O Príncipe Corvo

Elizabeth Hoyt · Capítulo 19 de 26

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O Príncipe Corvo

Capítulo Dezessete

 

“O homem em sua cama encarou Aurea e então falou em voz baixa. Com

tristeza.

— Ora, minha esposa, você não podia deixar as coisas como estavam. Vou

saciar a sua curiosidade então. Sou o príncipe Niger, o senhor destas terras

e deste palácio. Fui amaldiçoado a assumir a forma daquele corvo feio

durante o dia enquanto todos os meus servos se tornam aves também. Meu algoz fez uma advertência junto com o feitiço: se eu conseguisse encontrar

uma dama que concordasse por vontade própria em se casar comigo na

forma de corvo, então eu poderia viver como um homem da meia-noite ao

primeiro brilho da aurora. Você foi essa dama. Mas, agora, nosso tempo

juntos está no fim. Passarei o restante de meus dias nesta odiosa forma com

penas, e todos os que me seguem também estão condenados...”

 

— O Príncipe Corvo

 

Na manhã seguinte, Felix Hopple mudou o peso do corpo de um pé para o

outro, suspirou e voltou a bater à porta do chalé. Ele mexeu na peruca

recém-empoada para endireitá-la e passou uma das mãos na gravata. Nunca

estivera numa missão como esta antes. Na verdade, nem sabia ao certo se

seu trabalho realmente daria frutos. Claro, era impossível dizer isso para

Lorde Swartingham. Sobretudo quando ele o encarava com aqueles olhos

escuros, furiosos e diabólicos.

Ele suspirou novamente. O humor de seu patrão havia estado bem pior

do que o normal na última semana. Pouquíssimos bibelôs permaneciam

intactos na biblioteca, e até o cão passara a se esconder quando o conde

caminhava pela abadia.

Uma mulher bonita abriu a porta.

Felix piscou e deu um passo para trás. Será que estava na casa certa?

— Pois não? — A mulher alisou a saia e sorriu cautelosamente para ele.

— Er, e-eu estava procurando a Sra. Wren — gaguejou Felix. — A Sra.

Wren mais nova. Será que estou no endereço correto?

— Ah, sim, este é o endereço correto — disse ela. — Quero dizer, este é

o chalé das Wrens. Estou apenas hospedada aqui.

— Ah, entendi, Srta....?

— Smythe. Pearl Smythe. — Por alguma razão, a mulher corou. — O

senhor não quer entrar?

— Obrigado, Srta. Smythe. — Felix entrou no minúsculo vestíbulo e

ficou parado ali, sem graça.

A Srta. Smythe olhava para ele, aparentemente hipnotizada pelo seu

tronco.

— Nossa! — disse ela bruscamente. — Esse é o colete mais bonito que

eu já vi.

— Ora, er, ora, obrigado, Srta. Smythe. — Ele cutucou os botões do

colete verde-folha.

— São zangões? — A Srta. Smythe se inclinou para examinar mais de

perto o bordado roxo, oferecendo-lhe uma visão bastante inapropriada da

frente de seu vestido.

Nenhum cavalheiro de verdade se aproveitaria da exposição acidental de

uma dama. Felix olhou para o teto, para o topo da cabeça da mulher e,

finalmente, para o vestido. Ele piscou rapidamente.

— Não é incrível? — comentou ela, ficando novamente ereta. — Não

creio que já tenha visto uma coisa tão bonita num cavalheiro antes.

— O quê? — Ele ofegou. — Er, sim. Bastante. Obrigado novamente,

Srta. Smythe. É raro encontrar uma pessoa de tão fina sensibilidade em

relação à moda.

A Srta. Smythe pareceu um pouco confusa, mas sorriu para ele.

Felix não pôde deixar de notar que ela era adorável. Em todos os

aspectos.

— O senhor disse que veio procurar a Sra. Wren. Por que não espera ali

— ela fez um gesto para uma pequena sala de estar — enquanto eu vou

chamá-la no jardim?

Felix entrou no pequeno cômodo. Ele ouviu os passos da bela mulher se

retirando e a porta dos fundos sendo fechada. Foi até a cornija e olhou para

o pequeno relógio de porcelana. Ele franziu a testa e verificou o próprio

relógio de bolso. O relógio da casa estava adiantado.

A porta dos fundos se abriu novamente, e a Sra. Wren entrou.

— Sr. Hopple, em que posso ajudar?

Ela estava ocupada limpando a terra do jardim de suas mãos e não olhou

nos olhos dele.

— Eu vim por causa de, er, uma missão do conde.

— Verdade? — A Sra. Wren continuou sem erguer o olhar.

— Sim. — Ele não sabia como continuar. — A senhora não vai se

sentar?

A Sra. Wren olhou para ele, confusa, e sentou-se.

Felix pigarreou.

— Chega um momento na vida de um homem em que os ventos da

aventura se extinguem, e ele sente a necessidade de descanso e conforto. A

necessidade de abandonar os modos imprudentes da juventude, ou, neste

caso, do início da vida adulta, e se estabilizar com a tranquilidade do lar. —

Ele fez uma pausa para ver se suas palavras haviam sido assimiladas.

— Sim, Sr. Hopple? — A Sra. Wren pareceu ainda mais confusa do que

antes.

Mentalmente, ele reuniu coragem e seguiu em frente.

— Sim, Sra. Wren. Todo homem, até mesmo um conde — nesse ponto,

ele fez uma pausa para enfatizar o título —, até um conde precisa de um

local de calma e repouso. Um santuário cuidado pela mão gentil de uma

mulher. Uma mão guiada e conduzida pela mão masculina e mais forte de

um, er, guardião, de tal modo que ambos possam resistir às tempestades e

aos labores que a vida nos traz.

A Sra. Wren o encarou com a expressão confusa.

Felix começou a se desesperar.

— Todo homem, todo conde, precisa de um lugar de conforto para o

himeneu.

Ela franziu a sobrancelha.

— Himeneu?

— Sim. — Ele enxugou a testa. — Himeneu. O vínculo matrimonial?

Ela piscou.

— Sr. Hopple, por que o conde o mandou aqui?

Felix soltou a respiração de uma vez.

— Ah, meu Deus, Sra. Wren! Ele quer se casar com a senhora.

Anna ficou completamente pálida.

— O quê?

Felix gemeu. Ele sabia que iria se atrapalhar com isso. Na verdade,

Lorde Swartingham estava pedindo muito. Ele era apenas um administrador

de terras, pelo amor de Deus, não um cupido com arco e flechas de ouro!

Não havia outra opção agora a não ser terminar com aquilo de qualquer

jeito.

— Edward de Raaf, o conde de Swartingham, está pedindo sua mão em

casamento. Ele gostaria de um breve noivado e está pensando em...

— Não.

— Primeiro de junho. O-o que a senhora disse?

— Eu disse não. — A Sra. Wren falava pausadamente. — Diga-lhe que

sinto muito. Sinto muito. Mas não há meio possível de eu me casar com ele.

— M-ma-mas... — Felix respirou fundo para acalmar a gagueira. —

Mas ele é um conde. Eu sei que seu humor é um tanto desagradável, na

verdade, e que o homem passa um bocado de tempo na lama. Coisa — o

administrador estremeceu — que ele parece realmente gostar. Mas seu título

e sua considerável, para não dizer obscena, riqueza compensam isso, a

senhora não acha?

Felix não conseguia respirar e teve de se interromper.

— Não. Eu não acho. — Anna caminhou até a porta. — Apenas diga a

ele que não.

— Mas, Sra. Wren! Como eu vou encará-lo?

Ela fechou a porta gentilmente atrás de si, e o grito desesperado de Felix

ecoou no cômodo vazio. Ele desabou numa cadeira e desejou uma garrafa

inteira de vinho Madeira. Lorde Swartingham não iria gostar daquilo.

 

Anna enfiou a espátula de jardinagem na terra fofa e avidamente

desenterrou um dente-de-leão. No que Edward estava pensando ao mandar

o Sr. Hopple pedi-la em casamento naquela manhã? Obviamente, ele não

fora dominado pelo amor. Ela bufou e atacou outro dente-de-leão.

A porta dos fundos do chalé foi aberta. Ela se virou e franziu as

sobrancelhas. Coral estava arrastando um dos bancos da cozinha para o

jardim.

— O que você está fazendo do lado de fora? — quis saber Anna. —

Pearl e eu tivemos que carregar você escada acima até o meu quarto de

manhã.

Coral se sentou no banco.

— Dizem que o ar do campo cura, não dizem?

O inchaço em seu rosto diminuíra um pouco, mas os hematomas ainda

eram visíveis. Pearl havia envolvido suas narinas com emplastro, numa

tentativa de tratar a fratura. Agora, elas estavam grotescamente abertas. A

pálpebra esquerda estava mais baixa que a direita, e Anna se perguntou se

ela voltaria ao normal com o tempo ou se o rosto de Coral ficaria

desfigurado para sempre. Via-se uma pequena cicatriz em forma de

crescente abaixo do olho caído.

— Acho que eu deveria lhe agradecer. — Coral encostou a cabeça na

parede do chalé e fechou os olhos, como se desfrutasse da luz do sol no

rosto machucado.

— É o que as pessoas costumam fazer — retrucou Anna.

— Isso não é comum para mim. Eu não gosto de estar em dívida com

outras pessoas.

— Então não pense que é uma dívida — resmungou Anna enquanto

arrancava uma erva daninha. — Considere um presente.

— Um presente — refletiu Coral. — Na minha experiência, presentes

normalmente têm que ser pagos de um modo ou de outro. Mas talvez com a

senhora realmente não seja assim. Obrigada.

Coral suspirou e mudou de posição. Embora não tivesse ossos

quebrados, havia hematomas por todo o corpo. Ela ainda devia estar com

bastante dor.

— Eu valorizo o respeito das mulheres mais do que o dos homens —

emendou Coral. — É muito mais raro, sobretudo na minha profissão. Foi

uma mulher que fez isto comigo.

— O quê? — Anna estava horrorizada. — Eu pensei que o marquês...

A outra mulher fez um som de desdém.

— Ele foi o instrumento dela. A Sra. Lavender lhe disse que eu estava

entretendo outros homens.

— Mas por quê?

— Ela queria a minha posição como amante dele. E nós duas temos uma

rixa. — Coral gesticulou com a mão. — Mas isso não importa. Cuido dela

quando estiver bem. Por que não está trabalhando na abadia hoje? É onde a

senhora passa a maior parte do dia, não é?

Anna franziu a sobrancelha.

— Decidi que não vou mais voltar lá.

— A senhora brigou com o seu homem? — perguntou Coral.

— Como...?

— Foi ele com quem a senhora se encontrou em Londres, não foi?

Edward de Raaf, o conde de Swartingham?

— Sim, foi com ele que me encontrei — suspirou ela. — Mas ele não é

meu homem.

— Pelo que observo das mulheres de sua classe social, damas de

princípios não vão para a cama com um homem a menos que o coração

mande. — A boca de Coral formou um sorriso torto e irônico. — Elas

colocam um bocado de sentimentalismo nesse ato.

Anna levou um tempo desnecessariamente longo para encontrar outra

raiz com a ponta da espátula.

— Talvez você tenha razão. Talvez eu tenha colocado um bocado de

sentimentalismo no ato. Mas isso não tem mais importância agora. — Ela

forçou o cabo da espátula, e o dente-de-leão se desprendeu do solo. — Nós

discutimos.

Coral a observou com olhos apertados por um momento e então deu de

ombros e voltou a fechar as pálpebras.

— Ele descobriu que era a senhora...

Anna ergueu o olhar, assustada.

— Como você...

— E agora imagino que a senhora vai aceitar docilmente a reprovação

dele — emendou Coral sem fazer qualquer pausa. — A senhora vai

esconder sua vergonha atrás da fachada de viúva respeitável. Talvez possa

tricotar meias para os pobres da aldeia. Seus trabalhos certamente vão

confortá-la quando ele se casar daqui a alguns anos e for para a cama com

outra mulher.

— Ele me pediu em casamento.

Coral abriu os olhos.

— Isso é interessante. — Ela olhou para a pilha crescente de dentes-de-

leão murchos. — Mas a senhora recusou.

Pá!

Anna começou a cortar a pilha de dentes-de-leão.

— Ele acha que eu sou uma mulher lasciva.

Pá!

— Que sou estéril e ele quer filhos.

Pá!

— E ele não me quer.

Pá! Pá! Pá!

Anna parou e olhou para o crescente monte de ervas daninhas cortadas.

— Não quer? — murmurou Coral. — E quanto à senhora? A senhora,

hum, o quer?

Anna sentiu o calor tomar conta de suas bochechas.

— Fiquei anos sem um homem. Posso ficar sozinha novamente.

Um sorriso passou pelo rosto de Coral.

— A senhora já percebeu que, depois de provar certos doces, pavê de

framboesa é o meu problema, é impossível não pensar, não querer, não

desejar comer outro bocado?

— Lorde Swartingham não é um pavê de framboesa.

— Não. Ele está mais para uma musse de chocolate amargo, creio —

murmurou Coral.

— E — emendou Anna, como se ela não tivesse ouvido a interrupção —

eu não preciso de outro bocado, hum, de outra noite com ele.

Uma visão da segunda noite passou diante de seus olhos: Edward com o

tronco nu, a calça aberta, deitado na cadeira diante do fogo como um paxá.

Sua pele e seu pênis reluziam sob o fogo da lareira.

Anna engoliu em seco. Sua boca estava aguando.

— Posso viver sem Lorde Swartingham — declarou com firmeza.

Coral ergueu uma sobrancelha.

— Eu posso! Além disso, você não estava lá. — Anna subitamente se

sentiu tão murcha quanto os dentes-de-leão. — Ele estava tão zangado.

Falou coisas horríveis para mim.

— Ah — disse Coral. — Ele está inseguro em relação à senhora.

— Não vejo por que isso deveria deixá-la feliz — falou Anna. — E, de

qualquer forma, é muito mais do que isso. Ele nunca vai me perdoar.

Coral sorriu como um gato que observa um pardal saltitando por perto.

— Talvez sim. Talvez não.

 

— O que a senhora quer dizer com não vai se casar comigo? — Edward

caminhou da prateleira de raridades numa extremidade da pequena sala de

estar até o canapé na outra, girou e voltou novamente. Não era um grande

feito, pois ele conseguia cruzar o cômodo inteiro com três passos. — Eu sou

um conde, droga!

Anna olhou para ele de cara feia. Ela nunca deveria ter permitido que ele

entrasse no chalé. É claro que ela não tinha muita opção naquele momento,

pois o conde havia ameaçado arrombar a porta se ela não a abrisse.

E ele parecia capaz de fazer isso.

— Eu não vou me casar com o senhor — repetiu ela.

— Por que não? A senhora estava disposta o suficiente para foder

comigo.

Anna se encolheu.

— Eu gostaria que o senhor parasse de usar essa palavra.

Edward deu meia-volta e assumiu uma expressão grotescamente irônica.

— A senhora prefere copular? Trepar? Transar?

Ela comprimiu os lábios. Graças a Deus Mãe Wren e Fanny haviam

saído para fazer compras naquela manhã. Edward não fazia o menor esforço

para abaixar a voz.

— O senhor não quer se casar comigo — disse Anna pacientemente,

pronunciando cada palavra como se falasse para um idiota surdo da aldeia.

— A questão não é se eu quero ou não, como a senhora bem sabe —

disse Edward. — O fato é que devemos nos casar.

— Por quê? — Ela soltou a respiração. — Não há possibilidade de um

filho. Como o senhor deixou absolutamente claro, sabe que sou estéril.

— Eu a comprometi.

— Eu fui ao Grotto de Aphrodite disfarçada. Me parece que eu

comprometi o senhor. — Anna achou admirável que não estivesse agitando

os braços no ar, exasperada.

— Isso é ridículo! — O grito de Edward provavelmente poderia ser

ouvido da abadia.

Por que os homens acham que dizer algo em tom de voz mais alto o

torna verdadeiro?

— Nada mais ridículo do que um conde que já está noivo pedir em

casamento a própria secretária! — Agora era a voz de Anna que se elevava.

— Não estou lhe pedindo em casamento. Estou lhe dizendo que nós

devemos nos casar.

— Não. — Anna cruzou os braços.

Edward cruzou a sala na direção dela, cada passo com a intenção de ser

intimidador. Ele não parou até seu peito estar a centímetros do rosto de

Anna. Ela esticou o pescoço para olhar em seus olhos; ela não iria se afastar

dele.

Ele se inclinou até seu hálito roçar a testa de Anna intimamente.

— A senhora vai se casar comigo.

Ele tinha cheiro de café. Anna baixou os olhos para a boca do conde.

Mesmo com raiva, era irritantemente sexy. Ela recuou um passo e virou-lhe

as costas.

— Não vou me casar com o senhor.

Anna podia ouvi-lo respirar pesadamente atrás dela. Ela espiou por cima

do ombro.

Edward olhava pensativamente para as nádegas dela.

Seus olhos se ergueram rapidamente.

— A senhora vai se casar comigo. — Ele estendeu a mão quando ela

começou a falar. — Mas eu vou parar de discutir sobre a data por enquanto.

Nesse meio-tempo, ainda preciso de uma secretária. Quero a senhora na

abadia hoje à tarde.

— Eu acho... — Anna teve que se interromper para firmar a voz — Eu

acho que, à luz de nosso relacionamento passado, não devo continuar

trabalhando como sua secretária.

Os olhos de Edward se estreitaram.

— Corrija-me se eu estiver errado, Sra. Wren, mas não foi a senhora que

iniciou esse relacionamento? Sendo assim...

— Eu disse que sinto muito!

Ele ignorou a explosão dela.

— Sendo assim, não vejo por que eu deveria sofrer a perda de uma

secretária apenas por causa do seu desconforto, se esse é o problema.

— Sim, esse é o problema! — Desconforto nem começaria a descrever a

agonia que seria continuar agindo como antes. Anna respirou fundo para

tomar coragem. — Não posso voltar.

— Bem — disse Edward baixinho —, temo que eu não possa pagar seu

salário até o presente momento.

— Isso é... — Anna não conseguia falar, horrorizada.

A família Wren contava com o dinheiro que seria pago no fim do mês. A

tal ponto que elas já haviam acumulado alguns pequenos débitos nas lojas

locais. Já era muito ruim não ter um emprego. Se ela não pudesse ter o

salário que já havia garantido como secretária de Edward, as consequências

seriam desastrosas.

— Sim? — quis saber Edward.

— Isso é injusto! — explodiu Anna.

— Ora, meu coração, o que foi que lhe deu a ideia de que eu jogaria

limpo? — Ele deu um sorriso para ela.

— O senhor não pode fazer isso!

— Sim, eu posso. Estou lhe dizendo que sou um conde, mas isso não

parece ter sido assimilado pela senhora ainda. — Edward apoiou um punho

sob o queixo. — Claro, se a senhora voltar para o trabalho, seu salário será

pago integralmente.

Anna fechou a boca e respirou pesadamente pelo nariz por algum tempo.

— Ótimo. Eu vou voltar. Mas quero ser paga no fim da semana —

exigiu ela. — De todas as semanas.

Ele deu uma risada.

— A senhora é muito desconfiada.

Edward se inclinou e, pegando a mão de Anna, beijou-lhe as costas. Em

seguida, ele virou a mão dela e rapidamente encostou a língua em sua

palma. Por um segundo, Anna sentiu a calidez macia e úmida, e seus

músculos mais íntimos se comprimiram. Ele soltou a mão dela e já tinha

saído porta afora antes que Anna pudesse protestar.

Pelo menos, ela estava certa de que teria protestado.

 

Obstinada. Que mulher obstinada! Edward girou na sela do cavalo baio.

Qualquer outra mulher em Little Battleford teria vendido a própria avó para

se casar com ele. Diabos, a maioria das mulheres na Inglaterra teria vendido

a família inteira, os empregados da família e os animais de estimação para

ser sua noiva.

Edward bufou.

Ele não era um homem convencido. Isso não tinha nada a ver com ele,

pessoalmente falando. Era seu título que tinha um valor alto no mercado.

Bem, isso e o dinheiro que vinha com o título. Mas não para Anna Wren, a

viúva empobrecida sem status social. Ah, não. Para ela, e somente para ela,

ele era bom o suficiente para levar para a cama, mas não para casar. O que

ela pensava que ele era? Um pênis de aluguel?

Edward apertou os arreios quando o cavalo baio recuou por causa de

uma folha que fazia seu caminho até o chão. Bem, aquela mesma

sensualidade que a levara a encontrá-lo num bordel seria a ruína dela. Ele a

havia flagrado olhando para a sua boca durante a discussão, e a ideia

surgira: por que não usar a sexualidade dela para seus propósitos? Que

importância tinha o motivo pelo qual ela decidira seduzi-lo — fosse ou não

por causa das cicatrizes —, o mais importante era que ela fizera isso. Anna

gostava de sua boca, não é? Ela a veria o dia inteiro, todos os dias, trabalhando como sua secretária. E ele faria questão de lembrá-la de outras

coisas que ela estava perdendo até aceitar ser sua noiva.

Edward sorriu. Na verdade, seria um prazer mostrar a ela quais

recompensas a esperavam quando os dois se casassem. Com sua natureza

lasciva, Anna não seria capaz de se controlar por muito tempo. E então ela

seria sua esposa. A ideia de Anna como sua esposa era estranhamente

reconfortante, e um sujeito poderia se acostumar com tal desejo feminino

numa esposa. Ah, sim, de fato.

Com um sorriso sombrio, Edward esporeou o cavalo para um galope.

 

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