O Príncipe Corvo

Elizabeth Hoyt · Capítulo 7 de 26

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O Príncipe Corvo

Capítulo Cinco

 

“No momento em que o duque aceitou a barganha, o corvo se lançou no ar

com um movimento poderoso das asas. Ao mesmo tempo, um exército

mágico surgiu do torreão do castelo. Primeiro, vieram dez mil homens,

cada um armado com um escudo e uma espada. Depois, seguiram-se dez

mil arqueiros, que traziam arcos longos e mortais e aljavas cheias.

Finalmente, dez mil homens a cavalo avançaram, e os animais rangiam os

dentes, prontos para a batalha. O corvo voou até a frente do exército e

encontrou as tropas do príncipe com um estrondo como o de um trovão.

Nuvens de poeira cobriram as duas forças, de tal modo que nada se via.

Ouviam-se apenas os terríveis gritos dos homens na guerra. E, quando

finalmente a poeira baixou, não restava vestígio do exército do príncipe, a

não ser por umas poucas ferraduras que jaziam na terra...

 

— O Príncipe Corvo

 

A mulher estava deitada de lado na vala, com ambas as pernas encolhidas,

como se tentasse se aquecer. Ela apertava um xale sujo em torno dos

ombros lamentavelmente magros. O vestido por baixo do xale já fora de um

tom de rosa vivo, mas agora estava sujo de fuligem. Os olhos estavam

fechados num rosto que parecia amarelado e pouco saudável.

Com uma das mãos, Anna segurou a saia e usou a outra mão para se

equilibrar no barranco enquanto descia até a mulher doente. Ela notou um

cheiro ruim ao se aproximar.

— A senhora está machucada? — Ela tocou o rosto pálido.

A mulher gemeu, e seus grandes olhos se abriram e deixaram Anna

assustada. Atrás dela, o cocheiro e o lacaio deslizaram pelo pequeno declive

com uma pancada.

John Cocheiro teve ânsia de vômito.

— Vamos embora, Sra. Wren. Isto aqui não é para alguém como a

senhora.

Anna virou-se para o cocheiro, espantada. Ele desviou o olhar e

observou os cavalos. Ela olhou para Tom, que examinava as pedras a seus

pés.

— A dama está doente ou ferida, John. — Anna franziu o cenho. — Nós

temos que pedir ajuda para ela.

— Sim, senhora, vamos mandar alguém que possa cuidar dela — disse

John. — É melhor voltar para a carruagem e ir para casa agora, Sra. Wren.

— Mas eu não posso deixar esta dama aqui.

— Ela não é uma dama, se a senhora entende o que quero dizer. — John

cuspiu para o lado. — Não é adequado que a senhora se preocupe com ela.

Anna baixou o olhar para aquela mulher que havia puxado para seus

braços. Agora, ela se dava conta do que não tinha visto antes: a exibição

imprópria de pele no decote do vestido da mulher e a natureza espalhafatosa

do tecido. Ela franziu a testa, pensativa. Será que já havia conhecido uma

prostituta antes? Ela achava que não. Tais pessoas viviam em um mundo

diferente daquele das pobres viúvas do interior. Um mundo que sua

comunidade explicitamente proibia de se misturar com o dela. Anna deveria

fazer o que John sugeria e deixar a pobre mulher. Afinal, era o que todos

esperavam dela.

John Cocheiro oferecia a mão para ajudá-la a subir. Anna fitou o braço

dele. Sua vida sempre havia sido restrita assim, com seus limites tão

estreitos que às vezes pareciam uma corda bamba? Será que ela nada mais

era do que sua posição na sociedade?

Não, não era. Anna levantou o queixo.

— Ainda assim, John, eu me preocupo com esta mulher. Por favor, leve-

a até a carruagem com a ajuda de Tom. Nós temos que levá-la para o meu

chalé e chamar o Dr. Billings.

Os dois homens não pareciam felizes com a situação, mas, sob o olhar

determinado de Anna, carregaram a mulher magra até a carruagem. Anna

entrou primeiro e então se virou para ajudar a ajeitar a mulher no assento.

Ela segurou a desconhecida contra si mesma com os dois braços, para evitar

que ela caísse durante a viagem. Quando a carruagem parou, Anna

cuidadosamente a deitou no banco e desceu. John ainda estava no assento

do cocheiro e olhava para a frente com uma sobrancelha franzida.

Anna pôs as mãos nos quadris.

— John, desça e ajude Tom a levá-la para o chalé.

John resmungou, mas desceu.

— O que foi, Anna? — Mãe Wren tinha vindo até a porta.

— Uma infeliz dama que eu encontrei no acostamento. — Anna

observava os dois homens retirarem a mulher da carruagem. — Tragam-na

para o chalé, por favor.

Mãe Wren deixou o caminho livre enquanto os homens lutavam para

levar a mulher inconsciente porta adentro.

— Onde vamos acomodá-la, senhora? — arfou Tom.

— Acho que no meu quarto, no andar de cima.

Anna ganhou um olhar de desaprovação de John, mas o ignorou. Eles

subiram a escada com a mulher.

— Qual é o problema dessa senhora? — perguntou Mãe Wren.

— Não sei. Acredito que esteja doente — respondeu Anna. — Pensei

que seria melhor trazê-la para cá.

Os homens desceram os degraus estreitos batendo os pés e saíram.

— Não se esqueçam de parar no Dr. Billings — gritou Anna.

Irritado, John Cocheiro acenou com a mão por cima do ombro para dizer

que tinha ouvido. Em um instante, a carruagem havia partido, fazendo

barulho. A essa altura, Fanny estava parada, de olhos arregalados, no

corredor.

— Você poderia pôr a chaleira no fogo para o chá, Fanny? — pediu

Anna. Ela puxou Mãe Wren para um canto assim que Fanny correu para a

cozinha. — John e Tom disseram que a pobre mulher não é totalmente

respeitável. Vou mandá-la para outro lugar se a senhora disser que devo

fazer isso. — Ela fitou a sogra com ansiedade.

Mãe Wren ergueu as sobrancelhas.

— Você está dizendo que ela é uma meretriz? — Diante do olhar

assustado de Anna, ela sorriu e afagou a mão da nora. — É muito difícil

chegar à minha idade sem ouvir essa palavra ao menos uma vez, querida.

— Não, suponho que a senhora esteja certa — retrucou Anna. — E sim,

John e Tom disseram que ela é uma meretriz.

Mãe Wren suspirou.

— Você sabe que seria melhor mandá-la embora.

— Sim, sem dúvida. — Anna ergueu o queixo.

— Mas... — Mãe Wren ergueu as mãos. — Se é seu desejo cuidar dela

aqui, não vou impedir que faça isso.

Anna soltou um suspiro de alívio e correu escadaria acima para ver a

paciente.

Um quarto de hora depois, ouviu-se uma batida forte à porta. Anna

desceu as escadas a tempo de ver Mãe Wren alisar as saias e atender.

Dr. Billings, com uma peruca branca na altura do queixo, estava parado

do lado de fora.

— Um bom dia para as senhoras, Sra. Wren, Sra. Wren.

— E para o senhor também, Dr. Billings — respondeu Mãe Wren pelas

duas mulheres.

Anna levou o médico até o quarto.

Dr. Billings teve de se curvar ao entrar no cômodo. Ele era um

cavalheiro alto e emaciado, com uma leve corcunda permanente. A ponta

do nariz ossudo estava sempre avermelhada, mesmo no verão.

— Então, o que temos aqui?

— Uma mulher que encontrei em perigo, Dr. Billings — explicou Anna.

— O senhor poderia ver se ela está doente ou ferida?

Ele pigarreou.

— Se a senhora me deixar a sós com esta pessoa, Sra. Wren, vou me

empenhar em examiná-la.

Era evidente que John dissera ao médico que tipo de mulher eles haviam

encontrado.

— Acho que vou ficar, se o senhor não se importa, Dr. Billings —

objetou Anna.

Obviamente, o médico se importava, mas não conseguia pensar em

nenhuma razão para mandar Anna embora. Apesar de sua opinião sobre a

paciente, o Dr. Billings foi minucioso e gentil em seu exame. Ele olhou sua

garganta e pediu a Anna que se virasse para que ele pudesse examinar o

peito da enferma.

Então ele puxou as cobertas de volta e suspirou.

— Creio que seria melhor discutirmos isso lá embaixo.

— Claro. — Anna seguiu na frente para o andar de baixo, parando para

pedir a Fanny que levasse um pouco de chá para a sala de estar. Então ela

indicou a única poltrona para o médico e sentou-se diante dele, na beirada

do minúsculo canapé, apertando as mãos no colo. Será que a mulher estava

morrendo?

— Ela está muito doente — começou o Dr. Billings.

Anna se inclinou para a frente.

— Sim?

O médico evitou os olhos dela.

— Está com febre, talvez infecção nos pulmões. E vai precisar de

repouso para se recuperar. — Ele hesitou e então, aparentemente, viu a

tensão no rosto de Anna. — Ah, não é nada grave, eu lhe garanto, Sra.

Wren. Ela vai se recuperar. Só precisa de tempo para se curar.

— Fico muito aliviada. — Anna sorriu. — Pensei, pelo seu jeito, que

fosse uma doença fatal.

— De fato, não é.

— Graças a Deus!

O Dr. Billings esfregou o dedo na lateral do nariz fino.

— Vou mandar alguns homens para cá imediatamente quando eu chegar

à minha casa. Ela vai precisar ser levada para o abrigo, a fim de receber

cuidados, claro.

Anna franziu a testa.

— Mas eu pensei que o senhor tivesse entendido, Dr. Billings. Nós

queremos cuidar dela aqui no chalé.

Uma mancha vermelha surgiu no rosto do médico.

— Que besteira! É totalmente inadequado para a senhora e a Sra. Wren

já de mais idade cuidarem de uma mulher assim.

Ela travou o queixo.

— Eu já conversei com a minha sogra, e nós duas concordamos que

vamos cuidar daquela dama em nossa casa.

Agora, o rosto do Dr. Billings estava completamente vermelho.

— Isso está fora de questão.

— Doutor...

Mas o médico a interrompeu.

— Ela é uma prostituta!

Anna esqueceu o que ia dizer e fechou a boca. Ela encarou o médico e

viu a verdade em seu semblante: era assim que a maioria das pessoas em

Little Battleford iria reagir.

Ela respirou fundo.

— Nós decidimos cuidar da mulher. Sua profissão não altera esse fato.

— A senhora deve compreender, Sra. Wren — resmungou o médico. —

É impossível para a senhora cuidar dessa criatura.

— Sua condição não é contagiosa, é?

— Não, não, provavelmente não mais — admitiu ele.

— Bem, então não há razão para não cuidarmos dela. — Anna sorriu

teimosamente.

Foi nesse momento que Fanny entrou trazendo o chá. Anna serviu uma

xícara para o doutor e outra para si mesma, tentando manter-se o mais

serena possível. Ela não estava acostumada a discutir com cavalheiros, e

achou muito difícil permanecer decidida e não pedir desculpas. Era uma

sensação um tanto inquietante saber que o médico discordava dela; que, na

verdade, ele a desaprovava. Ao mesmo tempo, não conseguia reprimir uma

sensação clandestina. Como era empolgante falar o que pensava sem se

importar com a opinião de um homem! Realmente, ela deveria ficar

envergonhada diante dessa ideia, mas não conseguia se arrepender. Não. De

forma alguma.

Os dois tomaram o chá em um silêncio carregado, o bom doutor

aparentemente tendo concluído que não conseguiria fazê-la mudar de ideia.

Depois de terminar sua xícara, o Dr. Billings retirou uma pequena garrafa

marrom da maleta e a entregou a Anna, com instruções sobre como

administrar o medicamento. Então, o médico colocou o chapéu na cabeça e

enrolou um cachecol lavanda ao redor do pescoço algumas vezes.

Ele parou na porta enquanto Anna o acompanhava até a saída.

— Se mudar de ideia, Sra. Wren, por favor, me chame. Vou encontrar

um lugar apropriado para essa jovem.

— Obrigada — murmurou Anna. E fechou a porta atrás do médico,

inclinando-se nela, deixando seus ombros caírem.

Mãe Wren entrou no vestíbulo e avaliou a nora.

— O que ela tem, minha querida?

— Febre e infecção nos pulmões. — Anna olhou para ela com expressão

de cansaço. — Talvez fosse melhor a senhora e Fanny ficarem com amigos

até isso acabar.

Mãe Wren ergueu as sobrancelhas.

— Quem cuidaria dela durante o dia, enquanto você estiver em

Ravenhill?

Anna a fitou, subitamente aflita.

— Eu tinha me esquecido disso.

Mãe Wren balançou a cabeça.

— É mesmo necessário criar toda essa confusão, minha querida?

— Me desculpe. — Anna baixou os olhos e percebeu uma mancha de

grama em suas saias. Aquilo não ia sair. Manchas de grama nunca saíam. — Eu não tinha a intenção de envolvê-la nessa confusão.

— Então por que não aceitar a ajuda do doutor? É tão mais fácil

simplesmente fazer o que as pessoas esperam de você, Anna.

— Pode ser mais fácil, mas não é necessariamente a coisa certa a fazer,

mãe. A senhora entende isso, não é? — Ela encarou a sogra com expressão

de súplica, tentando encontrar palavras para explicar sua atitude. Suas ações

haviam feito sentido quando ela encarava o rosto doente da mulher na vala.

Agora, com Mãe Wren esperando tão pacientemente, era difícil explicar seu

raciocínio. — Eu sempre fiz o que esperavam de mim, não fiz? Fosse ou

não a coisa certa a fazer.

A mulher mais velha franziu o cenho.

— Mas você nunca fez nada errado...

— Mas essa não é a questão, é? — Anna mordeu os lábios e descobriu,

para seu horror, que estava à beira das lágrimas. — Se eu nunca saí do papel

que me foi atribuído desde que nasci, nunca me pus à prova. Sempre tive

muito medo da opinião das outras pessoas, acho. Sempre fui covarde. Se

aquela mulher precisa de mim, por que não ajudá-la... por ela... e por mim?

— Tudo que eu sei é que isso vai trazer um bocado de problemas. —

Mãe Wren balançou a cabeça mais uma vez e suspirou.

Anna foi até a cozinha, e as duas mulheres prepararam um caldo de

carne. Anna levou a comida e o pequeno frasco marrom de remédio

escadaria acima até seu quarto. Silenciosamente, abriu a porta e espiou. A

mulher se mexeu bem devagar e tentou se erguer.

Anna pousou tudo o que havia trazido em um canto e cruzou o cômodo

até ela.

— Não tente se levantar.

Ao ouvir a voz da anfitriã, os olhos da mulher se abriram rapidamente, e

ela olhou ao redor, agitada.

— Q-q-quem é...?

— Meu nome é Anna Wren. Você está na minha casa.

Anna se apressou em trazer o caldo de carne para a mulher. Ela passou

um braço ao redor da hóspede, gentilmente ajudando-a a se sentar. A

mulher tomou o líquido, engolindo-o com dificuldade. Depois de beber

metade da sopeira, seus olhos começaram a se fechar novamente. Anna

ajudou a mulher a se deitar e pegou a xícara e a colher.

A mulher a segurou com uma mão trêmula enquanto ela se virava para

sair.

— Minha irmã — murmurou ela.

Anna franziu a testa.

— Você quer que eu avise sua irmã?

A mulher assentiu com a cabeça.

— Espere — pediu Anna. — Deixe-me pegar papel e lápis para anotar o

endereço dela. — Ela se apressou até a pequena penteadeira e abriu a última

gaveta. Debaixo de uma pilha de lençóis velhos, havia uma caixa de

nogueira com lápis e papéis, que havia pertencido a Peter. Anna a pegou e

sentou-se na cadeira ao lado da cama, com a caixa em seu colo. — A quem

devo endereçar a carta?

A hóspede sussurrou o nome da irmã e seu endereço em Londres, e

Anna anotou tudo com um lápis num pedaço de papel. Então a mulher se

recostou, exausta, no travesseiro.

Hesitante, Anna tocou sua mão.

— Você pode me dizer seu nome?

— Pearl — murmurou ela, sem abrir os olhos.

Anna levou a caixa de Peter, fechando a porta delicadamente atrás de si.

Ela desceu os degraus correndo e foi para a sala de estar escrever uma carta

à irmã de Pearl, a Srta. Coral Smythe.

A caixa com lápis e papéis era retangular. Podia-se colocá-la no colo e

usá-la como uma mesa portátil. No topo, via-se uma tampa com dobradiça

que se abria e revelava uma caixa menor para penas, um frasco de tinta que

cabia ao lado dela, papéis e outras coisas usadas para correspondência.

Anna hesitou. A caixa era um objeto lindo, mas ela não tocava naquilo

desde a morte do marido. Fora um objeto pessoal dele. Ela se sentia

praticamente uma invasora ao usá-la, sobretudo porque os dois não estavam

muito próximos no fim da vida dele. Ela balançou a cabeça e abriu a caixa.

Anna escreveu cuidadosamente, mas precisou de vários rascunhos para

preparar a carta. Por fim, concluiu satisfeita a missiva e a pôs de lado para

levá-la à estalagem de Little Battleford no dia seguinte. Ela estava

guardando a caixa com as penas quando notou algo preso na parte de trás. A

caixa com as penas não encaixava. Ela abriu completamente a tampa e

balançou o objeto. Então, tateou a parte de trás com a mão. Havia uma coisa

redonda e fria ali dentro. Anna deu um puxão, e o objeto se soltou. Quando

ela retirou a mão, um pequeno relicário dourado se aninhou em sua palma.

A tampa era ornada com belos arabescos e, na parte de trás, via-se um alfinete para que uma dama pudesse usá-lo como broche. Anna apertou a

delicada peça de ouro na emenda. O relicário se abriu.

Estava vazio.

Anna fechou as duas partes de novo e passou o polegar pensativamente

sobre a gravura. O relicário não era dela. Na verdade, nunca o vira antes.

Anna sentiu uma vontade súbita de jogá-lo longe. Como ele ousava?

Mesmo após sua morte, como ele ousava atormentá-la desse modo? Será

que ela já não tinha suportado o suficiente quando ele estava vivo? E agora

encontrava esta coisinha desprezível à sua espera tantos anos depois!

Anna ergueu o braço, com o relicário na mão. Lágrimas embaçavam sua

visão.

Então, ela respirou fundo. Peter estava em seu túmulo havia mais de seis

anos. Ela estava viva, e ele há muito tempo se transformara em pó. Ela

inspirou mais uma vez e abriu os dedos. O relicário reluzia inocentemente

em sua palma.

Com cuidado, Anna o colocou no bolso.

 

O dia seguinte era domingo.

A igreja de Little Battleford era uma pequena construção de pedra

cinzenta com um campanário inclinado. Erigida em algum momento da

Idade Média, era fria e tinha terríveis correntes de ar nos meses de inverno.

Anna passara muitos domingos torcendo para que a homilia terminasse

antes que o tijolo quente que ela trouxera de casa esfriasse e seus dedos

congelassem por completo.

Ouviu-se um súbito murmúrio quando as mulheres da família Wren

entraram na igreja. Muitos olhares rapidamente se desviaram e confirmaram

a suspeita de Anna de que ela era o assunto da discussão, mas

cumprimentou seus vizinhos sem qualquer sinal de que sabia que era o

centro das atenções. Rebecca acenou do banco da frente. Ela estava sentada

ao lado do marido, James, um homem grande e louro com uma barriga um

tanto avantajada. Mãe Wren e Anna se apertaram ao lado deles no banco.

— Você certamente tem tido uma vida agitada nos últimos dias —

murmurou Rebecca.

— Sério? — Anna se ocupou com suas luvas e a Bíblia.

— Mmm-hmm — murmurou Rebecca. — Eu não tinha ideia de que

você estava considerando a profissão mais antiga do mundo.

Isso despertou a atenção de Anna.

— O quê?

— Na verdade, não a acusaram de nada ainda, mas alguns estão perto

disso. — Rebecca sorriu para a senhora atrás delas, que se inclinara para a

frente.

A mulher recuou abruptamente e fungou.

A amiga prosseguiu:

— As fofoqueiras da cidade não se divertiam tanto desde que a esposa

do moleiro teve o bebê dez meses após a morte dele.

O vigário entrou, e a congregação fez silêncio quando o serviço

começou. Como era de esperar, a homilia foi sobre os pecados de Jezebel,

embora o pobre vigário Jones não parecesse estar satisfeito com o discurso.

Bastou Anna olhar para as costas empertigadas da Sra. Jones, sentada no

banco da frente, para adivinhar quem havia sugerido o tema. Finalmente, o

serviço se aproximou de um fim lúgubre, e todos se levantaram para sair da

igreja.

— Não sei por que deixaram-lhe as palmas das mãos e os pés — falou

James quando a congregação começou a se levantar.

Rebecca ergueu o olhar para o marido com amorosa exasperação.

— Do que está falando, querido?

— Jezebel — resmungou James. — Os cães não comeram as palmas das

mãos nem as solas dos pés dela. Por quê? Cães não costumam ser tão

específicos assim em relação à comida, segundo minha experiência.

Rebecca revirou os olhos e afagou o braço do marido.

— Não se preocupe com isso, querido. Talvez eles tivessem cães

diferentes naquela época.

James não pareceu satisfeito com a explicação, mas reagiu à cutucada

gentil da esposa e seguiu em direção à porta. Anna ficou emocionada ao ver

que Mãe Wren e Rebecca se colocaram a seu lado enquanto James ficava

para trás.

No fim das contas, porém, ela não precisou de tão leal barricada. Pois,

embora tivesse recebido alguns olhares de censura e uma cara virada, nem

todas as senhoras de Little Battleford a desaprovavam. Na verdade, muitas

das jovens mulheres estavam com tanta inveja do novo cargo de Anna como

secretária de Lorde Swartingham que, a seus olhos, isso parecia transcender

a problemática acolhida de uma prostituta.

Anna já tinha quase atravessado o corredor formado pelos aldeões do

lado de fora da igreja e começava a relaxar quando ouviu uma voz exageradamente delicada em seu ombro.

— Sra. Wren, quero que saiba quanto a considero corajosa.

Felicity Clearwater segurava sua pequena capa de forma indiferente em

uma das mãos para melhor exibir o vestido elegante. Buquês azuis e

alaranjados desciam sobre um fundo de prímulas amarelo. A saia se abria

na frente e revelava uma anágua de brocado, e todo o conjunto pendia sobre

amplas saias.

Por um momento, Anna pensou melancolicamente em como seria bom

usar um vestido tão elegante quanto o de Felicity; então, Mãe Wren parou

ao lado dela.

— Anna não pensou nem um segundo sequer em si mesma quando

trouxe a pobre mulher para casa.

Os olhos de Felicity se arregalaram.

— Ah, obviamente. Ora, para suportar o desprezo da aldeia inteira, para

não falar da admoestação do púlpito que ela acaba de receber, Anna não

deve ter pensado em nada.

— Não creio que eu deva levar muito a sério as lições sobre Jezebel —

declarou Anna, de pronto. — Afinal, elas poderiam se aplicar a outras

mulheres nesta aldeia também.

Por alguma razão, a resposta um tanto franca fez a outra mulher ficar

tensa.

— Eu nada sei sobre isso. — Os dedos de Felicity correram cegamente

pelo seu cabelo, como aranhas. — Ao contrário de você, ninguém poderia

me julgar pelas companhias que tenho. — Com um sorriso forçado, Felicity

saiu de forma majestosa antes que Anna pudesse pensar em uma resposta

adequada.

— Cobra. — Os olhos de Rebecca se estreitaram de modo semelhante

aos de um réptil.

De volta ao chalé, Anna passou o restante do dia cerzindo meias, talento

no qual se havia tornado especialista por necessidade. Depois do jantar, ela

se esgueirou até o quarto de Pearl e encontrou a mulher bem melhor. Anna

ajudou-a a sentar e a comer um pouco de mingau com leite ralo. Pearl era

uma mulher muito bonita, apesar de sua aparência sofrida.

A hóspede mexeu num cacho do cabelo claro por alguns minutos antes

de finalmente abrir a boca:

— Por que você me acolheu?

Anna ficou surpresa.

— Você estava caída na beira da estrada eu não podia deixá-la lá.

— Você sabe que tipo de mulher eu sou, não sabe?

— Bem...

— Eu sou uma mulher de vida fácil. — Pearl torceu a boca em desafio

ao pronunciar a última palavra.

— Achamos que você pudesse ser — retrucou Anna.

— Bem, agora você sabe.

— Mas não vejo que diferença isso poderia fazer.

Pearl pareceu surpresa. Anna aproveitou a oportunidade para enfiar um

pouco mais de mingau na boca aberta.

— Espere aí. Você não é um daqueles tipos religiosos, é? — Os olhos de

Pearl se estreitaram com desconfiança.

Anna fez uma pausa com a colher no ar.

— O quê?

Pearl torceu agitadamente o lençol que cobria suas pernas.

— Uma daquelas senhoras religiosas que pegam mulheres como eu para

reformar. Ouvi dizer que elas só lhe dão pão e água, e obrigam as mulheres

a costurar até os dedos sangrarem e elas se arrependerem.

Anna baixou o olhar para o mingau leitoso na tigela.

— Isto não é pão e água, é?

Pearl corou.

— Não, senhora. Suponho que não.

— Vamos lhe dar algo mais substancial quando você estiver melhor,

prometo.

Pearl ainda parecia insegura, então Anna emendou:

— Você pode ir embora quando quiser. Mandei uma carta para sua irmã.

Talvez ela chegue logo.

— É mesmo. — Pearl parecia aliviada. — Eu me lembro de dizer o

endereço dela.

Anna se levantou.

— Tente não se preocupar; apenas durma bem.

— Está bem. — A testa de Pearl ainda estava franzida.

Anna suspirou.

— Boa noite.

— Boa noite, senhora.

Anna levou a tigela de mingau e a colher de volta para o andar de baixo

e as lavou. Estava muito escuro na hora em que ela se retirou para o pequeno colchonete arrumado no quarto da sogra.

Ela dormiu sem sonhar e só acordou quando Mãe Wren, delicadamente,

sacudiu seu ombro.

— Anna. É melhor você se levantar, querida, se quiser chegar a

Ravenhill na hora.

Somente então, Anna se perguntou o que o conde pensaria de sua

hóspede.

 

Na manhã de segunda-feira, Anna entrou na biblioteca da abadia com certa

cautela. Ela havia percorrido todo o trajeto desde o chalé temendo o

confronto com Lorde Swartingham, torcendo para que ele fosse mais

razoável do que o médico havia sido. No entanto, o conde parecia normal

— rosto franzido, mal-humorado e com o cabelo e a gravata em desalinho.

Ele a cumprimentou, resmungando que havia encontrado um erro em um

dos trechos que ela transcrevera no dia anterior. Anna soltou um suspiro

grato de alívio e se ajeitou para trabalhar.

No entanto, após o almoço, a maré de sorte dela acabou.

Lorde Swartingham fizera uma breve viagem à cidade para conversar

com o vigário a respeito de financiar uma reforma na abadia. Seu retorno

foi anunciado pela batida da porta da frente contra a parede.

— SRA. WREN!

Anna se encolheu ao ouvir o berro e a subsequente pancada da porta. O

cão perto do fogo ergueu a cabeça.

— Maldição! Onde está essa mulher?

Anna revirou os olhos. Ela estava na biblioteca, onde sempre ficava.

Onde ele achava que ela poderia estar?

Passos pesados foram ouvidos no corredor; então, o vulto alto do conde

escureceu a entrada.

— Que história é essa sobre uma refugiada inapropriada em sua casa,

Sra. Wren? O médico mal podia esperar para me contar sobre sua loucura.

— Ele foi em direção à escrivaninha de pau-rosa e apoiou os braços na

frente dela.

Anna ergueu a cabeça e tentou olhar para ele por cima do nariz, o que

era uma proeza, pois o conde empregava sua grande altura para se agigantar

acima dela.

— Encontrei uma infeliz que estava precisando de ajuda, milorde, e

naturalmente a levei para minha casa, para que pudesse cuidar dela até que estivesse recuperada.

Ele a olhou com cara feia.

— Uma rameira infeliz, a senhora quer dizer. Ficou louca?

Ele estava muito mais zangado do que ela havia imaginado.

— O nome dela é Pearl.

— Ah, ótimo. — Ele se afastou da mesa dela energicamente. — A

senhora está íntima dessa criatura.

— Eu só queria registrar que se trata de uma mulher, e não de uma

criatura.

— Semântica. — O conde fez um gesto de mão. — A senhora não se

importa com sua reputação?

— Minha reputação está fora de questão.

— Está fora de questão? Está fora de questão? — Ele deu meia-volta

com violência em um ímpeto e começou a caminhar pelo tapete diante da

mesa.

O cão abaixou as orelhas e a cabeça, seguindo com os olhos os

movimentos de seu dono.

— Eu queria que o senhor não repetisse as minhas palavras —

resmungou Anna. Ela podia sentir o rubor subindo por sua face e desejou

poder controlar isso. Não queria parecer fraca diante do conde.

Lorde Swartingham, no outro extremo do cômodo, pareceu não ouvir o

que ela disse.

— A sua reputação é a única questão. A senhora deve ser uma mulher

respeitável. Um deslize como esse pode deixar seu nome mais sujo que um

chiqueiro.

Ora! Anna empertigou-se em sua cadeira.

— O senhor está questionando a minha reputação, Lorde Swartingham?

Ele ficou imóvel e se virou para ela com uma expressão de ultraje.

— Não seja boba. Claro que não estou questionando sua reputação.

— Não está?

— Rá! Eu...

Mas Anna o interrompeu.

— Se eu sou uma mulher respeitável, sem dúvida o senhor pode confiar

no meu bom senso. — Ela podia sentir a própria raiva aumentando, uma

grande pressão em sua cabeça, que ameaçava explodir. — Como uma dama

respeitável, considero meu dever ajudar os menos afortunados.

— Não use sofismas comigo. — Ele apontou um dedo para ela, do outro

lado do cômodo. — Sua posição na aldeia ficará desmoralizada se

prosseguir com essa história.

— Posso lidar com algumas críticas — ela cruzou os braços —, mas

acho que dificilmente ficarei desmoralizada por um ato de caridade cristã.

O conde emitiu um som deselegante.

— Os cristãos na aldeia serão os primeiros a expor a senhora ao ridículo.

— Eu...

— A senhora é extremamente vulnerável. Uma viúva jovem, atraente...

— Trabalhando para um homem solteiro — observou Anna,

delicadamente. — Por certo minha virtude está em perigo iminente.

— Eu não disse isso.

— Não. Mas outras pessoas disseram.

— É exatamente o que eu quero dizer — gritou o conde, na certeza de

que, se berrasse alto o suficiente, isso lhe daria razão. — A senhora não

pode se associar a essa mulher!

Aquilo era simplesmente demais. Os olhos de Anna se estreitaram.

— Eu não posso me associar a ela?

O conde cruzou os braços à frente do peito.

— Exatamente...

— Eu não posso me associar a ela? — repetiu Anna acima da voz dele,

dessa vez ainda mais alto.

Lorde Swartingham parecia incomodado pelo seu tom de voz. Como de

fato deveria estar.

— E quanto a todos os homens que a fizeram ser quem é ao se

associarem a ela? — perguntou Anna. — Ninguém se preocupa com a

reputação dos homens que frequentam locais onde há meretrizes.

— Não acredito que a senhora esteja falando tais coisas — balbuciou

ele, ultrajado.

A pressão na cabeça de Anna se fora, substituída por uma onda de

liberdade vertiginosa.

— Bem, estou falando dessas coisas. E sei que homens fazem mais do

que falar sobre isso. Ora, um homem pode visitar uma cortesã

regularmente, todos os dias da semana até, e ainda ser perfeitamente

respeitável. Mas a pobre garota que se envolver no mesmo ato é

considerada suja.

O conde parecia ter perdido a capacidade de falar e ficou bufando.

Anna não conseguiu impedir que um rio de palavras jorrasse de sua

boca.

— E suspeito que não são somente as classes baixas que visitam tais

mulheres. Creio que homens e, na verdade, cavalheiros da sociedade

frequentam casas de má reputação. — Os lábios de Anna tremiam

incontrolavelmente. — Na verdade, parece hipocrisia um homem usar uma

meretriz, mas não ajudar uma delas em seu momento de necessidade. —

Ela parou e piscou para espantar as lágrimas. Não iria chorar.

Os bufos se transformaram em um grande rugido.

— Meu Deus, mulher!

— Acho que devo ir para casa agora — conseguiu dizer Anna pouco

antes de sair correndo da biblioteca.

Meu Deus, o que ela havia feito? Ela perdeu a paciência com um

homem, discutira com seu patrão. E, nesse processo, sem dúvida, tinha

destruído a chance de continuar trabalhando como secretária do conde.

 

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