O Príncipe Corvo
Capítulo Dezesseis
“Cautelosamente, Aurea acendeu a vela e se virou para erguê-la acima do
vulto de seu amante. Ela perdeu o fôlego, seus olhos se arregalaram, e teve
um sobressalto. Um sobressalto muito pequeno, mas o suficiente para
lançar uma gota de cera quente que derretia da beirada da vela no ombro
do homem deitado ao seu lado. Pois se tratava de um homem — não era um
monstro nem um animal —, mas um homem com pele branca e macia,
pernas compridas e fortes e cabelos muito pretos. Ele abriu os olhos, e Aurea viu que também eram pretos. Uma tonalidade preta inteligente e penetrante que, de alguma forma, lhe era familiar. No peito, reluzia um
pingente. Tinha a forma de um pequeno e perfeito corvo, incrustado com
brilhantes rubis...”
— O Príncipe Corvo
Anna estava refletindo se tinha ou não colocado a roseira na profundidade
certa no buraco quando foi coberta por uma sombra. Ela ergueu o olhar.
Edward estava parado acima dela. Seu primeiro pensamento foi que ele
havia retornado rápido demais para ter trazido o regador.
E então ela viu sua expressão.
Os lábios do conde estavam repuxados num esgar de raiva, e seus olhos
ardiam como buracos negros em seu rosto. Nesse momento, ela teve a
terrível premonição de que ele, de alguma forma, havia descoberto. Nos
segundos antes de ele falar, Anna tentou se manter corajosa, se tranquilizar
de que não tinha como ele haver descoberto seu segredo.
As palavras do conde aniquilaram toda esperança.
— Você. — Ela não reconheceu a voz dele, de tão baixa e terrível. —
Você estava lá no prostíbulo.
Ela nunca fora boa em mentir.
— O quê?
Edward estreitou os olhos como se encarasse uma luz intensa.
— Você estava lá. Você esperou por mim como uma aranha, e eu quase
caí na sua teia.
Meu Deus, era ainda pior do que havia imaginado. Ele pensava que ela
fizera aquilo por algum tipo de vingança doentia ou piada.
— Eu não...
Os olhos de Edward se arregalaram, e ela estendeu uma das mãos para
se proteger do inferno que viu neles.
— Você não o quê? Não foi para Londres, não foi ao Grotto de
Aphrodite?
Os olhos de Anna se arregalaram, e ela começou a se levantar, mas o
conde já estava em cima dela. Ele a segurou pelos ombros e ergueu-a com
facilidade, sem esforço, como se ela não pesasse mais do que uma pena. Ele
era tão forte! Por que ela nunca tinha percebido quanto o homem era mais
forte em relação à mulher? Anna se sentiu como uma borboleta apanhada
por um grande pássaro. Ele girou o corpo dela na direção da parede de
tijolos próxima e a prendeu ali. Então, baixou o rosto até seus narizes
praticamente se tocarem e ele certamente ser capaz de ver o próprio reflexo
nos olhos grandes e assustados dela.
— Você ficou lá esperando, usando apenas um pedaço de renda. — As
palavras desceram sobre seu rosto num hálito quente e íntimo. — E, quando
eu cheguei, você se exibiu, se ofereceu, e eu fodi você até não conseguir
enxergar direito.
Anna sentiu cada baforada da respiração dele em seus próprios lábios.
Ela se encolheu ao ouvir aquela obscenidade. Queria negar, dizer que aquilo
não descrevia a doçura sublime que os dois haviam descoberto juntos em
Londres, mas as palavras ficaram presas em sua garganta.
— E eu fiquei preocupado com a possibilidade de o contato com a
prostituta que você abrigou destruir seu bom nome. Que idiota eu fui!
Como você conseguiu segurar o riso quando eu pedi perdão por beijá-la? —
Suas mãos estavam retesadas no ombro dela. — Todo esse tempo, eu venho
me controlando porque pensei que você era uma dama respeitável. Todo
esse tempo, enquanto você só queria isto.
Ele a atacou então, devorando os lábios de Anna com a própria boca,
fartando-se de sua maciez, sem fazer concessões por ela ser pequena,
feminina. Os lábios dele comprimiram os dela contra os dentes. Anna
gemeu e não sabia dizer se era de dor ou de desejo. Edward enfiou a língua na cavidade da boca sem preâmbulo ou aviso, como se ele tivesse esse
direito.
— Você devia ter me dito que era isto que queria. — Ele levantou a
cabeça para puxar o ar. — Eu teria satisfeito seu desejo.
Anna parecia incapaz de um pensamento coerente e menos ainda de
falar.
— Bastava uma palavra sua e eu poderia tê-la tomado em minha mesa
na biblioteca, na carruagem com John Cocheiro na frente ou até mesmo
aqui no jardim.
Ela tentou formular frases através do nevoeiro de sua confusão.
— Não, eu...
— Deus sabe que meu pênis ficou duro durante dias, semanas, perto de
você — disse ele, com a voz rouca. — Eu podia ter me deitado com você a
qualquer hora. Ou você não consegue admitir que quer um homem com um
rosto como o meu na sua cama?
Ela tentou dizer que não, mas sua cabeça baixou inutilmente enquanto
ele se inclinava sobre ela. Uma das mãos dele desceu para o quadril dela e a
puxou para junto do dele. A inflexível dureza da ereção dele encostou na
barriga macia de Anna.
— Isto é o que você quer. Foi por isso que foi até Londres — murmurou
Edward contra a boca de Anna.
Ela gemeu, negando, mesmo enquanto seu quadril arqueava no dele.
Ele interrompeu seu movimento com um aperto firme e se afastou da
boca de Anna. Mas, quase como se não conseguisse resistir à atração que a
pele dela exercia sobre ele, Edward voltou. A boca do conde roçou seu
rosto para prender o lóbulo da orelha dela entre os dentes.
— Por quê? — A pergunta foi murmurada no ouvido de Anna. — Por
quê? Por quê? Por que você mentiu para mim?
Ela tentou mais uma vez balançar a cabeça.
Ele a puniu com uma mordida.
— Foi uma brincadeira? Você achou divertido se deitar comigo por uma
noite e então fingir que era uma viúva virtuosa no dia seguinte? Ou foi uma
necessidade perversa? Algumas mulheres acham estimulante a ideia de ir
para a cama com um homem cheio de cicatrizes de varíola.
Então, Anna moveu a cabeça violentamente, apesar da dor quando os
dentes dele arranharam sua orelha. Ela não podia — não podia — deixar
que ele pensasse isso.
— Por favor, você precisa saber...
Edward virou a cabeça. Ela tentou encará-lo, e ele fez a coisa mais
terrível que poderia fazer.
Ele a soltou.
— Edward! Edward! Pelo amor de Deus, por favor, me ouça! — Era
estranho que esta fosse a primeira vez que ela o chamava pelo nome.
O conde seguiu pela trilha do jardim. Ela correu atrás dele, sem enxergar
por causa das lágrimas, e tropeçou num tijolo solto.
Ele parou ao ouvir o barulho da queda, com as costas ainda viradas para
ela.
— Quantas lágrimas, Anna! Você consegue produzi-las de acordo com
sua vontade, como lágrimas de crocodilo? — E então, tão suavemente
quanto ela poderia ter imaginado: — Houve outros homens?
E ele se afastou.
Ela o viu desaparecer pelo portão. Sentiu um aperto no peito. Anna
pensou vagamente que talvez tivesse se machucado na queda. Mas então
ouviu um som gutural, rouco, e uma pequena parte fria de seu cérebro
tomou nota do estranho barulho que seu choro fazia.
Como foi rápida e dura a punição por ela ter saído da rotina sem graça
de sua vida viúva. Todas as lições e avisos, ditos e não ditos, que ela
aprendera quando era mais nova tinham, de fato, se tornado realidade. No
entanto, Anna imaginava que o castigo não fosse aquele previsto pelos
moralistas de Little Battleford. Não. Seu destino era pior que exposição e
censura. Seu castigo era o ódio de Edward. E saber que ela nunca tinha ido
a Londres meramente pelo sexo. O tempo todo fora para estar com ele,
Edward. Ele era o homem que ela queria, não o ato físico. Parecia que Anna
havia mentido para si mesma tanto quanto havia mentido para ele. Como
era irônico finalmente perceber agora que só havia cinzas ao seu redor.
Anna não sabia quanto tempo ficara lá, seu velho vestido marrom
ficando cada vez mais úmido por causa da terra revirada. Quando os
soluços finalmente cessaram, o céu da tarde se tornara nublado. Ela se
empurrou com ambos os braços para ficar ajoelhada e depois se pôs de pé
com dificuldade. Ela vacilou, mas se firmou, e uma das mãos segurou a
parede do jardim para se sustentar. Anna fechou os olhos e respirou fundo.
Então pegou a enxada.
Em breve, teria de voltar para casa e contar à Mãe Wren que não tinha
mais emprego. E enfrentaria uma cama solitária esta noite e mil noites depois, pelo restante da vida.
Mas, por ora, ela simplesmente plantaria as roseiras.
Felicity colocou um pano umedecido com água de violeta na testa. Ela se
retirara para a pequena sala matinal, um local que normalmente lhe trazia
um pouco de satisfação, sobretudo quando pensava em quanto havia
custado reformá-lo. Só o preço do canapé de tecido de damasco cor de
canário teria alimentado e vestido a família Wren por cinco anos. Mas,
naquele momento, sua cabeça simplesmente a estava matando.
As coisas não iam bem.
Reginald estava cabisbaixo, resmungando que sua égua premiada havia
perdido o filhote. Chilly voltara para Londres emburrado porque ela não lhe
contara sobre Anna e o conde. E o próprio conde fora irritantemente obtuso
na soirée. Sem dúvida, a maioria dos homens, em sua experiência, eram
lentos, de um jeito ou de outro, mas ela não imaginava que Lorde
Swartingham fosse tão estúpido. Parecia que o homem não entendera o que
ela insinuava. Como ela iria convencê-lo a manter Anna quieta se ele era
burro demais para perceber que estava sendo chantageado?
Felicity se encolheu.
Nada de chantagem. Isso soava deselegante demais. Era um incentivo.
Assim era melhor. Lorde Swartingham tinha um incentivo para impedir que
Anna saísse por aí contando os pequenos pecados do passado de Felicity
por toda a aldeia.
A porta se abriu com ímpeto naquele momento, e a mais nova das duas
filhas, Cynthia, entrou correndo. Sua irmã, Christine, a seguia, num passo
mais tranquilo.
— Mamãe — disse Christine. — A babá falou que temos que pedir sua
permissão para irmos à loja de doces na cidade. Podemos ir?
— Palitos de hor-te-lã! — Cynthia saltitou ao redor do canapé em que
Felicity estava deitada. — Gotinhas de li-mão! Manjar turco!
Era estranho, porém a mais nova se parecia com Reginald de muitas
maneiras.
— Por favor, pare com isso, Cynthia — pediu Felicity. — Mamãe está
com dor de cabeça.
— Sinto muito, mamãe — retrucou Christine, sem parecer que sentia
muito. — Vamos sair assim que tivermos a sua permissão. — Ela sorriu
timidamente.
— Permissão da mamãe! Permissão da mamãe! — entoou Cynthia.
— Sim! — falou Felicity. — Sim, vocês têm a minha permissão.
— Eba! Eba! — Cynthia saiu correndo do quarto, seu cabelo vermelho
balançando atrás dela.
A visão a fez franzir o cenho. O cabelo vermelho de Cynthia era a
desgraça da vida de Felicity.
— Obrigada, mamãe. — Christine fechou a porta com afetação.
Felicity gemeu e tocou a campainha para pedir mais eau de toilette para
refrescar a pele. Se ao menos ela não tivesse escrito aquele bilhete
incriminador num surto de sentimentalismo. E no que Peter estava
pensando ao guardar aquele relicário? Os homens realmente eram uns
idiotas.
Ela pressionou as pontas dos dedos no pano em sua testa. Talvez Lorde
Swartingham realmente não tivesse entendido o que ela estava falando. Ele
parecia confuso quando ela comentou que os dois sabiam a identidade da
dama que ele havia encontrado no Grotto de Aphrodite. E se, na verdade,
ele não soubesse...
Felicity sentou-se empertigada, e o pano caiu no chão sem que ela
percebesse. Se ele não sabia a identidade da mulher, então ela havia tentado
chantagear a pessoa errada.
Anna se ajoelhou no pequeno jardim nos fundos do chalé na manhã
seguinte. Ela não tivera coragem de contar a Mãe Wren que perdera o
emprego. Chegara à sua casa tarde na véspera, e esta manhã não tivera
vontade de conversar sobre o que aconteceu. Pelo menos não por enquanto,
quando o assunto somente levantaria perguntas às quais não saberia
responder. Uma hora ela teria de reunir coragem e se desculpar com
Edward. Mas isso poderia esperar enquanto ela também curava as próprias
feridas. Esse era o motivo de ela estar trabalhando no jardim hoje. A tarefa
mundana de cuidar das plantas e o cheiro de terra revirada recentemente
traziam consolo à sua alma.
Ela estava desenterrando as raízes de rábano para replantá-las quando
ouviu um grito vindo da frente do chalé. Ela franziu o cenho e largou a pá.
É claro que não havia nada de errado com o bebê de Rebecca, não é? Anna
ergueu as saias e correu, dando a volta na casa. O som de uma carruagem e
de cavalos se distanciou. Uma voz claramente feminina gritou mais uma
vez quando ela dobrou a esquina.
Pearl estava parada no degrau da frente, segurando outra mulher.
Quando Anna se aproximou, ambas se viraram, e ela perdeu o fôlego. Uma
das mulheres tinha dois olhos roxos, e parecia que seu nariz estava
quebrado. Ela precisou de alguns segundos para reconhecê-la.
Era Coral.
— Ai, meu Deus! — arfou Anna.
A porta principal se abriu.
Ela correu para pegar o outro braço de Coral.
— Fanny, segure a porta para nós, por favor.
Fanny, de olhos arregalados, obedeceu enquanto elas carregavam Coral
de forma desajeitada.
— Eu falei para Pearl — murmurou Coral — não vir aqui. —Seus lábios
estavam tão inchados que as palavras soavam indistintas.
— Graças a Deus que ela não lhe deu ouvidos — disse Anna.
Ela avaliou os degraus estreitos para o segundo andar. Elas jamais
conseguiriam subir a escada com Coral se apoiando tão pesadamente nelas.
— Vamos levá-la para a sala de estar.
Pearl fez que sim com a cabeça.
Delicadamente, as duas acomodaram Coral no canapé. Anna mandou
Fanny subir e pegar um cobertor. Os olhos de Coral tinham se fechado, e
Anna se perguntou se ela iria desmaiar. A outra mulher respirava
sonoramente pela boca; seu nariz estava muito disforme e inchado para
deixar o ar entrar.
Anna puxou Pearl de lado.
— O que aconteceu com ela?
A mulher lançou um olhar ansioso à irmã.
— Foi o marquês. Ele voltou para casa na noite passada, bêbado de cair;
mas não tão bêbado que não pudesse fazer aquilo a ela.
— Mas por quê?
— Até onde sei, ele não tinha uma razão. — Os lábios de Pearl
tremeram. Ao reparar no olhar chocado de Anna, ela fez uma careta. — Ah,
ele resmungou alguma coisa sobre ela sair com outros homens, mas isso é
bobagem. Coral pensa em sexo como um negócio. Ela não sairia com
outros homens enquanto tem um protetor. Ele só queria bater nela.
Pearl enxugou uma lágrima de raiva.
— Se eu não a tivesse tirado de lá quando ele foi urinar, o marquês
provavelmente a teria matado.
Anna pôs um braço ao redor do ombro dela.
— Devemos agradecer ao Senhor por você ter conseguido salvá-la.
— Eu não sabia para onde mais levá-la, senhora — disse Pearl. —
Lamento incomodá-la depois de a senhora ter sido tão gentil. Se pudermos
ficar uma noite ou duas até Coral melhorar...
— Vocês podem ficar pelo tempo que for preciso até Coral se recuperar.
Mas temo que isso vá levar mais do que uma noite ou duas. — Anna fitava
com preocupação a convidada machucada. — Preciso mandar Fanny
chamar o Dr. Billings imediatamente.
— Ah, não. — A voz de Pearl se elevou em pânico. — Não faça isso!
— Mas ela precisa de um médico.
— Seria melhor se ninguém soubesse que estamos aqui além de Fanny e
da outra Sra. Wren — pediu Pearl. — Talvez ele venha atrás dela.
Anna assentiu lentamente. Era óbvio que Coral ainda estava em perigo.
— Mas e quanto aos ferimentos?
— Eu posso cuidar deles. Não há ossos quebrados. Eu já chequei. E
posso endireitar o nariz.
— Você sabe endireitar um nariz quebrado? — Anna olhou para Pearl de
modo estranho.
A outra mulher apertou os lábios.
— Já fiz isso antes. É útil saber essas coisas no meu negócio.
Anna fechou os olhos.
— Me desculpe. Não quis duvidar de você. Do que precisa?
Com a orientação de Pearl, Anna rapidamente reuniu água, trapos e
ataduras, bem como o pote de bálsamo de sua mãe. Pearl cuidou do rosto da
irmã com a ajuda dela. A pequena mulher era prática, mesmo quando Coral
resmungava e tentava afastar as mãos dela. Anna segurou os braços da
mulher machucada para que Pearl pudesse terminar de enfaixá-la. E
suspirou aliviada quando Pearl sinalizou que haviam terminado. As duas se
certificaram de que Coral estava o mais confortável possível antes de se
retirarem para a cozinha para tomar uma merecida xícara de chá.
Pearl suspirou ao levar a bebida quente aos lábios.
— Obrigada. Muito obrigada, senhora. A senhora é muito boa.
Anna esboçou uma risada, um pequeno grasnido engraçado.
— Você nem imagina, mas eu é que deveria agradecer. Preciso fazer
alguma coisa boa neste momento.
Edward jogou a pena no chão e foi até as janelas da biblioteca. Durante o
dia todo, ele não escrevera uma única frase coerente. O cômodo estava
quieto demais, grande demais para sua paz de espírito. Tudo que ele
conseguia pensar era em Anna e no que ela havia feito com ele. Por quê?
Por que escolhê-lo? Será que fora o seu título? Seu dinheiro?
Meu Deus! Suas cicatrizes?
Qual a possível razão para uma mulher respeitável inventar um disfarce
e agir como uma meretriz? Se ela queria um amante, não poderia ter
arranjado um em Little Battleford? Ou será que ela gostava de bancar a
prostituta?
Edward esfregou a testa no vidro frio da janela. Ele se lembrava de tudo
que havia feito com Anna naquelas duas noites. Cada local maravilhoso que
sua mão havia tocado, cada centímetro de pele que sua boca lambera. Ele
lembrava de fazer coisas que nunca sonhara em fazer com uma dama,
menos ainda com uma que ele conhecia e de quem gostava. Anna vira um
lado seu que ele se esforçara em esconder do mundo, um lado privado,
secreto. Ela o vira em seu lado mais animalesco. O que ela havia sentido
quando ele puxara a cabeça dela para seu pênis? Excitação? Medo?
Nojo?
E havia outros pensamentos que ele não conseguia evitar. Será que ela se
encontrara com outros homens no Grotto de Aphrodite? Será que tinha
compartilhado seu lindo e exuberante corpo com outros homens que ela
nem sequer conhecia? Será que tinha permitido que eles beijassem sua boca
lasciva, que apalpassem seus seios, que se excitassem com seu corpo
estendido e desejoso? Edward deu um soco na moldura da janela com o
punho até a pele rachar e o sangue respingar. Era impossível apagar da
mente as imagens obscenas de Anna — a sua Anna — com outro homem.
Sua visão ficou borrada. Jesus. Ele estava chorando como um garoto.
Jock cutucou sua perna e choramingou.
Ela fizera isso com ele. Edward estava arrasado. E, ainda assim, não
fazia diferença, pois ele era um cavalheiro, e ela, apesar de suas ações, era
uma dama. Teria de se casar com ela, e, ao fazê-lo, abriria mão de todos os
seus sonhos, de todas as suas esperanças de ter uma família. Ela não podia
ter filhos. Sua linhagem morreria com seu último suspiro. Não haveria
garotinhas parecidas com a mãe nem garotinhos que o fariam lembrar-se de
Sammy. Ninguém para quem abrir seu coração. Ninguém que ele fosse ver
crescer. Edward empertigou-se. Se era isso que a vida lhe reservava, então que fosse, mas faria o possível para que Anna soubesse preço que ele
pagaria por ela.
Ele limpou o rosto e puxou a campainha selvagemente.
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