O Príncipe Corvo
Capítulo Um
“Era uma vez, numa terra muito distante, um conde empobrecido e suas
três filhas...”
— O Príncipe Corvo
LITTLE BATTLEFORD, INGLATERRA
MARÇO DE 1760
A combinação de um cavalo a galope em disparada, uma estrada enlameada
cheia de curvas e uma dama a pé nunca é muito boa. Mesmo na melhor das
circunstâncias, as chances de as coisas darem certo são lamentavelmente
baixas. Mas acrescente a essa situação um cão — um cão imenso — e,
Anna Wren refletiu, o desastre se torna inevitável.
O cavalo em questão desviou subitamente ao ver Anna em seu caminho.
O mastim, correndo ao lado do cavalo, reagiu passando por baixo do
focinho do outro animal, e isso, por sua vez, fez o cavalo empinar. Cascos
do tamanho de pires balançaram no ar e, inevitavelmente, o enorme
cavaleiro perdeu o equilíbrio. O homem caiu aos pés dela como um gavião
que se lançasse do céu, talvez de modo menos gracioso. Braços e pernas
compridos se abriram com a queda, ele perdeu a chibata e o tricórnio, e
aterrissou com um borrifo espetacular numa poça de lama. Uma parede de
água suja se ergueu e a encharcou.
Todos, até mesmo o cão, ficaram imóveis.
Idiota, pensou Anna, mas não foi isso que ela disse. Viúvas respeitáveis,
de certa idade — 31 anos dali a dois meses —, não lançam epítetos, por
mais apropriados que sejam, a cavalheiros. Não. De modo algum.
Em vez disso, o que se ouviu foi:
— Espero que o senhor não tenha se machucado na queda. Posso ajudá-
lo a se levantar? — Ela sorriu através dos dentes semicerrados para o
homem encharcado.
Ele não retribuiu o gracejo.
— Que diabos a senhora estava fazendo no meio da estrada, sua tola?
O homem se ergueu da poça de lama e se agigantou diante de Anna
daquele modo irritante como fazem os cavalheiros para parecerem
importantes quando percebem que fizeram papel de bobo. A água suja
pingando no rosto pálido, marcado pela varíola, transformava-o numa visão
terrível. Cílios negros amontoavam-se de modo exuberante em torno dos
olhos de obsidiana, mas isso dificilmente faria esquecer o nariz e o queixo
largos ou os lábios finos e descorados.
— Sinto muito. — O sorriso de Anna não vacilou. — Eu estava indo
para casa. Naturalmente, se soubesse que o senhor precisaria de toda a
extensão da estrada...
Mas pelo visto a pergunta dele havia sido retórica. O homem se afastou,
batendo os pés e dispensando Anna e sua explicação. Ele ignorou o chapéu
e a chibata e foi atrás do cavalo, xingando-o em voz baixa e monótona, mas
estranhamente tranquilizadora.
O cão se sentou para observar o espetáculo.
O cavalo, um animal magrelo, de pelagem castanha, tinha manchas
claras peculiares na pelagem que lhe davam uma infeliz aparência malhada.
Ele revirou os olhos para o homem e se afastou com passos hesitantes.
— Muito bem. Pode esquivar-se por aí como uma virgem ao ter os seios
apalpados pela primeira vez, seu pedaço revoltante de couro carcomido
pelos vermes — murmurou o homem para o animal. — Quando eu puser as
mãos em você, seu filho bastardo de um camelo doente e de uma égua
paralítica, vou torcer seu maldito pescoço, vou sim.
O cavalo girou as orelhas de cores diferentes para ouvir melhor a voz
amorosa de barítono e deu um passo incerto para a frente. Anna se
solidarizou com o animal. A voz do homem feio era como uma pena
passada ao longo de seu pé: irritante e, ao mesmo tempo, hipnotizante. Ela
se perguntou se ele também falava dessa maneira quando fazia amor com
uma mulher. Esperava que as palavras fossem outras.
O homem se aproximou o suficiente do cavalo assustado para segurar-
lhe as rédeas. Por um minuto, ele ficou parado, murmurando obscenidades;
depois, montou no animal com um movimento elegante. Suas coxas musculosas, indecentemente reveladas pela camurça úmida, apertaram a
barriga do cavalo enquanto ele virava o focinho.
O homem inclinou a cabeça descoberta para Anna.
— Madame, tenha um bom dia.
E, sem olhar para trás, afastou-se pela estrada, com o cão correndo ao
seu lado. Em um instante, ele estava fora do campo de visão. Em outro, o
barulho dos cascos já havia silenciado.
Anna baixou o olhar.
Sua cesta estava na poça, e seu conteúdo — as compras matinais —
estava todo espalhado na estrada. Ela provavelmente a deixou cair quando
se desviou do cavalo que se aproximava. Agora as gemas amarelas de meia
dúzia de ovos escorriam para a água enlameada, e um arenque a fitava de
maneira sinistra, como se a culpasse por aquela aterrissagem indigna. Ela
pegou o peixe e o limpou, esfregando-o com as mãos. Pelo menos, ele
poderia ser salvo. O vestido cinza, porém, pingava lamentavelmente,
embora sua cor não fosse tão diferente da lama que o cobria. Anna puxou as
saias para afastá-las das pernas, antes de suspirar e soltá-las. Examinou a
estrada em ambas as direções. Os galhos vazios das árvores acima de sua
cabeça se agitaram com o vento. A pequena estrada permanecia deserta.
Anna respirou fundo e falou as palavras proibidas diante de Deus e de
sua alma eterna:
— Filho da mãe!
Ela prendeu a respiração e esperou que um raio ou, mais provavelmente,
uma pontada de culpa a atingisse. Nada aconteceu, e isso deveria deixá-la
inquieta. Afinal, damas não devem xingar cavalheiros, não importa qual
seja a provocação.
E, acima de tudo, ela era uma dama respeitável, não era?
Quando enfim chegou mancando ao seu chalé, as saias já tinham secado
e formado uma confusão rígida. No verão, as flores exuberantes que
enchiam o minúsculo jardim principal o tornavam alegre, mas, nessa época
do ano, o jardim era praticamente lama. Antes que ela pudesse alcançá-lo, a
porta se abriu. Uma mulher pequena, com cachos cinzentos nas têmporas,
observava do batente.
— Ora, aí está você. — A mulher acenou com uma colher de pau suja de
molho e, sem querer, lançou gotas na própria bochecha. — Fanny e eu
fizemos ensopado de cordeiro, e eu acho que o molho dela melhorou um
bocado. Agora mal dá pra ver os grumos. — Ela se inclinou e murmurou: — Mas ainda estamos trabalhando nos bolinhos. Receio que eles tenham
uma textura bastante incomum.
Anna deu um sorriso cansado para a sogra.
— Tenho certeza de que o ensopado estará maravilhoso.
Ela entrou no vestíbulo abarrotado e pôs a cesta no chão.
A outra mulher sorriu, mas em seguida franziu o cenho quando Anna
passou por ela.
— Querida, um odor peculiar vem do... — Ela se calou e fitou o topo da
cabeça de Anna. — Por que você está usando folhas úmidas em seu
chapéu?
Anna fez uma careta e ergueu a mão para tocar o chapéu.
— Infelizmente, tive um ligeiro contratempo na estrada.
— Um contratempo? — Em sua agitação, Mãe Wren deixou a colher
cair. — Você está machucada? Meu Deus, parece que seu vestido chafurdou
em um chiqueiro.
— Estou bem, só um pouquinho molhada.
— Ora, temos que botar você em roupas secas agora mesmo, querida. E
seu cabelo... Fanny! — Mãe Wren se interrompeu e gritou em direção à
cozinha. — Temos que lavar. Seu cabelo, é o que quero dizer. Venha, deixe-
me ajudá-la a subir os degraus. Fanny!
Uma garota com as mãos e os cotovelos avermelhados e uma massa de
cabelos cor de cenoura em cima da cabeça entrou cautelosamente no
vestíbulo.
— O que foi?
Mãe Wren parou nos degraus atrás de Anna e se inclinou por cima do
corrimão.
— Quantas vezes eu já lhe disse para falar: “Sim, senhora?”. Você nunca
vai trabalhar numa casa-grande se não falar de forma adequada.
Fanny ficou ali, piscando para as duas mulheres, com a boca entreaberta.
Mãe Wren suspirou.
— Vá colocar uma panela de água no fogo. A Srta. Anna vai lavar o
cabelo.
A garota correu para a cozinha; depois, esticou a cabeça para fora.
— Sim, senhorinha.
O topo dos degraus íngremes dava para um minúsculo patamar. À
esquerda, ficava o quarto da mulher mais velha; à direita, o de Anna. Ela entrou no pequeno cômodo e foi direto para o espelho que pendia sobre a
penteadeira.
— Esta cidade está cada vez pior — arfou a sogra atrás dela. — Os
respingos de uma carruagem acertaram em você? Esses cocheiros de
carruagens postais são simplesmente irresponsáveis. Acham que a estrada
inteira é só deles.
— Difícil não concordar com a senhora — retrucou Anna enquanto
examinava o próprio reflexo. Uma guirlanda desbotada de flores de
macieira secas pendia da beirada do espelho; uma lembrança de seu
casamento. — Mas, nesse caso, era um único cavaleiro. — Seu cabelo
parecia um ninho de rato e ainda havia manchas de lama na testa.
— Pior ainda, esses cavalheiros a cavalo — resmungou a mulher idosa.
— Ora, creio que alguns deles não são nem capazes de controlar seus
animais. Terrivelmente perigosos. Eles são uma ameaça para mulheres e
crianças.
— Hum. — Anna tirou o xale, batendo a canela numa cadeira ao se
mover.
Olhou ao redor do pequeno cômodo. Fora ali que ela e Peter haviam
passado os quatro anos de seu casamento. Ela pendurou o xale e o chapéu
no gancho em que o casaco de Peter costumava ficar. A cadeira na qual
antigamente ele empilhava os pesados livros de direito agora era sua
mesinha de cabeceira. E até mesmo a escova de cabelo com uns poucos fios
ruivos presos nas cerdas havia muito fora guardada.
— Pelo menos você salvou o arenque. — Mãe Wren ainda estava
aborrecida. — Embora eu não creia que um mergulho na lama tenha
melhorado seu sabor.
— De forma alguma — retrucou Anna, distraída. Seus olhos se voltaram
para a guirlanda, que estava se desmanchando. Não era de admirar, pois sua
viuvez tinha seis anos. Coisa horrorosa. Ficaria melhor na pilha de lixo da
horta. Ela iria descartá-la mais tarde.
— Isso, querida, deixe-me ajudar. — Mãe Wren começou a abrir o
vestido na parte de baixo. — Vamos ter que limpá-lo com uma esponja
imediatamente. Tem um bocado de lama na bainha. Talvez, se eu aplicasse
um novo debrum... — Sua voz ficou abafada quando ela se abaixou. — Ah,
isso me faz lembrar uma coisa: você vendeu minha renda para a modista?
Anna empurrou o vestido para baixo e o tirou.
— Sim, ela gostou bastante da renda. Falou que era a mais delicada que
já tinha visto.
— Bem, eu faço renda há quase quarenta anos. — Mãe Wren tentou
parecer modesta e limpou a garganta: — E quanto ela pagou?
Anna se encolheu.
— Um xelim e seis pences.
Ela esticou a mão para pegar um robe puído.
— Mas eu trabalhei cinco meses nela — disse, sem ar, Mãe Wren.
— Eu sei. — Anna suspirou e soltou o cabelo. — E, como eu disse, a
modista considerou seu trabalho da melhor qualidade. Mas renda não dá
muito lucro.
— Vai dar assim que ela aplicá-la num gorro ou num vestido —
resmungou Mãe Wren.
Anna fez uma careta em solidariedade. Ela tirou a toalha de banho de
um gancho debaixo das calhas, e as duas mulheres desceram os degraus em
silêncio.
Na cozinha, Fanny esperava com uma chaleira com água. Ramos de
ervas secas pendiam de vigas escuras deixando o ar perfumado. A antiga
lareira de tijolos ocupava uma parede inteira. Do lado oposto, uma janela
com cortina dava para a horta nos fundos. Uma plantação de alface
avançava numa fileira verde e amarela pelo minúsculo pedaço de terra, e
nabos e rabanetes já estavam maduros havia uma semana.
Mãe Wren pôs uma bacia lascada sobre a mesa da cozinha. Desgastada
pelos muitos anos de esfregadas diárias, a mesa se destacava no meio do
cômodo. À noite, elas a encostavam na parede para que a pequena criada
pudesse estender um colchonete de palha diante do fogo.
Fanny trouxe a chaleira com água. Anna se inclinou sobre a bacia, e Mãe
Wren derramou a água morna sobre sua cabeça. Anna ensaboou o cabelo,
respirou fundo e disse:
— Infelizmente teremos que fazer alguma coisa quanto à nossa situação
financeira.
— Ah, não diga que haverá mais economia, querida — resmungou Mãe
Wren. — Nós já deixamos de comer carne fresca, a não ser a de cordeiro, às
terças e quintas. E faz séculos que nenhuma de nós tem um vestido novo.
Anna percebeu que a sogra não havia mencionado as despesas com
Fanny. Embora a garota supostamente fosse sua criada-e-cozinheira, na
verdade era um impulso de caridade de ambas as partes. O único parente de Fanny, seu avô, morrera quando a menina tinha 10 anos. Na época, falou-se
muito na aldeia em mandá-la para um abrigo, mas Anna interveio e, desde
então, Fanny estava com elas. Mãe Wren tinha esperança de conseguir
treiná-la para trabalhar numa casa-grande, mas até agora seu progresso fora
lento.
— A senhora tem se saído muito bem com as economias que temos feito
— elogiou Anna enquanto espalhava a fina espuma em sua cabeça. — Mas
os investimentos que Peter nos deixou não estão indo tão bem quanto antes.
Nossa renda diminuiu muito desde que ele morreu.
— É uma pena que ele nos tenha deixado tão pouco — falou Mãe Wren.
Anna suspirou.
— Ele não pretendia deixar uma soma tão pequena. Era jovem quando
foi acometido pela febre. Tenho certeza de que, se ele estivesse vivo, teria
feito render substancialmente as economias.
Na verdade, Peter havia melhorado suas finanças desde a morte do pai,
pouco antes de seu casamento. O pai era advogado, mas alguns
investimentos imprudentes o deixaram endividado. Após o casamento,
Peter vendeu a casa na qual tinha crescido para pagar as dívidas e se
mudou, com a esposa e a mãe viúva, para um chalé bem menor. Ele
trabalhava como advogado quando ficou doente, vindo a morrer 15 dias
depois. E deixou a administração da pequena família por conta de Anna.
— Pode enxaguar, por favor.
A água fria desceu-lhe pela nuca e pela cabeça. Ela se certificou de que
o sabão havia saído e, em seguida, espremeu o excesso de água do cabelo.
Enrolou um pano ao redor da cabeça e ergueu o olhar.
— Acho que eu deveria procurar um emprego.
— Ah, querida, certamente que não. — Mãe Wren sentou-se
pesadamente numa cadeira na cozinha. — Damas não trabalham.
Anna sentiu sua boca se contorcer.
— A senhora prefere que eu continue sendo uma dama e nos deixe
morrer de fome?
Mãe Wren hesitou. Ela parecia realmente refletir sobre a questão.
— Não responda — pediu Anna. — De qualquer forma, não vamos
passar fome. No entanto, temos que encontrar um meio de trazer algum
dinheiro para essa casa.
— Talvez se eu fizesse mais renda. Ou... ou eu poderia parar totalmente
de comer carne — sugeriu a sogra, um pouco nervosa.
— Não quero que a senhora tenha que fazer isso. Além do mais, papai
fez de tudo para que eu tivesse uma boa educação.
Mãe Wren se animou.
— Seu pai foi o melhor vigário que Little Battleford já teve. Que sua
alma descanse em paz! E deixou bem claro para todos suas opiniões sobre a
educação das crianças.
— Hum. — Anna tirou o pano da cabeça e começou a pentear o cabelo
molhado. — Ele fez questão que eu aprendesse a ler, escrever e fazer
contas. Eu até sei um pouco de latim e grego. Estou pensando em procurar
um emprego como governanta ou acompanhante amanhã.
— A velha Sra. Lester é quase cega. Certamente o genro dela pode
contratar você para ler... — Mãe Wren se deteve.
Ao mesmo tempo, Anna percebeu um cheiro acre no ar.
— Fanny!
A pequena criada, que estava prestando atenção na conversa entre as
patroas, soltou um gritinho e correu até a panela do ensopado no fogo. Anna
resmungou.
Outro jantar queimado.
Felix Hopple fez uma pausa diante da porta da biblioteca do conde de
Swartingham para avaliar sua aparência. A peruca, com dois cachos
grandes bem enrolados de cada lado, fora empoada recentemente num tom
vistoso de lavanda. Sua estrutura física — bastante esbelta para um homem
de sua idade — era destacada por um colete cor de ameixa com um padrão
de folhas de videira amarelas na barra. E sua calça, com listras alternadas
em verde e laranja, era bela sem ostentação. Sua toalete era perfeita. Não
havia razão para ele hesitar do lado de fora da porta.
O homem suspirou. O conde tinha uma tendência desconcertante a
rosnar. Como administrador da propriedade da Abadia de Ravenhill, Felix
tinha ouvido aquele rosnado preocupante algumas vezes nas últimas duas
semanas. Isso fazia com que ele se sentisse como um daqueles infelizes
nativos sobre os quais se lia em registros de viagem, que viviam nas
sombras de imensos e ameaçadores vulcões. E vulcões que, a qualquer
momento, podem entrar em erupção. Felix não compreendia por que Lorde
Swartingham havia escolhido residir na abadia depois de anos de feliz
ausência, mas tinha a desagradável sensação de que o conde pretendia
permanecer ali por muito, muito tempo.
O administrador passou uma das mãos pelo colete e se recordou de que,
embora o assunto sobre o qual ele estivesse prestes a discutir com o conde
não fosse agradável, não poderia, de modo algum, ser interpretado como
culpa sua. Sentindo-se preparado, portanto, acenou com a cabeça e bateu à
porta da biblioteca.
Fez-se uma pausa e, em seguida, uma voz segura e grave falou:
— Entre.
A biblioteca ficava na ala oeste da mansão, e o sol do fim da tarde
atravessava as largas janelas que ocupavam quase toda a parede externa.
Era de esperar que isso transformasse a biblioteca num cômodo alegre,
acolhedor, mas, de alguma forma, os raios de luz eram engolidos pelo
espaço cavernoso assim que entravam, deixando a maior parte do ambiente
nas sombras. O teto — dois andares acima — era coberto pela escuridão.
O conde estava sentado atrás de uma imensa mesa barroca, que teria
transformado em anão um homem mais baixo. Perto dele, o fogo tentava
parecer alegre, mas fracassava terrivelmente. Um cão malhado, gigantesco,
esparramava-se na frente da lareira, como se estivesse morto. Felix se
encolheu. O cão era mestiço: um pouco de mastim e, talvez, um pouco de
cão-lobo. O resultado era um animal feio, de aparência maldosa, que ele se
esforçava para evitar.
Ele pigarreou.
— Eu poderia ter um segundo, milorde?
Lorde Swartingham levantou os olhos do papel em sua mão.
— O que foi agora, Hopple? Entre, entre, homem. Sente-se enquanto
termino isso. Vou lhe dar atenção em um minuto.
Felix se dirigiu a uma das poltronas diante da mesa de mogno e afundou
nela, mantendo um olho no cão. Ele usou aquele tempo de espera para
estudar o patrão e ter uma ideia do seu humor. O conde fez cara feia para a
página que tinha diante de si; as marcas de varíola o tornavam
particularmente pouco atraente. Claro, isso não era necessariamente um
mau sinal. O conde tinha o hábito de fazer cara feia.
Lorde Swartingham colocou o papel de lado e tirou os óculos de leitura
em formato de meia-lua, jogando seu considerável peso de volta à cadeira e
fazendo-a ranger. Felix se encolheu em solidariedade.
— Então, Hopple?
— Milorde, tenho algumas notícias desagradáveis que espero que o
senhor não leve tão a mal — disse ele sorrindo cautelosamente.
O conde olhou por cima do grande nariz sem comentar nada.
Felix puxou os punhos da camisa.
— O novo secretário, Sr. Tootleham, recebeu a notícia de uma
emergência familiar que o forçou a entregar sua demissão bastante rápido.
A expressão do conde ainda não se havia modificado, embora ele tivesse
começado a tamborilar no braço da cadeira.
Felix falou mais rapidamente:
— Parece que os pais do Sr. Tootleham, em Londres, estão acamados
por uma febre e precisam de ajuda. É uma doença virulenta, com suores e
purgação, mui-muito contagiosa.
O conde ergueu uma das sobrancelhas escuras.
— Na-na verdade, os dois irmãos, as três irmãs, a avó idosa, uma tia e o
gato da família pegaram a doença e estão totalmente incapazes de se cuidar
sozinhos. — Felix fez uma pausa e olhou para o conde.
Silêncio.
O administrador fez um esforço corajoso para não balbuciar.
— O gato? — Lorde Swartingham rosnou baixinho.
Felix começou a gaguejar uma resposta, mas foi interrompido por uma
obscenidade berrada pelo patrão. Ele se abaixou com o recém-praticado
desembaraço enquanto o conde pegava uma jarra de porcelana e a lançava,
por cima da cabeça do administrador, na porta. Ela bateu com uma pancada
feia e um tinido de lascas caindo. O cão simplesmente suspirou, pelo visto
já bastante acostumado com a maneira estranha com que Lorde
Swartingham dava vazão à sua frustração.
Lorde Swartingham respirou pesadamente e dardejou Felix com os olhos
negros como carvão.
— Tenho certeza de que você encontrou um substituto.
No mesmo instante, a gravata do outro homem pareceu apertada. Ele
passou um dedo pela beirada superior.
— Er... na verdade, milorde, embora, é claro, eu tenha procurado com
mui-muita diligência e, com efeito, embora quase todas as aldeias próximas
tenham sido vasculhadas, eu não... — Ele engoliu em seco e corajosamente
olhou nos olhos do patrão. — Infelizmente ainda não encontrei um
secretário.
Lorde Swartingham não se moveu.
— Eu preciso de um secretário para transcrever meu manuscrito para a
série de palestras da Sociedade Agrária daqui a quatro semanas — declarou ele, de modo assustador. — De preferência, alguém que fique mais de dois
dias. Encontre essa pessoa. — Ele agarrou outra folha de papel e voltou à
leitura.
A audiência havia terminado.
— Sim, milorde. — Nervoso, Felix levantou-se de um salto e se
apressou em direção à porta. — Vou começar a procurar agora mesmo,
milorde.
Lorde Swartingham esperou até que ele tivesse praticamente alcançado a
porta, antes de bradar:
— Hopple!
Prestes a escapar, Felix retirou a mão da maçaneta com ar culpado.
— Milorde?
— Você tem até depois de amanhã pela manhã.
Felix fitou a cabeça abaixada do patrão e engoliu em seco, sentindo-se
como Hércules deve ter se sentido ao ver as cavalariças do rei Augias.
— Sim, milorde.
Edward de Raaf, quinto conde de Swartingham, terminou de ler o relatório
de sua propriedade no norte de Yorkshire e o atirou na pilha de papéis, junto
com os óculos. A claridade que entrava pela janela diminuía rapidamente e,
em breve, desapareceria. Ele se ergueu da cadeira e caminhou para olhar
para fora. O cão se ergueu, esticou-se e foi até ele silenciosamente, parando
ao seu lado e dando cabeçadas em sua mão. Distraído, Edward afagou as
orelhas do animal.
Esse era o segundo secretário a partir na calada da noite em poucos
meses. Dava até para pensar que Edward era um dragão. Cada um de seus
secretários estava mais para rato do que para homem. Basta ter um
temperamento forte, elevar a voz e eles saem em disparada. Se ao menos
um deles tivesse metade da coragem da mulher que ele quase havia
atropelado ontem... Seus lábios se contorceram. Ele ouviu a resposta
sarcástica quando perguntou o motivo de ela estar na estrada. Não, aquela
senhora não arredou o pé quando ele cuspiu fogo nela. Uma pena que seus
secretários não fossem capazes de fazer o mesmo.
Ele olhou fixamente pela janela escura. E então havia essa outra
perturbação... irritante. A casa de sua infância não era como ele lembrava.
Ele agora era um homem. A verdade era essa. Quando vira a Abadia de
Ravenhill pela última vez, era um jovem de luto pela perda da família. Nas duas décadas seguintes, havia perambulado das propriedades no norte para
a casa em Londres, mas, por alguma razão, apesar do tempo, os dois lugares
nunca haviam sido um lar. Ele se afastava precisamente porque a abadia
nunca seria a mesma de quando a família morava ali. Esperava alguma
mudança, mas não estava preparado para essa tristeza. Nem para a terrível
sensação de solidão. O tremendo vazio dos cômodos o derrotava, zombando
de Edward com o riso e a claridade dos quais ele se recordava.
A família da qual ele se lembrava.
A única razão pela qual Edward insistiu em abrir a mansão era a
esperança de trazer para cá a noiva — sua possível noiva, dependendo do
sucesso da negociação do contrato nupcial. Ele não iria repetir os erros do
primeiro e breve casamento e se estabelecer em outro lugar. Na época,
tentara alegrar a jovem esposa permanecendo em Yorkshire, seu lar. Não
tinha funcionado. Anos depois de sua morte prematura, ele havia chegado à
conclusão de que ela não teria sido feliz em parte alguma que tivessem
escolhido morar.
Edward se afastou da janela e foi até as portas da biblioteca. Ele
começaria como queria; seguiria adiante e moraria na abadia; faria dela um
lar novamente. Era a sede do condado e o local onde ele pretendia replantar
sua árvore genealógica. E, quando o casamento desse frutos, quando os
corredores voltassem a ecoar com a risada de crianças, a Abadia de
Ravenhill iria parecer viva de novo.
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