O Príncipe Corvo
Capítulo Vinte e Um
“Aurea e a idosa dividiram a casca do pão diante da pequena fogueira.
Quando Aurea engoliu o último pedaço, a porta se abriu com ímpeto, e um
sujeito alto e magro entrou. O vento soprou a porta para fechá-la atrás
dele.
— Como vai a senhora, mãe? — ele cumprimentou a idosa.
A porta se abriu novamente. Dessa vez, um homem com cabelos arrepiados
como a penugem de um dente-de-leão entrou.
— Uma boa-noite para a senhora, mãe — disse ele.
Em seguida, mais dois homens entraram, o vento soprando atrás deles. Um
era alto e bronzeado, o outro, gordo, com as bochechas coradas.
— Olá, mãe — gritaram os dois juntos.
Todos os quatro homens se sentaram perto do fogo e, ao fazerem isso, as
chamas sopraram e tremeluziram, e a poeira girou e rodopiou no assoalho
ao redor de seus pés.
— E você adivinhou quem eu sou? — A mulher idosa abriu um sorriso desdentado para Aurea. — Estes são os Quatro Ventos, e eu sou a mãe
deles...”
— O Príncipe Corvo
Anna sonhava com um bebê de olhos escuros na manhã seguinte, quando
uma voz masculina deu uma risadinha em seu ouvido e a acordou.
— Eu nunca vi ninguém dormir tão profundamente. — Lábios roçaram
do lóbulo de sua orelha até o queixo.
Ela sorriu e tentou se aconchegar mais, porém descobriu que não havia
um corpo quente ao lado do seu. Confusa, abriu os olhos. Edward estava de
pé ao lado da cama, já vestido.
— O quê...?
— Vou conversar com Gerard. Shhh. — Ele colocou um dedo nos lábios
dela quando Anna ia falar. — Voltarei assim que puder. Faremos planos
quando eu voltar. — Ele se inclinou para lhe dar um beijo que fez seus
pensamentos se dispersarem. — Não saia da minha cama.
E foi embora antes que ela pudesse responder. Anna suspirou e rolou
para o lado.
Quando acordou novamente, uma criada estava abrindo as cortinas.
A garota olhou quando ela se espreguiçou.
— Ah, a senhora acordou. Eu trouxe um pouco de chá e pãezinhos
frescos.
Anna agradeceu à criada e se sentou para receber a bandeja. Ela notou
um bilhete dobrado ao lado do bule de chá.
— O que é isto?
A criada olhou para ela.
— Não faço ideia, senhora. Um garoto deixou isso na porta e disse que
era para a dama na casa. — Ela fez uma mesura e saiu.
Anna serviu uma xícara de chá e pegou o bilhete. Estava um tanto sujo.
No verso, tinha sido selado com cera, mas sem marca. Ela usou a faca de
manteiga para abrir o papel, dobrado, então levou a xícara aos lábios
enquanto lia a primeira linha.
A xícara bateu no pires.
O bilhete trazia uma chantagem.
Anna fitou aquela coisa nojenta. O autor a vira no Grotto de Aphrodite e
sabia que ela havia se encontrado com Edward lá. Em termos sórdidos,
ameaçava contar à família Gerard. Ela poderia evitar esse desastre indo ao
salão no Grotto de Aphrodite às nove da noite. Fora instruída a levar cem
libras escondidas num regalo.
Anna pôs a carta de lado e contemplou o chá que esfriava e os sonhos
que morriam. Pouco antes, a felicidade parecia estar tão perto. Ela quase a
pegara com a mão, quase segurara suas asas agitadas. Mas então o
sentimento havia saído em disparada e fugido, e ela fora deixada de mãos
vazias.
Uma lágrima rolou por sua bochecha até a bandeja do café.
Mesmo que ela tivesse cem libras — o que ela não tinha —, o que
impediria o chantagista de exigir a mesma soma mais uma vez? E outra
vez? Talvez ele até aumentasse o preço de seu silêncio. Se ela se tornasse a
condessa de Swartingham, seria um alvo fácil. E não importava que Edward estivesse neste momento rompendo seu noivado com a Srta. Gerard. Ela
cairia em desgraça se o restante da sociedade descobrisse suas visitas ao
Grotto de Aphrodite.
E pior, Edward insistiria em se casar com ela de qualquer forma, apesar
do escândalo. Anna traria vergonha e seria uma tragédia para ele e para o
seu nome. O nome que significava tanto para o conde. Era impossível
destruí-lo assim. Havia apenas uma coisa a fazer. Ela deveria deixar
Londres e Edward. Rápido, antes que ele voltasse.
Não havia outro meio de protegê-lo.
— Você rejeitaria minha filha por uma, uma... — O rosto de Sir Richard
escureceu para uma perigosa tonalidade de castanho-avermelhado. Ele
parecia em risco iminente de ter um ataque apoplético.
— Uma viúva de Little Battleford. — Edward terminou a frase do outro
homem antes que ele pudesse encontrar uma descrição menos adequada. —
Sim, senhor.
Os dois homens se encararam no escritório de Sir Richard.
O cômodo fedia a fumaça velha de tabaco. As paredes, já com um tom
marrom enlameado, ficavam mais escuras pelas tiras de fuligem que se
iniciavam na metade da parede e desapareciam na sombra perto do teto.
Uma única pintura a óleo pendia levemente torta acima da cornija. Era uma
cena de caça, cães brancos e escuros se aproximando de uma lebre.
Momentos antes de ser dilacerada, os olhos escuros e planos da lebre
estavam serenos. Sobre a mesa, dois copos de cristal decorado estavam pela
metade com o que era, sem dúvida, um conhaque fino.
Nenhum dos copos fora tocado.
— Você brincou com o bom nome de Sylvia, milorde. Vou querer sua
cabeça por isso — berrou Sir Richard.
Edward suspirou. A discussão ficara mais feia do que ele havia
imaginado. E sua peruca, como sempre, coçava. Certamente, o velho
camarada não iria desafiá-lo para um duelo, não é? Iddesleigh nunca se
permitiria ouvir o fim da história se fosse forçado a lutar com um baronete
gordo e com gota.
— A reputação da Srta. Gerard não vai ficar abalada com isso — disse
Edward de modo tão tranquilizador quanto possível. — Vamos anunciar que
ela me dispensou.
— Vou levá-lo aos tribunais, senhor, por quebra de contrato!
Edward estreitou os olhos.
— E vai perder. Eu tenho infinitamente mais fundos e contatos do que o
senhor. Não vou me casar com a sua filha. — Edward baixou a voz. —
Além disso, os tribunais somente serviriam para fazer o nome da Srta.
Gerard cair na boca do povo de Londres. Nenhum de nós quer isso.
— Mas ela perdeu esta temporada toda para encontrar um marido
adequado. — A carne caída debaixo do queixo de Sir Richard tremeu.
Ah. Aí estava a verdadeira razão para a irritação do homem. Ele estava
menos preocupado com o nome da filha do que com a perspectiva de
financiá-la por mais uma temporada. Por um momento, Edward sentiu pena
da garota, com um pai desses. Então ele aproveitou a chance.
— Naturalmente — murmurou —, vou recompensá-lo pela sua
decepção.
Os olhinhos de Sir Richard se enrugaram ambiciosamente nos cantos.
Edward agradeceu aos deuses que o guardavam. Ele chegara perto demais
de ter esse homem como seu sogro.
Vinte minutos depois, Edward emergiu sob a luz do sol no patamar
principal da família Gerard. O velho sabia barganhar. Como um buldogue
rechonchudo agarrando um osso do qual ele se recusava a abrir mão,
rosnara, puxara e balançara a cabeça furiosamente, mas, no fim das contas,
os dois chegaram a um acordo. O bolso de Edward estava
consideravelmente mais leve, mas ele estava livre da família Gerard. Tudo
que restara era retornar para Anna e fazer os planos para o casamento.
Ele sorriu. Se sua sorte persistisse, ela ainda estaria na cama.
Assobiando, Edward desceu os degraus até a carruagem. Só parou para
retirar a horrível peruca e jogá-la no chão antes de entrar no veículo. Ele
olhou pela janela enquanto a carruagem se afastava e viu um catador de lixo
experimentando a peruca. O adereço empoado de branco, com seus rígidos
cachos laterais e rabo, contrastava estranhamente com as roupas imundas
daquele homem e com o rosto sem barbear. O catador se inclinou, segurou
os cabos de seu carrinho de mão e foi embora empurrando-o com ar
confiante.
Quando a carruagem parou diante de sua casa, Edward estava
assobiando uma música obscena. Com o fim do noivado com a família
Gerard, ele não via razão para não ser um homem casado em um mês.
Quinze dias, se conseguisse uma licença especial.
Ele entregou o tricórnio e a capa a um lacaio e subiu a escadaria dois
degraus de cada vez. Ainda tinha de convencer Anna, mas, depois da noite
passada, ele tinha certeza de que ela cederia logo.
Edward deu a volta na escada e seguiu pelo corredor.
— Anna! — Ele abriu a porta de seu quarto. — Anna, eu...
Ele se interrompeu imediatamente. Ela não estava na cama.
— Maldição!
O conde passou pela porta de ligação para a sala de estar. Vazia também.
Soltou um suspiro de exasperação. Voltando para seu quarto, colocou a
cabeça para fora da porta e gritou por Dreary. Então caminhou pelo quarto.
Onde estava a mulher? A cama estava feita, as cortinas, fechadas. O fogo
fora apagado na lareira. Ela devia ter deixado o cômodo havia algum
tempo. Ele viu o livro vermelho de Elizabeth na penteadeira. Havia um
pedaço de papel em cima dele.
Ele já ia pegar o livro quando Dreary entrou no cômodo.
— Milorde?
— Onde está a Sra. Wren? — Edward pegou o papel dobrado. Seu nome
estava escrito na parte da frente com a letra de Anna.
— A Sra. Wren? Os lacaios me informaram que ela deixou a casa por
volta das dez horas.
— Sim, mas aonde ela foi, homem? — Ele abriu o bilhete e começou a
ler.
— A questão é essa, milorde. Ela não disse aonde ia... — A voz do
mordomo zumbiu no fundo enquanto Edward compreendia as palavras
escritas no bilhete.
Sinto muito... preciso ir embora... Sua, sempre, Anna.
— Milorde?
Ela se fora.
— Milorde?
Ela o deixara.
— O senhor está bem, milorde?
— Ela foi embora — murmurou Edward.
Dreary ficou por ali por mais um tempo e então deve ter ido embora,
porque, depois de alguns instantes, Edward descobriu que estava sozinho.
Ele se sentou diante do fogo apagado em seu quarto, sozinho.
Mas era assim que, até muito recentemente, ele estava acostumado a
viver.
Como um homem sozinho.
A carruagem passou por cima de um buraco na estrada.
— Ai! — exclamou Fanny. Ela esfregou o cotovelo, que havia batido na
porta. — A carruagem de Lorde Swartingham certamente tinha molas
melhores.
Anna murmurou, concordando com ela, mas na verdade não ligava.
Tinha de pensar. Decidir para onde ir depois que chegassem a Little
Battleford. Pensar em como poderia arrumar dinheiro. Mas era
terrivelmente difícil pensar, que dirá planejar naquele momento. Era muito
mais fácil olhar pela janela da carruagem e se deixar levar. À frente delas, o
único outro ocupante da carruagem, um homenzinho com uma peruca cinza
inclinada sobre uma sobrancelha, roncava. Ele estivera dormindo desde o
início da viagem em Londres e, desde então, não acordara, apesar dos
solavancos da carruagem e das frequentes paradas. Pelo cheiro que exalava
dele, uma mistura pungente de gim, vômito e falta de banho, o homem não
acordaria nem que as trombetas anunciassem a segunda vinda de Cristo.
Não que ela se importasse muito, de toda forma.
— A senhora acha que estaremos em Little Battleford à noite? —
perguntou Fanny.
— Eu não sei.
A criada suspirou e mexeu em seu avental.
Anna sentiu-se culpada por um momento. Ela não dissera a Fanny por
que estavam indo embora de Londres quando a acordara hoje de manhã. Na
verdade, ela mal havia falado com a garota desde que haviam deixado a
casa de Edward.
Fanny pigarreou.
— A senhora acha que o conde vai nos seguir?
— Não.
Silêncio.
Anna fitou a criada. Sua sobrancelha estava franzida.
— Eu pensei que talvez a senhora fosse se casar com o conde em breve.
— A garota enunciou essa frase como se fosse uma interrogação.
— Não.
A boca de Fanny tremeu.
Anna falou com mais suavidade.
— Não é provável, é? Um conde e eu?
— Se ele a ama, é — disse a criada seriamente. — E Lorde
Swartingham ama. Ama a senhora, quero dizer. Todo mundo sabe disso.
— Ah, Fanny. — Ela se virou para a janela quando seus olhos se
encheram de lágrimas.
— Bem, é possível — insistiu a garota. — E a senhora ama o conde,
então eu não entendo por que estamos voltando para Little Battleford.
— É mais complicado do que isso. Eu... eu seria um inconveniente para
ele.
— Um... o quê? — Fanny fez um bico.
— Um inconveniente. Um fardo em suas costas. Não posso me casar
com ele.
— Não entendo por que... — Fanny se interrompeu quando a carruagem
ressoou no pátio de uma estalagem.
Anna aproveitou a interrupção.
— Vamos sair e esticar as pernas.
Passando pelo terceiro passageiro que ainda dormia, as duas saltaram da
carruagem. No pátio, cavalariços corriam de um lado para outro, cuidando
dos cavalos, retirando pacotes de cima da carruagem e trazendo
carregamentos novos. O cocheiro se inclinou de onde estava empoleirado,
gritando fofocas para o estalajadeiro. Para completar o barulho e a
confusão, uma imensa carruagem particular também estava na estalagem.
Alguns homens estavam curvados perto do cavalo do lado direito,
examinando seu caso. Parecia que o animal tinha perdido uma ferradura ou
estava mancando.
Anna segurou o cotovelo de Fanny, e as duas foram para debaixo das
calhas da estalagem, de tal modo que ficaram fora do caminho de homens e
garotos apressados. Fanny jogava o peso do corpo para um dos pés e então
para o outro e, finalmente, falou:
— Desculpe, senhora. Eu tenho que usar o banheiro.
Anna acenou com a cabeça, e a criada saiu em disparada. Ela ficou ali
observando os homens cuidando do cavalo manco.
— Quando exatamente a carruagem estará pronta? — exclamou uma
voz estridente. — Estou há uma hora esperando nesta estalagem imunda.
Anna empertigou-se ao ouvir aquele tom de voz familiar. Ai, Deus, não.
Era Felicity Clearwater. Não agora. Ela se encolheu apoiada na parede da
estalagem, mas hoje não era o seu dia. Felicity saiu da estalagem e
imediatamente a viu.
— Anna Wren. — A boca da outra mulher deu um muxoxo até linhas
pouco atraentes irradiarem de seus lábios. — Finalmente.
Felicity marchou até ela e agarrou seu braço com aperto autoritário.
— Não acredito que tive que viajar praticamente até Londres apenas
para falar com você. E que tive que ficar esperando nesta estalagem
desprezível. Agora, ouça com atenção. — Felicity balançou o braço para
dar ênfase. — Não quero repetir. Eu sei de tudo sobre sua ida ao Grotto de
Aphrodite.
Anna sentiu seus olhos arregalarem.
— Eu...
— Não — interrompeu Felicity. — Nem tente negar. Tenho uma
testemunha. E sei que você encontrou o conde de Swartingham lá.
Apostando um pouco alto, não? Eu nunca teria imaginado isso de uma
ratinha tímida como você.
Por um momento, Felicity pareceu curiosa, mas se recuperou e
continuou antes que Anna pudesse abrir a boca.
— Mas isso não tem importância alguma. A parte importante é esta. —
Ela apertou novamente o braço de Anna; desta vez com mais força. —
Quero meu relicário e a carta de volta, e, se você murmurar uma única
palavra sobre mim e Peter, vou me certificar de que cada alma em Little
Battleford saiba de sua indiscrição. Você e sua sogra serão expulsas da
cidade. E eu farei isso pessoalmente.
Os olhos de Anna se arregalaram.
— Como ousa...?
— Espero — ela deu um último aperto no braço de Anna — que eu
tenha me feito entender.
Felicity acenou como se tivesse terminado algum negócio pequeno,
alguma tarefa doméstica. A demissão de uma criada impertinente, talvez.
Algo desagradável, mas necessário. Agora era partir para questões mais
importantes. Ela se virou e se afastou.
Anna a observava.
Felicity achava mesmo que ela era uma ratinha tímida, que se encolheria
num monte de medo com as ameaças da amante de seu falecido marido. E
ela não tinha razão? Anna estava fugindo do homem que amava. Do homem
que a adorava e que queria se casar com ela. Fugindo por causa de um
bilhete chantagista nojento. Anna sentiu-se envergonhada. Não era de
admirar que Felicity pensasse que podia passar por cima dela!
Anna esticou uma das mãos e segurou a mulher pelo ombro. Felicity
quase caiu na lama do pátio da estalagem.
— O quê...?
— Ah, a senhora se fez entender, sim — ronronou Anna enquanto
encurralava a mulher mais alta contra a parede. — Mas cometeu um errinho
de cálculo: eu não ligo a mínima para as suas ameaças. Sabe, se eu não ligo
a mínima para o que a senhora diz sobre mim, então não há nada com que
me chantagear, não é, Sra. Clearwater?
— Já você...
Anna acenou com a cabeça, como se Felicity tivesse dito algo profundo.
— Isso mesmo. Mas, por outro lado, eu tenho uma coisa bastante
substancial sobre a senhora. O fato de que a senhora trepou com o meu
marido.
— E-eu...
— E, se a minha memória está certa — Anna tocou a bochecha com um
dedo, fingindo pensar —, ora, isso foi bem na época que sua filha caçula foi
concebida. Aquela com os cabelos vermelhos, como os de Peter.
Felicity desmoronou na parede e encarou Anna como se ela tivesse
desenvolvido um terceiro olho bem no meio da testa.
— E o que a senhora acha que o escudeiro diria sobre isso? —
perguntou Anna delicadamente.
Felicity tentou se recuperar.
— Ora, veja bem...
Anna apontou um dedo para o rosto dela.
— Não. Veja bem a senhora. Se tentar me ameaçar de novo ou a
qualquer um que eu ame, vou contar a todos os moradores de Little
Battleford que a senhora estava indo para a cama com o meu marido. Vou
mandar imprimir folhetos e entregar em cada casa, chalé e casebre em
Essex. Na verdade, vou contar ao país inteiro. A senhora talvez tenha que ir
embora da Inglaterra.
— Você não faria isso — sussurrou Felicity.
— Não? — Anna sorriu, mas de um modo nada simpático. — Quer
apostar?
— Isso é...
— Chantagem. Sim. Algo que a senhora conhece bem.
Felicity empalideceu.
— Ah, e mais uma coisa: eu preciso de uma carona para Londres.
Imediatamente. Vou levar sua carruagem. — Anna lhe deu as costas e se
dirigiu ao veículo, puxando Fanny, que observava com assombro ao lado da
porta da estalagem.
— Mas como eu vou voltar para Little Battleford? — gemeu Felicity
atrás delas.
Anna não se deu ao trabalho de olhar para trás.
— Pode pegar o meu lugar na carruagem.
Edward estava sentado numa poltrona com o couro rachado na biblioteca de
casa porque não podia suportar as lembranças em seu quarto.
Havia uma estante que justificava o nome do cômodo. Exemplares de
títulos religiosos empoeirados enchiam as prateleiras, alinhados em fileiras
como sepulturas num cemitério, intocados por gerações. A única janela
tinha cortinas de veludo azul, puxadas para um dos lados por um cordão
dourado. Ele conseguia ver os contornos do telhado fantasma do edifício ao
lado. Mais cedo, o sol vermelho intenso mostrara em silhueta as múltiplas
chaminés no telhado enquanto se punha. Agora, estava praticamente escuro
lá fora.
O cômodo estava frio, pois a lareira se apagara.
Uma criada viera havia algum tempo — ele não sabia ao certo quando
— para avivar o fogo, mas ele a tinha dispensado. Desde então, ninguém o
incomodara. De vez em quando, ele ouvia murmúrios no corredor, mas os
ignorava.
Ele não leu.
Ele não escreveu.
Ele não bebeu.
Simplesmente ficou sentado ali, segurando o livro no colo, pensando e
olhando para o nada à medida que a noite o ia sepultando. Jock cutucara sua
mão uma ou duas vezes, mas ele também ignorara esse contato, até que o
cão desistira e se deitara ao seu lado.
Haviam sido as cicatrizes da varíola? Ou seu temperamento? Será que
ela não gostou de fazer amor com ele? Ou ele era dedicado demais ao
trabalho? Ou será que ela simplesmente não o amava?
Só isso. Algo tão pequeno e, ainda assim, era tudo.
Se o seu título, a sua riqueza, o seu — meu Deus! — seu amor não
importavam para ela, ele nada tinha. O que a levara a partir? Essa era uma pergunta à qual ele não conseguia responder. Uma pergunta na qual não
conseguia deixar de pensar. Ela o engoliu, o consumiu, se tornou a única
coisa de fato importante. Porque, sem ela, não havia nada. Sua vida passava
diante dele em tons fantasmagóricos, cinzentos.
Sozinho.
Edward não tinha alguém para tocar sua alma como Anna fazia, sem a
completude que ela oferecera. Ele não tinha sequer notado até ela ir
embora: havia um grande buraco em seu ser sem ela.
Será que um homem conseguiria viver com tamanho vazio dentro de si?
Algum tempo depois, Edward percebeu vagamente uma confusão de vozes
altas se aproximando no corredor. A porta da biblioteca se abriu e revelou
Iddesleigh.
— Ah, mas que bela visão! — O visconde fechou a porta atrás de si. Ele
pousou a vela que trazia sobre a mesa e jogou sua capa e seu chapéu numa
cadeira. — Um homem forte e inteligente derrubado por uma mulher.
— Simon, vá embora. — Edward não se moveu, nem sequer virou a
cabeça na direção do intruso.
— Eu iria, meu velho, se não tivesse consciência. — A voz de
Iddesleigh ecoou fantasmagórica no cômodo. — Mas descobri que tenho.
Uma consciência, quero dizer. Maldito inconveniente. — O visconde se
ajoelhou ao lado da lareira fria e começou a juntar uma pilha de galhos
secos.
Edward franziu levemente o cenho.
— Quem mandou você vir aqui?
— Seu velhote esquisito. — Iddesleigh esticou a mão para pegar o
recipiente para carvão. — Davis, acho? Ele ficou preocupado com a Sra.
Wren. Parece que gosta dela, como um frango impressionado com um
cisne. Talvez ele esteja preocupado com você também, mas foi difícil de
dizer. Não consigo imaginar por que você mantém essa criatura.
Edward não respondeu.
Iddesleigh delicadamente empilhou pedaços de carvão em torno dos
galhos secos. Era curioso ver o melindroso visconde fazendo um trabalho
tão sujo. Edward nunca imaginara que ele soubesse acender o fogo.
Iddesleigh falou por cima do ombro:
— Então, qual é o plano? Ficar aqui até congelar? Um pouco passivo,
não?
— Simon, pelo amor de Deus, me deixe em paz!
— Não, Edward. Pelo amor de Deus, e por você, eu vou ficar. —
Iddesleigh raspou o aço na pederneira, mas os galhos não queriam pegar
fogo.
— Ela foi embora. O que você quer que eu faça?
— Peça desculpas. Compre um colar de esmeraldas. Ou não. No caso
desta senhora, compre mais rosas. — Uma faísca surgiu e começou a
lamber o carvão. — Faça qualquer coisa, homem, menos ficar sentado aqui.
Pela primeira vez, Edward se mexeu, um movimento incômodo dos
músculos parados há muito tempo.
— Ela não me quer.
— Isso — disse Iddesleigh enquanto se punha de pé e pegava um lenço
— é uma imensa mentira. Eu a vi com você, lembra? Na palestra de
Lillipin. A mulher está apaixonada por você, embora só Deus saiba o
porquê. — Ele limpou as mãos no lenço, deixando-o preto, e em seguida
contemplou o quadrado de seda arruinado por um momento, antes de lançá-
lo às chamas.
Edward virou a cabeça para o outro lado.
— Então por que ela me abandonou? — murmurou ele.
Iddesleigh deu de ombros.
— O que um homem sabe sobre a mente feminina? Certamente eu não
sei nada. Talvez você tenha dito algo que a ofendeu; quase certo que tenha
sido isso, na verdade. Ou talvez ela subitamente tenha deixado de gostar de
Londres. Ou... — Ele enfiou a mão no bolso do casaco e esticou um pedaço
de papel entre dois dedos. — Talvez ela tenha sido chantageada.
— O quê? — Edward ficou de pé de um salto e pegou o pedaço de
papel. — Do que você está falando...? — Sua voz sumiu enquanto ele lia o
maldito bilhete. Alguém ameaçara Anna. Sua Anna.
Ele ergueu o olhar.
— Onde diabos você conseguiu isto?
Iddesleigh mostrou as palmas das mãos.
— Davis, mais uma vez. Ele me deu o bilhete no corredor.
Aparentemente, estava na lareira do seu quarto.
— O maldito filho de uma puta. Quem é este homem? — Edward
brandiu o papel antes de amassá-lo com força e atirá-lo no fogo.
— Não faço ideia — falou Iddesleigh. — Mas deve ser um frequentador
do Grotto de Aphrodite para saber tanto.
— Jesus! — Edward levantou da cadeira num pulo e enfiou os braços no
casaco. — Quando eu acabar com ele, o sujeito não será capaz de fazer
nada com uma prostituta. Vou arrancar as bolas dele. E então vou atrás de
Anna. Como ela ousa não me contar que alguém a está ameaçando? — Ele
parou com um súbito pensamento, então deu meia-volta na direção de
Iddesleigh. — Por que você não me deu o bilhete quando chegou?
O visconde deu de ombros, imperturbável diante da cara feia.
— O chantagista não vai chegar ao Grotto antes das nove. — Ele pegou
um canivete e começou a limpar debaixo das unhas. — São apenas sete e
meia agora. Não vi muita razão para apressar as coisas. Talvez a gente
possa comer primeiro?
— Se você não fosse tão útil de vez em quando — rosnou Edward —, eu
já o teria estrangulado.
— Ah, sem dúvida. — Iddesleigh guardou a faca e pegou sua capa. —
Mas seria bom pelo menos levar um pouco de pão e queijo na carruagem.
Edward franziu o cenho.
— Você não irá comigo.
— Irei, sim. — O visconde ajeitou o tricórnio no ângulo adequado no
espelho perto da porta. — E Harry também. Ele está esperando no corredor.
— Por quê?
— Porque, meu querido amigo, esta é uma das vezes em que eu posso
ser útil. — Iddesleigh sorriu com ar selvagem. — Você vai precisar de
padrinhos para o duelo, não vai?
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