O Príncipe Corvo

Elizabeth Hoyt · Capítulo 20 de 26

Páginas do PDF

O Príncipe Corvo

Capítulo Dezoito

 

“Aurea encarou o marido, horrorizada. Então os primeiros raios da aurora penetraram o palácio, através da alta janela e desceram sobre o príncipe, e

sua forma começou a encolher e a convulsionar. Os ombros amplos e

macios murcharam e diminuíram; a boca ampla e elegante se projetou e

endureceu; e os dedos fortes das mãos se metamorfosearam em penas finas e sujas. E, quando o corvo apareceu, as muralhas do palácio balançaram e

estremeceram até se dissolverem e sumirem. Ouviram-se um grande

zumbido e um agitar de asas quando o corvo e todos os seus seguidores subiram aos céus. Aurea se viu sozinha. Sem roupa, comida ou água em

uma planície seca que se estendia em todas as direções até onde o olho

podia ver...”

 

— O Príncipe Corvo

 

Anna estava no limite de sua paciência. Ela se flagrou batendo o pé no chão

e, cuidadosamente, obrigou-se a parar. Estava no pátio dos estábulos

enquanto Edward conversava com um cavalariço sobre a sela de Daisy. Pelo

visto, havia algo errado com ela. O que exatamente, Anna não sabia, pois

ninguém se dignava a contar a ela, uma mulher, qual era o problema.

Ela suspirou. Por quase uma semana, havia mordido a língua e

obedecido a Edward como sua secretária. Apesar de algumas de suas ordens

serem evidentemente calculadas para fazê-la perder o controle. Apesar de

pelo menos uma vez ao dia Edward fazer alguma observação sobre a

perfídia das mulheres. Apesar de seus olhos se depararem com o olhar de

Edward encarando-a toda vez que o fitava por acaso. Ela se portara como

uma dama, fora dócil, e isso a estava matando.

Anna fechou os olhos. Paciência. Paciência era uma virtude que ela

deveria dominar.

— Você está dormindo? — perguntou Edward bem ao seu lado, fazendo

Anna dar um pulo e olhá-lo de cara feia, uma reação que ele perdeu, pois já

tinha se virado. — George disse que a cilha está muito gasta. Teremos que

pegar o fáeton.

— Eu acho que não... — começou Anna.

Mas ele foi até onde os cavalos estavam sendo amarrados ao veículo.

Anna ficou boquiaberta, e então trotou atrás dele.

— Milorde.

Ele a ignorou.

— Edward — sibilou ela.

— Querida? — O conde parou tão repentinamente que ela quase

esbarrou nele.

— Não. Me. Chame. Assim. — Anna tinha dito isso tantas vezes na

última semana que as palavras haviam se tornado um cântico. — Não há

espaço nessa coisa para um lacaio ou uma criada.

Ele olhou casualmente para o fáeton. Jock já tinha pulado no banco alto

e estava sentado, alerta, pronto para um passeio.

— Por que eu iria querer levar um lacaio ou uma criada para inspecionar

os campos?

Anna deu um muxoxo.

— Você sabe muito bem.

Ele ergueu as sobrancelhas.

— Como acompanhante. — Ela sorriu docemente para os cavalariços.

Ele se inclinou para mais perto.

— Docinho, fico lisonjeado, mas nem eu posso seduzi-la enquanto

estiver conduzindo um fáeton.

Anna corou. Ela sabia disso.

— Eu...

Edward segurou a mão de Anna antes que ela pudesse dizer mais alguma

coisa, puxou-a para a carruagem e a acomodou no assento. Então foi ajudar

os lacaios a prender os cavalos.

— Que homem autoritário — murmurou ela para Jock.

O mastim abanou o rabo e pousou a cabeça imensa em seu ombro,

sujando-a de baba. Depois de alguns minutos, Edward pulou para o assento,

fazendo a carruagem balançar, e segurou as rédeas. Os cavalos esticaram as

patas, e o fáeton foi para a frente com um solavanco. Anna agarrou a parte

de trás do seu assento. Jock colocou a cabeça para fora, ao vento, o que fez suas orelhas e a pele de seu focinho balançarem. O fáeton fez a curva

rapidamente, e Anna esbarrou em Edward. Por um momento, seu seio

encostou no bloco rijo de seu braço. Ela se endireitou e segurou mais firme

na lateral.

A carruagem deu uma guinada, e Anna esbarrou nele mais uma vez. Ela

lhe deu uma olhadela com expressão séria, mas isso não surtiu efeito. Toda

vez que largava a parte de trás do assento, o veículo balançava, e ela era

forçada a segurá-lo.

— Você está fazendo isso de propósito?

Não se ouviu resposta.

— Se você está me sacudindo para me colocar no meu devido lugar —

disse ela com irritação —, acho que isso é um bocado infantil da sua parte.

Um olho de ébano fitou-a através de cílios escuros.

— Se você quer me punir — emendou ela —, posso entender, mas

destruir o fáeton também seria inconveniente para você.

Ele diminuiu a velocidade minimamente.

Anna pôs as mãos no colo.

— Por que eu iria querer punir você? — perguntou ele.

— Você sabe por quê. — Ele realmente era a criatura mais irritante

quando queria.

Eles percorreram o caminho em silêncio por algum tempo. O céu

começou a clarear e então a corar com um tímido escarlate. Anna podia ver

os traços de Edward com mais clareza. Eles não pareciam reconfortantes.

Ela suspirou.

— Eu sinto muito, sabe?

— Sente muito por ter sido descoberta? — A voz de Edward era

estranhamente sedosa.

Ela mordeu a parte de dentro da bochecha.

— Eu sinto muito por tê-lo enganado.

— É difícil acreditar nisso.

— Você está sugerindo que estou mentindo? — Anna cerrou os dentes

para controlar seu temperamento, tentando se lembrar de seu voto de

paciência.

— Ora, sim, docinho, acho que estou. — Parecia que ele estava

trincando os dentes. — Você parece ter uma facilidade inata para mentir.

Ela respirou fundo.

— Eu entendo por que você pensa assim, mas, por favor, acredite, nunca

tive a intenção de magoá-lo.

Edward bufou.

— Ótimo. Bem, você estava em um dos bordéis mais conhecidos de

Londres, vestida como uma prostituta de luxo, e casualmente nos

esbarramos. Sim, é fácil de entender como interpretei errado a situação.

Anna contou até dez. Então contou até cinquenta.

— Eu estava esperando por você. Somente por você.

Isso pareceu acalmá-lo um pouco. O sol nascera por completo. Eles

dobraram uma curva, assustando duas lebres no meio da estrada.

— Por quê? — rosnou ele.

Ela havia perdido o fio da meada.

— O quê?

— Por que escolher a mim depois de, sei lá, seis anos de celibato?

— Quase sete.

— Mas você ficou viúva há seis.

Anna assentiu sem explicar.

Ela podia sentir Edward fitando-a com curiosidade.

— Não importa o tempo, por que eu? Minhas cicatrizes...

— Não tem nada a ver com as suas malditas cicatrizes! — explodiu ela.

— As cicatrizes não importam, você não consegue enxergar isso?

— Então por quê?

E foi a vez de Anna ficar em silêncio. Agora o sol estava muito forte,

iluminando cada detalhe, sem deixar nada oculto.

Ela tentou explicar.

— Eu achei... Não. Eu sabia que havia uma atração. Então você foi

embora, e percebi que estava levando embora o que sentia por mim e dando

a outra mulher. Uma mulher que você nem conhecia. E eu queria.... Eu

precisava... — Anna ergueu as mãos em sinal de frustração. — Eu queria

ser a mulher com quem vo-você copulava.

Edward engasgou. Ela não sabia dizer se ele estava horrorizado, enojado

ou se simplesmente ria dela.

De repente, ela perdeu a paciência.

— Foi você que foi para Londres. Foi você que decidiu trepar com outra

mulher. Foi você que deu as costas para mim. Para nós. Quem é o maior

pecador? Eu não vou mais... urp!

Ela engoliu as palavras quando Edward puxou os cavalos tão

abruptamente que eles empinaram. Jock quase foi catapultado do assento.

Anna abriu os lábios alarmada, mas, antes que pudesse protestar, sua boca

foi coberta pela dele. Edward enfiou a língua em sua boca sem preâmbulo.

Ela sentiu gosto de café quando ele passou a língua pela dela, abrindo mais

seus lábios. Dedos fortes massageavam-lhe a nuca. Ela foi envolvida pelo

cheiro de almíscar de um homem no seu auge. Lenta e relutantemente, sua

boca deixou a dela. A língua dele delicadamente lambeu seu lábio inferior,

como se ele estivesse arrependido.

Anna piscou sob a luz forte do sol quando ele ergueu a cabeça. Edward

estudou seus traços confusos e deve ter ficado satisfeito com o que viu. Ele

sorriu, mostrando dentes brancos, e segurou os arreios, fazendo os cavalos

cruzarem a estrada a meio galope, com as crinas voando. Anna voltou a se

segurar no assento e tentou entender o que acabara de acontecer. Era muito

difícil pensar com o gosto dele ainda em sua boca.

— Eu vou me casar com você — gritou Edward.

Anna não sabia o que dizer. Então ficou em silêncio.

Jock latiu uma vez e deixou a língua pendendo da boca, voando com o

vento.

 

Coral olhou para o céu e sentiu os raios de sol descerem como calor líquido

por suas bochechas. Ela estava sentada na porta dos fundos do chalé da

família Wren, assim como fazia todos os dias desde que se sentira bem o

suficiente para se levantar da cama. A seu redor, pequenas coisas verdes

surgiam pela terra escura, e, perto dali, um passarinho engraçado fazia um

bocado de barulho. Era estranho como não se percebia o sol em Londres.

Os gritos estridentes de milhares de vozes, a fumaça fuliginosa, as ruas

cheias de detritos distraíam as pessoas e obscureciam a paisagem até que

ninguém mais se lembrava de olhar para cima. Ninguém mais sentia o toque

delicado do sol.

— Ah, Sr. Hopple!

Coral abriu os olhos ao ouvir o som da voz da irmã, mas permaneceu

imóvel. Pearl havia parado no portão que dava para o jardim dos fundos e

estava acompanhada de um homem pequeno que usava o colete mais

chamativo que ela já tinha visto. Ele parecia tímido, a julgar pelo modo

como o tempo todo puxava o colete. Isso não era de surpreender. Muitos

homens ficavam ansiosos na companhia de uma mulher por quem se sentiam atraídos. Pelo menos, os mais bonzinhos ficavam. Mas Pearl

brincava com seu cabelo, torcendo-o e enrolando-o em seus dedos, o que

indicava que ela também parecia pouco à vontade. E isso era surpreendente.

Uma das primeiras coisas que uma prostituta aprendia era como manter

uma expressão confiante e até corajosa na companhia do sexo forte. Esse

era o segredo da sobrevivência delas.

Pearl se despediu de seu acompanhante com um belo sorriso. Ela abriu o

portão e entrou no pequeno pátio. Estava se aproximando da porta dos

fundos quando notou a presença da irmã.

— Meu Deus, querida, não vi você sentada aí. — Pearl abanou o rosto

corado. — Você me deu um susto e tanto, isso sim.

— Estou vendo — disse Coral. — Você não está procurando um novo

candidato, está? Não tem mais que trabalhar. Além disso, vamos embora

para Londres em breve, agora que estou melhor.

— Ele não é um candidato — retrucou Pearl. — Pelo menos, não no

sentido a que você se refere. Ele me ofereceu um trabalho como criada na

abadia.

— Criada?

— Sim. — Pearl estava corando. — Você sabe que fui treinada para isso.

Eu daria uma boa criada novamente, daria sim.

Coral franziu a testa.

— Mas você não precisa trabalhar. Prometi que vou cuidar de você, e

vou cumprir minha promessa.

A irmã endireitou os ombros estreitos para trás e ergueu o queixo.

— Eu vou ficar aqui com o Sr. Felix Hopple.

Coral a encarou por um momento. Pearl não vacilou.

— Por quê? — perguntou ela finalmente, com a voz indiferente.

— Ele pediu permissão para me cortejar, e eu dei.

— E quando ele souber o que você é?

— Eu acho que ele já sabe. — Pearl previu a pergunta seguinte e

rapidamente balançou a cabeça. — Não, eu não contei, mas minha última

estada aqui não foi um segredo. E, se ele não sabe, eu vou contar. Acho que

ele vai me querer de qualquer forma.

— Mesmo que ele aceite sua vida antiga — disse Coral delicadamente

—, os outros habitantes da aldeia podem não aceitar.

— Ah, eu sei que será difícil. Não sou mais uma garotinha que acredita

em contos de fadas. Mas ele é um verdadeiro cavalheiro. — Pearl se ajoelhou ao lado de Coral na cadeira. — Ele me trata com tanta gentileza e

olha para mim como se eu pudesse ser uma dama.

— Então você vai ficar aqui?

— Você também podia ficar — disse Pearl baixinho e esticou o braço

para apertar a mão da irmã. — Nós duas poderíamos começar uma nova

vida aqui, ter uma família como pessoas normais. Poderíamos ter um

pequeno chalé como este, e você poderia morar comigo. Não seria

adorável?

Coral baixou os olhos para as mãos entrelaçadas nas da irmã mais velha.

Os dedos de Pearl tinham cor de porcelana, com pequenas e sutis cicatrizes

ao redor dos nós, lembranças dos anos de serviço. Sua própria mão era

branca, lisa e estranhamente macia. Ela se afastou.

— Temo que não possa ficar. — Coral tentou sorrir, mas descobriu que

não conseguia. — Eu pertenço a Londres. Simplesmente não me sinto à

vontade em outro lugar.

— Mas...

— Calma, querida. Meu destino na vida foi traçado há muito tempo. —

Coral se pôs de pé e sacudiu as saias. — Além disso, todo esse ar fresco e

essa luz do sol não podem fazer bem à minha pele. Venha para dentro de

casa comigo e me ajude a arrumar as minhas coisas.

— Se é isso que você quer — concordou Pearl lentamente.

— É. — Coral esticou a mão e puxou a irmã para que ela ficasse de pé.

— Você me disse como o Sr. Hopple se sente, mas não disse como você

se sente a respeito dele.

— Ele faz com que eu me sinta segura e confortável. — Pearl corou. —

E ele beija bem.

— Uma tortinha de limão — murmurou Coral. — Você sempre gostou

de tortinha de limão.

— O quê?

— Esqueça, querida. — Coral roçou os lábios na bochecha da irmã. —

Fico feliz que tenha encontrado um homem para você.

 

— além do mais, essa teoria excêntrica somente aprofunda a suspeita de

que sua senilidade agora está em estágio avançado. Minhas condolências.

Anna rabiscava as palavras freneticamente enquanto Edward caminhava

diante da escrivaninha de pau-rosa. Ela nunca havia feito ditado antes e

descobriu, para seu desgosto, que era mais difícil do que imaginara. O fato de Edward escrever suas cartas mordazes em alta velocidade certamente

não ajudava.

Pelo canto do olho, ela notou que O Príncipe Corvo estava de volta em

sua mesa. Desde aquele passeio de fáeton, dois dias atrás, ela e Edward

pareciam jogar um jogo com o livro. Uma manhã, ela havia encontrado o

livro em cima de sua escrivaninha e o devolvera em silêncio a ele, mas,

depois do almoço, o livro voltara novamente para a mesa dela. Mais uma

vez, ela o havia deixado na mesa de Edward, e aquilo se repetira. Muitas

vezes. Até agora, ela não tivera a coragem de perguntar o que, exatamente,

o livro significava para ele e por que parecia que o estava oferecendo a ela.

Agora Edward perambulava em meio ao seu ditado.

— Talvez sua triste deterioração mental tenha uma origem familiar. —

Ele apoiou um punho na mesa dela. — Eu me recordo que seu tio, o duque

de Arlington, era igualmente teimoso em relação à questão da reprodução

suína. De fato, alguns dizem que seu último ataque apoplético foi

consequência de uma discussão muito acalorada sobre gaiolas de gestação.

Está quente aqui?

Anna tinha escrito até quente quando se deu conta de que a última

pergunta se dirigia a ela. Ela ergueu o olhar a tempo de vê-lo tirar o casaco.

— Não. A temperatura está agradável. — O esboço de sorriso que a

boca de Anna formava congelou quando Edward tirou a gravata.

— Estou com muito calor — disse ele. E desabotoou o colete.

— O que você está fazendo? — grunhiu Anna.

— Ditando uma carta? — Ele arqueou as sobrancelhas, fingindo-se de

inocente.

— Você está se despindo!

— Não, eu estaria me despindo se tirasse a camisa — falou Edward, e

foi o que ele fez.

— Edward!

— Querida?

— Ponha a camisa de volta neste instante — sibilou Anna.

— Por quê? Você acha meu tronco ofensivo? — Edward se inclinou

despreocupadamente na direção da mesa dela.

— Sim. — Anna se encolheu ao ver a expressão dele. — Não! Ponha de

novo a camisa.

— Você tem certeza de que não sente nojo das minhas cicatrizes? — Ele

se inclinou para mais perto, e seus dedos percorreram as marcas no próprio peito.

Os olhos de Anna seguiam indefesos aquela mão hipnótica antes de

desviar o olhar para longe. Uma resposta mordaz vacilou na ponta da

língua. Ela foi impedida pelo desembaraço calculado de Edward. A

pergunta era evidentemente importante para aquele homem impossível.

Ela suspirou.

— Não acho você nem um pouco repulsivo, como você bem sabe.

— Então me toque.

— Edward...

— Faça isso — murmurou ele. — Eu preciso saber. — O conde pegou a

mão dela e a puxou para si.

Anna olhou em seu rosto, lutando entre a decência e o desejo de

tranquilizá-lo. O verdadeiro problema era, sem dúvida, que ela queria tocá-

lo. Queria muito.

Ele esperou.

Ela ergueu a mão. Hesitou. Então o tocou. A palma de sua mão pousou,

trêmula, na união do pescoço com o peito de Edward, bem onde ela podia

sentir a batida implacável de seu coração. Os olhos dele pareciam escurecer

de um modo impossível para um tom mais escuro de preto enquanto a

encaravam. O próprio peito de Anna se esforçava para se encher de ar

enquanto a mão deslizava pela musculatura firme. Ela podia sentir as

reentrâncias das cicatrizes de varíola e fez uma pausa para circular

delicadamente uma delas com o dedo médio. As pálpebras dele baixaram,

como se estivessem pesadas. Ela foi para outra cicatriz e também a traçou.

Observou a própria mão e pensou na antiga dor que essas cicatrizes

representavam. A dor para o corpo de um garoto e a dor para sua alma. A

biblioteca estava silenciosa, a não ser pelo murmúrio da respiração forçada

de ambos. Ela nunca havia explorado o peito de um homem com tanto

empenho. Era muito bom. Sensual. De certo modo, mais íntimo que o ato

sexual em si.

Seu olhar foi para o rosto dele. Os lábios estavam abertos e úmidos onde

Edward havia passado a língua. Obviamente, ele estava tão afetado quanto

ela. Saber que seu mero toque tinha esse tipo de poder sobre ele despertava

a excitação de Anna. A mão dela encontrou os pelos crespos e escuros em

seu peito. Estavam úmidos por causa da transpiração. Lentamente, ela

enfiou os dedos naquele emaranhado, observando os tufos se enrolarem nas pontas dos próprios dedos, como se a prendessem. Ela podia sentir o cheiro

de essência masculina aumentando com o calor do corpo dele.

Anna se inclinou para a frente, atraída por uma força maior que sua

vontade. Os pelos do peito de Edward fizeram cócegas em seus lábios. Ela

afundou o nariz em sua calidez. Agora, o peito dele se movia bruscamente.

Ela abriu a boca e soltou o ar. Sua língua deslizou para a frente para provar

o sal da pele do conde. Um deles gemeu, talvez os dois. As mãos dela

apertaram as laterais do corpo dele, e Anna podia sentir debilmente que os

braços de Edward a puxavam para mais perto. Sua língua continuou a

explorar: o pelo, que fazia cócegas, o suor de cheiro forte, a dobra de um

mamilo masculino.

O sal de suas próprias lágrimas.

Ela descobriu que estava chorando, e lágrimas pingavam por seu rosto e

se misturavam com a umidade do corpo de Edward. Não fazia sentido, mas

Anna não conseguia impedir as lágrimas. Não mais do que poderia impedir

seu corpo de querer este homem ou seu coração de... amá-lo.

Perceber isso a fez parar subitamente, fez sua mente ficar mais clara. Ela

inspirou, trêmula, e então se afastou do abraço de Edward.

Os braços dele a apertaram.

— Anna...

— Por favor. Me solte. — Sua voz soava áspera para os próprios

ouvidos.

— Droga. — Mas os braços de Edward se abriram e a soltaram.

Ela recuou rapidamente.

Ele franziu o cenho.

— Se você acha que vou esquecer isso...

— Não precisa me avisar. — Ela riu num tom muito agudo, vacilando

prestes a perder completamente a compostura. — Eu já sei que você não

esquece... nem perdoa.

— Maldição, você sabe muito...

Ouviu-se uma batida à porta da biblioteca. Edward se afastou e se

empertigou, passando a mão, impacientemente, pelo cabelo e bagunçando

seu rabicho.

— O que foi?

O Sr. Hopple espiou pela porta e piscou ao ver o estado de seminudez do

patrão, mas gaguejou e começou a falar, de qualquer forma.

— M-me perdoe, milorde, mas John Cocheiro disse que uma das rodas

traseiras da carruagem ainda está sendo reparada pelo ferreiro.

Edward olhou de cara feia para o administrador e pegou sua camisa.

Anna aproveitou a oportunidade para furtivamente enxugar as faces

úmidas.

— Ele me garantiu que vai levar apenas mais um dia — emendou o Sr.

Hopple. — Dois, no máximo.

— Não tenho esse tempo todo, homem. — Edward terminara de se

vestir e agora dava meia-volta e começava a revirar sua mesa, derrubando

papéis no chão enquanto fazia isso. — Vamos de fáeton, e os criados podem

seguir depois, quando a carruagem for consertada.

Anna ergueu o olhar, desconfiada. Era a primeira vez que ela ouvia falar

de uma viagem. Sem dúvida, ele não ousaria, não é?

O Sr. Hopple franziu a testa.

— Vamos, milorde? Eu não sabia...

— Minha secretária vai me acompanhar a Londres, claro. Vou precisar

dos serviços dela se quiser terminar o manuscrito.

Os olhos do administrador se arregalaram de horror, mas Edward não

viu a reação. Ele encarava Anna em tom desafiador.

Ela inspirou rapidamente, muda.

— M-mas, milorde! — gaguejou o Sr. Hopple, aparentemente

escandalizado.

— Eu vou precisar terminar o manuscrito — explicou Edward para ela;

os olhos queimavam com um fogo escuro. — Minha secretária vai tomar

notas na reunião da Sociedade Agrária. Vou ter que lidar com várias

questões de negócios relativas às minhas outras propriedades. Sim, acredito

que seja essencial que minha secretária viaje comigo — concluiu ele em

voz mais baixa e íntima.

O Sr. Hopple começou a fazer um discurso:

— Mas ela é u-uma... ora! Uma mulher. Uma mulher que não é casada,

perdoe a minha franqueza, Sra. Wren. Não é nada adequado que viaje...

— É verdade. É verdade — interrompeu Edward. — Teremos uma

acompanhante. Traga alguém com a senhora amanhã, Sra. Wren. Vamos

partir logo depois do amanhecer. Esperarei a senhora no pátio. — Edward

falou isso e saiu do cômodo, batendo os pés.

O Sr. Hopple o seguiu, resmungando objeções inócuas.

Anna realmente não sabia se ria ou se chorava. Ela sentiu uma língua

áspera e úmida em sua palma e baixou os olhos para ver Jock arfando ao

seu lado.

— O que devo fazer?

Mas o cão apenas suspirou e rolou de costas para que as patas

balançassem de modo absurdo no ar, o que dificilmente era uma resposta à

sua pergunta.

 

OceanofPDF.com