O Príncipe Corvo
Capítulo Onze
“Muitos meses se passaram com Aurea morando no castelo de seu marido
corvo. Durante o dia, ela se entretinha lendo as centenas de livros
esclarecedores na biblioteca do castelo ou fazendo longos passeios no
jardim. À noite, ela se banqueteava com as guloseimas com que apenas
sonhara em sua antiga vida. Tinha belos vestidos para usar e joias
inestimáveis com que se enfeitar. Algumas vezes, o corvo a visitava,
aparecendo subitamente em seus aposentos ou juntando-se a ela no jantar,
sem aviso. Aurea descobriu que seu estranho esposo possuía uma mente
ampla e inteligente, e os dois tinham conversas fascinantes. Mas o grande
pássaro preto sempre desaparecia antes que ela fosse para seus aposentos.
E todas as noites, na escuridão, um estranho surgia na cama de núpcias e
fazia amor com ela de forma maravilhosa...”
— O Príncipe Corvo
— Salve, ó defensor dos nabos e mestre das ovelhas! — saudou
arrastadamente uma voz grave e sarcástica na manhã seguinte. — Que bom
vê-lo, meu amigo Agrário!
Edward forçou a vista através da fumaça na cafeteria cavernosa. Ele mal
era capaz de distinguir quem falava com ele, espreguiçando-se numa mesa
no canto direito, nos fundos. Defensor dos nabos, hein? Abrindo um
caminho sinuoso em meio às mesas amontoadas e escurecidas pelo tempo,
Edward alcançou o homem e deu um forte tapa em suas costas.
— Iddesleigh! Ainda não são nem cinco da tarde. Por que você está
acordado?
Simon, visconde Iddesleigh, não foi para a frente com o tapa enérgico
nas costas — ele deve ter-se segurado —, mas fez uma careta. Magro e
elegante, ele usava uma requintada peruca empoada e uma camisa com a barra de renda. Para muitos, sem dúvida, pareceria um janota. Mas as
aparências, nesse caso, enganavam.
— Sou conhecido por ver a luz do dia antes do meio-dia — disse
Iddesleigh —, embora não com frequência. — Ele chutou uma cadeira da
mesa. — Sente-se, homem, e compartilhe deste líquido sagrado que se
chama café. Se os deuses soubessem disso, não precisariam de néctar no
Olimpo.
Edward acenou com a mão para um garoto que servia as bebidas e pegou
a cadeira ofertada. Ele assentiu com a cabeça para o terceiro homem
silencioso que dividia a mesa.
— Harry. Como vai?
Harry Pye era administrador de terras numa propriedade em alguma
parte do norte da Inglaterra. Ele não ia a Londres com muita frequência.
Devia estar ali a negócios. Em contraste com o espalhafatoso visconde,
Harry quase se misturava à mobília de madeira do local. Era um homem ao
qual a maioria mal prestaria atenção, com seu casaco marrom e colete
comuns. Edward sabia muito bem que o outro homem trazia uma adaga
perigosa em sua bota.
Harry acenou com a cabeça.
— Milorde. É bom ver o senhor. — Ele não sorriu, mas viu-se um brilho
divertido em seus olhos verdes.
— Pelo amor de Deus, Harry, quantas vezes já lhe disse para me chamar
de Edward ou de Raaf? — Ele fez um novo sinal ao garoto.
— Ou Ed, ou Eddie — interveio Iddesleigh.
— Eddie, não. — O garoto pousou a caneca com uma pancada, e
Edward tomou um gole, agradecido.
— Sim, milorde. — Ele ouviu Harry murmurar, mas não se deu ao
trabalho de responder.
Ele olhou ao redor do recinto. O café naquele lugar era muito bom. Essa
era a razão principal para a Sociedade Agrária reunir-se ali. Sem dúvida não
era pela arquitetura. O cômodo estava lotado e tinha um teto baixo demais.
A verga da pequena porta era conhecida por causar aos frequentadores mais
altos uma pancada feia na cabeça ao entrar. As mesas provavelmente nunca
haviam sido esfregadas, e as canecas não suportavam uma inspeção mais
atenta. Além disso, os funcionários eram um bando de indolentes,
seletivamente surdos quando não estavam com vontade de servir, fosse qual
fosse a classe social do cliente. Mas o café era fresco e forte, e qualquer um era bem-vindo, desde que se interessasse por agricultura. Edward
reconheceu alguns homens com títulos de nobreza sentados às mesas, mas
também havia pequenos proprietários de terra que foram passar o dia em
Londres, e até administradores, como Harry. Os membros da Sociedade
Agrária eram conhecidos pela estranha igualdade de seu clube.
— E o que o traz à nossa adorável, ainda que fétida, capital? —
perguntou Iddesleigh.
— Estou negociando uma aliança matrimonial — retrucou Edward.
Os olhos de Harry Pye se aguçaram por cima da borda da caneca. Sua
mão a envolvia. Havia um espaço desconcertante onde o dedo anelar
deveria estar, mas não estava.
— Ah, mais corajoso do que eu — comentou Iddesleigh. — Você devia
estar comemorando as núpcias iminentes quando eu o vi na noite passada
no agradável Grotto de Aphrodite.
— Você estava lá? — Edward se sentiu estranhamente reticente. — Eu
não o vi.
— Não. — Iddesleigh deu um risinho. — Você parecia, ah, relaxado
quando o vi saindo do estabelecimento. Eu, de minha parte, estava ocupado
com duas ávidas ninfas; caso contrário, teria cumprimentado você.
— Apenas duas? — perguntou Harry, sem rodeios.
— Uma terceira se juntou a nós depois. — Os olhos cinzentos de
Iddesleigh brilharam quase inocentemente. — Mas eu hesitei em admitir
isso, com receio de que essa informação lhes causasse dúvidas sobre sua
própria masculinidade.
Harry bufou.
Edward sorriu e chamou o garoto que trazia as bebidas. Ele esticou um
dedo, pedindo outra caneca.
— Bom Deus! Você não está ficando meio velho para tanto esforço?
O visconde pousou a mão coberta de renda no peito.
— Eu lhe garanto, pelos meus antepassados mortos e putrefatos, que as
três moças sorriram quando eu as deixei.
— Provavelmente por causa do ouro que estão carregando agora —
disse Edward.
— Você me ofende profundamente — retrucou o visconde enquanto
abafava um bocejo. — Além disso, você também deve ter participado de
alguma libertinagem no domínio da deusa. Admita.
— Verdade. — Edward franziu a testa para a caneca. — Mas não vou
continuar fazendo isso por muito mais tempo.
O visconde ergueu o olhar depois de inspecionar o bordado prateado no
casaco.
— Não diga que você pretende ser um noivo casto.
— Não vejo opção.
As sobrancelhas de Iddesleigh se arquearam.
— Essa não é uma interpretação um tanto literal, para não mencionar
arcaica, dos votos matrimoniais?
— Talvez. Mas creio ser necessária para um casamento bem-sucedido.
— Edward sentiu a mandíbula travar. — Quero que dê certo desta vez. Eu
preciso de um herdeiro.
— Eu lhe desejo sorte, então, meu amigo — disse Iddesleigh em voz
baixa. — Você deve ter escolhido sua dama cuidadosamente.
— Sim, de fato. — Edward fitou a caneca pela metade. — Ela é de uma
família impecável e mais antiga do que a minha. E não sente repulsa às
minhas cicatrizes. E eu sei disso porque perguntei a ela, algo que deixei de
fazer com a minha primeira esposa. Ela é inteligente e tranquila. É bonita,
mas não linda. E vem de uma família grande. Se Deus permitir, será capaz
de me dar filhos fortes.
— Uma dama puro-sangue para um cavalheiro puro-sangue. — A boca
de Iddesleigh se curvou. — Em breve, seus estábulos vão transbordar com
uma progênie barulhenta e chorona. Tenho certeza de que você mal pode
esperar para começar a fazer a prole na sua pretendida.
— Quem é a dama? — perguntou Harry.
— A filha mais velha de Sir Richard Gerard, Srta. Sylvia...
Iddesleigh soltou uma exclamação abafada. Harry o encarou.
— Gerard. Você a conhece? — Edward terminou a frase lentamente.
Iddesleigh examinou a renda em seus punhos.
— Meu irmão. A esposa de Ethan era uma Gerard. Se bem me lembro, a
mãe foi bem desagradável no casamento.
— Ela ainda é. — Edward deu de ombros. — Mas duvido que ele tenha
muito contato com ela depois de casado.
Harry ergueu sua xícara.
— Parabéns pelo noivado, milorde.
— Sim, parabéns. — O visconde ergueu a caneca também. — E boa
sorte, meu amigo.
Um focinho frio contra sua bochecha acordou Anna. Ela espiou e viu os
olhos caninos castanhos a apenas alguns centímetros dos seus. Eles a
fitavam, carentes. O hálito pungente do cão ofegava em seu rosto. Ela
gemeu e virou a cabeça para olhar pela janela. A aurora clareava o céu de
um tom pêssego e sonolento para o azul forte e mais alerta do dia.
Ela se voltou para os olhos caninos que a observavam.
— Bom dia, Jock.
Jock tirou as patas dianteiras do colchão ao lado da cabeça dela e recuou
para poder se sentar. Ele estava imóvel, com as orelhas de pé, o corpo ereto,
olhos atentos a cada gesto de Anna. O epítome de um cão esperando o
passeio.
— Ah, está bem. Estou levantando. — Ela caminhou com dificuldade
até a bacia e se lavou rapidamente antes de se vestir.
Cão e mulher se esgueiraram pelos degraus dos fundos.
Coral morava numa rua elegante, perto de Mayfair, ladeada por casas de
pedra branca com apenas alguns anos. A maioria estava silenciosa, exceto
por uma ou outra criada lavando os degraus da frente ou polindo uma
maçaneta. Normalmente, Anna se sentiria pouco à vontade caminhando em
um lugar estranho sem companhia, mas Jock estava com ela. Ele se inclinou
para mais perto, como se quisesse protegê-la de qualquer um que se
aproximasse. Os dois caminharam em um silêncio amistoso. Jock se
ocupava farejando os odores intrigantes da cidade, e ela se perdia em seus
próprios pensamentos.
Durante a noite, Anna havia pensado em sua situação e, quando acordou
de manhã, já sabia o que deveria fazer. Não podia encontrá-lo à noite. Ela
estava brincando com fogo, e não podia mais esconder esse fato de si
mesma. Em sua necessidade de estar com Lorde Swartingham, ela havia
deixado toda a cautela de lado. Fizera uma viagem imprudente até Londres
e fora a um bordel, como se fosse a personagem de um musical de Little
Battleford. Era um milagre que ele não tivesse descoberto. E o incidente da
noite anterior com os jovens bêbados fora arriscado demais. Ela poderia ter
sido estuprada ou ferida, ou as duas coisas. Era hipocrisia de sua parte
reprovar os homens por fazerem a mesma coisa que ela havia feito nas
últimas duas noites. Anna se encolheu ao pensar no que Lorde Swartingham
teria dito se a descobrisse lá. Ele era um homem muito orgulhoso, com um
temperamento horrível.
Anna balançou a cabeça e ergueu o olhar. Eles estavam somente a umas
poucas casas da residência de Coral. Seus passos a haviam conduzido de
volta ou Jock tinha um instinto de direção.
Ela afagou a cabeça do cão.
— Bom garoto. É melhor irmos e começarmos a arrumar as coisas para
voltar para casa.
Jock esticou as orelhas ao ouvir a palavra casa.
Nesse momento, uma carruagem parou na frente da casa de Coral. Anna
hesitou e, em seguida, refez seus passos, dobrou a esquina e espiou. Quem
faria uma visita numa hora assim tão inconveniente? Um lacaio saltou da
carruagem e colocou um degrau de madeira debaixo da porta antes de abrir.
Uma perna masculina avançou, mas voltou novamente para a carruagem.
Ela conseguiu ver o lacaio movendo o degrau um centímetro ou dois para a
esquerda; então, um homem robusto, com ombros pesados, desceu. Ele
parou um instante para dizer alguma coisa ao lacaio. Pelo modo como o
criado baixou a cabeça, parecia ser uma reprimenda.
O homem robusto entrou na casa.
Seria o marquês de Coral? Anna contemplou essa reviravolta enquanto
Jock esperava pacientemente ao seu lado. Pelo pouco que ela sabia sobre o
marquês, talvez não fosse prudente encontrá-lo. Não queria causar
problemas a Coral, e tinha medo de permitir que alguém de boa reputação a
visse na residência. Embora fosse bastante improvável que ela voltasse a
cruzar com um marquês, o incidente da véspera com os bêbados a deixara
cautelosa. Anna decidiu entrar na casa pela passagem dos criados e talvez
escapar de ser notada.
— Que bom que eu estava planejando ir embora hoje de qualquer forma
— murmurou para Jock enquanto os dois cruzavam a cozinha.
Viu-se uma grande agitação na cozinha. Criadas apressavam-se, e os
lacaios ajudavam a carregar uma montanha de bagagens. A presença de
Anna nem sequer foi percebida ao subir a escada escura dos fundos. Melhor
assim. Ela e Jock se moveram silenciosamente pelo corredor do andar de
cima. Anna abriu a porta de seu quarto e encontrou Pearl ansiosa à sua
espera.
— Ah, graças a Deus a senhora voltou, Sra. Wren — falou a outra
mulher ao vê-la.
— Levei Jock para uma caminhada — disse Anna. — Foi o marquês de
Coral que eu vi entrando pela frente?
— Sim — confirmou Pearl. — Coral achava que ele ficaria fora por
mais uma semana ou mais. Ele ficará furioso se descobrir que ela tem
convidadas.
— Eu já ia arrumar as coisas e sair, então vou ficar fora do caminho
dele.
— Obrigada, senhora. Isso vai facilitar muito para Coral, vai sim.
— Mas o que você vai fazer, Pearl? — Anna se inclinou para puxar a
bolsa de baixo da cama. — Coral falou que queria que você ficasse com ela.
Será que o marquês vai deixá-la ficar?
Pearl puxou um fio que pendia de seu punho.
— Coral acha que pode convencê-lo a me deixar ficar, mas eu não sei.
Às vezes, ele é bem cruel, mesmo sendo um lorde. E a casa pertence a ele,
sabe?
Anna fez que sim com a cabeça enquanto dobrava cuidadosamente suas
meias.
— Fico feliz por Coral ter um bom lugar para morar, com criados,
carruagens e coisas assim — disse Pearl devagar. — Mas esse marquês me
deixa nervosa.
Anna fez uma pausa com os braços cheios de roupas.
— Você não acha que ele a machucaria, acha?
Pearl a fitou sombriamente.
— Não sei.
Edward rondou o quarto do bordel como um tigre enjaulado a quem fora
negada uma refeição. A mulher estava atrasada. Ele checou o relógio de
porcelana sobre a lareira mais uma vez. Meia hora de atraso, droga! Como
ela ousava fazê-lo esperar? Ele esticou a mão até a lareira e fitou as chamas.
Nunca tinha voltado com tanta obsessão para a mesma mulher. Não uma,
não duas, mas três vezes agora.
A cada vez o sexo era melhor. Ela era bastante receptiva. E havia se
entregado por completo, agindo como se estivesse sob seu encanto tanto
quanto ele estava sob o dela. Edward não era ingênuo. Sabia que mulheres
que eram pagas para fazer sexo frequentemente fingiam uma excitação que
não sentiam. Mas uma reação natural do corpo não poderia ser forjada. Ela
havia ficado molhada, literalmente ensopada em seu desejo por ele.
Ele gemeu. E só de pensar naquela boceta molhada fez seu pênis reagir.
Onde diabos ela estava?
Edward xingou e se afastou da cornija para andar de um lado para outro.
Ele havia até começado a sonhar acordado, como um garoto romântico,
sobre como o rosto dela era por baixo da máscara. Mais perturbador,
imaginara que ela poderia se parecer com Anna.
Ele parou e encostou a parte de trás da cabeça na parede, com as mãos
apoiadas nas laterais do corpo. Seu peito se expandiu enquanto ele respirava
fundo. Ele tinha vindo a Londres para se livrar desse terrível fascínio pela
pequena secretária antes de se casar. Em vez disso, havia descoberto uma
nova obsessão. Mas isso havia acabado com a fixação original? Ah, não.
Seu desejo por Anna não somente tinha aumentado, como também se havia
misturado ao desejo pela misteriosa prostituta. Agora ele tinha duas
obsessões em vez de uma, e elas estavam embaralhadas em sua mente
extenuada.
Ele bateu a cabeça na parede. Talvez estivesse ficando louco. Isso
explicaria tudo.
Mas é claro que nada disso importava ao seu pênis. Louco ou são, o
órgão ainda estava bastante ansioso para sentir a abertura apertada e
escorregadia da mulher. Ele parou de bater a cabeça na parede e olhou mais
uma vez para o relógio. Ela estava 33 minutos atrasada agora.
Pelas bolas do Senhor, ele não iria esperar nem mais um minuto.
Edward pegou o casaco e saiu, batendo a porta do quarto. Dois
cavalheiros de cabelos grisalhos estavam caminhando pelo corredor. Eles
olharam para Edward e se afastaram para o lado quando ele passou em
disparada. O conde desceu correndo a grande escada, dois degraus por vez,
e entrou na saleta onde os clientes do sexo masculino circulavam e
encontravam damas disfarçadas e prostitutas. Ele examinou aquele cômodo
cafona. Havia algumas mulheres vestidas com cores fortes, cada uma delas
cercada por homens ansiosos, mas somente uma usava uma máscara
dourada. Ela era mais alta do que as outras mulheres e estava afastada de
todos, alerta à energia do cômodo. A máscara que cobria quase todo o rosto
era agradável e serena; as sobrancelhas simétricas eram arcos feitos acima
das aberturas dos olhos amendoados. Aphrodite observava suas mercadorias
com olhos de águia.
Edward caminhou diretamente até a madame.
— Onde ela está? — quis saber ele.
A madame, normalmente uma mulher imperturbável, recuou diante
daquela pergunta súbita.
— Lorde Swartingham, não é?
— Sim. Onde está a mulher que eu deveria encontrar hoje?
— Ela não está em seu quarto, milorde?
— Não. — Edward trincou os dentes. — Não, ela não está no quarto. Se
estivesse, eu estaria aqui perguntando?
— Nós temos várias outras damas dispostas, milorde. — A voz de
madame soou lisonjeira. — Quem sabe eu possa enviar outra ao seu quarto?
Edward se inclinou para a frente.
— Eu não quero outra. Quero a mulher que eu tive na noite passada e na
anterior. Quem é ela?
Os olhos de Aphrodite se moveram por trás da máscara dourada.
— Ora, milorde, o senhor sabe que não podemos revelar a identidade de
nossas adoráveis pombinhas aqui no Grotto. Integridade profissional, sabe?
Edward bufou.
— Dane-se a integridade profissional de um prostíbulo. Quem. É. Ela?
Aphrodite deu um passo para trás, como se estivesse alarmada. Não seria
de admirar, pois ele agora se agigantava sobre ela. A madame fez um sinal
com a mão para alguém, por cima do ombro dele.
Edward estreitou os olhos. Ele sabia que tinha apenas alguns minutos.
— Eu quero o nome, agora, ou vou achar ótimo provocar uma confusão
em seu salão.
— Não há necessidade de ameaças. Há muitas outras garotas aqui que
ficariam ansiosas para passar a noite com o senhor. — A voz de Aphrodite
continha uma dose de desdém. — Aquelas que não se importam com uma
ou duas marcas de varíola.
Edward ficou imóvel. Ele conhecia muito bem a aparência de seu rosto.
Aquilo não o afligia mais — já havia passado da idade de sofrer por
vaidade —, mas era algo que repelia algumas mulheres. A pequena
prostituta não parecera importar-se com suas cicatrizes. Porém, na noite
anterior, eles tinham feito amor na cadeira sob a luz do fogo. Talvez tenha
sido a primeira vez que ela vira seu rosto com clareza. Ela deve ter ficado
tão enojada pela visão que não se deu ao trabalho de aparecer na noite
seguinte.
Desgraçada.
Edward girou nos calcanhares. Ele pegou uma imitação de vaso chinês,
ergueu-o acima da cabeça e arremessou-o no chão. O objeto se espatifou com um estrondo. A conversa cessou no cômodo enquanto as cabeças se
viravam.
Pensar demais era ruim para um homem. Ele precisava agir. Se não
podia liberar sua energia na cama, bem, essa era a segunda opção.
Ele foi agarrado por trás e arrastado dali. Um punho do tamanho de um
presunto voou na direção de seu rosto. Edward se inclinou para trás. O soco
passou assobiando por seu nariz. Com o próprio punho direito, ele acertou a
barriga do outro homem, que bufou, expelindo o ar dos pulmões — que som
adorável — e cambaleou.
Três homens chegaram para tomar o lugar do outro. Eram os
brutamontes que trabalhavam no estabelecimento acompanhando os
encrenqueiros até o lado de fora. Um deles acertou um gancho na face
esquerda de Edward. Ele viu estrelas, mas isso não o impediu de revidar o
golpe com um belo soco no queixo.
Alguns clientes soltaram gritos de encorajamento.
E então, depois disso, as coisas ficaram confusas. Muitos espectadores
pareciam ser torcedores que consideravam as chances desiguais. Eles se
juntaram à briga com entusiasmo embriagado. As garotas haviam subido
nos canapés, dando gritinhos e desarrumando a mobília em sua pressa de
sair do caminho. Aphrodite estava parada no meio do cômodo, gritando
ordens que ninguém conseguia ouvir. Ela parou abruptamente quando
alguém empurrou sua cabeça numa tigela de ponche. Mesas voaram pelo ar.
Uma cortesã arrojada começou a anotar apostas no corredor dos homens e
das garotas que lotavam as escadas para ver a confusão. Mais quatro
grandalhões e pelo menos a mesma quantidade de homens vindos dos
quartos do segundo andar se juntaram à briga. Era evidente que alguns dos
convidados haviam sido interrompidos em seu divertimento, pois estavam
apenas de calça ou — no caso de um cavalheiro idoso de aparência distinta
— de camisa e nada mais.
Edward estava se divertindo imensamente.
O sangue escorria do lábio cortado até o queixo, e ele podia sentir um
dos olhos fechando lentamente por causa do inchaço. Um patife baixote se
agarrou às suas costas e o atingiu na cabeça e nos ombros. Na frente dele,
outro homem maior tentou dar um chute em suas pernas. Edward se desviou
do golpe e ergueu o próprio pé, empurrando a perna do outro homem e
fazendo-o perder o equilíbrio. Ele caiu como se fosse um colosso.
O duende em suas costas já estava incomodando. Segurando o homem
pelos cabelos, Edward rapidamente bateu as próprias costas em uma parede.
Ele ouviu uma pancada quando a cabeça do homem atingiu a superfície
sólida. O infeliz escorregou do ombro do conde e aterrissou no assoalho
junto com um bocado de gesso da parede.
Edward sorriu e olhou com expressão séria com o olho bom em busca de
outros oponentes. Um dos brutamontes da casa tentou sair discretamente
pela porta. Ele tinha um olhar selvagem ao virar-se para trás quando
Edward mirou nele, mas não restava nenhum comparsa para vir em seu
auxílio.
— Tenha compaixão, milorde. Eu não ganho o suficiente para apanhar
feio desse jeito, como o senhor fez com o restante dos rapazes. — O
grandalhão levantou as mãos e recuou. — Ora, o senhor até derrubou o
Grande Billy, e eu nunca vi um homem mais rápido que ele.
— Muito bem — disse Edward. — Apesar de eu não poder ver com meu
olho direito, o que deixa a briga mais equilibrada... — Ele olhou com
esperança para o briguento encolhido, que esboçava um sorriso e balançava
a cabeça. — Não? Ora, então você conhece algum lugar onde um homem
possa se embebedar de verdade, não conhece?
Então, mais tarde, Edward se viu no que devia ser a taberna mais suja do
East End de Londres. Com ele, estavam os brutamontes, incluindo Grande
Billy, que agora cuidava de um nariz inchado e dois olhos roxos, mas sem
ressentimentos. Grande Billy passou o braço ao redor dos ombros de
Edward e estava tentando ensinar a ele as palavras de uma cançoneta
exaltando os encantos de uma mocinha chamada Julieta. A canção parecia
ter um monte de expressões muito espirituosas, cheias de duplo sentido,
que, Edward suspeitava, passavam despercebidas por ele, pois passara as
últimas duas horas pagando bebidas para todos no recinto.
— Q-quem era a prostituta que o senhor estava procurando e que
começou tudo, milorde? — Jackie, o grandalhão que fez a pergunta, não
havia perdido uma única rodada de bebidas. Ele dirigiu à pergunta para o ar
em alguma parte à direita de Edward.
— Mulher traidora — murmurou Edward para a cerveja.
— Todas as prostitutas são vagabundas traidoras. — Esta gota de
sabedoria masculina veio de Grande Billy.
Os homens presentes assentiram sombriamente, embora isso fizesse com
que um ou dois perdessem o equilíbrio e se sentassem um tanto abruptamente.
— Não. Isso não é verdade — disse Edward.
— O que não é verdade?
— Que todas as mulheres são traidoras — explicou ele com cuidado. —
Conheço uma mulher que é p-pura como neve.
— Quem é? Conte-nos, então, milorde! — Os homens bradaram para
ouvir o nome desse modelo de perfeição do sexo feminino.
— A Sra. Anna Wren. — Ele ergueu o copo precariamente. — Um
brinde! Um brinde à dama mais im-im-poluta na Inglaterra. A Sra. Anna
Wren!
A taberna irrompeu em gritos e brindes exaltados para a dama. E
Edward se perguntou por que as luzes subitamente se apagaram.
Sua cabeça estava estourando. Edward abriu os olhos, mas então
imediatamente pensou melhor e fechou-os com força novamente. Com
cuidado, ele tocou a têmpora e tentou pensar por que o topo de sua cabeça
parecia prestes a explodir.
Ele se lembrou do Grotto de Aphrodite.
Ele se lembrou da mulher que não apareceu.
Ele se lembrou de uma briga. Edward fez uma careta e, cautelosamente,
avaliou sua boca com a língua. Seus dentes estavam todos intactos. Isso era
uma boa notícia.
Edward esforçou-se para pensar.
Ele se lembrou de encontrar um sujeito bem-disposto... Grande Bob?
Grande Bert? Não. Grande Billy. Ele se lembrou... Ai, Deus! Ele se
lembrou do brinde à Anna no pior buraco no qual já tivera a infelicidade de
beber cerveja batizada com água. Seu estômago se revirou, provocando
uma sensação desagradável. Será que ele realmente dissera o nome de Anna
em alto e bom som num lugar desses? Sim, ele achava que sim. E, se
lembrava bem, todo o recinto, com aqueles trastes mal-afamados, tinha
brindado a ela com grosserias.
Ele gemeu.
Davis abriu a porta, deixando-a bater na parede, e lentamente se arrastou
para dentro do cômodo trazendo uma bandeja carregada.
Edward soltou outro gemido. O som da porta quase fizera seu escalpo se
separar do crânio.
— Maldito seja! Agora, não, Davis.
Davis continuou em seu andar de lesma até a cama.
— Eu sei que você pode me ouvir — falou ele um pouco mais alto, mas
não alto demais, com medo de sua cabeça explodir novamente.
— Andamos enchendo a cara, não é, milorde? — gritou Davis.
— Eu não sabia que você também tinha passado da conta na bebida —
comentou Edward por trás das mãos que cobriam seu rosto.
Davis o ignorou.
— Uns cavalheiros muito simpáticos trouxeram o senhor para casa
ontem à noite. São seus novos amigos?
Edward abriu os dedos para lançar um olhar de ódio ao valete.
Evidentemente, isso não surtiu o menor efeito no homem.
— O senhor já está meio grandinho para beber tanto, milorde. Pode dar
gota, na sua idade.
— Fico impressionado com sua preocupação com a minha saúde. —
Edward olhou para a bandeja que Davis agora conseguira pousar na
mesinha de cabeceira. Ela continha uma xícara de chá, já frio, a julgar pela
espuma flutuando no topo, e uma tigela de torrada umedecida com leite. —
Que diabo é isso? Papinha de bebê? Me traga um pouco de conhaque para
melhorar minha cabeça.
Davis fingiu não ouvir com uma pose que teria feito justiça ao melhor
palco de Londres. Ele tivera muitos anos de prática, afinal.
— É um excelente café da manhã para animar o senhor — censurou o
valete em seu ouvido. — Na sua idade, leite é muito revigorante.
— Saia! Saia! Saia! — rugiu Edward, e então teve de segurar a cabeça
novamente.
Davis recuou até a porta, mas não conseguia resistir a uma última
alfinetada.
— O senhor precisa tratar esse temperamento, milorde. Pode ficar com
apoplexia, com o rosto todo vermelho e os olhos esbugalhados. Um jeito
horrível de morrer, isso sim.
Ele passou pela porta correndo com incrível destreza para um homem de
sua idade. Pouco antes de a tigela com torrada e leite bater nela.
Edward gemeu e fechou os olhos, e sua cabeça voltou para o travesseiro.
Ele deveria se levantar e começar a arrumar as coisas para voltar para casa.
Havia conseguido uma noiva e visitado o Grotto, não uma, mas duas vezes.
Na verdade, fizera tudo o que pretendia fazer quando decidira vir a
Londres. E, mesmo que ele se sentisse muito pior agora do que quando chegara, não havia motivos para permanecer na cidade. A pequena
prostituta não voltaria, ele nunca mais a veria, e tinha de cuidar de suas
responsabilidades. E era assim que deveria ser.
Não havia espaço em sua vida para uma mulher mascarada misteriosa e
o prazer efêmero que ela lhe trouxera.
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