O Príncipe Corvo

Elizabeth Hoyt · Capítulo 17 de 26

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O Príncipe Corvo

Capítulo Quinze

 

“Então, Aurea voou de volta para casa em sua magnífica carruagem de

ouro, e os planos das irmãs se agitavam em sua mente. O corvo saudou o

retorno da esposa de modo quase indiferente. Aurea fez uma refeição

esplêndida com ele, desejou-lhe boa-noite e foi para o seu quarto esperar o

visitante sensual. Subitamente ele estava ali, ao lado dela, mais carente e

mais exigente do que jamais fora. Suas atenções deixaram Aurea sonolenta

e saciada, mas ela se aferrou teimosamente ao plano e se manteve

acordada mesmo quando ouviu a respiração do amante se acalmar na

regularidade do sono. Em silêncio, ela se sentou e tateou a vela que antes

deixara na mesa ao lado da cama...”

 

— O Príncipe Corvo

 

— Ai, meu Deus! — Anna tentou se lembrar de quando exatamente

Rebecca havia pensado que o bebê chegaria. Por certo era para o próximo

mês, não era?

— O Dr. Billings está na soirée — disse Edward com uma autoridade

calma. — Pegue a minha carruagem, garota, e vá buscá-lo. — Ele se virou e

deu instruções a John Cocheiro enquanto fazia sinal para a carruagem

avançar.

— Eu vou com Meg — declarou Mãe Wren.

Edward fez que sim com a cabeça e ajudou as duas mulheres a entrarem

na carruagem.

— Tem alguma parteira para chamar também? — Ele dirigiu a pergunta

a Anna.

— Rebecca ia pedir à Sra. Stucker...

— A parteira está com a Sra. Lyle — disse a sogra. — Ela mora a seis

ou sete quilômetros da cidade. Algumas senhoras estavam falando sobre

isso na festa.

— Chamem primeiro o Dr. Billings, e então eu vou mandar a carruagem

atrás da Sra. Stucker — ordenou Edward.

Mãe Wren e Meg assentiram de dentro da carruagem.

Edward bateu a porta com força e deu um passo para trás.

— Pode ir, John!

O cocheiro gritou para os cavalos, e a carruagem se afastou, fazendo

barulho.

Edward pegou a mão de Anna.

— Qual é o caminho até a casa da Sra. Fairchild?

— É logo ali na frente. — Anna ergueu suas saias e correu na direção da

casa com Edward.

A porta da casa de Rebecca estava aberta. Estava escuro, a não ser por

um facho de luz que passava pelo batente. Edward empurrou a porta, e

Anna o seguiu. Ela olhou ao redor. Os dois estavam parados no vestíbulo

principal com as escadas para o segundo andar bem à frente deles. A parte

de baixo era iluminada pela luz do vestíbulo, mas os degraus mais altos

estavam escuros. Não havia sinal de Rebecca.

— Será que ela conseguiria se levantar sozinha? — Anna arfou.

Eles ouviram um gemido baixinho vindo dos degraus superiores. Anna

subiu correndo antes que Edward pudesse se mexer. Ela o ouviu xingar

atrás de si.

Rebecca estava deitada num patamar na metade da escada. Anna

agradeceu aos céus o fato de que ela havia parado ali em vez de rolar pelo

segundo lance de degraus, mais comprido. A amiga estava deitada de lado,

o grande monte formado por sua barriga mais proeminente nessa posição.

Seu rosto brilhava, branco e oleoso com o suor.

Anna mordeu o lábio.

— Rebecca, você pode me ouvir?

— Anna. — Rebecca esticou a mão, e Anna a segurou. — Graças a

Deus você está aqui. — Ela arfou, e sua mão apertou a da amiga com força.

— O que foi? — perguntou Anna.

— O bebê. — Rebecca soltou a respiração. — Está chegando.

— Você consegue ficar de pé?

— Sou tão desajeitada. Meu tornozelo está doendo. — Havia lágrimas

nos olhos de Rebecca e sinais de choro em sua face. — O bebê está muito

adiantado.

Subitamente, os olhos de Anna se encheram de lágrimas. Ela mordeu a

parte de dentro da bochecha para tentar controlá-las. Chorar não ajudaria

sua amiga.

— Deixe-me levá-la ao seu quarto, Sra. Fairchild. — A voz grave de

Edward interrompeu os pensamentos dela.

Anna ergueu o olhar. Edward estava parado atrás dela, com a expressão

preocupada. Ela deu um passo para o lado e soltou a mão de Rebecca. O

conde colocou as palmas das mãos debaixo da mulher em trabalho de parto;

em seguida, agachou-se e a posicionou em seus braços antes de se levantar

com um movimento fluido. Obviamente, ele tomou cuidado para não forçar

o tornozelo de Rebecca, mas ela se lamuriou e apertou as mãos na parte da

frente de seu casaco. Os lábios de Edward se estreitaram. Ele acenou para

Anna, e ela seguiu à frente dele escada acima e depois pelo corredor do

segundo andar. Uma única vela tremeluzia numa mesinha de cabeceira no

quarto de Rebecca. Anna apressou-se em pegá-la e acender outras. Edward

se virou de lado para entrar e então deitou a mulher gentilmente na cama.

Pela primeira vez, Anna notou que ele estava muito pálido.

Ela tirou um cacho úmido da testa de Rebecca.

— Onde está James?

Ela teve de esperar a resposta enquanto outra onda de dor atingia a

amiga. Rebecca gemeu baixinho, e suas costas se arquearam. Quando

passou, ela arfava.

— Ele foi a Drewsbury resolver alguns negócios. Falou que voltaria

amanhã, depois do meio-dia. — Rebecca mordeu o lábio. — Ele vai ficar

tão zangado comigo.

Edward resmungou alguma coisa incisiva atrás delas e foi até as janelas

do quarto escuro.

— Bobagem — ralhou Anna baixinho. — Nada disso é culpa sua.

— Se eu não tivesse caído da escada. — Rebecca soluçou.

Anna estava tentando confortá-la quando a porta principal bateu no

andar de baixo. O médico havia chegado. Edward pediu licença para trazer

o homem até o andar de cima.

O Dr. Billings tentou assumir uma expressão impassível, mas era

evidente que ele estava preocupado. O médico enfaixou o tornozelo de

Rebecca, que já estava inchado e ficara roxo. Anna ficou a maior parte do

tempo sentada junto à cabeceira de Rebecca, segurando sua mão e

conversando com ela para tentar acalmá-la. Não foi fácil. De acordo com os cálculos da parteira e de Rebecca, o bebê estava um mês adiantado. À

medida que a noite prosseguia, a agonia de Rebecca piorava, e ela ficou

desanimada. Estava convencida de que perderia o bebê. Nada que Anna

falou parecia ajudar, mas ela ficou ao lado da outra mulher, segurando sua

mão e afagando seus cabelos.

Fazia pouco mais de três horas desde a chegada do médico quando a

parteira, a Sra. Stucker, entrou no quarto. Uma mulher baixinha e redonda,

com bochechas vermelhas e cabelo escuro, agora generosamente salpicado

de cinza, ela era uma visão bem-vinda.

— Ora! Esta é uma noite para os bebês, isso sim — comentou a parteira.

— Vocês todos vão ficar contentes em saber que a Sra. Lyle tem outro

bebezinho, o quinto, dá para acreditar? Não sei por que ela se dá ao trabalho

de me chamar. Eu simplesmente fico sentada no canto, fazendo tricô, até

chegar a hora de pegar o pequenino. — A Sra. Stucker tirou sua capa e um

monte de cachecóis e jogou tudo sobre uma cadeira. — Você tem um pouco

de água e um pedaço de sabão, Meg? Eu gosto de lavar as mãos antes de

ajudar uma senhora.

O Dr. Billings olhava com ar de desaprovação, mas não protestou

quando a parteira começou a cuidar da paciente.

— E como a senhora está, Sra. Fairchild? Aguentando firme, apesar do

tornozelo? Nossa, isso deve ter doído! — A parteira pôs a mão na barriga

de Rebecca e olhou para o rosto dela com ar astuto. — O bebê está ansioso,

não está? Vem mais cedo só para chatear sua mãe. Mas a senhora não tem

que se preocupar com isso. Algumas vezes, os bebês vêm quando querem.

— Ele vai ficar bem? — Rebecca passou a língua pelos lábios secos.

— Ora, a senhora sabe que não posso prometer nada, amorzinho. Mas a

senhora é uma mulher boa e forte, se não se importa que eu diga isso. Vou

fazer o meu melhor para ajudar a senhora e o bebê.

Depois disso, as coisas pareceram melhores. A Sra. Stucker fez Rebecca

se sentar na cama porque “os bebês descem melhor do que sobem”.

Rebecca pareceu voltar a ficar animada. Ela até conseguia conversar entre

uma contração e outra.

Justamente quando Anna sentiu que ia desmaiar de fadiga bem ali na

cadeira, Rebecca começou a gemer profundamente. No início, Anna ficou

muito alarmada, pensando que alguma coisa devia estar errada. Mas a Sra.

Stucker não se perturbou e afirmou, animada, que o bebê em breve estaria

ali. E de fato, meia hora depois, durante a qual Anna ficou bem acordada, o bebê de Rebecca nasceu. Era uma garotinha, enrugada e pequena, mas

capaz de berrar bem alto. O som trouxe um sorriso ao rosto exausto da mãe.

O bebê tinha cabelos escuros e arrepiados, como a penugem de um

pintinho. Os olhos azuis piscaram lentamente, e ela virou a cabeça para o

seio de Rebecca quando estava aconchegada nele.

— Ora, não é a bebezinha mais bonita que as senhoras já viram? —

perguntou a Sra. Stucker. — Sei que está esgotada, Sra. Fairchild, mas

talvez possa tomar um pouco de chá ou um caldo.

— Verei o que consigo encontrar — disse Anna, bocejando.

Lentamente, ela desceu a escada com dificuldade. Quando chegou ao

patamar, notou um raio de luz na sala de estar do primeiro andar. Confusa,

Anna empurrou a porta e ficou parada ali por um instante, observando.

Edward estava esparramado no canapé de tecido de damasco de

Rebecca, com as pernas compridas pendendo da extremidade do móvel. Ele

havia tirado a gravata e desabotoado o colete. Um braço estava dobrado

sobre os olhos. O outro estendia-se para o chão, onde sua mão quase

envolvia um copo cheio até a metade com o que parecia ser o conhaque de

James. Anna deu um passo para dentro do cômodo e, imediatamente, ele

ergueu o braço em torno dos olhos, desmentindo a impressão de que

estivera dormindo.

— Como ela está? — A voz soava rouca, e sua fisionomia, sinistra. Os

hematomas que desbotavam se destacavam na face pálida, e a barba por

fazer em seu queixo lhe dava uma aparência dissoluta.

Anna sentiu-se envergonhada. Ela se esquecera de Edward e imaginara

que ele tinha ido embora havia muito. E todo esse tempo ele permanecera

ali no primeiro andar, esperando para ver se Rebecca ficaria bem.

— Rebecca está bem — respondeu Anna, animada. — Ela tem uma

garotinha.

A expressão dele não mudou.

— Viva?

— Sim. — Anna hesitou. — Sim, claro. Rebecca e o bebê estão vivos e

bem.

— Graças a Deus! — Seu rosto não perdera a aparência tensa.

Ela começou a se sentir inquieta. Sem dúvida, Edward estava

preocupado demais. Ele acabara de conhecer Rebecca, não é?

— Qual é o problema?

O conde suspirou, e seu braço voltou a cobrir os olhos. Houve um longo

momento de silêncio — tão longo que ela pensou que ele não iria responder

à pergunta. Finalmente, ele falou:

— Minha esposa e o bebê morreram no parto.

Lentamente, Anna se sentou num banco perto do canapé. Ela nunca

havia pensado na esposa dele antes. Sabia que ele tinha sido casado e que

ela morrera ainda jovem, mas não a causa da morte. Será que ele a amara?

Será que ele ainda a amava?

— Eu sinto muito.

Ele ergueu a mão do copo de conhaque, fez um gesto impaciente e então

deixou sua mão cair sobre o copo novamente, como se estivesse cansado

demais para encontrar outro local para apoiá-la.

— Eu não contei isso para despertar sua pena. Ela morreu há muito

tempo. Faz dez anos.

— Com que idade?

— Ela havia completado 20 anos 15 dias antes. — A boca se contorceu.

— Eu tinha 24.

Anna esperou.

Quando ele voltou a falar, as palavras soaram tão baixas que ela teve de

se inclinar para a frente, para ouvi-las.

— Ela era jovem e saudável. Nunca me ocorreu que ter uma criança

poderia matá-la, mas ela perdeu o bebê no sétimo mês. A criança era

pequena demais para sobreviver. Me disseram que era um menino. E então

ela começou a sangrar.

Edward tirou o braço do rosto, e Anna pôde ver que ele fitava cegamente

alguma visão interior.

— Eles não conseguiram fazer aquilo parar. Médicos e parteiras,

ninguém conseguiu. As criadas corriam para baixo e para cima com mais e

mais lençóis — murmurou ele para o horror daquela lembrança. — Ela

simplesmente sangrou sem parar até que sua vida se esvaiu. Havia tanto

sangue na cama que encharcou o colchão. Depois, tiveram de queimá-lo.

As lágrimas que Anna havia contido para o bem de Rebecca rolavam por

suas bochechas. Perder alguém que se ama de forma tão terrível, tão trágica,

deve ser horrível. E Edward provavelmente queria muito aquele bebê. Ela já

sabia que ter uma família era importante para ele.

Anna levou uma das mãos à boca, e o movimento pareceu trazer Edward

de volta de seu devaneio. Ele xingou baixinho quando viu as lágrimas em seu rosto. E se sentou bem ereto no canapé, esticando a mão para ela. Sem

sinal de esforço, Edward a ergueu do banco e a colocou no colo, com as

costas apoiadas em seu braço. Ele puxou a cabeça dela para seu peito.

Uma mão grande acariciou delicadamente o cabelo dela.

— Sinto muito. Não devia ter lhe contado isso. Não é uma história para

os ouvidos de uma dama, sobretudo quando você passou a noite toda

acordada, preocupada com sua amiga.

Anna se permitiu recostar nele, e seu calor masculino e a mão que a

afagava eram incrivelmente reconfortantes.

— Você deve tê-la amado muito.

A mão fez uma pausa e voltou a se mover.

— Eu pensava que amava. No fim das contas, eu não a conhecia muito

bem.

Ela inclinou a cabeça para trás para ver o rosto dele.

— Por quanto tempo vocês foram casados?

— Pouco mais de um ano.

— Mas...

Ele trouxe a cabeça dela de volta para o seu peito.

— Nós não nos conhecíamos há muito tempo quando ficamos noivos, e

imagino que eu nunca tenha conversado de verdade com ela. O pai dela

estava muito ansioso com o casamento e me dizia que a união agradava a

garota, e eu apenas achei... — Sua voz ficou rouca. — Depois que nos

casamos, descobri que meu rosto lhe causava repulsa.

Anna tentou falar, mas ele pediu silêncio novamente.

— Acho que ela também tinha medo de mim — disse Edward

ironicamente. — Você talvez não tenha notado, mas eu tenho um

temperamento difícil. — Ela sentiu a mão dele tocando o topo de sua

cabeça delicadamente. — Durante a gravidez, eu sabia que alguma coisa

estava errada e, em suas últimas horas, ela o amaldiçoou.

— Amaldiçoou quem?

— O pai. Por forçá-la a se casar com um homem tão feio.

Anna estremeceu. Que garotinha ridícula deve ter sido a esposa dele!

— Pelo visto, o pai mentira para mim. — A voz de Edward se tornou

gélida como o inverno. — Ele desejava desesperadamente o casamento e,

sem querer me ofender, proibiu minha noiva de me dizer que as cicatrizes

lhe davam nojo.

— Sinto muito, eu...

— Shh — murmurou ele. — Isso aconteceu há muito tempo, e, desde

então, aprendi a aceitar o meu rosto e a reconhecer quem tenta disfarçar

aversão a ele. Mesmo quando mentem, eu normalmente sei.

Mas ele não conhecia suas mentiras. Anna sentiu um calafrio ao pensar

nisso. Ela o enganara, e ele nunca a perdoaria se descobrisse.

Edward deve ter confundido o tremor com tristeza por causa de sua

história. Murmurou alguma coisa pelo seu cabelo e a segurou mais perto de

si até que o calor de seu corpo tivesse afastado o frio. Os dois ficaram

sentados em silêncio por um tempo, reconfortando-se um no outro. Estava

começando a clarear do lado de fora. Havia um halo em torno das cortinas

fechadas da sala de estar. Anna aproveitou para roçar o nariz na camisa

amassada do conde. Ele tinha o cheiro do conhaque que havia bebido —

muito masculino.

Edward se recostou e olhou para ela.

— O que você está fazendo?

— Sentindo o seu cheiro.

— Provavelmente estou fedendo.

— Não. — Anna balançou a cabeça. — Você tem um cheiro... bom.

Ele analisou o rosto dela por um minuto.

— Por favor, me perdoe. Não quero que você tenha esperanças. Se

houvesse um meio...

— Eu sei. — Ela se pôs de pé. — Eu até entendo. — Anna foi

rapidamente até a porta. — Eu desci para pegar alguma coisa para Rebecca.

Ela deve estar se perguntando o que aconteceu comigo.

— Anna...

Mas ela fingiu não ouvir e saiu da sala de estar. A rejeição de Edward

era uma coisa. Mas ela não era obrigada a suportar sua compaixão.

A porta principal se abriu de repente nesse momento para que um James

Fairchild desgrenhado entrasse. Era como se ele tivesse fugido de um

manicômio, com os cabelos louros arrepiados e sem gravata.

Ele olhou agitado para Anna.

— Rebecca?

Nesse momento, como se em resposta do andar de cima, ouviu-se o

berro vacilante de um recém-nascido. A expressão de James Fairchild

mudou de frenética para boquiaberta. Sem esperar a resposta de Anna, ele

saiu em disparada pela escada, subindo três degraus de uma vez. Quando

ele passou, Anna notou que James usava meia somente num dos pés.

Ela sorriu para si mesma ao se virar para ir à cozinha.

 

— Acho que está quase na hora de plantar, milorde — falou Hopple

amigavelmente.

— Sem dúvida. — Edward estreitou os olhos sob o sol brilhante da

tarde.

Após uma noite de muito pouco sono, ele não estava disposto a papear.

O conde e o administrador percorriam um campo, verificando se seria

necessária uma vala de drenagem como a do Sr. Grundle. Parecia que os

cavadores de valas da região tinham sustento garantido no provável futuro.

Jock pulava ao longo das cercas vivas que ladeavam os campos, cutucando

com o focinho as tocas de coelhos. Edward enviara um bilhete para Anna

pela manhã dizendo que ela não precisava vir à abadia. Ela poderia usar o

restante do dia para descansar. E ele precisava de uma folga da presença

dela. Quase a beijara novamente na noite anterior, apesar de sua palavra de

honra. Ele deveria deixá-la em paz; depois de seu casamento, dificilmente

poderia manter uma secretária, de qualquer forma. Mas então ela não teria

uma fonte de renda, e ele tinha a sensação de que a família Wren precisava

desse dinheiro.

— E se pusermos a vala de drenagem ali? — Hopple apontava para o

local onde Jock estava cavando e lançando uma espuma de lama.

Edward grunhiu.

— Ou talvez... — Hopple se virou e quase tropeçou num monte de

detritos. Ele baixou os olhos, indignado, para a bota enlameada. — Foi

prudente o senhor não incluir a Sra. Wren nesta saída.

— Ela está em casa — explicou Edward. — Eu lhe disse para passar o

dia dormindo. O senhor ficou sabendo do parto da Sra. Fairchild ontem à

noite?

— A senhora teve um momento difícil, pelo que entendi. Que milagre a

mãe e a criança estarem bem!

Edward bufou.

— Um milagre, de fato. É uma idiotice um homem deixar a esposa

sozinha com uma criada tão perto da hora do parto.

— Ouvi dizer que o pai estava um bocado aterrorizado esta manhã —

comentou Hopple.

— Não que isso tenha ajudado a esposa dele na noite passada —

comentou Edward secamente. — Seja como for, a Sra. Wren ficou acordada a noite toda com a amiga. Achei razoável que tirasse o dia de folga. Afinal,

ela trabalhou todos os dias, exceto aos domingos, desde que passou a ser

minha secretária.

— Sim, de fato — concordou Hopple. — Exceto os quatro dias em que

o senhor foi para Londres, claro.

Jock desentocou um coelho e começou a persegui-lo.

Edward parou e se virou para o administrador.

— O quê?

— A Sra. Wren não veio trabalhar quando o senhor estava em Londres.

— Hopple engoliu em seco. — A não ser na véspera de sua volta, quero

dizer. Ela trabalhou aquele dia.

— Entendo — disse Edward. Mas ele não entendia.

— Foram apenas quatro dias, milorde. — Hopple se apressou em

explicar. — E ela estava bem adiantada com a papelada, como me falou.

Ela não deixou seu trabalho por fazer.

Edward fitou pensativamente a lama sob seus pés. E se lembrou da

menção que o vigário fizera a uma “viagem” na noite anterior.

— Aonde ela foi?

— Como assim foi, milorde? — Hopple parecia estar embromando. —

Eu, er, não sei se ela foi a algum lugar. Ela não falou.

— O vigário disse que ela fez uma viagem. Ele insinuou que ela foi

fazer compras.

— Talvez ele tenha se enganado — disse Hopple. — Ora, se uma dama

não encontrou o que queria nas lojas de Little Battleford, ela teria que ir a

Londres comprar alguma coisa. Certamente a Sra. Wren não foi tão longe

assim.

Edward grunhiu. Ele voltou a fitar o chão sob seus pés. Só que agora

franzia o cenho. Aonde Anna tinha ido? E por quê?

 

Anna firmou os pés e puxou com toda a força o velho portão do jardim.

Edward lhe dera o dia de folga, mas ela não conseguia dormir tanto assim.

Em vez disso, depois de descansar durante a manhã, ela pensou em usar o

tempo livre da tarde para plantar as roseiras. O portão permaneceu

teimosamente fechado por um momento, então cedeu de repente e se abriu,

e quase fez Anna cair de bunda no chão. Ela limpou as mãos e pegou a

cesta com as ferramentas de jardinagem antes de entrar no jardim

negligenciado. Edward lhe trouxera àquele local havia apenas uma semana. Nesse curto tempo, uma grande mudança ocorrera entre as velhas paredes.

Brotos verdes estavam germinando nos canteiros e entre as rachaduras da

trilha. Alguns obviamente eram ervas daninhas, mas outros tinham um ar

mais refinado. Anna até reconheceu alguns: as pontas avermelhadas das

tulipas, as rosetas de folhas de aquilégias que se abriam e as palmas

salpicadas de orvalho dos pés-de-leão.

Cada planta era um tesouro que ela descobria com prazer. O jardim não

estava morto. Apenas adormecido.

Ela pousou a cesta e saiu novamente pelo portão do jardim para trazer as

roseiras restantes que Edward lhe dera. Já tinha plantado três em seu

pequeno jardim. As roseiras estavam do lado de fora, ainda com a umidade

garantida pelos baldes de água. Minúsculos brotos verdes haviam começado

a germinar em cada uma delas. Ela olhou para eles. As plantas lhe

trouxeram tanta esperança quando Edward a presenteara. E, embora essa

esperança estivesse morta agora, não parecia justo deixar as rosas irem pelo

mesmo caminho. Ela plantaria todas hoje e, se Edward nunca mais voltasse

a visitar o jardim, pelo menos ela saberia que estavam lá.

Anna arrastou as primeiras roseiras para o jardim e as deixou na trilha

enlameada. Ela se empertigou e olhou ao redor em busca de um provável

local para plantá-las. O jardim tivera um desenho no passado, mas agora era

praticamente impossível discernir qual tinha sido. Ela deu de ombros e

decidiu dividir as plantas igualmente entre os quatro canteiros principais de

flores. Pegou a enxada e começou a cortar a confusão de plantas crescidas

do primeiro canteiro.

 

Anna estava no jardim quando Edward a encontrou naquela tarde. Ele

estava irritado. Fazia 15 minutos que a procurava, desde que Hopple o

informara de que ela estava na abadia. Na verdade, ele não deveria de modo

algum tê-la procurado; havia se decidido naquela manhã. Mas alguma coisa

dentro dele parecia fisicamente incapaz de se manter longe da secretária

quando sabia que ela estava por perto. Portanto, Edward franzia o cenho

para a própria falta de firmeza ao avistá-la. Mesmo assim, ele parou no

portão do jardim para admirá-la ali. Anna estava ajoelhada na terra para

plantar uma roseira. Sua cabeça estava descoberta, e o cabelo descia do

coque na parte de trás do pescoço. Sob a luz do sol forte, os cachos

castanhos reluziam dourados e avermelhados.

Edward sentiu um aperto no peito. Pensou que talvez fosse medo. Sua

fisionomia estava sombria quando começou a seguir pela trilha. Medo não

era um sentimento que um homem forte como ele deveria experimentar ao

se confrontar com uma pequena e delicada viúva. Ele tinha certeza disso.

Anna o avistou.

— Milorde. — Ela tirou o cabelo da testa, deixando um rastro de sujeira

para trás. — Pensei em plantar as rosas antes que elas morressem.

— Estou vendo.

Ela lhe deu uma olhadela estranha, mas evidentemente decidiu não fazer

caso do seu humor alterado.

— Vou plantar algumas em cada um dos canteiros, já que o jardim foi

criado em linhas tão simétricas. Mais tarde, se o senhor quiser, poderíamos

cercá-las com lavanda. A Sra. Fairchild tem alguns pés de lavanda

adoráveis na passagem dos fundos, e eu sei que ela adoraria que eu

trouxesse alguns para os seus jardins.

— Hum.

Anna interrompeu o monólogo para afastar novamente o cabelo, sujando

mais a testa.

— Droga! Esqueci de trazer o regador.

Ela franziu o cenho e começou a se levantar, mas ele se antecipou.

— Fique aí. Eu posso pegar água para você.

Edward ignorou o protesto dela e caminhou de volta pela trilha. Ele

alcançou o portão do jardim, mas algo o fez hesitar. Eternamente, ele

refletiria sobre qual impulso o fizera parar. Ele se virou e olhou para trás,

para ela, ainda ajoelhada perto da roseira. Ela estava batendo a terra ao

redor da planta. Enquanto ele observava, Anna ergueu a mão e, com o dedo

mindinho, puxou um cacho de cabelo para trás do ouvido.

Ele congelou.

Todos os sons pararam por um terrível minuto que durou uma

eternidade, conforme o mundo estremecia e desabava ao redor dele. Três

vozes sussurraram, murmuraram, balbuciaram em seu ouvido e então se

amalgamaram numa linguagem coerente.

Hopple na vala: Depois que esse cão sumiu por vários dias, pensei que

estávamos livre dele.

O vigário Jones na soirée da Sra. Clearwater: Eu me perguntava se ela

havia comprado um vestido novo em sua viagem.

E novamente Hopple ainda hoje: A Sra. Wren não veio trabalhar quando

o senhor estava em Londres.

Uma neblina escarlate obscureceu-lhe a visão.

Quando ela clareou, ele estava praticamente em cima de Anna e sabia

que tinha começado a se mover antes mesmo de as vozes se tornarem

compreensíveis. Ela continuava inclinada ao lado da roseira, sem saber da

tempestade que se aproximava até ele parar ao seu lado e ela fitá-lo.

A descoberta de sua mentira devia estar estampada no rosto dele, pois o

sorriso de Anna desapareceu antes de se abrir totalmente.

 

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