O Príncipe Corvo

Elizabeth Hoyt · Capítulo 11 de 26

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O Príncipe Corvo

Capítulo Nove

 

 

“O corvo girou em círculos acima do reluzente castelo branco e, ao fazê-lo,

bandos de aves voaram de suas muralhas: sabiás e abelheiros, pardais e estorninhos, pintarroxos e carriças. Todas as aves canoras que Aurea foi capaz de reconhecer e muitas outras que ela não conhecia vieram dar as

boas-vindas. O corvo pousou e as apresentou como seus leais servos e

criados. Mas, embora o corvo tivesse a capacidade de falar a língua dos

humanos, as aves menores não tinham.

Naquela noite, as aves, suas criadas, conduziram Aurea até uma sala de

jantar magnífica. Lá, ela viu uma comprida mesa esplendidamente

arrumada com guloseimas com as quais ela apenas sonhara. Aurea

esperava que o corvo jantasse também, mas ele não apareceu, e ela fez a

refeição sozinha. Depois disso, as aves lhe mostraram um belo quarto, e lá

ela encontrou uma camisola de seda, semelhante à gaze, que já estava

disposta na grande cama. Ela a vestiu e se deitou na cama, caindo

imediatamente em um sono profundo, sem sonhos...”

 

— O Príncipe Corvo

 

A maldita peruca coçava como o diabo.

Edward equilibrou um prato com merengues no colo e desejou poder

enfiar um dedo debaixo da peruca empoada. Ou simplesmente tirar aquela

coisa maldita. Mas as perucas eram de rigueur na sociedade educada, e uma

visita à futura noiva e à sua família com certeza tornava a peça obrigatória.

Ele cavalgara durante todo o dia na véspera para chegar a Londres e tinha

acordado inaceitavelmente cedo, como era de hábito. E então teve de

esperar até que a hora fosse considerada apropriada para a visita. Maldita

sociedade e suas regras estúpidas!

À sua frente, a futura sogra falava para todo o recinto. Ou melhor,

palestrava. Lady Gerard era uma bela mulher com testa ampla e redonda, e

olhos azul-claros. Ela habilmente debatia sozinha a moda atual dos chapéus. Não era um assunto que ele tivesse escolhido e, pelo aceno de cabeça de Sir

Richard, também não era um dos favoritos do homem idoso. Parecia,

porém, que, assim que Lady Gerard começava a falar, somente um ato de

Deus poderia fazê-la parar. Tal como um raio. Edward estreitou os olhos.

Talvez nem isso.

Sylvia, sua noiva, sentava-se graciosamente à sua frente. Os olhos dela

eram tão redondos e azuis quanto os de Lady Gerard. Ela reunia a

verdadeira gama de cores dos ingleses: uma pele saudável cor de pêssego

com creme e cabelos louros volumosos. Lembrava bastante a própria mãe

de Edward.

O conde tomou um gole de chá e desejou que fosse uísque. Na mesinha

ao lado de Sylvia, via-se um vaso de papoulas. As flores eram de um

escarlate vivo e destacavam perfeitamente o cômodo amarelo e laranja.

Junto com a garota parada ao seu lado no vestido índigo, eles formavam um

quadro digno de um mestre. Será que a mãe desenhara aquela cena? Os

olhos azuis sagazes de Lady Gerard brilharam quando ela começou a falar

sobre gaze.

Definitivamente, ela a desenhara.

Mas papoulas não floresciam em março. Essas deviam ter custado um

bom dinheiro, pois era impossível dizer que eram feitas de seda e cera, a

menos que você observasse as flores atentamente.

Ele pôs o prato de lado.

— Poderia me mostrar seus jardins, Srta. Gerard?

Lady Gerard, que fora pega numa pausa, deu permissão com um sorriso

satisfeito.

Sylvia levantou-se e o acompanhou pelas portas francesas até o jardim

compacto, e suas saias farfalharam atrás dele. Os dois caminharam

silenciosamente pela trilha, e os dedos dela se apoiaram levemente em sua

manga. Edward tentou pensar em alguma coisa para dizer, em um assunto

leve para abordar, mas sua mente estava estranhamente vazia. Ninguém

conversa sobre rotação de culturas com uma dama, nem sobre como drenar

um campo ou as técnicas mais recentes em compostagem. Na verdade, nada

que lhe interessava poderia ser discutido em segurança com uma jovem

dama.

Ele baixou o olhar para os pés e percebeu uma pequena flor amarela; não

era um narciso nem uma prímula. Edward se inclinou para tocá-la,

perguntando-se se a Sra. Wren tinha uma flor como aquela em seu jardim.

— A senhorita sabe o que é isto? — perguntou ele à Srta. Gerard.

Sylvia se inclinou para examinar a flor.

— Não, milorde. — Suas sobrancelhas delicadas se uniram. — O senhor

quer que eu pergunte ao jardineiro?

— Não é necessário. — Ele se esticou e limpou a terra das mãos. — Só

fiquei curioso.

Os dois haviam chegado ao fim da trilha, onde havia um pequeno banco

de pedra contra a parede do jardim.

Edward retirou um grande lenço branco do casaco e o pôs sobre o banco.

Ele gesticulou com uma das mãos.

— Por favor.

A garota se ajeitou graciosamente e cruzou as mãos sobre o colo.

Ele juntou as mãos atrás das costas e, distraidamente, observou a

pequena flor amarela.

— Esta união lhe agrada, Srta. Gerard?

— Perfeitamente, milorde. — Sylvia não pareceu nem um pouco

perturbada pela rispidez da pergunta.

— Então a senhorita me dará a honra de se tornar minha esposa?

— Sim, milorde.

— Ótimo. — Edward se inclinou para beijar a face obedientemente

apresentada.

Sua peruca coçava mais do que nunca.

 

— Aí está a senhora. — A voz de Coral interrompeu o silêncio na pequena

biblioteca. — Que bom que encontrou algo interessante!

Anna quase deixou cair o livro ilustrado em suas mãos. Ela deu meia-

volta e deparou com a outra mulher, que a observava com uma expressão

divertida no rosto.

— Desculpe. Acho que ainda estou acostumada às horas do campo.

Quando desci para o café, ainda não estava pronto. A criada disse que eu

poderia ficar aqui. — Anna estendeu o livro aberto em suas mãos como

evidência e, então, rapidamente o abaixou ao se lembrar das impressões

explícitas em seu interior.

Coral observou o exemplar.

— Esse é muito bom, mas talvez a senhora considerasse este aqui mais

útil para o que planeja hoje à noite. — Ela caminhou até outra prateleira,

pegou um exemplar verde fino e o pressionou nas mãos de Anna.

— Ah. Hum... obrigada. — Anna sabia que estava ficando bastante

vermelha. Poucas vezes sentira-se tão constrangida na vida.

No robe amarelo-vergôntea, Coral não parecia ter mais que 16 anos. Ela

poderia ter sido uma jovem dama de boa família prestes a sair para visitar

outras amigas. Somente os olhos estragavam essa ilusão.

— Venha. Vamos tomar café juntas. — Coral seguiu para a sala de café

da manhã, onde Pearl já estava sentada.

Havia um aparador inteiro de pratos quentes, mas Anna descobriu que

não estava com muito apetite. Ela se ajeitou numa cadeira na frente de

Coral com um prato de torradas.

Depois de comer, Pearl pediu licença, e Coral recostou-se em sua

cadeira. Anna sentiu os ombros se retesarem.

— Agora — começou a anfitriã —, talvez devêssemos fazer alguns

planos para esta noite.

— O que a senhora sugere? — perguntou Anna.

— Eu tenho alguns vestidos que a senhora talvez queira ver. Qualquer

um deles pode ser modificado para a senhora. Além disso, deveríamos

conversar sobre as esponjas.

— Como é? — Anna piscou. Como esponjas de banho iriam ajudá-la?

— A senhora pode não saber delas. — Coral tomou o chá serenamente.

— Esponjas que podem ser introduzidas no corpo da mulher para evitar

uma gravidez.

A mente de Anna ficou paralisada diante desse pensamento. Ela nunca

tinha ouvido falar disso.

— Eu... isso provavelmente não é necessário. Eu fui casada por quatro

anos e nunca engravidei.

— Então, não vamos nos preocupar com isso.

Anna pegou a xícara de chá.

Coral continuou:

— A senhora planeja participar da recepção no primeiro andar do Grotto

de Aphrodite para escolher um homem que lhe agrade ou... — Ela encarou

Anna astutamente. — Ou tem um cavalheiro em particular que gostaria de

encontrar lá?

Anna hesitou e tomou um gole do chá. Até que ponto ela poderia confiar

em Coral? Até agora, ela havia seguido as orientações da outra mulher um

tanto ingenuamente, e fizera literalmente tudo que ela sugerira. Mas, afinal, mal a conhecia. Será que poderia confiar nela em relação a quem de fato ela

queria — na verdade, dizer-lhe o nome de Lorde Swartingham?

Coral pareceu compreender o silêncio.

— Eu sou uma prostituta. Além disso, não sou uma boa mulher. Mas,

apesar de tudo, minha palavra é de ouro. — A anfitriã observou Anna

fixamente, como se fosse muito importante que a outra mulher acreditasse

nela. — De ouro. Juro que, em sã consciência não vou prejudicar nem trair

a senhora ou qualquer pessoa de quem eu goste.

— Obrigada.

A boca de Coral se contorceu.

— Eu é que agradeço. Nem todo mundo levaria a sério a palavra de uma

prostituta.

Anna ignorou esse comentário.

— Sim, como a senhora adivinhou, eu gostaria de encontrar um

cavalheiro em particular. — Ela respirou fundo. — O conde de

Swartingham.

Os olhos de Coral se arregalaram infinitesimalmente.

— A senhora marcou um encontro com Lorde Swartingham no Grotto

de Aphrodite?

— Não. Ele não tem conhecimento disso — respondeu Anna com

firmeza. — Nem eu quero que tenha.

A outra mulher deu uma risadinha baixa.

— Me perdoe. Estou confusa. A senhora quer passar a noite em um

encontro íntimo com o conde sem que ele saiba disso. Pretende drogá-lo?

— Ah, não. A senhora está entendendo mal. — A esta altura, seu rosto

devia estar permanentemente corado, mas Anna se esforçou para prosseguir.

— Eu desejo passar a noite com o conde. Intimamente. Só não quero que

ele saiba que sou eu.

Coral sorriu e inclinou a cabeça, desconfiada.

— Como?

— Não estou explicando direito. — Anna deu um suspiro e tentou

colocar os pensamentos em ordem. — Sabe, o conde veio para Londres a

negócios. Tenho razões para acreditar que ele vai visitar o Grotto de

Aphrodite, provavelmente hoje à noite. — Ela mordeu o lábio. — Embora

eu não tenha certeza exatamente de quando.

— Isso pode ser averiguado — disse Coral. — Mas como a senhora

propõe que ele não a reconheça?

— Pearl falou que muitas damas e cortesãs usam uma máscara quando

visitam o Grotto de Aphrodite. Eu pensei que talvez pudesse usar uma.

— Hum.

— A senhora não acha que vai funcionar? — Anna tamborilou os dedos

ansiosamente na lateral da xícara de chá.

— A senhora trabalha para o conde, não é?

— Sou secretária dele.

—Nesse caso, deve saber que há uma chance bem grande de ele

descobrir quem a senhora é — advertiu Coral.

— Mas, se eu usar uma máscara...

— Mas e a sua voz, seu cabelo, seu corpo? — Coral enumerou cada item

nas pontas dos dedos. — Até o seu perfume, se ele já chegou perto o

suficiente da senhora.

— A senhora tem razão, claro. — Anna sentiu que faltava pouco para

chorar.

— Não estou dizendo que não possa ser feito — tranquilizou-a Coral

friamente. — É só que... A senhora está ciente dos riscos?

Anna tentou pensar. Era difícil concentrar-se estando tão perto do que

queria.

— Sim. Sim, eu acho que sim.

Coral a encarou por mais um momento. Então, ela bateu palmas uma

vez.

— Ótimo. Acho que, primeiro, vamos trabalhar na roupa. Precisaremos

de uma máscara que esconda a maior parte do seu rosto. Vamos consultar

minha criada, Giselle. Ela é muito boa com uma agulha.

— Mas como saberemos se Lorde Swartingham estará lá hoje à noite?

— protestou Anna.

— Eu quase esqueci. — Coral tocou a campainha, pedindo material para

escrever, e começou a redigir uma carta na mesa da sala de café da manhã.

Enquanto escrevia, ela explicou: — Conheço a proprietária e uma das

sócias do Grotto de Aphrodite. Ela era conhecida como Sra. Lavender, mas

agora é a própria Aphrodite. Uma velha bruxa que só pensa em dinheiro,

mas ela me deve um favor. Um grande favor, por sinal. Provavelmente

pensa que esqueci o assunto, então ela vai ficar bem mais desconcertada ao

receber esta carta. — Coral abriu um sorriso selvagem. — Tenho o hábito

de nunca me esquecer de uma dívida, então, de certa forma, a senhora está

me fazendo uma gentileza.

Ela soprou para que a tinta secasse, dobrou e selou a carta. Em seguida,

tocou a campainha, chamando um lacaio.

— Os cavalheiros que financiam o Grotto de Aphrodite costumam

marcar visitas antecipadamente, para que possam garantir um cômodo e

uma mulher para a noite — explicou Coral. — A Sra. Lavender vai nos

informar se esse é o caso do seu conde.

— E se for? — perguntou Anna, ansiosa.

— Então vamos planejar o que fazer. — Coral serviu mais chá para as

duas. — Talvez a senhora possa ficar com um quarto, e a Sra. Lavender

mandará Lorde Swartingham ao seu encontro. — Ela estreitou os olhos

pensativamente. — Sim, creio que essa é a melhor solução. O cômodo será

iluminado somente por algumas velas, assim ele não poderá vê-la bem.

— Ótimo. — Anna sorriu.

Coral pareceu brevemente confusa e então retribuiu o sorriso com a

expressão mais sincera que Anna já tinha visto em seu rosto.

O plano poderia funcionar.

 

O Grotto de Aphrodite era uma farsa esplêndida, refletiu Anna naquela

noite ao espiar pela janela da carruagem. Uma construção de quatro

andares, com colunas de mármore e folhas douradas, o lugar era

aparentemente magnífico. Foi somente ao olhar uma segunda vez que ela se

deu conta de que o mármore das colunas era pintado e que o “dourado” era

latão manchado. A carruagem se aproximou dos estábulos, atrás do edifício,

e parou.

Coral, sentada nas sombras à frente de Anna, inclinou-se para a frente.

— Pronta, Sra. Wren?

Anna respirou fundo e checou se a máscara estava firmemente amarrada.

— Sim.

Ela ficou de pé, com as pernas bambas, e acompanhou Coral, que saía da

carruagem. Do lado de fora, uma lanterna próxima à porta dos fundos

lançava uma luz fraca sobre os estábulos. Quando as duas seguiram seu

caminho pela trilha, uma mulher alta com cabelo pintado de hena abriu a

porta.

— Ah, Sra. Lavender — disse Coral com a voz arrastada.

— Aphrodite, por favor — corrigiu a mulher.

Coral inclinou a cabeça ironicamente.

Elas entraram no vestíbulo iluminado, e Anna viu que Aphrodite usava

um vestido violeta feito para parecer uma toga clássica. Uma máscara

dourada pendia de uma das mãos. A madame virou os olhos astutos para

Anna.

— E você é...?

— Uma amiga — retrucou Coral antes que Anna pudesse dizer qualquer

coisa.

Anna lançou-lhe um olhar agradecido. Ficou muito satisfeita por Coral

ter insistido com ela para que pusesse a máscara antes de sair de casa. Não

seria prudente se expor à madame.

Aphrodite lançou à Coral um olhar sórdido e conduziu as duas escada

acima, passando pelo corredor, até parar diante de uma porta. Ela a abriu e

fez um gesto para seu interior.

— O quarto é seu até o amanhecer. Vou informar ao conde que a senhora

o aguarda quando ele chegar. — E, com isso, ela foi embora, fazendo a

roupa farfalhar.

Os lábios de Coral se curvaram num sorriso enigmático.

— Boa sorte, Sra. Wren. — E então ela também se foi.

Anna fechou cuidadosamente a porta atrás de si e esperou um pouco

para controlar a respiração enquanto olhava ao redor. O cômodo era de

surpreendente bom gosto. Bom, considerando-se que ficava num bordel.

Ela esfregou os braços, tentando aquecê-los. Cortinas de veludo cobriam a

janela, fogo reluzia numa adorável lareira de mármore branco e havia duas

cadeiras estofadas no quarto. Ela puxou as cobertas da cama. Os lençóis

estavam limpos — ou ao menos pareciam estar.

Ela retirou a capa, dobrou-a e a colocou sobre uma cadeira. Anna usava

um vestido diáfano que Coral lhe emprestara. Ela imaginava que fosse uma

camisola, mas era extremamente pouco prática. A metade superior consistia

quase que somente em renda. No entanto, Coral a havia tranquilizado de

que esta era a roupa apropriada para uma noite de sedução. A máscara de

cetim em seu rosto tinha o formato de borboleta. Ela cobria a testa e o início

dos cabelos e descia por grande parte das bochechas. As aberturas para os

olhos eram ovais e estreitas nos cantos, conferindo aos olhos um formato

vagamente estrangeiro. O cabelo caía pelos ombros, com as pontas

cuidadosamente enroladas. Lorde Swartingham nunca a tinha visto com o

cabelo solto.

Tudo estava pronto. Anna foi rapidamente para a cornija e mexeu numa

vela. O que ela estava fazendo ali? Aquele era um plano ridículo que nunca

funcionaria. O que ela estava pensando? Ainda havia tempo de desistir. Ela

poderia deixar este quarto e ir para a carruagem.

A porta se abriu.

Anna deu meia-volta e congelou. Uma forma masculina se agigantou na

entrada da porta, iluminada em silhueta pela luz do corredor. Por uma

fração de segundo, ela sentiu medo e deu um passo para trás, apreensiva.

Ela não era sequer capaz de dizer se era Lorde Swartingham. Então o

homem entrou, e Anna soube, pelo formato de sua cabeça, pelos passos,

pelo movimento do braço ao tirar o casaco, que era ele.

O conde pousou o casaco em uma cadeira e avançou para ela de camisa,

calça e colete. Anna não sabia o que dizer ou fazer. Nervosa, tirou o cabelo

do rosto e o enfiou atrás da orelha com o dedo mindinho. Ela não conseguia

ver sua expressão sob a luz fraca da vela mais do que ele poderia ver a dela.

O conde esticou a mão e puxou-a para seus braços. Ela relaxou com o

movimento e ergueu o rosto, à espera do beijo. Mas ele não beijou seus

lábios. Em vez disso, evitou seu rosto e encostou a boca aberta na curva de

seu pescoço.

Anna estremeceu. Esperar tanto tempo por seu toque e, então,

subitamente ter a língua molhada traçando o tendão de seu pescoço até o

ombro era ao mesmo tempo um choque e uma maravilha. Ela apertou os

braços dele. Seus lábios percorreram para cima e para baixo a clavícula, e o

hálito quente lhe dava calafrios. Seus mamilos intumesceram contra a renda

grossa do vestido.

Devagar, ele puxou uma das mangas da camisola folgada. A renda

prendeu e repuxou o mamilo quase dolorosamente enquanto seu seio era

exposto. A respiração do conde ficou mais rápida. Ele moveu a mão do

ombro dela para deslizar a palma cheia de calor sobre seu mamilo. Anna

prendeu a respiração e soltou o ar com dificuldade. Ela não era tocada ali

por um homem havia seis anos, e, mesmo assim, apenas pelo marido. O

calor da palma da mão do conde quase queimou o seio frio. Ele esfregou a

mão grande para cima e para baixo, e sem pressa a mediu com o palmo dos

dedos. Então segurou o mamilo entre o indicador e o polegar e o apertou; ao

mesmo tempo, ele mordeu delicadamente o pescoço dela.

Anna foi atingida por uma onda de intenso prazer, que percorreu todo o

caminho até o monte de vênus. Sua barriga retesou-se com a excitação. Ela passou os dedos pelos braços dele, apertando e esfregando, desejando

desesperadamente poder sentir a pele debaixo das camadas de roupa.

O cabelo dele estava ligeiramente úmido da névoa do lado de fora, e ela

podia sentir seu cheiro: suor e conhaque, e seu próprio e exclusivo almíscar

masculino. Anna virou o rosto na direção dele, mas ele empurrou a cabeça

para trás. Ela o acompanhou. Queria beijá-lo. Mas o conde subitamente

puxou o outro ombro, distraindo-a. Sem os seios para segurá-lo, o vestido

caiu a seus pés. Anna estava nua diante dele. Houve um momento em que

ela piscou e começou a se sentir vulnerável, mas então ele pôs a boca sobre

seu mamilo e o lambeu.

Ela deu um pulo. Um som rouco e baixo saiu de sua garganta.

O conde lambeu o outro mamilo como um gato. Movimentos lentos e

lânguidos que excitaram suas terminações nervosas. Ele emitiu um som

semelhante ao de um ronronado, prolongando a ilusão de que era um grande

predador saboreando o gosto de sua pele.

As pernas dela estremeceram, e Anna se sentiu fraca. Ficou surpresa ao

descobrir que não conseguia ficar de pé. O que era essa sensação que

tomava conta de seu corpo? Isso nunca tinha acontecido antes. Será que

fazia tanto tempo que ela nem sequer conseguia lembrar como era fazer

amor? Seu corpo e suas emoções pareciam desconhecidos para ela.

Mas ele a segurava agora, mesmo quando suas pernas fraquejaram. Sem

que a boca do conde largasse seu seio, ele a pegou e a deitou na cama, e

qualquer pensamento desapareceu da mente de Anna. O conde acariciou

suas ancas desnudas e segurou firmemente suas coxas, abrindo-as. Ele

encaixou o quadril nela, como se tivesse todo o direito de fazer isso. Sua

masculinidade encostava na carne feminina, e ele rebolou em pequenos

movimentos circulares de modo que os lábios internos se abrissem. Ela

podia senti-lo, grande e grosso, bem ali.

O tremor tomou conta de seu corpo.

Ele emitiu um som que era um meio-termo entre um gemido e um

ronronado. Parecia saborear sua posição e o desamparo dela. O conde

continuou a balançar sobre ela e sugou o mamilo com sua boca quente. Ele

arremeteu com força, e Anna arqueou freneticamente contra seu corpo,

quase empurrando-o. Ele gemeu então ao se virar e sugar o outro seio. Ao

mesmo tempo, moveu o quadril sutilmente para fazer força sobre ela. Anna

se arqueou de novo enquanto um gemido escapou de seus lábios. Mas,

dessa vez, o conde estava pronto e não deixou que ela o empurrasse. Ele pressionou com mais firmeza a carne sensível e a empurrou para o colchão,

dominando-a com seu peso e sua força.

Anna estava presa, incapaz de se mover, enquanto ele a satisfazia de

maneira implacável. O conde não diminuiu, pressionando-a

inexoravelmente com a pelve rija enquanto sugava sem parar os mamilos

úmidos.

Ela estremeceu, incapaz de se controlar. Ondas de prazer fluíram de seu

centro para as pontas dos dedos dos pés. Pequenas ondas se seguiram, e

Anna arfou enquanto partes de si mesma pareciam desintegrar-se. Por um

momento arrebatador, a alegria dominou a ansiedade. O conde pressionava

seu corpo no dela, mas com movimentos lentos e suaves agora, como se

soubesse que a carne dela estava sensível demais para suportar um contato

mais bruto. Suas mãos passaram em longos movimentos pelas laterais do

corpo dela, e ele delicadamente lhe deu beijos molhados nos seios

doloridos.

Anna não sabia por quanto tempo ficou semiatordoada antes de sentir os

dedos do conde endurecerem e ele esticar a mão entre seus corpos para abrir

a calça. Não havia espaço entre os dois, e cada movimento da mão dele

pressionava a parte de trás dos nós dos dedos contra sua feminilidade

úmida. Ela se contorceu impudicamente contra aquela mão. Queria mais

dele e queria agora. O conde soltou uma risadinha sombria. Então botou

para fora a carne rija e foi até a abertura. Anna podia sentir o calor da

cabeça enquanto ele empurrava sua masculinidade na carne macia dela.

Ele era grande — muito grande. Claro que era grande. Era um homem

grande. Anna simplesmente não havia percebido quão grande. Ela

estremeceu com ansiedade feminina, mas o conde não lhe deu tempo para

mudar de ideia. Ele empurrava, empurrava sua imensa presença masculina

para dentro dela, e ela cedia. Submetendo-se.

Ela podia sentir a cabeça lisa e redonda do pênis dele pressionando o

círculo interno de músculos que guardavam seu tesouro. O peito dele vibrou

com um gemido. Ele se apoiou sobre os braços rígidos, flexionou as

nádegas e empurrou todo o seu comprimento até o fim. Anna gemeu pela

sensação maravilhosa que aquilo lhe proporcionava: sentir sua carne

masculina dentro dela, quente, dura e agora. Ah, era o paraíso! Ela ergueu

as pernas, enlaçou o quadril dele e ficou ligeiramente confusa ao sentir o

tecido da calça roçando a pele interna de suas coxas nuas.

Então o conde retirou quase todo o pênis e voltou a empurrá-lo todo

dentro dela, e Anna esqueceu as roupas dele.

Ele a penetrou uma vez após outra. Duro e firme. Seu peito e a cabeça

arquearam para cima e para longe dela na escuridão, enquanto o quadril se

mantinha em constante, irracional e prazeroso contato. Ela esticou a mão

para acariciar seu rosto, mas o conde delicadamente afastou as mãos dela e

inclinou a cabeça para esfregar o nariz em seu ouvido. Ela podia ouvi-lo

respirando rapidamente agora, enquanto seu ritmo começava a diminuir.

Anna passou os dedos sobre os pelos em sua nuca e apertou as coxas em

torno dele, tentando fazer aquele momento durar mais. O conde gemeu no

ouvido dela, e suas nádegas subitamente enrijeceram sob os calcanhares

dela enquanto ele convulsionava e derramava seu líquido dentro dela.

Ela arqueou, querendo receber tudo que ele podia dar. Se ao menos

aquilo nunca acabasse.

Mas acabou, e o conde terminou. Ele caiu sobre ela, com a respiração e

o corpo exauridos. Anna o segurou e o manteve colado a ela; então, fechou

os olhos para gravar este momento na memória. Ela sentiu a aspereza da

calça contra suas pernas, e cada tremor de seus músculos enquanto ele

respirava. Ela ouviu a respiração entrecortada em seu ouvido. Era um som

maravilhosamente íntimo, e lágrimas surgiram em seus olhos.

Por alguma razão, Anna se sentiu estranhamente sentimental. A emoção

a deixou confusa. Aquela havia sido a experiência mais gloriosa de sua

vida, mas também fora totalmente inesperada. Ela havia pensado que seria

uma simples liberação física, mas, em vez disso, fora um maravilhoso tipo

de transcendência. Não fazia sentido, mas ela não estava pensando de forma

racional para desfazer o quebra-cabeça.

Mas ela não queria pensar nisso agora. Nesse momento, suas pernas

estavam impudicamente abertas, estendidas onde caíram quando o conde

parou de se mover. Ele ainda estava dentro dela, pulsando de vez em

quando, como resultado de seus esforços. Ela fechou os olhos e saboreou o

peso maciço e quente que a cobria. E sentiu a calidez úmida de sua

semente, o suor e o odor pungente do sexo. Era estranho como ela gostava

daquele odor, e Anna sorriu, sentindo-se relaxada quando virou a cabeça e

roçou os lábios no cabelo dele.

O conde deslocou seu peso e se retirou de dentro dela. Lentamente, ele

se afastou, e ela sentiu cada um de seus movimentos como um vazio que

tomava conta dela. A sensação continuou a aumentar à medida que ele se erguia, saía da cama e abotoava a parte da frente da calça. Sem tardar, o

conde pegou o casaco e foi até a porta.

Ele a abriu, mas então parou, com a cabeça iluminada por trás pela

lâmpada no corredor.

— Encontre-me aqui novamente amanhã à noite. — A porta se fechou

silenciosamente atrás dele.

E Anna se deu conta de que essa fora a única vez que o conde falou com

ela naquela noite.

 

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