Estava tudo coberto com teias de aranha.

— Ora, Sr. Pye. O senhor sabe que quer fazer i-is-isso. — Os dentes dela

ainda batiam.

Havia quatro frágeis cadeiras de madeira ao redor de uma mesa torta.

Harry pousou o lampião sobre a mesa e pegou uma das cadeiras. Ele a bateu

com força na lareira de pedra, e ela se partiu; o encosto saiu e o assento se

quebrou.

Atrás dele, Lady Georgina deu um gritinho.

— Não, não quero, milady — disse ele.

— Verdade?

— Sim. — Ele se ajoelhou e começou a colocar as pequenas lascas da

cadeira junto com a lenha queimada.

— Muito bem. Suponho que tenho que ser boazinha então. — Harry

ouviu quando ela arrastou uma das cadeiras. — O que o senhor está fazendo

aí parece muito eficiente.

Ele encostou a chama do lampião nas lascas de madeira. O fogo pegou, e

ele acrescentou pedaços maiores de madeira, tomando o cuidado de não

abafar a chama.

— Hum. Isso é bom. — A voz dela soava rouca às suas costas.

Por um momento, Harry ficou paralisado, pensando no que as palavras e

a entonação dela poderiam sugerir em outro contexto. Então ele afastou os

pensamentos e se virou.

Lady Georgina esticou as mãos para as chamas. O cabelo ruivo estava

secando em cachos finos em torno da testa, e sua pele branca reluzia à luz

da fogueira. Ela ainda tremia.

Harry limpou a garganta.

— Creio que a senhora deveria tirar o vestido molhado e se enrolar nas

cobertas. — Ele foi até a porta, onde deixara o que havia trazido da

carruagem.

Atrás de si, Harry ouviu uma risada baixinha.

— Não creio que já tenha ouvido uma sugestão tão imprópria feita de

modo tão apropriado.

— Não quis parecer impróprio, milady. — Ele lhe entregou as cobertas.

— Me desculpe se eu a ofendi. — Por um instante, seus olhos encontraram

os dela, tão azuis e risonhos; depois, ele virou as costas para ela.

Atrás dele, ouviu-se um farfalhar. Harry tentou controlar seus

pensamentos. Não imaginaria os ombros pálidos e nus dela acima dele...

— O senhor não foi impróprio, como bem sabe, Sr. Pye. Na verdade,

estou começando a achar que seria impossível que agisse dessa forma.

Se ela soubesse. Harry limpou a garganta, mas não fez nenhum

comentário. Ele se obrigou a olhar em torno do pequeno chalé. Não havia

armário na cozinha, apenas mesa e cadeiras. Uma pena, pois seu estômago

estava vazio.

O farfalhar perto do fogo parou.

— Pode se virar agora.

Ele se preparou mentalmente antes de olhar, mas Lady Georgina estava

protegida pela coberta de pele. Harry ficou contente por ver os lábios dela

mais rosados.

Ela liberou um braço nu e apontou para o outro lado da lareira.

— Deixei um para o senhor. Estou confortável demais para me mover,

mas posso fechar os olhos e prometer não espiar se o senhor quiser tirar a

roupa também.

Harry desviou o olhar do braço dela e encontrou aqueles olhos azuis e

inteligentes.

— Obrigado.

O braço desapareceu. Lady Georgina sorriu, e suas pálpebras baixaram.

Por um momento, Harry simplesmente a observou. Os arcos

avermelhados de seus cílios se agitavam contra a pele pálida, e um sorriso

pairava na boca curvada. O nariz era fino e muito comprido, os ângulos do

rosto um tanto pronunciados. Quando ela ficava de pé, era quase da altura

dele. Não era uma mulher bela, mas Harry se flagrou tendo de controlar o

olhar quando ela estava por perto. Havia alguma coisa no movimento dos

lábios dela quando estava prestes a zombar dele. Ou no modo como as

sobrancelhas se erguiam na testa quando ela sorria. Os olhos dele eram

atraídos para o rosto de Lady Georgina como uma lixa de ferro perto de um

ímã.

Harry tirou tudo menos as roupas de baixo e puxou a última coberta em

torno dele.

— Pode abrir os olhos agora, milady.

Os olhos dela se abriram.

— Ótimo. E agora nós dois parecemos dois russos prontos para o

inverno da Sibéria. Que pena que não temos um trenó com sinos também!

— Ela alisou a coberta em seu colo.

Ele assentiu com a cabeça. O fogo estalava no silêncio enquanto Harry

tentava pensar no que mais poderia oferecer a ela. Não havia comida no

chalé; nada a fazer além de esperar amanhecer. Como a classe alta se comportava quando se via completamente sozinha em sua sala de estar

palaciana?

Lady Georgina estava puxando os pelos de sua coberta, mas subitamente

juntou as mãos, como se quisesse controlar o impulso.

— Conhece alguma história, Sr. Pye?

— História, milady?

— Sim. História. Contos de fadas, na verdade. Eu os coleciono.

— Mesmo? — Harry estava confuso. O modo de pensar da aristocracia

às vezes era impressionante. — E como a senhora os coleciona, se não se

importa de me contar?

— Perguntando. — Será que ela estava zombando dele? — O senhor

ficaria impressionado com as histórias que as pessoas se recordam de sua

juventude. Claro, babás idosas e pessoas assim são as melhores fontes.

Creio que já pedi a cada um dos meus conhecidos que me apresentasse sua

antiga babá. A sua ainda está viva?

— Eu não tive babá, milady.

— Ah. — Suas bochechas ficaram vermelhas. — Mas alguém... sua

mãe? Ela deve ter lhe contado histórias na sua infância, não?

Ele se mexeu para pôr outro pedaço da cadeira quebrada no fogo.

— O único conto de fadas do qual me lembro é João e o pé de feijão.

Lady Georgina lançou-lhe um olhar de dó.

— O senhor não tem nada melhor do que isso?

— Infelizmente, não. — As outras histórias que ele conhecia não eram

exatamente apropriadas para os ouvidos de uma dama.

— Bem, eu ouvi uma muito interessante recentemente. Da tia da minha

cozinheira, quando veio visitá-la em Londres. O senhor gostaria que eu lhe

contasse?

Não. A última coisa de que Harry precisava era tornar-se mais íntimo de

sua patroa do que a situação já o obrigava a ser.

— Sim, milady.

— Era uma vez um grande rei, e ele tinha um leopardo encantado a seu

serviço. — Ela remexeu o quadril na cadeira. — Eu sei o que o senhor está

pensando, mas a história não é assim.

Harry piscou.

— Milady?

— Não. O rei morre logo no início, então ele não é o herói. — Ela o

encarou em expectativa.

— Ah. — Ele não conseguia pensar em outra coisa para dizer.

Isso pareceu funcionar.

Lady Georgina acenou com a cabeça.

— O leopardo usava um tipo de corrente de ouro ao redor do pescoço.

Ele fora escravizado, sabe, mas eu não sei como isso aconteceu. A tia da

cozinheira não me contou. De qualquer modo, quando o rei estava

morrendo, ele fez o leopardo prometer que iria servir ao rei seguinte, seu

filho. — Ela franziu a testa. — O que não parece muito justo, não é? Quero

dizer, normalmente eles libertam o criado fiel a essa altura. — Ela voltou a

se remexer na cadeira de madeira.

Harry limpou a garganta.

— Talvez a senhora ficasse mais confortável no chão. Sua capa está

mais seca. Eu poderia fazer um catre.

Lady Georgina lançou-lhe um sorriso radiante.

— Que boa ideia!

Ele estendeu a capa e enrolou as próprias roupas até formarem um

travesseiro.

Lady Georgina se moveu com a coberta e se estatelou na cama rústica.

— Melhor assim. O senhor também poderia se deitar; provavelmente,

ficaremos aqui até o amanhecer.

Jesus.

— Não creio que isso seja aconselhável.

Ela olhou por cima do nariz estreito para ele.

— Sr. Pye, essas cadeiras são duras. Por favor, venha se deitar na

coberta, pelo menos. Prometo não morder.

Seu queixo trincou, mas ele realmente não tinha opção. Era uma ordem

velada.

— Obrigado, milady.

Cautelosamente, Harry se sentou ao lado dela — com ou sem ordem,

não iria se deitar ao lado daquela mulher — e deixou um espaço entre seus

corpos. Ele passou os braços ao redor dos joelhos dobrados e tentou ignorar

o perfume dela.

— O senhor é teimoso, não? — resmungou Lady Georgina.

Ele a encarou.

Ela bocejou.

— Onde eu estava? Ah, sim. Então a primeira coisa que o jovem rei fez

foi ver a pintura de uma linda princesa e se apaixonar por ela. Um cortesão, mensageiro ou seja lá quem havia lhe mostrado o quadro, mas isso não

importa.

Lady Georgina bocejou novamente, emitindo som dessa vez, e, por

alguma razão, o pênis de Harry reagiu. Ou talvez fosse o perfume dela, que

alcançava seu nariz, quisesse ele ou não. O aroma o fazia lembrar-se de

especiarias e flores exóticas.

— A princesa tinha a pele branca como a neve, lábios vermelhos como

rubis, cabelo preto como, ah, piche ou algo assim etc., etc. — Lady

Georgina fez uma pausa e fitou o fogo.

Harry se perguntou se ela já tinha acabado e se aquele tormento

terminara.

Então ela suspirou.

— O senhor já notou que esses príncipes de contos de fadas se

apaixonam por lindas princesas sem saber coisa alguma sobre elas? Lábios

de rubi são muito bonitos, mas e se ela sorrisse de um jeito estranho ou

batesse os dentes enquanto comesse? — Lady Georgina deu de ombros. —

É claro que os homens da nossa época também se deixam apaixonar por

cachos escuros brilhantes, então eu suponho que não deveria me preocupar

com isso. — Os olhos dele se arregalaram no mesmo instante, e ela virou a

cabeça para fitá-lo. — Não quis ofender.

— Sem problemas — respondeu Harry, sério.

— Hum. — Ela pareceu em dúvida. — De qualquer forma, ele se

apaixona por esse quadro, e alguém lhe diz que o pai da princesa vai dar a

filha em casamento ao homem que lhe trouxer o Cavalo Dourado, que

atualmente é propriedade de um ogro terrível. Então — Lady Georgina

virou o rosto para o fogo e apoiou a bochecha na mão —, ele manda chamar

o Príncipe Leopardo e ordena que ele busque o Cavalo Dourado. E o que o

senhor acha que aconteceu?

— Não sei, milady.

— O leopardo se transforma num homem. — Ela fechou os olhos e

murmurou: — Imagine isso. Todo o tempo, ele era um homem...

Harry esperou, mas, dessa vez, não houve mais história. Depois de um

tempo, ele ouviu um ronco baixinho.

Ele puxou a coberta até o pescoço de Lady Georgina e a ajeitou ao redor

do rosto dela. Seus dedos roçaram a bochecha dela, e Harry fez uma pausa,

estudando o contraste de seus tons de pele. Sua mão era escura contra a pele

dela, seus dedos, grosseiros, enquanto ela era macia e delicada. Lentamente, ele passou o polegar pelo canto da boca de Lady Georgina. Tão quente. Ele

quase reconhecia seu perfume, como se o tivesse inalado em outra vida ou

há muito tempo. O aroma o fazia ansiar por algo.

Se ela fosse uma mulher diferente, se aquele fosse um lugar diferente, se

ele fosse um homem diferente... Harry interrompeu o sussurro em sua

mente e retirou a mão. Ele se esticou ao lado de Lady Georgina, tomando

cuidado para não encostar nela. E fitou o teto, expulsando todo os

pensamentos, todos os sentimentos. Então, fechou os olhos, embora

soubesse que demoraria até pegar no sono.

 

O nariz dela coçava. Georgina o tocou e sentiu os pelos da coberta. Ao seu

lado, alguma coisa farfalhou e então parou. Ela virou a cabeça. Olhos

verdes encontraram os seus, irritantemente atentos tão cedo na manhã.

— Bom dia. — Suas palavras saíram como o coaxar de um sapo. Ela

limpou a garganta.

— Bom dia, milady. — A voz do Sr. Pye era fluida e cálida, como

chocolate quente. — Se a senhora me der licença.

O administrador se levantou. A coberta que o cobria deslizou pelo

ombro, revelando a pele morena antes de ele se ajeitar. Caminhando em

silêncio, o Sr. Pye saiu pela porta.

Georgina franziu o nariz. Será que nada perturbava aquele homem?

Subitamente lhe ocorreu o que ele deveria estar fazendo do lado de fora.

Sua bexiga soou o alarme. Rapidamente, ela se levantou camba- leante e

colocou o vestido ainda úmido e enrugado, fechando o máximo de

colchetes possível. Ela não conseguia alcançar todos os ganchos, e o vestido

devia estar aberto na cintura, mas pelo menos a roupa não iria cair.

Georgina vestiu a capa para cobrir as costas e então seguiu o Sr. Pye até o

lado de fora. Nuvens negras pairavam no céu e ameaçavam chuva. Não se

via o administrador de terras em parte alguma. Olhando ao redor, ela

escolheu um celeiro dilapidado para se aliviar e deu uma volta para

encontrar o melhor lugar.

Quando ela voltou do celeiro, o Sr. Pye estava parado diante do chalé e

abotoava seu casaco. Ele havia refeito o rabicho, mas as roupas estavam

amassadas, e seu cabelo não estava tão arrumado quanto o habitual.

Pensando em sua própria aparência, Georgina sentiu que abria um sorriso

maldoso e divertido. Nem mesmo Harry Pye conseguia passar a noite no

chão de uma cabana e não demonstrar os efeitos disso na manhã seguinte.

— Quando a senhora estiver pronta, milady — disse ele —, sugiro que

voltemos à estrada. O cocheiro pode estar nos esperando lá.

— Ah, espero que sim.

Os dois refizeram o caminho da noite anterior. Durante o dia, seguindo

morro abaixo, Georgina ficou surpresa ao descobrir que não era uma grande

distância. Logo, eles ultrapassaram a última montanha e se depararam com

a estrada. Ela estava vazia, salvo pelos destroços, ainda mais deploráveis

sob a luz do dia.

Ela soltou um suspiro.

— Bem, acho que temos que ir andando, Sr. Pye.

— Sim, milady.

Os dois seguiram em silêncio pela estrada. Uma névoa úmida e terrível

pairava acima do solo, com um leve odor de podre. Ela penetrava por seu

vestido e subia por suas pernas. Georgina estremeceu. Ela queria muito uma

xícara de chá quente e, talvez, um bolinho coberto com mel e manteiga.

Georgina quase gemeu ao pensar nisso, e então notou um estrondo que

aumentava atrás deles.

O Sr. Pye ergueu o braço e parou a carroça de um fazendeiro, que fazia a

curva.

— Olá! Pare! Você aí, precisamos de uma carona.

O fazendeiro parou o cavalo. Ele afastou a aba do chapéu e os observou.

— Sr. Harry Pye, não é?

Harry Pye se retesou.

— Sim, isso mesmo. Da propriedade Woldsly.

O fazendeiro cuspiu na estrada e, por pouco, errou as botas do Sr. Pye.

— Lady Georgina Maitland precisa de uma carona até Woldsly. — O

rosto do administrador de terras estava impassível, mas sua voz ficara fria

como a morte. — Foi a carruagem dela que você viu lá atrás.

O fazendeiro olhou novamente para Georgina, como se tivesse notado

sua presença só agora.

— Sim, senhora, espero que não tenha se machucado no acidente.

— Não. — Ela lhe deu um sorriso charmoso. — Mas nós precisamos de

uma carona, se o senhor não se importar.

— Fico feliz em ajudar. Tem espaço na parte de trás. — O fazendeiro

apontou um dedo sujo por cima do ombro para a caçamba.

Georgina lhe agradeceu e deu a volta na carroça. Hesitou ao ver a altura

das tábuas. Elas alcançavam sua clavícula.

O Sr. Pye parou ao seu lado.

— Com sua permissão. — Ele mal esperou que ela concordasse antes de

segurá-la pela cintura e erguê-la.

— Obrigada — falou Georgina sem fôlego.

Ela observou enquanto ele apoiava as palmas da mão na caçamba e

pulava para dentro dela com a facilidade de um gato. A carroça começou a

andar com um solavanco tão logo o Sr. Pye terminou de afastar as tábuas, e

ele foi lançado em direção à lateral.

— O senhor está bem? — Ela esticou uma das mãos.

O Sr. Pye desprezou o gesto e se sentou.

— Muito bem. — Ele a encarou. — Milady.

O administrador nada mais disse. Georgina se recostou e observou a

paisagem. Campos verdes acinzentados com muros de pedra baixos

emergiam e, em seguida, voltavam a se esconder por causa da névoa

sinistra. Após a última noite, ela deveria ficar grata pela carona, por mais

sacolejante que pudesse ser. Mas alguma coisa na hostilidade do fazendeiro

com o Sr. Pye a incomodava. Aquilo parecia pessoal.

Eles chegaram a um cume, e Georgina observou, como quem não quer

nada, um rebanho de ovelhas numa encosta próxima. Elas estavam paradas

como pequenas estátuas, talvez congeladas pela névoa. Somente suas

cabeças se moviam enquanto comiam o tojo. Algumas estavam deitadas.

Ela franziu a testa. As que se achavam no chão estavam completamente

paradas. Ela se inclinou para a frente para ver melhor e ouviu Harry Pye

xingar baixinho a seu lado.

A carroça parou com uma sacudida.

— Qual é o problema com aquelas ovelhas? — perguntou Georgina ao

Sr. Pye.

Mas foi o fazendeiro quem respondeu, com a voz sinistra:

— Estão mortas.

 

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