O Vale dos Cavalos

Jean M. Auel · Capítulo 6 de 31

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O Vale dos Cavalos

Capítulo 4

“Jondalar, agachado, observava a mana da através de uma cortina de relva dourada dobrando-se ao peso das espigas ainda por amadurecer. Um cheiro forte de cavalo, quente, morrinhento, impregnava o ar, trazido, não pelo vento quente, batendo-lhe no rosto, mas pelo esterco fresco que ele havia esfregado no corpo e nas axilas, com isso pretendendo disfarçar o próprio odor, caso o vento mudasse de direção

O sol quente brilhava nas suas costas suadas e morenas, e os fios de suor que lhe escorriam pelas têmporas enegreciam o cabelo descolorado e empastado na testa. No rosto, o vento soprava, incomodando uma mecha comprida, escapada do laço de couro amarrando a cabeleira na nuca. Vez por outra, as moscas zumbindo ao redor picavam-lhe a pele e a posição forçada, de cócoras, punha um início de cãibra na perna esquerda.

Eram incômodos pequenos que quase não reparava. A sua atenção estava toda voltada para um garanhão que empinava, bufando, estranhamente consciente do iminente perigo ameaçando o seu harém. As éguas pastavam, mas iam interpondo-se, aparentemente descuidadas, entre os seus potros e os homens.

Thonolan, a poucos metros adiante, estava agachado na mesma posição forçada. Tinha uma lança levantada sobre o ombro direito e outra que segurava com a mão esquerda. Ele olhou para o irmão. Jondalar levantou a cabeça e piscou os olhos na direção de uma égua acinzentada. Thonolan, remexendo a lança na mão para sentir-lhe o equilíbrio, fez sim com a cabeça e se preparou para saltar.

Como se já houvessem previamente combinado, os dois pularam ao mesmo tempo e foram em disparada na direção da manada. O garanhão empinava, dando relinchos de aviso. Thonolan atirou a sua lança na égua, enquanto Jondalar, aos gritos e uivos, ia direto para o garanhão, tentando assustá-lo. A zoeira dava resultado. O animal não estava habituado a predadores barulhentos. Os caçadores de quatro patas eram furtivos e silenciosos em seus ataques. O garanhão, com relinchos lamuriosos, arremessou-se na direção do homem, mas acabou esquivando-se e galopou atrás da manada batendo em retirada.

Os dois irmãos correram em perseguição. O garanhão percebeu que a égua ia ficando para trás e mordiscava as suas ancas, querendo pressioná-la. Os homens agitaram os braços, gritando, mas desta vez o garanhão fincou pé no seu terreno. Atirando-se entre os homens e a égua, ele os mantinha a distância, enquanto cutucava a fêmea, procurando incentivá-la. A égua, cambaleando, deu mais uns poucos passos, depois parou com a cabeça pendurada. A lança de Thonolan estava cravada na ilharga, fazendo correr filetes de sangue que manchavam o couro acinzentado e pingavam da crina.

Jondalar veio para mais perto, fez pontaria e atirou a sua lança. O animal estremeceu, cambaleou e caiu. A segunda lança foi enterrar-se no pescoço, sob a espessa moita da crina. O garanhão aproximou-se e, delicadamente, lhe encostou o focinho, em seguida retrocedeu e, soltando um berro de desafio, correu atrás da manada. Só lhe restava proteger os vivos.

- Vou pegar os baús - falou Thonolan, enquanto, cansados, caminhavam na direção do animal tombado. - Será mais fácil trazer a água para cá do que levar o animal até o rio.

- Não vamos botar toda a sua carne para secar. Podemos levar só o que queremos até a margem do rio; assim, não precisamos trazer a água para cá.

Thonolan encolheu os ombros.

- Por que não? Vou apanhar um machado para partir ossos - falou, encaminhando-se para o rio.

Jondalar desembainhou a sua faca de cabo de osso e fez um talho pro fundo na garganta. Arrancou as lanças do corpo do animal e ficou observando a poça de sangue que ia formando-se ao redor da cabeça.

- Quando você regressar para a Grande Mãe Terra, agradeça a ela -falou, dirigindo-se ao animal.

Instintivamente, ele levou a mão à sua sacola, apalpando a estatueta de pedra da Mãe. “Zelandoni tem razão”, pensou. “Se os filhos da terra esquecerem daquela que os sustenta, talvez algum dia, quando acordarmos, vamos descobrir que estamos sem casa.” Agarrou, então, a faca, preparando para ofertar a Doni a sua parte.

- Na volta, vi uma hiena. Parece que além de nós dois vamos ter outros convidados - falou Thonolan.

- A Mãe não gosta de desperdícios - respondeu Jondalar, sujo de sangue até os cotovelos. - Dessa ou daquela maneira, tudo acaba voltando para ela. Bom, ajude-me aqui.

- É um risco e você sabe disso - dizia Jondalar, atirando mais lenha na fogueira. Algumas fagulhas flutuaram no ar, antes de desaparecerem junto com a fumaça na escuridão da noite. - Que faremos quando o inverno chegar?

- Até o inverno, ainda há muito tempo. Até lá, devemos encontrar gente.

- Se voltarmos agora, poderemos encontrar pessoas. Ainda dá tempo para chegar nos Losadunai, antes que o inverno aperte - ele se virou, olhando para o irmão. - Não sabemos como é o inverno do lado de cá das montanhas. Aqui é mais aberto, menos protegido e as árvores são poucas para lenha. Talvez seja melhor tentarmos achar os Sarmunai. Eles podem nos dar uma idéia do que nos aguarda pela frente e também informações das pessoas que vivem por essas bandas.

- Você pode voltar se quiser, Jondalar. Desde o começo, a minha intenção era fazer essa viagem sozinho... não que não goste de sua companhia.

- Não sei... talvez devesse - respondeu Jondalar, virando-se para olhar o fogo. - Não fazia idéia da extensão deste rio. Olhe só para ele - falou, apontando para a água tremeluzindo sob o reflexo do luar. - Esse rio é a Mãe dos outros e tão imprevisível quanto ela. Quando começamos a segui-lo, ele ia na direção leste, agora está indo para o sul, dividido em diversos canais. Às vezes tenho dúvidas se estamos realmente seguindo o rio certo. Qualquer que fosse a distância, achava que não estava falando sério, quando disse que queria acompanhá-lo até o seu final. Além disso, mesmo que encontremos pessoas, como você poderá saber se é gente amiga?

- São nessas coisas que está a graça de uma viagem, Jondalar. Descobrir novos lugares, conhecer caras novas. Tem-se que confiar na sorte. Olhe aqui, meu irmão, se quiser, volte. Falo sério.

Jondalar encarava o fogo, batendo ritmicamente com o pau na palma da mão. De repente, saltou sobre os pés e atirou o pau no fogo, fazendo pular um mundo de fagulhas. Deu uns passos e se pôs a olhar as tiras de carne que secavam penduradas em cordas de fibras retorcidas e esticadas entre as estacas que fincaram no chão.

- E por que teria eu de voltar? Aliás, o que eu espero do futuro?

- A próxima curva do rio. Um outro nascer do sol e a pró a mulher com quem irá deitar-se - falou Thonolan.

- E isto é tudo? É só o que você quer da vida?

- E fora isto, o que há mais a esperar? Você nasce, vive o melhor que pode enquanto está neste mundo e, algum dia, volta para a Mãe. Depois disso, ninguém sabe...

- Há de haver mais coisa do que isso. Deve existir alguma razão para viver.- Se algum dia descobrir, me conte - disse Thonolan bocejando. -Estou esperando pelo próximo nascer do sol, mas um de nós tem de ficar acordado, ou do contrário vamos ter de acender mais fogueiras para manter os bichos afastados, se quisermos que essa carne esteja aí amanhã de manhã.

- Vá você dormir. Eu fico acordado. De qualquer modo, não iria mesmo conseguir pegar no sono.

- Você se preocupa muito, Jondalar. Quando ficar cansado, me acorde.

O sol já havia saído quando Thonotan se arrastou para fora da barraca, esfregando os olhos e espreguiçando.

- Você ficou acordado a noite toda? Eu lhe disse para me chamar.

- Fiquei pensando e não me deu vontade de ir para a cama. Se quiser, o chá de sálvia está quente.

- Obrigado - respondeu Thonolan, despejando com uma concha o líquido fumegando dentro de uma cuja de madeira. Ele se acocorou perto da fogueira, segurando a cuia entre as mãos. A relva estava molhada e, vestido só com uma tanga, sentia o ar frio da manha. Ficou observando a revoada dos pássaros que cantavam barulhentamente ao redor de um pequeno matagal e das árvores perto do rio. Um bando de garças, aninhado numa ilha de salgueiros no meio do canal, fazia a sua refeição matinal de peixes.

- Bom... e então?

- Então,o quê?

- Descobriu o sentido da vida? Não era com que estava preocupado ontem à noite, quando fui dormir? Se bem que jamais entenderei por que ficou acordado a noite toda por causa disso. Bom, a não ser que haja alguma mulher por aqui... Será que você tem alguma das filhas de Doni escondida no meio dos salgueiros?

- E se eu tivesse, você acha que iria dizer? - falou Jondalar, sorrindo.-Você não precisa fazer piadas sem graça para me deixar de bom humor, irmãozinho - acrescentou já meio sério. - Vou acompanhá-lo até o fim do rio, se é que você quer saber. Mas, depois disso, o que vai fazer?

- Isso depende do que encontrarmos lá. Bom, eu achei que o melhor a fazer seria ir para a cama. Você não é boa companhia quando entra numa de suas fases de rabugice. Fico satisfeito por ter resolvido a vir. Já me acostumei com você, com o seu mau humor e tudo.

- E eu já disse que alguém tem de estar junto de você para impedi-lo de se meter em enrascadas.

- Está falando de mim? Bem que gostaria de me meter numa enrascada. Seria melhor do que ficar aqui sentado esperando essa carne secar.

- Se o tempo continuar firme, será só por uns dias. Mas, mudando de assunto, não tenho muita certeza se devo ou não contar para você o que eu vi - falou Jondalar, piscando o olho.

- Ora, deixe disso. Você sabe que de qualquer maneira vai...

- Thonolan, há um esturjão imenso no rio... mas, nem pensar em pescá-lo. Você também não iria querer esperar que o peixe secasse.

- De que tamanho? - perguntou Thonolan. Ele se pôs de pé e olhava ansioso para o rio.

-. É tão grande que não sei se nós poderíamos arrastá-lo para fora.

- Nenhum esturjão é tão grande assim.

- Esse que eu vi era.

- Venha mostrar.

- Quem você pensa que eu sou? A Grande Mãe? Por acaso acha que tenho poderes para fazer surgir um peixe e mostrá-lo para você? - Thonolan parecia desolado. - Mas vou mostrar o lugar onde eu vi o peixe.

Os dois se encaminharam para a margem e ficaram postados perto de uma árvore caída, com uma parte banhada pela água. Como se só para tentá-los, uma forma escura apareceu subindo o rio e parou debaixo da árvore, per to do fundo, ondulando-se levemente contra a correnteza.

- Esse deve ser a mãe de todos os peixes - sussurrou Thonolan.

- Mas será que conseguiremos pescá-lo?

- Podemos tentar.

- Daria para alimentar uma Caverna inteira ou até mais. O que iríamos fazer com ele?

- Não é você quem diz que a Mãe nunca deixa que nada se desperdice? Os carcajus e as hienas podem ficar com uma parte. Vamos pegar as lanças - disse Thonolan, já louco pela pescaria.

- Lanças não vão adiantar. Iremos precisar de arpões.

- Até fazermos os arpões, o esturjão já terá sumido.

- Mas se não fizermos, nunca conseguiremos apanhá-lo. Escaparia fácil de uma lança. Precisamos arrumar alguma coisa que tenha um gancho volta do para fora. Não levaria muito tempo para fazer. Olhe aquela á ali na frente. Se cortarmos os galhos bem juntos de uma bifurcação resistente, não precisamos nos preocupar com reforços. Usamos o galho tal como está -falava Jondalar ilustrando a sua descrição com gestos no ar - depois cortamos os galhos, afinamos a ponta e arrumamos um gancho para...

- Mas de que vai adiantar se o peixe for embora antes de você arrumar isso tudo? - interrompeu Thonolan.

- Já vi esse peixe aqui duas vezes. Parece que o seu lugar predileto de descansar é aqui. Provavelmente irá voltar.

- Mas quem sabe quanto tempo ele vai demorar para retomar?

- Tem alguma coisa melhor para fazer neste instante?

Thonolan deu um sorriso forçado.

- Está certo. Você venceu. Vamos fazer o arpão.

Os dois se viraram para voltar, mas pararam assustados. Diversos homens, com expressões sem dúvida alguma pouco amistosas, achavam-se lá, cercando-os.

- De onde saíram? - perguntou Thonolan, com voz rouca sussurrada.

- Devem ter visto nossa fogueira. Talvez já estejam nos espreitando há muito tempo. Como eu passei a noite inteira acordado para vigiar a carne, eles deviam estar à espera de um momento em que nos pegassem desprevenidos, com as nossas lanças fora de alcance.

- Não estão parecendo muito sociáveis. Ninguém faz um gesto de saudação. O que vamos fazer?

- Ponha na sua cara o seu riso mais arreganhado e bonito e faça você o gesto, irmãozinho.

Thonolan procurou mostrar-se confiante e, exibindo aquilo que imaginava fosse o sorriso de alguém seguro de si, encaminhou-se na direção das pessoas com as mãos estendidas.

- Eu sou Thonolan dos Zelan...

Os seus passos foram barrados por uma lança que ficou balançando cravada no chão junto aos seus pés.

- Tem alguma outra sugestão a fazer, Jondalar?

- Acho que agora é a vez deles.

Um dos homens disse alguma coisa numa língua desconhecida e dois outros saltaram na direção deles, pondo-se a pressioná-los com as pontas das lanças, de modo a fazê-los ir em frente.

- Não precisa ser malcriado, amigo - falou Thonolan, sentindo uma espetada. - Nós estávamos mesmo indo nessa direção quanto vocês apareceram.

Eles foram levados para o lugar onde tinham o acampamento e jogados no chão com brutalidade. Aquele que havia falado antes rosnou uma outra ordem. Alguns homens entraram na barraca e retiraram tudo do seu interior. As lanças foram tiradas dos baús e o conteúdo deste empilhado no chão.

- O que vocês acham que vão fazer? - gritou Thonolan, começando a levantar-se. Ele foi obrigado a se manter no lugar e sentiu um fio de sangue escorrer-lhe pelo braço.

- Fique calmo, Thonolan - aconselhou Jondalar. - Eles parecem zangados e acho que não estão dispostos a aceitar reclamações.

- Isso é modo de tratar visitas? Será que desconhecem os direitos de trâmite dos que estão em viagem?

- Foi você mesmo quem disse, Thonolan.

- Disse o quê?

- Que se tem de confiar na sorte e que a graça de uma viagem está nisso.

- Obrigado - falou Thonolan, passando a mão na ferida em seu braço e olhando para os dedos sujos de sangue. - Era exatamente o que eu estava precisando ouvir

Aquele que parecia ser o chefe tomou a expedir algumas outras ordens e os dois irmãos foram erguidos sobre os seus pés. Thonolan, apenas com a sua tanga, mereceu só um olhar rápido, mas Jondalar foi revistado e ficou sem a sua faca de cabo de osso. Um dos homens pegou-lhe a sacola presa em seu cinto e ele tentou agarrá-la. No instante seguinte, estava sentindo uma forte dor na nuca e tombando no chão.

Ficou tonto só alguns momentos. Quando a sua cabeça clareou, encontrou-se estendido no chão, fitando os olhos cinzas de Thonolan, com expressão preocupada. As suas mãos se achavam atadas nas costas por correias.

- Foi você mesmo quem disse, Jondalar.

- Disse o quê?

- Que eles não estão a fim de agüentar reclamações.

- Obrigado - disse Jondalar com uma careta, sentindo subitamente for te dor de cabeça. - Era exatamente o que eu estava precisando ouvir.

- O que você acha que vão fazer conosco?

- Bom, ainda estamos vivos. Se quisessem nos matar, já o teriam feito.

- Talvez estejam nos guardando para alguma coisa mais especial.

Os dois ficaram deitados no chão, vendo os desconhecidos andarem pelo acampamento e ouvindo-lhes as vozes. A um certo momento, eles começaram a sentir os seus estômagos rosnando com o cheiro de comida cozinhando. Quando o sol ficou mais alto no céu, o problema tomou-se ainda pior com o calor forte e a sede. No transcorrer da tarde, Jondalar adormeceu. Sem ter dormido na noite anterior, o sono acabou vencendo-o. Foi acordado com o barulho de gritos e passos apressados.

Alguém havia chegado.

Os dois foram postos de pés. Inteiramente estupefatos, deram com a cena de um homem corpulento que vinha na direção deles, carregando nas costas uma velha extremamente enrugada e de cabelos brancos. O homem ficou de quatro e a mulher foi ajudada a descer da sua cavalgadura humana.

- Seja quem for, deve ser um bocado importante - falou Jondalar. Um soco nas costelas veio calar a sua boca.

A mulher encaminhou-se para eles, apoiando-se num cajado que era um pau nodoso, com um adorno esculpido no cabo. Jondalar não tirava os olhos dela, certo de que nunca vira em sua vida alguém tão velho. Com a idade, a mulher encolhera, ficando da altura de uma criança e os cabelos brancos rarefeitos deixavam à mostra o couro cabeludo rosado. O rosto estava tão enrugado que quase não parecia mais o de um ser humano, mas os olhos curiosamente destoavam. Em alguém tão velho, o normal seria que fossem senis, opacos e lacrimosos. Mas não. Brilhavam com inteligência, espargindo autoridade. Jondalar estava pasmo com a minúscula figura da mulher e um tanto temeroso por Thonolan... e por ele também. Ela não teria sido trazida se não fosse por motivo muito importante.

Quando a mulher falou, a voz tinha as dissonâncias próprias da idade, mas era surpreendentemente forte. O chefe apontou na direção de Jondalar e ela lhe dirigiu uma pergunta.

- Peço desculpas, mas não compreendo -. falou ele.

Batendo no peito com a mão, tifo encaroçada quanto o seu cajado, ela tomou a falar, dizendo algo que foi ouvido como Haduma. Depois, apontou o seu dedo nodoso para ele.

- Sou Jondalar dos Zelandonli - disse, esperando ter entendido o que ela pretendia dele.

A mulher levantou a cabeça como que apurando os ouvidos.

- Zelan-do-nie? - repetiu devagar.

Jondalar, nervoso, fez sim com a cabeça, passando a língua nos lábios ressequidos.

Ela ficou encarando-o, com jeito especulativo. Depois, falou, dirigindo-se ao chefe. À resposta deste saiu brusca. Ela deu uma ordem extremamente lacônica e se virou, encaminhando-se para a fogueira. Um dos homens que os vigiavam puxou uma faca. Jondalar deu uma olhada no irmão. Pela sua cara, Thonolan estava sentindo a mesma coisa que ele. Jondalar preparou-se para o que desse e viesse e, de olhos fechados, dirigiu uma prece à Grande Mãe.

Abriu-os quando, com um suspiro de alívio, sentiu que lhe retiravam as correias, desamarrando as suas mãos. Um homem se aproximava trazendo um odre com água. Depois de sorver longos goles, Jondalar o passou para o irmão, também já com as suas mãos livres. Ele ia abrir a boca para agradecer, mas se lembrando do soco nas costelas achou melhor pensar duas vezes antes de fazê-lo.

Os dois foram escoltados até a fogueira por guardas com lanças ameaçadoras que os vigiavam de perto. O homem corpulento, que tinha carregado a velha, trouxe uma tora, botou um manto de pele sobre esta e se afastou para o lado, mantendo a sua mão sobre o cabo de uma faca. Ela acomodou se no toco e, os irmãos foram postos sentados à sua frente. Todos os dois tinham o máximo cuidado para não fazer qualquer movimento que pudesse ser interpretado como agressivo à velha. Não tinham a menor dúvida sobre qual seria o destino deles caso passasse pela cabeça dos homens ali que eles poderiam feri-la.

Ela, sem dizer palavra, encarava Jondalar outra vez. O olhar dele encontrou-se com o dela, mas à medida que o silêncio prolongava-se, ele começou a sentir-se desconcertado, pouco à vontade. De repente, a mulher meteu a mão dentro de seu vestido e, com os olhos fuzilando de raiva e soltando um mundo de imprecações - que eles não entendiam, mas percebiam - estendeu para ele um objeto. Jondalar, surpreso, arregalou os olhos. Ela tinha na mão a estatueta de pedra representando a Mãe, a sua donii.

Com o canto dos olhos, ele percebeu que o guarde ao seu lado se encolhera assustado. Havia qualquer coisa na donii que o perturbava.

A mulher terminou o seu palavrório e, num gesto de efeito, levantou o braço atirando a estatueta ao chão. Instintivamente, Jondalar deu um salto, conseguindo ainda agarrá-la. No seu rosto se via a raiva que sentia pelo ato de desrespeito para com o sagrado objeto. Ignorando as picadas da lança, ele pegou a imagem, segurando-a de modo a protegê-la.

A uma palavra da mulher, a lança foi retirada de cima dele. Jondalar, surpreso, viu um riso no rosto da velha e um brilho divertido nos seus olhos, mas estava longe de saber se era de bom humor ou malícia.

Ela se levantou do toco, vindo para mais perto. Não era muito mais al ta em pé do que sentada. Encarava-o diretamente dentro de seus olhos muito azuis, com uma expressão de espanto. Depois, deu um passo atrás, virou a cabeça dele de um lado para o outro, apalpou-lhe os músculos do braço e examinou a largura dos ombros. Ela fez-lhe um gesto para que se levantasse. Ele não percebeu imediatamente, mas a estocada do guarda o fez logo compreender. A velha jogou para trás a cabeça, querendo avaliar melhor o seu metro e no venta de altura. Em seguida, pôs-se a andar à volta dele, dando-lhe cutucadas nos músculos da perna. A sensação de Jondalar era a de que estava sendo examinado como mercadoria posta a prêmio num negócio. Depois, enrubesceu com o pensamento de que talvez não fosse ele de tão boa qualidade.

O próximo a ser examinado foi Thonolan. Ela lhe fez sinal para ficar de pé e, em seguida, voltou novamente a atenção para Jondalar. Se ele já estava ruborizado, mais ainda ficou ao perceber o sentido do gesto que a mulher lhe fazia. Ela queria ver a sua virilidade.

Ele abanou a cabeça recusando-se e deu um olhar furioso a Thonolan que tinha na cara um sorriso divertido. A uma ordem da mulher, um dos homens agarrou Jondalar por trás, enquanto outro, visivelmente embaraçado, procurava desajeitadamente abrir a calça.

- Acho que ela não está disposta a aceitar reclamações - disse Thonolan, abafando um sorriso.

Jondalar, furioso, deu uni safanão no homem que o segurava e ele mesmo expôs o seu sexo para a velha, enquanto fuzilava com os olhos o irmão que não conseguia conter as risadas. A mulher olhou para o sexo, entortou a cabeça avaliando-o, e encostou o dedo encaroçado.

Jondalar, ao invés de vermelho, ficou agora roxo. Então, por alguma razão inexplicável, ele sentiu o seu membro dilatando-se. A mulher cacarejou uma risadinha, no que foi seguida por todos os que estavam por perto, mas tudo dentro de um clima submisso e reverente. Thonolan ria, batendo com os pés no chão e os olhos enchendo-se de lágrimas. Jondalar, às pressas, cobriu o seu membro ultrajado, sentindo-se idiota e morto de raiva.

- Meu irmão, se você consegue ter uma ereção com uma bruxa velha desta é porque está realmente precisando de mulher - falou ele, tomando fôlego e enxugando uma lágrima. Depois, tomou a soltar uma estrondosa gargalhada.

- Só espero que chegue a sua vez - disse Jondalar, lamentando não lhe ocorrer algum dito mais mordaz que acabasse com a alegria do irmão.

A velha fez sinal para o chefe dos homens que os haviam detido e se pôs a falar com ele. Seguiu-se uma troca acalorada e palavras entre os dois e Jondalar escutou a mulher dizendo Zelandonie, enquanto o homem apontava para a carne secando nas cordas. A uma ordem imperiosa da velha, a conversa foi abruptamente interrompida. O homem passou os olhos em Jondalar, fazendo, em seguida, um gesto para um rapaz de cabelos encaracolados que, depois de ouvir algumas palavras, disparou a toda pressa. Jondalar e Thonolan foram conduzidos de volta à barraca e tiveram os seus baús devolvidos. Mas as facas e as lanças não. Um homem foi deixado à pequena distância, visivelmente na intenção de mantê-los sob vigilância. Trouxeram-lhes comi da e, quando a noite caiu, os dois se meteram dentro da barraca. Thonolan achava-se alegre, animado, mas Jondalar não estava nem um pouco para conversa com um irmão que, a cada instante, olhava para ele e caía na gargalhada.

Ao acordarem, havia no acampamento um clima de expectativa. Quando a manhã ia pela metade, surgiu um enorme grupo de pessoas que foi recebido com gritos de saudações. Barracas foram armadas, havia homens, mulheres e crianças andando por toda parte e o acampamento dos dois parecia agora mais uma Reunião de Verão. Jondalar e Thonolan, cheios de interesse, observavam a montagem de uma grande estrutura circular, com paredes retas, feitas de couro, e um teto de palha de forma abobadada. Muitas das partes da construção vieram pré-moldadas e a montagem se fez numa velocidade incrível. Depois, trouxas e cestos tampados foram levados para dentro.

Durante algum tempo, fez-se uma pausa nas atividades, enquanto a comida era preparada. À tarde, uma multidão começou a formar-se ao redor da estrutura circular. A tora da velha foi trazida e colocada ao lado da abertura de entrada, com a manta de pele forrando-a. Logo que ela surgiu, as pessoas ficaram em silêncio e passaram a fazer um círculo ao seu redor, deixando livre o espaço central Jondalar e Thonolan a viram falando com um homem e apontando para eles.

- Talvez a velha esteja querendo que você mostre novamente o seu grande desejo por ela - troçou Thonolan, vendo o homem acenar-lhes.

- Terão antes que me matar.

- Pensei que você estivesse morrendo de vontade para deitar-se com a nossa beldade - disse Thonolan, fingindo ar de inocência. - Pelo menos foi o que aconteceu ontem - novamente ele se pôs a rir. Jondalar se virou, dirigindo-se para o grupo em torno da velha.

Os dois foram conduzidos para o centro da roda e ela fez um gesto para que eles se sentassem à frente dela.

- Ze-lan-do-nie? - perguntou a mulher, dirigindo-se a Jondalar.

- Sim - disse ele, indicando com a cabeça. - Eu sou Jondalar dos Zelandonii.

Ela deu uma tapinha no braço de um velho que se achava ao seu lado.

- Eu... Tamen - falou o homem, dizendo, em seguida, outras palavras que Jondalar não conseguiu entender. - ... Hadumai. Faz muito tempo Tamen - seguiu-se outra palavra incompreensível – oeste... Zelandonii.

Jondalar esforçava-se querendo compreender, mas, subitamente achou que pescara algumas palavras do velho.

- O seu nome é Tamen e você falou qualquer coisa sobre Hadumai. Faz muito tempo... há muito tempo atrás, você... oeste. Quer dizer, você fez uma viagem para o oeste e conheceu os Zelandonii, não é isso? Você fala zelandonii? - perguntou animado.

- Sim, uma viagem - respondeu o homem. - Falar não... faz muito tempo.

A velha agarrou o braço do homem e lhe falou qualquer coisa. Ele se virou para os dois irmãos.

- Haduma - disse ele, apontando para ela. - Haduma... mãe - Tamen hesitava. Depois, com um largo movimento de braços, indicou todos que se achavam ali presentes.

- Você está querendo dizer que ela é como um zelandonii, uma servidora da Mãe?

Ele abanou a cabeça.

- Haduma... mãe... - Por um momento ficou pensando, depois acenou para algumas pessoas e as pôs em fila do lado dele. - Haduma... mãe... mãe... mãe... mãe - falou, primeiro, apontando para a velha, depois para si mesmo e, em seguida, indicando cada um daqueles que estavam enfileirados.

Jondalar observava as pessoas, tentando dar sentido à demonstração do velho. Tamen era velho, mas não tanto quanto Haduma. O que vinha depois dele era um homem aproximadamente de meia-idade. Ao lado deste, achava-se uma mulher segurando a mão de uma criança. De repente, Jondalar estabeleceu a conexão.

- Você está dizendo que Haduma é mãe de mãe cinco vezes? - ele levantou a mão com os cinco dedos estendidos. - Mãe de cinco gerações? -disse, admirado.

O homem sacudiu com veemência a cabeça.

- Sim. Mãe de mãe... cinco vezes - falou apontando para cada pessoa.

- Grande Mãe! Você imagina quantos anos ela possa ter? - perguntou Jondalar, se dirigindo ao irmão.

- Grande Mãe! - repetiu Tamen. - Haduma... mãe - falou, batendo na barriga.

- Filhos?

- Filhos... sim - disse confirmando com a cabeça. - Haduma mãe de filhos... - ele se pôs a riscar linhas na terra.

- Um, dois, três... - ia contando Jondalar os riscos na terra. -Dezesseis! Haduma teve dezesseis filhos?

Tamen confirmou, apontando outra vez para os traços no chão.

- Muitos filhos e muitos... meninas? - ele abanava a cabeça, incerto da palavra.

- Muitas filhas? - perguntou Jondalar, querendo ajudar.

O rosto de Tamen se iluminou.

- Isso, muitas filhas... - Ele se pôs a pensar por um instante. – Vivos todos vivos. Todos... muitos filhos - dizendo isso, levantou os dedos de uma das mãos e mais um da outra. - Seis Cavernas Hadumai.

- Não é de admirar que nos mataria se fizéssemos qualquer coisa contra ela. A velha é mãe de todo mundo aqui. Uma “primeira mãe”. E viva! - falou Thonolan.

Jondalar, muito impressionado, se achava intrigado.

- Eu me sinto muito honrado em conhecer Haduma, mas não entendo certas coisas. Por que estamos presos e por que ela foi trazida para cá?

O velho apontou, primeiro, para as carnes secando nas cordas e depois para o homem que os havia detido.

- Jeren... caçar. Jeren fazer... - Tamen desenhou na terra um círculo com uma abertura de onde partiam duas linhas divergentes na forma de um grande V.

- Homem dos Zelandonii fazer... fazer correr. . - ele parou e ficou pensando por muito tempo, depois sorriu e disse: - Fazer correr cavalos.

- Ah, então é isso! - falou Thonolan. - Eles devem ter construído uma barreira e estavam esperando que a manada se aproximasse e nós espantamos os animais.

- Posso entender por que ele esteja zangado - falou Jondalar para Tamen - mas nós não sabíamos que estávamos caçando nas suas terras. Bom, se vocês quiserem, podemos ficar aqui e caçar para pagar essa perda. Mas, mesmo assim, não acho que isso seja modo de tratar visitantes. Será que ele não conhece os direitos de trâmite daqueles que estão em viagem? -falou Jondalar, desabafando a sua raiva.

O velho não entendeu todas as palavras, mas conseguiu apanhar o senti do geral.

- Aqui, não muitos visitantes. Muito tempo não ir oeste. Direitos esquecidos.

- Pois bem, então faça com que ele trate de lembrar. Você já fez uma viagem em sua vida e ele também talvez algum dia queira fazer uma -Jondalar ainda se achava irritado com o tratamento recebido, mas não queria fazer uma questão maior do incidente. Além disso, não sabia o que tinha ainda de enfrentar pela frente e era melhor não arrumar muitos problemas.

- Mas por que Haduma foi trazida? Como você foi permitir que ela, na sua idade, fizesse uma longa viagem?

Tamen sorriu.

- Não... não permitir Haduma. Haduma ordenar. Jeren encontrar dumai. Isso, como falar?... Trazer desgraça?

Jondalar fez sim com a cabeça, dando a entender que a palavra estava correta, mas continuava ainda sem compreender o que Tamen pretendia dizer.

- Jeren... mandar mensageiro para Haduma vir espantar desgraça. Haduma vir.

- Dumai? O que é dumai? Está falando da minha donii? - indagou Jondalar, retirando a estatueta de pedra da sua sacola.

As pessoas em volta soltaram exclamações horrorizadas e deram um passo atrás. Ouviu-se, então, um murmúrio carregado de hostilidade, mas silenciaram após Haduma haver feito uma arenga na direção delas.

- Mas essa donii significa sorte - protestou Jondalar.

- Sim, sorte... para mulher, sorte... - Tamen procurava pela palavra -, para homem, sacrilégio.

Jondalar se via atônito.

- Mas se é sorte para a mulher, por que ela quis quebrá-la? - ele fez um gesto brusco como se fosse jogar no chão a donii, provocando exclamações de ansiedade.

Haduma dirigiu algumas palavras ao velho.

- Haduma já muito tempo viva... - muita sorte. Muita mágica. Haduma dizer... costumes de Zelandonii. Dizer que homem zelandonii não Hadumai... Haduma dizer que homem zelandonii mau?

Jondalar abanava a cabeça sem entender.

Thonolan se meteu na conversa.

- Acho que ele está dizendo que Haduma queda colocá-lo à prova, Jondalar. Ela sabia que os costumes não eram os mesmos e, por isso, queda ver como você reagiria diante de um ato de desrespeito.

- Desrespeito sim - interrompeu Tamen, ao ouvir a palavra. - Haduma saber. - - não todos os homens ser bons. Querer saber se homens zelandonii respeitar a Mãe.

- Ouça aqui. Essa é uma donii muito especial - disse Jondalar, um tanto indignado. - É uma imagem muito antiga. Foi a minha mãe quem me deu e ela vem passando por diversas gerações.

- Sim, sim - dizia Tamen, balançando a cabeça energicamente. - Ha duma ser muito sábia. Viver há muito tempo. Saber muita mágica. Ela afastar desgraça. Haduma saber Homem zelandonii ser bom. Haduma querer Homem para... honrar a Mãe.

Jondalar viu a cara de Thonolan se iluminando com um sorriso e estremeceu.

- Haduma querer - Tamen apontava para os olhos de Jondalar - querer olhos azuis. Honrar a Mãe. Querer espírito de zelandonii fazer filho. Filho de olhos azuis.

- Você conseguiu outra vez, meu irmão - falou Thonolan, deliciado, deixando escapar um riso cheio de malícia. - Claro, com esses seus enormes olhos azuis, ela ficou apaixonada - ele se sacudia, tentando conter o riso, com medo de ofender, mas estava acima de suas forças. - Oh, Mãe! Estou doido para chegar em casa e contar essa para todo mundo. Jondalar, o querido de todas as mulheres! Você ainda quer voltar? Só para ver essa cena, eu desisto de chegar ao fim do rio - Thonolan não agüentou continuar. Dobrava-se em gargalhadas, batendo com os pés no chão, fazendo força para que as risadas não fossem ouvidas.

Jondalar não parava de engolir em seco.

- Ah... eu... bom... Haduma acha que a Grande Mãe... bem, pode ria ainda abençoá-la com um filho?

Tamen, perplexo, olhou para Jondalar e depois para Thonolan contorcendo-se em risadas. De repente, a cara do homem enrugou-se com um imenso sorriso. Ele falou qualquer coisa com Haduma e o acampamento inteiro se pôs também a rir estrondosamente, com as risadas cacarejadas da velha sobrepondo-se a todas as outras. Thonolan, aliviado, pôde por fim rir livremente, com as lágrimas invadindo-lhe os olhos.

Jondalar nada via de engraçado.

O velho sacudia a cabeça negando, querendo falar.

- Não, não. Homem dos Zelandonii - ele acenava a alguém - para Noria. Noria...

Uma mocinha deu um passo à frente, sorrindo timidamente para Jondalar. Era quase ainda uma menina, mas já mostrando o frescor luminoso de sua recente maturidade. As risadas, finalmente, foram dominadas.

- Haduma saber de grandes mágicas - falou Tamen. - Haduma abençoar. Noria fazer cinco gerações - ele estendeu cinco dedos. - Filho de Noria fazer seis gerações - acrescentou mais um dedo. - Haduma querer homem Zelandonii... honrar a Mãe - Tamen deu um sorriso, lembrando-se da expressão correta. - Querer zelandonii para ritos de passagem de Noria.

As rugas de preocupação na testa de Jondalar apagaram-se e um sorriso se esboçou nos cantos de seus lábios.

- Haduma abençoar. Fazer espírito do homem entrar em Noria. Noria fazer... bebê com olhos de zelandonii.

Foi a vez de Jondalar explodir em risos, tanto de alívio, como de prazer. Ele olhou para o irmão. Thonolan já não ria mais.

- Ainda quer contar a todos que eu dormi com uma velha? -perguntou. Depois, voltou-se para Tamen e disse: - Diga a Haduma que terei grande prazer em honrar a Mãe e compartilhar dos ritos de passagem de Noria.

Ele deu um caloroso sorriso para a moça que, timidamente, lhe sorriu de volta, mas, depois, rendida ao carisma dos grandes olhos azuis de Jondalar, abriu-se num belo e amplo sorriso.

Tamen falou algumas palavras para Haduma. Ela fez sim com a cabeça e acenou para que Thonolan e Jondalar se pusessem de pé. Em seguida, fez um novo e minucioso exame da figura alta e loura de Jondalar. Ele ainda conservava nos lábios o seu caloroso sorriso. Haduma olhou-lhe dentro dos olhos, deu uma risadinha e entrou na grande tenda circular. Enquanto se dispersavam, as pessoas ainda riam e comentavam sobre o mal-entendido.

Os irmãos permaneceram lá para conversar com Tamen. Ainda que a conversa se fizesse com dificuldade, isso era melhor do que nada.

- Quando foi que você visitou os Zelandonii? - perguntou Thonolan.-Você se lembra de qual a Caverna em que ficou?

- Fazer muito tempo. Tamen... rapaz. Igual vocês.

- Tamen, este é o meu irmão Thonolan e o meu nome é Jondalar. Jondalar dos Zelandonii.

- Vocês bem-vindos Thonolan e Jondalar - o velho deu um sorriso. -Eu, Tamen, geração três de Haduma. Fazer muito tempo não falar zelandonii. Esquecido. Falar mal. Se você falar, Tamen...

- Se lembra da língua? - sugeriu Jondalar.

O homem sacudiu a cabeça afirmativamente.

- Mas você é a terceira geração? Eu pensei que fosse filho de Haduma- prosseguiu Jondalar.

- Não. Para homem zelandonii saber Haduma ser a mãe.

- O meu nome é Jondalar, Tamen.

- Jondalar - corrigiu-se ele. - Tamen não ser filho de Haduma. Haduma fazer filha - falou, levantando um dedo e olhando interrogativamente.

- Só uma filha? - perguntou Jondalar.

Tamen negou com a cabeça.

- A primeira filha?

- Sim. Haduma fazer primeiro uma filha. A filha fazer o primeiro filho - disse, batendo no seu peito. – Tamen... companheira?

Jondalar confirmou com a cabeça.

- Companheira de Tamen mãe de mãe de Noria.

- Acho que entendo. Você é o primeiro filho da primeira filha de Haduma e a sua companheira é a avó de Noria.

- Isso, avó. Noria significar grande honra pan Tamen. Noria... geração seis de Haduma.

- Eu também me sinto honrado por ter sido escolhido para os ritos de passagem de Noria.

- Noria... fazer filho com olhos de zelandonii. Isso deixar Haduma... feliz - disse sorrindo, por se lembrar da palavra. - Haduma dizer que homens grandes zelandonii ter espíritos... fortes, por isso eles fazer um hadumai forte.

- Tamen, veja bem - falou Jondalar, franzindo a testa. - Talvez Noria não faça um bebê de meu espírito.

Tamen sorriu.

- Mágica de Haduma muito forte. Haduma abençoar e Noria fazer bebê. Mágica muito forte. Mulher não filho - ele apontou pan a virilha de Jondalar.

- Tocar? - perguntou Jondalar, sugerindo a palavra e sentindo as suas orelhas arderem.

- Sim, Haduma tocar e mulher fazer filho. Mulher não ter leite, Haduma tocar e mulher fazer leite. Haduma fazer uma grande honra para Jondalar. Muitos homens querer toque de Haduma. Fazer ficar homem muito tempo. Fazer homem ter... prazer? - nesse ponto, todos os três riram. -Dar prazer para mulher muito tempo, muitas vezes. Haduma ter mágica forte - ele fez uma pausa e o sorriso desapareceu de seu rosto. - Não fazer raiva em Haduma. Haduma com raiva... mágica ruim.

- E eu fui rir - falou Thonolan. - Você acha que eu poderia conseguir um toque dela? Ora, também você com esses seus olhos azuis, Jondalar...

- Deixa disso, Thonolan. A única mágica de que você precisa é a do olhar convidativo de uma moça bonita.

- Bom, e daí? Você também nunca precisou de ajuda. Mas veja quem foi convidado para os primeiros ritos de Noria, não é esse seu irmãozinho de olhos cinzas e tristes.

- Pobrezinho. Um acampamento cheio de mulheres e o meu querido irmão vai passar uma noite solitária. Pois sim, jamais na vida.

A risada dos dois foi seguida pela de Tamen, que conseguira pegar o sentido da piada.

- Tamen, talvez seja bom que você me fale um pouco sobre os costumes dos ritos de passagem das moças aqui - disse Jondalar, já com ar mais sério.

- Antes que vocês entrem nesse assunto – disse Thonolan -, será, Tamen, que você poderia pedir para nos devolver nossas facas e lanças? Eu tive uma idéia. Enquanto o meu irmão estiver encantando essa bela moça com os seus grandes olhos azuis, acho que arranjei um modo de deixar o seu caçador um pouco menos furioso.

- Como? - perguntou Jondalar.

- Com uma velha bruxa, naturalmente.

Tamen mostrava-se confuso, mas não deu importância. Deviam ser as suas dificuldades com a língua.

Jondalar, naquela noite e no dia seguinte, pouco viu Thonolan. Estava ocupado demais com os rituais de purificação. A língua era uma barreira, mesmo contando com a ajuda de Tamen, e, quando ele se encontrava sozinho no meio das velhas curandeiras, era ainda pior. Só com Haduma presente ele se sentia um pouco mais tranqüilo. Estava certo de que ela passava por cima de muitos erros seus indesculpáveis.

Haduma não governava o seu povo, mas ninguém lhe recusava o que quer que fosse. Era tratada com respeito e benevolência. E também com um pouco de medo. O fato de permanecer viva há tanto tempo e de estar em seu perfeito juízo só podia ser por artes de feitiçaria. Ela tinha o dom de sentir quando Jondalar se achava em dificuldade. Certa vez em que ele não tinha dúvidas de haver violado um dos tabus, ela irrompeu pelo recinto, com os olhos chispando de raiva e dando cajadadas nas mulheres que se puseram em debandada. Não admitia que o contrariassem. A sua sexta geração tinha de nascer, a qualquer custo, com os olhos azuis de Jondalar.

À noite, ao ser por fim conduzido à grande tenda redonda, Jondalar só teve certeza de que chegara o momento depois de estar lá dentro. Ao cruzar a entrada, ele parou um instante para olhar ao seu redor. Duas lamparinas de pedra iluminavam um canto, queimando os seus pavios de musgo mergulha dos em óleo, O chão achava-se forrado com peles, e das paredes penduravam-se cortinados feitos de fibras de cortiça e tecidas de modo a formar elabora dos desenhos. Por trás de um tablado coberto de peles, se encontrava pendurado um couro de cavalo, grosso e branco, decorado com cabeças vermelhas de filhotes de pica-paus e, sentada na borda do tablado, estava Noria, nervosa, olhando fixamente para as mãos apoiadas no colo.

Num outro canto, construíra-se um ambiente por meio de panos de couro, desenhados com símbolos esotéricos e uma cortina feita de várias correias penduradas. Alguém se achava atrás. Ele viu a mão de uma pessoa afastar algumas das tiras de couro. Por instante, apareceu o rosto enrugado de Haduma. Jondalar suspirou aliviado. Sempre havia pelo menos uma pessoa presente nessas ocasiões para dar o seu testemunho de que a transformação da moça em mulher fora integral e também para cuidar de que o homem não fosse desnecessariamente bruto. Por ser estrangeiro, ele estava preocupado de que pudesse haver um bando de guardiões prontos para censurar-lhe o comportamento. Com Haduma não havia motivos para apreensões. Ele não sabia se devia cumprimentá-la ou simplesmente ignorar a sua presença lá. Preferiu tomar o segundo partido ao ver a cortina fechar-se. Quando Noria o viu, se levantou. Ele, sorrindo, se encaminhou na sua direção. Ela era uma moça um tanto miúda, com sedosos cabelos castanhos-claros que caíam soltos ao redor do rosto. Estava descalça. Usava uma saia de tecido de fibras que amarrava na cintura e depois caía na forma de tiras coloridas até pouco abaixo dos joelhos. A blusa era feita de uma suave pele de veado, bordada com penas tingidas e se amarrava apertada na frente. Moldava suficientemente o corpo para deixar entrever uma forma de mulher feita, embora Noria ainda não tivesse perdido de todo alguns de seus contornos infantis.

Ao vê-lo aproximar-se, os seus olhos ganharam uma expressão assustada, apesar de tentar sorrir. Como ele não fez qualquer movimento brusco e se contentou simplesmente em se sentar, sorrindo, na beirada do estrado, ela pareceu relaxar um pouco e veio, por sua vez, se sentar ao seu lado, mas a uma distância em que os joelhos dos dois não se tocassem.

“Ajudaria muito se eu pudesse falar a língua dela”, pensou Jondalar. “Está tão amedrontada. Não é para menos. Afinal, sou uma pessoa inteira mente estranha para ela. Mas, assim tão assustada, chega a ser comovente.” Ele sentia-se protetor e também já um pouco excitado. Percebendo uma jarra com algumas cuias sobre uma bancada perto, fez menção de ir pegar, mas Noria percebeu e se precipitou, passando-lhe à frente para encher as cuias.

- Obrigado Noria - falou Jondalar, botando as cuias no chão.

- Jondalar? - perguntou ela, levantando os olhos.

À luz das lamparinas, ele percebeu-lhe os olhos de uma tonalidade clara, mas não saberia dizer se eram cinzas ou azuis.

- Sim. Jondalar dos Zelandonii.

- Jondalar... - homem zelandonii.

- Noria, mulher hadumai.

- Mulher?

- Mulher - repetiu ele, tocando num dos seios, jovem e firme.

Ela jogou o corpo para trás.

Jondalar desamarrou o laço que fechava a sua túnica no pescoço e a deixou escorregar para trás, pondo à mostra os cabelos alourados do peito. Com um sorriso nos cantos dos lábios, ele bateu no próprio peito.

- Não mulher - disse abanando a cabeça. - Homem.

Ela deu um riso abafado.

- Noria mulher falou, novamente tocando-lhe o seio com suavidade.

Desta vez ela deixou-se tocar e sorriu mais à vontade.

- Noria, mulher - disse ela. Em seguida, apareceu-lhe um brilho malicioso nos olhos e ela apontou para a virilha dele, mas sem tocá-lo. -Jondalar, homem - subitamente, pareceu de novo amedrontada, talvez por pensar que tivesse ido longe demais. Então se levantou para encher outra vez as cuias. Nervosa, embaraçada, despejou o liquido, deixando-o respingar. A mão lhe tremia quando estendeu a cuia para ele.

Jondalar segurou a mão dela para pegar a bebida. Tomou um pouco e lhe ofereceu um gole. Ela aceitou, mas ele levou o recipiente aos seus lábios, de modo que ela tivesse de segurar nas mãos dele para conduzir a bebida na direção da boca. Depois que tomou a botar a cuia no chão, ele lhe tomou as mãos de novo, abrindo as palmas e beijando levemente cada uma. Os olhos arregalaram-se surpresos, mas ela não fez menção de retirá-las. Ele foi subindo com as mãos pelos braços dela quando, então, se curvou para lhe beijar o pescoço. Noria estava tensa. Era o medo e a expectativa. O que iria ele fazer em seguida?

Jondalar chegou para mais perto, beijou-a novamente no pescoço e a sua mão foi escorregando até empalmar um dos seios. Embora continuasse assustada, ela começava a sentir o corpo correspondendo às carícias. Ele inclinou-lhe a cabeça para trás e, enquanto beijava o pescoço e roçava a língua pela garganta, desatava o laço da blusa. Em seguida, levou os lábios à orelha e veio beijando-lhe o rosto até encontrar a boca. Pôs a língua entre os lábios dela e, quando estes se entreabriram, com brandura pressionou de modo a fazê-la abrir a boca um pouco mais.

Com um sorriso nos lábios, ele se afastou, mas mantendo-a abraçada pelos ombros. Noria tinha os olhos fechados e respirava apressada. Jondalar tornou a beijá-la e ao mesmo tempo que acariciava-lhe o seio puxou o laço da blusa, desenfiando o cordão de um dos buracos. Ela retesou ligeiramente o corpo. Ele parou e a olhou, depois sorriu e desenfiou intencionalmente a tira de outro buraco. Ela mantinha-se imóvel, tensa, olhando-o no rosto, enquanto ele ia retirando o cordão de outro buraco, e depois de mais outro e outro, até que a blusa pendurou-se solta, totalmente aberta na parte da frente.

Curvado sobre o pescoço dela, ele puxou a blusa para trás, desnudando-lhe os ombros e pondo à mostra os seios jovens, empinados com as aréolas intumescidas. Sentia a sua virilidade latejando cheia de vida. Beijou-lhe os ombros. Noria tremia enquanto ele corria com a língua sobre a sua pele. Ao mesmo tempo que acariciava os braços, terminava de retirar a blusa. Às suas mãos corriam-lhe pela espinha e a língua pelo pescoço e seio, rodeando a aréola e sentindo o mamilo contrair-se. Ternamente, o chupou. Ela ofegava, mas sem retrair o corpo. Ele chupou o outro seio e correu com a língua de volta para a boca, beijando-a, enquanto a fazia deitar-se.

Noria abriu as pálpebras e o olhava em meio às peles. Os olhos estavam dilatados e luminosos. Os de Jondalar tão azuis e irresistíveis que ela não conseguia desviar os dela.- Jondalar, homem. Noria, mulher - falou ela.

- Jondalar, homem. Noria, mulher - repetiu ele com voz velada.

Jondalar se sentou e tirou a túnica pela cabeça, sentindo-se avolumar-se, com a virilidade lutando para se libertar. Curvou-se sobre ela, tornando a beijá-la e percebendo-lhe a boca aberta, querendo sentir o gosto de sua língua na dela. Acariciando-lhe os selos, ele ia com a língua do pescoço ao ombro. Novamente encontrou o mamilo, chupando-o agora com mais força, enquanto lhe ouvia os gemidos e sentia a própria respiração cada vez mais pesada.

“Há tanto tempo que não estou com uma mulher que minha vontade era possuí-la nesse instante mesmo”, pensou. “Vá com calma, nada de assustá-la. É a primeira vez da moça, lembre-se. Você tem toda a noite pela frente, Jondalar. Espere até ter certeza de que ela está pronta.

“Ele se pôs a acariciar-lhe o torso nu, buscando a correia na cintura que mantinha a saia presa. Puxou o laço e enfiou a mão por dentro, pousando-a sobre a barriga. Ela ficou tensa, depois relaxou. Ele desceu com a mão até a parte interna da coxa, roçando, antes, os pêlos macios sobre o púbis. Ela abriu as pernas quando ele começou a explorar-lhe o lado de dentro da coxa.

Retirou, então, a mão e se sentou. Aos poucos, foi puxando a saia para baixo dos quadris. A saia caiu no chão. Ele se levantou e olhou para a figura de linhas suaves e arredondadas, com as curvas ainda não perfeitamente formadas. Noria sorria-lhe, confiante e desejosa. Ele desatou a correia de sua cintura e desceu as calças. Ao ver o membro ereto de Jondalar, ela prendeu a respiração, voltando a ter nos olhos uma leve sombra de medo.

Noria já tinha ouvido de outras mulheres histórias sobre os ritos dos primeiros prazeres. Para algumas, estes não eram tão prazerosos assim. Diziam que a dádiva era concedida apenas aos homens e que às mulheres nada mais era dado senão o papel de proporcionar prazer a eles. Mas com isso os homens se afeiçoavam a elas e lhes abasteciam quando se achavam com filhos na barriga ou ocupadas com a casa. Noria estava avisada de que os seus primeiros ritos seriam dolorosos. Jondalar estava tão grosso e grande, como poderia ele caber dentro dela?

A expressão de medo não era estranha a Jondalar. Ele estava num mo mento crítico - Ela teria de voltar a acostumar-se com ele - Jondalar gostava de despertar a mulher para os prazeres, uma dádiva que a Mãe concedia aos seus filhos, mas para isso era necessário delicadeza e sensibilidade. “Algum dia”, pensou, “gostaria de fazer uma mulher sentir prazer pela primeira vez sem ter que me preocupar com o fato de estar machucando-a.”

Sabia, entretanto, que isto era impossível. Os ritos de passagem para a mulher sempre foram um tanto dolorosos.

Ele sentou-se ao seu lado e esperou, dando-lhe tempo. Os olhos de Noria estavam sempre voltando para o seu membro, vibrando e palpitante. Ele pegou-lhe a mão e fez com que ela o tocasse, sentindo um estremecimento. Naquele momento era como se o sexo tivesse vida própria. Enquanto o seu membro se remexia ansioso na mão dela, Noria lhe sentia a maciez da pele, a calor e o vigor de sua opulência, ao mesmo tempo que era invadida por uma sensação deliciosa e penetrante que lhe umedecia as coxas. Ela tentava sorrir, mas o medo ainda rondava os seus olhos.

Ele se espichou ao seu lado e se pôs a beijá-la delicadamente. Ela abriu os olhos e, olhando dentro dos dele, lhe viu a ansiedade, o desejo e qualquer coisa como uma força impossível de descrever, mas irresistível. Sentia-se atraída, subjugada, perdida naquelas profundezas intensamente azuis e, nova mente, se viu invadida pela mesma sensação deliciosa e penetrante. Ela o desejava. Tinha medo da dor, mas o desejava. Estendeu os braços na sua direção, fechou os olhos, abriu a boca e apertou o seu corpo contra o dele.

Jondalar a beijava, deixando que ela lhe explorasse a boca. Depois, devagar, sempre beijando, movendo a língua e acariciando o ventre e as coxas, ele foi descendo para o pescoço e a garganta. Beijando os seios, por um instante se pós a provocá-la, levando os lábios até perto dos mamilos para depois retroceder sem tocá-los. Ela não agüentou e conduziu a sua boca na direção desejada. Nesse momento, ele levou a mão para a fenda, quente e úmida, entre as coxas, encontrando o pequenino nódulo latejante. Dos lábios dela escapou um grito.

Ele prosseguia, chupando e mordiscando delicadamente o mamilo, enquanto procurava excitá-la com o dedo. Noria gania, remexendo os quadris. Ele foi descendo, sentia-lhe a respiração curta. A sua língua tocou no umbigo. A tensão muscular dela aumentava à medida que ele se abaixava, já saindo com o corpo para fora do estrado. Os joelhos bateram no chão. Abriu-lhe, então, as pernas, provando pela primeira vez o sabor picante de seu sal feminino. Noria explodiu num grito fremente. Atirando a cabeça de um lado para outro e levantando os quadris para ir ao encontro dele, ela soltava um gemido a cada respiração.

Ele abriu-lhe mais as pernas e se pós a lamber as dobras, ardendo de desejo, até que a língua encontrou o nódulo e passou a explorá-lo. Os gritos e o movimento de quadris iam deixando-o cada vez mais excitado. Ele fazia força para conter-se. Ao ouvir-lhe a respiração arfante e acelerada, levantou-se e procurou uma posição de joelhos, de modo a guiar a cabeça de seu sequioso órgão através da abertura virginal. Apertando os dentes e dominando-se a custo, ele pressionava, fazendo força para passar pela passagem cerrada e úmida. Quando ela enrolou as pernas ao redor da cintura, ele sentiu a barreira. Com o dedo encontrou novamente o nódulo e se pôs a fazer movimentos para frente e para trás com o corpo, ouvindo-lhe, a respiração arfante e lhe sentindo os quadris levantados para recebê-lo. Trouxe, então, o corpo para trás e empurrou com força, sentindo ter rompido o obstáculo, ao mesmo tempo que lhe escutava os berros de dor e prazer e os seus próprios urros ansiosos, quando atingiu o clímax em meio a estremecimentos espasmódicos.

Ele ainda fez alguns movimentos para dentro e para fora, penetrando tanto quanto lhe permitia a ousadia e esvaindo até a última gota de sua essência. Estava terminado. Por um momento, ficou com a cabeça apoiada sobre os seios dela, respirando pesadamente, depois levantou-se. Noria, sentindo-se fatigada, tinha a cabeça virada para o lado e os olhos fechados. Ele se afastou e viu a coberta de pele branca manchada de sangue sob o corpo dela. Suspendeu-lhe as pernas para cima do estrado e veio postar-se ao seu lado, afundando-se nas peles.

Quando a sua respiração serenou um pouco, Jondalar sentiu que algo tocava em sua cabeça. Abrindo os olhos, deu com o rosto enrugado e os olhos brilhantes de Haduma. Noria remexeu-se ao seu lado. Haduma sorriu, balançou a cabeça aprovando e se pôs a entoar monotonamente uma cantilena. Noria descerrou os olhos, sentindo-se contente de ver a velha lá e mais feliz ainda ficou quando Haduma retirou as mãos da cabeça de Jondalar e botou-as sobre a sua barriga. Haduma, sempre cantando, fez mais alguns gestos sobre os dois, depois recolheu a pele manchada de sangue. O sangue que a mulher perdia durante os seus ritos de passagem continha especiais poderes mágicos.

A velha tornou a olhar para Jondalar, sorriu e encostou o dedo no seu membro flácido. Por instantes, ele sentiu o seu sexo querendo despontar outra vez para a vida, mas logo aquietou-se. Haduma deu uma risadinha e saiu da tenda, deixando-os sozinhos.

Jondalar deitou-se ao lado de Noria e se deixou ficar descansando. Passado algum tempo, ela sentou-se e olhou para ele. Os seus olhos brilhavam langorosamente.

- Jondalar, homem. Noria, mulher - falou como se realmente se sentis se mulher naquele instante. Então, se inclinou e o beijou. Ele, surpreso, percebeu-se excitado. Ainda estava cedo para isso e imaginou se não teria qual quer coisa a ver com o toque mágico de Haduma. O pensamento, no entanto, foi esquecido tão logo se pôs a mostrar à sua ardorosa parceira novos prazeres e outros que ela poderia oferecer-lhe.

O gigantesco esturjão já se achava na praia, quando Jondalar se levantou. Thonolan antes já havia enfiado a cabeça na tenda, pretendendo mostrar-lhe o par de arpões, mas Jondalar acenou para ele despedindo-o e voltando a dormir com Noria enlaçada em seus braços. Mais tarde, quando acordou, Noria já havia partido. Ele enfiou as calças e se dirigiu ao rio, encontrando Thonolan, Jeren e alguns outros rindo como bons camaradas. Ficou a observá-los meio invejoso da pescaria.

- Olhe quem está chegando - falou Thonolan quando o viu. - Estamos aqui lutando para pescar a velha Haduma, enquanto os olhos azuis só quer saber de deitar e rolar.

Jeren conseguiu pegar um pouco do sentido da frase.

- Haduma! Haduma! - gritava, às gargalhadas, enquanto apontava para o peixe e saracoteava ao redor. Depois parou na frente do bicho, que tinha uma cabeça lembrando a de um tubarão. Os palpos, surgindo sob as mandíbulas, revelavam-lhe os hábitos: um peixe inofensivo e de águas profundas, cujo tamanho, no entanto, o tomava um desafio. Media mais de quatro metros de comprimento.

Jeren, gritando “Haduma! Haduma!”, sorria marotamente enquanto fazia uma mímica erótica na direção da carranca do peixe, jogando a pelve para a frente e para trás, como se lhe pedisse para ser tocado. Os outros, por sua vez, também começaram a gritar Haduma e a dançar ao redor do peixe, balançando os quadris e empurrando-se uns aos outros, num clima de algazarra, para pegar o lugar junto à cabeça do peixe. Um homem foi jogado dentro do rio e ao sair agarrou o que se achava mais próximo, puxando-o para dentro da água. Em instantes, todo mundo começou a empurrar-se, com Thonolan no bolo da brincadeira.

Quando estava subindo, empapado, pela margem, ele deu com os olhos no irmão.

- Não pense que você vai escapar dessa seco! - gritava, tentando dobrar a resistência de Jondalar. - Ajude aqui, Jeren. Vamos dar um banho nos olhos azuis!

Jeren, ouvindo o seu nome, viu a luta e saiu correndo. Os outros o seguiram. Puxando daqui e empurrando dali, arrastaram Jondalar para a margem e todo mundo, em meio a risadas, acabou caindo no rio. Pingando água e ainda com caras de riso, vinham retomando quando um deles deu com a velha de pé, junto do peixe.

- Haduma, hein? - falou ela, encarando-os com olhar duro.

Eles se entreolharam, encabulados. De repente, ela soltou uma gargalha da divertida, pondo-se na frente do peixe, remexendo com as suas velhas cadeiras para frente e para trás. A risada foi geral. Todos correram na sua direção, ficando de quatro, oferecendo as suas garupas.

Jondalar ria divertido. Sem dúvida, era uma brincadeira que já haviam feito antes com ela. A tribo não só tinha grande respeito pela veneranda matriarca, como também a amava e ela parecia achar graça na troça deles. Haduma olhou à sua volta e, reparando em Jondalar, apontou na sua direção. Os homens lhe fizeram sinal para que se aproximasse e, cheios de atenção e carinho, ajudaram a velha a subir em suas costas. O peso dela era quase nenhum, mas, surpreendentemente, as suas mãos agarravam com força. A frágil velhinha conservava ainda um certo vigor físico.

Ele começou a andar cauteloso, mas quando os outros lhe passaram a frente, ela começou a bater em seus ombros, instigando-o. Puseram-se, então, a correr pela praia, parando só quando já estavam todos sem fôlego. Jondalar agachou-se para que a velha apeasse. Ela se empertigou, apanhou o cajado e, muito digna, se dirigiu para onde estavam as tendas.

- Você podia imaginar uma velhinha dessas? - disse Jondalar, cheio de admiração, para Thonolan. - Dezesseis filhos, cinco gerações e forte desse jeito. Não tenho dúvidas de que ainda verá a sexta.

- Depois de ver a sexta, ela morrer.

Jondalar voltou-se na direção da voz. Ele não havia visto Tamen aproximar-se.

- Por que diz isso?

- Haduma dizer: Noria fazer filho de olhos azuis com o espírito dos Zelandonii, depois Haduma morrer. Ela dizer que já está muito tempo aqui, que é tempo de ir embora. Ver bebê e depois morrer. O nome do bebê é Jondal, geração seis dos Hadumai. Haduma estar contente com homem dos Zelandonii. Dizer que ele é bom homem. Muito difícil mulher ter prazer... -ritos de passagem. Homem dos Zelandonii muito bom.

Jondalar se via assaltado por emoções variadas.

- Se for esse o seu desejo, sei que ela irá embora. Mas isso me deixa triste - falou ele.

- Sim, todos os Hadumai vão ficar tristes, muito tristes - disse Tamen.

- Será que posso ver Noria? Não conheço os seus costumes. Não sei se é possível ver a moça logo depois de seus primeiros ritos, mas seria só por alguns momentos.

- Costumes não, mas Haduma dizer sim. Homens Zelandonii já partir?

- Se Jeren achar que o esturjão paga os cavalos que espantamos, creio que estamos. Mas como você sabia disso?

- Haduma dizer.

Àquela noite, o esturjão foi o banquete do acampamento. Num abrir e fechar de olhos as tinas da carne foram cortadas e já no princípio da tarde estavam secando. Durante um momento, Jondalar teve a rápida visão de Noria passando a distância, escoltada por outras mulheres, indo para algum lugar próximo ao rio. Só depois de já estar escuro é que ela foi trazida para encontrar-se com ele - Os dois caminharam juntos na direção do rio, seguidos discretamente por duas mulheres. O fato de encontrar-se com ele, pouco tempo depois dos ritos de passagem, já significava uma quebra nos costumes bastante grande. Sozinha, então, seria impensável.

Eles pararam junto de uma árvore, sem nada se dizerem. Noria tinha a cabeça abaixada e Jondalar, afastando uma mecha de seu cabelo para o, lado, levantou-me o queixo para que ela o olhasse no rosto. Noria chorava. Jondalar passou o dedo numa gota brilhando no canto dos olhos e, em seguida, levou-a aos lábios.

- Oh... Jondalar - disse chorando, estendendo-lhe os braços.

Ele a abraçou delicadamente e depois com mais paixão.

- Noria. Noria mulher. Linda mulher.

- Jondalar fazer Noria mulher - disse ela. - Fazer Noria... fazer... - ela irrompeu em soluços, lamentando não conhecer as palavras para dizer lhe o que queria.

- Eu sei, Noria. Eu sei - falou Jondalar, abraçando-a. Ele então afastou-se e, segurando o seu ombro, sorriu para ela, acariciando-lhe a barriga.

Ela sorriu entre as lágrimas.

- Noria fazer Zelandonie - ela tocou-lhe na pálpebra. - Noria fazer Jondal... Haduma...

- Sim - disse ele com a cabeça. - Tamen me contou. Jondal, sexta geração de Hadumai. - ele pegou na sua sacola. - Eu tenho uma coisa que gostaria de dar para você, Noria - falou, retirando a donii de pedra que colocou na mão dela. Ele gostaria de dizer o quanto lhe era importante aquele objeto, que aquela era uma peça que tinha sido dada pela sua mãe, sendo uma imagem antiqüíssima, que já vinha de muitas gerações. Então deu um sorriso.

- Isso é a minha Haduma. A Haduma de Jondalar. Agora, fica sendo a Haduma de Noria.

- Haduma de Jondalar? - disse, olhando para a estatueta. - Haduma de Jondalar... Noria?

Ele concordou com a cabeça.

Ela caiu em prantos agarrando a estatueta e a levou aos lábios.

- Haduma de Jondalar - repetiu ela com os ombros tremendo pelos soluços. Subitamente, atirou os braços ao redor dele e o beijou, depois saiu correndo na direção das tendas, chorando tanto que mal podia ver o caminho.

O acampamento inteiro veio despedir-se deles. Haduma se achava ao lado de Noria e Jondalar se deteve diante das duas. Haduma sorria, balançando a cabeça em sinal de aprovação, mas as lágrimas rolavam pelas faces de Noria. Ele pôs o dedo numa e a levou à boca. Ela sorriu, apesar das lágrimas continuarem a escorrer. Jondalar se virou para ir embora, mas não antes de ver o rapazinho de cabelos anelados que serviu de mensageiro para Jeren, olhando para Noria apaixonadamente.

Ela agora era mais mulher e uma mulher abençoada por Haduma, fato que lhe garantia uma bela criança que levaria algum dia para a casa de um homem. Já era sabido de todos que Noria conhecera os prazeres em seus primeiros ritos e eram essas as mulheres que davam as melhores companheiras. Ela estava perfeitamente aberta para ter o seu companheiro, além de que era também uma mulher muito desejável.

- Você acredita realmente que Noria vai ter um filho de seu espírito? -perguntou Thonolan, depois de terem saído do acampamento.

- Isso eu nunca vou saber. Mas que Haduma é uma velha com muita sabedoria, não há como negar. Ela sabe muito mais do que se imagina. Acho que ela tem grandes poderes mágicos. Se houver alguém para fazer com que isso aconteça, esse alguém só poderá ser ela.

Por algum tempo caminharam em silêncio, seguindo a margem do rio. Depois, Thonolan disse:

- Há uma coisa, meu irmão, que eu gostaria de perguntar.

- Pois pergunte.

- Qual é a sua mágica? Quero dizer, todos os homens gostam de ser escolhidos para funcionarem nos primeiros ritos de uma moça, mas essa é uma coisa que deixa um bocado deles com medo. Conheço alguns que até já recusaram. Para ser sincero, eu mesmo sou um pouco desajeitado nessas ocasiões, se bem que nunca me recusei. Mas você, Jondalar, está sempre sendo escolhi do e eu nunca soube de um fracasso seu. Todas se apaixonam por você. Como é que consegue? Tenho observado o seu jeito de fazer amor nos festivais e não vejo nada de especial.

- Eu não sei, Thonolan - respondeu ele, um tanto encabulado - apenas tento ser cuidadoso.

- E que homem não tenta? Não, você possui alguma coisa mais do que isso. O que foi mesmo que Tamen disse? Ah! Que é muito difícil a mulher ter prazer nos seus ritos de passagem. Como, então, você consegue dar prazer a uma mulher? Eu já me dou por feliz se conseguir não machucá-la muito. E não é porque você seja menor ou que tenha algo que facilite a coisa. Vamos lá, dê alguns conselhos ao seu irmãozinho. Eu não me importo de ter um bando de beldades correndo atrás de mim.

Jondalar diminuiu o passo e olhou para Thonolan.

- Pois devia. Acho que essa é uma das razões que me fez assumir o compromisso com Marona. Simplesmente para que eu pudesse ter uma desculpa - Jondalar franziu a testa. - Os ritos de passagem são importantes para uma mulher e para mim também. Mas, de certa maneira, muitas moças não passam de crianças. Elas não aprenderam ainda a diferença que existe entre correr atrás de um menino e estimular um homem. Quando você se vê sozinho com uma mulher com quem passou uma noite especial, como poderá dizer a ela que teria preferido a companhia de uma outra mais experiente? Oh, Gran de Doni, Thonolan! Eu não quero ferir ninguém, mas não me apaixono por todas as mulheres com quem passo uma noite.

- Ora, Jondalar. Você não se apaixona por ninguém.

Jondalar apressou o passo.

- O que você quer dizer com isso? Já amei um mundo de mulheres.

- Amar pode ser. Mas isso não é o mesmo que apaixonar.

- Como pode saber? Você já esteve apaixonado?

- Algumas vezes. Talvez não tenha durado muito, mas eu conheço a diferença. Olhe aqui, meu irmão, eu não quero me meter na sua vida, mas você me preocupa, principalmente quando entra numa de suas fases de mau humor. E também não precisa correr. Se quiser eu calo a boca.

Jondalar se pôs a caminhar mais devagar.

- Bem, talvez você tenha razão. E possível que eu nunca me tenha apaixonado. Pode ser que não esteja em mim apaixonar.

- Mas o que é que está faltando? Que coisa é essa que você está procurando e que as mulheres não têm.

- Se eu soubesse, você não acha... - começava ele a dizer, irritado. De repente se interrompeu, fazendo uma pequena pausa. - Eu não sei, Thonolan. Imagino que queira tudo ao mesmo tempo. Uma mulher tal como ela se encontra nos seus primeiros ritos. . - acho que me apaixonei por todas elas, pelo menos nessa noite. Só que eu quero uma mulher e não uma menina. Quero vê-la sinceramente ansiosa, cheia de desejos, sem fingimentos e não quero ter de preocupar-me em ser cuidadoso. Desejo que ela tenha firmeza de espírito, que saiba o que quer. Também desejo que ela seja moça e madura, ingênua e esperta... enfim, tudo ao mesmo tempo.

- Você está querendo demais, meu irmão.

- Bom, foi você quem me perguntou.

Por algum tempo, caminharam em silêncio.

- Com que idade você acha que a nossa Zelandoni está? - perguntou Thonolan. - Ela poderia ser um pouco mais moça do que a mãe?

Jondalar endireitou o corpo.

- Porquê?

- Eles dizem que ela, quando mais moça, foi muito bonita e que até há algum tempo atrás ainda era. Alguns dos homens mais velhos contam que nenhuma mulher podia comparar-se a ela, que nem de leve as outras chegavam aos seus pés. E difícil de se saber, mas falam que ela é jovem demais para ser a primeira dentre as servidoras da Mãe. Agora, me conte uma coisa, meu irmão. O que dizem de você e a Zelandoni é verdade?

Jondalar parou e, devagar, se virou para encarar o irmão.

- E o que dizem de mim e a Zelandoni? - perguntou por entre os dentes.

- Desculpe. Fui longe demais. Esqueça que perguntei.

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