O Príncipe Corvo

Elizabeth Hoyt · Capítulo 5 de 26

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O Príncipe Corvo

Capítulo Três

 

“Um príncipe poderoso, um homem que não temia nem Deus nem os

mortais, governava as terras a leste do duque. O príncipe era um homem

cruel e ambicioso. Ele invejava a fertilidade das terras do duque e a

felicidade de seu povo. Um dia, o príncipe reuniu uma força de homens e

arrasou o pequeno ducado, saqueando a terra e seu povo, até que o

exército se encontrou do lado de fora das muralhas do castelo do duque. O velho duque subiu no topo das ameias e contemplou um mar de guerreiros,

que se estendia das pedras de seu castelo até o horizonte. Como ele poderia

derrotar um exército tão poderoso? O duque chorou por seu povo e por

suas filhas, que certamente seriam violentadas e mortas. Mas, quando ele

estava em seu desespero, ouviu um grasnido:

— Não chore, duque. Nem tudo está perdido...”

 

— O Príncipe Corvo

 

Edward parou ao entrar na biblioteca e piscou. Uma mulher estava sentada

à mesa de seu secretário.

Ele conteve um desejo instintivo de dar um passo para trás e checar

novamente a porta. Em vez disso, estreitou os olhos e inspecionou aquela

intrusa. Ela era uma coisinha pequena vestida de marrom, e seu cabelo

estava escondido em um gorro com babados horroroso. Ela mantinha as

costas tão eretas que nem sequer tocavam a cadeira, e se assemelhava a

todas as outras damas da sociedade, mas com parcos meios, a não ser pelo

fato de que estava afagando — afagando, pelo amor de Deus — o

brutamontes do seu cão. A cabeça do animal estava arqueada; a língua

pendia para fora da boca como se ele fosse um idiota apatetado, de olhos

semicerrados, em êxtase.

Edward fez cara feia para ele.

— Quem é você? — perguntou ele, mais rispidamente do que gostaria.

A boca da mulher assumiu uma expressão afetada, atraindo os olhos do

conde para ela. Era a boca mais sexy que ele já vira numa mulher. Era

grande, o lábio superior era mais cheio que o inferior, com um dos cantos

inclinado.

— Eu sou Anna Wren, milorde. Qual é o nome do seu cachorro?

— Eu não sei. — Ele cruzou o recinto, tomando cuidado para não se

mover abruptamente.

— Mas... — A mulher franziu as sobrancelhas. — O cão não é seu?

O homem fitou o cão e pareceu momentaneamente hipnotizado. Os

dedos elegantes dela afagavam o pelo do animal.

— Ele me segue e dorme ao lado da minha cama. — Edward deu de

ombros. — Mas, que eu saiba, não tem nome.

Ele parou diante da escrivaninha de pau-rosa. Ela teria de passar por ele

para escapar do cômodo.

As sobrancelhas de Anna Wren baixaram em desaprovação.

— Mas ele deve ter um nome. Como o senhor o chama?

— Em geral, eu não chamo.

Era uma mulher sem atrativos. Tinha um nariz comprido e fino, olhos

castanhos e cabelo castanho — pelo menos os fios que ele conseguia ver.

Nada nela era extraordinário. Exceto a boca.

A ponta da língua dela umedeceu aquele canto.

Edward sentiu o pênis levantar-se e endurecer, e torceu para que ela não

percebesse e que sua mentalidade virginal não a deixasse chocada. Uma

mulher sem graça, que ele nem conhecia, o deixara excitado.

O cão deve ter ficado cansado daquela conversa e escapou da mão de

Anna Wren, deitando-se, com um suspiro, perto da lareira.

— Você pode dar um nome para ele, se precisar. — Edward deu de

ombros mais uma vez e apoiou as pontas dos dedos da mão direita na mesa.

O olhar avaliador que ela lhe dirigiu despertou uma lembrança. Os olhos

dele se estreitaram.

— Você é a mulher que assustou meu cavalo na estrada, outro dia.

— Sim. — Ela lançou-lhe um olhar de doçura suspeita. — Sinto muito

que o senhor tenha caído do cavalo.

Impertinente.

— Eu não caí. Eu fui derrubado.

— Verdade?

Ele quase retrucou aquela fala, mas ela lhe estendeu um maço de papéis.

— O senhor gostaria de ver o que transcrevi hoje?

— Hum — resmungou ele evasivamente.

Ele retirou os óculos do bolso e os apoiou no nariz. Precisou de um

momento para se concentrar na folha em sua mão, mas, quando o fez,

Edward reconheceu a caligrafia da nova secretária. Na noite anterior, havia

lido as páginas transcritas, e, embora tivesse aprovado o capricho da escrita,

achara curioso que os traços fossem efeminados.

Edward fitou a pequena Anna Wren por cima dos óculos e deu um

muxoxo. Não efeminados. Femininos. O que explicava os comentários

evasivos de Hopple.

Ele leu mais algumas frases antes que outro pensamento o atingisse.

Edward lançou um olhar agudo à mão da mulher e viu que ela não usava

aliança. Rá. Todos os homens das proximidades provavelmente tinham

medo de cortejá-la.

— A senhora é solteira?

Ela pareceu assustada.

— Sou viúva, milorde.

— Ah. — Então ela havia sido cortejada e casada, mas não mais.

Nenhum homem a protegia agora.

Imediatamente após aquele pensamento, ele se achou ridículo por ter

ideias predatórias em relação a uma mulher tão apagada. Exceto por aquela

boca... Ele mudou de posição, pouco à vontade, e trouxe seus pensamentos

de volta à folha que segurava. Não havia borrões nem erros de ortografia

que pudesse ver. Exatamente o que ele teria esperado de uma pequena viúva

morena. Edward sorriu por dentro.

Rá. Um erro. Ele olhou de cara feia para a viúva por cima dos óculos.

— Essa palavra deveria ser composteira, não compostura. A senhora

não consegue ler a minha letra?

A Sra. Wren respirou fundo, como se fortalecesse a própria paciência, o

que fez seu busto farto se expandir.

— Na verdade, milorde, não, nem sempre consigo.

— Humph — resmungou ele, um pouco decepcionado pelo fato de ela

não ter discutido. A mulher provavelmente teria de respirar fundo várias

vezes se estivesse furiosa.

Ele terminou de ler os papéis e os jogou em sua mesa, na qual

deslizaram para o lado. Ela franziu a testa para a pilha torta de papéis e se

inclinou para pegar uma folha que havia flutuado até o chão.

— Seu trabalho parece muito bom. — Edward passou por trás dela. —

Mais tarde vou trabalhar aqui enquanto a senhora termina de transcrever o

manuscrito.

Ele esticou o braço ao redor dela para dar um peteleco num pedaço de

fiapo da mesa. Por um momento, pôde sentir o calor do corpo dela e o leve

odor de rosas que seu calor exalava. Ele a sentiu enrijecer.

O conde se esticou.

— Amanhã vou precisar que a senhora trabalhe comigo nas questões

relativas à propriedade. Espero que isso seja possível.

— Sim, claro, milorde.

Edward sentiu que ela se contorcia para vê-lo, mas ele já estava indo na

direção da porta.

— Muito bem. Tenho negócios para resolver antes de começar meu

trabalho aqui.

Ele fez uma pausa quando chegou à porta.

— Ah, Sra. Wren?

Ela ergueu as sobrancelhas.

— Sim, milorde?

— Não deixe a abadia antes do meu retorno. — Edward seguiu para o

corredor, determinado a encontrar e interrogar o administrador.

 

Na biblioteca, Anna estreitou os olhos para as costas do conde. Que homem

autoritário! Até de costas ele parecia arrogante, com os ombros largos muito

retos e a cabeça inclinada de modo imperioso.

Ela considerou as últimas palavras dele e se virou, com a testa franzida,

confusa, para o cão esparramado diante da lareira.

— Por que ele pensa que vou embora?

O mastim abriu um dos olhos, mas parecia saber que era uma pergunta

retórica e o fechou de novo. Anna suspirou e balançou a cabeça; em

seguida, retirou uma folha de papel não usada da pilha. Afinal de contas, ela

era secretária dele; tinha de aprender a suportar aquele conde orgulhoso. E,

sem dúvida, sempre manter seus pensamentos apenas para si.

Três horas depois, Anna praticamente havia acabado de transcrever as

páginas e sentia cãibra no ombro por causa do esforço. O conde ainda não

havia retornado, apesar da ameaça. Ela suspirou e flexionou a mão direita;

em seguida, parou. Talvez devesse caminhar pelo cômodo. O cão ergueu o

olhar e se levantou para acompanhá-la. Preguiçosamente, ela passou os dedos ao longo de uma prateleira de livros. Eram tomos de um tamanho

maior do que o normal, exemplares de geografia, a julgar pelos títulos nas

lombadas. Os livros por certo eram maiores do que aquele com

encadernação vermelha que ela vira na semana anterior. Anna parou, não

tivera coragem de examinar o pequeno exemplar desde que fora

interrompida pela criada, mas agora a curiosidade a levava para a prateleira

perto da campainha.

Lá estava, aninhado junto aos companheiros mais altos, exatamente

como ela o havia deixado. O livro fino e vermelho parecia chamá-la. Anna

o pegou e abriu na página que trazia o título. As letras impressas eram

ornamentadas e difíceis de ler: O Príncipe Corvo. Não se via o nome do

autor. Ela ergueu as sobrancelhas e folheou algumas páginas até chegar à

ilustração de um gigantesco corvo negro, muito maior do que os pássaros

comuns. Ele estava parado sobre uma muralha de pedra ao lado de um

homem de barba branca e comprida e com uma expressão cansada. Anna

franziu o cenho. A cabeça do corvo estava inclinada, como se ele soubesse

algo que o velho não sabia, e seu bico estava aberto, como se pudesse...

— O que a senhora tem aí?

A voz grave do conde a assustou de tal forma que Anna deixou o livro

cair. Como um homem tão grande se movia tão silenciosamente? Ele

cruzou o tapete, sem se importar com a trilha de lama que deixava para trás,

e pegou o livro aos pés dela. Seu rosto ficou impassível ao ver a capa. Ela

não podia dizer o que ele estava pensando.

Então, o conde ergueu o olhar.

— Pensei em pedir o chá — disse ele, prosaicamente. E tocou a

campainha.

O grande cão empurrou o focinho na mão livre do dono. Lorde

Swartingham esfregou a cabeça do animal, deu meia-volta e guardou o livro

na gaveta de sua mesa.

Anna pigarreou.

— Eu estava apenas olhando. Espero que o senhor não se importe...

Mas o conde fez um gesto com a mão para que ela se calasse quando

uma criada apareceu na porta e ele ordenou:

— Bitsy, peça à cozinheira que arrume uma bandeja com um pouco de

pão, chá e o que mais ela tiver. — Ele olhou para Anna, aparentemente

depois de pensar mais um pouco. — Veja se ela tem algum bolo ou biscoito,

está bem?

Ele não havia perguntado se Anna gostava de doces, mas, por sorte, ela

gostava. A criada fez que sim com a cabeça e se apressou em sair do

recinto.

Anna comprimiu os lábios.

— Eu realmente não pretendia...

— Não tem problema — interrompeu ele. O conde estava sentado à

mesa, pegando tinta e penas de maneira aleatória. — Pode dar uma olhada,

se quiser. Todos esses livros deveriam ter alguma serventia. Embora eu

tenha minhas dúvidas de que exista alguma coisa interessante neles. Em

geral, histórias entediantes, se me lembro bem, ainda por cima, devem estar

mofados.

Ele parou e examinou uma folha que estava sobre a mesa. Anna abriu a

boca para tentar se explicar novamente, mas se distraiu ao notar que o

conde acariciava a pena enquanto lia. Suas mãos eram grandes e

bronzeadas, mais do que as mãos de um cavaleiro deveriam ser. Pelos

negros cresciam no dorso. E a ideia de que provavelmente ele tinha pelos

no peito também surgiu em sua mente. Ela se esticou e pigarreou.

O conde ergueu o olhar.

— O senhor acha que Duque é um bom nome? — quis saber ela.

O rosto de Lorde Swartingham ficou inexpressivo por um segundo antes

de ele entender o que ela perguntava. Ele considerou a resposta enquanto

fitava o cachorro.

— Acho que não. Ele seria hierarquicamente superior a mim.

A chegada de três criadas carregando pesadas bandejas salvou Anna de

ter que responder. Elas arrumaram o serviço de chá numa mesa perto da

janela e então se retiraram. O conde fez um gesto, apontando para o canapé

num dos lados, ao mesmo tempo que se sentava numa cadeira, no outro.

— Devo servir? — perguntou Anna.

— Por favor. — Ele assentiu com a cabeça.

Anna serviu o chá. Acreditou sentir o conde observando-a enquanto ela

prosseguia com o ritual, mas, ao erguer os olhos, viu que ele fitava a própria

xícara. A quantidade de comida era intimidadora. Havia pão e manteiga,

três geleias diferentes, presunto frio fatiado, torta de pombo, um pouco de

queijo, dois pudins diferentes, pequenos bolos com cobertura e frutas secas.

Ela serviu um prato para o conde com um pouco de cada coisa, lembrando-

se de como os homens podiam ficar famintos após se exercitarem; em

seguida, escolheu alguns poucos pedaços de fruta e um bolo para si mesma. Pelo visto, o conde não gostava de conversar durante a refeição e,

metodicamente, devorou a comida em seu prato.

Anna o observou enquanto beliscava o bolo de limão.

Ele se espreguiçou na cadeira, com uma perna dobrada sobre o joelho, a

outra com a metade esticada debaixo da mesa. Os olhos dela

acompanharam toda a extensão das botas de montaria salpicadas de lama e

das coxas musculosas até o quadril esbelto, por cima da barriga lisa até o

peito que se alargava e os ombros muito largos para um homem tão magro.

Seu olhar foi direto para o rosto dele. Os olhos escuros brilharam para ela.

Ela corou e pigarreou.

— O seu cão é tão... — Ela fitou o animal feio. — incomum. Acho que

nunca vi um cachorro assim. Onde o senhor o conseguiu?

Ele bufou.

— A pergunta deveria ser “onde ele me conseguiu?”.

— Como assim?

O conde suspirou e se remexeu na cadeira.

— Ele apareceu numa noite, um ano atrás, do lado de fora da minha

propriedade ao norte de Yorkshire. Eu o encontrei na estrada. Ele estava

muito magro, com mordidas de pulgas, e tinha uma corda enrolada no

pescoço e nas patas dianteiras. Eu cortei a corda, e o maldito animal me

seguiu até em casa. — Lorde Swartingham fez cara feia para o cão ao lado

da cadeira.

O animal balançou o rabo alegremente. O conde jogou um pedaço de

massa da torta, que o cão abocanhou no ar.

— Desde então, não consigo me livrar dele.

Anna apertou os lábios para disfarçar um sorriso. Quando ergueu os

olhos, achou que o conde estava fitando sua boca. Ai, meu Deus! Será que

tinha glacê no rosto? Ela rapidamente limpou os lábios com um dedo.

— Ele deve ser muito leal depois de o senhor tê-lo resgatado.

Edward resmungou.

— É mais provável que ele seja leal aos restos de comida que ganha

aqui. — O conde ergueu-se abruptamente e tocou a campainha para que as

coisas fossem retiradas. O cão seguiu seus passos. Ao que tudo indicava, o

chá tinha acabado.

O restante do dia transcorreu de forma agradável.

O conde não era um escritor silencioso. Ele resmungava para si mesmo e

passava a mão pelo cabelo até as mechas saírem do lugar e caírem em desalinho em torno das bochechas. Algumas vezes, ele se erguia de um

salto e caminhava pelo cômodo antes de retornar à mesa e escrever

furiosamente. O cão parecia acostumado ao estilo do conde e roncava perto

da lareira, sem cerimônia.

Quando o relógio do corredor bateu cinco horas, Anna começou a

arrumar a cesta.

O conde franziu o cenho.

— A senhora já está indo?

Anna parou.

— Já são cinco horas, milorde.

Ele pareceu surpreso, então olhou para o lado de fora através das janelas

escurecidas.

— É verdade.

Lorde Swartingham se pôs de pé e esperou até que ela terminasse, e

então a acompanhou até a porta. Anna estava muito consciente da presença

dele ao seu lado enquanto caminhavam pelo corredor. A cabeça dela não

chegava nem à altura do seu ombro, recordando-a de como ele era grande.

O conde fez cara feia quando viu a entrada das carruagens vazia do lado

de fora.

— Onde está a sua carruagem?

— Eu não tenho uma — respondeu ela, um tanto sarcasticamente. —

Vim caminhando da aldeia.

— Ah, claro — disse ele. — Espere aqui. Vou pedir que tragam a minha

carruagem.

Anna começou a protestar, mas ele desceu os degraus correndo e foi

para os estábulos, deixando-a na companhia do cão. O animal resmungou e

se sentou. Ela afagou suas orelhas. Os dois esperaram em silêncio, ouvindo

o vento balançar a copa das árvores. O cão subitamente esticou as orelhas e

se pôs de pé.

A carruagem dobrou a esquina com um estrondo e parou diante dos

degraus principais. O conde desceu e segurou a porta para Anna. Ansioso, o

mastim desceu os degraus na frente dela.

Lorde Swartingham franziu o cenho para o animal.

— Você, não.

O cão baixou a cabeça e ficou parado ao lado do dono. Anna pôs a mão

enluvada na mão do conde quando ele a ajudou a subir na carruagem. Por um momento, dedos masculinos e fortes apertaram os dela; então, eles os

soltaram para que ela se sentasse no banco de couro vermelho.

O conde se inclinou para dentro da carruagem.

— Você não precisa trazer almoço amanhã. Vai fazer a refeição comigo.

Ele fez um sinal para o cocheiro antes que ela pudesse lhe agradecer, e a

carruagem balançou e partiu. Anna esticou o pescoço e olhou para trás. O

conde ainda estava parado diante dos degraus com o imenso cão. Por

alguma razão, aquela visão a encheu de uma solidão melancólica. Anna

balançou a cabeça e virou-se para a frente, censurando a si mesma. O conde

não precisava de sua compaixão.

 

Edward observou a carruagem fazer uma curva. Ele tinha a inquietante

sensação de que não deveria perder a pequena viúva de vista. Sua presença

ao lado dele na biblioteca naquela tarde fora estranhamente tranquilizadora.

Ele riu de si mesmo. Anna Wren não era para ele. Ela era de uma classe

diferente e, além do mais, era uma respeitável viúva da aldeia. Não se

tratava de uma dama sofisticada da sociedade que poderia considerar um

caso fora do matrimônio.

— Venha. — Ele bateu na própria coxa, chamando seu cão.

O animal o seguiu de volta à biblioteca. O cômodo estava frio e

tristonho novamente. Por alguma razão, ele parecera mais acolhedor quando

a Sra. Wren estava sentada ali. Ele passou por trás da escrivaninha de pau-

rosa e notou um lenço no chão. Era branco, com flores bordadas num dos

cantos. Violetas, talvez. Era difícil dizer, pois estavam um pouco tortas.

Edward levou o tecido ao rosto e inspirou seu perfume. Tinha cheiro de

rosas.

Ele apertou o lenço e foi até as janelas escuras. A viagem para Londres

tinha sido boa. Sir Richard Gerard havia aceitado a corte para a filha.

Gerard era apenas um baronete, mas sua família era antiga e confiável. A

mãe dera à luz sete filhos, e cinco haviam chegado à idade adulta. Além

disso, Gerard possuía uma pequena propriedade fronteiriça à dele no norte

de Yorkshire. O homem hesitara em acrescentar a terra ao dote da filha mais

velha, mas Edward tinha certeza de que, no tempo certo, ele mudaria de

ideia. Afinal, Gerard ganharia um conde como genro. Ele havia tirado a

sorte grande. E quanto à garota...

Os pensamentos de Edward foram interrompidos, e, por um terrível

momento, ele não conseguiu se lembrar do nome dela. Então veio à sua mente: Sylvia. Claro, Sylvia. Ele não havia passado muito tempo a sós com

ela, mas se certificara de que o casamento lhe agradava. Ele lhe perguntara

diretamente se as cicatrizes de varíola lhe provocavam alguma sensação

desagradável. Ela dissera que não. Edward fechou a mão num punho. Será

que ela dissera a verdade? Outras haviam mentido sobre as cicatrizes, ele já

havia sido enganado no passado. A garota podia muito bem estar lhe

dizendo o que ele queria ouvir, e o conde não descobriria seu desprezo até

ser tarde demais. Mas que alternativa ele tinha? Permanecer solteiro e sem

filhos pelo resto da vida por medo de uma possível mentira? Esse destino

era impensável.

Edward passou um dedo pela face e sentiu o linho macio contra a pele.

Ele ainda segurava o lenço. Fitou-o por um momento, esfregando o tecido

com o polegar; então dobrou o pano com cuidado e o colocou sobre a mesa.

Ele saiu do cômodo, e o cão o acompanhou.

 

A chegada de Anna numa grande carruagem causou agitação na casa da

família Wren. Ela conseguiu ver o rosto pálido de Fanny espiando através

das cortinas da sala de estar quando o cocheiro parou os cavalos do lado de

fora do chalé. Ela esperou que o lacaio baixasse os degraus e então desceu

da carruagem, constrangida.

— Obrigada. — Ela sorriu para o jovem lacaio. — E agradeço ao senhor

também, John Cocheiro. Desculpe por dar tanto trabalho.

— Não foi trabalho algum, senhora. — O cocheiro tocou as pontas dos

dedos na aba do chapéu redondo. — Ficamos felizes por trazê-la até sua

casa em segurança.

O lacaio pulou na parte de trás da carruagem, e, com um aceno para

Anna, John Cocheiro estalou a língua e fez os cavalos andarem. A

carruagem mal se afastara quando Mãe Wren e Fanny saíram correndo da

casa para bombardeá-la com perguntas.

— O conde me mandou para casa em sua carruagem — explicou Anna

enquanto abria caminho para dentro de casa.

— Meu Deus, que homem gentil! — exclamou a sogra.

Anna pensou no modo como o conde lhe ordenara que voltasse de

carruagem.

— Bastante. — Ela retirou o xale e o gorro.

— Então você conheceu o conde em pessoa, senhorinha? — perguntou

Fanny.

Anna sorriu para a garota e acenou com a cabeça.

— Eu nunca vi um conde, senhorinha. Como ele é?

— Ele é apenas um homem como outro qualquer — retrucou Anna.

Mas ela não tinha tanta certeza das próprias palavras. Se o conde era

como qualquer outro homem, então por que ela sentia a estranha vontade de

fazê-lo discutir? Nenhum dos outros homens que ela conhecia a deixava

com vontade de desafiá-los.

— Ouvi dizer que ele tem cicatrizes horríveis no rosto por causa da

varíola.

— Fanny, querida — exclamou Mãe Wren —, nosso interior é mais

importante que nossa casca.

Todas elas refletiram sobre isso por um instante. Fanny franzia a

sobrancelha enquanto pensava sobre o assunto.

Mãe Wren pigarreou.

— Ouvi dizer que as cicatrizes cruzam a metade superior do rosto dele.

Anna disfarçou um sorriso.

— O conde tem, sim, cicatrizes de varíola no rosto, mas não são muito

perceptíveis, na verdade. Além disso, ele tem uma bela cabeleira escura e

grossa e lindos olhos escuros, e sua voz é muito atraente, bonita até,

especialmente quando ele fala baixo. E é muito alto, tem ombros

musculosos e largos. — Ela parou abruptamente.

Mãe Wren a fitou de maneira estranha.

Anna tirou as luvas.

— O jantar está pronto?

— Jantar? Ah, sim. O jantar deve estar pronto. — Mãe Wren enxotou

Fanny para a cozinha. — Temos pudding e uma deliciosa galinha assada

que Fanny conseguiu por um bom preço na fazenda da família Brown. Ela

tem praticado seus talentos de barganha, sabe? Pensamos que seria bom

fazer uma surpresa para comemorar o seu emprego.

— Que beleza! — Anna subiu os degraus. — Vou lavar as mãos.

Mãe Wren tocou seu braço.

— Você tem certeza do que está fazendo, querida? — perguntou ela em

voz baixa. — Algumas vezes, damas de certa idade arrumam, bem, umas

ideias sobre cavalheiros. — Ela fez uma pausa e falou, apressada: — Ele

não é da nossa classe, sabe? Isso causaria apenas dor.

Anna baixou os olhos para a mão frágil e idosa em seu braço. Então,

deliberadamente, sorriu e ergueu o olhar.

— Eu sei muito bem que qualquer ato de natureza pessoal entre mim e o

Lorde Swartingham seria impróprio. Não precisa se preocupar.

A mulher idosa olhou nos olhos dela por mais um momento antes de

afagar o braço da nora.

— Não demore muito, querida. Nós ainda não queimamos o jantar.

 

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