O Vale dos Cavalos
Capítulo 12
- Jondalar! - era Markeno chamando-o,e ele parou, esperando que o outro o alcançasse. - Essa noite, ache um jeito de não subir de volta tão depressa. Desde o dia do compromisso que Thonolan não vive senão de regras e rituais. Já é tempo de ele ter uma folga - com um sorriso maroto, Markeno retirou a tampa de um odre, fazendo com que Jondalar desse uma cheirada no vinho de uvas-do-monte.
Jondalar fez sim com a cabeça, dando por sua vez um sorriso. Havia diferenças entre o seu povo e esses sharamudoi, mas alguns costumes, sem dúvida, estavam bem difundidos. Ele ficara curioso, querendo saber que “ritual” seria este que os rapazes estariam preparando só para eles. Os dois se puseram a descer juntos pela trilha.
- Como vão passando Tholie e Shamio?
- Tholie está com medo de que Shamio possa ficar com alguma cicatriz no rosto. Mas as duas se encontram em franca recuperação. Serenio acredita que a queimadura não deixará marca, mas nem mesmo o shamud é capaz de afirmar isto.
Caminharam os dois por algum tempo com a mesma expressão preocupada. Numa curva da trilha, deram com Carlono examinando uma árvore. Ao vê-los, o seu rosto se iluminou com um amplo sorriso, tornando ainda mais visível a sua semelhança com Markeno. Ele não era tão alto quanto o filho de sua casa, mas tinha a mesma constituição magra e vigorosa. Deu mais uma olhada e balançou a cabeça.
- Não. Não serve...
- Não serve?
- Para cavernas - falou Carlono. - Não vejo um barco nesta árvore. Nenhum dos galhos seguirá a linha da curva. Nem mesmo aplainando.
- Como sabe? O barco ainda não está pronto - falou Jondalar.
- Ah, mas ele sabe - interpôs Markeno. - Carlono sempre acaba encontrando os galhos apropriados. Se você quiser, fique aqui conversando sobre barcos. Eu vou descer para a clareira.
Jondalar observou-o afastar-se, depois se dirigiu a Carlono, perguntando:
- Como escolher árvores boas para fazer barcos?
- E uma questão de prática. Com o tempo, adquirimos sensibilidade especial para perceber. No momento, não estamos à procura de árvores altas e retas. Queremos as que possuam galhos curvos e em forma de gancho. Então procuramos vê-las como ficariam na formação do piso e das laterais, abauladas. Para isso, temos de achar as árvores que crescem isoladas, com espaço à vontade para expandir-se. Como os homens, algumas crescem melhor agrupadas, lutando para dominar as companheiras. Já outras precisam crescer ao seu modo, sozinhas. Mas as duas têm a sua serventia.
Carlono largou a trilha principal e foi por uma passagem pouco usada. Jondalar ia atrás.
- Às vezes encontramos duas árvores que cresceram juntas -prosseguiu o chefe ramudoi - e são curvas, uma beijando a outra. Como aquelas ali - ele apontou para duas árvores entrelaçadas. - Um par de namorados, como nós chamamos. Freqüentemente acontece cortarmos uma delas e a outra morrer - falou Carlono, enquanto Jondalar o escutava franzindo a testa.
Eles chegaram a uma clareira e Carlono subiu com Jondalar por uma encosta ensolarada na direção de um compacto carvalho de galhos retorcidos e nodosos. Enquanto se aproximavam, Jondalar olhava, imaginando ver estranhos frutos brotando da árvore, mas já perto, com surpresa, viu que se tratava de urna decoração extremamente inusitada, feita com uma série de objetos. Havia delicadas cestas adornadas com plumas coloridas, pequenas sacolas de couro bordadas com conchas de moluscos e cordões trançados artisticamente. Um comprido colar de tanto tempo estar lá pendurado acabou incrustado na madeira. Ao examinar melhor, Jondalar viu que era um cordão de conchas intercaladas com espinhas de peixe. Os furos nas conchas, fina mente esculpidas, eram produzidos, enquanto os dos ossos eram naturais. Dos galhos ainda se penduravam: miniaturas de barcos, dentes caninos presos por tiras de couro, penas de pássaros, rabos de esquilos. Jondalar jamais vira uma coisa como aquela na vida.
Carlono deu uma risada diante da sua reação de espanto.
- Essa é a árvore sagrada. Imagino que Jetamio já tenha feito a sua oferenda. As mulheres em geral fazem isso quando querem que Mudo as abençoe com filhos. Elas pensam na árvore como uma propriedade sua, mas muitos homens penduram aqui também as suas oferendas. Costumam pedir para terem sorte nas caçadas, proteção para um novo barco e felicidade quando tomam uma nova companheira. Não se faz pedidos para qualquer coisa, eles são reservados para ocasiões especiais.
- É enorme a árvore!
- Essa árvore é a própria Mãe. Mas não foi por isso que eu o trouxe aqui. Você reparou como estão curvos e dobrados os galhos? É que ela seria imensa, mesmo que não fosse a árvore sagrada. São de árvores como esta que se tem de retirar a madeira para os suportes. Depois, então, é que se examina os galhos para ver se eles servem para a construção do interior dos barcos.
Os dois tomaram um caminho diferente para descer à clareira onde fabricavam as embarcações. Lá encontraram Markeno e Thonolan trabalhando numa enorme tora, tanto no sentido da circunferência como no do comprimento. Os dois tinham em suas mãos uma enxó. No atual estágio, o tronco se parecia mais com o cocho que usavam para preparar chá do que com as embarcações de linhas elegantes dos sharamudoi, mas a forma geral já estava esboçada. Posteriormente, a proa e a popa seriam modeladas, mas antes o interior precisava receber acabamento.
- Jondalar passou a ter grande interesse nas construções de nossos barcos - falou Carlono.
- Talvez devêssemos arrumar uma mulher da ribeira para ele, assim te ríamos mais um ramudoi. Seria justo, já que o irmão vai ser um shamudoi -pilheriou Markeno. - Sei de duas que andam espichando o rabo do olho para ele. Uma delas facilmente seria persuadida.
- Com Serenio por perto, acho que elas não têm muita chance - falou Carlono, dando uma piscadela para Jondalar, - Mas não faz mal, os melhores fazedores de barco são shamudoi. Não é o barco na terra e sim na água que torna o homem ramudoi.
- Se está querendo tanto aprender a construir barcos, por que não passa a mão numa enxó e ajuda? - disse Thonolan. - Tenho a impressão de que o meu irmão está mais a fim de conversar do que de trabalhar - ele tinha as mãos e as bochechas manchadas de preto. - Posso até emprestar a minha enxó - acrescentou, atirando a ferramenta na direção de Jondalar, que a apanhou no ar. A enxó, uma resistente lâmina de pedra assentada perpendicularmente no cabo, lhe pôs uma mancha preta na mão.
Thonolan pulou para fora do tronco e foi verificar uma fogueira perto. Estava reduzida a umas poucas brasas vivas, das quais, vez por outra, desprendiam-se labaredas cor de laranja. Com um pau, ele arrastou alguns carvões acesos para cima de uma tábua já cheia de buracos chamuscados. Carregou-os, então, para o tronco e os despejou, em meio a uma chuva de faíscas na cavidade que haviam aplainado. Markeno, depois de botar mais lenha na fogueira, trouxe um recipiente com água. Os carvões acesos deveriam que us. a tora, mas não estorricá-la.
Thonolan, com uma vareta, remexeu as brasas e, depois, despejou água em alguns pontos estratégicos. O chiado do vapor e o cheiro forte da madeira queimando-se revelavam-lhes as forças elementares em luta: água versus fogo. A água venceu e Thonolan atirou fora os pedaços molhados de carvão. Pulou então novamente para dentro do cocho, pondo-se a raspar a madeira chamuscada, alargando e ao mesmo tempo aprofundando o buraco.
- Deixe-me experimentar fazer isso - disse Jondalar, após observar por alguns instantes.
- Estava mesmo me perguntando se você iria ficar parado aí o dia inteiro - observou Thonolan, sorrindo. Quando falavam entre si, os dois irmãos acabavam deixando-se arrastar pela língua materna. A intimidade com ela e a despreocupação para falar era relaxante. Ambos começavam a dominar o sharamudoi, mas Thonolan estava falando melhor.
Depois de usar um pouco a ferramenta, Jondalar parou para examinar a cabeça da enxó e, em seguida, experimentou usá-la numa posição diferente. Novamente tornou a parar para examinar o gume, e então encontrou o jeito de empunhá-la. Os três se puseram a trabalhar e, enquanto não fizeram uma pausa para descansar, a conversa era pouca entre eles.
- Nunca tinha visto usar fogo para cavar madeira - disse Jondalar enquanto caminhava para o galpão. - Sempre vi esse trabalho feito só com enxó.
- E pode ser feito só com enxó, mas o fogo faz com que ande mais rápido. O carvalho é uma madeira dura - observou Markeno. - Às vezes usamos os pinheiros que dão mais no alto da montanha. A madeira é macia e mais fácil de ser cavada, mas mesmo assim o fogo sempre ajuda.
- Leva muito tempo para se fazer um barco? - perguntou Jondalar.
- Isso depende do quanto você trabalhar e de quantos estão metidos no trabalho. Esse, por exemplo, não vai demorar muito. Bom, você sabe, essa é uma reivindicação de Thonolan. O barco precisa ficar pronto o quanto antes para ele poder unir-se a Jetamio - Markeno deu um sorriso. - Nunca vi ninguém trabalhar tanto e também pressionar tanto os outros. Mas, uma vez começado, sempre bom que não se interrompa o trabalho. Assim a madeira não terá tempo para secar demais. Essa tarde vamos cortar as pranchas para as fileiras. Você gostaria de ajudar?
- Claro que ele vai ajudar - falou Thonolan.
O imenso carvalho que Jondalar ajudara a abater fora levado, sem as ramagens da parte superior, para o outro lado da clareira. Para carregá-lo foi preciso arregimentar todos os braços fortes disponíveis e quase outro tanto para cortá-lo. Jondalar não precisou ser pressionado pelo irmão. Não iria per der a oportunidade.
Primeiro, com malhos de pedra, introduziu-se urna série de cunhas de osso ao longo dos veios, em toda a extensão do tronco. A compacta massa de madeira começou a ceder relutante, mas depois as cunhas acabaram por abrir uma rachadura. À medida que as grossas extremidades das cunhas iam sendo marteladas para dentro do coração da madeira, as estilhas de ligamento soltavam-se, até que, com forte estrépito, as duas partes caíram para os lados, partidas habilmente pela metade.
Jondalar, maravilhado, balançava a cabeça. No entanto, estava apenas começando. As cunhas foram novamente colocadas no centro de cada uma das metades e o processo repetido, dividindo-se outra vez pela metade. E assim se foi fazendo sucessivamente com as seções que se iam separando, sempre cortadas pelas suas metades. Ao final do dia, o colossal tronco estava reduzido a uma pilha de tábuas, cortadas radialmente, todas afinando-se na direção do centro e com uma beirada mais fina do que a outra. Algumas pranchas saíram mais curtas do que outras, devido aos nós da madeira, mas seriam igualmente aproveitadas, O número de tábuas era muito maior do que o necessário às laterais do barco, de modo que as sobras iriam para a cabana a ser construída para o novo casal, no vão embaixo da pedreira, no alto da montanha. A moradia seda vizinha de Roshario e Dolando, e suficientemente espaçosa para alojar Markeno e Tholie com o bebê durante os rigores do inverno. Acreditava-se que se a madeira usada na construção do barco e da cabana fosse da mesma árvore, isso fortaleceria o vínculo do casal com a força do carvalho.
Quando o sol começou a descer no céu, Jondalar reparou que alguns rapazes se metiam dentro das matas. Markeno deixou-se persuadir por Thonolan e continuou no serviço de cavar a base do barco, até que já não houvesse mais ninguém lá, fora eles. Foi Thonolan que, por fim, concordou que estava realmente escuro para continuar trabalhando.
- Isso aqui está muito claro. Você ainda não sabe o que é escuridão -falou uma voz atrás dele.
Antes que Thonolan tivesse tempo para se virar e ver quem falava, uma venda lhe foi posta sobre os olhos e os seus braços seguros.
- O que está acontecendo? - gritou, lutando para se desvencilhar.
Apenas risos abafados foram ouvidos como resposta. Ele se viu suspenso e carregado para um outro lugar. Quando novamente foi colocado no chão, sentiu que lhe estavam retirando a roupa do corpo.
- Parem com isso! O que estão fazendo? Está frio.
- Não vai sentir frio por muito tempo - falou Markeno, depois da venda ser desatada.
Thonolan viu, então, uma meia dúzia de rapazes sorrindo, todos nus. O lugar onde se achavam lhe era desconhecido, principalmente ao lusco-fusco do anoitecer, mas ele ouviu o barulho de uma água correndo por perto.
Ao redor dele, a floresta se mostrava uma densa massa negra. Contudo, o negrume numa certa área se diluía, deixando entrever as silhuetas das árvores, delineadas contra um céu arroxeado. Para mais além, um largo caminho reluzia sinuosamente com os reflexos prateados da superfície acetinada do Grande Rio Mãe. Perto, uma luz brilhava fracamente através das fendas de uma pequena construção de madeira, baixa e retangular. Os rapazes subiram no teto e entraram na cabana por um buraco, valendo-se de um tronco escalonado que se encontrava encostado num canto da parede.
Dentro da cabana, num buraco central, fora armada uma fogueira em cima da qual se achavam algumas pedras esquentando. As paredes dos fundos projetavam no chão um ressalto que estava revestido por tábuas finamente lixadas com areia. Logo que todos entraram, tamparam o buraco no teto com uma coberta móvel. A fumaça safa pelas gretas. As brasas brilhando sob as pedras quentes, depressa fizeram com que Thonolan desse razão a Markeno. Ele já não sentia frio. Alguém atirou água por cima das pedras, fazendo levantar uma nuvem de vapores que embaçou ainda mais o recinto fracamente iluminado.
- Você conseguiu arrumar, Markeno? - perguntou um homem sentado ao lado dele.
- Está aqui, Chalono - respondeu Markeno, suspendendo o odre cheio de vinho.
- Bom, então vamos bebê-lo. Você é um homem de sorte por ter uma companheira capaz de fazer um vinho como este, Thonolan - disse Chalono em meio à concordância geral e passando adiante o odre. Então com um sorriso safado, mostrou um embrulho de couro dentro de uma sacola. - Eu tenho aqui comigo uma outra coisa.
- Agora estou entendendo por que você passou o dia inteiro rondando as matas - observou um dos rapazes. - Tem certeza de que são mesmo dos bons?
- Não se preocupe, Rondo. Eu conheço cogumelos. Pelo menos esses aqui eu conheço - assegurou Chalono.
- E deve conhecer mesmo. Você não perde uma chance de apanhá-los.
A observação maliciosa provocou novas risadas.
- Talvez ele esteja com intenções de ser o shamud, Tarluno -acrescentou Rondo com ar de zombaria.
- Mas veja lá, Chalono. Esses não são os cogumelos do shamud, são?- perguntou Markeno. - Os dele são vermelhos, com pintas brancas, e podem ser mortais, se não se souber prepará-los direito.
- Não. Estes aqui são pequeninos, deliciosos e inofensivos, Só fazem a gente se sentir bem. Eu não gosto de brincar com os do shamud. Não quero ter uma mulher dentro de mim... Prefiro entrar numa mulher - falou Chalono, dando uma risadinha.
- Quem pegou o vinho? - perguntou Tarluno.
- Entreguei o odre para Jondalar. Grandão como ele é, vai acabar bebendo tudo.
- Mas eu já passei o odre para Chalono - falou Jondalar.
- Ainda não vi nenhum cogumelo. Será que você vai ficar com o vinho e os cogumelos? - perguntou Rondo,
- Ora, vamos com calma, Estava tentando abrir essa sacola. Tome, Thonolan, você é o convidado de honra, Merece ser servido primeiro.
- Markeno, é verdade que os mamutoi tiram de uma planta uma bebida melhor do que vinho ou cogumelo? - indagou Tarluno.
- Não sei se melhor, mas já tomei dela uma vez.
- Que tal um pouco mais de vapor? - falou Rondo, atirando uma cuia de água sobre as pedras, sem esperar pela resposta.
- No oeste, se usa colocar alguma coisa no vapor - comentou Jondalar.
- E numa das Cavernas, as pessoas têm o hábito de respirar a fumaça feita por certa planta. Eles deixaram que a gente experimentasse, mas não quiseram contar qual era a planta - acrescentou Thonolan.
- Vocês dois já devem ter experimentado de quase tudo nessa viagem que estão fazendo - observou Chalono. - Isso é o que eu gostaria de fazer, experimentar de tudo o que existe neste mundo.
- Ouvi dizer que os cabeças-chatas tomam uma coisa... - ia Tarluno dizendo.
- Eles são animais e por isso bebem qualquer coisa - interpôs Chalono.
- Mas não foi exatamente o que você acabou de dizer? Que gostaria de experimentar de tudo? - falou Rondo, num tom escarnecedor e arrancando uma risada geral.
Chatono reparou que os comentários de Rondo sempre provocavam risos e quase sempre à sua custa. Para não ficar atrás, começou a contar uma piada que sabia já ter produzido sucesso.
- Vocês conhecem a do velho que era tão cego que apanhou uma cabeça-chata pensando que era uma mulher e...
- E que o seu pau pendurou-se num outro lugar? Ora, essa é nojenta, Chalono - falou Rondo. - Qual homem que iria confundir uma cabeça-chata com uma mulher?
- Alguns não confundem. Fazem de propósito - disse Thonolan. - A oeste daqui, os homens de uma Caverna gostam de ter prazeres com fêmeas de cabeças-chatas. Isso causar muitos problemas para as outras Cavernas de lá.
- Está brincando!
- Não. Não brincando. Nós fomos cercados por um bando de cabeças chatas - confirmou Jondalar. - Eles estavam muito zangados. Depois as pessoas da Caverna contaram para nós que estava havendo confusão por causa disso.
- Como vocês conseguiram escapar?
Eles deixaram - respondeu Jondalar. - O chefe do bando... inteligente. Cabeças-chatas muito mais inteligentes do que as pessoas pensam.
- Soube de um rapaz que fez uma aposta que ia pegar uma cabeça-chata e pegou mesmo - disse Chalono.
- Quem? Você, Chalono? - troçou Rondo. - Afinal, você disse que queria experimentar de tudo.
Chalono procurava defender-se, mas as risadas não o deixavam falar. Quando, por fim, serenaram um pouco mais, ele tentou novamente.
- Não. Eu não estava querendo dizer isso, quando falei que gostaria de experimentar de tudo. Estava falando de vinho, cogumelos, só coisas desse tipo - ele já se sentia meio alto e a língua começava a ficar um tanto pastosa.- Mas uma porção de garotos, que ainda não conhecem uma mulher, falam de cabeças-chatas como se conhecessem.
- Ora, conversas de garotos - falou Markeno.
- E sobre o que vocês acham que garotas conversam?
- Talvez sobre os machos dos cabeças-chatas - disse Chalono.
- Não quero mais falar sobre esse assunto - cortou Rondo.
- Mas bem que você participava dessas conversas quando éramos garotos, Rondo - falou Chalono, começando a se sentir ofendido.
- Bom, mas eu cresci e esperava que você também. Estou já farto dessas suas histórias nojentas.
Chalono, meio bêbado, se sentiu insultado. Se estava sendo acusado de nojento, então daria realmente motivos para isso.
- Ah, é assim, Rondo? Pois eu sei de uma mulher que teve prazer com cabeça-chata e mais tarde nasceu um filho da mistura dos espíritos...
- Chega! - Rondo encolheu os ombros e apertou os lábios numa expressão de nojo. - Chalono, isto não é coisa com que se brinque. Quem o convidou para essa reunião? Vão com ele daqui! Eu me sinto como se um monte de merda tivesse sido atirado na minha cara. Um pouco de brincadeira ainda passa, mas ele foi longe demais.
- Rondo tem razão - falou Tarluno. - Por que você não vai embora, Chalono?
- Não - disse Jondalar. - Lá fora está frio, muito escuro. Melhor não sair. É verdade, bebê nascido de mistura de espíritos não é assunto para brincadeiras. Mas por que todo mundo sabe da existência deles?
- Meio gente, meio animal. Uma aberração da natureza murmurou Rondo. - Não quero falar nessa coisa. Aqui está muito quente. Bom, antes que eu fique enjoado, vou para fora.
- Esperava-se que essa fosse uma reunião para deixar Thonolan relaxado - observou Markeno.
- Por que não vamos todos dar um mergulho e depois voltamos para começar tudo de novo?
Ainda há uma boa quantidade do vinho de Jetamio. Eu não contei para vocês, mas trouxe dois odres comigo.
- Acho que as pedras ainda não estão bem quentes - falou Markeno. A sua voz era calma, mas só aparentemente.
- Não é bom deixar a água permanecer muito tempo dentro do barco. A madeira não deve ficar encharcada demais, apenas o bastante para amaciá-la e torná-la flexível. Thonolan, as escoras estão à mão para quando precisar mos delas? - perguntou Carlono, franzindo o rosto, preocupado.
- Estão aqui - respondeu, indicando os postes de amieiro que se encontravam no chão, perto da canoa cheia de água.
- É melhor começarmos logo, Markeno. Faço votos para que essas pedras já estejam quentes.
Jondalar, apesar de ver o barco aos poucos ganhando forma, continuava ainda assombrado com a sua transformação. O tronco do carvalho já deixara de ser uma simples tora. O seu interior fora ocado e polido, enquanto o exterior tinha agora o elegante contorno de uma canoa longilínea. O casco não chegava a ter a grossura de um dedo, fora a proa e a popa, duas partes trabalhadas mais solidamente. Ele vira Carlono, com uma enxó de pedra, parecida a um cinzel, raspar a camada externa de um pedaço de madeira, já fina como uma vara, e dar.lhe a espessura que a embarcação teria no final. Quando ele próprio foi tentar, mais admirado ainda ficou com a habilidade e perícia do homem. O barco afinava-se na proa, fazendo um talha-mar pontiagudo, tinha o piso razoavelmente plano e uma popa não tão pronunciada. Proporcionalmente, era bastante comprido em relação à largura.
Os quatro se puseram a transportar, rápido, as pedras que esquentavam na fogueira pata a canoa, fazendo a água que se achava dentro soltar vapores e ferver, O processo era o mesmo que o da fervura da água com pedras quentes para preparar o chá no cocho, perto do galpão, só que aqui levado em grande escala e com outro propósito. O calor não era para cozinhar, e sim para remodelar o recipiente.
Markeno e Carlono, de frente um para o outro, na parte mediana da embarcação, começaram a pôr à prova a flexibilidade da madeira, pressionando-a com extremo cuidado, de modo a alargar o casco, mas sem rachá-lo. Toda a obra de escavar e modelar, executada a duras penas, iria por água abaixo se durante o trabalho de expansão a madeira partisse. Era um momento tenso. Enquanto era feita a pressão no meio do barco, Thonolan e Jondalar estavam a postos, aguardando que a largura atingisse o ponto desejado, para então encaixar a caverna central, a mais larga de todas, o que lhes custou um grande esforço. O casco resistiu.
Instalada a escora central, passou-se ao encaixe das demais cavernas, cada vez menores quanto mais próximas dos extremos da embarcação. Eles retiraram parte do volume da água quente até ser possível, entre os quatro, levantar o casco, jogar fora as pedras, e virar o barco para esvaziar o que restava da água. Finalmente o barco foi escorado com toras para secar.
Os homens respiraram mais aliviados ao afastarem-se para admirar o belo feito, O barco tinha uns quinze metros de comprimento, por dois e meio de largura, mas o trabalho de expansão da madeira alterara o desenho em outro aspecto importante: com o alargamento do meio, as áreas da proa e popa se levantaram, dando à embarcação uma graciosa curvatura nas extremidades. Além de proporcionar uma largura maior para o aumento da estabilidade e capacidade, a expansão da madeira, ao arrebitar as extremidades, ajudava o barco a enfrentar o embate das ondas e águas revoltas.
- Agora está um perfeito barco de preguiçoso - disse Carlono, enquanto caminhavam para outro recanto da clareira.
- Preguiçoso?!... - exclamou Thonolan, pensando na dureza que fora o trabalho.
Carlono sorriu. Já esperava a reação.
- É uma longa história que se conta de um preguiçoso e sua companheira ranzinza, com um barco que ficou esquecido por todo o inverno. Quando o pobre coitado foi ver, o gelo e a neve, que se acumularam lá dentro, fizeram a madeira expandir-se. Todos acharam que o barco estava arruinado. Mas como era o único que ele tinha, esperou que secasse e o lançou na água: descobriu que navegava muito melhor. Moral da história: daí por diante, todos os barcos passaram a ser construídos desse jeito.
- É uma história engraçada, se é que foi mesmo assim - disse Markeno.
- Tem a sua dose de verdade - atalhou Carlono. - Se estivéssemos fazendo um barco pequeno, teríamos praticamente terminado, fora alguns retoques finais - disse, ao mesmo tempo que se aproximavam de uni grupo de pessoas que, com verrumas de osso, estavam fazendo furos ao longo das beiradas de algumas pranchas. Era um trabalho difícil e tedioso, mas que, em grupo, saía mais rápido e alegre.
- E eu já estaria muito mais perto de juntar os meus trapinhos - falou Thonolan, reparando na presença de Jetamio.
- Vocês todos estão com cara de riso. Isso deve significar que o trabalho de expansão da madeira saiu direito - falou Jetamio, dirigindo-se a Carlono, mas voltando, rápido, os olhos para Thonolan.
- Ao certo mesmo, só saberemos depois que o barco secar - respondeu Carlono, precavidamente, não desejando tentar o destino. - Como estão andando as fileiras?
- Já estão prontas. Agora estamos trabalhando nas tábuas a serem usa das na casa. - respondeu uma mulher de idade. Ela, na maneira de ser, pare cia com Carlono, tanto quanto Markeno, principalmente sorrindo. - Um barco não é tudo na vida de um casal. Neste mundo há mais coisas para serem vividas, querido irmão.
- Ora, Carolio, estou tão doido para ver esses dois juntos quanto você- falou Barono, sorrindo para Thonolan e Jetamio que, em silêncio, trespassavam um ao outro com os seus sorrisos desejosos. - Mas de que adianta uma casa sem um barco?
Carolio olhou-o ofendida. Barono estava apenas repetindo um velho aforismo ramudoi, pretensamente espirituoso e já tão gasto que não tinha a menor graça.
- Raios! - exclamou Barono. - Outra vez se quebrou.
- Hoje ele está completamente desarvorado - disse Carolio. - Ë a terceira verruma que quebra.
Acho que está farto de fazer buracos, por isso estraga as verrumas para se ver livre desse serviço cacete.
- Não seja tão impiedosa com o seu companheiro - falou Carlono.-Todo mundo quebra verrumas. Não se pode evitar que isso aconteça.
- Numa coisa ela tem razão: serviço cacete. Não conheço nada mais chato do que este trabalho comentou Barono, com um largo sorriso para as pessoas que murmuravam em volta.
- Que engraçadinho! O que pode haver de pior do que um companheiro que se julga espirituoso? - disse Carolio, como se buscando o apoio das outras pessoas. Todos riram. Afinal, sabiam que sob aqueles gracejos existia um grande afeto.
- Se você tiver uma verruma disponível, posso tentar fazer alguns -falou Jondalar.
- O que é que há com esse rapaz? O único aqui que quer fazer buracos- falou Barono, aproveitando imediatamente a chance para levantar-se.
- Jondalar está interessadíssimo na fabricação de nossos barcos -respondeu Carlono. - Em quase tudo ele mete a mão para experimentar.
- Mas, neste caso, podemos fazer dele um ramudoi - falou Barono.
- Sempre achei que ele fosse um rapaz inteligente. Já o outro, eu tenho as minhas dúvidas - acrescentou, sorrindo para Thonolan, que só tinha olhos para Jetamio. - Tenho a impressão de que uma árvore podia despencar sobre a cabeça dele neste momento que não se daria conta. Não temos nenhum trabalho melhor para ele fazer?
- Talvez ele pudesse pegar lenha para a caldeira ou limpar galhos de salgueiro para costurar as pranchas - falou Carlono. - Logo que a canoa estiver seca e com os buracos feitos ao redor do casco, já estaremos com as pranchas na curvatura certa para serem encaixadas. Quanto tempo você acha, Barono, que ainda vai levar para o barco ficar pronto? Temos de comunicar isso ao shamud para que ele comece a tratar da cerimônia. E Dolando também precisa ser avisado. Ele tem de enviar os mensageiros às outras Cavernas.
- O que ainda está precisando ser feito? - indagou Barono, enquanto caminhavam na direção do lugar onde se achavam algumas pesadas estacas afundadas no chão.
- Ainda está faltando abrir os encaixes na popa e na proa e... você vem conosco, Thonolan?
- Hein? Ah... sim.
Logo que saíram, Jondalar apanhou uma verruma com um cabo de osso e observou a maneira de Carolio usá-la.
- Para que os buracos? - perguntou, depois de haver feito alguns.
Apesar das implicâncias, o interesse por barcos de irmã gêmea de Carlo no não ficava a dever o do irmão. Se ele era um perito em goivaduras e na modelagem de cascos, ela o era nos encaixes e amarrações. Prontamente se pós a dar explicações, mas então preferiu conduzir Jondalar a um outro recanto da clareira, onde se encontrava um barco parcialmente desmontado.
Diferente da jangada, que dependia da força ascensional dos materiais usados na construção, o princípio da embarcação dos sharamudoi era o do fechamento de uma bolsa de ar no casco de madeira. Esse foi um importante invento que não só tornou as embarcações mais manobráveis, como também lhes deu uma maior capacidade para o carregamento de cargas. As pranchas, usadas para transformar a piroga inicial num barco de maiores dimensões, eram abauladas para ajustar-se à convexidade da estrutura básica, valendo-se do calor e dos vapores, e depois literalmente costuradas, em geral com galhos de salgueiro e aproveitando os furos previamente feitos, e por fim presas com cravelhas aos sólidos suportes de popa e proa. Posteriormente, acrescentavam-se escoras, em intervalos certos, ao longo de ambos os lados, para reforçar o barco e fixar os assentos.
Quando bem-feitas, o resultado era um casco impermeável, capaz de resistir a pressões resultantes de um uso intensivo de muitos anos. No entanto, acabada chegando o dia em que o desgaste e a deterioração das fibras de salgueiro tornariam imprescindível que se desmontasse completamente o bar co para reconstruí-lo em seguida. Na ocasião, as pranchas enfraquecidas eram também substituídas, o que prolongava consideravelmente a vida útil do barco.
- Veja onde as pranchas defeituosas foram removidas - disse Carolio, mostrando a Jondalar o barco em reparos. - Há furos ao longo da beirada superior da piroga - indicou-lhe uma tábua cuja curvatura se adaptava ao casco.- Esta foi a primeira das fileiras. Os furos ao longo da beirada mais fina estão em perfeita correspondência com a base. Veja só: ficou sobreposta assim, e costurada à parte superior da piroga. Em seguida, costurou-se a prancha de cima a esta.
Passaram para o outro lado do barco, que ainda não havia sido desmantelado. Carolio mostrou as fibras cortadas e desgastadas em alguns dos furos.
- Este barco estava mesmo precisando de reparos. Veja como as fileiras estão se superpondo. Para barcos pequenos, de uma ou duas pessoas, não são necessárias laterais, basta a piroga. Se bem que em águas agitadas a manobra é bem mais difícil. Antes que se perceba, lá se vai o controle do barco.
- Algum dia eu gostar de aprender - disse Jondalar. Ele reparou na prancha abaulada e perguntou: - A prancha é curvada como?
- Com vapor e tensão, da mesma maneira como se expandiu a base. Os suportes lá adiante, onde se encontram Carlono e o seu irmão, são para fazer as guias de retenção para não deixarem sair do seu lugar as fileiras, enquanto estão sendo costuradas. Uma vez os furos feitos, não é coisa que leve tempo, se houver, claro, muitas mãos trabalhando juntas. Fazer furos é que é o grande problema. Afiamos tanto as verrumas de osso, que elas se quebram com a maior facilidade.
Já anoitecendo, quase todos estavam subindo de volta ao terraço no al to da montanha, quando Thonolan reparou que o seu irmão estava mais silencioso que de costume.
- Em que está pensando, Jondalar?
- Fazer barcos. É muito mais complicado do que pensei. Nunca ouvi falar antes de barcos como estes, nem vi povo que tivesse tanto domínio sobre as águas como os ramudoi. As pessoas parecem mais à vontade dentro de seus barcos do que andando... E que perícia para manejar os instrumentos!.
Thonolan percebeu os olhos do irmão iluminar-se, cheios de entusiasmo.
- Andei examinando as ferramentas. A enxó, por exemplo, que Carlo no está usando, me dá a impressão de que ficaria muito mais cômoda se tivesse uma boa lasca retirada de seu gume, de modo a produzir uma superfície interna côncava e lisa. Tenho certeza também de que poderia fabricar um bril de sílex que faria andar muito mais depressa esse serviço de abrir furos.
- Ah, então é isso! Por um momento cheguei até a acreditar que você estivesse mesmo interessado na fabricação de barcos. Mas eu devia ter desconfiado. Não se trata de barco e sim das ferramentas usadas para construí-lo. Jondalar, você no fundo nunca deixará de ter alma de ferramenteiro.
Jondalar deu um sorriso, sabendo que Thonolan estava certo. O processo de construção dos barcos era curioso, mas o que realmente o estava interessando eram as ferramentas. Havia, dentre os sharamudoi, bons ferramenteiros, mas ninguém fizera disso uma especialidade. Não havia lá nenhuma pessoa com discernimento para perceber que umas tantas modificações dariam muito mais eficácia às ferramentas. Sempre lhe dera prazer produzir instrumentos adequados aos usos que lhe eram destinados, e a sua mente, criativa por natureza, já visualizava uma série de possibilidades que iriam melhorar aqueles usados pelos sharamudoi. E talvez fosse uma maneira de ele, com os seus conhecimentos e prática, começar a retribuir àquele povo que tanto devia.
- Mãe! Jondalar! Está chegando mais gente! Já existem tantas barracas, nem sei como vai dar espaço para todo mundo - comunicou Darvo, entrando esbaforido na cabana. Em seguida, saiu correndo novamente. Viera só para trazer notícias. Impossível ficar sossegado dentro da casa, quando um mundo de coisas interessantíssimas estava acontecendo lá fora.
- Há mais convidados agora do que na cerimônia de Markeno e Tholie, e eu já achava que aquela tinha sido uma festa imensa - falou Serenio. - Tal vez seja porque a maioria das pessoas, mesmo sem nunca ter visto um mamutoi, sabia que eles existiam, e dos zelandonii jamais alguém ouviu falar.
- Será que estão achando que não somos gente com dois braços, duas pernas e dois olhos, como todo mundo?
Ele se sentia meio soterrado pelo número de convidados. Em geral, nu ma Reunião de Verão dos Zelandonii, havia até mais gente, mas agora, fora os residentes da Caverna de Dolando e os da Doca de Carlono, as pessoas eram todas desconhecidas. A notícia se difundira com tanta rapidez que outros povos, além dos sharamudoi, haviam comparecido. Os primeiros a chegar foram os mamutoi, não só parentes e amigos de Tholie, mas também aqueles que por curiosidade vieram junto. Depois, foi a vez das populações vivendo em terrenos mais acima, às margens da Mãe e da Irmã.
Além do mais, muitos dos costumes da cerimônia nupcial ele não os conhecia. Entre os zelandonii, o usual era todas as Cavernas se reunirem num de terminado local previamente estabelecido, e lá realizar a cerimônia que uniria diversos casais ao mesmo tempo. Para Jondalar, tudo aquilo era inteiramente novo. Jamais vira tanta gente concentrada por causa de um só casal. Como único parente de Thonolan, ele tinha um papel de proeminência nas cerimônias e estava sentindo-se nervoso.
- Jondalar, sabe que a maioria das pessoas se surpreenderia se soubesse que você não é tão seguro quanto aparenta? Não se preocupe, você irá sair-se otimamente - falou Serenio, chegando-se para junto dele e rodeando-o com os braços. - Aliás, você sempre se sai...
Ela fizera o que tinha de fazer. A proximidade física de seu corpo o deixava deliciosamente inebriado. As suas palavras tinham o dom de acalmá-lo e, sem se impor, sabia como distrair-lhe o pensamento. Ele a puxou para mais perto e apertou os seus lábios quentes contra os dela, num prolongado beijo, permitindo-se um momento de sensualidade, antes de novamente se ver tomado pelas apreensões.
- Você acha que estou bem, desse jeito? Essa é uma roupa de viagem e não para ser usada em ocasiões especiais - disse Jondalar, subitamente dando-se conta de que estava com um traje típico dos zelandonii.
- Aqui ninguém sabe disso. Ë uma vestimenta diferente, muito especial. Perfeita para a ocasião, acho eu. Poderia passar por uma vestimenta comum, se fosse conhecida, mas não é. As pessoas irão estar de olhos em cima de você e também em Thonolan. Foi por isso que vieram. Se puderem vê-lo de longe, talvez não sintam necessidade de chegar perto. Além disso, nessa roupa, você se sente à vontade. Ela cai bem e assenta muito com você, Jondalar.
Ele a soltou e foi olhar através de uma fenda a multidão do lado de fora. Em seguida, caminhou até a parede do fundo, onde o teto inclinado impediu-o de ir mais adiante. Depois voltou, e novamente tornou a olhar pela fresta.
- Jondalar, deixe-me preparar um chá para você. Ë feito de uma mistura especial de erva, que aprendi com o shamud. Ele vai acalmar os seus nervos.
- E eu estou parecendo nervoso?
- Não. Mas tem todo o direito de estar. Em poucos instantes o chá estará pronto.
Ela despejou água numa caixa retangular e, em seguida, pôs pedras quentes dentro, enquanto Jondalar, perdido em seus pensamentos, veio sentar-se num banquinho baixo de madeira. Os seus olhos observavam distraída mente o desenho esculpido na caixa: uma série de linhas inclinadas, sobrepondo-se a uma outra riscada em direção oposta, lembrava uma padronagem do tipo espinha-de-peixe.
Às laterais da caixa foram fabricadas com uma única tábua. Os entalhes feitos na madeira e o vapor permitiam que ela se dobrasse nas caneluras, de modo a formar os cantos e tivesse apenas uma juntura presa com cravelhas. Na beirada inferior da tábua havia também outros entalhes que serviam de encaixe para o fundo do recipiente. Eram caixas impermeáveis, principalmente depois que a madeira estava bem encharcada. Cobertas com tampas soltas, tinham muitas serventias, podendo funcionar como panelas de cozinha ou recipientes para armazenar víveres.
A caixa fazia-o pensar em seu irmão. O seu desejo era o de estar com ele naquele momento, antes da cerimônia nupcial. Thonolan havia compreendido, rápido, a técnica dos sharamudoi de curvar e modelar a madeira. Ele, também no seu ofício, se valia do mesmo processo. Na fabricação de lanças, onde se servia do vapor para endireitar a madeira e nos sapatos de neve, ao contrário, para lhe dar uma curvatura, O pensamento levou-o de volta ao inicio da viagem dos dois. Saudoso, se perguntava se algum dia ainda tornaria a ver a sua terra e a sua gente. Desde que vestira o traje zelandonii se via, quando me nos esperava, atacado por nostálgicas recordações: algumas vívidas e alegres, outras pungentes e acerbas. Desta vez a causa fora a caixa de Serenio.
Ele se levantou bruscamente, tropeçando no tamborete. No que foi endireitá-lo, por pouco não esbarrou em Serenio que chegava trazendo-lhe a cuia de chá quente. O quase acidente o fez lembrar do infeliz episódio ocorrido durante a festa de compromisso. Tanto Tholie como Shamio pareciam estar passando bem, e as queimaduras praticamente haviam sarado. Mas então, recordando-se da conversa que se tinha seguido com o shamud, sentiu-se mal, como se qualquer coisa o incomodasse.
- Jondalar, beba o chá, tenho certeza de que vai sentir-se melhor depois.
Ele havia se esquecido da cuia em sua mão e deu um sorriso. Em seguida, tomou um gole. O chá tinha sabor agradável. Ele achava que havia distinguido o gosto da camomila em meio às ervas usadas para prepará-lo. A sua temperatura cálida produzia um efeito calmante. Passado algum tempo, sentiu que um pouco de sua tensão desaparecera.
- Tem razão, Serenio. Estou melhor. Eu não saber o que está errado.
- Nem todos os dias há uma cerimônia nupcial para um irmão querido. Um pouco de nervosismo é perfeitamente compreensível.
Ele a tomou nos braços e a beijou com tal paixão que sentiu desejos de ficar lá por mais tempo.
- Encontrar você esta noite, Serenio - sussurrou-lhe no ouvido.
- Jondalar, essa noite haverá o festival em honra da Mãe - disse ela, lembrando-o. - Acho que com a presença de tantos visitantes, nenhum de nós deveria assumir compromissos. Por que não deixar os acontecimentos transcorrerem naturalmente? Nós dois sempre que quisermos podemos ter um ao outro.
- Eu ter esquecido - falou ele, confirmando com um movimento de cabeça, mas sentindo-se, de certo modo, rejeitado. Estranho, nunca se sentira assim antes. Durante festivais, ele é quem procurava se manter livre de compromissos. Por que ficar magoado com o fato de Serenio lhe facilitar as coisas? Num impulso de momento, resolveu que iria passar a noite com ela. Pouco importava que fosse um festival da Mãe.
- Jondalar! - era Darvo que entrava novamente correndo. - Eles me mandaram avisá-lo. Estão esperando por você - disse sem fôlego e envaidecido por lhe ter sido confiada missão tão importante. - Corra, Jondalar! Estão precisando de você lá - repetia, saltando em volta de Jondalar e cheio de impaciência.
- Calma, Darvo - pediu Jondalar, sorrindo. - Não vou perder matrimônio do irmão meu.
Darvo deu um sorriso encabulado, concluindo que, na verdade, não começariam sem a presença de Jondalar, mas nem por isso se viu menos impa ciente. Ele saiu correndo. Então Jondalar respirou fundo e foi atrás.
No momento em que apareceu, uma onda de murmúrios passou pela multidão. Aliviado, viu que Roshario e Tholie aguardavam por ele. As duas o conduziram até uma pequena elevação, próxima à muralha lateral, onde outras pessoas também o esperavam. De pé na parte mais alta do terreno, acima das cabeças, estava uma figura de cabelos brancos, com o rosto parcialmente coberto por uma meia máscara de madeira, representando um pássaro.
Ao chegar perto, Thonolan lhe dirigiu um sorriso nervoso. Jondalar sorriu para ele de volta, tentando transmitir-lhe o seu sentimento de solidariedade. Se ele estava nervoso, como então não deveria estar Thonolan? Uma pena os costumes dos sharamudoi os haver impedido de ficarem juntos. Mas então, sentindo uma pontada de tristeza, percebeu como Thonolan já estava bem adaptado àquele povo. Enquanto viajavam, ninguém fora mais unido do que eles dois, mas agora começavam a tomar rumos diferentes. Jondalar sentia o distanciamento e por momento uma enorme mágoa se apossou dele.
Com os olhos fechados e cerrando apertadamente as mãos, lutava para se manter sob controle. Parecia que escutava as palavras “alto” e “roupas” em meio ao vozerio que lhe chegava aos ouvidos. Ao abrir os olhos, descobriu que uma das razões de Thonolan parecer tão bem adaptado era o fato de se achar vestido à moda shamudoi.
“Não é de admirar que minhas roupas estejam provocando tantos comentários”, pensou. Chegou quase a lamentar ter preferido se apresentar com trajes tão exóticos para aquela gente. Mas, na verdade, Thonolan era agora um deles, havia sido adotado para facilitar os trâmites de sua união com Jetamio. Jondalar continuava ainda zelandonii.
Ele foi juntar-se ao grupo dos novos parentes de seu irmão com os quais teria um parentesco de primeiro grau, mesmo não sendo formalmente um sharamudoi. Ele e os parentes de Jetamio foram os que contribuíram com a comida e os presentes a serem distribuídos entre os convidados. Como veio mais gente do que o esperado, eles tiveram as suas obrigações muito aumentadas. O grande número de convivas fazia o novo casal crescer em importância e lhe dava uma posição social elevada, de modo que seria extremamente humilhante se as pessoas saíssem de lá insatisfeitas.
Subitamente fez-se silêncio. Todas as cabeças se voltaram para um grupo de pessoas caminhando na direção deles.
- Você está enxergando alguma coisa? - perguntou Thonolan, pondo-se na ponta dos pés.
- Não, mas você sabe que ela está vindo - respondeu Jondalar.
Ao chegar onde se encontrava Thonolan com a sua parentalha, a falange protetora se abriu como uma cunha, pondo à mostra o tesouro que escondia. Com a garganta seca, Thonolan parou extasiado diante da bela moça, vestida com um manto de flores, que lhe dirigia o mais radioso de quantos sorrisos ele já vira na vida. Era tão aparente a felicidade dele que Jondalar discreta mente sorriu divertido. Como uma abelha que é atraída por uma flor, Thonolan foi arrastado para a mulher amada, levando atrás dele o seu séquito que se juntou ao outro grupo, formando um único bloco. Em seguida, as pessoas se separaram aos pares, quando o shamud começou a tirar de um flajolé uma série de assovios repetitivos. O ritmo era marcado pelas batidas de um enorme tambor de uma só face, tocado por alguém com o rosto semicoberto por uma máscara com as feições de um pássaro. “Um segundo shamud”, pensou Jondalar. Era uma mulher que, apesar de ele não conhecer, lhe pareceu familiar, tal. vez pelo simples fato de também ser alguém que estava a serviço da Mãe. Olhando para ela, os seus pensamentos o levaram de volta ao perdido lar.
Enquanto os dois grupos de parentes se dispunham em diferentes formações, fazendo e refazendo figuras, aparentemente complicadas, mas na verdade simples variações de uma série de passos, o shamud prosseguia tocando a sua pequena flauta, um instrumento feito com um pedaço de madeira oca, re ta e comprida. Possuía bocal, furos no sentido do comprimento, e uma abertura na extremidade, onde se achava esculpida a cabeça de um pássaro. Alguns de seus sons imitava com extrema precisão o canto de certas aves.
Os dois grupos, por fim, se postaram em duas filas, uma diante da outra, com cada pessoa segurando as mãos levantadas da que se achava em frente, formando uma longa arcada de braços, sob a qual passaram Thonolan e Jetamio. À medida que os dois iam avançando, os pares que se encontravam mais atrás largavam os lugares para acompanhá-los até se formar um extenso cortejo, com o shamud à frente, se dirigindo para o fundo do terraço e contornando o paredão de pedra. Jetamio e Thonolan iam atrás do tocador de flauta, seguidos primeiro por Markeno e Tholie, depois por Jondalar e Roshario, na qualidade de parentes mais próximos do casal. Após, então, vinha por ordem: o restante da parentalha, seguido pelos que não eram parentes, mas pertenciam à Caverna Sharamudoi, e, por fim, os convidados fechando o cortejo. A shamud, tocadora de tambor, ia com as pessoas de sua Caverna.
Eles desceram pelo caminho que levava, à clareira onde eram construí dos os barcos e viraram a uma certa altura para pegar uma trilha que ia dar na árvore sagrada. Ali, enquanto as pessoas iam chegando e acomodando-se em volta do velho carvalho, o shamud, com voz calma e pausada, se dirigiu ao jovem casal: primeiro, dando conselhos e ensinamentos sobre como deveriam proceder para que aquela fosse uma união feliz e duradoura; depois, invocando para os dois as bênçãos e proteção da Mãe. Apenas os parentes mais próximos e os que se encontravam a uma pequena distância podiam ouvir-lhe a voz. Os demais começaram a conversar entre si, mas se interromperam, percebendo que o shamud parara e aguardava silêncio.
Fizeram-se, então, sinais para calar, mas o silêncio que se seguiu estava carregado de expectativas. Nisso, em meio a um clima de quietude nervosa, ressoou pelo bosque o grasno rouco de um galo juntamente com as batidas em staccato de um pica-pau. Uma cotovia alçou vôo, enchendo o ar com o seu canto doce e sonoro.
Como se esperasse apenas por esse sinal, a figura mascarada fez um gesto ao novo casal para que desse um passo à frente. Na mão do shamud, de re pente, surgiu uma corda na qual ele deu um nó corrediço. Com olhos apenas um para o outro, Thonolan e Jetamio se deram as mãos, passando-as por dentro da laçada.
- Jetamio para Thonolan. Thonolan para Jetamio. Com este nó, eu ligo um ao outro. - Falou o shamud, enquanto puxava o laço, amarrando-os firmemente pelo pulso. - Por este nó, não só estão unidos e comprometidos um com o outro, mas também ligados à linha de parentesco um do outro e à nossa Caverna. Com a união dos dois, se fecha a quadratura iniciada por Markeno e Tholie - esses, ao ouvirem os seus nomes, deram também um passo à frente e os quatro juntaram as mãos. - Como shamudoi, vocês irão gozar das riquezas da terra; e como ramudoi, dos bens ofertados pelas águas. Portanto, serão para sempre sharamudoi, tanto nos bons como nos maus momentos.
Markeno e Tholie voltaram aos seus lugares e, enquanto o shamud tirava da flauta o som de um assovio agudo, Thonolan e Jetamio começaram a caminhar lentamente ao redor do velho tronco de carvalho. Na segunda volta, os espectadores, fazendo votos de felicidades, lhes atiravam plumas de pássaros, pétalas de flores e folhas de pinheiro. Na terceira, numa grande algazarra de gritos e risadas, todos se juntaram a eles. Algumas pessoas começaram a entoar uma velha e tradicional canção, acompanhada, agora, por uma quantidade maior de flautas, enquanto outras se puseram a tocar tambores de diferentes formas. Então uma mulher mamutoi surgiu com a clavícula de um mamute que ela tocava com um malho. Por um momento, todos pararam para escutar. O som claro e vibrante surpreendeu a maioria das pessoas e, à medida que a mulher continuou a tocar, mais surpresas ainda foram ficando. Conforme o lugar em que o osso era batido, os sons iam variando em altura e tom, de mo do a se afinar com o canto da flauta e dos cantores. Ao terminarem a terceira volta, o shamud passou novamente a encabeçar o cortejo, conduzindo-o à clareira perto do rio.
Jondalar não havia visto a fase final de acabamento do barco. Embora tivesse trabalhado, praticamente, em todas as etapas da construção, o resultado era uma visão fantástica. Parecia muito maior do que se lembrava, e ele, desde o princípio, sempre achara a embarcação grande. Era que agora os 15 metros de comprimento do barco se achavam contrabalançados pelo alto costado de tábuas ligeiramente curvas e por um esguio poste que se levantava da popa. Mas foi a parte da frente que mais arrancou gritos de admiração. A proa em curva alongava-se elegantemente para formar um pescoço que sustentava por meio de cravelhas a cabeça de uma ave aquática, esculpida em madeira.
A parte dianteira estava pintada de vermelho-escuro, amarelo, preto e branco. As duas primeiras cores foram obtidas do ocre terroso, a terceira do manganês e o branco de rochas calcárias. Os olhos do pássaro foram pintados mais abaixo no casco, para que ele enxergasse os perigos ocultos sob a água. Seguiam-se, então, desenhos geométricos que iam da proa à popa. Os assentos dos remadores estavam colocados transversalmente e os remos de cabo comprido e pés largas também lá se achavam, prontos para serem empunhados. Na parte central, haviam armado um toldo amarelo de camurça para proteger contra a chuva e a neve e, finalmente, a embarcação inteira estava enfeitada com penas de pássaros e flores.
Era glorioso e digno de respeito. O pensamento de que contribuíra para a sua criação enchia Jondalar de orgulho e o deixava emocionado com um nó na garganta.
A exigência de um barco - novo ou reformado - fazia parte da cerimônia de núpcias, mas nem todos os casais se viam contemplados com uma embarcação daquele porte e ostentando tamanha magnificência. Foi por simples coincidência que, na época em que Thonolan e Jetamio declararam as suas intenções, a Caverna resolvesse estar necessitando de um barco de grandes dimensões. No entanto, naquele momento, nada parecia mais apropriado, especialmente depois de tantos convidados terem comparecido. Tanto a Caverna como o casal eram merecedores de toda a consideração pelo grande empreendimento.
Thonolan e Jetamio, um tanto encabulados, com os seus pulsos ainda amarrados, subiram na embarcação e foram sentar-se no banco do meio, sob o toldo. Atrás deles subiu uma boa parte dos parentes mais próximos, cabendo a alguns a tarefa de empunhar os remos. Para manter-se em equilíbrio, o barco estava escorado entre duas filas de toras que chegavam até a beirada da água. Entre risadas e gemidos de esforço, o pessoal da Caverna, ajudado pelos convidados, se pôs a empurrá-lo e, garbosamente, a embarcação ganhou as águas.
Por algum tempo a mantiveram perto da margem, só depois de terem certeza de que estava em perfeitas condições, sem qualquer rachadura séria e capaz de manter-se sobre as águas, sem adernar, é que empreenderam a viagem inaugural, descendo o rio até a doca dos ramudoi. Diversos barcos, de diferentes tamanhos, foram lançados ao rio, pondo-se a rodear como patinhos o enorme pássaro.
Aqueles que não foram pelo rio subiram o caminho que levava ao platô na montanha, esperando chegar lá, antes de Thonolan e Jetamio. Na doca, as pessoas tomaram a trilha da catarata e fizeram baixar a imensa cesta que car regara Thonolan e Jondalar quando pela primeira vez subiram ao terraço. Desta vez levaria Thonolan e Jetamio, ainda amarrados um ao outro. Era por vontade deles que se achavam ligados, por isso não seriam separados, pelo menos durante aquele dia.
A comida foi servida em abundância, fartamente regada por vinho de dente-de-leão, colhido na lua nova. Os convidados receberam, então, os seus presentes, e quanto mais valiosos fossem, maior seria o prestígio de Thonolan e Jetamio. Quando a noite começou a cair, a moradia construída para o novo casal passou a ser visitada pelos convidados que lá entravam furtivamente para deixar com os seus votos de felicidades “uma pequena lembrancinha”. Os presentes eram deixados anonimamente, de modo a não diminuir a opulência ostentada pela Caverna anfitriã. Mas na realidade o valor dos presentes dados e recebidos era posto em confronto e mentalmente se tomava nota, tirando um pouco o caráter de anonimato.
A forma, o desenho, a pintura, os motivos esculpidos denunciavam claramente a procedência, tanto quanto se o presente tivesse sido dado à vista de todos. Não que se identificasse o autor da obra - o que, aliás, não tinha mui ta importância - mas sim a sua origem, ou seja, de que família, grupo ou Caverna provinha. Por um sistema de valor bem conhecido e compreendido por todos, os presentes dados e recebidos pesavam significativamente no prestígio, na honra e no status relativo dos diferentes grupos. Embora não violenta, a competição nesse campo era renhida e duramente disputada.
- Não há dúvida de que todas as atenções são para ele - disse Jetamio a Thonolan, reparando num punhado de mulheres que rondavam Jondalar, encostado displicentemente contra uma árvore perto do vão da pedreira.
- É sempre assim. Os seus grandes olhos azuis atraem as mulheres, tal como a luz da fogueira chama as mariposas - falou Thonolan, ajudando Jetamio a retirar de uma caixa de carvalho o vinho de uvas-do-monte que iam oferecer a alguns convidados especiais. - Você nunca tinha reparado? Nunca esteve atraída por ele?
- Você sorriu para mim primeiro - o rosto de Thonolan se iluminou com um grande sorriso, provocando imediatamente uma beta resposta. -Mas eu acho que posso entender por quê. Não são só os olhos. A figura dele sobressai muito, sobretudo vestido como está. A roupa lhe assenta muito bem. Mas há alguma coisa mais do que isso. Acho que as mulheres sentem que ele está... como dizer, procurando por alguém. E ele parece um rapaz tão afetuoso, tão sensível... alto, bem-apanhado. De fato é um homem bonito. E os olhos têm certo quê... já reparou como ficam cor de violeta quando ele está perto da fogueira?
- Pensei ouvir você dizer não ter atração por ele - observou Thonolan, desconsolado.
Ela piscou-lhe os olhos com gaiatice.
- Você está com inveja? - perguntou carinhosamente.
Thonolan fez uma pausa antes de responder.
- Não. Jamais na vida. Não sei por que eu não, mas outros homens têm. Olhe só para ele, parece ter tudo, não é? Como você diz, bem apanhado, bonito. Olhe todas essas lindas mulheres ao redor dele. E não é só isto... muito habilidoso com as mãos. Melhor fazedor de ferramentas que conheço. Muito boa cabeça também, mas não conversar muito. As pessoas gostar dele... homens, mulheres, todo mundo. Devia ser feliz, mas não é. Ele precisar encontrar alguém como você, Tamio.
- Não sei se como eu, mas uma mulher precisa. Eu gosto de seu irmão, Thonolan. Espero que ele encontre o que está procurando. Quem sabe não será uma daquelas que estão lá perto dele?
- Acho que não. Já vi isto antes. Talvez ele agradar de uma... - ou mais até. Mas não encontrar o que deseja - eles encheram os odres, tendo o cuida do de deixar ainda no caixote uma certa quantidade de vinho para os mais farristas, e se encaminharam na direção de Jondalar.
- E que tal Serenio? Jondalar parece gostar dela e eu sei que ela simpatiza com ele muito mais do que confessa.
- Ele gostar de Serenio e de Darvo também. Mas talvez não como mulher para ele. Acho que Jondalar está atrás de um sonho... de uma donii, quem sabe? - falou Thonolan, dando-lhe um sorriso amoroso. - A primeira vez que você riu para mim, pensei estar vendo uma donii.
- Nós, sharamudoi, costumamos dizer que o espírito da Mãe foi trans formado num pássaro. Uma linda ave que acorda o sol com os seus cantos e que traz a primavera do sul. No outono, sempre ficam algumas aves para nos fazer lembrar de sua presença - um cordão de crianças passou na frente deles, impedindo-os de andar. - Crianças, principalmente as levadas, não gostam de pássaros. Acreditam que a Mãe está vendo e sabe de tudo que fazem. É a maneira que algumas mães arranjam para ameaçar os seus filhos quando estão fazendo o que não devem. Já ouvi falar de homens, perfeitamente adultos, que ao ver certos pássaros se sentem compelidos a confessar as coisas erradas que fizeram. Há também gente que diz que a Mãe ensina as pessoas que se perdem a encontrar o caminho de volta para casa.
- Nós zelandonii dizer que o espírito da Mãe está transformado numa donii voando no vento. Talvez ela parecer pássaro. Nunca pensei nisso antes- falou ele. Então, transbordante de amor, apertou as mãos dela e lhe sussurrou com a voz embargada: - Mas também nunca pensei encontrar você - ele tentou enlaçá-la, n se viu atado a ela pelo pulso. - Estou feliz por nós dois ter dado o nó, mas quando ficar soltos?
- Quem sabe se isso não é para nos acostumarmos com a idéia de que estamos para sempre juntos um ao outro? - ela deu uma risada. - Daqui a pouco já vai dar jeito para escaparmos. Mas antes que o vinho acabe, vamos levar um pouco para o seu irmão.
- Talvez ele não querer. Jondalar finge beber, mas na verdade não gostar muito. Tem medo de perder o controle e fazer bobagens.
Eles haviam saído da sombra da pedreira e, subitamente, foram notados.
- Ah, aí estão os dois. Estava à sua procura para lhe desejar felicidades, Jetamio - disse uma moça ramudoi de outra Caverna, jovem e cheia de vida.- Você teve tanta sorte. Em nossa Caverna, nunca aparecem rapazes bonitos para passar o inverno - ela lançou a Jondalar o que achava fosse um sorriso sedutor, mas ele estava com os belos olhos voltados na direção de outra moça.
- Tem razão. Tive uma grande sorte - falou Jetamio, sorrindo ternamente para o seu companheiro.
A moça olhou para Thonolan e soltou um suspiro.
- Os dois são bonitos, acho que eu não saberia escolher qual deles.
- E aí ficaria sem nenhum, Cherunio - falou outra moça. - Se você quiser um companheiro, tem de decidir-se por um homem só.
As risadas que se seguiram deixaram Cherunio feliz. Ela estava justa mente querendo chamar atenção.
- Isso é porque ainda não encontrei o homem certo para ser o meu companheiro - falou com um sorriso coquete na direção de Jondalar.
Cherunio era a mais baixa das moças ali, e Jondalar realmente ainda não a tinha notado. Mas agora a via. Apesar de baixinha, era muito feminina e aquele seu jeito alegre, cheio de vida, a tornava atraente. Era o oposto de Serenio. Os olhos de Jondalar mostravam-se interessados. Percebendo que conseguira despertar atenção, ela chegou a estremecer de tanto prazer.
De repente, atraída pelo som das batidas de tambor, virou a cabeça.
- Estou ouvindo o ritmo... eles vão fazer a dança dos pares. Vamos dançar, Jondalar?
- Eu não saber os passos - respondeu ele.
- Eu ensino. Não é difícil - falou, apressada, arrastando Jondalar na direção da música. Ele se deixou levar.
- Esperem, nós também vamos - disse Jetamio.
Quem não gostou de Cherunio ter conseguido tão depressa a atenção de Jondalar foi a outra moça, Radonio.
- Ora, não vai ser difícil - Jondalar ouviu-a dizendo, mas os quatro estavam afastando-se e ele não escutou os sussurros ditos em tom de conspiração que se seguiram.
- Esse é o último odre de vinho, Jondalar - falou Thonolan. - Jetamio disse que somos nós que temos de iniciar a dança, mas que depois não é preciso ficarmos. Logo que der jeito, vamos escapar.
- Você não quer levar o odre com você para os dois festejarem sozinhos?
- Bom, na verdade esse não é o último... temos um outro escondido. Mas acho que não vamos precisar. Estar com Jetamio já é uma festa.
- A língua deles é tão sonora, não acha, Jetamio? - comentou Cherunio. - Você entende alguma coisa?
- Um pouquinho. Mas pretendo aprender e mamutoi também. Foi idéia de Tholie nós todos aprendermos a língua um do outro.
- Tholie dizer que melhor modo de aprender sharamudoi é falar o tempo todo a língua. Ela tem razão. Desculpe, Cherunio, não educado conversar numa língua estrangeira - desculpou-se Jondalar.
- Oh, não tem importância - respondeu Cherunio. Mas, na verdade, tinha. Ela não gostava de se ver excluída das conversas. As desculpas de Jondalar, no entanto, serviram para tranqüilizá-la. Além do que, estar na companhia do belo zelandonii e se ver participando do seleto grupo de Thonolan e Jetamio tinha as suas compensações. Ela estava perfeitamente consciente dos olhares de inveja que despertava nas outras moças.
Fora do vão da pedreira, já perto do lugar onde começava o campo, ar dia uma fogueira. Eles entraram nas sombras e fizeram circular entre os quatro o odre de vinho. Enquanto os pares se formavam, Cherunio e Jetamio mostraram aos dois rapazes os movimentos básicos da dança. Uma melodia começou a ser tocada pelas flautas, acompanhadas por tambores e matracas. Logo a tocadora de osso de mamute se juntou e as possibilidades tonais de seu instrumento, lembrando um xilofone, imprimiu à música um tipo de som extremamente original.
Depois da dança iniciada, Jondalar reparou que se poderia variar os passos básicos de acordo com a imaginação e o talento do dançarino. De vez em quando alguém ou um par causava tamanho entusiasmo que todos paravam para bater o ritmo com os pés e gritar palavras de incentivo. A música e a dança eram contínuas. As pessoas - músicos, dançarmos, cantores - entravam e saíam quando lhes davam vontade, sempre criando uma variedade sem fim de passos, ritmos e melodias que se iam desenvolvendo enquanto houvesse gente para dar prosseguimento.
Cherunio era urna parceira alegre e Jondalar, bebendo mais vinho do que de costume, entrara no espírito da festa. Alguém começou a cantar uma canção dialogada cujo primeiro verso era conhecido. Logo, no entanto, ele descobriu que os versos passaram a ser improvisados de acordo com as circunstâncias e o momento. As alusões às dádivas e aos prazeres eram constantes e a intenção era provocar risos. Depressa a brincadeira se tornou num desafio entre aqueles que procuravam fazer graça e os outros que se esforçavam para não rir. Alguns chegavam inclusive a apelar para caretas na tentativa de obter a resposta desejada. Então um homem foi para o centro da roda forma da pelas pessoas que se balançavam ao ritmo da música.
- Ei, Jondalar tão grande e altão / Que todas as moças deixou na mão / Mas para ter os beijos de Cherunio / Ele bem gostaria de ser anão.
Os versinhos surtiram efeito. As risadas explodiram por todos os lados.
- Afinal, como é que você vai fazer, Jondalar? - gritou-lhe alguém. -Está querendo mesmo ser anão?
Jondalar riu para Cherunio.
- Não precisar ser anão - falou ele, suspendendo a moça e beijando-a, para alegria da multidão que aplaudia às -gargalhadas, batendo com os pés no chão. Cherunio, sentindo-se verdadeiramente no céu, passou os braços ao re dor do pescoço dele e lhe deu um ardoroso beijo. Ele reparou, então, que alguns casais saíam na direção das cabanas ou das esteiras espalhadas em lugares estratégicos. Justamente era o que também vinha pensando fazer. O apaixonado beijo de Cherunio lhe dera idéias. A moça poderia ter os seus encantos.
Não seria possível sair imediatamente, isso só iria provocar mais risadas, mas talvez pudessem ir aos poucos afastando-se. O passo da dança estava mu dando. Algumas pessoas aproximavam-se juntando-se ao grupo dos cantores ou daqueles que só observavam. Seria o bom momento para sumirem no meio das sombras. Enquanto ele procurava discretamente passar com Cherunio, surgiu de repente Radonio na frente deles.
-Você já teve o zelandonii a noite inteira, Cherunio. Não acha que já é tempo de dividi-lo um pouco com a gente? Afinal de contas, esse é um festival para honrar a Mãe e se espera que todo mundo participe das dádivas.
Radonio insinuou-se entre os dois e beijou Jondalar. Apareceu, então, uma outra moça e o abraçou, depois mais uma outra e outra, até que ele se viu cercado de mulheres. No princípio, chegou a corresponder-lhes os beijos e carícias, mas quando uma quantidade de mãos passaram a boliná-lo intimamente, já não sabia se estava gostando. Supunha-se que os prazeres fossem de livre escolha da pessoa. Ele ouvia o barulho abafado de alguém se debatendo, mas estava muito ocupado tentando desviar-se das mãos que procuravam desatar-lhe as calças para alcançá-lo por dentro delas. Aquilo já era demais.
Ele contorceu o corpo, repelindo-as, não muito delicadamente. Quando, finalmente, entenderam que o rapaz não iria deixar-se tocar, afastaram-se sorrindo, despeitadas. De repente, Jondalar reparou que faltava alguém.
- Onde está Cherunio? - perguntou.
Elas se entreolharam, abafando os risos.
- Onde está Cherunio? - tornou a perguntar. Vendo que a única resposta seriam apenas as risadinhas cochichadas, ele, rápido, deu um passo à frente, agarrando Radonio. Ele a machucava, mas mesmo assim ela não que ria confessar.
- Achamos que ela devia dividi-lo conosco - admitiu por fim Radonio, com um sorriso forçado. - Todas nós estávamos querendo o zelandonii grandão.
- Mas o zelandonii não quer todas. Onde está Cherunio?Radonio virou a cabeça para o lado, recusando-se a responder.
- Você diz que quer o zelandonii grandão? - a sua raiva transparecia na voz. - Pois aqui você tem ele - disse, obrigando-a a ajoelhar-se.
- Você está me machucando! Por que vocês não fazem alguma coisa?- as outras se mostravam indecisas, sem querer chegar perto.
Jondalar, segurando-a pelos ombros, empurrou-a para o chão perto da fogueira. A música tinha parado e as pessoas amontoavam-se ao redor sem saber se deviam ou não intervir. Ela lutava para levantar-se, mas ele a conservava presa sob o seu corpo.
- Você não estava atrás do gigante zelandonii? Agora você ter o que queria. Então, onde está Cherunio?
- Estou aqui, Jondalar. Elas me prenderam ali adiante com a boca tapada. Disseram que estavam apenas fazendo uma brincadeira.
- Brincadeira sem graça - falou ele se levantando e ajudando também Radonio a se pôr de pé.
Ela tinha lágrimas nos olhos e esfregava o braço.
- Você me machucou - disse, choramingando.
De repente, Jondalar compreendeu que a intenção havia sido apenas a de pregar-lhe uma peça e que ele se conduzira sem o menor senso de humor. Afinal, nem ele nem Cherunio estavam feridos. Não devia ter machucado Radonio daquela maneira. A sua raiva se foi e no lugar ficou só o sentimento de vergonha.
- Eu não queria machucar. Você... eu...
- Você não machucou, Jondalar. Não deu para tanto - falou um homem que havia observado a cena. - Além disso, foi ela quem provocou. Radonio está sempre inventando coisas e arrumando encrencas.
- Bem que você gostaria que ela inventasse coisas com você - disse uma moça, saindo em defesa de Radonio, agora que os ânimos já estavam mais frios.
- Vocês talvez pensem que um homem tem prazer em ser assediado por muitas mulheres ao mesmo tempo, mas não é assim.
- Isso não é verdade - contestou Radonio. - Estamos cansadas de saber o que conversam quando estão sozinhos. Eu ouvi quando você disse que gostava de ter uma porção de mulheres ao mesmo tempo e que também achava graça em menininhas antes dos primeiros ritos e todo mundo sabe que não se pode tocar numa garota, mesmo que ela já esteja preparada pela Mãe.
O pobre do homem ficou vermelho e Radonio, percebendo que estava levando vantagem, aproveitou.
- Sei até que muitos de vocês falam em pegar fêmeas de cabeças-chatas.
Subitamente, avultando-se das sombras, surgiu uma enorme figura de mulher caminhando para junto da fogueira. Ela não era t alta quanto gorda. Na verdade, era obesa. A dobra epicântica em seus olhos e a tatuagem em seu rosto lhe revelavam a origem estrangeira, embora estivesse usando uma túnica de couro shamudoi.
- Radonio! - disse ela. - Não é necessário falar porcarias num festival em honra da Mãe.Jondalar agora a reconhecia.
- Desculpe, shamud - respondeu Radonio, abaixando a cabeça. Ela tinha o rosto vermelho de vergonha e o seu arrependimento era sincero.
Jondalar, de repente, reparava que Radonio ainda era muito criança. Aliás, todas eram quase meninas. Ele se comportara abominavelmente.
- Minha querida - falou com doçura a mulher - um homem gosta de ser convidado e não invadido.
Jondalar olhou para a mulher, interessado. Era mesmo o que ele pensava.
- Mas nós não íamos machucá-lo. Pelo contrário, pensávamos até que ele ia gostar... - depois que tivéssemos começado.
- E poderia, se tivessem sido mais sutis. Ninguém gosta de ser forçado. Você mesma não gostou quando pensou que ele fosse violentá-la, não é?
- Mas ele me machucou!
- Será mesmo? Ou não foi porque ele estava fazendo uma coisa que você não queria? Acho que isso machuca ainda mais. E quanto a Cherunio? Por acaso alguma de vocês pensou que ela também poderia ficar machucada? Não se pode forçar ninguém a gozar dos prazeres. Isso não honra a Mãe. Ao contrário, é abusar da graça que ela nos concedeu.
- Shamud, está na sua vez - ouviu-se alguém dizer.
- Bom, Radonio, eu estou atrasando o jogo deles. Mas lembre-se, esta mos num festival. Mudo quer que os seus filhos estejam felizes. Tudo isso não passou de um incidente sem importância. Não deixe que esta bobagem estrague a sua festa, querida. A dança está outra vez começando. Agora vá divertir-se.
Depois que a mulher voltou para o seu jogo, Jondalar segurou as mãos de Radonio.
- Eu arrependido. Eu não pensar direito. Não querer machucar você. Por favor, estou envergonhado, perdoa?
O primeiro impulso de Radonio foi o de retirar-se com a cara amarrada, mas então deu com aqueles olhos cor de violeta que a fitavam cheios de ansiedade.
- Foi uma idiotice... uma brincadeira infantil e tola - falou ela e,já quase vencida pelo impacto viril da presença dele, começou a tombar na sua direção. Ele a amparou, curvou-se e a beijou. Um beijo longo, de um homem experiente.
- Obrigado, Radonio - ao dizer isso, deu as costas e se afastou.
- Jondalar! - gritou-lhe Cherunio. - Onde você vai?
Subitamente, com uma pontada de remorso, ele percebeu que se havia esquecido dela. Deu meia-volta e se encaminhou na direção da pequenina Cherunio, tão bonitinha e vivaz. Ela era realmente uma graça. Ele a suspendeu e lhe deu um beijo apaixonado, já quase arrependido de estar indo embora.
- Cherunio, eu tenho uma promessa. Tudo isso não era para acontecer. Mas você fez eu esquecer muito rápido de um outro compromisso meu. Eu es pero... talvez em outra ocasião. Não ficar zangada, por favor - falou ele, dirigindo-se logo em seguida para as cabanas abrigadas sob a pedreira.
- Por que você tem sempre de aparecer para estragar tudo, Radonio? -falou Cherunio, observando-o afastar-se.
A aba de couro na porta de entrada da moradia que ele dividia com Serenio estava abaixada, mas não havia nenhuma trave barrando-lhe a passagem. Ele suspirou aliviado. Pelo menos ninguém se achava com ela. Dentro, estava tudo escuro. Talvez Serenio não estivesse lá. Talvez tivesse ido com alguém para um outro lugar. Na verdade, desde que terminaram as cerimônias, ele não a tornara a ver. E foi ela quem não quis saber de compromissos. Fora ele quem se prometera passar a noite com ela. Talvez Serenio tivesse outros planos ou, quem sabe, não teria ela visto Cherunio com ele?
Tateando conseguiu chegar até o lugar onde havia um tablado coberto com um colchão de penas e forrado com peles. Era a cama de Darvo,junto de uma parede lateral, e estava vazia. Já se esperava. Gente de fora era um acontecimento, sobretudo para garotos da sua idade. Provavelmente havia feito amizade com alguns outros meninos e estava passando a noite com eles... - e com certeza todos fazendo força para se manterem acordados.
Ao aproximar-se do fundo da cabana, os seus ouvidos ficaram alertas. Teria escutado o rumor de uma respiração? Estendeu a mão sobre o tablado, apalpando um braço. O seu rosto imediatamente se iluminou com um sorriso de alegria.
Saiu da cabana outra vez, pegou da fogueira central um carvão aceso e voltou, carregando-o sobre uma tábua. Acendeu o pavio de uma lamparina e foi colocar duas traves cruzadas na porta, o sinal de que não queriam ser incomodados. Pegou a lamparina e silenciosamente se encaminhou para a cama, ficando a observar Serenio dormindo. Deveria acordá-la? Sim, resolveu, mas de vagar e muito carinhosamente.
A idéia excitava-o. Ele tirou a roupa e se meteu na cama, deixando-se envolver pelo calor que emanava dela. Serenio murmurou qualquer coisa e se virou para a parede. Suave e lentamente, ele começou a acariciá-la, sentindo-lhe a calidez do corpo adormecido, aspirando o seu cheiro de mulher e explorando cada contorno de forma: o braço até as pontas dos dedos, as reentrâncias das dos ombros, a espinha dorsal, chegando às sensíveis cavidades dos rins, depois seguindo o alteamento das nádegas. As coxas. As juntas atrás dos joelhos. A barriga da perna. Os tornozelos. Ao tocar na sola do pé, ela instintivamente o recolheu. Ele rodeou-a então com o braço para empalmar o seio, percebendo o mamilo enrijecer e contrair-se. Teve ímpetos de chupá-los, mas preferiu cobrir as costas dela com o seu corpo e começou a beijar-lhe os ombros e a nuca.
Ele adorava acariciar o seu corpo, explorá-lo e descobri-lo sempre como algo de novo. Adorava os corpos de todas as mulheres. Adorava as sensações que eles produziam no seu. A sua virilidade já estava ereta, latejava ansiosa, mas ainda controlável. Era sempre melhor quando não se deixava levar mui to depressa.
- Jondalar? - falou uma voz sonolenta.
- Hein.
Ela se virou para deitar de costas e abriu os olhos.
- Já de manhã?
- Não - ele soergueu-se, apoiado sobre um dos braços, e ficou fitando-a, enquanto apalpava-lhe o seio. Curvou-se para chupar o mamilo que havia desejado sentir em sua boca. Acariciou-lhe o ventre, e veio com a mão procurando pelo calor guardado entre as coxas. Pousou-a sobre os pêlos do monte-de-vênus. Aqueles eram os pêlos púbicos mais sedosos e macios que já vira numa mulher. - Eu quero você, Serenio. Essa noite quero honrar a Mãe com você.
- Mas antes você precisa me dar tempo para acordar - falou ela com um sorriso brincando nos cantos dos lábios. - Será que há um pouco de chá frio? Quero lavar a minha boca... o vinho sempre deixa um gosto horrível.
- Vou ver - respondeu ele, levantando-se.
Quando chegou com a cuia, ela sorria languidamente. Às vezes gostava de ficar apenas olhando para ele, admirando-o. Era tão esplendidamente másculo: as costas largas, ressaltadas com os movimentos dos músculos, o peito viril, ornado de caracóis louros, estômago rígido e pernas musculosas e fortes. O rosto quase perfeito demais: queixo quadrado, vigoroso, nariz reto, boca sensual - e ela o sabia como. As suas feições eram tão proporcionais e bem modeladas que se ele não fosse tão másculo e caso o adjetivo se aplicasse a um homem, se diria que era lindo. Até mesmo as mãos traduziam a sua força e sensibilidade. E os olhos -expressivos, magnéticos, fantasticamente azuis - eram capazes de pôr em disparada qualquer coração feminino, inclusive enchê-la de desejos, antes mesmo de haver visto a sua esplêndida virilidade, dura, soberba, projetando-se para ela.
A primeira vez que o viu naquele estado, chegou a assustar-se um pouco, até constatar a perícia com que ele sabia conduzir-se. Jamais a forçava, dava-lhe o que ela podia absorver. Dir-se-ia, talvez, que era ela quem procurava forçá-lo, querendo açambarcar toda aquela virilidade, desejando poder possuí-la em sua totalidade - Estava feliz por tê-la acordado. Ao pegar a cuia de chá, ela se levantou, mas não o bebeu logo. Abaixou-se e pôs em sua boca a ponta do pênis latejante. Ele fechou os olhos, deixando-se percorrer pela onda de prazer.
Ela sentou-se para tomar um gole e, em seguida, levantou-se.
- Preciso sair - disse. - Ainda há muita gente lá fora? Não estou que rendo vestir-me.
- Estão dançando. Ainda é muito cedo. Talvez melhor usar caixote.
Enquanto ela caminhava de volta para a cama, ele ficou observando-a. “Oh, Mãe, que linda mulher! Que feições encantadoras, que cabeleira macia!” As pernas eram longas e elegantes, as nádegas pequenas, mas bem torneadas, os seios miúdos, rígidos, bem modelados, com os bicos ressaltados - ainda seios de menina. Umas poucas estrias na barriga eram os únicos indícios de sua maternidade e algumas pequeninas riscas junto dos olhos, a única marca da passagem dos anos.
- Achei que ia voltar tarde... afinal há um festival acontecendo - falou ela.
- Por que você aqui? Não dizer “compromisso nenhum”?
- Não encontrei ninguém interessante e me sentia cansada.
- Você interessante... Eu não cansado - falou ele, sorrindo. Depois tomou-a em seus braços e, puxando-a para junto de si, pôs-se a explorar-lhe a boca quente e úmida com a língua. Invadida por uma torrente de desejos, ela sentiu de encontro à barriga o sexo duro e palpitante.
A intenção dele era a de prolongar, de manter-se sob controle até que ela, por sua vez, não se agüentasse mais. Ele, no entanto, atirou-se, voraz, à sua boca, ao seu pescoço e aos mamilos que chupava e sugava, enquanto ela lhe apertava a cabeça contra o seio. A mão viril procurou o púbis encontrou o quente e molhado. Um gritinho escapou dos lábios de Serenio quando ele tocou o pequenino órgão duro dentro das dobras intumescidas. Ela ergueu o corpo pressionando-o contra o dele, deixando-o afagá-la no ponto que ele sabia dava-lhe prazer.
Jondalar percebeu o que ela estava desejando. Os dois mudaram de posição: ele ficou de lado e ela se pôs de costas, com uma perna passando-lhe por cima do quadril e a outra enfiada entre as dele. Enquanto tinha o centro de seu prazer massageado e acariciado, esticou a mão para pegar no fogoso pênis e guiá-lo através das profundezas de sua abertura. Ao sentir-se penetrada, deixou escapar um grito apaixonado, logo seguido do intenso gozo de dois prazeres vividos ao mesmo tempo.
Movimentando-se dentro dela, ele se sentia envolvido pelo seu calor, enquanto ela o cerrava fortemente, querendo absorvê-lo por inteiro. Por instante, ele emergiu para voltar a penetrá-la até onde desse para alcançar. Sentindo-a altear-se ao encontro de sua mão, pôs mais intensidade nas carícias e voltou a mergulhar. A tensão aumentava. Ela já gritava. Ele estava repleto, estourando. Os seus rins apertaram-se quando ela o estreitou, puxando-o para baixo. Ele massageava-a com mais força e a penetrava cada vez mais. Então, uma avalanche de ondas orgásticas arrastou os dois juntos a um clímax exasperante. Mais alguns movimentos e estremeceram, ambos sob o impacto da completa satisfação. Imóveis, respirando com dificuldade, deixaram-se ficar deitados com as pernas entrelaçadas. Ela o puxou para si. Somente agora, antes de sobrevir a flacidez do membros já não mais em toda a sua pujança, tinha ela a possibilidade de possuí-lo inteiro. Sempre saía com a impressão de não poder dar-lhe tudo quanto recebia. Ele não desejava mover-se, talvez estivesse quase a ponto de dormir. Mas tampouco era isso o que queda. Por fim, retirou o membro contraído e se enroscou junto dela. Serenio continuava deitada, imóvel, mas ele sabia que ela não estava dormindo.
A sua mente se pôs a divagar e se surpreendeu, de repente, pensando em Cherunio e Radonio e em todas as outras moças. Como seria se fosse com to das elas ao mesmo tempo? Com todos aqueles corpos ardentes, núbeis, rodeando-o com as suas coxas quentes, os seus traseiros roliços e as suas vaginas molhadas? Sentindo o hálito de uma mulher na boca, enquanto as suas mãos estivessem explorando diferentes corpos? Começava a sentir novamente uma pontada de excitação. O que teria dado nele para despedi-las? Às vezes conseguia realmente ser um perfeito idiota.
Ele olhou para a mulher ao seu lado. Quanto tempo seda necessário para despertá-la novamente? Ela sorriu, sentindo-lhe a respiração em seu ouvido. Ele a beijou no pescoço e depois na boca. Desta vez teria de ir devagar, com calma e meticulosamente. Jetamio era uma linda mulher, maravilhosa. Por que não conseguia apaixonar-se por ela?
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