O Príncipe Corvo

Elizabeth Hoyt · Capítulo 15 de 26

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O Príncipe Corvo

Capítulo Treze

 

 

“Então Aurea foi para casa visitar seu pai. Ela viajou numa carruagem

puxada por cisnes voadores e levou consigo muitas coisas belas para dar à

família e aos amigos. Mas, quando suas irmãs viram os presentes

maravilhosos que a jovem trouxera para casa, seus corações, em vez de se

encherem de gratidão e prazer, chafurdaram em inveja e maldade. As irmãs

puseram as belas e frias cabeças lado a lado e começaram a interrogar

Aurea sobre o novo lar e o curioso marido. E, pouco a pouco, ficaram

sabendo de tudo: das riquezas do palácio, dos criados-aves, das refeições

exóticas e finalmente — e mais importante — do amante noturno. Ao ouvir

esta última informação, as duas sorriram por trás das mãos pálidas e

começaram a plantar as sementes da dúvida na mente da irmã caçula...”

 

— O Príncipe Corvo

 

— Mais para cima. — Felicity Clearwater franziu o cenho e fitou o teto na

sala de estar maior. As cortinas fechadas obscureciam o sol da tarde do lado

de fora. — Não. Não, mais para a esquerda.

Uma voz masculina murmurou irritada.

— Ahh! — disse ela. — Aí. Acho que você conseguiu. — No canto,

uma rachadura serpenteava pelo teto. Ela nunca a havia percebido. Devia

ser nova. — Você a encontrou?

Chilton Lillipin, “Chilly” para os íntimos, grupo que incluía Felicity,

cuspiu um fio de cabelo.

— Minha queridinha, tente relaxar. Você está atrapalhando minha arte.

— Ele se inclinou novamente.

Arte? Ela conteve uma risada irônica. Fechou os olhos por alguns

instantes e tentou se concentrar no amante e no que ele estava fazendo, mas

não adiantou. Abriu os olhos de novo. Ela precisava mesmo chamar uma

pessoa para reparar aquela rachadura. E, da última vez que alguém viera consertar alguma coisa, Reginald havia sido um grosseirão, bateu os pés e

resmungou, como se os trabalhadores estivessem ali somente para

incomodá-lo. Felicity suspirou.

— Isso aí, amorzinho — disse Chilly, lá de baixo. — Apenas relaxe e

deixe o mestre dos amantes levá-la ao paraíso.

Ela revirou os olhos. Quase se esquecera do mestre dos amantes. E

suspirou novamente. Não havia jeito.

Felicity começou a gemer.

Quinze minutos depois, Chilly estava de pé diante do espelho da sala de

estar, ajustando a peruca cuidadosamente. Ele estudou o próprio reflexo e

deslizou a peruca para a direita na cabeça raspada. Era um belo homem,

mas faltava-lhe alguma coisa, na opinião de Felicity. Seus olhos eram de

um puro azul, mas um tanto juntos. Seus traços eram harmoniosos, mas o

queixo emendava no pescoço. E os membros eram musculosos, mas suas

pernas eram um tantinho curtas demais em comparação com o restante do

corpo. O que lhe faltava fisicamente carecia também na personalidade. Ela

ouvira rumores de que, embora fosse habilidoso na esgrima, Chilly

demonstrava sua proeza desafiando homens menos talentosos para os

duelos e, então, os matava.

Felicity estreitou os olhos. Ela não confiaria em Chilly se desse de cara

com ele em um beco escuro, mas ele tinha suas utilidades.

— Você descobriu aonde ela foi em Londres?

— Claro. — Chilly deu um risinho para si mesmo no espelho. O canino

dourado piscou para ele. — A vadiazinha terminou num bordel chamado

Grotto de Aphrodite. Não uma, mas duas vezes. Dá para acreditar?

— Grotto de Aphrodite?

— É um estabelecimento de alto nível. — Chilly deu um último puxão

na peruca e esqueceu o espelho para olhar para ela. — Damas da alta

sociedade algumas vezes vão lá disfarçadas para encontrar seus amantes.

— É mesmo? — Felicity tentou não parecer intrigada.

Chilly serviu um copo cheio do melhor conhaque contrabandeado do

escudeiro.

— Parece um pouco caro para uma viúva do interior.

Sim, parecia. Como Anna Wren havia pagado para estar naquele lugar?

O estabelecimento que Chilly descreveu era sofisticado. Seu amante tinha

de ser rico. E devia ter um bom conhecimento de Londres e dos redutos de

baixa reputação da alta sociedade. E o único cavalheiro que se encaixava nessa descrição em Little Battleford, o único cavalheiro que tinha ido a

Londres no mesmo período que Anna Wren, era o conde de Swartingham.

Um calafrio de triunfo desceu pela coluna de Felicity.

— Então, que história é essa? — Chilly olhou por cima do copo para ela.

— Quem se importa se uma senhorinha sem graça tem uma vida secreta? —

Ele soou um tanto curioso demais para o gosto dela.

— Deixe para lá. — Felicity se recostou na chaise longue, se esticou de

modo luxuriante, e seus seios se empinaram. Imediatamente, a atenção de

Chilly foi desviada para ela. — Eu lhe conto um dia.

— Será que eu não mereço nem uma recompensa? — Chilly fez um

biquinho, uma visão nada atraente. Ele se aproximou e sentou-se na beirada

da chaise.

Ele havia feito um bom trabalho. E Felicity sentia-se satisfeita com o

mundo. Por que não agradar o homem? Ela esticou uma mão felina para os

botões da calça de Chilly.

 

À noite, Edward tirou a gravata estropiada do pescoço. Ele tinha de

controlar seus impulsos corporais. Fez cara feia e atirou a peça amassada

sobre uma cadeira. Seu quarto na abadia era um local um tanto sombrio,

com mobília grande e pesada, de cores desbotadas e tristonhas. Era de

admirar que os De Raafs tivessem sido capazes de manter a linhagem

familiar nesse ambiente.

Davis, como sempre, não estava por perto quando poderia ser útil.

Edward prendeu o calcanhar de sua bota na descalçadeira e começou a tirar

o pé do sapato. Havia ficado muito perto de não deixar Anna ir embora dos

estábulos. De beijá-la, na verdade. Era exatamente o tipo de coisa que

tentava evitar nas últimas semanas.

Uma bota caiu no chão, e ele começou a retirar o outro pé. A viagem a

Londres deveria ter resolvido esse problema. E, agora, com o casamento

praticamente acertado... Bom, ele tinha de começar a assumir o papel de um

homem que estaria casado em breve. Nada de pensar nos cabelos de Anna

nem no motivo de ela ter deixado de usar o gorro. Nada de contemplá-la

quando ela se aproximara dele e aplicava o bálsamo. E, sobretudo, não

pensaria em sua boca nem em como seria se ele a abrisse e...

Droga!

A segunda bota saiu, e Davis, com um timing excepcional, entrou no

quarto.

— Pai do Céu! Que cheiro é esse? Que fedor!

O valete segurava uma pilha de gravatas recém-lavadas, a aparente razão

para sua rara visita voluntária aos cômodos do patrão.

Edward suspirou.

— Boa noite para você também, Davis.

— Jesus! Caiu num chiqueiro, foi?

Edward começou a tirar as meias.

— Você sabe que alguns valetes passam o tempo ajudando os patrões a

vestirem e a tirarem a roupa em vez de ficarem fazendo comentários rudes?

Davis deu uma risada estridente.

— Rá. O senhor devia ter me dito antes que estava com problemas para

desabotoar sua calça, milorde. Eu teria ajudado.

Edward fez uma cara feia para ele.

— Apenas deixe as gravatas aí e saia.

Davis caminhou vacilante até a cômoda, abriu a gaveta superior e largou

as gravatas ali.

— O que é essa meleca em sua cara? — perguntou ele.

— A Sra. Wren gentilmente me deu um pouco de bálsamo para meus

hematomas esta tarde — explicou Edward com dignidade.

O valete se inclinou na direção do patrão e inspirou, fungando alto.

— É daí que vem o fedor. Tem cheiro de bosta de cavalo.

— Davis!

— Ora, mas tem. Não sinto nada tão fedorento desde que o senhor era

rapaz e caiu de bunda no chiqueiro da fazenda do Velho Peward. O senhor

se lembra disso?

— Como poderia esquecer com você por perto? — resmungou Edward.

— Jesus! Pensei que nunca fôssemos tirar o fedor do senhor daquela

vez. E eu tive que jogar sua calça fora.

— Por mais que a lembrança seja agradável...

— É claro que o senhor nunca teria caído lá se não estivesse dando uma

olhadela na filha do Velho Peward — emendou Davis.

— Eu não estava dando uma olhadela em ninguém. Eu escorreguei.

— Nada disso. — Davis coçou a cabeça. — Seus olhos estavam prestes

a saltar das órbitas, isso sim, espantados com os peitos grandes dela.

Edward trincou os dentes.

— Eu escorreguei e caí.

— Quase um sinal de Nosso Senhor lá em cima, isso sim — continuou

Davis, filosófico, enquanto engraxava os sapatos do patrão. — Olha para os

peitos de uma garota e aterrissa em merda de porco.

— Ora, pelo amor de Deus! Eu estava sentado na cerca do chiqueiro e

escorreguei.

— Prissy Peward bem que tinha umas tetas grandes, tinha sim.

Davis soou um pouco melancólico.

— Você nem estava lá.

— Mas o fedor daquele chiqueiro não era nada perto dessa bosta de

cavalo na sua cara.

— Da-vis.

O valete caminhou na direção da porta acenando uma mão cheia de

manchas senis diante de seu rosto ao passar.

— Deve ser bom mesmo deixar uma mulher esfregar bosta de ca...

— Davis!

— Na sua cara toda.

O valete alcançou a porta e cruzou o corredor, ainda resmungando.

Como seu andar era, como sempre, lento, Edward pôde ouvir suas

divagações por uns cinco minutos mais. Estranhamente, quanto mais Davis

se afastava da porta, mais alto falava.

Edward franziu o cenho ao olhar para o próprio reflexo no espelho de

fazer a barba. O bálsamo tinha um cheiro horrível. Ele esticou a mão para a

bacia e despejou um pouco de água da jarra na penteadeira. Pegou uma

toalha e então hesitou. O bálsamo já estava em seu rosto, e Anna ficara

contente ao aplicá-lo. Ele esfregou o polegar na beirada do queixo,

lembrando-se de suas mãos macias.

Edward jogou a toalha de rosto no chão.

Ele poderia muito bem lavar o bálsamo quando fosse se barbear pela

manhã. Não faria mal algum dormir com aquilo. O conde se afastou da

penteadeira e tirou o restante das roupas, dobrando-as e colocando-as numa

cadeira. Havia pelo menos uma vantagem em ter um valete incomum:

Edward aprendera a arrumar as próprias roupas, uma vez que Davis não se

dignava a fazer isso. De pé, nu, ele bocejou e se esticou antes de se deitar na

cama antiga de quatro colunas. Ele se inclinou e soprou a vela na mesinha

de cabeceira, então ficou deitado no escuro, fitando os contornos sombrios

das cortinas da cama. E se perguntou, sonolento, quantos anos elas tinham.

Com certeza, eram mais velhas do que a própria casa. Será que originalmente elas tinham essa tonalidade horrorosa de amarelo

amarronzado?

Seus olhos sonolentos olharam ao redor do quarto, e ele viu a forma de

uma mulher perto da porta.

Ele piscou e, subitamente, ela estava perto de sua cama.

E sorria. O mesmo sorriso de Eva quando havia estendido a fatídica

maçã para Adão. A mulher estava gloriosamente nua, a não ser por uma

máscara de borboleta no rosto.

Ele pensou: É a prostituta do Grotto de Aphrodite. E então: Estou

sonhando.

Mas o pensamento se dissipou. Lentamente, a mulher passou as mãos

pela barriga, atraindo o olhar dele, e então segurou os seios com as mãos

em concha, inclinando-se para a frente de modo que ficassem no nível dos

olhos dele. Então ela começou a beliscar os próprios mamilos e a brincar

com eles.

A boca de Edward ficou seca enquanto ele observava os mamilos se

repuxarem e adquirirem uma tonalidade vermelho-cereja. Ele ergueu a

cabeça para beijar os seios dela, pois já estava com água na boca pela

necessidade de prová-la, mas ela se afastou com um sorriso provocante. A

mulher puxou os cabelos castanhos cor de mel, que caíam pelo pescoço.

Tentáculos cacheados se prenderam nos braços dela. Ela arqueou as costas

esbeltas, empurrando os seios para cima e para a frente, como um fruto

suculento diante dele. Edward gemeu e sentiu o pênis latejar contra sua

barriga enquanto ela o provocava.

A mulher deu um sorriso de bruxa. Ela sabia exatamente o que estava

fazendo com ele. E alisou o tronco, alisou os seios empinados, a barriga

macia e parou. Seus dedos roçaram os cachos reluzentes de seus pelos

pubianos. Ele desejou que ela os movesse mais para dentro, mas ela o

provocou, passando os dedos levemente pelos fios. Quando ele estava

prestes a perder o controle, ela deu uma risadinha baixa e abriu as pernas.

Edward não sabia se ainda conseguia respirar. Seus olhos estavam fixos

nela e em sua boceta. Ela abriu os lábios de baixo para ele. Ele podia ver a

pele rubi reluzindo com fluido e sentia o odor almiscarado subindo de sua

carne. A mulher enfiou um dedo fino em sua abertura. Lentamente, subiu e

encontrou seu clitóris. Ela estava se tocando, seu dedo movendo-se em

círculos molhados sobre o botão. Seu quadril começou a girar, ela deixou a

cabeça pender para trás e gemeu. O som se misturou com o próprio gemido de Edward, de puro prazer. Ele estava duro como pedra, pulsando com

desejo.

Ele a viu inclinar a pelve na direção dele. A mulher deslizou o dedo

mediano para dentro de sua boceta e moveu-o para fora e para dentro, lenta

e languidamente, e o dedo brilhava com a umidade. A outra mão moveu-se

mais rápido sobre o clitóris, torturando o montinho frágil. Subitamente, ela

se retesou, sua cabeça ainda caída para trás, e gemeu, num tom baixo e

agudo. Seu dedo agiu furiosamente para dentro e para fora de seu corpo.

Edward gemeu de novo. Ele podia ver a evidência do orgasmo dela

escorrendo pelas coxas macias. A visão quase o enlouqueceu. A mulher

suspirou e relaxou, e seu quadril girou sensualmente mais uma vez. Ela

retirou os dedos de dentro de si mesma e os levou, úmidos e reluzentes, aos

lábios dele. Ela esfregou os dedos sobre sua boca, e ele provou seu desejo.

Confuso, Edward ergueu os olhos para o rosto da mulher e percebeu que a

máscara havia caído de seu rosto.

Anna sorria para ele.

Então, o orgasmo o invadiu, e Edward acordou e sentiu o espasmo quase

agonizante de seu pênis enquanto ele se liberava.

 

Os olhos de Anna se ajustaram à escuridão fria da manhã seguinte,

enquanto ela percorria a estreita trilha de terra dos estábulos da Abadia de

Ravenhill. O edifício era venerável. Servira à abadia durante algumas

reconstruções e expansões. Pedras do tamanho da cabeça de um homem

compunham a fundação e as paredes mais baixas. A 1,80m do chão, as

paredes eram de carvalho sólido, conduzindo a caibros expostos e a um teto

abobadado seis metros acima de suas cabeças. Abaixo, as baias ladeavam

um corredor central.

Os estábulos de Ravenhill tinham espaço para pelo menos cinquenta

cavalos, embora pouco mais de dez estivessem ali atualmente. A escassez

de animais a entristecia. Provavelmente, aquele lugar fora próspero, ativo.

Agora, os estábulos eram silenciosos — como um gigante grisalho,

sonolento. Tinha cheiro de cavalos baios, couro e décadas, talvez séculos,

de esterco de cavalo. O odor era cálido e receptivo.

Lorde Swartingham deveria encontrá-la ali pela manhã, para que

pudessem inspecionar outros campos a cavalo. A roupa de montaria

improvisada de Anna arrastava poeira atrás de si quando ela passava. De

vez em quando, uma cabeça equina aparecia, curiosa, sobre uma baia e relinchava uma saudação. Ela avistou o conde mais adiante, conversando

com o chefe dos cavalariços. Ele se agigantava acima do homem idoso.

Ambos estavam de pé sob um feixe de luz do sol empoei- rado na outra

extremidade do estábulo. Quando Anna se aproximou, pôde ouvir que

estavam discutindo sobre um dos cavalos que mancava. Lorde Swartingham

ergueu o olhar e a avistou. Ela parou perto da baia de Daisy, e ele sorriu e se

virou para o empregado.

Daisy já estava selada, com os arreios, e amarrada frouxamente na

passagem. Anna aguardou, conversando baixinho com a égua. Ela observou

Lorde Swartingham se inclinar para ouvir o cavalariço, completamente

concentrado no idoso. O homem era acabado e magrelo. Suas mãos eram

cheias de nós, por causa da artrite e dos ossos cicatrizados, quebrados havia

muito tempo. Seu porte era orgulhoso, com a cabeça ereta e rígida. O idoso,

como todos os homens do campo, falava lentamente e gostava de discutir

um problema à exaustão. Anna notou que o conde o deixava falar, sem

apressar nem cortar sua fala, até que o empregado sentiu que o problema

fora suficientemente discutido. Então, Lorde Swartingham deu um tapinha

amigável nas costas do homem e o observou sair do estábulo. O conde se

virou e começou a caminhar na direção dela.

Sem qualquer aviso, Daisy — a gentil e plácida Daisy — se empinou.

Cascos com ferraduras cortaram o ar a apenas alguns centímetros do rosto

de Anna. Ela caiu para trás, batendo na porta da baia e se encolheu. Um

casco bateu na madeira perto de seu ombro.

— Anna! — Ela ouviu o conde gritar mais alto do que o relincho

assustado dos cavalos próximos e do próprio gemido frenético de Daisy.

Um rato disparou por debaixo da porta da baia, balançando o rabo

pelado enquanto desaparecia. Lorde Swartingham segurou o cabresto da

égua e tirou-a dali. Anna ouviu um gemido e o bater da porta de uma baia.

Braços fortes a envolveram.

— Meu Deus, Anna, você se machucou?

Ela não conseguiu responder. O medo parecia ter fechado sua garganta.

Ele passou as mãos nos ombros e nos braços dela, rapidamente tateando e

alisando-a.

— Anna. — Seu rosto baixou para o dela.

Ela não conseguiu se controlar; seus olhos se fecharam.

Ele a beijou.

Seus lábios estavam quentes e secos. Macios e firmes. Eles se moveram

pelos dela suavemente, antes que o conde inclinasse a cabeça e a

pressionasse com força. As narinas dela se agitaram, e Anna sentiu o cheiro

dos cavalos e dele. Ela pensou, de modo inoportuno, que para sempre

associaria o cheiro de cavalos a Lorde Swartingham.

A Edward.

Ele passou a língua pelos lábios dela de modo tão delicado que, a

princípio, Anna achou que tinha imaginado aquilo. Mas Edward repetiu a

carícia, um toque feito camurça, e ela abriu a boca para receber a dele. Ela

sentiu o calor dele invadindo sua boca, preenchendo-a, deslizando por sua

língua. Ele tinha gosto do café tomado pela manhã.

Anna apertou os dedos na parte de trás do pescoço dele, e Edward abriu

mais a boca e puxou-a até que ela encostasse nele. Uma das mãos roçou sua

bochecha. Ela passou as mãos através dos pelos na nuca dele. O rabicho se

desfez, e ela sentiu prazer na sensação sedosa do cabelo dele entre seus

dedos. Edward passou a língua pelo lábio inferior dela e puxou-o entre seus

dentes, sugando-o delicadamente. Ela ouviu o próprio gemido. Tremendo,

suas pernas mal conseguiam sustentar o próprio peso.

Um estrondo vindo do pátio do estábulo, do lado de fora, trouxe Anna

abruptamente de volta aos arredores. Edward ergueu a cabeça para ouvir.

Um dos empregados do estábulo estava repreendendo um garoto por

derrubar um equipamento.

Ele virou a cabeça novamente para Anna e passou seu polegar sobre a

bochecha dela.

— Anna, eu...

Seu raciocínio pareceu escapulir. Ele balançou a cabeça. Então, como se

fosse obrigado, Edward roçou um beijo delicado sobre a boca de Anna e o

beijo se prolongou.

Mas alguma coisa estava errada; Anna podia sentir. Ele estava se

afastando. Ela o estava perdendo. Anna se aproximou dele, tentando segurá-

lo. Edward passou os lábios por suas bochechas e levemente, suavemente,

sobre as pálpebras fechadas dela. Ela sentiu seu hálito passando através dos

cílios.

Os braços de Edward caíram, e ela sentiu que ele recuava.

Anna abriu os olhos para vê-lo passando as mãos pelo cabelo.

— Eu sinto muito. Isso foi... meu Deus, sinto muito.

— Não, por favor, não peça desculpas. — Anna sorriu, o calor se

espalhando por seu peito enquanto ela reunia coragem. Talvez aquela fosse

a hora. — Eu desejava esse beijo tanto quanto você. Para falar a verdade...

— Eu estou noivo.

— O quê? — Anna se retraiu, como se ele a tivesse atingido.

— Estou noivo e vou me casar. — Edward fez uma careta, como se

sentisse nojo ou até dor.

Ela ficou imóvel, esforçando-se para compreender aquelas simples

palavras. Um entorpecimento invadiu seu corpo, expulsando o calor, como

se ela nunca o tivesse sentido.

— Fui a Londres por esse motivo. Para concluir os arranjos

matrimoniais. — Edward deu alguns passos, passando as mãos

agitadamente pelo cabelo desgrenhado. — Ela é filha de um baronete, de

uma família tradicional. Acho que talvez eles tenham vindo com o

Conquistador, o que é mais do que os De Raafs podem supor. Suas terras...

— Ele parou subitamente, como se Anna o tivesse interrompido.

Mas ela não tinha.

Ele a encarou por um momento agonizante e então desviou o olhar. Era

como se uma corda esticada entre os dois tivesse se rompido.

— Eu sinto muito, Sra. Wren. — Ele limpou a garganta. — Nunca

deveria ter me comportado tão mal com a senhora. Eu lhe dou minha

palavra de honra que isso não vai acontecer novamente.

— E-Eu... — Anna lutou para forçar as palavras através da garganta

inchada. — Eu preciso voltar ao trabalho, milorde.

Seu único pensamento coerente foi que ela deveria manter a compostura.

Anna se virou para ir embora — fugir, na verdade —, mas sua voz a

impediu.

— Sam...

— O quê? — Tudo que ela queria era um buraco para se esconder e

nunca mais precisar pensar. Nunca mais precisar sentir. Mas alguma coisa

no rosto do conde a impedia de ir embora.

Edward ergueu o olhar para o palheiro, como se buscasse alguma coisa

ou alguém. Anna seguiu seu olhar. Não havia nada ali. O antigo

compartimento estava praticamente vazio. Onde antes deveria haver montes

de feno, agora havia somente montes de poeira flutuando. O feno para os

cavalos estava armazenado embaixo, em baias vazias.

Mas Edward ainda fitava o palheiro.

— Este era o lugar preferido do meu irmão — disse ele por fim. —

Samuel, meu irmão mais novo. Ele tinha 9 anos, nasceu seis anos depois de

mim. Era diferença suficiente para eu não prestar tanta atenção nele. Ele era

um menino quieto. Costumava se esconder no palheiro, embora mamãe

sempre tivesse um ataque; ela tinha medo de que ele caísse e morresse. Mas

isso não o detia. Ele passava metade do dia ali, brincando, não sei, com

soldados de estanho ou algo assim. Era fácil esquecer que ele estava lá em

cima, e algumas vezes Sam jogava feno na minha cabeça para me provocar.

— Suas sobrancelhas se franziram. — Imagino que ele quisesse a atenção

do irmão mais velho. Não que eu a desse. Eu estava ocupado demais aos 15

anos para prestar atenção numa criança aprendendo a atirar, beber e ser um

homem.

Edward deu alguns passos, ainda estudando o sótão. Anna tentou engolir

o bolo em sua garganta. Por que agora? Por que revelar toda essa dor para

ela agora, quando isso já não mais importava?

Ele prosseguiu:

— Mas é engraçado. Quando voltei para cá, ficava esperando vê-lo aqui

nos estábulos. Eu entrava e olhava para cima... e procurava seu rosto, acho.

— Edward piscou e murmurou quase para si mesmo: — Algumas vezes,

ainda faço isso.

Anna empurrou o nó do dedo na própria boca e o mordeu. Ela não queria

ouvir isso. Não queria sentir pena daquele homem.

— Antes, este estábulo ficava cheio — continuou ele. — Meu pai

adorava cavalos e costumava criá-los. Havia um monte de cavalariços e

amigos do meu pai por perto, falando sobre cavalos e caçadas. Minha mãe

ficava na abadia, dava festas e planejava a festa de debutante da minha

irmã. Este lugar era muito agitado. Tão feliz. Era o melhor lugar do mundo.

Edward tocou a porta gasta de uma baia vazia com as pontas dos dedos.

— Eu nunca pensei que iria embora. Nunca quis ir embora.

Anna passou os braços em volta do próprio corpo e reprimiu um soluço.

— Mas então veio a varíola. — Ele parecia fitar o espaço, e as linhas de

seu rosto se destacavam num relevo. — E eles morreram um a um. Primeiro

Sammy, depois, meu pai e minha mãe. Elizabeth, minha irmã, foi a última a

partir. Eles cortaram o cabelo dela por causa da febre, e ela chorou

inconsolavelmente; achava que os cabelos eram o que ela tinha de mais

bonito. Dois dias depois, colocaram-na no jazigo da família. Nós tivemos

sorte, acho, se é que se pode chamar isso de sorte. Outras famílias tiveram que esperar até a primavera para enterrar seus mortos. Era inverno, e o chão

estava congelado.

Ele respirou fundo.

— Mas eu não me lembro desse final, só do que me contaram depois,

porque, a essa altura, eu também estava doente.

Edward passou um dedo pela bochecha, no ponto em que se

amontoavam as cicatrizes de varíola, e Anna se perguntou com que

frequência ele fizera aquele gesto nos últimos anos.

— E, claro, sobrevivi. — Edward a fitou com o sorriso mais amargo que

ela já vira, como se ele sentisse o gosto de bile na garganta. — Só eu não

morri. De todos eles, fui o único a sobreviver.

Ele fechou os olhos.

Quando voltou a abri-los, seu rosto era uma máscara firme e sem

expressão.

— Sou o último da minha linhagem; o último dos De Raafs —

continuou ele. — Não há primos distantes para herdar o título e a abadia,

nenhum herdeiro distante à espera. Quando eu morrer, se eu morrer sem um

filho, tudo isso será devolvido para a Coroa.

Anna se obrigou a manter o olhar dele, embora isso a fizesse tremer.

— Eu preciso de um herdeiro. A senhora entende? — Ele trincou os

dentes e falou, como se estivesse arrancando as palavras, sangrentas e

dilaceradas, do próprio coração: — Eu tenho que me casar com uma mulher

que possa ter filhos.

 

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