O Príncipe Corvo
Capítulo Dois
“Ora, todas as três filhas do duque eram igualmente belas. A mais velha
tinha cabelos da cor do piche mais escuro, que brilhavam com reflexos
preto-azulados; a segunda tinha cachos flamejantes que emolduravam sua
pele branca e leitosa; e a mais nova era dourada, tanto na face como nas
formas, por isso dava a impressão de ter sido banhada na luz do sol. Mas,
das três donzelas, somente a mais jovem fora abençoada com a bondade de
seu pai. Seu nome era Aurea...”
— O Príncipe Corvo
Quem teria imaginado que houvesse tamanha escassez de empregos para
damas distintas em Little Battleford? Ao sair de casa pela manhã, Anna
sabia que não seria fácil arrumar trabalho, mas ela tinha alguma esperança.
Tudo de que precisava era uma família com crianças iletradas à procura de
uma governanta ou uma senhora idosa buscando uma enroladora de lã. Sem
dúvida, isso não era pedir muito, não é?
Evidentemente que era.
Já era lá pelo meio da tarde. Seus pés doíam de tanto caminhar para cima
e para baixo por estradas cheias de lama, e ela ainda não tinha um emprego.
A velha Sra. Lester não era amante de literatura, e seu genro era
parcimonioso demais para contratar uma acompanhante, de qualquer forma.
Anna visitou algumas outras damas, sugerindo que ela poderia estar
disponível para um trabalho, apenas para descobrir que ou elas não podiam
pagar por uma acompanhante ou simplesmente não queriam uma.
Então ela foi à casa de Felicity Clearwater.
Felicity era a terceira esposa do escudeiro Clearwater, um homem cerca
de trinta anos mais velho do que ela. O escudeiro era o principal
proprietário de terras no condado, depois do conde de Swartingham. Como sua esposa, Felicity claramente se considerava a figura social mais
importante de Little Battleford e muito acima da humilde família Wren.
Mas tinha duas meninas com idade adequada para se ter uma governanta, e,
por isso, Anna lhe fez uma visita. Ela havia passado uma penosa meia hora
tateando como um gato que caminha sobre seixos pontiagudos. Quando
Felicity compreendeu a razão da visita, passou a mão bem-cuidada sobre o
penteado já imaculado, depois delicadamente perguntou sobre o
conhecimento musical de Anna.
O vicariato nunca tivera uma harpa quando a família de Anna o havia
ocupado. Um fato que Felicity sabia muito bem, pois ela os visitara em
diversas ocasiões quando era garota.
Anna respirou fundo.
— Infelizmente, eu não tenho nenhuma habilidade musical, mas sei um
pouco de latim e grego.
Felicity abriu o leque e deu uma risadinha discreta atrás dele.
— Ah, me perdoe — dissera ela ao se recuperar. — Mas minhas
meninas não vão aprender uma coisa tão masculina quanto latim ou grego.
É um tanto inapropriado para uma dama, você não acha?
Anna trincou os dentes, mas conseguiu sorrir até Felicity sugerir que ela
tentasse a cozinha para ver se a cozinheira precisava de uma nova copeira.
A partir daí, as coisas foram ladeira abaixo.
Anna suspirou. Ela poderia muito bem acabar como copeira ou coisa
pior, mas não trabalhando para Felicity. Estava na hora de voltar para casa.
Ao passar pela esquina do ferreiro, ela mal teve tempo de evitar uma
colisão com o Sr. Felix Hopple, que corria na direção oposta. Foi
derrapando até parar a alguns centímetros do peito do administrador de
Ravenhill. Um pacote de agulhas, um pedaço de fio para bordar amarelo e
um saco de chá para Mãe Wren escorregaram de sua cesta até o chão.
— Ah, me desculpe, Sra. Wren — arfou o homenzinho ao se abaixar
para pegar os objetos. — Infelizmente, eu não estava prestando atenção e
não vi para onde meus pés me levavam.
— Está tudo bem. — Anna fitou o colete listrado cor de violeta e
escarlate que o homem usava e piscou. Meu Deus. — Ouvi dizer que o
conde finalmente está residindo em Ravenhill. O senhor deve estar muito
ocupado.
Todas as fofoqueiras da aldeia estavam agitadas com o reaparecimento
do misterioso conde na vizinhança depois de tantos anos, e Anna estava tão curiosa assim como qualquer pessoa. Na verdade, começava a se perguntar
sobre a identidade do cavalheiro feio que praticamente a atropelara na
véspera...
O Sr. Hopple soltou um suspiro.
— Infelizmente sim. — Ele pegou um lenço e enxugou o suor da
sobrancelha. — Estou à procura de um novo secretário para o conde. Não é
uma busca fácil. O último que entrevistei deixou o papel todo manchado, e
não tenho muita certeza sobre sua habilidade de soletrar.
— Isso seria um problema para um secretário — murmurou Anna.
— De fato.
— Se o senhor não encontrar ninguém hoje, lembre-se de que haverá um
bocado de homens na igreja no domingo de manhã — disse Anna. —
Talvez possa encontrar alguém por lá.
— Infelizmente não terei essa chance. O conde declarou que precisa de
um novo secretário até amanhã de manhã.
— Tão cedo assim? — Anna o encarou. — Isso é muito pouco tempo.
Um pensamento lhe veio à mente.
O administrador estava tentando, sem sucesso, limpar a lama do pacote
de agulhas.
— Sr. Hopple — disse ela lentamente —, o conde mencionou a
necessidade de um secretário do sexo masculino?
— Bem, não — retrucou Felix, distraído e ainda envolvido com o
pacote. — O conde simplesmente me disse para contratar outro secretário,
mas qual... — No mesmo instante, ele parou.
Anna endireitou o chapéu de palha e abriu um sorriso determinado.
— Para falar a verdade, ultimamente andei pensando sobre quanto
tempo eu tenho de sobra. O senhor talvez não saiba, mas tenho uma
caligrafia ótima. E sei soletrar.
— A senhora não está sugerindo...? — O Sr. Hopple estava espantado,
um pouco como um halibute fisgado numa peruca lavanda.
— Sim, estou sugerindo isso, sim. — Anna assentiu. — Acho que será
perfeito. Devo me apresentar em Ravenhill às nove ou às dez horas de
amanhã?
— Er... nove horas. O conde acorda cedo. M-mas, realmente, Sra.
Wren... — gaguejou Felix.
— Sim, realmente, Sr. Hopple. Pronto. Está tudo acertado. Eu o verei
amanhã, às nove da manhã. — Anna deu um tapinha no ombro do pobre homem. Ele não parecia nada bem. Ela se virou para ir embora, mas parou
ao se lembrar de uma questão muito importante. — Mais uma coisa: qual é
o salário que o conde está oferecendo?
— O salário? — O Sr. Hopple piscou. — Bem, er, o conde pagava três
libras por mês para o último secretário. Está bom assim?
— Três libras. — Os lábios de Anna se moveram enquanto ela repetia
silenciosamente as palavras. De repente, o dia em Little Battleford se tornou
glorioso. — Está ótimo.
— Sem dúvida, muitas das câmaras superiores vão precisar ser arejadas e
talvez pintadas também. Você anotou isso, Hopple? — Edward desceu com
um único pulo os três últimos degraus da entrada da Abadia de Ravenhill e
caminhou até os estábulos, com o sol de fim de tarde quente em suas costas.
O cão, como sempre, o seguia de perto.
Não se ouviu resposta.
— Hopple? Hopple! — Ele deu meia-volta e olhou para trás, então suas
botas esmagaram o cascalho.
— Um momento, milorde. — O administrador começava a descer os
degraus e parecia sem fôlego. — Estou chegando... em... um... momento.
Edward esperou, batendo os pés, até Hopple se aproximar, e seguiu
contornando a parte de trás da construção. Ali o cascalho dava lugar a
paralelepípedos desgastados no pátio. — Você anotou o que falei sobre as
câmaras superiores?
— Er, as câmaras superiores, milorde? — O homenzinho ofegou
enquanto examinava as anotações em sua mão.
— Mande a governanta arejar os quartos — repetiu Edward lentamente.
— Veja se precisam de pintura. Tente me acompanhar, homem.
— Sim, milorde — murmurou Hopple, rabiscando alguma coisa.
— Imagino que você tenha encontrado um secretário.
— Er, bem... — O administrador olhou fixamente as próprias anotações.
— Eu falei que precisava de alguém até amanhã de manhã.
— Sim, de fato, milorde, e, na verdade, eu tenho u-uma pessoa que,
creio, pode muito bem...
Edward parou diante das imensas portas duplas dos estábulos.
— Hopple, você tem ou não um secretário para mim?
O administrador parecia alarmado.
— Sim, milorde. Acho que se poderia dizer que encontrei um secretário.
— Então por que não disse logo? — Edward franziu o cenho. — Tem
alguma coisa errada com o homem?
— N-não, milorde. — Hopple alisou o horroroso colete roxo. — O
secretário, creio, será bem satisfatório como um, bem, como um secretário.
— Seus olhos estavam fixos no cata-vento de couro de cavalo em cima do
telhado do estábulo.
Edward se flagrou inspecionando o cata-vento, que rangia e lentamente
se virava. Ele afastou o olhar do objeto e baixou os olhos. O cão estava
sentado ao seu lado, com a cabeça inclinada, e também fitava o objeto.
Edward balançou a cabeça.
— Bom. Não estarei aqui amanhã de manhã quando ele chegar. — Os
dois saíram do sol de fim de tarde e foram para a sombra dos estábulos. O
cachorro trotava à frente dos homens, farejando os cantos. — Então você
vai precisar entregar-lhe o manuscrito e dar instruções gerais sobre suas
tarefas. — Ele se virou. Fora imaginação sua ou Hopple parecia aliviado?
— Muito bom, milorde — disse o administrador.
— Viajo para Londres amanhã cedo e passarei o restante da semana lá.
Quando eu voltar, ele deverá ter transcrito os papéis que deixei.
— Sem dúvida, milorde. — Definitivamente, o administrador sorria.
Edward o encarou e bufou.
— Estou ansioso para conhecer o novo secretário quando voltar.
O sorriso de Hopple se esvaiu.
A Abadia de Ravenhill era um lugar um tanto assustador, pensou Anna, no
trajeto até a mansão, na manhã seguinte. A caminhada da aldeia até a
propriedade era de quase cinco quilômetros, e suas panturrilhas começavam
a doer. Por sorte, o sol brilhava. Velhos carvalhos bordejavam o caminho,
uma grande mudança em comparação com os campos abertos ao longo da
estrada de Little Battleford. As árvores eram tão antigas que dois cavaleiros
poderiam passar lado a lado pelos espaços entre elas.
Ela contornou a esquina, arfou e parou. Narcisos salpicavam a relva
verde e macia debaixo das árvores. Os galhos acima tinham apenas uma
penugem de folhas novas, e a luz do sol as atravessava sem encontrar
obstáculos. Cada narciso amarelo brilhava, translúcido e perfeito, criando
uma frágil terra encantada.
Que tipo de homem ficaria longe disso por quase duas décadas?
Anna se lembrou das histórias sobre a grande epidemia de varíola que
havia dizimado Little Battleford anos antes de seus pais se mudarem para o
vicariato. Ela sabia que a família do atual conde morrera por causa da
doença. Mesmo assim, será que ele não teria ao menos feito uma visita
nesse intervalo?
Ela balançou a cabeça e continuou. Pouco depois do campo de narcisos,
o bosque se abria, e ela pôde ver Ravenhill claramente. Era uma construção
em pedra cinzenta, de estilo clássico, com quatro andares de altura. Uma
única entrada central no primeiro andar dominava a fachada. E dela
desciam até o rés do chão duas escadas em curva idênticas. Num mar de
campos abertos, a abadia era uma ilha, solitária e arrogante.
Anna começou a percorrer o longo caminho até a Abadia de Ravenhill e,
quanto mais ela se aproximava, mais sua confiança diminuía. Aquela
entrada principal era simplesmente imponente demais. Ela hesitou por um
instante ao se aproximar da abadia, depois mudou de direção na esquina.
Pouco depois da curva, ela viu a entrada dos criados. Essa porta também era
comprida e dupla, mas, pelo menos, ela não tinha de subir degraus de
granito para alcançá-la. Respirando fundo, Anna agarrou a grande maçaneta
de latão e entrou direto numa imensa cozinha.
Uma mulher grandalhona com cabelos louros quase brancos estava
parada junto a uma imensa mesa central. Ela sovava uma massa, e seus
braços estavam enfiados até os cotovelos numa tigela de cerâmica do
tamanho de uma chaleira. Mechas de cabelo caíam do coque no topo de sua
cabeça e grudavam em suas bochechas vermelhas e suadas. As únicas
outras pessoas no cômodo eram a copeira e um engraxate. Os três se
viraram para olhar para ela.
A mulher de cabelos louros — sem dúvida, a cozinheira? — estendeu os
braços cheios de farinha.
— Sim?
Anna ergueu o queixo.
— Bom dia. Sou a nova secretária do conde, a Sra. Wren. A senhora
sabe onde posso encontrar o Sr. Hopple?
Sem tirar os olhos de Anna, a cozinheira gritou para o garoto:
— Você aí, Danny. Vai atrás do Sr. Hopple e diga a ele que a Sra. Wren
está aqui na cozinha. Anda rápido, agora.
Danny saiu em disparada da cozinha, e a mulher se voltou para a massa.
Anna ficou parada, esperando.
A copeira ao lado da imensa lareira a encarava, coçando, indiferente, o
próprio braço. Anna sorriu, e a garota rapidamente desviou o olhar.
— Nunca ouvi falar numa mulher secretária antes. — A cozinheira
mantinha os olhos nas mãos e trabalhava a massa com destreza.
Habilmente, ela atirou todo o conteúdo da tigela sobre a mesa e a girou para
formar uma bola, e os músculos de seus braços se flexionaram. — A
senhora já conheceu o conde, então?
— Nunca fomos apresentados — explicou Anna. — Eu conversei sobre
a vaga com o Sr. Hopple, e ele não tinha objeções sobre eu me tornar a
secretária do conde. — Pelo menos, o Sr. Hopple não havia mencionado
nenhuma objeção, acrescentou ela mentalmente.
A cozinheira rosnou sem erguer o olhar.
— Melhor assim. — Rapidamente ela separou pedaços de massa do
tamanho de nozes e fez bolinhas com eles. Formou-se uma pilha. — Bertha,
pega aquela bandeja.
A copeira trouxe uma bandeja de ferro fundido e arrumou as bolas em
fileiras.
— Ele me dá calafrios, isso sim, quando grita — murmurou ela.
A cozinheira olhou para a criada com cara de poucos amigos.
— O som do pio das corujas te dá calafrios. O conde é um cavalheiro
elegante. Paga pra todos um salário decente e dá folgas regulares, isso sim.
Bertha mordeu o lábio inferior enquanto posicionava cuidadosamente
cada bola.
— Ele tem uma língua afiada terrível. Vai ver que foi por isso que o Sr.
Tootleham foi embora tão... — Ela pareceu notar que a cozinheira a fitava
de cara feia e, no mesmo instante, calou a boca.
A entrada do Sr. Hopple rompeu um silêncio constrangedor. Ele usava
um chamativo colete violeta, todo bordado com cerejas escarlate.
— Bom dia, bom dia, Sra. Wren. — Ele lançou um rápido olhar à
cozinheira e à copeira e baixou a voz. — A senhora tem certeza, er, sobre
isso?
— Claro, Sr. Hopple. — Anna sorriu para o administrador de um jeito
que, ela esperava, parecia confiante. — Estou ansiosa para conhecer o
conde.
Ela ouviu a cozinheira dar um muxoxo atrás de si.
— Ah. — O Sr. Hopple tossiu. — Quanto a isso, o conde viajou a
Londres para tratar de negócios. Ele costuma passar algum tempo lá, sabe — disse, em tom de confidência. — Encontra-se com outros eruditos com
certa frequência. O conde é praticamente uma autoridade em questões
agrícolas.
A decepção a dominou.
— Devo esperar que ele retorne? — perguntou ela.
— Não, não. Não é necessário — falou o Sr. Hopple. — O conde deixou
alguns papéis para a senhora transcrever na biblioteca. Vou leva-la até lá,
está bem?
Anna assentiu e seguiu o administrador para fora da cozinha e pela
escada até o corredor principal. O chão de parquete cor-de-rosa e preto era
lindamente decorado, embora fosse um pouco difícil de distinguir sob
pouca luz. Eles alcançaram a entrada principal, e ela viu a grandiosa
escadaria. Meu Deus, era imensa. Os degraus conduziam a um patamar do
tamanho de sua cozinha e, em seguida, se dividiam em duas escadas que se
curvavam e levavam aos escuros andares superiores. Como diabos um
homem poderia viver numa casa assim, mesmo que tivesse um exército de
criados?
Anna se deu conta de que o Sr. Hopple estava falando com ela.
— O último secretário e, claro, o secretário antes dele trabalhavam no
próprio escritório debaixo da escada — explicou o homenzinho. — Mas o
cômodo lá é bastante lúgubre. Não é nem um pouco adequado a uma dama.
Então eu pensei que seria melhor se a senhora se instalasse na biblioteca em
que o conde trabalha. A menos — questionou o Sr. Hopple apressadamente
— que a senhora prefira ter um cômodo só seu.
O administrador virou-se para a biblioteca e segurou a porta para Anna.
Ela entrou e subitamente parou, forçando o Sr. Hopple a dar a volta por ela.
— Não, não. A biblioteca vai servir muito bem.
Anna ficou impressionada com a calma em sua voz. Tantos livros.
Estavam em fileiras em três lados da sala, contornando a lareira, e as pilhas
iam até o teto abobadado. Devia haver mil livros naquele cômodo. Via-se,
no canto, uma escada de rodinhas um tanto frágil, cujo único objetivo
aparentemente era deixar os exemplares ao alcance das mãos. Imagine ter
todos esses livros e poder lê-los sempre que quisesse.
O Sr. Hopple a conduziu a um canto do cômodo cavernoso onde havia
uma imensa mesa de mogno. Em frente a ela, a alguns passos de distância,
uma mesa menor, de pau-rosa.
— Aqui estamos, Sra. Wren — disse ele entusiasticamente. — Eu
arrumei tudo que acho que a senhora vai precisar: papel, penas, tinta,
limpadores, mata-borrão e areia. Esse é o manuscrito que o conde gostaria
que fosse copiado. — Ele indicou uma pilha de uns dez centímetros de
papéis bagunçados. — Tem uma campainha de corda no canto extremo, e
tenho certeza de que a cozinheira ficaria feliz em mandar chá ou qualquer
outro refresco que a senhora queira. Há mais alguma coisa de que precise?
— Ah, não. Está tudo ótimo. — Anna juntou as mãos à frente do corpo e
tentou não parecer impressionada.
— Não? Bem, me avise se precisar de mais papel ou de qualquer outra
coisa. — O Sr. Hopple sorriu e fechou a porta atrás de si.
Ela se sentou à mesa pequena e elegante e, reverentemente, passou um
dedo sobre a ornamentação envernizada. Uma peça de mobília tão bonita...
Ela suspirou e pegou a primeira página do manuscrito. Uma caligrafia
firme, bastante inclinada para a direita, cobria a página. Aqui e ali, algumas
frases eram riscadas e alternativas eram rabiscadas ao longo das margens
com muitas setas apontando onde deveriam entrar.
Anna começou a copiar. Sua caligrafia corria pequena e caprichada. De
vez em quando, ela fazia uma pausa para decifrar alguma palavra. A
caligrafia do conde era verdadeiramente atroz. Após algum tempo, ela
começou a se acostumar às curvas dos Ys e aos traços dos Rs.
Pouco depois do meio-dia, Anna pôs a pena de lado e tentou tirar a tinta
das pontas dos dedos. Em seguida, levantou-se devagar e puxou a
campainha no canto. Tudo estava silencioso, mas provavelmente um sino
soou em algum lugar para chamar alguém que lhe trouxesse uma xícara de
chá. Ela olhou a fileira de livros perto da campainha. Eram tomos pesados,
gravados com nomes em latim. Curiosa, ela retirou um. Ao fazer isso, um
livro fino caiu no chão com uma pancada. Anna rapidamente se abaixou
para pegá-lo e, ao mesmo tempo, olhou, com expressão culpada, para a
porta. Ninguém havia respondido ao seu chamado por enquanto.
Ela se voltou para o livro em suas mãos. Estava encadernado em
marroquim vermelho, era macio ao toque e não trazia título. O único adorno
era uma pena dourada, gravada no canto inferior direito da capa. Ela franziu
o cenho e guardou de volta sua primeira escolha. Em seguida,
cuidadosamente, abriu o livro de couro vermelho. Dentro dele, na guarda,
estava escrito com letra infantil: Elizabeth Jane de Raaf, seu livro.
— Sim, senhora?
Anna quase deixou o livro vermelho cair ao ouvir a voz da jovem criada.
Rapidamente ela o recolocou na prateleira e sorriu para a garota.
— Será que a senhora poderia me trazer uma xícara de chá?
— Sim, senhora. — A criada fez um gesto afirmativo com a cabeça e
saiu sem dizer mais nada.
Anna voltou a olhar o livro de Elizabeth, mas decidiu que circunspecção
era a melhor das virtudes e voltou para sua mesa, a fim de aguardar o chá.
Às cinco da tarde, o Sr. Hopple entrou às pressas na biblioteca.
— Como foi seu primeiro dia? Nada muito árduo, espero? — Ele ergueu
a pilha de papéis transcritos e olhou as primeiras páginas. — Parece muito
bom. O conde ficará feliz em enviá-los para as prensas. — Ele parecia
aliviado.
Anna se perguntou se o homem teria passado o dia preocupado com suas
habilidades. Ela pegou suas coisas e, com uma última inspeção na mesa de
trabalho, para garantir que tudo estava em ordem, deu boa-noite ao Sr.
Hopple e foi para casa.
No instante em que Anna chegou ao pequeno chalé, Mãe Wren se
apressou e a bombardeou com perguntas ansiosas. Fanny também a
observava, como se trabalhar para o conde fosse algo terrivelmente
sofisticado.
— Mas eu nem sequer o vi. — Anna protestou, em vão.
Os dias seguintes passaram rápido, e a pilha de páginas transcritas
crescia progressivamente. Domingo foi um dia de descanso bem-vindo.
Quando Anna voltou na segunda-feira, a abadia tinha uma atmosfera de
agitação. O conde finalmente havia retornado de Londres. A cozinheira
nem sequer ergueu os olhos da sopa que estava mexendo quando Anna
entrou na cozinha, e o Sr. Hopple não estava lá para cumprimentá-la como
de hábito.
Anna foi até a biblioteca sozinha, esperando finalmente encontrar seu
patrão.
Mas o cômodo estava vazio.
Ah, paciência. Anna soltou um suspiro de decepção e pousou a cesta
com o almoço sobre a escrivaninha de pau-rosa. Ela começou a trabalhar, e
o tempo passou, marcado apenas pelo som da pena arranhando a folha.
Depois de algum tempo, ela sentiu alguém no cômodo e ergueu o olhar.
Anna perdeu o fôlego.
Um cão imenso estava parado ao lado da mesa, somente a alguns passos
de distância. O animal entrara sem fazer qualquer barulho.
Anna se manteve imóvel enquanto tentava pensar. Ela não tinha medo de
cães. Quando era pequena, tivera um dócil e pequeno terrier. Mas esse
animal era o maior que ela já tinha visto. E infelizmente também parecia
familiar. Ela o vira não fazia nem uma semana, correndo ao lado do homem
feio que tinha caído do cavalo na estrada. E, se o animal estava ali agora...
ai, Deus. Anna se pôs de pé, mas o cão andou em sua direção, e ela pensou
duas vezes antes de sair correndo da biblioteca. Em vez disso, deu um
suspiro e lentamente voltou a se sentar. Os dois se encararam. Ela esticou a
mão, com a palma virada para baixo, para o cão farejar. O animal seguiu o
movimento da mão com o olhar, mas desprezou aquele gesto.
— Bem — disse Anna baixinho —, se você não vai se mexer, senhor, eu
posso, pelo menos, continuar com o meu trabalho.
Ela pegou a pena novamente, tentando ignorar o animal imenso ao lado.
Depois de algum tempo, o cão se sentou, mas ainda a observava. Quando o
relógio na cornija bateu doze horas, ela pousou mais uma vez a pena e
esfregou a mão. Cautelosamente, esticou os braços acima da cabeça,
certificando-se de se mover devagar.
— Talvez você queira um pouco do almoço? — murmurou ela para o
animal.
Anna abriu a pequena cesta coberta com um pano, que trazia todas as
manhãs. Ela pensou em pedir um pouco de chá para tomar junto com a
refeição, mas não tinha certeza se o cão a deixaria se afastar da mesa.
— E, se ninguém vier me ver — murmurou ela para o cão —, ficarei
colada nessa cadeira a tarde toda por culpa sua.
A cesta continha pão e manteiga, uma maçã e um pedaço de queijo,
enrolados num pano. Ela ofereceu a casca do pão ao cão, mas ele nem
sequer a cheirou.
— Você é exigente, não é? — Ela mastigou o pão. — Suponho que
esteja acostumado a jantar faisão e tomar champanhe.
O cão permaneceu no mesmo lugar.
Anna terminou o pão e começou a comer a maçã, sob o olhar atento do
animal. Sem dúvida, se ele fosse perigoso, não andaria livremente pela
abadia, não é? Ela guardou o queijo para o final. Ao desembrulhá-lo,
inspirou o aroma pungente. No momento, queijo era um luxo. Ela passou a
língua pelos lábios.
O cão aproveitou aquele momento para esticar o pescoço e farejar.
Anna fez uma pausa com o bocado de queijo a caminho da boca.
Primeiro, ela olhou para o queijo; depois, de volta para o cão. Seus olhos
eram de um marrom líquido. Ele colocou uma pata pesada em seu colo.
Ela suspirou.
— O senhor quer um pouco de queijo, milorde? — Ela partiu um pedaço
e o ofereceu ao cão.
O queijo desapareceu de uma só vez e deixou uma trilha de saliva na
palma da mão de Anna. O rabo grosso do cachorro roçava o tapete, e ele a
fitava com ansiedade.
Anna ergueu as sobrancelhas com a expressão séria.
— O senhor é um farsante.
Ela alimentou o monstro com o restante do queijo. Somente então ele se
dignou a deixá-la afagar suas orelhas. Anna fazia carinho na imensa cabeça
e dizia quanto ele era belo e imponente quando ouviu o som de botas no
corredor. Ergueu o olhar e viu o conde de Swartingham parado na porta,
com os olhos quentes de obsidiana sobre ela.
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