O Príncipe Corvo

Elizabeth Hoyt · Capítulo 14 de 26

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O Príncipe Corvo

Capítulo Doze

 

“Dias e noites se passaram como se fosse um sonho, e Aurea estava

satisfeita. Talvez estivesse até feliz. Mas, depois de alguns meses, ela

começou a sentir vontade de ver o pai. A vontade só aumentou, até todos os momentos em que estava desperta serem preenchidos pela saudade do rosto

dele, e ela se tornar apática e triste. Uma noite, na hora do jantar, o corvo

pousou seus olhos de conta pretos e brilhantes sobre ela e perguntou:

— O que está causando esta indisposição que eu percebo em você, minha

esposa?

— Quero ver o rosto de meu pai novamente, milorde. — Aurea suspirou. —

Sinto falta dele.

— Impossível! — grasnou o corvo, e deixou a mesa sem dizer outra

palavra.

Mas Aurea, embora nunca tivesse reclamado, sentia tanta falta do pai que

parou de comer e apenas brincava com as guloseimas que lhe serviam. Ela

começou a definhar, até que, um dia, o corvo não conseguiu mais suportar

vê-la assim. Ele entrou em seu quarto agitando as asas raivosamente.

— Vá, então, e visite o patriarca, esposa — grasnou ele. — Mas volte daqui

a 15 dias, pois eu sentiria sua falta se você ficasse mais tempo.”

 

— O Príncipe Corvo

 

— Ai, meu Deus! — exclamou Anna no dia seguinte. — O que foi que o

senhor fez com o seu rosto?

Ela percebeu os hematomas. Edward parou e olhou de cara feia para ela.

A mulher não o via há cinco dias, e as primeiras palavras que saíam de sua

boca eram uma acusação. Brevemente, ele tentou imaginar qualquer um de

seus secretários anteriores, do sexo masculino, ousando comentar sobre sua

aparência. Algo impossível. Na verdade, ele não conseguia pensar em ninguém, salvo em sua atual secretária, que pudesse fazer tais comentários

impertinentes. Estranhamente, ele achava aquela impertinência adorável.

Não que ele demonstrasse isso. Edward ergueu uma sobrancelha e tentou

colocar a secretária em seu lugar.

— Eu não fiz nada com o meu rosto, obrigado, Sra. Wren.

Mas de nada adiantou.

— O senhor não pode dizer que um olho roxo e hematomas no queixo

não são nada. — Anna o fitou com ar de desaprovação. — Já pôs bálsamo

nisso?

Ela estava sentada no lugar de sempre, à pequena escrivaninha de pau-

rosa na biblioteca. Parecia serena e dourada sob a luz da manhã que entrava

pela janela, como se não tivesse saído do lugar o tempo todo que ele

estivera em Londres. Aquele pensamento era estranhamente reconfortante.

Edward notou que Anna tinha uma pequena mancha de tinta no queixo.

E alguma coisa estava diferente em sua aparência.

— Eu não usei bálsamo algum, Sra. Wren, porque não há razão para

isso. — Ele tentou caminhar os passos restantes até sua mesa sem mancar.

Naturalmente, ela percebeu isso também.

— E a sua perna! Por que o senhor está mancando, milorde?

— Não estou mancando.

Anna arqueou as sobrancelhas tão alto que elas quase sumiram de sua

testa.

Edward foi forçado a olhar de cara feia para enfatizar a mentira. Ele

tentou pensar numa explicação para os ferimentos que não o fizesse parecer

um completo idiota. Certamente não podia contar à pequena secretária que

se metera numa briga num bordel.

O que estava diferente na aparência dela?

— O senhor sofreu um acidente? — perguntou Anna antes que ele

conseguisse pensar numa desculpa razoável.

Ele aproveitou a sugestão.

— Sim, foi um acidente. — Alguma coisa com o cabelo... Um novo

penteado, talvez?

O descanso dele foi breve.

— O senhor caiu do cavalo?

— Não! — Edward esforçou-se para baixar o tom de voz e teve uma

repentina inspiração. Ele podia ver o cabelo dela. — Não. Eu não caí do

meu cavalo. Onde está o seu gorro?

Como distração, aquilo fora um completo fracasso.

— Decidi não usá-lo mais — respondeu ela cerimoniosamente. — Se o

senhor não caiu do cavalo, então o que foi que lhe aconteceu?

A mulher teria sido extremamente bem-sucedida na Inquisição.

— Eu... — Mesmo que sua vida dependesse daquilo, ele não conseguia

pensar numa história razoável.

Anna parecia preocupada.

— Sua carruagem não virou, não é?

— Não.

— O senhor foi atropelado por uma carroça em Londres? Ouvi dizer que

as ruas são terrivelmente cheias.

— Não. Também não fui atropelado por uma carruagem. — Ele tentou

sorrir de forma charmosa. — Gosto da senhora sem seu gorro. Seus cachos

brilham como um campo de margaridas.

Anna estreitou os olhos. Talvez ele não tivesse charme algum.

— Não sabia que margaridas eram marrons. O senhor tem certeza de que

não caiu do cavalo?

Edward trincou os dentes e rezou, pedindo paciência.

— Eu não caí do cavalo. Eu nunca...

Ela ergueu uma das sobrancelhas.

— Eu quase nunca fui derrubado do meu cavalo.

Anna rapidamente assumiu a postura de uma educadora.

— Está tudo bem — disse ela numa voz insuportavelmente

compreensiva. — Mesmo os melhores cavaleiros caem das montarias às

vezes. Isso não é motivo para se envergonhar.

Edward se ergueu da mesa, mancou até a dela e apoiou as duas mãos na

superfície. Ele se inclinou até que seus olhos estivessem apenas a

centímetros dos olhos cor de mel de Anna.

— Não estou envergonhado — disse ele muito lentamente. — Eu não

caí do cavalo. Eu não fui jogado do cavalo. Quero encerrar esta discussão.

Está bem, Sra. Wren?

Anna engoliu em seco, atraindo o olhar de Edward para seu pescoço.

— Sim. Sim, está bem assim para mim, Lorde Swartingham.

— Ótimo. — Seu olhar foi atraído pelos lábios dela, úmidos onde ela os

lambera, por conta do nervosismo. — Eu pensei na senhora enquanto estive

fora. A senhora pensou em mim? Sentiu minha falta?

— Eu... — ela começou a murmurar.

Hopple entrou apressado na biblioteca.

— Bem-vindo de volta, milorde. Espero que a sua estada em nossa linda

capital tenha sido agradável. — O administrador parou ao ver a posição de

Edward sobre Anna.

Edward se esticou lentamente, mas seus olhos não se afastaram da

secretária.

— Minha estada foi bastante agradável, Hopple, embora eu tenha

sentido falta da... beleza do campo.

Anna parecia incomodada.

Edward sorriu.

O Sr. Hopple se assustou.

— Lorde Swartingham! O que foi que aconteceu com...?

Anna o interrompeu.

— Sr. Hopple, o senhor tem tempo para mostrar ao conde a nova vala?

— A vala? Mas... — Hopple olhou de Edward para Anna.

Anna franziu as sobrancelhas, como se uma mosca tivesse pousado em

sua testa.

— A nova vala para drenar o campo do Sr. Grundle. O senhor

mencionou isso no outro dia.

— O... Ah, sim, a vala do fazendeiro Grundle — disse Hopple. — Se o

senhor vier comigo, milorde, creio que terá interesse em inspecioná-la.

Os olhos de Edward se voltaram para Anna.

— Eu me encontrarei com você em meia hora, Hopple. Tenho uma coisa

para discutir com a minha secretária primeiro.

— Ah, sim. Sim. Er, muito bem, milorde. — Hopple saiu, parecendo

atordoado.

— O que o senhor queria discutir comigo, milorde? — perguntou ela.

Edward pigarreou.

— Na verdade, é uma coisa que quero lhe mostrar. A senhora poderia vir

comigo?

Anna pareceu perplexa, mas ficou de pé e aceitou seu braço. Ele a

conduziu para fora da biblioteca, virando na porta dos fundos, e não na

principal. Quando os dois entraram na cozinha, a cozinheira quase deixou

cair a bandeja de chá. Três criadas estavam agrupadas perto da mesa na qual

estava a cozinheira, como acólitos em torno de seu sacerdote. As quatro

mulheres se puseram de pé.

Edward acenou para que elas voltassem a se sentar. Sem dúvida, ele

havia interrompido as fofocas matinais. Sem dar explicação, ele passou pela

cozinha e saiu pela porta na parte de trás. Os dois cruzaram o amplo pátio

dos estábulos, com as botas do conde fazendo barulho nos paralelepípedos.

O sol da manhã brilhava fortemente, e os estábulos lançavam uma longa

sombra sobre os dois. Edward deu a volta em um canto da construção e

parou na sombra. Anna olhou ao redor, confusa.

Edward teve uma súbita e terrível sensação de dúvida. Era um presente

diferente. Talvez ela não gostasse ou — pior — se sentisse insultada.

— Isto é para a senhora. — Ele fez um gesto abrupto para um fardo de

aniagem enlameado.

Anna olhou para ele e, depois, para a aniagem.

— O quê...?

Edward abaixou-se e puxou um canto da trouxa. Sob o pano, via-se o

que parecia um monte de varetas espinhosas mortas.

Anna deu um gritinho.

Aquele barulho tinha de ser um bom sinal, não é? Edward franziu a testa

em dúvida. Então, ela lhe lançou um sorriso, e ele sentiu um calor

inundando seu peito.

— Roseiras! — exclamou ela.

Anna se ajoelhou para examinar uma das roseiras escondidas. Ele as

havia embalado cuidadosamente em aniagem úmida para evitar que as

raízes ressecassem antes da partida de Londres. Cada arbusto continha

alguns galhos espinhosos, mas as raízes eram compridas e saudáveis.

— Cuidado, elas podem ter espinhos — murmurou Edward para a

cabeça baixa de Anna.

Ela fez as contas, absorta.

— Tem duas dúzias aqui. O senhor quer que coloque todas elas no seu

jardim?

Edward a fitou com ar severo.

— São para a senhora. Para o seu chalé.

Anna abriu a boca e, por um momento, parecia não saber o que dizer.

— Mas... mesmo que eu pudesse aceitar todas, elas devem ter sido muito

caras.

Será que ela estava recusando o presente?

— Por que você não poderia aceitá-las?

— Bem, para início de conversa, eu não poderia colocar tudo isso no

meu pequeno jardim.

— Quantas caberiam lá?

— Ah, suponho que três ou quatro — retrucou Anna.

— Pegue as quatro que a senhora quiser, e eu vou devolver o restante. —

Edward sentiu-se aliviado. Pelo menos ela não estava rejeitando as rosas. —

Ou vou queimá-las — acrescentou, depois de pensar um pouco.

— Queimá-las! — Anna parecia horrorizada. — Mas o senhor não pode

simplesmente queimá-las. Não as quer para seu próprio jardim?

Ele balançou a cabeça impacientemente.

— Não sei como plantá-las.

— Eu sei. Vou plantar para o senhor em agradecimento pelas outras. —

Anna sorriu para ele, parecendo um pouco tímida. — Obrigada pelas rosas,

Lorde Swartingham.

Edward pigarreou.

— Não há de quê, Sra. Wren. — Ele sentiu uma estranha vontade de

remexer os pés como um garotinho. — Suponho que eu deva ir ao encontro

de Hopple.

Anna simplesmente o encarou.

— Sim... Ah, sim. — Bom Deus, ele estava gaguejando como um

imbecil. — Então eu vou atrás dele. — Resmungando um adeus, ele saiu à

procura do administrador.

Quem imaginaria que dar presentes a secretários poderia ser algo tão

estressante?

 

Anna observou distraída enquanto Lorde Swartingham se afastava, ao

mesmo tempo que enfiava a mão na aniagem enlameada. Ela sabia como

era a sensação daquele homem em seu corpo no escuro. Sabia como seu

corpo se movia quando fazia amor. Conhecia os sons roucos e graves que

ele produzia do fundo da garganta quando atingia o clímax. Ela sabia as

coisas mais íntimas que alguém pode saber sobre um homem, mas não sabia

como conciliar esse conhecimento com a visão dele à luz do dia. Conciliar

o homem que fazia amor de maneira tão sublime com aquele que lhe

trouxera roseiras de Londres.

Anna balançou a cabeça. Talvez fosse uma pergunta difícil demais.

Talvez nunca fosse possível compreender a diferença entre a paixão de um

homem à noite e a expressão civilizada que ele usava durante o dia.

Ela não conseguira imaginar como seria vê-lo depois de passar duas

noites inacreditáveis em seus braços. Agora ela sabia. Sentia-se triste, como

se tivesse perdido alguma coisa que nunca tivera de verdade. Ela fora para

Londres com a intenção de fazer amor com ele, de desfrutar do ato físico

com um homem: sem emoção. Mas, no fim das contas, Anna não era tão

impassível quanto um homem. Ela era uma mulher, e aonde quer que seu

corpo fosse, suas emoções o seguiriam indiscriminadamente. O ato, de certa

forma, a ligara ao conde, não importava se ele soubesse disso ou não.

E ele jamais poderia saber agora. O que havia ocorrido entre os dois no

quarto do Grotto de Aphrodite deveria permanecer apenas como seu

segredo.

Ela fitou os caules das rosas sem enxergá-los. Talvez as flores fossem

um sinal de que as coisas ainda poderiam ser curadas. Anna tocou um galho

espinhoso. Elas deviam significar alguma coisa, não? Um cavalheiro não

costuma dar um presente tão adorável — um presente tão perfeito — para a

secretária, costuma?

Um espinho lhe furou o polegar. Distraída, ela sugou a ferida. Talvez

houvesse esperança afinal. Desde que o conde nunca, sob hipótese alguma,

descobrisse que ela o enganara.

 

Mais tarde naquela manhã, Edward tinha água enlameada até a altura da

panturrilha e inspecionava a nova vala de drenagem. Uma cotovia cantava

na fronteira do campo do Sr. Grundle. Provavelmente estava extasiada por

não ter se molhado. Ali perto, dois trabalhadores usando a bata da fazenda

de Grundle retiravam lama com a pá para manter a vala sem detritos.

Hopple também estava de pé na água enlameada e parecia especialmente

ofendido. Isso poderia ser, em parte, porque ele já tinha escorregado e caído

na água suja. Seu colete, antes amarelo cor de gema de ovo com debrum

verde, estava imundo. A água da vala jorrava no riacho próximo, conforme

o administrador explicava a engenharia do projeto.

Edward observava os trabalhadores, assentia para o sermão de Hopple e

pensava na reação de Anna ao seu presente. Quando ela falava, o conde

tinha dificuldade para manter os olhos longe de sua boca exótica. Como

uma boca daquelas tinha ido parar numa mulherzinha tão comum era um

grande mistério que, aparentemente, poderia encantá-lo por muitas horas.

Aquela boca poderia fazer o arcebispo de Canterbury pecar.

— O senhor não acha, milorde? — perguntou Hopple.

— Ah, com certeza. Com certeza.

O administrador olhou para ele de modo estranho.

Edward suspirou.

— Apenas continue.

Jock apareceu aos pulos com um pequeno e infeliz roedor na boca. Ele

saltou a vala e aterrissou com um borrifo de água enlameada, arruinando de

vez o colete de Hopple. O cão apresentou seu achado a Edward. No mesmo

instante, ficou evidente que o tesouro deixara de ter vida há algum tempo.

Hopple recuou apressadamente, acenando um lenço diante do rosto e

resmungando irritado:

— Jesus! Depois que esse cão sumiu por vários dias, pensei que

estávamos livres dele.

Edward afagou Jock, distraído, o presente fedorento ainda em sua boca.

Um verme caiu, fazendo barulho na água. Hopple engoliu em seco e

continuou sua explicação do maravilhoso dreno com o lenço sobre o nariz e

a boca.

É claro que, depois de conhecer Anna melhor, Edward já não a achava

assim tão comum. Na verdade, ele tinha dificuldade em explicar como a

havia ignorado tão completamente na primeira vez em que se encontraram.

Como poderia ter achado sua aparência sem graça? A não ser pela boca,

claro. Ele sempre prestara atenção na boca.

Edward suspirou e chutou alguns detritos sob a água, levantando um

borrifo de lama. Ela era uma dama. Esse era um fato que ele nunca havia

ignorado, mesmo que tivesse se enganado sobre sua beleza a princípio.

Como um cavalheiro, não deveria nem pensar em Anna dessa forma. Era

para isso que serviam as prostitutas, afinal. Damas simplesmente não

consideravam a ideia de se ajoelhar diante de um homem e, lentamente,

levarem suas belas bocas sensuais até o...

Edward se mexeu pouco à vontade e franziu o cenho. Agora que ele

estava oficialmente noivo da Srta. Gerard, devia parar de pensar na boca de

Anna. Ou, melhor dizendo, em qualquer outra parte dela. Precisava deixar

Anna — a Sra. Wren — longe de seus pensamentos, para que seu segundo

casamento fosse bem-sucedido.

Sua futura família dependia disso.

 

Rosas são engraçadas: espinhosas na superfície, mas tão frágeis em seu

interior, refletiu Anna naquela noite. Rosas eram uma das flores mais difíceis de plantar, precisavam de mais cuidados e atenção do que qualquer

outra planta; ainda assim, uma vez estabelecidas, poderiam crescer por

anos, mesmo que fossem abandonadas.

O jardim atrás do chalé tinha somente seis por nove metros, mas ainda

havia espaço para um pequeno galpão nos fundos. Ela usara uma vela na

escuridão que avançava para iluminar seu caminho enquanto remexia no

galpão, encontrando uma antiga bacia e alguns baldes de estanho. Agora,

Anna colocava as rosas com cuidado nos recipientes e as cobria com a água

extremamente fria do pequeno poço do jardim.

Anna deu um passo para trás e observou seu trabalho de forma crítica.

Parecia que Lorde Swartingham a evitara depois de lhe dar as rosas. Ele não

tinha aparecido para o almoço e somente havia parado na biblioteca uma

vez naquela tarde. Mas, sem dúvida, ele tinha muito trabalho acumulado

dos cinco dias em que estivera fora, e era um homem muito ocupado. Ela

arrastou a aniagem enlameada por cima da bacia e dos baldes. E arrumou os

recipientes na sombra do chalé, para que as plantas não queimassem no sol

do dia seguinte. Talvez em um dia ou dois pudesse plantar as rosas, mas a

água as manteria vivas. Ela acenou em concordância e entrou para se lavar

antes do jantar.

A família Wren comeu batatas assadas e um pedaço de pernil naquela

noite. A refeição estava quase no fim quando Mãe Wren pousou o garfo e

exclamou:

— Ah, eu tinha me esquecido de lhe dizer, querida. Quando você viajou,

a Sra. Clearwater nos convidou para a soirée de primavera que vai

acontecer daqui a dois dias.

Anna fez uma pausa com a xícara a meio caminho dos lábios.

— É mesmo? Nunca fomos convidadas antes.

— Ela sabe que você é amiga de Lorde Swartingham. — Mãe Wren

sorriu de modo complacente. — Seria uma vitória para ela se ele

comparecesse.

— Eu não tenho qualquer influência sobre a ida ou não do conde. A

senhora sabe bem disso, mãe.

— Você acha mesmo? — Mãe Wren inclinou a cabeça. — Lorde

Swartingham não fez esforço algum para participar de nossos divertimentos

sociais. Ele não aceita convites para chás nem jantares e não faz questão de

ir à igreja aos domingos.

— Ele é mesmo um recluso — admitiu Anna.

— Algumas pessoas dizem que ele é orgulhoso demais para ser visto em

eventos do interior.

— Isso não é verdade.

— Ah, eu sei que o conde é bastante simpático. — Mãe Wren serviu-se

de uma segunda xícara de chá. — Ora, ele tomou café da manhã neste chalé

conosco e também foi muito cortês. Mas ele não se esforçou nem um pouco

para agradar outras pessoas na aldeia. Isso faz com que não tenha boa

reputação.

Anna franziu a testa e fitou a batata em seu prato.

— Eu não havia percebido que tantas pessoas o viam assim. Os

arrendatários na região o adoram.

Mãe Wren fez que sim com a cabeça.

— Os arrendatários, talvez. Mas ele também precisa ser cortês com

aqueles que estão na base da sociedade.

— Vou tentar convencê-lo a ir à soirée. — Anna endireitou os ombros.

— Mas vai dar trabalho. Como a senhora disse, ele não tem muito interesse

em eventos sociais.

Mãe Wren sorriu.

— Nesse meio-tempo, precisamos discutir o que você vai usar.

— Eu nem tinha pensado nisso. — Anna franziu a testa. — Tudo que

tenho é o meu velho vestido de seda verde. Simplesmente não há tempo

suficiente para fazer vestidos com os tecidos que eu trouxe de Londres.

— É uma pena — concordou Mãe Wren. — Mas seu vestido verde é

muito bonito, querida. A cor adorável traz um tom rosado à sua face e

combina muito bem com os seus cabelos. No entanto, suponho que o decote

infelizmente esteja fora de moda.

— Talvez desse para usar alguns dos aviamentos que a Sra. Wren

comprou em Londres — sugeriu Fanny timidamente. Ela ficara ali por perto

durante toda a conversa.

— Que boa ideia! — Mãe Wren sorriu para ela, fazendo a garota corar.

— Melhor começarmos hoje mesmo.

— Sim, de fato, mas tem uma coisa que eu quero encontrar antes de

começarmos os vestidos.

Anna empurrou a cadeira para trás e foi até o antigo armário da cozinha.

Ela se ajoelhou, abriu a parte de baixo e espiou.

— O que está procurando, Anna? — perguntou Mãe Wren atrás dela.

Anna se afastou do armário e espirrou antes de erguer um pequeno

frasco empoeirado em triunfo.

— O bálsamo de minha mãe, para hematomas e esfoladuras.

Mãe Wren lançou um olhar duvidoso para o frasco.

— Sua mãe era uma excelente herborista amadora, querida, e eu fui

grata pelo bálsamo muitas vezes no passado, mas o creme tem um cheiro

horrível. Você tem certeza de que precisa dele?

Anna se levantou agilmente, sacudindo a poeira das saias.

— Ah, não é para mim. É para o conde. Ele sofreu um acidente com o

cavalo.

— Um acidente com o cavalo. — A sogra piscou. — Ele caiu?

— Ah, não. Lorde Swartingham é um cavaleiro experiente demais para

cair do cavalo — disse Anna. — Não sei ao certo o que aconteceu. Acho

que ele não queria discutir o assunto. Mas o homem está com hematomas

horríveis no rosto.

— No rosto... — Mãe Wren se interrompeu pensativamente.

— Sim, um dos olhos parecia bem machucado, e o queixo está roxo.

— E você pretende passar bálsamo no rosto dele? — Mãe Wren cobriu o

próprio nariz como em solidariedade.

Anna ignorou a cena.

— Se isso puder ajudá-lo a se curar mais rápido...

— Tenho certeza de que você sabe o que é melhor — retrucou Mãe

Wren, mas ela não parecia convencida.

 

Na manhã seguinte, Anna procurou o conde no pátio dos estábulos. Lorde

Swartingham estava parado, dando instruções ao Sr. Hopple, que as anotava

da melhor maneira possível num pequeno livro. Jock estava por ali também,

e se levantou para cumprimentar Anna ao vê-la. O conde notou, parou e

virou seus olhos escuros para Anna. Ele sorria.

O Sr. Hopple ergueu o olhar quando as ordens cessaram.

— Bom dia, Sra. Wren. — Ele olhou novamente para Lorde

Swartingham. — Devo começar com as tarefas, milorde?

— Sim. Sim — retrucou o conde impacientemente.

O administrador se apressou, parecendo aliviado.

O conde foi até ela.

— A senhora precisa de alguma coisa? — Ele continuou caminhando até

parar perto demais de Anna.

Ela podia ver os finos fios prateados em seu cabelo.

— Sim — respondeu ela rapidamente. — Preciso que o senhor fique

parado.

Os belos olhos escuros do conde se arregalaram.

— O quê?

— Tenho um pouco de bálsamo para o seu rosto. — Ela retirou o

pequeno frasco da cesta e o ergueu.

Ele olhou para o frasco, desconfiado.

— É uma receita da minha falecida mãe. Ela jurava que tinha

propriedades curativas.

Anna retirou a tampa, e o conde jogou a cabeça para trás devido ao odor

pungente que subiu. Jock parecia querer enfiar o nariz no frasco.

Lorde Swartingham agarrou os pelos do pescoço do cão e o afastou.

— Bom Deus! Tem cheiro de bost... — Ele viu os olhos dela se

estreitarem. — Bosque — completou ele sem convicção.

— Bom, é um cheiro adequado ao pátio dos estábulos, o senhor não

acha? — retrucou ela sarcasticamente.

O conde parecia preocupado.

— Aí dentro não tem mesmo bost...

— Ah, não. — Anna ficou chocada. — É composto de gordura de

carneiro, ervas e outras coisas. Não sei exatamente o quê. Eu teria de

procurar a receita da minha mãe para dizer. Mas com certeza não tem

bost..., hum, nada censurável nele. Agora, fique quieto.

Ele inclinou uma sobrancelha ao notar o tom de voz dela, mas ficou de

pé obedientemente, imóvel. Anna pegou um pouco do creme gorduroso

com o dedo, esticou-se na ponta dos pés e começou a passá-lo na bochecha

dele. Como o conde era muito alto, Anna tinha de chegar bem perto para

alcançar seu rosto. Lorde Swartingham estava em silêncio, respirando fundo

enquanto Anna espalhava cuidadosamente o bálsamo perto de seu olho

roxo. Ela podia sentir que ele a observava. Anna pegou outra porção e

começou a esfregar com delicadeza no queixo dele. O bálsamo era frio, mas

se tornou quente e escorregadio quando sua pele o aqueceu. Ela sentiu o

leve arranhar da barba debaixo dos dedos e teve de combater a vontade de

demorar-se mais um pouco naquela tarefa. Esfregou uma última vez e

deixou a mão cair.

Lorde Swartingham baixou o olhar para ela.

Ao se aproximar dele para aplicar o bálsamo, Anna se aninhara entre as

pernas abertas do conde. Seu calor envolveu o corpo dela. Ela começou a se

afastar, mas as mãos dele envolveram seus braços. Os dedos se dobraram, e

ele parecia encará-la fixamente. Anna respirou fundo. Será que ele...?

O conde Edward a soltou.

— Obrigado, Sra. Wren. — Edward abriu a boca como se fosse dizer

mais alguma coisa e então a fechou. — Tenho trabalho a fazer. Eu a verei

mais tarde. — Ele fez uma breve mesura antes de se virar.

Jock olhou para ela, choramingou e, então, seguiu seu dono.

Anna observou os dois se afastarem, suspirou e, pensativamente, botou a

tampa de volta no pote de bálsamo.

 

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