O Vale dos Cavalos
Capítulo 7
Ayla passou a mão pela testa suarenta e sorriu para o cavalinho amarelo que a cutucava, querendo meter o focinho em sua mão. A potranca não gostava de perdê-la de vista e a seguia por toda parte. Ayla não se importava, estava precisando de companhia.
- Cavalinho, quanto de cereal vou ter de colher para você? -gesticulou ela. A pequenina potranca cor de palha, atenta, observava-lhe os movi mentos. O animal a fazia lembrar-se dela própria, quando era criança, tentando aprender a língua gestual dos clãs. - Está querendo aprender a falar? Bom, sem mãos vai ficar difícil para você. Mas parece que está querendo entender o que eu digo.
A fala de Ayla compreendia uns tantos sons. A linguagem coloquial usada pelos clãs não era inteiramente silenciosa. Só a língua formal era. Cada vez que ouvia Ayla emitindo algum som em voz alta, as orelhas do animal se levantavam.
- Você está ouvindo, não é, bichinho? - ela abanou a cabeça. - Não. Isso não parece direito. Eu não posso ficar só chamando bichinho, cavalinho.Preciso arrumar um nome para você. É isso que está querendo escutar, não é? O seu nome. Gostaria de saber qual era o nome que a sua mãe lhe dava. Mas mesmo que eu soubesse, com certeza não iria saber dizer.
A potranca a observava atentamente, já sabendo que Ayla, quando movia as mãos de determinada maneira, estava lhe prestando atenção. Ayla interrompeu a gesticulação e o animal relinchou.
- Está falando comigo? Huiinnii! - fez ela, imitando a voz do cavalo.
Havia qualquer coisa de familiar no som e a potranca lhe respondeu, abanando a cabeça e soltando um novo relincho.
- É esse o seu nome? Huiin? - gesticulou ela, sorrindo.
O cavalo tomou a levantar a cabeça, recuou o corpo, e depois voltou a aproximar-se - Ayla deu uma risada.
- Se for este, então todos os cavalos têm o mesmo nome... - ou talvez seja eu que não perceba a diferença.
Ela soltou novamente um relincho e o cavalo voltou a respondê-la. Por alguns momentos a brincadeira continuou. Fazia-a lembrar do tempo em que ficava com o seu filho brincando de fazer sons com a boca. Só Durc conseguia emitir os mesmos sons que ela. Creb lhe contou que quando a acharam, ela emitia uma quantidade de sons e sabia que nos clãs ninguém era capaz de pronunciá-los. Foi uma coisa que a deixou feliz, descobrir que o filho tinha também a mesma capacidade.
Ela voltou novamente às espigas que estava colhendo nos altos pés de trigo. No vale cresciam diferentes tipos de cereais, inclusive o azevém, semelhante ao que existia perto da caverna do clã. O seu pensamento estava no nome que daria ao cavalo. “Nunca até hoje dei nome a alguém.” Então sorriu. “Como me achariam esquisita botando nome num cavalo. E muito mais ainda se soubessem que estou vivendo com Unt” Ela olhou para o animal correndo e saltando, cheio de vida. “Fico contente por ter o cavalinho por perto”, pensou, sentindo um nó na garganta. “Com ela por aí, isso não fica tão solitário. Nem sei o que fada se eu a perdesse agora. Vou lhe dar um nome.”
O sol começava a abaixar, quando parou, olhando para cima. Era um vasto céu vazio. Nem uma nuvem a delimitá-lo ou a cortar a visão de sua infinitude. Apenas uma distante incandescência no ocidente, brotada de um anel tremeluzente que se revelava em pós-imagem, conspurcava a vastidão enormemente azul. Pela incidência da luz sobre o penhasco, ela achou que já era tempo de parar.
Percebendo que a atenção de sua dona já não estava mais no trabalho, o cavalo relinchou é veio para junto dela.
- Será que já não é tempo de voltar para a caverna? Mas, antes, vamos tomar um gole de água - ela passou o braço ao redor do pescoço do animal e se encaminhou para a beirada do rio.
As folhagens junto do alto paredão rochoso eram um caleidoscópio de cores que refletiam o ritmo das estações. No momento, dominava o verde escuro dos abetos e pinheiros pontilhado de ouro, amarelo-claro, marrom e vermelho-fogo. O abrigado vale fazia uma nota fulgurante no meio do bege monótono das estepes e o sol era sentido muito mais quente dentro das muralhas que o protegiam contra as ventanias. Apesar das cores outonais, aquele era como um dia quente de verão. No entanto, isso não passava de uma ilusão.
- Acho que devia pegar mais capim. Você agora deu para comer todas as camas que eu arrumo - ia Ayla monologando ao lado do cavalo. Depois, sem que percebesse, parou de gesticular e prosseguiu falando só para si. “Iza sempre pegava no outono o capim que punha nas camas durante o inverno. Tinha um cheiro delicioso quando ela trocava, principalmente quando a neve estava alta lá fora, com o vento soprando forte. Eu adorava ficar deitada ou vindo o vento e sentindo o cheiro do feno fresco.”
Ao perceber que direção estavam tomando, o cavalinho trotou, passando à frente. Ayla deu um sorriso condescendente.
- Você deve estar com tanta sede quanto eu, não é, Huiin? - disse, imitando um relincho para responder o da potranca que a chamava. - Isso até parece nome de cavalo. Mas um nome tem de soar perfeitamente.
- Huiin! Huiiinni!
O animal levantou a cabeça, olhou-a e trotou de volta para perto dela. Ayla lhe esfregou a cabeça, coçando-a. A potranca começava a perder o seu pêlo de cria jovem, substituindo-o por outro mais comprido que iria protegê-la melhor no inverno. Sentia-se feliz quando ganhava uma coçadela.
- Acho que está gostando deste nome e ele combina bem com você, minha potranquinha. Precisamos fazer uma cerimônia para que você receba o seu nome de forma apropriada. Se bem que eu não possa carregá-la nos braços e Creb não está aqui para lhe pôr a marca. Assim, sou eu mesma quem vai fazer o papel do mog-ur e realizar a cerimônia - ela sorriu. “Quem diria, uma mulher mog-ur.”
Começou outra vez a caminhar para o rio, mas mudou um pouco a direção, ao perceber que estava perto do lugar onde cavara a armadilha no chão. Havia tampado de novo o buraco, mas o cavalinho sempre se espantava quando chegava perto, pondo-se a fuçar com bufados e a dar patadas no chio, aflito talvez com algum cheiro ou com alguma lembrança. A manada, desde o dia em que saiu pelo vale em disparada, fugindo do fogo e da barulhada de Ayla, nunca mais voltara.
Ela levou o cavalinho para beber perto da caverna. As águas do rio, turvas com as barreiras caídas, haviam retrocedido, deixando uma pasta de lama marrom na margem. O barro esborrachava-se sob os seus pés, pondo-lhe manchas avermelhadas sobre a pele que a faziam lembrar do ocre vermelho usado pelo mog-ur para celebrar determinadas cerimônias, como aquela em que ele designava o nome das pessoas. Ela passou o dedo na lama e fez um sinal na sua perna, depois, sorrindo, pegou um punhado.
“Ia procurar ocre vermelho, mas isso também serve”, pensou. Com os olhos fechados, procurava recordar-se do que Creb fizera quando ele deu no me ao seu filho. Via o rosto deformado, com um retalho de couro cobrindo o buraco do olho vazado, o nariz comprido, superfícies salientes e uma fronte baixa que se escorregava para a parte posterior da cabeça. A sua barba, com a idade, ficara rala e falhada e a linha dos cabelos tinha mais para trás. No entanto, ela recordava a sua figura, tal como a vira naquele dia: já não jovem, mas com todo o seu grande carisma. Amava aquele velho rosto, esplêndido, de feições duras e fortes.
De repente, ela se viu invadida por antigas emoções, lembrando-se do medo que tivera de perder o filho e da imensa alegria sentida ao ver a bacia com a pasta de ocre vermelho. Por mais que engolisse em seco, o nó na garganta persistia e, sem saber, deixou um borrão marrom na pele quando foi enxugar uma lágrima. O cavalinho aconchegava-se nela, quase como se sentisse a sua imensa carência. Ela se ajoelhou e apoiou a cabeça em seu pescoço.
“Essa cerimônia tem por finalidade dar um nome a você”, pensou, fazendo força para controlar-se. A lama lhe havia escorrido por entre os dedos e ela apanhou outro punhado. Dirigiu, então, a mão vazia para o céu, gesticulando como o fazia Creb, quando conclamava os espíritos para atender uma cerimônia, com movimentos abreviados e se valendo só de uma das mãos. Mas, por alguns momentos, ficou hesitante, sem saber se deveria invocar espíritos para a cerimônia de um cavalo. Talvez eles não aprovassem a sua idéia. Ela pôs os dedos na lama que segurava e fez uma risca descendo pela cara da potranca, desde a testa até a ponta do focinho, tal como Creb desenhara a linha com pasta de ocre vermelho em Durc: partindo do ponto mediano entre os supercílios até a ponta de seu pequenino nariz.
- Huiin - começou, falando em voz alta e terminando com os gestos da linguagem formal. - O nome desta menina... quer dizer, desta égua é Huiin.
O cavalo sacudia a cabeça, tentando ver-se livre da lama em sua cara e provocando a risada de Ayla.
- Logo vai secar e sair, Huiin.
Ela lavou as mãos, ajeitou às costas a cesta repleta de cereais e vagarosa mente foi caminhando para a caverna. A cerimônia havia posto demasiada mente em evidência a solidão em que vivia. Huiin era uma criatura viva e calo rosa que lhe fazia companhia, mas sem que percebesse, quando chegaram à praia rochosa, as lágrimas corriam soltas pelas faces.
Ela ia guiando a potranca, forçando-a a subir pelo íngreme caminho que levava à caverna. De certa forma, isso a distraiu, esquecendo-se um pouco de sua tristeza.
- Vamos, Huiin. Sei que pode. Você não é nenhum íbice ou antílope, mas é só uma questão de acostumar-se.
Chegando ao topo do paredão, onde se achava a caverna, entraram e Ayla foi imediatamente reavivar o fogo meio apagado e colocar cereais para cozinhar. A potranca agora já comia capim, não precisando mais de comidas especiais, mas Ayla continuava preparando papas para ela, porque Huiin também gostava.
Ela pegou um amarrado de coelhos que caçara no princípio do dia e veio tirar-lhes a pele do lado de fora, aproveitando que ainda estava claro. Em seguida, botou-os para assar e enrolou as peles que mais tarde poria para curtir. Já havia acumulado uma grande quantidade de peles de animais: coelhos, lebres, hamsters e tudo que conseguisse apanhar. Não sabia ainda bem o que faria com elas, mas as punha cuidadosamente para curtir e depois guardava. Quando chegasse o inverno veria que f lhes iria dar. Caso fizesse muito frio, poderia simplesmente empilhá-las ao seu redor.
O inverno estava cada vez mais no seu pensamento, à medida que os dias iam encurtando e a temperatura caindo. O que preocupava era não saber qual a sua duração e qual a intensidade do frio naquela região. Um súbito ata que de ansiedade a levou a passar em revista os seus estoques, embora soubesse exatamente do que dispunha. Fez um levantamento do que se achava dentro das cestas e dos recipientes de cortiça contendo carne seca, frutas, vegetais, sementes, nozes e cereais. No canto mais afastado da entrada, examinou as pilhas de raízes e frutas, guardadas ali, procurando ver se não havia algum sinal de apodrecimento.
Ao longo da parede do fundo, achavam-se montes de lenha, esterco seco de cavalo e capim. E no canto oposto, as cestas guardando os cereais de Huiin.
Ela voltou, então, para onde se encontrava a fogueira. Deu uma olhada nos cereais que cozinhavam numa cesta de trama apertada e virou os coelhos sobre o fogo. Depois, foi examinar as ervas, raízes e cascas penduradas num engradado, posto contra a parede perto de sua cama e onde também se encontravam os seus objetos de uso pessoal. Ela fincara as estacas do engradado no chão de terra endurecida, num ponto não muito distante da fogueira, de mo do que os condimentos e as ervas para infusões e medicamentos recebessem calor enquanto estivessem secando.
Ayla não tinha nenhum clã para atender e nem necessitava de tantos re médios, mas se habituara a ter sempre bem fornida a farmacopéia de lia que, depois de adoecer, já não podia cuidar dessa parte e, além do mais, criara o hábito de catar plantas medicinais enquanto estava coletando alimentos. Em frente ao engradado havia toras de madeira, pedaços de pau e gravetos, cascas de árvores, folhagens secas, couros, ossos, pedras de diferentes tipos e até mes mo uma cesta com areia trazida da praia.
Ela não queria pensar muito no inverno que tinha pela frente, pois seria uma longa temporada, quando estaria inativa e solitária. Sabia que não teria a ajudá-la a passar o tempo as cerimônias, festas e relatos de histórias. Nenhu ma expectativa de bebês para nascer, de tagarelices, conversas fiadas, trocas de idéias com Iza e Uba sobre remédios, tratamentos e nem homens discutindo as suas táticas de caçadas. Planejara, então, passar o seu tempo fazendo coisas - quanto mais difíceis e custosas melhor seriam - de modo a mantê-la o máximo de tempo ocupada.
Deu uma olhada nas toras. Havia de diferentes larguras e comprimentos. Ela poderia fazer cuias e bacias de diversos tamanhos. Retirar a parte de dentro, modelar com uma faca e uma machadinha, usada como enxó, depois esfregar de leve a madeira com uma pedra redonda e areia era trabalho de dias. Pensava fazer várias. Alguns dos couros seriam convertidos em perneiras, luvas e forro para calçados, e outros, retirada a pelúcia, ficariam tão absorventes e tão macios e flexíveis como a pele de um bebê.
Folhas de iucas e nolinas, talos de taboa, juncos, varas de salgueiro, diferentes tipos de raízes, esse era o material para os trabalhos de cestaria, feitos em tramas largas ou apertadas e tecidos de modo a formar belos e intrincados desenhos. Seriam recipientes para cozinhar, comer, guardar mantimentos, ou então esteiras para forrar o chão e peneiras para joeirar ou secar cereais. Com os tendões e a crina da égua e também com fibras vegetais, ela faria cordas de diversas grossuras. As pedras seriam apicoadas de forma ligeiramente côncava e depois enchidas com gordura que banhavam pavios de musgo, fazendo lamparinas limpas de fumaça. Para esse fim havia especialmente preservado a gordura dos animais carnívoros. Não que em caso de necessidade não os comesse; era apenas uma questão de gosto.
Com os ossos saídos dos quadris e das espáduas faria pratos e travessas e alguns outros que usaria como conchas e para mexer a comida no fogo. Às felpas tiradas de diferentes plantas teriam serventia como acendalhas, ou misturadas com crinas e penas seriam utilizadas em estofamentos. Por fim, havia os nódulos de sílex e as suas ferramentas detalhamento. Muitos invernos ela os passara fabricando objetos e instrumentos necessários à existência, mas agora possuía também um tipo de suprimento para a fabricação de peças com que não estava muito acostumada, embora estivesse cansada de ver os homens fabricá-las: as armas usadas para caçar.
Queria fazer lanças, modelar maças que fossem boas de serem empunha das e fabricar novas fundas. Pensava, inclusive, numa boleadeira, apesar de que essa fosse uma arma que requeria um adestramento tão grande quanto a funda. Brun era um craque no tiro de bolas. A própria fabricação da arma já requeria grande habilidade. Tinha-se que arredondar três pedras como bolas e depois amarrá-las com cordas de comprimento certo, de modo a obter o equilíbrio necessário.
- Será que ele vai ensinar Durc? - perguntou-se ela.
A luz do dia estava sumindo e a fogueira apagando-se. Os cereais haviam absorvido toda a água e já estavam macios. Ela encheu uma cuia para si e acrescentou mais água no resto que daria a Huiin. Despejou numa cesta impermeável e levou para o lugar de Huiin dormir, que era junto da parede do lado oposto à entrada.
Durante os primeiros dias na praia, Ayla e o cavalinho haviam dormido ao ar livre, mas agora resolveu que ele teria de ter o seu lugar na caverna. Apesar de usar esterco seco como combustível, não gostava de encontrar cocô fresco em suas peles de dormir e parecia que Huiin também não se sentia bem com isso. Chegaria o tempo que a potranca estaria grande demais para dormir ao seu lado. A sua cama já não daria mais para acomodar as duas, mas por en quanto gostava de aninhar-se junto do animalzinho.
- Isso deve chegar - gesticulou Ayla. Ela criara o hábito de se dirigir ao cavalo que, por sua vez, começava a responder a alguns de seus gestos. -Espero ter apanhado bastante comida para você. Uma coisa que gostaria de saber é quanto tempo dura o inverno aqui - sentia-se um tanto irritada e ao mesmo tempo deprimida. Se já não tivesse escurecido, teria saído para dar uma caminhada, ou antes uma boa corrida.
Quando o cavalo começou a mastigar a cesta, ela lhe trouxe uma braça da de feno fresco.
- Ei, Huiin, coma isso aqui. Não é preciso comer o seu prato.
Ela sentiu vontade de fazer uma festinha especial no animal e se pôs a coçá-lo. Quando parou, Huiin enfiou o focinho na sua mão, apresentando-lhe uma outra parte da cabeça que também merecia a sua atenção.
- Você deve ser muito comichoso - ela sorriu e voltou a coçar. - Ei, espere, tenho uma idéia.
Dirigiu-se então ao depósito de materiais diversos, encontrando lá uma penca de cardos secos. Esta planta, depois das flores caírem, ficava como uma escova ovalada de espinhos. Ela quebrou uma no talo, usando-a para coçar o lugar desejado por Huiin. Mas um lugar foi levando a outro e quando ela parou a potranquinha, visivelmente satisfeita, estava com todo o seu couro escovado.
Em seguida, passou o braço ao redor do pescoço de Huiin e deitou sobre o feno fresco, aquecendo-se com o calor do corpo do jovem animal.
Ela acordou sobressaltada. Cheia de pressentimentos, deixou-se ficar quieta de olhos bem abertos. Havia qualquer coisa errada. Sentiu uma corrente de ar frio. Por instante, prendeu a respiração. Que barulho era aquele? Parecia como o fungar de um animal. Mas não tinha certeza se escutava direito. Havia também o som do coração de Huiin batendo e o bufar de sua respiração. Teria vindo do fundo da caverna?
Estava escuro demais e não dava para ver.
Escuro demais... era isso! Estava faltando a luminosidade vermelha das brasas na fogueira. Ela perdera um pouco o sentido de orientação. A parede estava do lado errado e a corrente de ar... Ah, outra vez! Qualquer coisa fungava e tossia! “O que é que estou fazendo no lugar de Huiin? Devo ter esquecido de abafar a fogueira antes de dormir e agora estou sem fogo. Nunca deixei o fogo apagar desde que cheguei a este vale.”
Ela teve um estremecimento, sentindo os seus cabelos na nuca arrepiar. Não tinha palavras, gesto ou conceito para expressar o pressentimento que lhe atravessava o espírito, mas sentia. Os músculos em suas costas achavam-se tensos. Algo estava para acontecer. Qualquer coisa ligada ao fogo. Ela sabia. Tinha certeza disso quanto de sua respiração.
De vez em quando se via invadida por essa sensação. Começara na noite em que seguira Creb e outros mog-urs a um pequeno recinto localizado no fundo da caverna que sediou a reunião de das. Creb descobrira que ela se achava naquele lugar, não porque a tivesse visto, mas por a ter sentido lá. E ela também sentira, de uma forma muito estranha, a pessoa dele, sentira-o dentro de seu cérebro. Foi então que vira coisas que não sabia como explicar. A partir desta época, vez por outra era acometida por pressentimentos. Sabia, por exemplo, quando Broud a estava olhando, embora estivesse ela de costas para ele. Sabia do ódio mortal que ele lhe devotava e guardava no fundo de seu coração, e, antes de ocorrer o terremoto, sabia que haveria morte e destruição na caverna do clã.
Mas nunca essa sensação fora tifo forte como agora. Via-se ansiosa, com medo. Não era propriamente relacionado ao fogo ou a ela mesma, mas a qual quer coisa que amava.
Sem fazer barulho, levantou-se e foi apalpando o caminho até chegar à fogueira, na esperança de encontrar alguma pequenina brasa que pudesse ainda reacender. Fazia frio. De repente, sentiu uma vontade urgente de urinar. Conseguindo encontrar a parede, seguiu-a até dar na entrada. O vento forte jogava-lhe os cabelos para trás, enquanto os carvões apagados retiniam na fogueira, levantando uma nuvem de cinzas. Outra vez ela estremeceu.
Quando saiu, o vento batia como bofetadas. Com o corpo inclinado, caminhou, apertando-se contra a parede até a beirada do patamar de pedra, no lado oposto ao do caminho. Era o lugar onde costumava fazer as suas necessidades.
Nenhuma estrela adornava o céu. As nuvens, entretanto, formando uma camada sombria, difundiam o luar num brilho enorme, tornando a escuridão do lado de fora menos intensa do que no interior da caverna. Mas não eram os olhos e sim o ouvido que lhe estava dando sinal de alerta. Antes de perceber um movimento furtivo já ouvira os barulhos de fungadelas e de respiração.
Ela levou a mão à cintura para pegar a funda, mas não a encontrou. Não a tinha trazido. Começara a ficar descuidada, confiando na segurança da caverna e do fogo para manter os intrusos à distância, só que a fogueira estava apagada e um cavalinho jovem era presa fácil para uma boa quantidade de predadores.
Subitamente, quando se achava na entrada da caverna, ouviu um uivo alto, cacarejado, e o relincho de Huiin. Na voz do cavalo havia uma nota de medo. A pequena potranca se encontrava dentro de um cercado de pedras cujo único acesso estava bloqueado pelas hienas.
“Hienas!”, pensou ela com nojo. Tudo nesse bicho a irritava. O som alucinado das gargalhadas, as peles grosseiras e manchadas, os lombos que abaixavam para trás, as patas dianteiras maiores que as traseiras e principalmente o seu arcovarde. Além disso, jamais pôde esquecer-se do grito de Oga, assistindo impotente o seu filho sendo arrastado por um desses bichos. Desta vez, estavam querendo Huiin.
Ela não tinha a sua funda, mas não seria a primeira vez que se arriscaria para ir em socorro de alguém. Correu brandindo os punhos e gritando:
- Saiam daqui! Fora! - na língua clânica, essas eram expressões orais, ditas em voz alta.
Os animais acovardaram-se e bateram em retirada. Um pouco por causa da firmeza com que ela investiu contra eles e um pouco por causa da fogueira que mesmo apagada exalava um certo cheiro no ambiente. Mas havia também outra razão. O odor dela, embora não fosse normalmente reconhecido pelos animais, começava a ser notado por alguns. Da última vez que foi sentido, ele veio acompanhado por fulminantes pedradas.
Dentro da escuridão da caverna, Ayla tentava pelo tato encontrar a funda, furiosa consigo por não se lembrar do lugar onde a pusera. “Isso nunca mais vai acontecer de novo. Vou arrumar um lugar para colocá-la e nunca mais ela sai de lá”, pensou, prometendo-se.
Quando viu que não encontrava a funda, pegou as pedras de cozinhar que sabia onde estavam. Uma hiena mais ousada voltou, delineando a sua silhueta na entrada da caverna, mas logo descobriu que, mesmo sem a funda, a pontaria era certeira e as pedras machucavam. Ao final de algum tempo, acabaram percebendo que o cavalinho não era a presa fácil que imaginaram.
Tateando no escuro à cata de mais pedras, ela encontrou um dos paus que usava para marcar a passagem do tempo, uma frágil vareta que ficou segurando o resto da noite, ao lado de Huiin, pronta para defender a potranquinha, se preciso fosse.
Mais difícil foi lutar contra o sono. Só conseguiu dormitar um pouco quando já estava para amanhecer, mas os primeiros raios de luz já a encontraram do lado de fora no patamar, com a sua funda na mão. Nenhuma hiena à vista. Ela entrou para vestir a sua roupa de pele e se calçar. A temperatura havia sensivelmente abaixado. Durante a noite, o vento tinha mudado de direção. Quando soprava do nordeste, era cabalizado através do vale, até que na altura da curva do rio, onde o penhasco saía do alinhamento, se desviava e entrava na caverna vindo de diferentes direções.
Ela tomou o seu odre e desceu pelo íngreme caminho que ia ter na praia. Na beirada do rio, quebrou uma fina película transparente formada durante a noite. A atmosfera estava impregnada daquele enigmático cheiro de neve. Enquanto partia a crosta de gelo e enchia o odre, perguntava-se como podia estar tão frio, quando ainda na véspera fizera tanto calor. À mudança fora repentina demais. Ela se havia deixado levar por uma vida rotineira, mas bastou a primeira mudança no tempo para fazê-la lembrar-se de que não tinha o direito de ser tão presumida.
“Iza ficaria zangada se soubesse que fui dormir sem abafar a fogueira. Agora preciso fazer fogo outra vez. Nem imaginava que o vento entrasse em minha caverna. Ele sempre sopra do norte. Isso deve ter ajudado a fogueira a apagar mais depressa. Não podia ter esquecido de abafá-la, mas a madeira estava muito seca, por isso queimou rápido demais. Madeiras de enchentes não servem para ficar abafadas na fogueira. Talvez seja melhor que eu derrube algumas árvores verdes. São mais difíceis de pegar fogo, mas se queimam lentamente. Devia cortar também algumas estacas para fazer uma barreira contra o vento e trazer mais lenha. Depois que a neve cair vai ficar mais difícil pegar. Antes de fazer fogo, vou buscar a machadinha e derrubar algumas árvores. Não quero o meu fogo apagado por não ter uma barreira contra o vento.”
No caminho de volta, pegou um pouco mais da madeira arrastada pelas enchentes. Huiin estava no patamar e a cumprimentou com um relincho, vindo logo em seguida cutucá-la com o focinho, pedindo por carícias. Ayla sorriu e entrou na caverna, seguida pela potranca tentando enfiar o nariz em sua mão.
“Está bem, Huiin”, falou ela para si mesma, depois de botar no chão a lenha e o odre cheio com água. Depois de dar-lhe alguns tapinhas, foi despejar um pouco de cereal na cesta de Huiin. Ela mesma comeu a sobra fria do coelho. A sua vontade era a de tomar um pouco de chá quente, mas tinha de contentar-se com água. Fazia frio na caverna. De vez em quando soprava as mãos e as enfiava debaixo do braço para aquecê-las. Resolveu, então, pegar a cesta de ferramentas que guardava perto de sua cama.
Fizera algumas pouco depois de ter chegado, e estava pretendendo fazer outras, mas sempre surgia qualquer coisa parecendo mais importante. Ela retirou a machadinha que trouxera consigo e foi examiná-la do lado de fora, nu ma luz melhor. Quando usado corretamente, o gume de um machado afiava-se por si mesmo. Com o uso, iam desprendendo-se diminutas lascas e isto bastava para mantê-lo amolado. Mas mal manobrado, a pedra, muito frágil, podia lascar-se em demasia e até mesmo partir-se.
Ayla não percebeu o barulho dos cascos de Huiin vindo atrás dela, tão acostumada já estava a este som.
A potranca tentou enfiar o focinho em sua mão.
- Oh, Huiin! - gritou ao ver a ferramenta cair no chão de pedra e quebrar-se em vários pedaços. - Essa era a única que eu tinha e estava precisando dela para cortar lenha.
“Não sei por que está tudo dando errado”, pensou. “Primeiro o meu fogo apaga justamente quando começa a ficar frio. Depois aparecem hienas, co mo se soubessem que não iam encontrar uma fogueira, e agora a minha única machadinha quebra...” Ela começava a ficar preocupada. “Esses sinais de azar não podiam significar boa coisa. Agora antes de tudo o que eu tenho de fazer é um machado.”
Ela ajuntou os pedaços de pedra no chão. Talvez pudesse lapidá-los de uma outra maneira e usá-los para outra coisa. Resolveu deixá-los junto da fogueira. Num nicho na parede, atrás de sua cama, apanhou um embrulho feito com o couro de um enorme hamster e amarrado por uma corda. Em seguida, desceu para a praia.
Huiin foi atrás, mas ao ver as suas cutucadas e marradas de cabeça repelidas, deixou Ayla com as suas pedras e foi perambular pelo vale.
Com cuidado, cheia de reverente temor, numa atitude que aprendera de Droog, o mestre ferramenteiro do clã, ela desfez o embrulho, O primeiro objeto que retirou foi uma pedra oval. Quando começou a fazer ferramentas de sílex, havia procurado por um martelo: uma pedra que tivesse boa resistência e também boa empunhadura. Todas as ferramentas utilizadas no trabalho de talhar a pedra eram importantes, mas nenhuma tanto quanto o martelo. Era a primeira que entrava em contato com o sílex.
O seu martelo tinha apenas algumas ranhuras, diferente do de Droog, já muito machucado pelo uso. Nada, no entanto, a faria trocá-lo por outro. Qualquer pessoa podia delinear um instrumento de sílex, mas as boas peças eram sempre feitas pelos mestres ferramenteiros, gente que dava calor aos seus instrumentos e que sabia conservar feliz o espírito do martelo de pedra. Ayla também preocupava-se com o espírito do seu, embora antes nunca tivesse da do muita importância a isso, mas agora ela tinha de ser mestre de si mesma na fabricação de suas ferramentas. Quando um martelo se quebrava havia certos rituais para espantar o azar e aplacar o espírito da pedra, convencendo-o a se alojar no novo martelo. Ayla, entretanto, não sabia como processá-los.
Ela deixou de lado o martelo e examinou o osso da pata de um animal herbívoro, procurando pelas marcas deixadas na última vez que o utilizou. Esse era o seu martelo de osso. Passou, então, ao retocador: o canino de um enorme felino que ela retirou de uma mandíbula encontrada na pilha junto do penhasco. Por fim, vistoriou uma série de peças de osso e pedras que havia guardado.
Foi observando Droog e praticando sozinha que aprendeu a cortar nódulos de sílex. Ele não se importava de mostrar-lhe a maneira de se trabalhar uma pedra. Ela não fora sua aprendiz, apenas lhe prestava atenção e ele tinha os seus trabalhos em boa conta. Mas não valia a pena perder tempo com mulheres. O número de ferramentas que lhes era permitido fabricar era bastante reduzido. A mulher estava proibida de fazer tanto instrumentos u em caçadas, como aqueles com que se fabricavam armas. No entanto, ela achava que as ferramentas empregadas não diferiam muito das outras que lhes eram vedadas. Afinal de contas, uma faca é sempre uma faca e uma lâmina dentada tanto pode ser usada para aguçar a ponta de um pau qualquer, como a de uma lança.
Ela deu uma olhada nos seus instrumentos, pegou um nódulo de sílex, mas, sem seguida, o botou no chão. Se estava pretendendo fazer algum corte importante, iria precisar de uma bigorna, qualquer coisa, enfim, que servisse de suporte para a pedra durante o trabalho. Droog não necessitava de bigorna para fazer uma simples machadinha de mão, só a usava no caso de ferra mentas mais elaboradas. Ayla, no entanto, achava que tinha mais controle com um suporte para os pesados blocos de pedra, o que não significava não poder também talhar ferramentas independentemente deste recurso. Precisava de uma superfície plana e firme, não dura demais, pois a pedra podia espatifar-se com as batidas. O osso da pata de um mamute era o que Droog usava e ela resolveu ver se encontrava qualquer coisa semelhante na pilha de ossos.
Subindo um pouco por cima do monte de ossos misturados com pedras e madeiras, ela enxergou uma presa. “Bom, se isso está aqui, então devem estar os ossos da pata.” Arrumou um galho comprido e passou a usá-lo como alavanca para remover os mais pesados. Mas o pau partiu quando ela tentava levantar um bloco de pedra. Resolveu pegar a presa de um mamute jovem, que se revelou muito mais forte. Por fim, encostado rente ao paredão, viu o que procurava, e deu um jeito de desembaraçá-lo daquela massa de entulhos.
Quando arrastava o osso da pata de mamute para o local de trabalho, os seus olhos bateram numa pedra de tom cinza-amarelado, brilhando com o sol que se refletia nas suas facetas. Parecia-lhe uma coisa conhecida, mas só quando apanhou o pedaço de pinta de ferro reconheceu o motivo.
“O meu amuleto”, pensou, tocando no saquinho de couro pendurado em seu pescoço. “O Leão da Caverna me deu uma pedra igual a esta para avisar que o meu filho iria viver.” De repente, notou que a praia estava coalha da de pedras como aquela. Já as tinha visto antes, sem prestar atenção, mas o fato de havê-la identificado fez com que tomasse conhecimento da sua exis tência lá. Ela, então, reparou que as nuvens se abriram no céu, deixando o sol brilhar. “Quando encontrei a minha, ela era única, e aqui estão espalhadas por toda parte...
Largou a pedra e continuou arrastando o osso da pata de mamute pela praia. Sentou-se e o colocou entre as pernas. Cobriu o colo com o couro de hamster e pegou de novo o pedaço de sílex. Revirava-o de lá para cá, tentando resolver o lugar onde daria a primeira batida. Mas estava lhe faltando cal ma, não conseguia concentrar-se. Alguma coisa a incomodava. Achou que eram as pedras que faziam um assento frio e ençaroçado. Correu até a caverna para pegar uma esteira e trouxe também o pau com a tábua de fazer fogo e um pouco de acendalhas. “Vou me sentir bem melhor quando tiver um fogo aceso. A manhã já está pela metade e ainda continua frio.”
Acomodou-se sobre a esteira, pôs as ferramentas ao seu alcance, tornou a colocar o osso do mamute entre as pernas, e estendeu mais uma vez o couro de hamster sobre o colo. Pegou a greda cinzenta e acertou a sua posição sobre a bigorna. Apanhou o martelo e o levantou várias vezes querendo pegar o jeito de empunhá-lo, mas então o deixou de lado. “O que há de errado comigo? Por que estou nervosa? Droog, antes de começar, sempre pedia ao seu totem para ajudá-lo. Talvez seja isso o que esteja me faltando.”
Segurou o amuleto, fechou os olhos e respirou fundo diversas vezes para acalmar-se. Não fazia nenhum pedido específico, apenas tentava alcançar com a mente e com o coração o Leão da Caverna. O espírito que a protegia fazia parte dela e estava nela. Assim lhe tinha explicado o velho feiticeiro e ele era digno de fé.
O esforço para concentrar-se no espírito do poderoso animal que a escolhera surtiu efeito. Sentia-se relaxada. Abriu os olhos, flexionou os dedos e pegou novamente o martelo de pedra.
Depois das primeiras batidas ter separado o córtex gredoso, ela parou para fazer um exame crítico da pedra. A cor estava boa, com um brilho cinza-escuro, mas a cristalização não era das melhores. Contudo, não havia inclusões. Para uma machadinha servia. Algumas das lascas grossas que saíam enquanto modelava o machado poderiam ser aproveitadas para outras ferramentas. Elas tinham a extremidade abaulada, formando um bulbo de percussão no lugar onde o martelo batera, mas afinavam, fazendo um gume afiado. Muitas vinham com um ondeamento circular que se repetia na cicatriz deixada no coração da pedra. Estas poderiam ser usadas para cortar materiais duros e resistentes, talvez podendo servir como cutelo ou foice.
Quando delineou a forma desejada, ela passou para o martelo de osso. Era mais macio e elástico. Não danificaria - como possivelmente aconteces se com o de pedra - a beirada fina e afiada com um leve encrespado. Tomando muito cuidado na pontaria, ela se pôs, então, a trabalhar bem junto do gu me. A cada batida iam saindo lascas, agora mais finas, com o bulbo de percussão mais plano e as beiradas já não tão ondeadas. A ferramenta gastou muito menos tempo para ser feita do que ela preparando-se para a sua confecção.
Media cerca de 12 centímetros de comprimento e o contorno era como o de uma pêra, mas com uma extremidade plana que gradualmente afinava-se. Tinha uma seção transversal forte, porém bastante fina, e os gumes partiam retos das laterais abauladas. A empunhadura se fazia pela base, talhada de for ma arrendondada. Podia ser usada como um machado para cortar madeira, ou como enxó para fazer bacias, cuias, etc. Também serviria para cortar mar fim ou esquartejar animais. Era uma ferramenta de percussão, forte, afiada e com muitas aplicações.
Ayla se sentia melhor, mais solta, pronta para enfrentar técnicas mais elaboradas e difíceis. Pegou um segundo nódulo de sílex e o martelou. A primeira batida revelou que a pedra estava rachada. A superfície gredosa estendia-se para dentro do cinza-escuro da camada interna, atingindo o núcleo da pedra. A inclusão a tornava imprestável e isso veio interromper-lhe o ritmo de trabalho e a concentração. Outra vez sentia-se nervosa, tensa. Ela colocou o martelo no chão pedregoso da praia.
Mais um sinal de azar. Outro presságio ruim. Não queria acreditar nisso, nem desistir. Olhou novamente para o nódulo de sílex, tentando ver se teria algum pedaço aproveitável e segurou outra vez o martelo. Conseguiu tirar uma lasca, mas esta precisaria de retoques. Deixou o martelo de lado e estendeu a mão para apanhar o seu retocador. Ela vagamente deu uma olha da na direção de suas ferramentas. Com os olhos fixos no nódulo de sílex, pegou sem ver uma pedra da praia e... então o acaso, que viria dar uma outra dimensão à sua vida.
Nem todas as invenções nascem da necessidade. Às vezes o acidental intervém. A chave está em perceber. No caso de Ayla, todos os elementos se achavam lá, mas a casualidade os juntou, exatamente como seria preciso. O fortuito foi o elemento essencial. Ninguém - e muito menos a moça, sentada numa praia rochosa de um vale perdido e desconhecido - sonharia em fazer intencionalmente tal experiência.
Quando ela estendeu a sua mão para pegar o retocador de pedra, segurou um pedaço de pinta de ferro com quase o mesmo tamanho do objeto que imaginava estar apanhando. Ao martelar a parte à mostra do sílex, as acendalhas que trouxera da caverna por acaso se achavam perto, e a faísca produzi da pela batida de uma pedra contra outra caiu acidentalmente num bolo de fibras felpudas. E, mais importante ainda, Ayla, casualmente, estava olhando nessa direção no momento em que a centelha voou e caiu nas acendalhas, queimando-as e desprendendo um fio de fumaça, antes de se apagarem.
Isso é o que se chama feliz acaso. Mas Ayla contribuiu com o fato de estar olhando e com outros elementos também necessários: primeiro, por entender o processo da fabricação do fogo, depois por estar naquele momento precisando de fogo e, por fim, por não ter medo de experimentar o novo. Ainda assim, custou a compreender e a se dar conta do acontecido. Inicialmente, espantada com a fumaça, teve de pensar um pouco até estabelecer a sua conexão com a centelha. Mas a faísca a deixou mais espantada ainda. De onde teria vindo? Foi nesse instante que olhou para a pedra em sua mão.
Mas como? Aquela não era a pedra. Não era o seu retocador e sim uma das tantas pedras brilhantes que existiam espalhadas por toda a praia. De qual quer forma, o fato continuava: o que tinha na mão era uma pedra e pedras não pegam fogo. Alguma coisa, no entanto, havia produzido a centelha que incendiou o chumaço de fibras secas. Afinal, ela viu uma fumaça... ou não?
Pegou o bolo de acendalhas, já pronta para acreditar que a fumaça não passava de produto de sua imaginação. Mas então viu no meio do chumaço um furo escuro que lhe deixou fuligem nos dedos. Tornou a apanhar a pinta de ferro e a examinou com atenção. Como teria saído uma faísca da pedra? O que tinha ela feito? A lasca de sílex... sim, ela havia dado uma martelada no sílex. Sentindo-se um tanto idiota, bateu uma pedra contra a outra. Nada aconteceu.
“Mas o que eu esperava?”, perguntou-se. Resolveu botar mais força, batendo com um movimento seco as duas pedras, uma contra a outra, fazendo saltar uma fagulha de fogo. De repente, uma vaga idéia que vinha formando surgiu-lhe na mente com toda a clareza. Uma estranha e interessante idéia e um pouco assustadora também.
Colocou cuidadosamente as duas pedras sobre o osso da pata de mamute em seu colo e ajuntou todos os materiais que usava para fazer fogo. Depois de tudo arrumado, pegou as pedras, segurando-as perto das acendalhas e bateu uma contra a outra. Uma faísca pulou, morrendo logo em seguida. Ela mudou de ângulo e tentou outra vez, mas sem pôr a devida força. Bateu, em seguida, mais fortemente, vendo uma faísca cair direto no meio do ninho de acendalhas. Deu para chamuscar algumas fibras, que não chegaram a pegar fogo, mas o fiozinho de fumaça foi encorajador. Na vez seguinte, ao bater uma pedra contra a outra, o vento soprou fazendo as acendalhas chamejarem antes de se apagarem.
“Claro! Tenho de soprar.” Ela se pôs numa posição mais cômoda para soprar a pequenina chama e tornou a bater nas pedras, produzindo uma faísca. Era uma centelha forte, brilhante e duradoura, que foi pousar no lugar certo. Enquanto soprava, sentia no rosto o calor do chumaço de fibras queimando e começando a soltar chamas que ela ia alimentando com as lascas de madeira e gravetos. Antes que percebesse, estava com uma fogueira acesa.
Era ridiculamente fácil. Tão fácil que não acreditava. Precisou provar a si mesma novamente. Tornou a juntar mais lascas, gravetos e fibras, e uma segunda fogueira foi acesa. Depois uma terceira e quarta. A emoção sentida era um misto de medo, respeito, alegria pela descoberta e também uma boa do se de assombro, quando se afastou e olhou para as quatro fogueiras, todas originadas de pedras.
Huiin apareceu, atraído pelo cheiro da fumaça. O fogo, outrora tão assustador, significava agora segurança.
- Huiin! - gritou ela, correndo para o cavalinho. Tinha necessidade de falar com alguém, de comunicar a grande descoberta, ainda que fosse para um animal. - Veja! - falou por gestos. - Veja essas fogueiras! Todas feitas com pedras. Pedras, Huiin! - O sol havia atravessado as nuvens e, de repente, a praia inteira parecia cintilar.
“Estava errada ao pensar que não havia nada de especial nestas pedras. Devia ter imaginado, senão o meu totem não iria me dar uma. Agora que sei, entendo o fogo que existe nelas.” Pôs-se, então, pensativa. “Mas por que eu? Por que foi revelado logo a mim? Uma vez o meu Leão da Caverna me deu uma pedra dessas para me avisar que Dure viveria, O que será que agora está ele querendo me dizer?”
Lembrou-se de seu estranho pressentimento, quando percebera que tinha ficado sem fogo e, de pé, no meio das quatro fogueiras, estremeceu, sentindo-o novamente. Mas de repente foi tomada por uma fantástica sensação de alívio, embora nem soubesse por que estivera antes preocupada.
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