O Príncipe Corvo

Elizabeth Hoyt · Capítulo 6 de 26

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O Príncipe Corvo

Capítulo Quatro

 

“O duque se virou e viu um imenso corvo empoleirado na muralha do

castelo. A ave saltou para mais perto e inclinou a cabeça.

— Eu vou ajudá-lo a derrotar o príncipe, se o senhor me der uma de suas

filhas como esposa.

— Como ousa?! — O velho duque estremeceu de indignação. — O senhor

me insulta ao sugerir que eu sequer pensaria em casar uma de minhas

filhas com uma ave suja.

— Belas palavras, meu amigo — disse o corvo. — Não seja tão rápido. Em

um momento, você perderá tanto suas filhas quanto a vida.

O duque encarou o corvo e viu que não se tratava de uma ave comum. Ele

usava uma corrente de ouro ao redor do pescoço, e um pingente de rubi no

formato de uma pequena mas perfeita coroa pendia da corrente. Ele olhou

novamente para o exército ameaçador nos portões e, ao ver que pouco

tinha a perder, concordou com a barganha profana...”

 

— O Príncipe Corvo

 

— O senhor já considerou o nome Docinho? — perguntou Anna ao pegar

um pouco de doce de maçã com a colher.

Ela e o conde estavam sentados numa extremidade da imensa mesa da

sala de jantar. Pela fina camada de poeira no mogno da outra ponta da mesa,

ela deduziu que o cômodo não devia ser muito usado. Será que o conde

jantava ali? Ainda assim, a sala de jantar ficava aberta todos os dias para

que eles almoçassem ali. Naquela semana, Anna havia aprendido que o

conde não era muito afeito a conversas. Depois de muitos dias de

resmungos e respostas monossilábicas, provocar alguma reação no patrão se

tornara um tipo de jogo.

Lorde Swartingham fez uma pausa no ato de cortar um pedaço de bife e

torta de rins.

— Docinho?

Seus olhos fitavam a boca de Anna, e ela se deu conta de que lambera os

lábios.

— Sim. O senhor não acha que Docinho é um nome adorável?

Os dois baixaram os olhos até o cachorro ao lado da cadeira do conde.

Ele mastigava um osso, e suas presas afiadas reluziam.

— Acho que Docinho pode não ser muito adequado à personalidade dele

— respondeu Lorde Swartingham, pousando a fatia de torta no prato.

— Humm. Talvez tenha razão — murmurou Anna, pensativa. — Ainda

assim, o senhor não ofereceu uma alternativa.

O conde cortou vigorosamente um pedaço de carne.

— Porque estou satisfeito em deixar o animal continuar sem nome.

— O senhor não teve cães quando era garoto?

— Eu? — Ele a encarou como se Anna tivesse lhe perguntado se tivera

duas cabeças quando era garoto. — Não.

— Nenhum animal de estimação?

Ele franziu o cenho para a torta.

— Bem, havia o cachorrinho da minha mãe...

— Aí está! — exclamou Anna, triunfante.

— Mas era um pug, e um animal extremamente irritadiço.

— Mesmo assim...

— Costumava rosnar e mordia todo mundo, menos mamãe —

murmurou o conde, aparentemente para si mesmo. — Ninguém gostava

dele. Certa vez, mordeu um lacaio. Meu pai teve que dar um xelim ao

pobre-diabo.

— E o pug tinha nome?

— Pimpolho. — O conde acenou com a cabeça e deu uma mordida na

torta. — Mas Sammy o chamava de Trambolho. E também lhe dava bala de

goma, só para ver se o doce ficava preso no céu da boca dele.

— Sammy era o seu irmão? — perguntou Anna, achando graça.

Lorde Swartingham tinha levado uma taça de vinho aos lábios e parou

por uma fração de segundo antes de beber.

— Sim. — Ele pousou a taça precisamente ao lado do prato. — Vou ter

que verificar vários problemas na propriedade hoje à tarde.

O sorriso de Anna desapareceu. A brincadeira deles aparentemente

chegara ao fim.

Ele prosseguiu:

— Amanhã, vou precisar que a senhora me acompanhe a cavalo. Hopple

quer me mostrar alguns campos com problemas de drenagem, e eu gostaria

que a senhora tomasse notas para nós enquanto discutimos possíveis

soluções. — O conde ergueu o olhar. — A senhora tem traje de montaria,

não tem?

Anna tamborilou na xícara de chá.

— Para falar a verdade, nunca cavalguei.

— Nunca? — As sobrancelhas do conde se ergueram.

— Não temos cavalos.

— Não. Imagino que não. — Ele franziu o cenho para a torta em seu

prato, como se a culpasse pela falta de vestimenta adequada. — A senhora

tem algum vestido adequado para cavalgar?

Mentalmente, Anna analisou o parco guarda-roupa.

— Eu poderia modificar uma roupa antiga.

— Excelente. Vista-a amanhã, e eu lhe darei uma lição básica de

cavalgada. Não deve ser muito difícil. Não vamos muito longe.

— Ah, mas, milorde, não quero lhe dar trabalho. Posso pedir a um dos

cavalariços que me ajude — protestou Anna.

— Não. — Ele a olhou com expressão severa. — Eu vou ensiná-la a

cavalgar.

Que homem autoritário! Ela deu um muxoxo e se controlou para não

responder. Em vez disso, tomou um gole do chá.

O conde terminou a torta com mais duas garfadas e empurrou a cadeira

para trás.

— Eu a verei antes de a senhora ir embora, Sra. Wren. — Murmurando

um “Venha”, ele saiu do cômodo, e o cão ainda sem nome o acompanhou.

Anna observou os dois. Será que estava irritada porque o conde lhe dava

ordens da mesma forma que ao cão? Ou comovida por ele ter insistido em

ensiná-la pessoalmente a cavalgar? Ela deu de ombros e terminou de tomar

o que sobrara de seu chá.

Ao entrar na biblioteca, ela foi para a mesa e começou a escrever. Após

um tempo, esticou a mão para pegar uma folha em branco e descobriu que

não havia nenhuma. Droga! Anna se levantou para tocar a campainha e

pedir mais papel, mas então se lembrou da pilha na gaveta lateral do conde. Ela se esgueirou atrás da mesa dele e abriu a gaveta. Ali, no topo de uma

pilha de folhas em branco, estava o livro de couro vermelho. Anna o afastou

e pegou algumas folhas. Ao fazer isso, um pedaço de papel flutuou até o

chão. Ela se abaixou para pegá-lo e viu que era uma carta ou uma conta.

Uma marca curiosa estava gravada no topo. Pareciam ser dois homens e

uma mulher, mas ela não conseguiu distinguir o que os pequenos vultos

estavam fazendo. Ela virou a carta em sua mão de um lado para o outro,

estudando-a.

O fogo estalou no canto.

De repente, Anna compreendeu e quase deixou o papel cair. Uma ninfa e

dois sátiros participavam de um ato que não parecia fisicamente possível.

Ela inclinou a cabeça para o lado. Evidentemente, era possível. As palavras

Grotto de Aphrodite estavam gravadas em letras ornadas debaixo da rude

ilustração. O papel era uma conta pela estada de duas noites em uma casa, e

era possível imaginar o tipo de casa pela ilustraçãozinha escandalosa no

topo da página. Quem imaginaria que bordéis mandavam cobranças

mensais da mesma forma que um alfaiate?

Anna sentiu o estômago revirar. Lorde Swartingham devia frequentar

esse lugar, pois a conta estava em sua mesa. Ela se sentou pesadamente e

cobriu a boca com a mão. Por que a descoberta das paixões mais vulgares

do patrão a incomodava tanto? O conde era um homem maduro que perdera

a mulher havia muitos anos. Ninguém com algum conhecimento mundano

imaginaria que ele iria permanecer celibatário pelo resto da vida. Ela alisou

a folha nojenta em seu colo. Mas a ideia de que ele participava de tais

atividades com alguma bela mulher lhe trouxe um estranho aperto no peito.

Raiva. Anna sentiu raiva. A sociedade poderia não esperar o celibato do

conde, mas certamente esperava isso dela. Ele, por ser homem, poderia ir a

casas de má reputação e aprontar por toda a noite com criaturas sedutoras e

sofisticadas. Enquanto ela, por ser mulher, deveria ser casta sem nem ao

menos pensar em olhos escuros e peitos cabeludos. Simplesmente não era

justo. Nem um pouco justo.

Ela refletiu sobre a maldita carta por mais um instante. Depois, colocou-

a de volta com cuidado na gaveta da mesa debaixo do papel em branco.

Estava prestes a fechar a gaveta, mas parou, fitando o livro do corvo. Anna

apertou os lábios e, movida a um impulso, afanou o livro. Ela o enfiou na

gaveta do meio da própria mesa e voltou ao trabalho. O restante da tarde se

arrastou. O conde não retornou dos campos, como prometera.

Horas depois, na carruagem sacolejante para casa, Anna tamborilou com

uma das unhas no vidro da janela e observou os campos se transformarem

em estradas cheias de lama da aldeia. As almofadas de couro tinham cheiro

de mofo, por causa da umidade. Ela avistou uma rua familiar enquanto

faziam uma curva e, abruptamente, se levantou e bateu no teto da

carruagem. John Cocheiro freou os cavalos, e a carrua- gem parou com um

solavanco. Anna desceu e agradeceu ao cocheiro. Ela estava numa região

com casas que eram mais novas e um pouco mais grandiosas do que o

próprio chalé. A terceira casa a contar da alameda era feita de tijolos

vermelhos com a beirada branca. Ela bateu à porta.

Em um instante, uma criada foi verificar quem era.

Anna sorriu para a garota.

— Olá, Meg. A Sra. Fairchild está em casa?

— Boa tarde, Sra. Wren. — A garota de cabelos pretos sorriu, animada.

— A patroa vai ficar contente de ver a senhora. Pode esperar na sala de

estar enquanto digo a ela que está aqui.

Meg seguiu na frente até a pequena sala de estar com paredes de um

amarelo vivo. Um gato de pelagem vermelha estava esticado no tapete,

tomando banho de sol na luz que diminuía e entrava pelas janelas. No

canapé, via-se um cesto com itens de costura, com as linhas para fora,

bagunçadas. Anna se inclinou para cumprimentar o gato enquanto esperava.

Passos soaram nos degraus da escada, e Rebecca Fairchild apareceu na

porta.

— Que vergonha! Faz tanto tempo que você veio nos visitar que eu já

estava começando a achar que tinha me abandonado em meu momento de

mais necessidade.

A outra mulher contradisse de imediato aquelas palavras, correndo e

abraçando Anna. Sua barriga tornou o abraço difícil, pois estava redonda e

pesada, impulsionando Rebecca como as velas de um barco.

Anna retribuiu o abraço da amiga ardorosamente.

— Desculpe-me. Você tem razão. Tenho sido relapsa nas minhas visitas.

Como está?

— Gorda. Não, é verdade — disse Rebecca por cima do protesto de

Anna. — Até James, aquele homem querido, parou de se oferecer para me

carregar escadaria acima. — Ela se sentou um tanto abruptamente no

canapé e, por pouco, não acertou o cesto de costura. — O cavalheirismo

morreu. Mas você tem que me contar sobre seu trabalho na abadia.

— Você ficou sabendo? — Anna pegou uma das cadeiras na frente da

amiga.

— Se eu fiquei sabendo? Não ouvi falar de outra coisa. — Rebecca

baixou a voz de maneira teatral. — O moreno e misterioso conde de

Swartingham empregou a jovem viúva Wren com propósitos desconhecidos

e, diariamente, se tranca com ela numa sala para seus próprios fins nefastos.

Anna se encolheu.

— Estou apenas transcrevendo os manuscritos dele.

Rebecca dispensou essa explicação mundana com um gesto das mãos

quando Meg entrou com uma bandeja de chá.

— Não me diga isso. Você percebe que é uma das poucas que real-

mente conhece o homem? Segundo as fofoqueiras da aldeia, ele se esconde

em sua mansão sinistra apenas para privá-las da oportunidade de examiná-

lo. O conde é de fato tão repulsivo quanto dizem os rumores?

— Ah, não! — Anna sentiu uma onda de raiva. Não é possível que

estivessem dizendo que Lorde Swartingham era repulsivo por causa de

umas poucas cicatrizes. — Claro que ele não é bonito, mas também não é

feio. — De qualquer forma, ele era um bocado atraente para ela, murmurou

uma pequena voz em seu interior. Anna franziu a testa e baixou os olhos

para as mãos. Quando foi que tinha parado de notar as cicatrizes dele e

começado a se concentrar no homem debaixo delas?

— Que pena! — Rebecca pareceu decepcionada ao ouvir a informação

de que o conde não era um ogro horrendo. — Quero ouvir sobre os

segredos obscuros dele e as tentativas de seduzir você.

Meg saiu sem fazer barulho.

Anna deu uma risada.

— Ele pode até ter segredos obscuros — sua voz falhou quando ela se

lembrou da conta —, mas é improvável que tente me seduzir.

— Claro que ele não vai fazer isso enquanto você estiver usando esse

chapéu horroroso. — Rebecca gesticulou com o bule para a peça ofensiva.

— Não sei por que você usa isso. Nem é tão velha assim.

— As viúvas devem usar chapéu. — Anna tocou o gorro de musselina,

constrangida. — Além disso, eu não quero que ele me seduza.

— Por que não?

— Porque... — Anna se interrompeu.

Ela se deu conta — de modo horrível — que sua mente, não conseguia

pensar numa única razão pela qual não queria que o conde a seduzisse. Ela enfiou um biscoito na boca e mastigou devagar. Felizmente, Rebecca não

havia notado o silêncio súbito e agora falava sobre penteados que, segundo

ela, ficariam melhor na amiga.

— Rebecca — interrompeu-a Anna —, você acha que todos os homens

precisam de mais de uma mulher?

Rebecca, que estava servindo-se uma segunda xícara de chá, ergueu o

olhar para a amiga de maneira exageradamente solidária.

Anna sentiu-se corar.

— Quero dizer...

— Não, querida, eu sei o que você quer dizer. — Rebecca pousou o bule

devagar. — Não posso falar por todos os homens, mas tenho certeza de que

James tem sido fiel. E, sinceramente, se ele fosse infiel, eu acho que faria

isso agora. — Ela afagou a barriga e pegou outro biscoito.

Anna não conseguia ficar parada por nem mais um minuto. Ela se

levantou subitamente e começou a examinar as quinquilharias na cornija.

— Me desculpe. Sei que James nunca...

— Fico feliz que você saiba. — Rebecca deu um muxoxo delicado. —

Você devia ter ouvido o conselho que Felicity Clearwater me deu sobre o

que esperar de um marido quando se está grávida. De acordo com ela, todo

marido está simplesmente esperando... — Ela se interrompeu no mesmo

instante.

Anna pegou uma pastora de porcelana e tocou o dourado em seu gorro.

Ela não conseguia vê-la muito bem. Seus olhos estavam embaçados.

— Agora sou eu quem peço desculpas — disse Rebecca.

Anna não ergueu o olhar. Ela sempre havia se perguntado se Rebecca

sabia. Agora, tinha a resposta. E fechou os olhos.

— Acho que qualquer homem que faz pouco-caso dos votos

matrimoniais — ela ouviu Rebecca dizer — é uma vergonha.

Anna recolocou a pastora na cornija.

— E a esposa? Ela não seria culpada, em parte, quando ele sai de casa

atrás de satisfação?

— Não, querida — retrucou Rebecca. — Não creio que a esposa seja

culpada de forma alguma.

No mesmo instante, Anna se sentiu mais leve. Ela tentou sorrir, embora

temesse parecer um pouco vacilante.

— Você é a melhor amiga que eu poderia ter, Rebecca.

— Ora, claro que sou. — A outra mulher sorriu como uma gata satisfeita

consigo mesma e muito prenha. — E, para provar isso, vou pedir a Meg que

nos traga uns bolos com recheio e cobertura. Deliciosos, minha querida!

 

na manhã seguinte, Anna chegou à abadia usando um antigo vestido de lã

azul. Ela ficou acordada até bem depois da meia-noite ampliando a saia,

mas tinha esperança de que agora poderia sentar-se em um cavalo de forma

recatada. O conde já estava caminhando na frente da entrada da abadia,

aparentemente esperando por ela. Ele usava calça de camurça com botas de

montaria marrons que iam até o meio das coxas. Elas estavam um tanto

gastas e sem brilho, e Anna se perguntou, não pela primeira vez, sobre o

valete do conde.

— Olá, Sra. Wren. — Ele observou a saia dela. — Sim, vai servir muito

bem. — Sem esperar resposta, ele contornou a abadia em direção aos

estábulos.

Anna trotou para acompanhá-lo.

O cavalo baio já estava selado e ocupado mostrando os dentes para um

cavalariço. O garoto segurava o freio do cavalo o mais longe possível e

parecia cauteloso. Em contraste, uma égua roliça castanha estava parada

placidamente perto do bloco de montagem. O cão emergiu de trás dos

estábulos e veio saltando até Anna. Ele derrapou até parar diante dela e

tentou tardiamente recuperar um pouco de sua dignidade.

— Eu vi você, sabia? — murmurou ela para o cão, e esfregou suas

orelhas, cumprimentando-o.

— Se já acabou de brincar com esse animal, Sra. Wren... — Lorde

Swartingham franziu o cenho olhando para o cão.

Anna se endireitou.

— Estou pronta.

Ele indicou o bloco de montagem, e Anna se aproximou, hesitante. Ela

conhecia a teoria de montar um cavalo com a sela de amazona, mas a

realidade era um pouco mais complicada. Ela conseguiu colocar um pé no

estribo, mas teve dificuldade em se erguer para passar a outra perna por

cima da parte mais alta da sela.

— A senhora me permite? — O conde estava atrás dela. Ela podia sentir

a respiração quente, o leve odor de café em sua bochecha quando ele se

curvou por cima dela.

Anna acenou com a cabeça, muda.

O conde pôs as mãos grandes ao redor da cintura dela e a ergueu sem

esforço visível. Delicadamente, ele a ajeitou na sela e manteve o estribo

firme para o pé dela. Anna sentiu-se enrubescer quando baixou os olhos

para a cabeça inclinada do conde. Ele tinha deixado o chapéu com o

cavalariço, e ela pôde ver algumas mechas prateadas no seu rabicho. Será

que o cabelo dele era macio ou duro? Sua mão enluvada se ergueu e, como

se agisse por conta própria, tocou levemente os fios. No mesmo instante, ela

retirou a mão, mas aparentemente o conde sentiu alguma coisa. Ele ergueu

os olhos e a encarou pelo que pareceu uma eternidade. Anna observou as

pálpebras baixarem e um leve rubor invadir suas bochechas.

Então, ele se esticou e pegou o freio do cavalo.

— Essa égua é muito mansa — falou. — Acho que a senhora não vai ter

problema com ela, desde que não haja ratos por aí.

Ela o encarou sem compreender.

— Ratos?

O conde acenou com a cabeça.

— Ela tem medo de ratos.

— Eu não a culpo — murmurou Anna. Então, cautelosamente, ela

afagou a crina da égua, sentindo o pelo rígido sob os dedos.

— O nome dela é Daisy — disse Lorde Swartingham. — Posso conduzi-

la um pouco pelo pátio para que a senhora se acostume com ela?

Anna fez que sim com a cabeça.

O conde estalou a língua, e a égua balançou para a frente. Anna segurou

um bocado da crina. Seu corpo inteiro se retesou com a sensação nada

familiar de se mover tão longe do solo. Daisy balançou a cabeça.

Lorde Swartingham olhou para as mãos de Anna.

— Ela pode sentir seu medo. Não é verdade, meu docinho?

Anna, alertada pelas últimas palavras, soltou a crina do cavalo.

— Bom. Deixe seu corpo relaxar. — A voz dele a envolveu e a abraçou

em seu calor. — A égua responde melhor a um toque gentil. Ela quer ser

acariciada e amada, não quer, minha belezinha?

Eles caminharam ao redor do pátio, e a voz grave do conde encantou o

cavalo. Alguma coisa dentro de Anna parecia aquecer e derreter enquanto o

ouvia, como se ela também estivesse encantada. Ele dava instruções

simples sobre como segurar os arreios e se sentar. No fim de meia hora, ela

se sentiu bem mais confiante na sela.

Lorde Swartingham montou seu cavalo e começou uma caminhada pela

entrada. O cão trotou ao lado deles, às vezes desaparecendo na grama alta

que margeava a entrada e reaparecendo alguns minutos depois. Quando eles

alcançaram a estrada, o conde deixou que o cavalo baio fosse à frente,

galopando pela estrada por uma curta distância e depois voltando, para

gastar energia. A pequena égua observou o cavalo mais velho sem qualquer

sinal de que quisesse disparar numa corrida. Anna ergueu o rosto na direção

do sol. Sentia muita falta do seu calor depois do longo inverno. Ela entreviu

um lampejo de amarelo-claro debaixo dos arbustos que ladeavam a estrada.

— Veja, prímulas. Acho que essas são as primeiras do ano, não são?

O conde olhou para onde ela apontava.

— Aquelas flores amarelas? Nunca as vi antes.

— Tentei plantá-las no meu jardim, mas elas não gostam de ser

transplantadas — explicou Anna. — Mas eu tenho algumas tulipas. Já vi os

adoráveis narcisos no bosque da abadia. O senhor também tem tulipas,

milorde?

Ele pareceu um pouco confuso com a pergunta.

— Talvez ainda tenha tulipas nos jardins. Lembro que minha mãe as

colhia, mas não vou aos jardins há tanto tempo...

Anna esperou, mas ele não disse mais nada.

— Nem todo mundo gosta de jardinagem, claro — comentou ela, para

ser educada.

— Minha mãe adorava jardinagem. — O conde desviou o olhar para a

estrada. — Ela plantou os narcisos que a senhora viu e reformou os grandes

jardins murados atrás da abadia. Quando ela morreu... — A expressão dele

era triste. — Quando todos morreram, havia outras coisas, mais

importantes, para serem resolvidas. E agora os jardins passaram tanto

tempo negligenciados que é preciso pôr tudo abaixo.

— Ah, claro que não! — Anna flagrou a sobrancelha erguida do conde e

baixou a voz: — Quero dizer, um bom jardim sempre pode ser restaurado.

Ele franziu o cenho.

— E qual seria o motivo para isso?

Anna estava perplexa.

— Um jardim sempre nos dá um motivo.

Ele arqueou uma das sobrancelhas, desconfiado.

— Minha mãe tinha um jardim adorável quando eu era criança no

vicariato — emendou Anna. — Havia açafrão, narcisos e tulipas na primavera, e, depois, cravinas, dedaleiras e flox, com amores-perfeitos o

ano todo.

Enquanto ela falava, Lorde Swartingham observava atentamente seu

rosto.

— Agora no meu chalé, tenho malvas-rosas, claro, e muitas outras flores

que a minha mãe plantava. Eu queria ter mais espaço para acrescentar umas

rosas — ponderou ela. — Mas rosas são caras e precisam de um bocado de

espaço. Infelizmente, não posso justificar uma despesa assim, pois a horta

vem em primeiro lugar.

— Talvez a senhora pudesse me ajudar com os jardins da abadia no fim

da primavera — sugeriu o conde. Ele virou o focinho do cavalo baio e

começou a percorrer uma trilha menor de terra batida.

Anna se concentrou em virar a égua. Ao erguer o olhar, ela viu o campo

inundado. O Sr. Hopple já estava lá, conversando com um agricultor que

trajava bata de lã e chapéu de palha. O homem tinha dificuldade de encará-

lo. Seus olhos ficavam baixando para o incrível colete cor-de-rosa que o

administrador usava. Havia um bordado preto na barra. Quando Anna se

aproximou, viu que o bordado parecia representar pequenos porcos pretos.

— Bom dia, Hopple. Sr. Grundle. — O conde acenou com a cabeça para

o administrador e o agricultor. Seus olhos foram para o colete. — Que

roupa interessante, Hopple. Não sei se já tinha visto algo assim antes. — O

tom do conde soava grave.

O Sr. Hopple sorriu e passou uma das mãos pelo colete.

— Ora, obrigado, milorde. Eu mandei fazer numa pequena loja em

Londres, na minha última viagem.

O conde passou a perna comprida por cima do cavalo e desceu. Entregou

os arreios para o Sr. Hopple e foi até a égua de Anna. Gentilmente, segurou

na cintura dela e a ergueu. Por um instante, as pontas de seus seios roçaram

na frente de seu casaco, e ela sentiu os dedos largos lhe apertarem. Então,

ela estava livre, e ele se virou para o administrador e o agricultor.

Passaram a manhã caminhando pelo campo, examinando o problema da

água. A certa altura, o conde ficou até os joelhos na água enlameada e

investigou uma fonte suspeita da cheia. Anna tomava notas no pequeno

caderno que recebera dele. Ela ficou contente por haver escolhido uma saia

velha para vestir, pois em breve a bainha ficaria toda suja.

— Como o senhor pretende drenar o campo? — perguntou Anna quando

cavalgavam de volta à abadia.

— Temos que cavar uma vala do lado norte. — Lorde Swartingham

estreitou os olhos, pensativo. — Isso pode ser um problema, porque a terra

naquela parte se estende até a propriedade dos Clearwater, e, por uma

questão de cortesia, eu tenho que enviar Hopple e pedir permissão. O

agricultor já perdeu a plantação de ervilhas, e, se o campo não ficar arável

logo, vai perder também o trigo... — Ele se interrompeu e lançou um olhar

sarcástico para ela. — Me perdoe. A senhora não deve estar interessada

nesse assunto.

— Na verdade, estou, milorde. — Anna se esticou na sela e então pegou

apressadamente a crina de Daisy quando a égua se esquivou. — Fiquei

muito absorta em seus escritos sobre a administração da terra. Se

compreendo corretamente suas teorias, o agricultor deveria intercalar uma

plantação de trigo com uma de feijão ou ervilha, e então com uma de

beterraba e assim por diante. Se esse é o caso, o agricultor não deveria

plantar beterraba em vez de trigo?

— Na maioria dos casos, você estaria certa, mas, neste caso...

Anna ouviu a voz grave do conde falando sobre grãos e legumes. Será

que agricultura sempre tinha sido fascinante e ela nunca percebera isso? Por

alguma razão, achava que não.

 

Uma hora depois, Edward se viu falando sem parar sobre vários meios de

drenar o campo durante o almoço com a Sra. Wren. Sem dúvida, o tema era

muito interessante, mas ele nunca tivera a oportunidade de conversar com

uma mulher sobre tais assuntos masculinos antes. Na verdade, ele mal

tivera a oportunidade de conversar com mulheres, desde a morte da mãe e

da irmã. Naturalmente, ele havia flertado quando era jovem, e sabia como

manter conversas sociais leves. Mas trocar ideias com uma mulher como se

fazia com um homem era uma experiência nova. E ele gostava de conversar

com a pequena Sra. Wren. Ela o ouvia com a cabeça inclinada para um

lado, o sol entrava pela janela da sala de jantar e, gentilmente, iluminava a

curva de sua bochecha. Tanta atenção assim era algo sedutor.

Algumas vezes, ela dava um risinho torto em resposta ao que ele dizia.

Edward estava fascinado por aquele sorriso. Uma das beiradas dos lábios

rosados sempre se inclinava para cima mais do que a outra. Ele se flagrou

olhando para a boca daquela mulher, torcendo para ver novamente aquele

sorriso, fantasiando sobre seu gosto. Edward virou a cabeça e fechou os

olhos. A excitação pressionava a parte da frente de sua calça e o apertava de maneira desconfortável. Ele descobrira que tinha esse problema

constantemente na companhia da nova secretária.

Jesus! Ele tinha mais de 30 anos e não era um garotinho para ficar

pensando no sorriso de uma mulher. A situação seria ridícula se seu pênis

não doesse tanto.

No mesmo instante, Edward se deu conta de que a Sra. Wren estava lhe

fazendo uma pergunta.

— O quê?

— Eu perguntei se o senhor estava bem, milorde — disse ela, e parecia

preocupada.

— Bem. Muito bem. — Ele respirou fundo e desejou, irritado, que ela o

chamasse pelo nome. Ansiava por ouvi-la dizer Edward. Mas não. Seria

altamente inadequado que ela o chamasse pelo nome de batismo.

Ele recompôs os pensamentos dispersos.

— Devíamos voltar ao trabalho. — Edward se pôs de pé e saiu do

cômodo, sentindo como se estivesse fugindo de monstros que cuspiam

fogo, e não de uma pequena viúva sem graça.

 

Quando o relógio bateu cinco horas, Anna arrumou a pequena pilha de

transcrições que havia feito durante a tarde e olhou para o conde. Ele estava

sentado, fitando de cara feia o papel em sua frente. Ela pigarreou.

Ele ergueu o olhar.

— Já está na hora?

Anna fez que sim com a cabeça.

Edward se pôs de pé e esperou que ela recolhesse suas coisas. O cão os

acompanhou porta afora, mas então saltou os degraus até a entrada. O

animal farejou com atenção alguma coisa no chão e rolou alegremente,

esfregando a cabeça e o pescoço no que quer que fosse.

Lorde Swartingham suspirou.

— Vou pedir a um dos cavalariços que o lave antes que ele volte a entrar

na abadia.

— Hum — murmurou Anna pensativamente. — O que o senhor acha de

Adônis?

O conde lhe lançou um olhar tão cheio de horror que ela se esforçou

para não rir.

— Não, suponho que não — murmurou ela.

O cão se ergueu de sua brincadeira e se balançou, abanando uma das

orelhas. Ele trotou de volta e tentou parecer solene com a orelha ainda do

avesso.

— Autocontrole, amigão. — O conde ajeitou a orelha do cão.

Ao ver isso, Anna deu uma risadinha. Ele a encarou, e ela pensou ter

visto sua boca se contorcer. A carruagem veio na direção dos dois, e ela

entrou com a ajuda dele. O cão sabia agora que não podia ir e simplesmente

ficou olhando, melancólico.

Anna recostou-se e observou o cenário familiar passando. À medida que

a carruagem ia se aproximando dos arredores da cidade, ela viu uma pilha

de roupas na vala do acostamento. Curiosa, inclinou-se para fora da janela,

para poder ver melhor. O embrulho se moveu, e uma cabeça com cabelos

finos, castanho-claros, se ergueu e virou na direção do som da carruagem.

— Pare! John Cocheiro, pare agora! — Anna bateu no teto da carruagem

com o punho fechado.

A carruagem diminuiu a velocidade até parar, e ela abriu a porta.

— O que foi, senhora?

Anna viu o rosto confuso de Tom, o lacaio, quando passou pela parte de

trás da carruagem, segurando as saias com uma das mãos. Ela chegou ao

local onde vira as roupas e olhou para baixo.

Na vala, havia uma jovem.

 

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